Segunda-feira, 31 de Janeiro de 2011

O que fazer com o Egipto?

Não é fácil falar sobre esta região. Há uma complexidade subjacente ao tema que nos obriga a ser cautelosos e evitar ditar sentenças definitivas. Esta é uma região que, devido aos seus factores muito específicos, afecta o complexo mapa das relações internacionais. O facto de possuir as principais reservas de petróleo, um recurso de que todos dependemos, coloca-o no centro de todas as atenções. Por outro lado, é o berço de um dos movimentos mais perigosos do século XXI, o extremismo islâmico, que ameaça todas as democracias, a começar pela única que verdadeiramente existe no Médio Oriente, Israel.

Por isso é importante olhar para o que se passa no Egipto, e cujo desfecho terá repercussões em toda a região. Este país tem sido um importante aliado das democracias ocidentais. Foi o primeiro país da região a aceitar Israel como um Estado soberano e tem sido importante para conter as ideologias extremistas da região. Por isso recebe ajuda dos Estados Unidos, e foi aceite no Ocidente como um Estado dos "seus". Mas sempre existiu aqui uma duplicidade evidente: enquanto se pedia reformas democráticas na região, o Ocidente foi fechando os olhos para o que se passava no interior dos seus aliados, como no Egipto. E foi este o principal falhanço das democracias, que não fizeram o suficiente para obrigar Hosni Mubarak a liberalizar o regime. Se tivessem sido implementadas as reformas necessárias, hoje as forças democráticas teriam a força suficiente* para se impor à Irmandade Islâmica, uma organização que inspirou a criação da Al-Qaeda e que representa um enorme perigo para a estabilidade da região. Tendo falhado nessa premissa, qual a reacção que agora o Ocidente, nomeadamente os Estados Unidos, devem ter?

A Administração Obama foi lenta na reacção a estes acontecimentos. Ainda há uma semana, Hillary Clinton reafirmou a sua crença na estabilidade do regime, quando tudo já apontava para esta enorme convulsão. Apenas passados quatro dias, Barack Obama sentiu a necessidade de falar com Mubarak, apelando em público para o respeito dos direitos humanos no país e reforçando a importância de reformas democráticas. Já no domingo, Hillary Clinton foi aos cinco programas de análise política nas TVs americanas para reafirmar que é necessário dar passos seguros rumo às reformas democráticas e respeito pela vontade do povo egípcio. Tarde, mas talvez ainda a tempo. Parece evidente que Mubarak tem os dias contados à frente do Egipto. Se cai já ou se consegue alcançar um acordo com a oposição para um período de transição, não sabemos. Mas a resposta da Administração parece-me que só pode ser uma: colocar-se ao lado das forças democráticas, ajudar ao período de transição e tentar criar no país condições para impedir que a Irmandade Islâmica chegue ao poder. A repetição do que se passou no Irão em 1979, onde os radicais islâmicos, depois do derrube de um poder despótico, o substituíram por um ainda pior, seria catastrófico. Pior que ditaduras amigas são ditaduras inimigas. Obama tem essa responsabilidade pela frente, sendo certo que não existe muito que dependa das suas acções. Mas se não tentar reforçar o lado democrático contra o poder actual e os radicais islâmicos que espreitam pela sua oportunidade, Obama poderá estar a repetir o papel de Jimmy Carter em 1979.

* Várias pessoas têm afirmado que é quase certo que a Irmandade Islâmica venceria umas eleições democráticas no Egipto. Como escreve Robert Kaplan, na Foreign Affairs, esse cenário não é assim tão evidente. Por isso é importante reforçar o papel das forças democráticas, até para os impedir de fazer o triste papel dos Mencheviques em 1917.

Dr. Passos Coelho, este senhor tem de ser o seu Ministro da Educação

Proz e Kontras: sôbre educassão

Como não podia deixar de ser, a ministra "socrática", já começou com umas tretas vulgarmente propagandísticas: "os Portugueses já se aperceberam que a Escola está mais exigente" [sic!], etc. Vê-se por lá o "habitual" do PSD (que, prevejo, virá com umas banalidades contemporizadoras) e o incessante Albino-dos-progenitores (autêntica cavalgadura de Tróia do governo "socrático" na Escola). Felizmente, também lá estão o Nuno Crato e o Mário Nogueira. A respeito destes dois, desenganem-se os sectários susceptíveis da "esquerda" e da "direita", que nunca avistam nada para lá da perspectiva da manada tribal: no que realmente conta, eles estão, objectivamente, do mesmo lado. (Como dizia o camarada Mao Tse-Tung, na hora da verdade, o que importa é que as balas vão todas para o mesmo lado.)

Educação e Ideologia na RR


A minha crónica desta semana na Rádio Renascença: "Educação e Ideologia".

O debate público em torno dos cortes no financiamento às escolas com contratos de associação tem sido bastante revelador do estranho entendimento que alguns têm dos objectivos do Estado social. Assim que o Governo anunciou os cortes às escolas não estatais, acompanhado pela propaganda do costume que apresenta sempre os bravos ministros lutando infatigavelmente contra as hordas do “privilégio”, levantou-se uma barragem de comentadores em seu apoio. O seu intuito pode ser resumido a isto: criticar tudo o que fuja ao controlo total do Estado central. A crítica é muitas vezes mal informada; outras vezes mal intencionada. Mas procura sempre esconder-se atrás de um argumento geral de defesa intransigente do Estado social e da sua superior humanidade.
Pouco importa que o Estado social tenha como propósito e justificação o acesso das pessoas a bens que se consideram indispensáveis; pouco importa que as estruturas agora afectadas forneçam esses bens de forma satisfatória e que sejam as populações, e não a burocracia do Ministério, a reconhecer o facto. O que conta em Portugal em pleno ano de 2011 é a propriedade dos meios de provisão desses bens. Se é do Estado, então está salvaguardado o Estado social e a fraternidade entre os povos. Se a propriedade escapar à malha do Estado, então teremos necessariamente a opressão dos pobres às mãos dos ricos, os fracos agrilhoados pelos poderosos. Para que a questão concreta dos problemas orçamentais do nosso sistema educativo encaixe nesta aberrante perspectiva vale quase tudo. Desde o sofisma mais inocente até à mentira descabelada, já para não falar na exploração indecorosa e sistemática dos ressentimentos que inevitavelmente grassam numa sociedade pobre, rígida e desigualitária como a nossa.
Como o País não está suficientemente estatizado querem estatizá-lo ainda mais. Afinal, é só mais um passo no caminho para a pobreza, para a uniformização e para o definhamento.

Enquanto por cá a última moda é reforçar a gestão estatal das escolas...

The government today gave the green light for the first eight "Free Schools" to open in England, with the Prime Minister, David Cameron, pledging they will bring greater opportunity to the poorest pupils. (...) The free schools, which will be funded directly by Westminster and operate outside local authority control (...) will have more freedom over their curriculum and teachers' pay and conditions. (Guardian, 29 jan 2011)

Free Schools are all-ability state-funded schools set up in response to parental demand. The most important element of a great education is the quality of teaching and Free Schools will enable excellent teachers to create schools and improve standards for all children, regardless of their background. Under the new plans it will become much easier for charities, universities, businesses, educational groups, teachers and groups of parents to get involved and start new schools. (Department for Education)

Pub

Clicar para ver melhor.

"A má educação"

"Quando o assunto é a educação dos filhos, qualquer pai só tem uma pergunta: a escola é boa ou má? Não entra no cálculo se a escola é estatal ou privada; basta-lhe que seja pública, ou seja, que ele tenha acesso a ela gratuitamente. Este raciocínio básico devia orientar a nossa política de educação: permitir a escolha dos pais de acordo com a qualidade das escolas.

