Segunda-feira, 28 de Fevereiro de 2011

Kadhafi e os outros (2)

Um exemplo (mas nem era nesse cavalheiro em particular que estava a pensar aqui).

Entretanto...

O spread entre os dez e os cinco anos já é inferior a 20 pontos de base. A dois anos, firme, nos 4,75%.

Estudo de Harvard confirma o que disse Bento XVI sobre o combate à SIDA em África


Ainda se lembram da polémica à volta das declarações de Bento XVI na viagem para Angola? Um estudo recente (A Surprising Prevention Success: Why Did the HIVEpidemic Decline in Zimbabwe?) realizado pela Universidade de Harvard dá razão às ideias do Papa sobre o combate à SIDA, em especial no continente africano, que tanta polémica causaram. Daniel Halperin do departamento de saúde global da população de Harvard afirma que um comportamento sexual responsável e a fidelidade ao próprio cônjuge foram factores que determinaram uma drástica diminuição da epidemia no Zimbábue. Este especialista analisou, desde 1998, a disseminação de doenças sexualmente transmissíveis nos países em vias de desenvolvimento, com dados estatísticos e estudos no terreno. Entre 1997 a 2007, a taxa de infecção entre adultos diminuiu de 29% para 16%. Uma das conclusões afirma: The behavioral changes associated with HIV reduction mainly reductions inextramarital, commercial, and casual sexual relations, and associated reductions in partner concurrency (...) Estou curioso por ouvir o que dizem aqueles que na altura rasgaram as vestes. Provavelmente uma simples nota de rodapé. Ou nem sequer isso.

Não se importa de explicar o que quer da Europa, já que não quer ajuda? Ou prefere que a coisa fique assim, reduzida a zero?

Olhando para o que tem sido a experiência da Grécia e da Irlanda, não me parece que os mercados financeiros estejam convencidos de que o recurso à ajuda europeia resolva os problemas nacionais e sejam de facto um grande contributo para a estabilização do euro, diz a cabeça em cima.

Pois não (é uma cabeça, este ministro). A ajuda é isso mesmo: ajuda; garantia de liquidez durante o ajustamento. O problema percebido pelos mercados é outro. É o da solvência, ou seja, da capacidade, ou não, de interromper a trajectória de endividamento e, assim, restabelecer a capacidade própria de satisfazer compromissos futuros. Presumo que o ministro não esteja à espera que a Europa o ajude nisso. No caso da Grécia, avoluma-se a ideia de que a reestruturação da dívida é inevitável. Como será connosco. Além de liquidez, que mais quer o ministro? Juros mais baixos do que os do mercado? Quão mais baixos? Porque não diz o ministro das Finanças e o primeiro-ministro o que deveria a "Europa" fazer? Esgotada a cassette surrealista do FMI, arriscamo-nos a ter de enjoar, no mês de Março, com declarações totalmente destituídas de sentido, como as que hoje Sócrates e Teixeira dos Santos ensaiaram, deslocando o ónus dos nossos problemas para uma "Europa" não menos fantasmagórica do que o FMI, sem que nenhum jornalista tenha a curiosidade, sempre que o ministro e o primeiro-ministro da nossa praga acenam com ela, de lhes perguntar: o quê, concretamente? Não é por sabermos que nenhum deles terá o que quer que seja a dizer de positivo sobre o assunto que a pergunta deve ser evitada. Pelo menos, ao desmontar a "ameaça", ajudaria a libertar a atmosfera do ambiente zombie em que o bando que nos governa insiste em manter-nos.

Vem aí o PEC IV

Já se estava mesmo a ver. A despesa (ie a parte da equação onde o governo tem maior controlo) continua a subir e o aumento de receita de Janeiro foi conjuntural. Resultado, adivinham-se mais impostos e cortes avulsos na despesa para breve. Espero que quem caucionou os anteriores planos deste executivo incompetente tenha aprendido a lição. Ah, e a culpa é dos outros. Nós estamos a fazer tudo bem. Convém não esquecer.

ADENDA: A sério. Estou fascinado com a sapiência económica do nosso engenheiro-formado-ao-Domingo. Espanta-me que nunca tenha conseguido arranjar um emprego a sério.

Há quem não queira dançar o tango

Enquanto nós vamos empurrando a responsabilidade para terceiros, também os finlandeses começam a ficar fartos de pagar contas alheias.

Mau-Mau

Filipe Nunes Vicente inicia Mau-Mau, nome também da sua anunciada incursão na novela, que esperamos ler em breve. Um novo blogue, plural, com as colaborações de FNV, fnv, Fnv e FnV.

Efemérides

6 anos de insurgências celebrados com mais um reforço para a "ala" austríaca do blogue. O que, para os mais distraídos, quer dizer algo como: A China vai recrutar mais um chinês para a sua ala chinesa. Muitos parabéns.

Ideias muito deles

Estranho que o primeiro-ministro, ele próprio ou seu alter-ego, ou vice-versa, ainda não tenha pensado nisto. A Itália de Berlusconi, um homem avançado como Sócrates, já se enterrou nisto há que tempos.

Democracia e presidenciais no Egipto: venha o diabo e escolha

Mohamed El Baradei, e a perspectiva do Islamismo com o apoio da Irmandade Muçulmana.

Amr Mussa, o favorito e a perspectiva da demagogia nacionalista radical.

O futuro democrático do Egipto começa a desenhar-se. Barry Rubin analisa os perfis de ambos, aqui e aqui, e, referindo-se à candura ocidental, tão etnocêntrica malgé elle que é incapaz de olhar para o outro - o mundo árabe - sem se ofuscar na projecção que faz de si sobre uma realidade que ignora obstinadamente, termina de maneira muito grega: aqueles que os deuses escolhem destruir, primeiro fazem-nos olhar para os seus inimigos como moderados.

Os negócios e o Estado


Ainda que pudessemos ter moderado (e muito, penso eu) o recurso ao lambebotismo na condução das relações com o regime do Coronel Khadafi, o facto é que uma das lições a tirar desta bela trapalhada é que é extremamente desaconselhável misturar política e negócios. Existem outras, tão boas ou melhores, mas o que agora interessa reter é que sujamos o nome do país em troca de uns (largos) milhares de Magalhães(*)

(*) que por sua vez exemplificam bem o favoritismo e o mau uso do dinheiro dos contribuintes

Um precedente interessante

Domingo, 27 de Fevereiro de 2011

Moacyr Scliar

Mesmo, mesmo

o que o Egipto precisa. Ou, pelo menos, as egípcias.

Quando é que acaba o circo?

