Sábado, 30 de Abril de 2011

Não nos desviemos disto

Sócrates não será a causa de todos os nossos males presentes. Em boa medida a nossa desgraça tem raízes mais antigas. Mas enquanto vai tocando o seu samba de uma nota só em loop (PEC IV, PEC IV, PEC IV), uma das questões fundamentais que devíamos debater à exaustão é esta: sem a grande mentira com que ganhou as eleições de 2009 e com a travagem financeira a fundo a começar muito antes, não seríamos agora poupados a grande parte da privação, dor e humilhação que se abateu sobre Portugal ?

Uma voz


A voz comovida que se ouve aqui é a voz de um homem sério. Não há naquela comoção nada de encenado, não há um teleponto com a indicação "garganta apertada agora" - Sócrates poderia muito bem fazê-lo, com a qualidade a que os nossos pobres comentadores chamam "profissionalismo", mas que, na verdade, não é mais do que falta de vergonha. Esta gravação devia ser ouvida muitas vezes nas próxima semanas. Aquele homem que se comoveu tem tido acesso (ainda que incompleto, cirurgicamente incompleto, como saberemos daqui por pouco tempo) à floresta emaranhada das "contas do Estado" e ele vê e sabe muito bem a situação em que o nosso primeiro-ministro deixou o país. O homem emociona-se com isso que sabe. Esta gravação, por mostrar o choque genuíno de um homem conhecedor perante a "obra" de Sócrates, vale muitas "frases assassinas", muitos videos em família e muitos cenários portáteis. Aquela voz autêntica de Catroga é um dos melhores contributos para o conhecimento público de José Sócrates.

Totus Tuus. Sempre nosso.

(...)
Ao longo do seu pontificado, o Papa João Paulo II deu um contributo determinante para o aprofundamento dos princípios da Doutrina Social da Igreja, não hesitando em assumir uma postura igualmente crítica às práticas colectivistas do comunismo do Leste e às tendências recentes da globalização e do capitalismo desenfreado.
Segundo João Paulo II, à Igreja não compete “apresentar soluções técnicas para as graves e urgentes questões sociais”, nem a sua doutrina social se pode “apresentar como uma ‘terceira via’ entre o capitalismo liberal e o colectivismo marxista”, apesar dos seus postulados se terem assumido como um dos fundamentos éticos da corrente da Economia Personalista.
Nas suas intervenções, João Paulo II clamou “pela supressão do abismo que separa ricos cada vez mais ricos às custas de pobres cada vez mais pobres”, pela “garantia dos direitos humanos dos povos todos” e pelo “combate aos dramas da exclusão”, assumindo a sua confiança na “bondade do ser humano” e propondo a “globalização da solidariedade” como forma de consagrar o “direito ao desenvolvimento” a todas as nações.
Mais do que centrar-se na abordagem estritamente redistributiva, a leitura que o Papa fez dos fenómenos económicos levaram-no a realçar o espírito empreendedor, o virtuosismo do indivíduo, desde que em respeito pelos princípios éticos e colocando o seu labor e capacidades ao serviço do bem comum.
(...)

Contos da loucura normal

Ele é pássaros na Arábia, tubarões no Egipto, a Al Jazeera no Qatar (ver o último parágrafo da notícia) e, em geral, os motins pelo mundo árabe fora. Uma verdadeira concepção monista do universo, a genuína patafísica.

Responsabilizações


A sugestão é muito bem vinda e a sua concretização poderá ser um primeiro passo. No entanto, entendo que as responsabilizações deveriam ser alargados em relação aos temas e em relação aos responsáveis.

As contas públicas têm merecido uma atenção excessiva, que tem ofuscado outros temas, como a divergência com a UE e o desequilíbrio externo. Um governo que não reconhece a necessidade nem toma medidas para reverter a divergência com a UE, não deve também ser responsabilizado por isso?

O anterior governador do Banco de Portugal andou uma década a dizer que um desequilíbrio externo numa união monetária não tinha importância nenhuma, assim desincentivando os governos de actuarem no sentido de suster o crescimento explosivo da nossa dívida externa. Não deveria agora ser responsabilizado pelas gravíssimas dificuldades de financiamento da nossa banca e economia?

Os dirigentes do Banco de Portugal não deveriam também ser responsabilizados pela forma excepcionalmente laxista como trataram o caso do BPN, quando as primeiras denúncias datam de 2001 (artigo na Exame) e 2003 (reservas dos auditores da Deloitte)?

Expectativas

Subscrevo e repito estas palavras. Acrescento apenas o seguinte: qualquer resultado que não conduza pelo menos a uma maioria absoluta PSD+CDS será um fracasso político, sem paliativos imagináveis.

Combate de Blogs, logo à noite às 0:20, na TVI24



Estarei eu, o Filipe Caetano e o Nuno Ramos de Almeida à conversa com o Álvaro Santos Pereira.

Sexta-feira, 29 de Abril de 2011

Agora escolham

A avaliação dos juízes portugueses pelo Conselho Superior de Magistratura em 2010 (notem, dos juízes portugueses, não dos membros da Berliner Philharmoniker, nem sequer da Banda da GNR) teve os seguintes resultados:


Este gráfico obrigou-me a rever a representação que fazia da justiça portuguesa. Muda tudo descobrir que 96,9% dos juízes portugueses brilham nas suas funções, merecendo as classificações de Bom, Bom com Distinção, ou Muito Bom; que uns inexpressivos 3% cumprem os seus deveres satisfatoriamente (mas sem particular mérito) e que há apenas 0,1% de ovelhas negras (todas a pastar em Aveiro, suponho).

Então e a abundantemente comentada, noticiada e experimentada putrescência do sistema judicial ?

Ponderadas as alternativas, vejo três hipóteses:

a) Não há um problema na justiça. Há sim uma falácia criada pelo Arquitecto Saraiva com a biógrafa Cabrita e propagandeada pelo Sol. Para revestirem de maior consistência o sonho mau que nos alimentam, têm-se focado exclusivamente na acção dos 0,1% ranhosos.


b) Infelizmente é tudo verdade e a nossa justiça é uma nódoa feia e gordurenta. Simplesmente, a culpa não é dos juízes mas — como diria o Dr. Sampaio com entusiasmo e ternura — de todos nós.

c) Infelizmente é tudo verdade e a nossa justiça é uma nódoa feia e gordurenta, não somos todos culpados (nem o Dr. Sampaio, neste particular) e a avaliação dos juízes é uma anedota corporativa.

Qual escolhem ?

Boas crónicas

Duas excelentes crónicas no Público: a de Vasco Pulido Valente e a de Eduardo Cintra Torres. Quem quiser lê-las, passe no Portugal dos Pequeninos. Estão lá transcritas.

Nada de novo debaixo do Sol

Mahamud Abbas, não podendo vencê-los, correndo o risco de perder-se na luta contra eles, rendeu-se-lhes - ao Hamas, claro. Entre a paz que diz querer, o que implica a abertura de um processo negocial, que vem evitando com todas as fibras da sua alma e todas as manobras dilatórias possíveis, e os outrora seus inimigos jurados, com os quais nenhum processo negocial é possível - para estes, a erradicação de Israel é o alfa e o ómega na sua razão de ser, como afirmam e reafirmam todos os dias, agindo em consequência -, optou por estes. Optou, julga, pela sua sobrevivência. De facto, adiou apenas o seu fim político, ao preço de o tornar mais certo do que nunca. A concretizar-se a parceria, todas as áreas de cooperação entre Israel e a Autoridade Palestiniana, na economia como na segurança, serão forçosamente suspensas. As medidas de segurança que Israel aplica sobre a Faixa de Gaza acabrão por se estender à Margem Ocidental. O Irão, pelo seu entreposto Hamas, estará mais próximo, na fronteira oriental de Israel. As dificuldades relacionadas com o perigo e o decréscimo de segurança aumentarão para Israel. Mas a Fatah, em perda continuada desde há muito, não sobreviverá. Com o acordo anunciado, há apenas um ganhador possível: o Hamas e o islamismo. A comédia de muito má qualidade com que Abbas se pretendia fazer passar como possível interlocutor num processo de paz chegou ao fim. O último episódio de recuo num processo de paz foi há uma década atrás, em Camp David e Taba. Arafat sabia que se assinasse a paz com Israel perdia a «Palestina». Em 2000 e 2001, a verdade da vontade da liderança palestiniana de avançar para uma solução de dois Estados revelou-se no fim do processo. Desta vez, imediatamente antes de ser, aparentemente, inevitável começá-lo. E, uma vez mais, terão o exclusivo da palavra, do lado árabe, a propaganda e o terrorismo. Leitura vivamente recomendada.