Infelizmente, o raciocínio não entra na cabeça dura do governo. Para a dra. Alçada, as escolas privadas com contratos de associação são demasiado caras; e, além disso, existem escolas estatais às moscas na mesma área das privadas. Tudo muito certo. Pena que a ministra não tenha esclarecido dois pontos: primeiro, quanto custam as escolas estatais por comparação com as privadas; e, segundo, por que raio se mantêm abertas escolas estatais às moscas quando existem as privadas que fazem o mesmo trabalho com assinalável sucesso.

Reduzir todo o ensino a uma coutada estatal é condenar gerações de alunos a uma única opção de ensino. E, como sempre, serão os mais pobres a pagar esta factura ideológica.
"

Falta de Educação

É o mínimo que se pode dizer.

Vítor Bento

Há poucos, assim, em Portugal: uma sólida formação teórica, um raro conhecimento empírico da realidade portuguesa, um currículo como gestor invejável, independência de espírito, e do resto, nada dado a ilusões, uma constante intervenção cívica em Portugal, ao longo das duas últimas décadas, que tanto contribuiu para pôr os pontos nos ii na confusão ambiente, um pensamento extremamente bem articulado. Não se vê na política activa: só não vejo como é que a política activa o poderá dispensar.

Corta

Multiplicam-se as notícias de que os cortes salariais e o congelamento de carreiras no sector público não estão a ser cumpridos. Recordo que algo de muito semelhante ocorreu na Irlanda no ano passado. Existe uma grande diferença entre anunciar cortes e congelamentos, e depois executá-los. A assimetria de injustiça que irá crescer - de um lado, os que cumprem à risca, e do outro, os que graças a dotes inexplicáveis escapam ilesos - terá consequências. Não sei quem é ficará a rir no fim. E estaremos cá para ver os resultados na contenção da despesa. O mais provável é o movimento do costume: o crescimento da receita fiscal justificará o júbilo de governantes e jornalistas patrióticos. Mais nada.

Esperar para ver

O governo alemão deu uma grande volta na posição face à crise do euro, parece que está em vias de deixar de reagir para começar a agir.


Desde já saúda-se que a Alemanha tenha evoluído do foco excessivo sobre as contas públicas, para atribuir uma nova importância aos temas da competitividade e do crescimento.

Das ideias que se conhece, parece que há uma certa confusão, porque quando se fala de “coordenação” parece que ser quer dizer “uniformização”. Enquanto haver mais coordenação é algo quase tautologicamente bom, mais uniformização pode bem querer dizer mais conflitos e resistências, sobretudo em matérias fiscais.

Há um aspecto ainda não esclarecido, mas que é provável que venha a ser esclarecido em breve, que é a necessidade de criar mecanismos de excepção nos casos de países que já têm fortes desequilíbrios externos. A actual legislação europeia não o permite, mas será necessário que se autorizem esses países a introduzir discriminação entre bens transaccionáveis e bens não transaccionáveis, para facilitar “desvalorizações internas”. Dito de outro modo, é necessário introduzir mecanismos de discriminação contra as importações vindas da Alemanha. Não é necessário ser um génio para imaginar as resistências que isto vai suscitar.

Sabendo-se que as propostas alemãs são condições necessárias para que eles abram os cordões à bolsa, é mais do que provável que inúmeros países as aceitem por isso mesmo, com uma muito baixa vontade e convicção de as concretizar. Ou seja, é muito provável que se criem mais problemas adiados.

Resgates aos bancos: a 4ª via para o socialismo


Um filme de terror sobre o triunfo da corrupção. Se não começar já a dizer: não!, em breve, mais um desastre em cima de si.

Nasceu um "Arabista"?

Aparentemente sim. Aqui. Da linha Miguel Sousa Tavares. A mais capaz. Com conhecimentos bem alicerçados no facto de ler e falar árabe, ter lido e discutido o Alcorão desde a mais tenra adolescência. Conhece como ninguém a história, o direito e a cultura árabes. A não perder os próximos capítulos.

Risco e rentabilidade


A alta dos juros está afectar os bancos ibéricos que se vêem forçados a vender alguns dos créditos menos rentáveis. Vão-se concentrar nos créditos com maior rentabilidade esperada. Normalmente os com maior risco.

Como se esperava

Está encontrado o novo símbolo da oposição madeirense. O PS local acusa o PND de "sequestro político" por este não ter autorizado José Manuel Coelho a participar numa iniciativa. Está-se mesmo a ver onde isto vai acabar.

Significativamente, os "abrantes" foram grandes apreciadores do estilo e das acções do madeirense durante a campanha presidêncial. Reconhecem-se na pessoa e no estilo, depreendo.


ADENDA: "Fui aliciado pelo PS" - Deputado do PND diz que foi convidado por Trindade. Socialista não comenta

E na Tunísia...

Grande Finale (96)



Triumph des Willens, Leni Riefenstahl, 1935

Domingo, 30 de Janeiro de 2011

Drogas no Rato

O PS reuniu e concluiu:

1) O PS, que apoiou Alegre e não houve sujeira a que não tivesse recorrido para - sim, o PS mesmo - impedir a reeleição de Cavaco, não foi derrotado com a vitória de Cavaco; limitou-se a «não cumprir os seus objectivos»; de resto, presidenciais não são extrapoláveis para legislativas; mas,
2) O voto em Cavaco foi um voto na continuidade do Governo.

Psicadélico.

Adenda: Vamos, pois, reestruturar?

Atentos leitores do Cachimbo chamam-me à atenção, relativamente ao post Vamos, Pois, Ser Racionais, para o facto de o elevado nível de endividamento externo ser o traço comum a Portugal, à Islândia e aos países bálticos como a Letónia, considerados. Parece-me, porém, que os níveis diferentes de endividamento público estabelecem uma diferença significativa. A transferência de responsabilidades do sector privado insolvente para o sector público é objectável por princípio: não devem ser os contribuintes a pagar os desmandos dos banqueiros e do sector privado em geral. O nível crítico de endividamento público torna algo que não é aceitável por razões primeiramente morais em algo inviável do ponto de vista estritamente económico-financeiro, reforçando a recomendação da reestruturação. Pura e simplesmente, o Estado português não só não deve, como não pode recapitalizar o sector privado em apuros, que, assim, falirá.

Discos que giram ao domingo (15)


CATACOMBE - Kinetic
Ano: 2010 | Origem: Portugal | Género: post-rock



Não há mais nada para dizer às pessoas?

Acabo de ouvir as notícias sobre a reunião de hoje da Comissão Nacional do PS, o órgão máximo do partido entre congressos. Oiço Almeida Santos, o eterno presidente socialista, considerar "cruel" o discurso de vitória do Presidente Cavaco Silva e a lamentar que Manuel Maria Carrilho esteja zangado por ter sido "apeado" de embaixador de Portugal na UNESCO. Como? Importam-se de repetir? Então com o País a afundar-se em dívidas e em desemprego, com a economia prestes a entrar em depressão, com as pessoas a passar graves dificuldades, a penar para trazer comida para a mesa e é este discurso socialista? Que «Cavaco foi cruel»? Será que o partido do Governo não tem mais nada que dizer? Esta gente parece viver noutro mundo, cada vez mais deslocada da realidade concreta das pessoas e das suas dificuldades. Sugiro que oiçam menos notícias e que, em vez disso, para não ir mais longe, deêm um passeio pela Almirante Reis, ou pela baixa de Moscavide para perceberem onde está a crueldade.

Margaret Price

"Beim Schlafengehen" [Hermann Hesse], dos Vier letzte Lieder, de Richard Strauss, no Royal Festival Hall, em 1981, com a London Symphony Orchestra, dirigida por André Previn.