Na semana passada, Vasco Pulido Valente disse o que havia a dizer sobre o ridículo da visita catedrática de sumidades socialistas à Tunísia para ensinar as boas almas do outro lado do Mediterrâneo todas as técnicas das excelentes transições para a democracia.
Hoje quando ouvi na rádio o persistente Vitorino, o protagonista da procissão, a falar despudoramente sobre o assunto, lembrei-me das memoráveis palavras de um sócio (anónimo) do Benfica que, numa das imortais Assembleias-Gerais do clube na era Vale e Azevedo, se aproximou do então presidente e, esbracejando, lhe gritou: "Quando é que acaba o circo?"

Conversas ocas

Este sujeito afirma que uma vez é os interesses, outra os princípios. Com o distinguo, imensamente popular, o Marcelino, sempre modesto nas suas exigências, calou-se. Pena que não lhe tenha ocorrido perguntar ao entrevistado quando é que é a vez de uns e a vez de outros. Se se decide aos dados, ou assim.

Da Série Cachimbos e Vinhos (4)

Momento Pedro Arroja:



Os protestantes, os cristãos, os judeus e o vinho. Daquele que é muito provavelmente o melhor documentário sobre esta indústria: Mondovino

Lições das Arábias

Que ao menos este episódio da Líbia sirva para esclarecer essa misteriosa entidade chamada "opinião pública portuguesa", e alguns jornalistas, quanto ao tipo e calibre da operação levada a cabo por José Sócrates, quando este prefere exóticos compradores de dívida nacional ao "FMI", esse papão que afinal de contas, e pace Bloco de Esquerda e PCP, é dirigido pelo conjunto dos nossos aliados que são, julgo eu, democracias liberais, representativas e constitucionais.

Kaddhafi e os outros


Disse isto ontem na TVI24 (pode ser que ainda venha a receber o video), mas volto a dizer aqui. O apoio que Kaddhafi recebeu de muita gente por esse mundo fora - e podemos falar apenas do mundo ocidental - não se deveu apenas aos maléficos "interesses comerciais". Essa versão da história é talvez boa para impressionar a pequenada, mas não conta para gente que se recusa a viver vergado à linguagem da comunicação social de massas. Ao longo destes anos, incluindo os últimos dez, Kaddhafi esteve rodeado de amigos ocidentais também por razões de conveniência política e até ideológica.
Kaddhafi foi muito conveniente para a malta do costume quando, em parceria com a Arábia Saudita, a China, o Zimbabué, Angola, Cuba e outros destinos paradisíacos dos direitos humanos, liderava o ridículo Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas, cuja missão consagrada consistia na multiplicação de relatórios condenatórios de Israel. O protesto continuado de países como os EUA ou Austrália só podia confirmar a bondade natural do Conselho e de um dos seus instigadores como foi Kaddhafi.
Também foi muito conveniente quando formou com outros padroeiros da causa dos oprimidos, como Fidel Castro e Chavéz, uma frente espiritual-diplomática contra o império do mal, os EUA e os seus aliados. Foi alvo de elogios directos e indirectos quando apelava, não se percebia se sob o efeito de aluciongéneos, a outra globalização e a outra ordem mundial que não estivesse controlada pelo homem branco. E foi positivamente aplaudido quando exigiu o pagamento de indemnizações das antigas potências coloniais europeias às vítimas - ele próprio, claro - da colonização. Ora aqui estava o grande líder providencial que vinha corrigir as injustiças que os europeus tinham cometido no passado. Se ele estava disponível para fustigar a tenra consciência europeia, então o pessoal reconhecido estava disponível para ignorar uma ou outra excentricidade, como o facto público e notório de a tirania líbia não ter igual no Norte de África.
Tudo isto foi apreciado por muita gente no Ocidente (escuso-me de dizer o mesmo quando Kaddhafi era um dos grandes patrocinadores do terrorismo internacional, apenas porque essa história é mais velha). Quem julga que estou a exagerar, leia o artigo publicado na "New Statesman" pelo inefável Anthony Giddens - o guru de tanta gente que ainda nos governa -, em 2006, repito, em 2006, que por um triz não descobria uma (outra) terceira via na Líbia e vislumbrou no rosto de Kaddhafi a face de um "modernizador".
É por estas e por outras que dispenso as cantigas da malta que há tanto tempo que desafina.
.
Adenda: o vídeo do "Combate de Blogs" da TVI24 do último sábado está aqui.

Quizz

Se excluirmos a hipótese do consumo abusivo e continuado de psicotrópicos, o que levará um economista funcionável a ser assim aos domingos e feriados?

A Irmandade Muçulmana, Yusuf al-Qaradawi, o seu Líder Espiritual, Hitler e a Providência Divina, James Clapper & Outras Aberrações


Qaradawi is very much in the mainstream of Egyptian society, he’s in the religious mainstream, he’s not offering something that’s particularly distinctive or radical in the context of Egypt,” says Mr. Hamid. “He’s an Islamist and he’s part of the Brotherhood school of thought, but his appeal goes beyond the Islamist spectrum, and in that sense he’s not just an Islamist figure, he’s an Egyptian figure with a national profile. Ler aqui. E continuar por aqui.

Get ready for the OSCARS

Justiça?

Noronha ameaça juiz com processo por escutas a Sócrates + "Governo Sócrates manipula a Justiça"+ou-= Estado da Justiça em Portugal

Podemos obviamente não concordar com as opiniões do presidente do Sindicato dos Magistrados do Ministério Público, João Palma, mas somadas às ameaças do presidente do Supremo Tribunal de Justiça, Noronha do Nascimento, que há quem diga que mais parece advogado do secretário-geral do PS e primeiro-ministro, José Sócrates, do que um advogado da Justiça, como as suas funções obrigam, dão um retrato paradigmático do sector. Aqui entre nós, acreditam mesmo que há Justiça em Portugal?

Grande Finale (105)

A Matter of Life and Death,

Michael Powell, Emeric Pressburger, 1946

Sábado, 26 de Fevereiro de 2011

Portugal tenta bloquear no Conselho de Segurança envio imediato dos crimes líbios para o Tribunal Penal Internacional - Reuters (act.)

Amigos para sempre.

Com o Brasil, a Índia e a China (com direito de veto), contra a proposta franco-alemã apoiada pelo Reino Unido e os EUA. A notícia toda aqui e também aqui e aqui. E mais aqui.

Choque tecnológico

Via imgur.

A "boa América" regressa às ruas

Os anos Bush foram pródigos em manifestações violentas por parte da esquerda americana. As comparações com Hitler ou o apelo ao assassinado do Presidente eram habituais. Estas atitudes não eram totalmente representativas do movimento de contestação, mas havia nele um elemento radical inegável. Mas essas violentas acções, uma das quais tive a oportunidade de assistir em Minneapolis, não geraram na altura grande comoção na imprensa. Afinal, era a "boa América" a lutar contra o poder opressivo dos republicanos. Muda o poder e muda o discurso.