Da série T-shirts políticas

A avaliação da suspensão da avaliação

TC considera inconstitucional a suspensão da avaliação dos professores.

Ir ao circo com o PS

Não há em Portugal profissionais da propaganda comparáveis com os que trabalham para o Partido Socialista. José Sócrates e os seus assessores podem vangloriar-se de uma fabulosa invenção. A patente é do PS: depois do info-entretenimento, chegou o tempo do político-divertimento.

Hoje no CM

O Porta-voz

Num momento em que há tanta confusão na cabeça dos portugueses em torno da política e da comunicação política, recomenda-se um momento de serenidade lendo esta entrevista de Navarro Valls, o porta-voz do Papa João Paulo II, ao jornal ABC.

Su eficacia comunicativa [a de João Paulo II] se basaba más en lo que decía, que no en como lo decía. Diría que la verdad de lo que decía se veía también en el modo expresivo como lo decía.

No Jornal de Negócios...

... «[Miguel] Relvas diz que "ainda há uma parte do eleitorado que quer ser enganada"»

Não é verdade! Uma parte do eleitorado quer ser enganado pelo PS e outra parte do eleitorado quer ser enganado pelos restantes partidos. É a falência do regime político, do sistema político e de Portugal enquanto comunidade social e moral. Mas pode ser que um dia regenere.

Publicidade Institucional


O lançamento do livro "Portugal na Hora da Verdade", do Álvaro Santos Pereira, é já no dia 3 de Maio, às 18h00 no Restaurante do piso 7 do El Corte Inglés de Lisboa.

Uma nota rosa

Aproveite o breve interregno da propaganda socialista e siga a boda em directo. Não é um Mundial de futebol mas tem o mesmo efeito, com as vantagens acrescidas de ser bastante mais breve e colorido.

Poetas da minha terra cantam logo pela manhã

(Enviado pelo Fernando Ferreira)

A culpa é do pólen dos pinheiros,
dos juízes, padres e mineiros,
dos turistas que vagueiam nas ruas,
das strippers que nunca se põem nuas,
da encefalopatia espongiforme bovina,
do Júlio de Matos, do João e da Catarina.
A culpa é dos frangos que têm H1N1
e dos pobres que já não têm nenhum.
A culpa é das putas que não pagam impostos,
que deviam ser pagos também pelos mortos.
A culpa é dos reformados e desempregados,
cambada de malandros feios, excomungados.
A culpa é dos que tem uma vida sã
e da ociosa Eva que comeu a maçã.
A culpa é do Eusébio que já não joga a bola
e daqueles que não batem bem da tola.
A culpa é dos putos da Casa Pia,
que mentem sempre de noite e de dia.
A culpa é dos traidores que emigram
e dos patriotas que ficam e mendigam.
A culpa é do Partido Social Democrata
e de todos aqueles que usam gravata.
A culpa é do BE, do CDS e do PCP
e dos que não querem o TGV.
A culpa até pode ser do urso que hiberna,
mas não será nunca do nosso PS e de quem governa!

Remover o senhor sócrates começa a tornar-se uma questão de saude mental

Quando se lê (com incredulidade) que o funesto josé-bancarrota-sócrates afirma, perante um país falido e de mão estendida ao exterior, que as obras do TGV entre o Poceirão e o Caia (que mesmo que custassem cinco tostões seriam caras, já que um TGV até ao Poceirão não serve para nada nem para ninguém) são para manter, das duas uma: ou o funesto primeiro-ministro está doentiamente alienado da realidade ou estou eu - acompanhada de 63% dos portugueses que consideram que a bancarrota é resultado dos governos socráticos.

Grande Finale (125)


Papillon, Franklin J. Schaffner, 1973

Quinta-feira, 28 de Abril de 2011

Atenção à novilíngua socrática

Rui, se bem me recordo dos bons costumes iniciados com os vários orçamentos de estado para 2009, não é rectificativo, é suplementar. E, de seguida, também não é rectificativo, é redistributivo. Só à terceira é que é rectificativo (e provavelmente apenas devido à proverbial falta de imaginação estílistica - só essa - dos financeiros). Mas todos aumentaram o défice para 2009, claro.


Nota que nada tem a ver (ou até tem): O Pedro Braz Teixeira está na TVI24 agora mesmo.

Reviver o passado em Marraqueche

O criminoso ataque bombista de hoje, ainda não reclamado mas presumivelmente de origem salafista, no café Argana na turística e muito controlada cidade de Marraqueche, com os ecos de Casablanca em 2003, deverá ser visto com redobrada atenção no intricado e nada linear processo reformista marroquino. Por agora parece que as estratégias de anti-radicalização e anti-terrorismo, apesar da propaganda, não estão a resultar. Também não podemos cair na tentação de fazer a associação fácil deste ataque com as crescentes exigências por reformas democráticas do regime, traduzidas nas sucessivas e ordeiras manifestações populares que agregando críticos do regime inclui também o muito temido Movimento Justiça e Caridade. Aos desafios da reforma política dos regimes árabes, é bom não esquecer o desafio do islão radical. Juntamente com outros parceiros do sul europeu, Portugal tem uma responsabilidade especial nesta região: fazem falta sinais de apoio à estabilidade no Magrebe. Faz falta uma política externa...

Procura-se


Desapareceu de casa de seus pares. Na altura despia mais de 600.000 desempregados e descalçava um défice superior a 9%. Nos últimos seis anos foi responsável pela duplicação da dívida pública. Não é visto desde 23 de Abril. Qualquer informação agradecemos que seja apenas dada aos serviços sociais do FMI e não ao seu encarregado educação que sofre de profundas perturbações mentais.

Boas notícias






Não houve financiamento, e portanto o polvo não se expande por aqui - logo agora que dava tanto jeito ao 'Seu' Sócrates e à sua Comunidade Evangélica Socialista. Deus não dorme - e vai andar por ali.

A Economia Portuguesa

Ler dois posts no Portuguese Economy:

- um que transcreve a carta aberta de Ricardo Reis e de Luís Garicano ao Financial Times;
- outro do Pedro Martins que o Miguel Noronha e o Jorge Costa certamente apreciarão (o Pedro Braz Teixeira também, mas deixou um comentário por lá).

A horda de militantes comentadores (2)

Nuno, eu ouvi o Fórum TSF com o Sócrates. É verdade que a maioria das pessoas que intervieram em directo eram “amigos” do Primeiro Ministro, mas não é menos verdade que a jornalista que coordenou o programa teve o cuidado de ir escolhendo perguntas via e-mail de “inimigos” do PS. Neste sentido, se “a máquina socialista está bem oleada”, a TSF até nem se portou mal ao tentar restabelecer algum equilíbrio. Por outro lado, olha que o Sócrates não esteve pior a responder às críticas do que esteve a corresponder aos elogios. Neste preciso momento, a TSF está a transmitir um programa – de duas horas – sobre a Constituição Portuguesa, com a participação, entre outros, do nosso camarada Pedro Lomba. O debate está a ser muito bom. Pelo que tenho visto ao longo das últimas semanas, o PSD só se pode queixar dele mesmo, designadamente por não saber reunir no seu seio os melhores. Se é verdade que o problema vem de fora, não é menos verdade que a solução tem de vir de dentro. Mas demora, demora, demora. Godot?

A horda de militantes comentadores

Não ouvi a emissão desta manhã da TSF. Dito isto, posso imaginar o que se passou para o director da TSF ter sentido a necessidade para emitir esta nota explicativa. A máquina socialista está bem oleada e pronta para atacar em todas as frentes. Ora são os comentários nos blogues e nas páginas de jornais, ora são os programas de rádio e de televisão. Resta aos responsáveis dos órgãos de comunicação saber controlar os danos perante estas investidas do PS. Se não conseguem actuar desse modo, e permitem que os programas em causa sejam utilizados como meros veículos de emissão de propaganda, então mais vale acabarem com eles. A menos que queiram ser confundidos com a propaganda socialista.