Já chega

Rui Ramos resumia ontem com uma frase a resposta que tem de ser dada por todos aqueles que não estão dispostos a seguir a cartilha do comentário politicamente correcto imposto pela máquina da propaganda da esquerda socrática: "Estamos todos a precisar de começar a olhar para as coisas como elas são e não como convinha que fossem". Acrescente-se: "Como convinha que fossem" aos sabujos abrantes, anónimos valupis rastejantes e restantes seguidores de Sócrates.

Para além da bizarra discussão à volta do evidente "novo ciclo político" - de Paulo Portas - que se abriu com as presidenciais, o historiador referia-se ao discurso de vitória de Cavaco Silva, em que o Presidente da República se limitou a responder à letra a duas semanas da mais baixa campanha de carácter alguma vez vista em Portugal, em que todos os instrumentos foram legítimos, incluindo a utilização dos meios do Estado, mais um ministro da Defesa e outro da Justiça - e que a tal propaganda socrática tentou transformar em "rancoroso", sendo desde logo seguida pavlovianamente por alguns cãezinhos amestrados da dona Câncio e companhia (cada vez mais) limitada.

Chegou a altura de dizer chega e de começar a olhar e a descrever as coisas como elas são - e não como convinha que fossem a meia-dúzia de propagandistas sem qualquer peso real na opinião pública, meros altifalantes da estratégia socrática de preservação do poder. Porque José Sócrates, com a cumplicidade deles todos, está a fazer muito mal a Portugal e aos portugueses.

Sábado, 29 de Janeiro de 2011

Vamos, pois, ser racionais

Vítor Bento prosseguiu a sua série de posts Vamos Ser Racionais, aqui recomendados, com uma adenda, respondendo a parte da pergunta deixada em aberto: não conviria, tudo junto e pesado, optar por incumprir e recuperar a moeda própria? Descreve, de novo para toda gente, as vantagens e custos da "solução impensável" - a saída do euro. Advoga a "desvalorização interna", como alternativa à saída. E sugere a leitura de um post de A Fistful of Euros, onde dois casos de ajustamento são comparados, um, o da Islândia, com incumprimento e desvalorização da moeda, o que é impossível no euro, e outro, o da Letónia, com "desvalorização interna" e manutenção do "valor externo" da moeda.

Ocorre-me propor-lhe que considere que ambos os casos apresentam uma situação de stock de dívida pública de todo não comparável com a portuguesa. No caso da Letónia, um valor inferior a 10% do PIB antes da crise de 2008, no da Islândia, que apesar de tudo desvalorizou e incumpriu, inferior a 30%, e portanto menos de metade do nível português, na altura, menos de um terço, hoje. De modo que a pergunta que gostaria de lhe colocar é a de saber se a "desvalorização interna" que propõe, como alternativa à desvalorização da moeda, é consistente com o propósito de estabilização da dívida: a desvalorização interna não aumenta menos o peso desta. E, implicando um ajustamento no valor dos salários, sem o socorro da ilusão monetária, se é politicamente viável, dado a dimensão da desvalorização requerida. Por fim, salientar que a possibilidade, menos ainda a necessidade, de incumprimento, não é sequer considerada, como sugere Rogoff, apenas para referir um nome entre os mais experientes, o que se traduz num aumento considerável das dificuldades, senão das impossibilidades que o ajustamento apenas com "desvalorização interna" se tem de haver.

Nunca pensei ter de explicar isto a um homem de esquerda

O Daniel Oliveira sabe que as escolas públicas do Estado têm um custo por aluno inferior às escolas públicas privadas. Não me perguntem como é que a informação lhe chegou, que eu já ando há algum tempo à caça dos números e nunca me os deram. Nem a mim, nem aos partidos, nem aos pais de milhares de alunos. Deve ser um segredo muito bem guardado. Se estiver a ler, caro Daniel Oliveira, peço-lhe que tenha a bondade de os divulgar.

Também interessante é o seu conceito de liberdade de escolha. Parece que a liberdade de escolha é algo que se compra e ele, Daniel Oliveira, nada tem contra isso. Mais simplesmente, a sua perspectiva sobre o assunto é a seguinte: quem quiser escolher que pague por esse direito. A parte chata, que o Daniel Oliveira curiosamente esquece, é que, nesta concepção das coisas, só escolhe quem tiver dinheiro. O que está em causa, e o que pelos vistos não interessa a Daniel Oliveira, é a situação de todos os outros, os que não podem pagar essa liberdade de escolha. Nunca pensei ter de explicar isto a um homem de esquerda.

O resto é ler o Nuno Lobo com atenção, porque está lá tudo.

Reducionismos, mentiras (muitas), e enganos


"A história conta-se depressa: ..." Eis como o Daniel Oliveira inicia a sua crónica de hoje na coluna da esquerda do EXPRESSO (p. 37). A historieta é contada depressa e, desejavelmente, lida ainda mais depressa, com a máxima distracção possível, a ver se pega. Mas não pega, pelo menos não deveria pegar. A crónica tem três parágrafos apenas. Destaco o parágrafo do meio, em cinco pequeníssimos apontamentos. Aqui vai:

"[1] A verdade é que o Estado financia escolas privadas [com contrato de associação], mesmo quando ao lado tem uma pública de qualidade. Financia seis [escolas privadas com contrato de associação] no centro de Coimbra, vizinhas da pública mais bem cotada no ranking e de mais nove com vagas disponíveis. [2] Em Lisboa, financia a Escola São João de Brito, para a elite da elite. [3] Pelo país fora financia escolas [privadas com contrato de associação] com equitação e outros luxos. [4] E paga mais por aluno na privada do que na pública. [5] Não é verdade que esteja em causa a liberdade de escolha. A liberdade existe e a escolha pelo ensino privado é absolutamente legítima. Assim como todos somos livres de usar o carro individual em vez dos transportes públicos. O que deve acontecer é que o carro não deve ser financiado pelo contribuinte, e o autocarro deveria ter preços baixos, ser financiado pelo Estado e estar disponível para todos."

[1] Daniel Oliveira fala do ranking e usa Coimbra como exemplo, o que é legítimo. Em Coimbra, a escola básica mais bem classificada é a escolas estatal ES Infante D. Maria, com uma média de 4.16, logo seguida pela escola privada com contrato de associação Colégio Rainha Santa Isabel, com uma média de 3.71. Já no secundário a ordem é invertida, com o Colégio Rainha Santa Isabel a surgir em primeiro, com uma média de 14.30, logo seguida pela ES Infante D. Maria, com uma média de 13.77. Quanto às escolas que se seguem na classificação, tanto no ensino básico como no secundário, as escolas de Coimbra estatais e privadas com contrato de associação vão alternando umas com as outras, sem grandes diferenças a assinalar (segui o ranking do PÚBLICO do dia 15 de Outubro de 2010). O que o Daniel Oliveira parece não ter em conta é que a qualidade do ensino não se reduz aos resultados escolares e que os pais têm o legítimo direito de escolher a escola que privilegiam para os filhos em função das suas preferências subjectivas relativamente a aspectos da educação que não são facilmente mensuráveis ou quantificáveis. A liberdade de escolha é isto mesmo: a possibilidade de se escolher dentre projectos educativos diferentes.

[2] Eu não sabia que o S. João de Brito tinha um contrato de associação, e suspeito que o Daniel Oliveira também não. Fiquei a saber ontem, a partir de uma notícia do PÚBLICO (p. 15). E o que diz a notícia? Diz isto: "O Colégio S. João de Brito é o único com contrato de associação na cidade de Lisboa. Nenhuma [!] das escolas estatais vizinhas, as secundárias do Lumiar e Dom José, têm ensino de adultos. O S. João de Brito oferece ensino recorrente desde 1952." Adiante lê-se na notícia: "Os alunos da noite são daquelas zonas da cidade onde há vários bairros sociais, além de imigrantes." Eis a primeira mentira descarada do Daniel Oliveira. Face a uma notícia que diz tudo, Daniel Oliveira selecciona uma parte, chegando mesmo a acrescentar um delírio. A não ser que o Daniel Oliveira considere agora que a "elite da elite" é composta por alunos que frequentam o ensino nocturno, muitos deles imigrantes, e moradores em bairros sociais.