Recentemente emergiu na política americana o tea party, também ele com vários elementos radicais associados. Apesar de nunca ter visto apelos ao assassinato do Presidente Obama, mais uma vez, vários cartazes com a figura do Hitler surgiram, entre outras acções de retórica profundamente condenáveis. Ai, ai, que este é um grupo racista, fascista e extremista. Ou seja, pegando numa minoria extremista, pintaram desse modo, todo o movimento. Mas, como na vida, tudo é circunstancial, o discurso volta a mudar rapidamente.

Na semana passada, irromperam manifestações em Madison, Wisconsin, contra o governador republicano Scott Walker, devido a uma reforma que toca nos privilégios dos sindicatos públicos. Nada que não constasse do seu programa eleitoral sufragado em Novembro passado pelos eleitores. Nestas manifestações, o elemento radical voltou a emergir: a comparação de Walker com Hitler, e mais grave, vários apelos nas redes sociais ao assassinato de governador. A pergunta: alguém fala destes extremistas nas ruas do Wisconsin, que ameaçam espalhar-se por vários estados americanos? Ou são apenas os bons sindicalistas e democratas?

PS: os senadores estaduais do Partido Democrata inauguraram uma nova forma de fazer oposição: ao verem que a lei republicana seria aprovada, fugiram literalmente do estado para não haver quorum no senado. Que inteligente forma de participar no jogo democrático. Imagine-se que os republicanos faziam o mesmo em Washington? Quantas notícias indignadas não seriam publicadas...

Falta de jeito para o negócio, redux.

Pode ler-se no site da revista Economist que a Venezuela de Chávez corre o risco de "falir". É caso para dizer, com o norte de África mergulhado num imenso turbilhão, que os nossos responsáveis políticos sabem bem em quem e onde apostar quando se trata de tentar induzir "crescimento " externo nos negócios públicos e privados portugueses. Digo que “sabem” pela simples razão de que os ditos políticos jamais poderão vir a ser responsabilizados pelo preço que todos pagaremos a partir do dia em que começarem a chegar as facturas emitidas como resultado de tão iluminadas apostas.

Surpresas (2)

E de "surpresa" em "surpresa" assim vamos.

"Either I rule you or I kill you"

E depois?

[No meio da multidão, em Benghazi, aqui, vêem-se algumas bandeiras da monarquia de Idris, do Reino Unido da Líbia.]

O problema não está no esboroamento do poder de Khadafi. O problema está no esboroamento da própria Líbia - uma bem possível consequência da queda imprevista do Qa'id. No país não há propriamente um Estado e a própria linguagem da propaganda oficial não costuma referir-se-lhe como a uma "nação" homogénea. A Líbia de Khadafi é uma Jamahiriyya, um neologismo cunhado no Livro Verde, a partir de jamahir ("massas") e de jumhuriyya ("república"). Um sistema político pulverizado em inúmeros Conselhos Populares e comunas. Para não falar do tecido tribal que, resistente, perpassa aquelas estruturas.
E sem Khadafi? Dificilmente persistirá a capilar Jamahiriyya. 'Ainda bem', dirão alguns. Pois, mas alguma forma terá de se constituir. O vazio, ou mais exactamente, estilhaços vazios serão necessariamente preenchidos. Com quê?...
Que tal, uma Somaliazinha no Mediterrâneo central?

Sexta-feira, 25 de Fevereiro de 2011

Cachimbos de lá

Alexander Esters, Auto-retrato com cachimbo, 2006.

Les beaux esprits

Hugo Chávez, a darling latino-americana de Sócrates, desmentiu o razoavelmente desmiolado secretário dos Negócios Estrangeiros britânico, William Hague, quando este deu Kadafi a caminho do exílio na Venezuela. Mas as relações entre a Venezuela de Chávez e a Líbia de Kadafi estão a resistir à provação: Chávez, no seu blogue pessoal, onde vai despejando o que vai twittando, ainda ontem escrevia:

Vamos Canciller Nicolás: dales otra lección a esa ultraderecha pitiyanqui! Viva Libia y su Independencia! Kadafi enfrenta una guerra civil!!

Para quem não saiba, Canciller Nicolás é o Luís Amado de Chavez. A que lição é que Chávez se referia é que já não consegui apurar. Mas, ao contrário dos embaixadores, militares, pilotos e demais notáveis ou detentores de posições importantes em geral que a toda a hora engrossam as fileiras da legião de súbitos opositores de Kadafi, Chávez não desarma assim sem mais. Boa parte da América Latina, incluindo o Brasil, presentemente presidindo ao Conselho de Segurança, foi apanhada em contra-pé, e hesita, tergiversa, e ajusta mal ou menos mal ao imprevisto da história, como se pode ver pelo vídeo aí em baixo. A maçada líbia não é um exclusivo do Portugal socrático ou da Itália de Berlusconi.


Uma reminiscência?

Khadafi, esta tarde, discursou aos seguidores (os últimos?) na Praça Verde de Tripoli. Lembrei-me que Mussolini, logo ele, ironia das ironias, tinha também discursado, já perto do fim da sua República, com apoio popular entusiástico, na Praça do Loreto em Milão, - o sítio onde seria ignominiosamente dependurado pouco tempo depois.

Da Série Cachimbos e Vinhos (3)

Bónus citação montesquieuana do dia:

«Dai-lhes bons vinhos e eles vos darão boas leis».

The End Is the Beginning Is the End


Esta também pode ser uma possibilidade, Manuel Pinheiro.

Assino por baixo

Duas centenas de economistas alemães assinaram um manifesto contra as soluções negociadas em Bruxelas para a crise da dívida soberana, demonstrando-se a favor da reestruturação de dívida e da criação de um mecanismo que preveja a falência dos Estados.

E quanto mais cedo os lideres dos países-membros aceitarem esta realidade melhor, acrescento eu.

Na frente interna, como o Jorge já aqui assinalou, parece que o final se aproxima a passos largos. Significativamente, o diferencial entre as taxas a 10 e 5 anos é cada vez menor fixando-se muitas vezes abaixo dos 20 pontos base.

Banda Sonora

Para Sócrates interpretar no encontro com Merkel.




«There are crows, crows, crows in the trees,
saying crows things, doing as they please.
There are crows, crows, crows everywhere,
but when I think of you dear, I don't care.»

The Gothic Archies - Crows

Sócrates

Chamado à capital; audiência para 2 de Março.

Defender Sócrates

Em permanente campanha eleitoral, Sócrates apresenta como bandeira do Partido Socialista a palavra de ordem ‘Defender Portugal’. Perante a situação na Líbia, que fornece 10 a 15% do petróleo consumido em território nacional, é obrigatório perguntar se as opções assumidas tiveram em conta os melhores interesses do País. Porque o secretário--geral socialista parece confundir os seus interesses pessoais com o interesse nacional. ‘Defender Portugal’ é hoje sinónimo no PS de defender a sobrevivência política de José Sócrates.