37 anos depois, a III República balança

Em 1989 chegámos finalmente à democracia, no sentido liberal e ocidental do termo. Veio tarde, mas veio.
Porém — democracia à parte — o consenso político em que se sustenta estava condenado ao presente fado.
No momento fundacional o socialismo foi unânime. Mesmo os que sempre o detestaram tiveram de lhe jurar lealdade para legitimar o acesso à arena. Depois foi lentamente engavetado, deixando no seu lugar uma água turva igualmente fatal. A III República assenta na promessa política de prosperidade crescente garantida e irreversível e num igualitarismo furioso gerador das mais injustas desigualdades. Inspirados pelos mais fraternos sentimentos, os fundadores da III quiseram alçar-nos, por decreto e numa penada, para a vanguarda das nações.
O resultado inevitável foi uma economia ociosa, desequilibrada e cheia de barreiras, entorses, alçapões. Um país desprovido de concorrência, dinamismo, cultura do mérito. Um país de estímulos errados. Durou enquanto foi possível. E foi possível alimentar e fazer crescer o luso Leviatã com abundante financiamento externo (a fundo perdido e a crédito) que subsidiou este roçagar doce por mais de três décadas. Contra todo este conforto, qualquer discurso alternativo seria sempre um nado morto.
Entretanto, chegaram os países de leste e o apoio da Europa voltou-se para lá; a globalização acelerou, o Oriente entrou no capitalismo selvagem e, com o Ocidente em crise, emergiu. Portugal nunca se mexeu. Como sempre, confiou na Providência. Os nossos políticos, os nossos zelosos sindicatos, os nossos partidos muito constitucionais, muito confiantes, nunca descolaram da absurda ilusão.
Mas — hélas — a maré financeira baixou e descobriram-nos, finalmente, a pelota. Surpreendente mesmo tem sido a duração da corrida.

Homens de luta?

Enquanto PSD e CDS não criticarem, em tom de guerra, a conversa míope do 'direito (positivo) ao trabalho', e a substituírem pelo 'direito (negativo) a gerar emprego', não desbloqueamos a paralisia que nos atinge desde 1975.

Temos de perder as ilusões

Estela Barbot diz que o Estado Social não vai ser posto em causa com a presença do FMI em Portugal, porque o Estado Social já foi posto em causa pelas decisões do passado.
"Quando me dizem que é com o Fundo Monetário Internacional que o Estado Social vai ser posto em causa - não. Foi agora que o Estado Social foi posto em causa, pelas pessoas que resolveram fazer estádios de futebol - dez quando chegavam oito - e tantas autoestradas", frisou Estela Barbot, durante o debate "Portugal - Que Futuro?", que decorreu no auditório da Renascença.
"Era melhor gastar esse dinheiro a fazer um hospital novo, a dar pensões dignas aos reformados", acrescentou a economista e empresária.
Estela Barbot fez duras críticas aos responsáveis políticos portugueses, sem deixar de apontar que os actuais defensores do Estado Social foram os maiores responsáveis pelos "problemas estruturais" do país. "Temos de perder as ilusões. Com certeza que os tempos que vêm aí vão ser violentos", acrescentou. (aqui)

Irracionalidades

O Miguel tem razão. "Esquecemos" amiúde a forma assimétrica como choques à nossa economia afectam o público e o privado, as gerações actuais e futuras. Neste último ponto, em adenda ao que o Miguel refere sobre os pensionistas, é impossível avaliar justamente o ónus que deve recair nos pensionistas actuais e futuros sem ter uma visão, não a 10 anos, mas a 50-100 anos. Impossível num sistema dominado pelo curto-prazismo e, mais do que isso, blindado ao longo-prazismo, em larga escala deviado ao péssimo jornalismo que temos, como se vem heroicamente documentando aqui.

A este propósito, recordo uma ideia que parece ter tido eco... na Hungria.

Uma última nota: no tal artigo, Diogo Lucena fala de repartição de custos em "igual medida", mas isto não diz nada. É o mesmo eu euros absolutos? Ou proporcionalmente? Ou "progressivamente"? A expressão correcta - e necessariamente vaga, apesar de absolutamente precisa -, seria "justa medida". Infelizmente, a única pessoa na praça pública que a usa com propriedade e autoridade dá pelo nome de Estela Barbot.

O Funcionário Público Português

Cansaço

Só consegui ler as gordas. A entrevista propriamente dita não está disponível no online. Mas o Jornal de Negócios online de ontem punha à cabeça a seguinte opinião de Diogo Lucena:

«"Isto não é um problema dos funcionários públicos, é um problema do País todo". Pensionistas e trabalhadores do privado devem contribuir na mesma medida, defende Diogo Lucena, coordenador das propostas na área social do "Mais Sociedade", o movimento de reflexão do PSD»

Aproveito para comentar rapidamente a tirada, até porque é ideia que se foi espalhando por aí. Sugere que, como houve cortes salariais no funcionalismo público este ano, então só os funcionários públicos estão a pagar a crise. Palavra de honra que não consigo compreender como se alimenta esta opinião. Não consigo. Muito menos quando vem de pessoas inteligentes e bem-intencionadas como indubitavelmente é Diogo Lucena. Faço duas observações que deveriam ser suficientes para mostrar o absurdo da opinião.

1º O desemprego que cresceu como nunca nos últimos 3 anos afectou que tipo de trabalhadores? Na inexistência de despedimentos na função pública, deduzo que quem tenha pago a crise, não com reduções salariais de 5%, mas com o posto de trabalho tenham sido as gentes do sector privado. O mesmo se pode dizer acerca das falências. Como a função pública não faliu, deduzo que as milhares de falências que dispararam nos últimos 3 anos tenham sido exclusivas do sector privado. Não se esqueçam que muitas das empresas que faliram, por vezes, eram o ganha-pão de uma família inteira. Nos tempos que correm ainda é preciso fazer notar que possuir uma empresa não significa ser magnata.

2º Quanto às remunerações salariais. Há muita gente no sector privado que tem as suas congeladas há muito tempo. E pensem nas milhares de pessoas que trabalham no sector privado e que dependem muito da parte variável das suas remunerações (bónus, prémios, etc.). Já se deram ao trabalho de verificar as quedas assustadoras das remunerações de toda essa gente nos últimos 3 anos?

Uma última nota quanto aos pensionistas. A iniquidade - até há pouco ainda conseguia ser mais profunda - entre os sistemas de pensões no sector público e no sector privado deveria pelo menos convidar a conter o instinto para pronunciar coisas deste género. É cansativo ter de continuar a repetir evidências, e que não deveriam ser nem de "esquerda", nem de "direita".

Read my lips: 9,1%



Lê-se no programa do País das Maravilhas - aliás, do PS - hoje apresentado pelo Querido Líder no CCB: “o défice de 2010 foi de 6,8% do PIB, isto é, menos 2,7 pontos percentuais do que no ano anterior. Este é um indicador evidente do esforço de consolidação realizado.” Como se sabe pelo menos desde o dia 23 de Abril, o défice de 2010 foi de 9,1%. O esforço de consolidação foi realmente extraordinário. Mas isso não interessa nada, pois não?

Mais Sociedade?...

A agremiação Mais Sociedade, pela justeza, oportunidade e perícia com que tem deixado pingar "ideias" e "propostas" nos meios de comunicação, deveria, talvez, passar a chamar-se Mais Sócrates. Para adequar o nome ao efeito da acção.

Real Madrid-Barcelona 2011/04/27

Notas soltas:

- O Barcelona joga como mais nenhuma equipa no mundo joga. Isso quer dizer também que mais nenhuma equipa no mundo consegue jogar como eles jogam. Este é um facto elementar que lava como uma esponja todas as considerações de carácter, digamos, conjuntural.

- Não sei se vale a pena dizer isto em Portugal, mas o jogo de hoje, como os jogos dos últimos 5 anos, mostrou à saciedade que a tese da esplanada portuguesa está errada. Isto é, Messi não é o monstro que é simplesmente porque "tem lá o Xavi e o Iniesta a dar-lhe as bolas todas". Falso. Messi é um jogador inigualável. Sim, inigualável. Cristiano Ronaldo é fantástico, excepcional, fenomenal. O melhor do mundo. A seguir a Messi.

- Muito se discutirá sobre a arbitragem de hoje. Mas o facto é que Pepe tem aquele problema. É um grande jogador, sobretudo fisicamente. A cabeça é que não trabalha à mesma velocidade do corpo. Já agora: o golo extraordinário que o Barcelona marcou na Taça do Rei e que foi invalidado deu o jogo ao Real Madrid.

- Na conferência de imprensa, Mourinho denunciou a história de arbitragens benévolas de que o Barcelona beneficiou, dando como exemplo o jogo com o Chelsea há dois anos. Esticando mais a memória, eu diria que a época em que o Barcelona gamou mesmo a sério (não sei se houve eliminatória que não tivesse sido resolvida a gamar) foi a de 2005/2006, quando conquistaram a Liga dos Campeões na final contra o Arsenal. O gamanço foi, nessa altura, muito mais sério. Imaginem aquele jogo com o Chelsea em Londres em cada eliminatória: foi essa a carreira do Barcelona em 2006. Um exemplo:



Este golo, para quem não se recorda, decidia a eliminatória com pouquíssimo tempo para jogar.

Quarta-feira, 27 de Abril de 2011

37,5

É a média de idades de encartamento do eng. Sócrates e do dr. Passos Coelho. Não diz muita coisa - por exemplo o local de encartamento - mas mesmo no mais abstracto vazio, pode impressionar um alienígena. O desvio padrão chega a ser romântico: apenas 2,1.