[3] A historieta da equitação e outros luxos é triste. Mais triste ainda que se ande a dar-lhe gás. A mentira foi inventada há quatro dias pela Ministra da Educação, a "menina do Liceu Francês" que "anda agora a espalhar ódio pelas escolas privadas" (como nota o Henrique Raposo na crónica da direita, também no EXPRESSO de hoje). Curiosamente, logo abaixo da notícia sobre o S. João de Brito, o PÚBLICO tem uma outra pequena peça, com o título "Golfe e cavalos". E o que diz a notícia? Diz o seguinte: "O PÚBLICO fez uma ronda pelas páginas da Internet de algumas das escolas com contrato de associação e verificou que várias têm piscinas, pavilhões, pistas de crosse, e há uma com um centro de estágios." Ou seja, cavalos e golfe nem vê-los. Nada. Zero. Mas a peça do PÚBLICO continua assim: "No âmbito do desporto escolar, existem pelo menos duas escolas públicas que oferecem equitação, a básica de Trancoso e a Secundária Alves Martins, em Viseu. E meia dúzia oferecem golfe, na região Oeste." Ficamos então finalmente esclarecidos: O Daniel Oliveira mente e sabe que mente. Resta-nos agradecer ao PÚBLICO o serviço que nos presta.

[4] Mas o Daniel Oliveira está imparável e pega agora na historieta de as escolas privadas custarem mais ao erário público do que as escolas estatais. Já todos sabemos que se trata de um slogan demagógico, pura propaganda política, sobre o qual pouco se pode dizer, a não ser continuar a insistir junto do PS, PCP, e BE no sentido de reverem a sua recusa em averiguar no Parlamento quanto custa efectivamente um aluno no ensino estatal. Lá diz o ditado: "Quem não deve, não teme." A esquerda parlamentar teme muito pelo que suspeito que deva ainda mais.

[5] Finalmente, a historieta do carro individual e dos transportes públicos. Esta é a minha preferida. A minha preferida, na medida em que salvaguarda o Daniel Oliveira da mentira (mentir ainda é feio, apesar de tudo), situando-o no plano do mero engano. A comparação com o transporte automóvel é um erro duplo. Em primeiro lugar, porque não é comparável o direito ao transporte (se é que tal coisa existe) ao direito à educação (este tenho a certeza que existe, proclamado em todos os documentos universais, regionais, e nacionais). A primazia dos pais no direito à escolha do género de educação dos filhos é um direito e liberdade fundamental. Não faz qualquer sentido comparar a deliberação de um pai ou de uma mãe, quando se confronta com a necessidade de escolher esta ou aquela escola para um filho, com a preferência de uma pessoa por um carro ou uma mota, desta marca ou daquela. Não é comparável e ponto final. Mas, (em segundo lugar,) se até quisermos ser benevolentes, e conceder que não se trata aqui de uma comparação da substância das coisas, mas apenas da sua forma, mais uma vez o Daniel Oliveira não chega lá. Os transportes públicos, como o próprio nome indica, são um serviço público, subsidiado pelo Estado, mas um serviço que não tem de ser (e não faltam exemplos disto mesmo no nosso país) necessariamente prestado pelo Estado. Os serviços de transporte público podem ser prestados tanto por empresas públicas como por empresas privadas. No que toca à mera forma do argumento, os transportes públicos até são um excelente exemplo do que deve ser a rede de serviço público de educação, aberta tanto a escolas estatais como privadas.

O homem da maquette

Hoje é dia de estendal de propaganda do governo da Pátria. O nosso grisalho caudilho lá anda por aí a esbracejar em escolas, pervertendo-as em palcos para as suas arengas ridículas. Como de costume, o homem dá largas à sua vulgaridade grandiloquente: o "avanço", a "educação", as "oportunidades", a "informação" e até a "alma" [sic]! Sozinho - porque acompanhado por aqueles séquitos do costume, sempre perfilados no contentamento das migalhas mediáticas.
Há pouco, nos telejornais, pudemos vê-lo, ao próprio, interessado e grave, apontando, sem ver, claro, para uma maquette posta ali para estar ali. Parecia o Führer, muito sério, debruçado sobre um mapa de Estalinegrado. A vitória na Educação é certa.

Sexta-feira, 28 de Janeiro de 2011

E se chega à Líbia?

O Governo português começa a fazer contas à vida?

E se chega à Síria?

Egypt's parliament speaker says 'an important matter will be announced in a short time' (Al-Jazeera).

A Administração Obama e o Egipto


Um editorial do Washington Post sobre os erros da Administração Obama no tratamento oferecido ao regime de Hosni Mubarak e de que forma os Estados Unidos ainda podem salvar a face.

Ocidente tem de apoiar

No último mês, as populações da Tunísia e do Egipto revoltaram-se nas ruas contra as autocracias locais. E em mais países da região há uma forte possibilidade de suceder o mesmo. Sendo verdade que não há certezas absolutas nem é impensável que estes países, caso obtenham a democracia, não venham a cair em tentações islamofascistas, como sucedeu na Argélia na década de 90, uma coisa parece-me correcto: a democracia é possível. O Ocidente e os Estados Unidos, que protegeram algumas destas autocracias, nomeadamente o Egipto, têm agora a responsabilidade de apoiar os desejos das populações. Uma sociedade livre é melhor do que uma sociedade fechada e ditatorial. É um risco, é verdade. Inimigos da liberdade, mais perigosos do que os actuais líderes, podem aproveitar para chegar ao poder. Assim sucedeu na Alemanha na década de 30. Por isso é preciso proteger e prestar auxílio às forças democráticas da região, também contra os perigos islamofacistas que espreitam pela sua oportunidade. A resposta a estas manifestações também coloca em cheque as intenções do Ocidente: será melhor proteger os regimes aliados, apesar de ditaduras, ou favorecer as populações que lutam pela liberdade e democracia? A resposta parece-me que só pode ser uma: é altura de deixar cair estas ditaduras.

O governo podia ser diferente? Podia, mas não era a mesma coisa (4)

Dívida pública na bolsa

A Euronext Lisboa apresentou uma proposta ao governo de transaccionar dívida pública em bolsa, mas o governo ainda não tomou uma decisão. Antes de mais, deve dizer-se que o estranho é isso não se verificar actualmente, porque o normal era isso mesmo.

Que implicações poderá ter isto? Vou abordar esta questão separando-a inicialmente entre um movimento de mera reafectação de investimentos e posteriormente analisando um eventual aumento da taxa de poupança das famílias.

As actuais taxas de juro da dívida pública portuguesa (cerca de 7%) são muitíssimo superiores a aplicações alternativas, ainda que a prazos mais curtos. Assim sendo, será de esperar uma fuga de depósitos para dívida pública. Poderá esperar-se que as taxas de juro da dívida pública baixem? É improvável. Se os investidores detectarem esta procura adicional, o mais provável será aproveitarem-na para despejar mais dívida no mercado.

Os bancos, por seu lado, vão ficar com menos recursos, podendo responder de duas formas: ou recorrendo mais aos fundos do BCE ou cortando ainda mais na concessão de crédito. No curto prazo poderão voltar-se para o BCE, mas com os testes de resistência a valorizarem as questões da liquidez, ficarão quase obrigados a cortar no crédito num futuro próximo, agravando as nossas perspectivas económicas.