Hoje no CM

Kadafi, o terrorista

Como é que alguém pode ser surpreendido pela violência assassina com que Kadafi reage aos protestos? E porque apoia a Al-Qaeda a sublevação contra o regime?

Orgulhosamente sós

O que está por detrás disto, para além do espírito controleiro, é uma visão anacrónica sobre o mercado de trabalho, o que até seria cómico, não fosse o assunto tão sério, tratando-se este de um Governo que se acha na vanguarda do progresso. Ao relacionar a nossa identidade com a profissão que exercemos (efeito psicológico) e ao acrescentar burocracia à mudança de profissão, o Governo quer dar outro passo no sentido da inflexibilidade laboral. E, é importante que se diga, mais um passo no sentido contrário ao que lá fora se faz. Estamos, no fundo e cada vez mais, orgulhosamente sós.

Oxímoros

As taxas de juro a dez anos fixaram-se acima dos 7,5%. Já as obrigações a cinco anos estabeleceram-se acima dos 7,3%. Por seu turno, a dois anos, acima dos 4,7%.

Estado de Direito?


«O titular do Tribunal Central, nos últimos anos, foi o responsável pela maioria das buscas e ordens para julgar políticos, banqueiros e grandes empresários. Carlos Alexandre foi o juiz que autorizou buscas para apurar suspeitas de corrupção no processo Freeport, que permitiu ao Ministério Público invadir os maiores bancos e grupos económicos no Processo Furacão, que prendeu Oliveira e Costa e pronunciou todos os arguidos dos processos Portucale e das contrapartidas pela compra dos submarinos.»

Quinta-feira, 24 de Fevereiro de 2011

Crónicas do planeta oval


A meio ano do Mundial de rugby na Nova Zelândia (e Christchurch, a cidade atingida pelo sismo de anteontem, é precisamente uma das bases do torneio), o jogo que provavelmente decidirá o vencedor do Seis Nações, o Inglaterra-França, realiza-se no próximo Sábado em Twickenham.
Ambas as equipas triunfaram nas duas jornadas anteriores e mantêm a esperança de ganhar o Grand Slam, mas britânicos são claramente favoritos. Derrotaram por duas vezes a Austrália no ano passado (uma delas, em Novembro, com uma exibição de se lhe tirar o chapéu de coco) e perderam por curta margem com os All Blacks e a África do Sul. Mais do que isso, segundo a opinião unânime da exigente imprensa de Sua Majestade, estão a jogar como não se via desde 2003 - o ano em que conquistaram o Mundial, o primeiro e último de uma selecção do hemisfério norte.
O mérito é de todo de Martin Johnson, o actual treinador e antigo capitão da equipa da rosa no annus mirabilis. Desde o último Seis Nações, por onde os ingleses se arrastaram penosamente, mudou metade da tropa de branco, injectou-lhe sangue novo e resolveu a sua dependência psicológica de Johnny Wilkinson, o mítico 10, deixando-o no banco. Para o lugar da lenda viva entrou Toby Flood, que está muito abaixo do melhor Wilko (o de 2003, claro), mas acima da presente sombra. O mesmo aconteceu a Simon Shaw e Steve Borthwick, os segundas linhas até aí de pedra e cal. Johnson já confessou que a decisão de excluir o seu velho amigo Borthwick foi a mais difícil da sua carreira, mas pode dizer-se que foi também uma das mais compensadoras. Os novos recrutas, Tom Palmer e Courtney Lawes, revelaram-se espantosamente dinâmicos, funcionando como terceiras linhas no jogo aberto, o que imprimiu uma surpreendente velocidade à pesada Inglaterra, por tradição mais forte nas fases estáticas. Junte-se os talentosíssimos Ben Foden a defesa e Ben Youngs a médio de formação, dois lugares em que o talento não abunda por aquelas fleumáticas bandas, e temos uma colheita excepcional de ensaios, entre os quais um brilhantíssimo da estrela ascendente Chris Ashton contra os Wallabies, em Novembro (procurem no Youtube e vejam a troca de pés de Youngs e o passe delicioso de Lawes antes da corrida de 80 metros do ponta). A Itália que o diga: apanhou oito ensaios, sendo quatro de Ashton, um record absoluto no torneio. Em resumo, a Inglaterra é a grande candidata à vitória no Seis Nações e a uma vaga nas meias-finais do Mundial com os três gigantes do hemisfério sul.
Já a França, que venceu o torneio de 2010 com um grand slam, enfrenta agora uma magnifique crise de confiança. Depois dos humilhantes 59-16 contra a Austrália em Paris, na campanha de Outono, parece que tudo corre mal. Na última jornada, os gauleses ganharam à Irlanda, mas marcaram apenas um ensaio contra três dos homens do trevo, valendo a eficácia de Morgan Parra a chutar aos postes. Os números da era Lièvremont não são exactamente napoleónicos. Em 31 jogos, apenas 58% de vitórias e 65 ensaios marcados (muito longe dos 103 nos 31 jogos anteriores...), mas 81 jogadores utilizados. Sim, são mesmo 81, e esta tem sido a principal crítica feita ao mister (como é que se dirá mister em francês?). É impossível ter o mais elementar modelo de jogo com tal rotatividade. O belo rugby champagne azedou, hélas!
Nada está decidido, porém. Há um ano, Lièvremont ouviu as mesmas críticas e depois foi o que se viu. E a França é tão irregular, à boa moda latina, que até pode cantar de galo em Londres só para emmerder os bifes. Desde 1066 que fazem isso.

Vejam lá se percebem de uma vez por todas: para além de permitir aos pais escolher, sai mais barato ao Estado

Cerca de 25 mil alunos que têm subsídios custam menos ao Ministério da Educação do que um estudante da escola pública.
Agora aguardam-se os gritos de indignação socialista para com esta injustiça, que é o Estado financiar os privilégios destas famílias que, com vagas nas escolas públicas da sua vizinhança, ousam escolher e inscrever os seus filhos em escolas privadas, mesmo não sendo ricos.

Não se viram na Praça da Liberdade slogans anti-americanos, nem bandeiras de Israel a serem queimadas

O povo egípcio, como qualquer povo do mundo, quer a democracia, e a democracia, como toda a gente sabe, é a liberdade (quem se atrever a discutir a equação leva pedradas). O povo é sereno, quer pão, paz, empregos e checks and balances. Os conservadores são cépticos, no fundo, no fundo, porque abominam a mudança e a mudança é sempre boa, quando o que está não é. Quem não se emociona muito com a Praça da Liberdade é um tipo moralmente duvidoso, para não dizer racista hipócrita. E fica proibido de falar quando chegar (como chegou) a vez da Líbia, ou da Venezuela, ou do Irão. É tudo a mesma coisa: o bem de um lado e o mal do outro. Entre uma coisa e outra só cabem sofismas. Pobre gente abstracta.