Vitorino Magalhães Godinho (1918-2011)

Apesar e por causa de Karl Marx, Fernand Braudel, Duarte Leite ou Oliveira Martins, além da sua inteligência, houve e ainda há uma historiografia portuguesa antes e depois de Vitorino Magalhães Godinho. É claro que Vitorino Magalhães Godinho não foi só historiador. Foi um intelectual heterodoxo e um intelectual heterodoxo na política até um par de após o 25 de Abril de 1974. É, aliás, uma irónica coincidência que tenha morrido 37 anos após aquele que foi um dos mais importantes acontecimentos da história portuguesa do século XX e sobre o qual, vistos os seus magros resultados, Vitorino Magalhães Godinho lançava uma mirada crítica e cada vez mais lúcida. A sua obra está a ser reeditada e, portanto, ao alcance de todos aqueles que a queiram conhecer ou revisitar.
Que descanse em paz.
P.S.: Sugiro a leitura do obituário escrito por Diogo Ramada Curto no Expresso online.

Quando é que alguém aqui no Cachimbo escreve um post sobre o acontecimento do ano?


Não se pode confiar na ONU

Despite Reports of Brutality Toward Civilians, Syria to Join U.N.'s Human Rights Council

Os pavões de S. Bento

Confesso que tive de fazer algum esforço para assistir à entrevista de ontem na TVI. Mas como se tratava do Primeiro-Ministro do meu país, lá fui ouvindo à medida que arrumava os papéis para o IRS. Para além do tom comicieiro, falando por cima da entrevistadora, com a voz alterada, qual vendedor que nos quer convencer a comprar alguma coisa, reparei num estranho som, que não consegui identificar, mas que parecia vir da janela aberta do palácio de S. Bento. Depois de alguns minutos, pensei que talvez fosse uma gralha ou um pavão que tentava fazer-se ouvir naquela noite veraneia. A certa altura, apesar de diferentes, as duas vozes pareciam confundir-se, pelo menos no tom. Não consegui ouvir mais nada. E lá continuei com a papelada dos impostos.

Terça-feira, 26 de Abril de 2011

Ainda sobre a Síria

”There is a different leader in Syria now, many of the members of Congress of both parties who have gone to Syria in recent months have said they believe he’s a reformer.”
Hillary Clinton, 27 de Março de 2011

Segundo a Secretária de Estado americana, Bashar Assad é um reformador. Bem sei que as palavras ditas pelos membros da actual Administração não têm grande força nem nenhum valor intrínseco. Por isso mesmo, espero que Obama esqueça a afirmação patética de Clinton e comece a olhar com atenção para o que se passa na Síria.

Cachimbos de lá




Autor desconhecido, "Play this hunch and you can`t lose", 1925.

Jorge Sampaio na RR

A minha crónica desta semana na Rádio Renascença: "Jorge Sampaio"

Em simultâneo com a emergência do apelo comovido aos “Grandes Compromissos” para lidar com a crise, adquiriu também direito de cidade a exortação a não se olhar mais para o passado, mas apenas para o futuro. Tornou-se num padrão de correcção dizer que não vale a pena escrutinar os responsáveis. Mais vale pensar nas soluções que são urgentes. Ontem, o ex-Presidente Jorge Sampaio repetiu a ladainha. Percebe-se porquê.
Quando numa entrevista televisiva foi interpelado acerca do seu célebre discurso em que irresponsavelmente proclamou que havia mais vida além do défice, Sampaio por alguma razão se convenceu que se imunizava corrigindo a citação. Na realidade, apenas disse que havia mais vida além do orçamento. Infelizmente, não se percebe a diferença.
Mas a recomendação de que se olhe apenas para a frente e não para trás soa bastante razoável aos ouvidos de muita gente. No entanto, é difícil perceber como é que chegaremos aos remédios para os problemas do País sem que tenhamos primeiro percebido o que nos aconteceu. Isso implica também apurar responsabilidades. Responsabilidade dos decisores e responsabilidade das suas políticas. Porque os ansiados “consensos” não caem do céu. E com razão. As pessoas dividem-se quanto às respostas a dar à crise também porque se dividem em opiniões diferentes sobre as causas da crise. Olhar para o passado com sobriedade e rigor é, portanto, fundamental para, por uma vez, se lidar com os problemas actuais de um modo sério e responsável.
Sampaio, que não se cansa de dizer que cada um deve assumir as suas responsabilidades, ontem teve a oportunidade de assumir a sua. Podia tê-lo feito dizendo: “Enganei-me.” Mas optou por palavras vazias como, de resto, sempre fez.

Hora coca-cola light

A Síria (a conta vai em 400 mortos) poderá bem vir a ocupar nos próximos três anos um lugar no Conselho das Nações Unidas para os Direitos Humanos. Mas por que artes do diabo não haveria de o conseguir? O Irão, que mata mulheres alegadamente adúlteras, enterrando-as até ao pescoço e apedrejando-lhes o rosto, não integra, desde 4 de Março, a Comissão das Nações Unidas para o Estatuto das Mulheres? Vergonha para os países, aos quais se juntaram os EUA desde a chegada de Obama, que consentem em emprestar, com a sua simples presença, um efeito travesti de respeitabilidade a semelhantes aberrações institucionais.

Política cor-de-rosa (1)

"(...)
Depois dos filhos, a namorada. Em entrevista ao "Diário de Notícias", José Sócrates falou ontem, pela primeira vez, na sua namorada, revelando que esta o aconselha na compra de roupa. Habitualmente bastante reservado, nas últimas semanas, o primeiro-ministro tem levantado o véu em relação a alguns aspectos da sua vida privada.
"Sócrates não faz nada por acaso. Depois das referências premeditadas aos filhos no programa do 'Gato Fedorento', surge isto", explica Rodrigo Moita de Deus, consultor da LPM Comunicação. "Tornar Sócrates mais humano ajuda-o, porque as pessoas tendem a perdoar quem lhes esteja mais próximo."
(...)"

Contrato com o futuro

"(...)  De uma forma mais ampla, a questão pode hoje colocar-se em relação a todo o tipo de decisões das diversas instâncias de Governo que ponham em causa a ideia de que cabe a cada geração gerir e escolher o destino dos recursos gerados por essa mesma geração.

Levado ao extremo, esse princípio poria em causa a possibilidade de recurso ao endividamento por parte de qualquer organismo público, uma vez que essa prática traduz o endossar de uma factura para as gerações vindouras de uma parcela de despesa/investimento que é realizada hoje.

Pior ainda, também à luz deste princípio, seria toda e qualquer utilização antecipada de receitas futuras, seja através de operações financeiras - como a securitização de créditos supervenientes -, seja através de operações económicas, como a alienação ou concessão de activos abaixo do seu valor justo de mercado. (...)"

De Abril a Abril

Três anos: de Abril de 2008 a Abril de 2011.


O mesmo homem que em Abril de 2011 afirma que " Estes três anos serão classificados como a maior crise dos ultimos 100 anos" é o mesmo que, no Verão de 2008, apregoava a boa situação económica e social de Portugal, que em Junho de 2009 se dizia "muito satisfeiro consigo próprio" e que era preciso " manter o mesmo ritmo de modernização", e que em Fevereiro de 2010 afirmava "aumentámos o déficite porque quisemos".


Foi assim que, de "progresso" em "progresso", de "sucesso" em "sucesso", fomos parar à bancarrota.

Obrigado pela informação

Tomei hoje conhecimento, através do vigilante e sempre bem informado blogue abrantino, que sou assessor do grupo parlamentar do PSD.

A maldição dos ministros de Estado

Primeiro foi Campos e Cunha que, após quatro meses, acabou por sair em total ruptura com o Primeiro-Ministro e as suas opções políticas, em especial sobre finanças e grandes obras públicas. Depois foi Freitas do Amaral que acabou por sair (2006), alegadamente por razões de saúde, seguido de António Costa (2007) que se preparava para outros voos. Já com o actual Governo, verificou-se o afastamento progressivo, e talvez mesmo crítico se a personalidade não fosse diplomática, de Luís Amado, uma das únicas vozes que se atreveu a criticar José Sócrates no útimo comício, digo, congresso socialista. Os últimos dias confirmaram o afastamento de Teixeira dos Santos, o poderoso Ministro das Finanças. O que têm todos estes nomes em comum? Terem sido ministros de Estado dos governos Sócrates. Estes afastamentos têm um significado político óbvio. Confirmam o crescente isolamento de José Sócrates, reduzido ao seu núcleo duro de indefectíveis: Silva Pereira, Vieira da Silva e Lacão. Sem esquecer o sempre bélico Santos Silva. Nem quero pensar como seria um próximo governo socialista.