Considerando apenas este feito de reafectação de investimento (que poderá também traduzir-se numa diminuição do crédito), é como se Portugal trocasse financiamento externo de investidores institucionais pelo BCE, ironicamente com caução de dívida pública.

Mas será possível que, para além disso, possamos assistir a um fenómeno de aumento de poupança das famílias, devido ao acesso a aplicar as suas poupanças a taxas de juro mais elevadas do que as actualmente disponíveis? Tenho sérias dúvidas, porque isto surge num período em que os particulares vão ser já forçados a uma redução forte do consumo, quer devido à quebra de rendimentos, quer devido à subida de impostos.

Há ainda outro factor, que se prende com a volatilidade das cotações da dívida pública. As variações das taxas de juro traduzem-se em variações (inversas) das cotações desses títulos. Por isso, vai acontecer as pessoas receberem um extracto bancário em que o valor das suas obrigações será inferior ao do mês anterior. Isso vai introduzir um sobressalto, os particulares perceberem que afinal os 7% são muito incertos, que pode mesmo abrandar o fenómeno de fuga dos depósitos.

Se me é permitido deixar uma recomendação a este governo, diria que esta não é a melhor conjuntura para avançar com esta ideia. Há ainda outra razão, política, que o governo não pode assumir publicamente. Quando milhares de portugueses tiverem dívida pública nas suas carteiras, vão ser milhares de eleitores a perceber de forma extraordinariamente concreta, no seu bolso, o que significa a falta de confiança dos investidores internacionais nas nossas contas públicas. A má vontade contra o governo só poderá aumentar.

Maradona

1) Diversidade e liberdade. Tudo muito bonito (digo bonito porque nem sei se compreendi bem a distinção tentada), mas não estou a ver onde é que está a liberdade quando o Estado pretende encerrar escolas contra a vontade dos pais, não lhes proporcionando a possibilidade de transferir os filhos para uma escola com um projecto educativo da mesma natureza.

2) AEEP (e FLE). A Associação de Estabelecimentos do Ensino Particular e Cooperativo representa cerca de 500 escolas associadas em negociações com a administração educativa, central e local, e as frentes sindicais; presumir que a AEEP teria o dever de criticar um eventual fecho de uma escola estatal é uma estupidez e das grandes. (Para uma defesa ampla da liberdade de educação e liberdade de escolha da escola existe uma outra associação, concretamente o Fórum para a Liberdade de Educação, que ainda muito recentemente interveio publicamente contra o encerramento das escolas estatais do 1º ciclo.)

3.1) Razões para a existência de escolas privadas com contrato de associação. Há muitas. Dou apenas uma: os pais das crianças estão plenamente satisfeitos com as escolas dos filhos e não querem que eles saiam de lá para ir frequentar a escola estatal da vizinhança. Todos os documentos universais, regionais e nacionais são unânimes na proclamação da primazia dos pais na escolha do género de educação dos filhos.

3.2) Escola pública estatal e não estatal. O equívoco está na redução do serviço público de educação ao ensino estatal. Por todas as razões e mais alguma: porque, de facto, o serviço público de educação não se reduz ao ensino estatal (e aí estão as escolas privadas com contrato de associação para o provar); porque, outro facto, os benefícios públicos da educação não se reduzem aos alunos que são educados nas escolas estatais e estendem-se evidentemente aos alunos formados nas escolas privadas; e porque, ao contrário do que transparece dos discursos preconceituosos dos governantes, o Ministério da Educação não é o Ministério da Educação Estatal mas o Ministério da Educação de Portugal, de todas as escolas e não apenas das escolas estatais, ou mesmo apenas das escolas estatais e não estatais que prestam o serviço público de educação.

3.3) Excepção e religião. Há quem lhe chame excepção, mas eu chamo-lhe oportunismo. Se o ensino privado e o ensino público podem ser uma e a mesma coisa quando o Estado necessita das escolas privadas para proporcionar a todas as crianças o ensino gratuito, não há como dizer que não podem ser uma e a mesma coisa quando o Estado passa a entender que já não necessita delas. Ou o Estado é que é a medida dos princípios? (Deixa lá a religião em paz, pá!)

4) A qualidade das escolas católicas. (Afinal tenho mesmo de falar de religião.) Sim, as escolas católicas são habitualmente boas escolas, fruto certamente de uma experiência acumulada de muitos séculos, como também de alguns princípios humanos e pedagógicos fundamentais. Mas essa de que o Estado educa toda a gente (como se as escolas católicas educassem apenas os privilegiados) só pode ser para rir. O Maradona sabe pouco sobre as escolas católicas por esse mundo fora.

5) Finanças. De finanças não falo enquanto o PS, PCP e BE não deixarem averiguar no Parlamento quanto é que custa verdadeiramente um aluno nas escolas estatais. Os delírios podem ficar para o André Macedo e outros que tais.

6) Ideologias. Pouco me importa o Estado e os privados. O único problema que eu encontro na redução do serviço público de educação às escolas estatais é mesmo a de eu não poder ter os meus filhos gratuitamente numa escola que não esteja sujeita ao baixo horizonte educativo que o Estado entende dever impor. Entendam-me bem: compreendo e aprovo que o Estado imponha limites à sua acção educativa, de ordem religiosa ou outra; não compreendo nem aprovo que em nome dessa limitação educativa os meus filhos não possam ir mais além.

Vale a pena perguntar o que é que faz correr esta malta tão pronta a querer negar aos outros uma liberdade fundamental tão significativa. No fundo, o que eles dizem é: "A educação que tu queres não podes ter. Vem cá que eu ensino-te umas coisas bem mais interessantes." Uma vergonha sem nome!


Agora uma coisa bem diferente:

C'est partout comme par ici

The November election sent a clear message to Washington: less government, less debt, less spending. President Obama certainly heard it, but judging from his State of the Union address, he doesn’t believe a word of it. The people say they want cuts? Sure they do — in the abstract. But any party that actually dares carry them out will be punished severely. On that, Obama stakes his reelection.

Charles Krauthammer lê o discurso sobre o Estado da União.

Seguir os linques, por aqui.

Eleições antecipadas

Os resultados das presidenciais e, sobretudo, a colossal derrota de Manuel Alegre, serviram também para provar que não existe – nem existirá tão cedo – uma maioria absoluta à esquerda. PS mais Bloco de Esquerda representam hoje muito menos do que a maioria relativa socialista no poder. A estabilidade política só pode ser alcançada com eleições antecipadas.

Hoje no CM

O mundo, Michelle´s way

Pensam os caros leitores, quando lhes falam de ameaças à segurança nacional dos Estados Unidos, em terrorismo? Em talibans? Em Coreia do Norte? Em Irão? Pois estão errados. Quando se fala em ameaças à segurança nacional deve-se falar sobretudo em obesidade. (Será que o Wikileaks ainda vai revelar que afinal a causa das dificuldades no Afeganistão são as barriguinhas dos soldados, que não lhes permitem correr mais depressa do que os inimigos?) Quem o diz é Michelle Obama, a mesma senhora que tem tanto amor à luta contra a obesidade que nem hesitou em contar em público que as filhas já tiveram de fazer dieta - e toda a gente sabe que o maior desejo de qualquer pré-adolescente é que lhe chamem gorducha em prol do interesse nacional.

Grande Finale (95)

The Thief of Bagdad, Raoul Walsh, 1924

Quinta-feira, 27 de Janeiro de 2011

Coligação antes de eleições? Não, obrigada.