Dois milhões de egípcios cantam na Praça Tahrir: "Vamos para Jerusalém, Mártires aos milhões".

E eu que não me tinha dado conta que Portugal tivesse um modelo de desenvolvimento

Governador do Banco de Portugal critica modelo de desenvolvimento do País

Minudências

O turismo democrático assenta agora arraiais na Líbia. Afinal, não basta juntar água para fazer a democracia árabe: aqui derrama-se sangue. Não se sabe ao certo quantos mortos provocou já a loucura de Kadhaffi, mas para os turistas é apenas um contratempo. Trezentos? Três mil? Que interessa - se podemos ver a revolução em directo e a cores? Ergamos a nossa taça à liberdade e tal e façamos apostas sobre o próximo dominó.
Um passo atrás. No Egipto, o novo governo conserva metade dos ministros de Mubarak. Comentários dos turistas? Népias. As minudências são para os cínicos.

Samir Kassir

"(...) Kassir está preocupado, acima de tudo, com os próprios árabes: "para sair da desgraça é preciso que sejam os próprios árabes a fazê-lo". E, para o autor, existe um grande obstáculo entre os árabes e este seu renascimento: os "islamistas jihadistas", esses profetas da desgraça. Os Bin Laden vivem da desgraça árabe, e não querem que ela acabe. (...) O islamismo é, sem dúvida, um meio poderoso, até porque abastece "o estatuto de vítimas que os árabes se comprazem em alimentar" numa lógica de choque de civilizações. Neste ponto, Kassir, mais uma vez, faz fogo sobre o Ocidente e sobre os árabes. Ou seja, crítica os teóricos do choque civilizacional dos dois lados da barricada. Do lado árabe, Kassir afirma que é preciso fazer uma reavaliação do estatuto de Vítima que está no centro das sociedades árabes: "a rejeição da guerra das civilizações exige, do lado dos árabes, o abandono do arabocentrismo - ou do islamocentrismo - negativo que só concebe a história do mundo como uma ameaça permanente contra si". Como é que isso pode ser feito na prática? Kassir não tem papas na língua: recusar a complacência em relação a coisas como a fatwa lançada sobre Rushdie e aceitar que a democracia é um património comum de toda a humanidade. Este homem não foi assassinado por acaso. "

Henrique Raposo
, a propósito do livro acima, a ler na íntegra aqui.

Ligações perigosas

A outra grande aposta da diplomacia portuguesa sob a batuta socrática, Chávez, agora também mais pobre de interlocutores estratégicos, que se referia ao "líder carismático" como o "Bolívar do povo líbio". Aqui, uma análise das relações entre os dois grandes amigos. "Hitler", como compara o ex-ministro da Justiça líbio, é manifestamente um exagero de linguagem, salvo possivelmente no final, ainda segundo a previsão do próprio.

Se há - e o assunto é verdadeiramente um tópico inexistente no (paupérrimo) debate público - algo de absolutamente notório em matéria de relações externas nos últimos anos de Portugal, é uma orientação estratégica calamitosa para o prestígio do país, que passou a situar-se internacionalmente como um imergente no Terceiro Mundo, tecendo, para se afirmar, estreitas cumplicidades com ditaduras carcomidas, ditadas, em parte, pelo imperativo de vencer a qualquer custo a aposta na entrada para o Conselho de Segurança das Nações Unidas - com, ao que julgamos saber, a anuência do Presidente da República. À medida que os Estados-pária caírem, avolumar-se-á o passivo de tamanho desnorte. De notar que a oposição à direita tem sido, salvo raras vozes completamente isoladas, co-autora tácita, por omissão, da reagulhagem terceiro-mundista de Sócrates, um parvenu na diplomacia, como em tudo na sua vida, e portanto achatando a inteligência de todas as coisas pelo faro para o dinheiro. Enquanto o respaldo da pertença "europeia" se manteve de pedra e cal, as derivas estratégicas não causaram stress em demasia sobre a identidade e o jogo de forças a partir do qual Portugal pode agir externamente. Acontece que o respaldo "europeu" não é substituto da afirmação própria. Como a breve trecho nos farão, a contragosto, perceber, assim que nos entregarem definitivamente a nós próprios. Sem dinheiro, sem respaldo e com aquela reputação.

A língua (de pau) do ministro Amado

O regime líbio é (está):

- anacrónico
- bloqueado
- muito específico nas suas dimensões internas
- totalmente diferente dos regimes da região
- e ainda mais dos regimes europeus

e pode e/ou deve

- ser objecto de uma adaptação inadiável
- e/ou sanções "naturais" (sic)

Mas nada de confusões, é tudo coordenado, muito gleichshaltung: UE, Liga Árabe, União Africana. Não pode haver passos em falso. Tudo em ganso.

Benchmarking flash. E uma piada da Ana Gomes.

Cachimbos na TV



Logo à tarde, às 14h, estarei no programa Sociedade Civil da RTP2 a conversar com outros três convidados da jornalista Fernanda Freitas sobre a Bíblia. Como o programa foi pré-gravado, posso já dizer que acabámos (evidentemente) a falar de Saramago e Leonard Cohen.

Provincianismo é

... estar em curso uma revolução no mundo árabe e procurar os contra-revolucionários em Lisboa.

Grande Finale (104)

What Ever Happened to Baby Jane?,

Robert Aldrich, 1962

Quarta-feira, 23 de Fevereiro de 2011

As revoluções e as mulheres

Leio tantas certezas sobre as revoluções nos países muçulmanos - são pró-democracia, são pró-fundamentalistas, são laicas, não são laicas, vão singrar, não têm possibilidade de trazer melhores regimes do que os moribundos, ... - que fico perplexa. Como não simpatizo com nenhum dos regimes contestados pela populaça, não me afligem as revoltas populares. Não faço palpites sobre futuras governações dos países em ebulição, mas uma certeza tenho: se as principais vítimas das limitações de direitos humanos nestes países não estiverem implicadas na sua contestação e na sua mudança - e refiro-me, obviamente, às mulheres, seres especialmente diminuídos nos seus direitos humanos em todos os países onde o Islão domina - o que aí virá não será melhor do que temos (têm) tido.
Como a evidência acima constatada parece só interessar ao sexo feminino - não esqueçamos que a defesa dos direitos humanos só costuma preocupar dirigentes mundiais quando há direitos humanos de homens envolvidos e que, no caso do mundo islâmico, todo o ocidente se sentia confortável em fazer vista grossa aos atentados aos direitos humanos das mulheres destes países se isso convencesse, por exemplo, o Irão a desnuclearizar-se (esta moeda de troca foi mesmo implicitamente sugerida por Obama naquele seu infame discurso de apaziguamento no Cairo há tão poucos aninhos) - leia-se também a Inês Serra Lopes e a Joana Carvalho Dias.