Sempre a rever em alta

O INE lançou uma notícia que não causou espanto. Devia mas não causou. Isto porque já ninguém fica surpreendido pelas contas do governo terem sido mal feitas. É uma imagem de marca deste Partido Socialista desde os tempos de Guterres. A dúvida neste momento é: será que vamos ficar pelos 9,1?

"Cantas bem mas não me alegras"*



* Não sou eu que digo. É o "povo". O título do post também podia ser: "Quem canta seus males espanta."

Mais da Abrilada do que de Abril:

- o nosso José Sócrates, como é bem lembrado aqui.

Grande Finale (124)







O Destino de Um Homem, Sergei Bondarchuk, 1959

Segunda-feira, 25 de Abril de 2011

"Progrediu" tanto que está falido.

O estranho caso de um post, e ainda há alguns, em que se opta por pensar em liberdade e com inteligência.

George Orwell

""If liberty means anything at all, it means the right to tell people what they do not want to hear."

Fico sempre surpreendido...

Numa altura em que bancarrota Sócrates é uma realidade e a grave crise afecta tanta e tanta gente em Portugal, é lamentável que alguns ocupem o seu tempo com a prestação do líder... da oposição. Terá os seus defeitos e virtudes, mas em tempo de eleições, e na situação em que estamos, é sobretudo a avaliação do governo que está em causa. Percebo que a estratégia socialista, como referi aqui há dias, seja desviar as atenções para o PSD, para que não se fale do seu legado desastroso. O que não entendo é que tantos não socialistas, e aparentemente descontentes com a governação Sócrates, se prestem a cooperar activamente no spin abrantizado. Mas são opções.

Acredito

Vozes e imagens




Às 18.45, é redigido o Decreto-Lei 171/74. Está aqui.

A propósito de fronteiras sem retorno

Um principal destinatário

Algo que uniu os discursos dos antigos Presidentes da República foi a crítica aos partidos, a constatação da deterioração da relação entre eleito e eleitorado, entre representante político e cidadão. Um afastamento criado através da manipulação da informação, da impunidade perante a lei, da demagogia, dos artifícios, de falsos programas de governo, enfim, do privilégio do interesse privado sobre o interesse geral. É uma mensagem grave, não fosse a representação política um dos fundamentais pilares de um regime republicano. E é uma mensagem que, sendo endereçada a todos os partidos, tem um principal destinatário. Soares e Sampaio só agora criticam o que até hoje encobriram. É uma pena que, por demasiado tempo, tenham colocado o partido acima do país. Não têm, por isso, como limpar as mãos.

Os Príncipes

Um dos aspectos que mais impressiona na trágica situação nacional que atravessamos é que, paradoxalmente, ela resulta da enorme competência e engenho dos seus protagonistas.
Tal como no futebol, Portugal também não conhece a crise na política.
José Sócrates tem gerido a crise como um político extraordinário. O seu golpe de precipitar a queda do Governo foi, na perspectiva socialista e naquela que lhe interessa salvaguardar, uma jogada de génio. E continua ao ataque, sempre veloz, sem nunca dar o ângulo a qualquer recuo ou ponderação que não a da sua própria conquista ou manutenção do poder.
E, por seu lado, também os seus opositores têm feito aquilo que está ao seu alcance para afirmarem o seu poder e conquistarem aquele que ainda não têm.
A política é isso. Dizem que é a conquista e a manutenção do poder. E, nesse esforço, todos estão a fazê-lo bem ou mesmo muito bem.
Fazem-no, é certo, à custa de Portugal, mas isso não interessa. Ninguém parece reparar. Na política o que importa são as aparências.
Sucede que se aproxima vertiginosamente uma enorme onda da realidade, que vai destruir grande parte das seguranças ilusórias em que nos apoiámos. Os nossos Príncipes tentam surfar essa onda. Porém, cada vez mais se pode adiar menos o momento do seu impacto.
Temo que, sem outro alcance de responsabilidade, a nossa desfragmentação enquanto povo seja, mais do que uma possibilidade, uma probabilidade. Ainda que sob o olhar de Príncipes de luva branca.
[Texto completo no Público de hoje]

Já é 25...



Para os mais sentimentais, «Josep Carreras i Lluís Llach: " Abril ´74 "»



A letra em catalão e a versão portuguesa da dita podem ler-se aqui. E dela tomei conhecimento aqui.

Domingo, 24 de Abril de 2011

Na véspera...



Um destino finlandês

Aqui há pouco mais de um mês, postei algo sobre o redesenho das fronteiras da Europa, com o Sul e o Norte a segregarem-se manifestamente, e referi Timo Soini, o finlandês dos Verdadeiros Finlandeses, seguindo uma sugestão do FT, como um dos futuros rostos, a partir do mês que aí vinha, dessa cisão, ou fractura, ou o que quiserem. Está feito. Sabemos pouco do homem, do seu partido, da Finlândia, excepto que se poderá tornar, como se avisava na altura, num sério obstáculo ao curso actual da Europa, que empurra majestosamente com a barriga os aparentemente insolúveis problemas com que se debate, de que a crise da dívida soberana é a manifestação mais superficial e mais urgente, caindo-nos em cima, pelo calendário do nosso resgate (que o PS não quis contornar, antecipando-se prudentemente, contra todos os avisos sensatos), o azar de termos de desempenhar o papel de bombos da festa, salvo seja. Não sabemos ainda o papel que irá desempenhar na futura coligação, nem a forma como nesta tentará influenciar uma nega ao pedido de ajuda português, mas o que sabemos assusta, ou deveria assustar, digo eu.

Suspendendo por um momento a questão dos interesses, um exercício minimamente imparcial das razões que o movem na política, aqui esboçadas pelo ABC, mostra-o como um político amável. Gosta da Finlândia, acha que os mecanismos de resgate europeus não resolvem coisa nenhuma, sendo, como são, meramente paliativos (de facto, a coisa é pior do que isso), não tem pressa de aderir à NATO, detesta o fim sueco do serviço militar obrigatório, etc. É um eurocéptico. Um ser, em suma, normalíssimo. Vamos ter de nos haver com gente assim.

"[...] o presidente do PSD não tem tendência para engordar, mas faz esforços para não ganhar barriga."*

A mesma inteligência política que levou Pedro Passos Coelho a rodear-se de grandes cabeças como Miguel Relvas e Marco António Costa, ou a convidar Fernando Nobre para cabeça de lista em Lisboa, fá-lo agora exibir em público a sua "vida familiar" (ou o que é suposto que parte do eleitorado pense que é a sua "vida familiar"). Como é óbvio, tornar a dita numa questão política por causa da sua incapacidade para gerar "confiança" junto de boa parte dos portugueses que votam, é um risco muito grande e uma insensatez que pode ter um custo pessoal e político demasiado alto. Tão grande e tão alto que eu me pergunto como é que deve reagir o eleitorado, agora ou mais tarde, se se souber que a vida pessoal de Passos Coelho pouco ou nada tem a ver com aquela que nos anda a mostrar (e/ou a esconder)?

* Citação retirada de Luciano Alvarez, "Passos, o homem apaixonado e que faz boas farófias, entrou no mundo cor-de-rosa" in Público.

Boa Páscoa

O túmulo vazio

[A incredulidade de São Tomé, Caravaggio, 1599]

«Domingo bem cedo, quando ainda estava escuro, Maria Madalena foi ao túmulo e viu que a pedra que tapava a entrada tinha sido tirada. Então foi a correr para onde estavam Pedro e o outro discípulo que Jesus amava e disse: Tiraram o Senhor do túmulo, e não sabemos onde o puseram!
Então Pedro e o outro discípulo foram ao túmulo. Os dois correram, mas o outro correu mais depressa do que Pedro e chegou primeiro. Quando se abaixou para olhar, viu os lençóis de linho, mas não entrou. Pedro, porém, que chegou logo depois, entrou. Ele também viu os lençóis colocados ali, e a faixa que tinham posto em volta da cabeça de Jesus. A faixa não estava junto com os lençóis, mas enrolada ali ao lado. O outro discípulo, que havia chegado primeiro, também entrou no túmulo. Ele viu e acreditou.» [João 20,1-9]

Quando o "Pinóquio" era Mário Soares



Tirado da República do Cáustico.

A força do PC

Um tipo lê o artigo-equívoco de Alexandra Oliveira («Professora da Universidade do Porto, doutorada em Psicologia com uma pesquisa etnográfica sobre prostituição de rua» e que mais, e que mais?...), no Público deste Sábado, "A cruzada moral antiprostituição do PCP", e fica logo com vontade de ir inscrever-se no Partido da Soeiro Pereira Gomes.