Parece que agora (na opinião de Paulo Portas mas não só) a salvação da república virá de uma coligação pré-eleitoral entre o PSD e o CDS. Ora estando eu no lado do PSD que é próximo do CDS, não posso deixar de reconhecer o óbvio: uma coligação pré-eleitoral entre PSD e CDS é um monumental disparate. E o argumento (contra) dos resultados eleitorais de uma coligação (penso que uma coligação tem menos votos do que a soma de PSD e CDS em candidaturas separadas) não é sequer o mais importante. A questão fulcral é: ou bem que os dois partidos têm projectos políticos diferentes e se candidatam separadamente, sabendo que uma coligação pós-eleitoral é provável, ou bem que politicamente não se distinguem e então tratem da fusão e não apenas da coligação. É assim que as democracias crescidinhas funcionam, com benefícios evidentes. Claro que isto implica a existência de projectos políticos de centro-direita nos dois partidos, algo que, até ver, não existe. E assim se chega ao outro argumento contra a coligação pré-eleitoral: seria uma excelente desculpa para o PSD continuar sem se definir ideologicamente. E tendo as grandes reformas que normalizaram a nossa democracia e a economia sempre provindo do PSD, esta indefinição sinaliza um partido que pretende continuar refém das ideias socializantes - e sem um projecto para o país diferente do que poderia ser adoptado pelo PS.

À la carte

A propósito das escolas com contrato de associação, André Macedo escreve, no DN, que "as 93 escolas que vivem com e deste subsídio (114 mil euros anuais por turma; o triplo do que custa a escola pública) terão de fazer contas à vida". Estas contas à la carte podem fazer maravilhas quando se quer demonstrar um argumento a qualquer custo. Agora, o que se agradecia é que o André Macedo nos mostrasse as suas contas e nos dissesse, afinal, quanto é que custa uma turma na escola estatal. Estamos mortinhos por saber.

66 anos

Auschwitz - II - Birkenau
Agosto, 2010

A lei da gravidade

There is only one serious buyer of Portuguese debt in the secondary markets and that is the ECB. This could pose problems when Lisbon comes back to the market. Portanto, como há uma semana que não se vê o BCE nos mercados: Portuguese borrowing costs breach key level.

O regresso está previsto para 2 de Fevereiro, com mil milhões de euros mínimos. As taxas de longo prazo flutuam junto aos 7,10%.

Demita-se

Shoah - Claude Lanzmann (1/59)



The road to Auschwitz was built by hate, but paved with indifference - Ian Kershaw

O exílio e a dispersão acabaram demasiado mal. Deveríamos ter sempre sabido, como está escrito há dezenas de séculos em Pirkei Avot:

Se não for eu por mim, quem será? E se eu for só por mim, o que serei eu? E se não agora, quando?

.אם אין אני לי, מי לי; וכשאני לעצמי, מה אני; ואם לא עכשיו, אימת

Hoje é o Dia Internacional de Recordação do Holocausto.

Da série "O sorriso do lobo"


"Ui... Mais uns pais a manipular os filhos..."

Bárbara Wong no Educar em Português

Não desistem

É quase risível ver alguns - poucos - comentadores de esquerda e de direita que foram amplamente derrotados nas presidenciais de domingo passado, depois de terem gasto sacos de bílis e de rancor, permitirem-se criticar o discurso de vitória do Presidente da República. Eles provaram a total irrelevância dos seus comentários, mas não desistem.

A democracia segundo o Portugal dos Pequeninos

O João Gonçalves, um amoroso das grandes figuras, grandes como Salazar ou Céline (a lista toda, extremamente incongruente, é assaz indigesta), o que importa é a extremidade da «grandeza», a dar lições de democracia, tem qualquer coisa de cómico. Sabe do que se passa em Israel como eu sei do que se passa nas Ilhas Fidji. É um assunto para o qual, segundo o próprio, e traduzindo, a bem do decoro, se está a marimbar. Mas não perde uma.

Quanto custa educar um aluno numa escola do Estado?

A questão, à qual o Governo e a esquerda recusam responder, continua por esclarecer. Não haverá alguém na imprensa que a queira investigar?


Qualquer pessoa que acompanhe a actualidade relacionada com a Educação sabe que o Ministério da Educação (ME) sofre de um grave problema de falta de transparência. De resto, muitos dirão (com razão) que não se trata de um problema exclusivo ao ME. E porque se trata de um problema generalizado, é tão importante a missão de uma imprensa exigente, cujas investigações e reportagens ajudam os cidadãos a escrutinar os seus representantes e governantes, devolvendo ao debate público as informações que faltam.

Hoje, especificamente no debate das políticas educativas, essa missão faz cada vez mais sentido. Os cortes de 10% no Orçamento do ME 'obrigaram' a uma redução de 30% no financiamento das escolas com contrato de associação, escolas que são públicas mesmo que não pertencendo ao Estado. Escusado será dizer que um corte de 30% é, por definição, abusivo, nomeadamente quando põe em risco a educação de 53 mil jovens e crianças. Para o justificar, a Ministra Isabel Alçada alega que os valores fixados, 80.080€ anuais por turma, para o financiamento das escolas com contrato de associação tornam esse financiamento equivalente ao das escolas públicas do Estado, o que seria justo se fosse verdade. Mas será que é mesmo verdade?

O PSD e o CDS-PP tentaram saber mas, na Assembleia da República, os restantes partidos (PS, PCP e BE) acharam que não valia a pena fazer as contas, alinhando-se com o Governo. Para estes partidos, o compromisso ideológico com a Escola estatal secundariza a realidade dos factos. Mas bastará essa resposta para os milhares de pais que se têm manifestado em nome da defesa da Educação dos seus filhos? Claramente que não.

As dúvidas abundam. Para que um corte de 30% num dos lados tornasse os financiamentos equivalentes, as escolas públicas com contrato de associação teriam de ter tido, durante anos, um financiamento que suportasse um custo por aluno largamente superior ao das escolas públicas do Estado. Se tivermos em conta que as escolas com contrato de associação têm mais despesas do que as do Estado (com os salários dos professores, por exemplo, pagos directamente por estas escolas) e que os indicadores disponíveis (OCDE, por exemplo) apontam para que o custo nas escolas públicas do Estado seja mais elevado, a medida não faz sentido. Sobra a palavra da Ministra, que recusa sustentar as suas afirmações com números.

A actual situação é muito simples: o ME não diz quanto custa educar um aluno numa escola pública do Estado, mas diz-nos que cortar 30% no financiamento das escolas públicas com contrato de associação torna os custos equivalentes. Há escolas em risco de fechar, professores em risco de despedimento, crianças em risco de perder a sua escola, pais em vias de verem frustradas as suas ambições para a Educação dos seus filhos. Enquanto o ME, interesseiramente, não divulga os dados que os cidadãos reclamam saber, promovendo a ignorância e a indiferença, os partidos de esquerda alinham na farsa. Já só os jornalistas podem desmascarar a mentira. Fica então o apelo: não deixem, por favor, cair esta questão.

Todos os animais são iguais, mas uns são mais iguais do que outros

A ideia de PIIGS como um grupo homogéneo tem muito que se lhe diga, como se pode ver pelo gráfico acima, retirado, via FT Alphaville, de um abrasivo estudo da Standard and Poor's, hoje tornado público. Sabe-se que a falha fatal da zona euro foi ter constituído o quadro que favoreceu a divergência de competitividade interna, o que não iliba governos de responsabilidades por políticas económicas erradas, que acentuaram o que já era uma inclinação própria do sistema. O resultado, enquanto sintoma e bloqueio, foi a criação de elevados défices externos nas economias periféricas como contrapartida (parcial) dos elevados excedentes das economias centrais. Sublinho: hoje sabemos que era muito elevada a probabilidade de isso acontecer, embora as políticas económicas seguidas, em Portugal pelo Partido Socialista, tenham agravado, e não minorado, ou contrariado, o problema no DNA do euro.