O golpe fracassou

Dia 23 de Fevereiro de 1981 Espanha viveu uma tentativa de Golpe de Estado que ainda hoje está envolvido em mistério.
Tejero Molina tomou o Congresso de Deputados e Milans del Boch controlou Valencia durante 17 horas. Todavia ainda hoje não se sabe quem seria a "autoridade competente" que os militares aguardavam, e a versão oficial que seria o general Armada não convence grande parte dos historiadores.
De qualquer modo, o golpe foi importante para a afirmação do Rei e a consolidação da democracia.

Canção de Embalar

Surpresas

Acabei de ver uma pequena reportagem na Al-Jazeera (ou na BBC, não tenho a certeza em qual) em que professores da LSE, a escola onde o filho de Kaddafi se doutorou em 2008, eram entrevistados de queixo caído de surpresa com o discurso do seu ex-aluno na televisão líbia dizendo que está do lado do seu pai e que ambos lutarão até à última bala. Os professores daquela eminente instituição estavam estupefactos com a escolha de Kaddafi junior. Ao que parece, na tese de doutoramento que os jornalistas lá foram espiolhar, o agora doutorado em Ciência Política não poupou exortações à sociedade civil, nem denúncias dos governos opressivos.
Eu também fiquei surpreendido. Com tudo isto. Com tudo, menos com o filho de Kaddafi.

O cerco

The German parliament is set to approve sweeping proposals to reinforce Berlin’s hard-line negotiating position in Brussels, ruling out any European crisis response measures that involve buying government bonds or issuing loans to help debt-strapped governments buy back their own debt.

The resolution, drafted by the government’s own supporters, seems certain to be passed in the Bundestag on March 17 – one week before a European Union summit in Brussels that has to agree on a comprehensive package of measures to head off any future crises in the eurozone.

Members of parliament insisted on Wednesday that they want to strengthen the German government’s position by setting strict red lines sending a clear signal to other EU members of Germany’s conditions for providing financial support to other countries.


Até aqui, realmente sem surpresa: mas isto?

In addition to rejecting bond-buying and buy-back arrangements, however, the Bundestag will also call for the rescue package to include an EU-wide financial market tax to reduce national budget deficits.

E, de novo, sem surpresa:

The resolution also insists that no further “special arrangements” should be agreed outside the ESM, such as the bail-out negotiated last year for Greece. It declares that the eurozone must not become a community where the debt liabilities of one country are borne by the others – a form of words intended to rule out issuing euro-denominated bonds to replace a portion of national sovereign debt, as proposed by many other EU members. Continuar a ler aqui.

Em síntese:
1) O Fundo Europeu de Estabilização Financeira não comprará obrigações, o que o levaria a intervir directamente nos mercados;
2) Não financiará a recompra de obrigações para diminuir o peso da dívida (resta a reestruturação de que não se fala, para já...);
3) E não permite que a Alemanha subscreva a ideia de euro-obrigações substitutas dos títulos de dívida soberana nacionais - cada um que trate de si.

Conferir com o que Axel Weber defendeu ontem, depois deste estoiro.

Decididamente, a Europa não é exactamente a darling dos alemães. E decididamente vamos ter de... pensar no caso. Uivar à Lua não resolve.

Produtividade

Notícia no Público:

«Comissão de Revisão Constitucional prolonga trabalhos por mais quatro meses.

A comissão eventual de Revisão Constitucional decidiu hoje propor o prolongamento dos seus trabalhos por mais 120 dias, até Junho. A decisão foi feita pelo presidente em exercício, Ricardo Rodrigues, e foi aprovada por unanimidade pelos deputados da comissão na reunião de hoje. A decisão tem de ser confirmada em plenário da Assembleia da República.

A comissão esgota os seus primeiros 120 dias de mandato a 1 de Março sem que se tenha terminado a chamada “primeira leitura” das propostas de revisão, ou seja, uma primeira análise, e sem que se tenha começado a negociar e fixar propostas finais.»

Ex-ministros criticam o monopólio das escolas estatais

Primeiro foi Eduardo Marçal Grilo, agora é a vez de Guilherme d'Oliveira Martins - os dois ex-ministro da educação de governos socialistas criticam a actual política educativa, que agrava ainda mais o monopólio estatal na rede pública de educação. Já em 2008 tinham publicado um artigo conjunto no Expresso onde defendiam um Serviço Público de Educação aberto e plural, composto tanto por escolas estatais como por escolas particulares e cooperativas.

E eu que pensava que para os socialistas a Saúde devia ser gratuita para preservar o Estado Social

Ministra admite cobrar novo imposto para a Saúde

Existem, existem.

Não sei quem é que este texto pretende atingir. Francamente, não sei. Sei que, de um momento para o outro, surgiu em Portugal uma nova espécie humana: a dos "cínicos", de "direita", claro, porque presumo que também haja "cínicos" de esquerda. É verdade que o entusiasmo revolucionário tende a contagiar mortalmente a alma da esquerda, mas se não conhecerem nenhum "cínico" de esquerda posso apresentar-vos alguns. Os "cínicos" de "direita", sejam lá quem eles forem, não precisam de mim para os defender. Ainda para mais de mim, que decididamente não sou "cínico", apesar de não lhes ser alérgico como efectivamente sou aos gatos.
Seja como for, este texto julga acertar em cheio no porta-aviões do cinismo nacional, quando na verdade desperdiça a sua munição com um redondo tiro na água. Não sei quem avançou que nas Arábias não há "revoluções", nem "revoltas". Não sei quem reivindicou para a Europa o exclusivo dessas duas práticas. Mas sei que o truque de inventar um espantalho-adversário para melhor derrubá-lo é velhinho, e nem por isso mais recomendável. Reconheço que haja muita gente que põe em dúvida a capacidade da actual sociedade "árabe" se democratizar, quando se entende por "democracia" uma sociedade configurada segundo padrões definidos pela Europa - a culpa desta última relação é da história universal, não é minha. Há bons argumentos a favor dessa tese, e há maus argumentos a favor dessa tese. Por exemplo, há quem de modo implícito ou explícito veja uma contradição insanável entre o Islão e a liberdade política, ou a moderação do poder. Mas a exposição dessa contradição era um lugar comum do pensamento europeu nos século XVIII e XIX, e isso valia para os "cínicos" e para almas generosas, como Rousseau.
Porém, o que mais perplexidade me causa no texto citado é este passo inteiramente gratuito: os desgraçados dos "cínicos" persistem em considerar (com um ligeiro toque de racismo, atrevo-me a sugerir) os Árabes "incapazes de altos sonhos e de gestos de nobreza que em nós são tão naturais, que nos assentam tão bem". Ignorando a associação exclusiva entre "altos sonhos e gestos de nobreza", por um lado, e a luta pela democracia, por outro (que, aos meus ouvidos, não cínicos, garanto-vos, me soa ligeiramente redutora e, portanto, aviltante das possibilidades da imaginação moral dos homens e da sua nobreza), valeria a pena dizer, e apenas para começar, que a nobreza do homem deve ser admirada mesmo quando perde no seu combate com o aço frio. Mas nem por isso deixa de perder, e nem por isso é menos nobre.