Todo o artigo é uma increpação à deputada comunista Rita Rato. O problema estará em a deputada ter dito ser uma prostituta uma mulher que "está à venda". A Professora insurge-se contra a "distorção" [sic] perpetrada pela deputada e acusa-a de "revelar um profundo desrespeito por todas as mulheres, homens e transgéneros que diariamente prestam serviços sexuais remunerados". Trata-se de "pura objectificação e exercício de negação de dignidade". Tudo este jargon chega a ser divertido. A Professora (e os que ajuízam como ela), manifestamente, não alcança que é precisamente por uma afirmação da dignidade que a Rita Rato disse o que disse. A deputada está a reclamar a restauração da dignidade subtraída. Como se alguém que não pode considerar um escravo qua escravo como pessoa, estivesse a recusar a dignidade a um homem livre. O "problema" da escravatura (actividade humana sempre defensável, claro, por qualquer perversão da linguagem, por qualquer jargon enganador) não estará em ser "feia", "economicamente inviável" ou "politicamente incorrecta" - estará em recusar o lugar da personalidade, produzindo, talvez, seres moralmente amputados.


Prossegue Alexandra Oliveira: "o PCP tem o condão de nunca nos surpreender (...)" - este ressabiamento anti-comunista só pode vir de alguém da tal "esquerda democrática", certamente entusiasta do tal engenheiro Sócrates e que verá nele um fautor do avanço civilizacional e tal. "A cruzada moral antiprostituição que o PCP tem levado a cabo está longe, muito longe da realidade(...)" [É cómico como para esta gente-boomerang, 'moral' é sempre um adjectivo depreciativo.] Não sei em que mundo vive esta Professora do Norte, mas, ironicamente, as palavras da deputada estão bem mais próximas da "realidade" do que os seus devaneios tipicamente abstractos - mas que farão, estou certo, as delícias concretas dos empresários-proxenetas, já afiando o dente para o maravilhoso mundo da iniciativa privada, do empreendedorismo venéreo: filantropicamente, já sabemos, proporão o emprego de numerosa mão-de-obra. [O actual presidente da Concelhia do PSD de Lisboa tem, a este respeito, aquilo a que se costuma chamar uma visão de futuro.]


O artigo termina com uma daquelas exemplares tretas demagógicas: "O que interessa é resolver os verdadeiros problemas das pessoas e não inventar [sic] problemas para sustentar teorias e ideologias que não encaixam na realidade." Este é o tipo de parvoíce que faz o rir o PCP. E faz ele muito bem. Saberá a Professora que, do ponto de vista de um comunista, o Partido e as suas teses não assentam numa "ideologia" e que esta tem um sentido pejorativo?...

Sábado, 23 de Abril de 2011

De boas intenções está o Inferno cheio (corrigido e aumentado)

"Passos Coelho é uma pessoa bem-intencionada com quem se pode falar"

Mário Soares, alegadamente, numa entrevista ao I.

Adenda: Para Mário Soares, Passos Coelho, além de "pessoa bem-intencionada", é (ou foi) uma "bênção", nomeadamente por comparação com Manuela Ferreira Leite. Mas Passos Coelho foi/é uma "bênção" para quem? Para Portugal? Era bom, não era? Não, era uma bênção para José Sócrates e, portanto, para o PS e para o Governo. Nisto tudo só ainda não percebi com que fim anda Mário Soares a usar Passos Coelho.

Balanço de um fim de semana violentíssimo na Síria: 120 mortos

O assunto não comove excessivamente o mundo (Ocidental). Os media embandeirados, sobretudo se o coração bater à esquerda, não sabem muito bem que fazer do sucedido. A Síria, sob o domínio Alawi, é a mais dura ditadura do Médio Oriente, e o mais importante aliado do Irão na região. A incúria confrangedora dos EUA e a sua manifesta falta de orientação continuam a espantar pelo inesperado, mesmo depois de se ter baixado tanto quanto, depois do Egipto, parecia avisado baixar as expectativas. O que aqui se vier a passar é potencialmente da maior importância para a segurança: na zona e, portanto, no mundo. Parece que não parece, mas é.

E será que vai ficar por aqui?

O Telmo do PS - 'Estás a ver?'



Telmo do Big Brother nas listas do PS por Leiria.
(Aproveite e reveja o vídeo do Big Brother)

O último bode expiatório - mas durante a campanha vão arranjar mais

Das galinhas às raposas: crónicas de Londres


Ainda não li o novo livro de Clara Macedo Cabral, uma portuguesa a viver em Londres desde 2005, mas se mantiver a qualidade do Há Raposas no Parque, com relatos impressionistas que ajudam a perceber na vida quotidiana da nova geração de portugueses a viver por esse mundo fora, a coisa promete.

Pilha-galinhas

O caso Fernando Nobre fez tremer o país pensante. O caso Ricardo Rodrigues não inquietou uma alma. Entendo. Uma coisa é um convite inábil a uma personalidade inábil. Outra, bem mais tolerável, é ter como cabeça-de-lista pelos Açores às próximas eleições legislativas um cavalheiro que furta gravadores a jornalistas com inegável talento manual.

João Pereira Coutinho

Partido "Socrático" com mais de 15% nas sondagens


É verdade que a I República e o Estado Novo não foram propriamente grandes ajudas para o desenvolvimento de qualquer coisa como uma maturidade democrática. (Ainda que, convenhamos, aquela República comece a ter umas costas demasiado largas e, a uma distância de cem anos, não possa já ser desculpa para tudo.) Seja como for, há uma parte demasiado grossa de Portugueses que não se escandaliza nem com a insuportável demagogia de Sócrates, nem com o seu reiterado desprezo pela verdade ou pela mera decência política, nem com a propensão autoritária que a personagem manifesta à primeira oportunidade. Por exemplo, quantos eleitores terão ficado chocados com aquele Congresso de Matosinhos?...
Por outro lado, as pessoas estão assustadas e, apesar de tudo, talvez prefiram um tarado troca-tintas que já conhecem a um sujeito em tudo mais simpático, mas que, manifestamente, não consegue pôr ordem na sua casa e parece não saber o que quer.
E há ainda o numeroso povo “de esquerda” – este, provavelmente, teme ainda mais Passos Coelho do que Manuela Ferreira Leite (É claro que este “povo” se está nas tintas para a “questão” do casamento homossexual – sensatamente, preocupa-se com problemas mais terrenos.) Esse "povo", para além de (como mais ou menos inquilino de um Estado padre e padrone) ser presa fácil para os espantalhos que lhe agitem, padece ainda de um sentimento de orfandade "ideológica": vê muito bem que o Partido de Sócrates nada tem, de facto, de "socialista", mas também não quer que a sua vida caia nos braços do PC ou do Bloco. Portanto, aterrorizado, que fará ele? Votar no Partido dos Animais?... Não me parece.

Da Série Cachimbos e Vinhos (9)


Bom vinho, grande rótulo: Conceito Bastardo.

Sexta-feira, 22 de Abril de 2011

João Maria Tudela (1929-2011)



Notícia e curta biografia no Público.

Bem dito e melhor lembrado.

O que isto diz do governo de José Sócrates?

Teixeira dos Santos foi o responsável do Ministério das Finanças nos últimos seis anos. E agora foi retirado das listas do PS.

Dar a volta

As sondagens recentes indiciam que o PSD não está a ser eficaz na mensagem. Não vale a pena culpar as empresas de sondagens ou a comunicação social pelo que tem acontecido nas últimas semanas. Principalmente a comunicação social, que, como sabemos, está sempre preparada para servir os propósitos da máquina de propaganda socialista. Como recorda aqui o Fernando Moreira de Sá, é preciso ter memória e lembrar o que aconteceu em 2009, quando Manuela Ferreira Leite foi derrotada por José Sócrates. Não se ganham eleições sem convencer as pessoas que a mudança é melhor do que manter o status quo. Em política existem duas premissas que levam ao derrube dos eleitos. Em primeiro lugar, as pessoas têm de estar convencidas que o poder não serve. Quando existe a convicção que a liderança não serve, começam a olhar para a alternativa. E neste momento, Portugal está nessa fase, tal como estava em 2009. Existe uma convicção generalizada que o governo Sócrates está em falência técnica e é preciso encontrar uma outra solução. Mas, e como sempre sucede, a alternativa tem de convencer as pessoas. Caso contrário, e apesar de contrariadas, apostam no que conhecem.