O problema da competitividade tem características e intensidades diferentes nos diversos países afectados. Olhando para a acumulação líquida de capital per capita (para tornar as curvas comparáveis) em cada uma das economias, o que nos é proporcionado pelo gráfico supra, Portugal aparece como um caso extremo e isolado, mesmo dentro dos PIIGS, de falhanço. Portugal e a Grécia, com intensidades de capital praticamente iguais no início da década de 90 (em 1992 começa o escudo forte que há-de levar ao euro), terminam o período analisado, que vai até à actualidade, em posições muito diferentes, com a Grécia registando uma intensidade de capital a tender rapidamente para a dupla de Portugal. Na Espanha o stock de capital per capita é mais do que duplo do português, e com a Irlanda é melhor não estabelecer comparações.

Naturalmente que isto tem consequências para o futuro, a curto, médio e longo prazo. A tendência de crescimento é hoje, em Portugal, muito inferior ao dos seus parceiros na desgraça, como refere a S&P, que faz prognósticos apenas para o curto prazo, situando-nos, sem surpresa, em recessão, para já, no próximo ano e meio.

A ter em atenção

Dentro da linha da "quarta vaga", o apelo urgente hoje lançado internacionalmente para a subscrição do documento Casablanca Call ( já assinado por mais de 2.200 académicos, políticos e activistas oriundos de 20 países árabes) em prol da defesa e promoção dos Direitos Humanos e a Democracia no mundo árabe, é um facto a ser analisado com atenção. Não só em termos de conteúdo do documento mas sobretudo de posicionamento estratégico do islamismo moderado no actual cenário político magrebino.

Aviso chinês


Um dos responsáveis máximos do fundo de investimento soberano chinês criticou as medidas de cedência de liquidez dos bancos centrais que estarão a afectar o valor das moedas.

“You know money is gradually becoming not worth the paper it’s printed on,” Gao said at an event sponsored by HSBC Holdings Plc at the World Economic Forum in Davos, Switzerland toay. Recent gains in commodity and food prices reflect the “long-term view” of investors that prices will accelerate, he said. (...) “We’ve started collecting Zimbabwe notes,” Gao said, referring to an economy whose currency was scrapped in 2009 after inflation reached 500 billion percent

Cachimbos de lá


Juan Gris, Natureza morta, 1925.

Pressa

Já se percebeu que Paulo Portas está mortinho por chegar ao poder. Até é capaz de surfar a onda da vitória de Cavaco, que sempre detestou, e passar pela humilhação de propor namoro a um PSD glacial. Mesmo os democratas-cristãos que não alinham pela batuta de Portas, como o camarada Pedro Pestana Bastos, parecem entusiasmados com a ideia. Mas não seria melhor arrumarem primeiro a casa? O que é hoje o CDS? Em que é que acredita? Tirando a retórica de protesto à direita, o que é que o distingue hoje do PSD? A democracia-cristã? Isso ainda existe por cá? O liberalismo? Isso existirá alguma vez por cá? Em suma, o que é que o CDS tem para dizer ao país que não possa ser dito por outros?
Note-se que considero uma nova AD, ou o que lhe queiram chamar, quase inevitável. Dificilmente Passos Coelho conseguirá a maioria absoluta. De resto, tudo indica que Sócrates ainda esteja para durar uns tempos, talvez mesmo até ao fim da legislatura. Não é nada evidente, sobretudo depois do resultado de Domingo, que Cavaco dissolva o Parlamento tão cedo. Passos acha o mesmo e por isso declarou não ter pressa em chegar a São Bento. De qualquer modo, a bem da clareza, uma coligação devia nascer de um projecto político sólido. O que também é válido para o PSD, mas isso é outra conversa.

Loop inflacionista

Começa a ser evidente que a inflação está de volta aos EUA e Europa (no Reino Unido e mesmo na Zona Euro). Um economista da Morgan Stanley explica esta pode ser uma consequência de segunda ordem do laxismo monetário nos EUA e Europa cujo primeiro efeito foram as tensões inflacionistas nos BRIC

State of the Union 2011



Comentário do Cato Institute ao discurso do Estado da União de Barack Obama. Ver também os comentários do Nuno Gouveia e José Gomes André no Era Uma Vez na América.

Voluntários à força


Consta que o director-geral da Administração Interna e o director da Administração Eleitoral souberam pela comunicação social que tinham voluntariamente pedido a demissão.

Quarta-feira, 26 de Janeiro de 2011

Two of a kind






Parece que, de acordo com a Ministra da Educação, a participação de "crianças"[sic] - na verdade, alunos - numa manifestação legítima, que parte de um ponto de vista determinado (obviamente, discutível), assumido como defesa da sua escola, constitui um acto condenável. Não deixa de ser curioso que esta denúncia estapafúrdia venha de alguém cujo Chefe se tem especializado em, literalmente, usar crianças como figurantes inocentes na distribuição feirante dos mundialmente admirados Magalhães.
Como mais uma prova de que a falta de escrúpulos é contagiosa entre cúmplices políticos, temos o arrazoado a que a ministra ontem se entregou nas televisões para deleite grunho dos Portugueses: disse ela que os recursos do Estado (o "dinheiro de todos nós" e tal) têm sido, nas escolas em questão, aplicados em "piscinas" e "campos de golfe" [sic] e, como não podia deixar de ser, lá se ouviu também, em sonsa facada, a palavrinha mágica "privilégios". Tal como a sua antecessora e o Chefe Sócrates, esta ministra é igualmente capaz de açular a canzoada justiçosa que espreita a cada esquina da nossa miséria cívica. A demagogia mais reles é sempre fácil e compensadora: o gang "socrático" pode ainda inspirar-se no bom gosto a que este aqui se entrega - um sineiro sempre pronto a vir tocar a rebate, num esganiçamento de criadagem fiel, de cada vez que o célebre Sócrates, esse fautor da civilização e da alfabetização em massa, é posto em causa pela canalha ingrata.

Desculpem lá qualquer coisinha

Diretor-geral e adjunto da Administração Interna demitem-se.


Os políticos acima lavam as mãos e secam-nas no avental.

Como abrir e ler um livro (instruções)



Enviado por uma amiga no Facebook.

Conversa de treta

Já ouvi dezenas de ilustríssimas pessoas públicas a exclamar, como perante a revelação: se vier aí o FMI não é o fim do mundo. Com o FMI, querem dizer estas boas almas o Fundo Europeu de Estabilização Financeira: a «Europa» e o seu mecanismo de resgate, a nossa bombinha de oxigénio para mais uns meses, quiçá um ano (certamente que não mais, pelo menos nos seus actuais moldes, como um dispositivo destinado a suprir um problema de liquidez em Estados insolventes, vulgo germânico kaput). De resto, a afirmação é uma banalidade, e só pasmo perante a sua repetição ad nauseam. O fim do mundo, de facto, não é. Mas é o fim de Sócrates e do seu governo. Imediato, ou logo a seguir. O mais rapidamente possível. Isto não é um desejo (que também é): é óbvio.

A Proposta


No PSD é maioritária a tese dos que defendem que uma coligação com o CDS será prejudicial para o PSD, porque muitos eleitores que poderiam votar no PSD deixarão de votar numa coligação com o CDS.
Também no CDS se desenvolve a ideia de que o CDS só poderá crescer se se apresentar sozinho a eleições, com um projecto claro e alternativo aos partidos do bloco central, principais responsáveis pelo estado em que o país se encontra.
Ambas as teses apenas poderão fazer sentido no âmbito das pequenas lógicas partidárias de facção, mas revelam, no actual quadro de emergência nacional, irresponsabilidade e também desconhecimento das consequências da criação de um projecto comum à direita do PS.