Os cínicos e os tontos

Artigo de Fernando Gabriel no Diário Económico


[A]s televisões e o YouTube deram ao "homem árabe" aquilo que nem Jacques-Louis David nem Eugène Delacroix puderam oferecer aos esboços do "homem universal" -o de 1789 e o de 1848, que animou a "Primavera dos povos": uma narrativa construída em tempo real, dinâmica e com uma aparência de autenticidade. Não seria desavisado tratar essa narrativa com cepticismo: como recordou a historiadora Anne Applebaum, a televisão cria uma estória linear que pouco mais é do que ficção. Por exemplo, os acontecimentos no Bahrain são inteligíveis como o despertar da longa noite da autocracia, ou trata-se de mais um episódio do sectarismo religioso islâmico, num país-ilha com uma população maioritariamente xiita governada por uma monarquia sunita? Um eventual sucesso dos xiitas é um triunfo da "democracia" ou uma extensão geográfica do poder iraniano?(...)

Quando Mubarak abandonou o poder, tinha um livro de Raymond Aron sobre a mesa de trabalho, do qual traduzo um excerto: "não é o sufrágio universal, esse instituto político discutível e ulterior, nem o sistema parlamentar, que é um procedimento democrático entre outros, mas a liberdade, cujas condições históricas foram a dualidade dos poderes espiritual e temporal, a limitação da autoridade do Estado e a autonomia de instituições como as universidades". Só um tonto não reconhece a inexistência de condições históricas de liberdade nos países árabes; só um tonto perigoso pode supor que organizações como a Irmandade Islâmica, que se propõe "islamizar o conhecimento", oferecem garantias de manutenção de uma pax dei não segregadora. Quem estiver disposto a perceber o que se passa deve começar por desligar a televisão e aceitar que a "democracia" não chegará ao mundo árabe como os frangos ao supermercado: previamente acondicionada e pronta a cozinhar de acordo com a receita na embalagem.

A oeste nada de novo

A não consolidação orçamental a ser outra vez tentada com mais impostos.

A não resolução de nenhum problema na justiça a ser outra vez tentada com mais tribunais especializados.

A blogosfera e o resto

Muitos amigos e outros conhecidos gostam de me dizer e redizer que a qualidade da blogosfera é muito duvidosa. Eu respondo sempre, e em defesa da blogosfera, que por muito má que esteja, a nossa blogosfera nacional continua a ser melhor do que a opinião que se vê na televisão e do que a que se lê nos jornais. Os cépticos que façam esta comparação em qualquer dia da semana. Pode pensar-se que não é grande cumprimento para a blogosfera compará-la com o que está tão baixo, mas por acaso continuo a achar que é. Por isso, poupem-me à sobranceria do costume e tenham juízo.

Mulher da Erva

Fim de ciclo



A maré está mesmo a mudar e os "abrantes" não fogem à regra. Os assessores já se queixam da "política baixa". (será uma sessão de auto-crítica?). Não deve faltar muito para fazerem um post a comparar o chefe ao ditador norte-coreano.

Solidão

Não vou aqui repetir os pormenores macabros da história. Mas o caso interpela-nos pela sua insuportável desumanidade. Uma pessoa esteve nove anos morta em casa. Mumificada. Ninguém se interessou, ninguém investigou. Nem sequer a segurança social, onde os reformados são periodicamente obrigados a fazer prova de vida. Claro que podemos lamentar a passividade das autoridades. Ou criticar uma interpretação formal e burocrática da lei. Mas sejamos claros: a culpa não está apenas no sistema. Ou sequer no Estado que nos habituámos a ver como culpado das nossas frustrações. Os limites da actuação pública são reais e ficaram patentes nos casos das últimas semanas. Mostram uma contradição entre as promessas de protecção social e uma realidade feita de solidão e de abandono. O sistema público que criámos é burocrata por natureza. Está a tornar-se cada vez mais robotizado e impessoal. (...) Coloquemos por momentos de lado os défices e a dívida. Pensemos no modelo de sociedade que estamos a construir. Estes casos ajudam a perceber que em vez de mais Estado precisamos de mais sociedade. Uma sociedade dinâmica e descentralizada, com as suas famílias, associações, clubes, bairros, paróquias, misericórdias, redes de voluntariado e de vizinhança. (...)

Canto Moço

Terça-feira, 22 de Fevereiro de 2011

As revoluções no mundo árabe

O optimismo que se vive por estes dias em relação ao Médio Oriente é um sentimento saudável. Eu também defendo que estas revoluções são positivas e que devem ser encaradas com um optimismo moderado. No entanto, nem tudo é preto ou branco e existem várias ameaças ao sucesso destas revoluções, mesmo que muitas destas ditaduras acabem por cair. O debate só ganha com opiniões contraditórias, mais ainda quando o futuro é complexo e incerto. Por isso aconselho este artigo da

Os fiéis amigos

Sócrates e o seu ministro Amado são fiéis amigos. Não se lhes ouviu ainda uma palavra de condenação da violência com que o líder carismático, como Sócrates caracteriza o seu parceiro Kadafi, está a reagir aos protestos na Líbia. E não parece que a "revolta" de Ana Gomes, "como portuguesa e como diplomata portuguesa", venha a mudar grande coisa. Há amizades que não se quebram sem mais nem menos (mais ou menos duas centenas de mortos). Há valores mais altos e o futuro ainda não está encerrado. Digamos que Amado está mais de pedra e cal com Kadafi (até agora, por junto, tudo o que a situação lhe sugeriu foi a reflexão caricata, também já ouvida a Sarkozy, sobre a necessidade de um Plano Marshall para a região) do que, por exemplo, o ex-embaixador da Líbia nos Estados Unidos. Apenas um exemplo. São os "nossos interesses" na região, explicava ontem o fiel amigo, e, acrescento eu, o entendimento igualmente canino de quais eles sejam e como se defendem e projectam. A menos que não estejamos a falar da mesma coisa, nós.