O Partido Socialista já percebeu que não vale lutar pelo seu legado. Esse, infelizmente para os portugueses, é catastrófico. Mas a sua estratégia tem sido precisamente centrar a campanha na oposição, tentando derrubar a segunda premissa: nós somos maus, mas eles são piores. Pedro Passos Coelho, que não tem estado isento de erros, precisa de inverter este rumo. Ontem fiquei agradado com duas posições públicas do líder do PSD. Em primeiro lugar, assumiu que as sondagens são um sério aviso e que é necessário trabalhar mais. E melhor, acrescento eu. Depois, criticou violentamente a tolerância de ponto emitida pelo governo para a tarde de quinta-feira. Uma posição nada popular, mas em consonância com o actual momento do país. O PSD deve apresentar-se como o partido que está preparado para resgatar o futuro do país, e que terá a coragem de propor as mudanças necessárias. Não vale a pena prometer o céu quando estamos tão perto do inferno. Um programa de ruptura com 15 anos de socialismo é o que o PSD deve apresentar aos portugueses. E não me venham com essa treta repetida até à exaustão pelos socialistas que ainda não há programa. As eleições foram convocadas há pouco mais de um mês, e, que eu saiba, nenhum outro partido o apresentou ainda. Ele será apresentado na devida altura. E depois, a comunicação, essa palavra que tanto tem assustado o PSD nos últimos anos. Com uma máquina infernal do lado do PS, é preciso combater com armas eficazes. Não se pode ganhar eleições sem uma mensagem clara e que seja facilmente percepcionada pelos eleitores. A mensagem do PS é: isto estava a correr bem e a culpa da vinda do FMI é do PSD. E se nós perdermos, o país vai piorar muito. E todos os socialistas espalhados pelo panorama mediático têm sido porta-vozes disto. O PSD precisa de encontrar uma mensagem unificadora, que permita congregar um vasto leque de eleitores indecisos, que se encontram desde o centro apolítico até ao centro-direita dividido entre o PSD e CDS. Que a sondagem da Marktest, por muita ou pouca credibilidade que tenha, permita ser um ponto de viragem para o PSD.

Viva a aliança Povo/FMI?

Os capitães de Abril de 2011 são uns senhores loiros ao serviço do FMI. Substituíram as metralhadoras por calculadoras e as fardas militares por fatos escuros com gravata. O povo espera, ao menos, que obriguem a cortar já no enorme desperdício do Estado em vez de reduzir reformas e apoios aos mais desfavorecidos, a política tradicional do actual governo.

Hoje no CM

Até ao fim

Dizem agora que Sócrates tratou Teixeira dos Santos como trata todos os que estão ou estiveram ao serviço da sua estratégia de poder. Como instrumentos que seguem o caminho do lixo a menos que cumpram as ordens de cima infalivelmente, mesmo que isso signifique arruinar o País por duas gerações. Não sei se a notícia será verdadeira, embora seja preocupante para qualquer português com mais de 5 anos que seja Silva Pereira a conduzir as negociações com a chamada "troika".

Infelizmente para Teixeira dos Santos, esta notícia não é suficiente para se equivaler à proverbial esponja. Esteve nisto e com isto até ao fim, ou até ao pescoço.

O triunfo de Belém

Aqui há uns dias percorria os canais de televisão na minha sala, e surgiu no ecran a imagem da Maria de Belém com uma folhinha na mão. Apresentava um gráfico que supostamente ilustrava como a derrocada do País começara com o chumbo do PEC. E ali estava ela exibindo a folha para a câmara registar, apesar de a sua parceira de debate já ter tomado a palavra. Com um ar sério, sem se rir, como se estivesse dolorosamente solidária com os portugueses sofredores, que só começaram a sofrer, claro, quando Pedro Passos Coelho decidiu deixar de apoiar mais um PEC.

Depois, lembrei-me de que Maria de Belém sempre foi uma perita em propaganda, desde os saudosos tempos do Ministério da Igualdade. Lembrei-me pois de que ela está no poder e com o poder desde o início, desde o início da derrocada. Lembrei-me de que ela esteve sempre ao lado da e com a mentira, a incompetência, o sorriso que pretende substituir a política, a mistificação, défices que são baixos nas alturas convenientes e que só aumentam quando o pior já passou, a manipulação da opinião pública, o clientelismo, sucessos que fazem a primeira página de jornais e que não valem o papel em que são anunciados.
Lembrei-me de tudo isto. Mas ela ali estava com a folhinha na mão, falando a um País devastado pelas falências, pelo desemprego, pela miséria, pelo desespero, pelo envelhecimento, pelo endividamento, pela desorientação, pela corrupção, pela negrura do futuro.

Ela estava com um ar sério, mas também triunfante.

Cachimbo na rádio

Às 18h05, estarei com o João Maria Condeixa no Descubra as Diferenças da Rádio Europa, desta vez apenas com a moderação do André Abrantes Amaral. Falaremos sobre as listas eleitorais, sobre as negociações com a troika, sobre a actuação do Presidente da República neste contexto de crise e sobre o crescimento dos partidos extremistas na Europa, em particular na Finlândia e em França. Para terminar em grande, o hino francês revisitado pelos Laibach.

Hoje

Jordi Savall em Castelo Branco. Ver os pormenores aqui.

Por onde anda o dinheiro dos nossos impostos?

Os salários em atraso dos jogadores da equipa de profissional de futebol do "Santa Clara" foram, segundo notícia do Record, pagos pelo Governo Regional dos Açores. Uma entre mil formas de esbanjar o dinheiro dos nossos impostos. Entre outras coisas menos claras ou, até, menos lícitas.

Pouco, muito pouco

Depois de ler o que o Galamba aqui escreveu e a notícia para onde nos reenvia, não resisto a umas breves notas críticas (o Alex não se importará, certamente):
(1) investimento (mais dinheiro) na educação não é sinónimo de melhoria da qualidade da educação;
(2) os resultados dos alunos portugueses no PISA não só não são “excelentes” – seriam excelentes se estivéssemos no topo das classificações – como a aproximação à média não se deve exclusivamente às escolas públicas (uma leitura menos atenta do post do Galamba pode fazer crer o contrário quando passamos pela sua referência ao "investimento na escola pública");
(3) já se percebe melhor o que o Galamba está a pensar quando refere a “queda muito significativa do abandono escolar”, mas 31.2% de abandono em 2009 só pode significar uma coisa: praticamente 1 em cada 3 alunos portugueses continua a abandonar a escola antes de acabar o ensino básico;
(4) o aumento do ensino técnico-profissional consiste numa “mera” transferência de recursos de um tipo de ensino para outro; e
5) o maior crescimento europeu em diplomados em matemática e ciências e tecnologias – 37% na União Europeia e 193.2% em Portugal, com a meta estabelecida no plano global (regional europeu?) de 15% – parece denunciar mais um péssimo ponto de partida português do que um óptimo ponto de chegada (gostaria de conhecer os números absolutos).
O João Galamba diz que “há mais, muito mais”. Valeria a pena conhecer o muito mais que falta, pois o que ele indica soa, infelizmente, a pouco, muito pouco.

Grande Finale (123)




La Passion de Jeanne d'Arc,


Carl Dreyer, 1928

Quinta-feira, 21 de Abril de 2011

Para quê aumentar a prisão em vez de contruir um jardim?

A maior parte das pessoas vive numa prisão. Não se trata de uma crítica, mas de uma constatação. Isto é mais verdade em Portugal que na Inglaterra ou na Holanda. Quando obtêm meios que permitem alguma liberdade extra - por exemplo para seguir sonhos e paixões genuínas -, optam por aumentar o tamanho da prisão, em vez de construirem um jardim. Compram uma casa maior, um carro melhor, fazem um filho para preencher um vazio. Estão habituados à prisão, porque ela traz exigências que dão, à superfície, um certo "sentido" à vida. Depois divorciam-se, vão para o divã, abandonam os filhos: "fracassam" na vida, apesar do "sucesso" profissional. (Ou se calhar "por causa de"). Percebem que para dar sentido da vida não basta sentir-se permanentemente devedor dela, obrigado a fazer isto e aquilo para cumprir o que supostamente é exigido a cada um. A vida não é só trabalho - mas num país razoavelmente preguiçoso (somos mais um Marrocos aditividado, do que uma Suécia acabrunhada), esta mensagem é "perigosa".

Tudo tem o seu tempo e por isso nada disto é demasiado grave, em Portugal or elsewhere. As prisões aumentarão, mas olhamos à volta e há cada vez mais jardins para passear, e flores que convidam a uma deliciosa paragem. Stop o smell the roses. And look after your little gardens. This is not the real thing, but we have to honour it.

Road to Nowhere (Sem Destino)

Road to Nowhere é um filme sobre a realidade e a sua representação. Realizado por Monte Hellman, a realização de Road to Nowhere é estranhamente atribuída nos créditos iniciais a Mitch Raven, o realizador que decide fazer um filme acerca do caso misterioso de Velma Duran e o político Rafe Tachen. Para o papel de Velma, Mitch escolhe a bela actriz Lauren Graham, por quem o realizador parece acabar por se apaixonar. A oposição entre a realidade e a sua representação, assim como a imposição da representação na realidade, vai sendo desvelada à medida que a paixão de Mitch por Lauren na vida real tem consequências na direcção do filme que está a realizar, e no modo como interpreta a realidade que o filme supostamente representa. Road to Nowhere é um filme complicado, mas não é totalmente impossível seguir-lhe o rasto – mas só até um dado momento. É como se fôssemos Foucault a discernir As Meninas de Velázquez, com a diferença essencial de que desta vez estamos num caminho que nos leva a lugar nenhum. Não obstante o niilismo da coisa, Road to Nowhere é um filme que merece ser visto. Para quem não quiser sequer tentar o "exercício de Foucault", sempre poderá permanecer na projecção de Velma no túnel, no cessna a despenhar-se no lago da Carolina do Norte, em Lauren a sentar-se no colo de Mitch enquanto o abraça, na música de Tom Russel, ou em outros bons momentos do filme.

Road to Nowhere, realizado por Monte Hellman, com Shannyn Sossamon e Tygh Runyan (EUA 2010)


"Sondagem coloca PS e PSD em empate técnico"

Como o camarada Morgado lembra aqui em baixo, não vale a pena dar às sondagens, boas ou más, mais crédito do que merecem. Dito isto, só um ceguinho não vê que a campanha de Passos Coelho está a ser desastrosa. O exemplo máximo: escolha de Nobre para cabeça de lista pela capital é um teste à paciência de muito laranjinha. Em vez de trazer votos, o que é mais que duvidoso, talvez afaste parte do eleitorado natural do PSD.
Falo por mim. Votante na capital, e sempre nas três setinhas, fiz há dias uma sondagem à minha consciência e o resultado, descontados os indecisos, os NS/NR e os que não atenderam o telefone, foi esmagador: 100% de mim não votarão em Nobre porque 100% de mim não votam em demagogos, amigos do Hamas e compagnons de route do Bloco de Esquerda. Suponho que haja por aí mais uns tantos como eu. Às vezes, não há fidelidade social-democrata que resista.
Junte-se a ausência de programa, o vazio de ideias, os avanços e recuos de propostas, algumas trapalhadas avulsas, a hipótese patibular de ver Relvas ou Marco António no Governo - e o resto adivinha-se. Vai ser mais difícil vencer o Sócrates do que foi lixar a Manela, olá se vai. Infelizmente para todos nós.

Recordar é viver

A propósito do que o Tiago escreve aqui, nomeadamente no post scriptum, recordo uma troca de opiniões que eu e ele tivemos, quando ainda não pertencia ao Cachimbo (ver o post e a respectiva caixa de comentários). Provavelmente, o Tiago já nem se recorda da nossa troca de argumentos. Mas servem estas linhas para comprovar que a tese dele não é de agora. Acabámos por prolongar a conversa neste post, publicado no Portuguese Economy. E talvez se justificasse reatá-la.

Elogio do fracasso



[Poema em linha recta, Fernando Pessoa (Álvaro de Campos)]

Elogio do saco de gatos

Ninguém diga que para se saber o que se passa no PSD são necessárias escutas.

Desconfiança

Na política prefiro desconfiar das orquestras afinadas através de obscuras e pouco recomendáveis negociatas num qualquer e pouco iluminado bastidor a desconfiar de um mais ou menos transparente saco de gatos. Tenho até interesse como eleitor em saber exactamente quem é que convidou quem, quem aceitou e não aceitou, bem como as suas razões. Do lado da comunicação social, não percebo os incentivos negativos que criam ao tratar esta informação como pequenos grandes escândalos, em vez de tratarem como informação relevante para o eleitor, pequenas e grandes banalidades da vida e da política. Ao tratar esta informação como "casos", incentivam a que tudo se passe nos bastidores e as preferências e escolhas de políticos passem a ser menos claras. No saldo final passamos a ter um eleitorado menos informado e esclarecido.

Bem sei que eleitoralmente, no dito mercado eleitoral indígena, se calhar a comunicação política de fachada, com tudo "unidinho" e afinado, como um comité central, talvez funcione melhor. Já se percebe que o máximo de flexibilidade nestas coisas varie entre o assim e o assim, mas se é assim, é pena.

Jornalismo preguiçoso

O jornal Público faz hoje, em duas páginas, um “balanço” do Governo Sócrates na área da Educação. Ora, não se vê um gráfico, não se faz uma comparação de dados, não existe qualquer tentativa de contrastar a realidade à propaganda do Governo. Ou seja, não se faz qualquer balanço. O que temos são citações avulsas, resultantes de uns telefonemas a “especialistas” devidamente indicados pelos partidos. Tal como a informação não é exposta para que o leitor pense por si próprio, tudo aparece limitado a uma mera questão de opinião, a uma visão partidarizada e subjectiva sobre o assunto, como se a informação objectiva fosse uma impossibilidade. Assim, todos têm razão, e ninguém tem razão – é uma mera questão de perspectiva. O Governo agradece.

Sondagem

A sondagem da Marktest tem algumas dificuldades, como a enormíssima variação desde a última sondagem da mesma empresa que praticamente só atinge os dois maiores partidos, e a percentagem muito grande de indecisos. Mas é um sinal. Um sinal para o PSD. Se querem ganhar as eleições, convém que deixem de estar tão obcecados com a sedução de um qualquer eleitorado de "esquerda" ou do "centro" e protejam o flanco direito. Façam as propostas que entenderem em cima de uma narrativa genérica acerca do passado recente e do futuro desejável para Portugal. E não permitam que certas pessoas que tanto falam à comunicação social continuem a falar. Podem ser pessoas muito sábias e/ou muito bem intencionadas, mas são um desastre comunicacional. Nesta altura do jogo, e em circunstâncias tão voláteis - como a sondagem parece demonstrar - não se brinca com a comunicação política.

Uma nota rápida

Sobre a crítica dos dias de descanso por dá cá aquela palha: podemos defender que o 25 de Abril não seja feriado, como podemos defender que a Sexta-Feira Santa não seja feriado. Até podemos defender as duas coisas. Mas a questão da tolerância de ponte - 0.5 dias - só pode ser tratada de forma isolada (ou, como diriam os tipos do FMI, marginal ou incremental). Criticá-la invocando os 'pornográficos' 5 dias de férias (que seriam 4.5) é simplesmente alarve.

PS: para o caso do descanso "doer" muito, pode-se calcular, a partir daqui, a probabilidade do Domingo Páscoa calhar no dia 24 de Abril e, cruzes!, haver 4 dias seguidos de seguro descanso.

PS1: mais a sério: o problema de Portugal passa muito mais pela produtividade durante as horas de trabalho do que pelo número de horas de trabalho. Isto não significa que o último seja pouco relevante, mas orienta um bocadinho a discussão.

Troca de SMS altamente interna, aqui revelada para ajuste de contas igualmente interno

Morgas, pa, Lomba e Schmidt entraram p/ listas pq ?

...
Abrir Cachmb sociedade civil? M q lhes prometeste? N/ temos Asmbl Grl...
...
Independentes? Ve m é se gajos n falam muito. Se vão contar q lhs deste lugares Mrcl e Mnl, tb te mandamos p/ Coreia, OK?

...

O q?! Prometeste-lhes MEU LUGAR???

Quarta-feira, 20 de Abril de 2011

Publicidade Institucional (antes das novidades...)



Um mistério

O que aconteceu ao "Prós e Contras"? Pelo que tenho visto, o programa foi bruscamente substituído por uma série de entrevistas conduzidas por Fátima Campos Ferreira, todas as segundas-feiras, aos senadores da Pátria. Já lá passaram Soares e Freitas e em breve, Ramalho Eanes. Apelos à calma, à unidade, ao bom-senso, vocês conhecem. Não discuto o critério, mas gostaria como espectador - afinal, compro mensalmente o bilhete - de perceber a suspensão. Fiando-nos num curto esclarecimento da RTP, ficamos a saber que a interrupção é temporária: só não haverá programa em Abril e, algures em Maio, tê-lo-emos de volta. Exactamente quando em Maio? No princípio? Duas semanas antes das eleições?
A RTP deve ser a única televisão pública do mundo ocidental que decide suspender "o programa de debate mais alargado da televisão portuguesa". Isto numa altura tão crítica e política como a que estamos a viver, numa altura em que toda a gente pergunta sobre o que se está a passar. Como lógica de serviço público, escapa-me. Pode ser que o motivo esteja na contenção financeira que atingiu a televisão do Estado. Pode ser tanta coisa, até uma indisposição por febre dos fenos de alguém da realização. Seja como for, estranhamos. Como o resto do país, a RTP talvez ache que pode continuar a viver da escuridão o tempo todo. E se calhar pode.