Será que o Kadafi já pagou os Magalhães?

Ver aqui.

O líder carismático...

...está a falar aqui em directo. Agora.

... Não vai deixar o poder, e prefere morrer como mártir (também não aproveita a Sócrates e Amado). ...

... Desta vez não vem com guarda-chuva. ...
... O inglês do tradutor é de fugir. Estou com dores de cabeça.
... Diz que há uma agressão americana e desafia os que gostam de Kadafi (fala como os treinadores de futebol) a ir para a rua e defender a Líbia...
... Está a ler de um livrinho verde e diz que punirá os manifestantes, a que chama um bando terroristas, com a pena de morte...
... Ainda não falou no Plano Marshall...
... Adverte que os manifestantes querem transformar a Líbia num Estado islâmico (o que mostra que está em linha com Amado)...

Portanto, para já, segundo o líder carismático, há um bando de terroristas, a mando da América, que quer transformar a Líbia num Estado islâmico, a punir com a pena de morte, intento (o do Estado islâmico) contra o qual Kadafi quer resistir e morrer como mártir. ...

Faz sentido. É nestes momentos que tenho saudades dos tempos em que era jornalista.

*Foi a cobertura em directo possível.*

Ainda a execução orçamental

Depois de tudo o que já se escreveu sobre a execução orçamental de Janeiro, em particular pelo Álvaro Santos Pereira, gostaria de acrescentar ainda algumas notas.

Do lado da receita, o próprio boletim da DGO reconhece que “a variação homóloga do IRC em Janeiro é de 153,4%, resultado devido em larga medida à tributação de dividendos objecto de distribuição antecipada no mês de Dezembro.” Para além de outro efeito especial nos outros impostos directos e no “Imposto sobre Veículos (ISV) – variação positiva de 59,9%, em resultado de antecipação significativa das vendas de veículos automóveis no mês de Dezembro.” (p. 8).

Expurgando estes efeitos irrepetíveis, teríamos as receitas fiscais a crescer cerca de 7% e não os 15,1% registados.

Do lado da despesa há inúmeras alterações metodológicas, o que, segundo a DGO, faz com que esta esteja a subir quando estará a cair. Talvez. Mas já é muito difícil de aceitar uma queda nas transferências para o SNS, quando se sabe os buracos que este veio revelar no final do ano passado. Se as transferências para a saúde em 2010 foram insuficientes para fazer face aos compromissos do sector, quem consegue acreditar que em 2011 possam ser ainda inferiores aos montantes inicialmente transferidos no ano transacto?

Na despesa não me atrevo a apresentar valores alternativos aos oficiais, tal é a bruma que os rodeia. No entanto, é claro que os sucessos orçamentais deste primeiro mês parecem bem exagerados. Veremos se o governo consegue mesmo controlar a despesa e se a recessão não provoca um rombo excessivo nas receitas, como já ocorreu em 2009.

Sem comentários

E a curva achata, achata, até partir (act.)

Chama-me o Miguel Noronha a atenção para o facto de os spreads entre as taxas de juro a cinco anos e dez anos já só estarem em 25 pontos de base. Por seu turno, as taxas a dois anos estão agora a 4,70%*, de novo na borda do último pico. Deve ser o deslumbramento dos mercados com a excelência da execução orçamental.

*Negociaram-se já hoje a um máximo de 4,79%.

Convite


Clicar para ver melhor.

Que parva que esta gente é

Que a nossa imprensa económica e não económica é extraordinariamente deolinda, e - sei do que falo, foi a minha profissão a vida inteira - nunca a vi deolindar como hoje, é um facto. Por preguiça, estupidez, ignorância, abrantinismo natural, estende o microfone e o Governo fala. Os abrantes estão a mais, tal é a indigência. Há excepções? Pois há, como em tudo na vida. O panorama, em geral, é desolador. O episódio da execução orçamental, de Janeiro, coisa a que de costume não dou grande relevo, pois trata-se de um mês em doze, o que agrava a falta de significado por estar ele próprio, o relatório de execução, em contabilidade pública (fluxos de caixa, e não registo "económico"), é eloquente. O défice baixou não-sei-quantos-por-cento! E há títulos, o Governo rejubila, a imprensa deolinda rejubila, etc. Se a descida do défice, tal como indiciada pela execução, está em linha com o orçamentado, como é que essa redução foi conseguida, etc., são perguntas que não se fazem. A ter em atenção: a evolução da receita será função não só dos agravamentos nas taxas de imposto como - et violá - da actividade económica. Depende em medida larga disso e é, por isso, em larga medida, contingente. O Governo só controlará (controlará?) até ao final do ano a despesa primária (os juros são para pagar). É aí que deve estar o foco do acompanhamento. E como correram as coisas? Os Comediantes foram ver o relatório e comparar: comparar o que deve ser comparado - a despesa primária deveria descer 3,7% e aumentou 0,4%! Depois de cortes salariais, etc. Álvaro Santos Pereira também escrutinou os parcos dados disponíveis. É do Desmitos que retiro este quadro comparativo da evolução da despesa em Janeiro.

Caso para fulminar já o Governo? Não, pelas razões supra. Caso para nos preocuparmos já? Sim. Sobretudo tendo em conta a universalmente reconhecida incompetência do Governo em matéria de gestão orçamental. Salvas de louvor é que só mesmo com esta coisa a que chamamos Governo e esta imprensa parva que se resume a ser o seu eco.

Informação: " A Líbia não é a Tunísia nem o Egipto"

A propagação da revolta para lá da Cirenaica não era previsível. Previsivel seria a dureza da reacção do regime em defesa do seu "líder popular e grande pensador" Al-Qadhafi. Homem cujas ideias, como se pode ler na nota do editor do Livro Verde, "interpretam a vida como ela irrompe do coração dos atormentados, oprimidos, miseráveis e desgostosos...e assinalou o início da era das Jamahitiriyat (estados de massas)".
Não foi à toa que a chamada "oposição benevolente" ao regime de Mu'ammar Al-Qadhafi, Seif Al-Qadhafi, repetiu por 7 vezes a frase " A Líbia não é a Tunísia nem o Egipto", num discurso que devemos ler com muita atenção. Infelizmente, para o provável desfecho dos acontecimentos e futuro da Líbia, ele tem razão.
Já agora, que estamos em maré de previsões, vale a pena recordar que no final do ano de 2010 os nossos serviços de informações (SIED) tomaram a opção política de fechar as antenas em Marrocos, no Egipto e indirectamente na Argélia, mas manter antenas em Pequim, Moscovo e Nova Deli. Quer estrategicamente quer orçamentalmente foi o que podemos designar de uma opção bem informada.