Quem conhece o funcionamento do nosso sistema eleitoral sabe que quando um bloco eleitoral se apresenta sozinho contra três partidos autónomos à sua esquerda, pode conseguir eleger a maioria absoluta dos deputados com apenas 43% do votos, bastando para tal que o segundo partido não obtenha mais do que 35% dos votos. A razão é simples e prende-se com o funcionamento do método de Hondt. Se do lado da esquerda e da extrema esquerda se apresentam três forças políticas então, em cada um dos círculos eleitorais existirão à esquerda três restos de votos que serão desperdiçados na conversão de votos em mandatos. Contando com 5% do conjunto dos votos em branco com os votos nos pequenos partidos sem representação é possível que uma lista AD que polarize os votos da direita e do centro, elegendo com 43% de votos mais deputados do que 50% dos votos à esquerda divididos em três partidos.
Já o PSD para obter sozinho a maioria absoluta dos votos, e porque terá à direita um outro partido, e neste caso à direita existirão em cada círculo dois restos de votos desperdiçados que não serão convertidos em mandatos, terá de reunir sozinho 45% dos votos. Ficando o PSD abaixo dos 45% a maioria absoluta dos mandatos apenas é possível se os votos conjuntos do PSD e do CDS ultrapassarem os 47%.
Pergunta-se o que é mais viável: O PSD obter 45% dos votos sozinho, PSD e CDS reunirem em conjunto 47% dos votos ou uma AD sozinha à direita alcançar 43% dos votos ?

Independentemente do funcionamento do sistema eleitoral, quem conhece a história, sabe que a AD constituída em 1979 por Sá Carneiro, Freitas do Amaral e Ribeiro Teles, foi muito mais do que uma coligação entre PSD e CDS, e que quer o PPM quer os "renovadores" desempenharam um papel fundamental na sustentação do projecto, no alargamento da base de apoio e sobretudo no reconhecimento da AD como realidade que superava os partidos, designadamente o PSD e o CDS. Hoje poderá não existir um partido que desempenhe o papel que foi desempenhado pelos "renovadores" e pelo PPM, mas em compensação existem na sociedade civil inúmeros movimentos cívicos que congregam independentes e que reflectem Portugal longe de lógicas partidárias. Esses movimentos e independentes estão seguramente disponíveis e devem desempenhar um papel na estruturação qualitativa de um projecto governativo que vá para além dos partidos.

Finalmente, perante o estado do país, como explicar a não constituição de uma AD se são os actuais líderes partidários que a admitem e sustentam?
Se Pedro Passos Coelho afirma publicamente que vai convidar o CDS para o Governo mesmo que o PSD tenha maioria absoluta é porque Pedro Passos Coelho quer que a próxima a solução governativa inclua o CDS. Por outro lado se Paulo Portas propõe no Parlamento um Governo de salvação Nacional que integre PS, PSD e CDS, por maioria de razão estará o CDS disponível, diria mesmo interessado, em governar com o PSD.

Não tenho dúvidas que é nestes momentos que se revela, (ou não), a fibra dos líderes. Sobre Pedro Passos Coelho e Paulo Portas recai a responsabilidade de escapar às lógicas partidárias apresentado uma solução de governabilidade para a próxima década. Se não se conseguirem entender na criação e desenvolvimento de um projecto comum que convoque vontades à sua volta então dificilmente os portugueses acreditarão que serão capazes de levar a cabo a difícil tarefa de governar o país em total estado de necessidade.

O tempo é agora. Não é cedo demais. Esperemos que não seja tarde demais.

Nota: Este texto foi publicado no Jornal Público no passado dia 23 de Dezembro. Hoje Paulo Portas, com quem tenho discordado muitas vezes, deu um grande passo apresentando publicamente a ideia de um Manifesto Comum com o PSD e alargado a independentes. Correu riscos no seu partido mas esteve à altura dos tempos. Esperamos que não seja o único.

Se é de educação e crianças que tratamos, diga lá então senhora Ministra...

Eu não sei quem é que escreve os discursos da Ministra da Educação, mas suspeito que quem os escreve não pensa no que escreve. Ontem já escrevi sobre a parte do discurso que tinha à minha disposição através da reportagem da SIC. Só hoje li o discurso completo publicado no site do Ministério. Não vos vou maçar demasiado. Vou apenas pegar num ou outro ponto do discurso da Ministra. Diz o seguinte: "Considero esta campanha absolutamente indigna porque a questão aqui trazida não é a educação mas sim os privilégios no financiamento de alguns colégios." Quem ler esta frase pensará que estamos face a uma Ministra verdadeiramente preocupada com a educação. E a senhora continua: "As crianças são o fim último da educação. Educar significa orientar as crianças, ensiná-las e respeitá-las, para que se desenvolvam como pessoas e como cidadãos." Mais do que preocupada com a educação, a Ministra parece estar verdadeiramente preocupada com as crianças. Aconte que não encontramos no discurso da Ministra uma única referência à educação e às criança. Muito pelo contrário, encontramos referências a pagamentos, problemas financeiros, lucros, valores (i.e, montantes). Por isso, pergunto: Sendo a educação o elemento fundamental da acção do Ministério, e o bem educativo das crianças o fim último da educação, em que medida é que a educação e as crianças saiem beneficiadas de todo o processo iniciado pelo Governo? Ou, de outro modo, qual é o critério educativo que justifica a legislação recentemente aprovada pelo Governo? Não me lembro de o Ministério ter indicado um único que seja!

E os derrotados

Um dos pontos que ressalta destas eleições é o fracasso da coligação à esquerda. Foi o que aconteceu com o casamento de conveniência, que se revelou contra natura, entre socialistas e bloquistas. O mau resultado de Alegre (19.80%) mostra a enorme dificuldade de coligar estes dois partidos. Esta foi por isso uma derrota da ala esquerda do PS, representada nos últimos anos por Manuel Alegre, que nunca se inibiu de criticar as tentativas de uma terceira-via-à-portuguesa ensaiadas por José Sócrates. O radicalismo do Bloco, a sua visão a “preto e branco” resultante de um marxismo cada vez menos assumido, apesar da máscara de modernidade, deitam por terra os sonhos de uma “frente de esquerda” para governar Portugal. Pelo menos enquanto a actual linha extremista e populista for dominante no Bloco. Por tudo isto, mais do que para Sócrates (que devia ter suores frios sempre que imaginava Alegre em Belém) o grande derrotado destas eleições foi mesmo Francisco Louçã, que fez um mau discurso na noite eleitoral.

Os eternos vencedores


Excerto da declaração de Jerónimo Sousa, sobre a reunião do Comité Central do PCP

"A votação obtida por Francisco Lopes – mais de 300 mil votos e 7,2% – constitui uma inequívoca afirmação de combatividade e de exigência de uma profunda mudança na vida nacional. (...) O resultado obtido por Cavaco Silva [2.230104 votos e 52.94%] encerra inegavelmente um juízo negativo sobre o seu exercício na Presidência da República. Cavaco Silva é eleito não só com a menor das maiorias alcançadas até hoje numa reeleição para um segundo mandato mas também com a mais baixa votação de sempre na eleição de um Presidente. "

Só o PCP para considerar que uma votação sete vezes superior, e que levou à reeleição do actual presidente, corresponde a um "juízo negativo comparativamente ao seu candidato que entendem ter obtido uma incontestável vitória. Refira-se que, em termos absolutos, só António Abreu (em 2001, num cenário em que o PR a reeleger era o mais à esquerda desde Costa Gomes - Cunhal dixit) conseguiu pior resultado numa candidatura autónoma. O PCP nem consegue emular o resultado das últimas legislativas tendo obtido cerca de 2/3 dos votos de 2009.

Mas a realidade interessa muito pouco para as análises do PCP. Como escreveu o David Levy, no passado Domingo o PCP alcançou a sua 37º vitória eleitoral. Parabéns, pois então.

Da série "O sorriso do lobo"

"Fazem-se manifestações com bandeiras negras, gente vestida de bombista suicida outros de palhaços, uns tapam a boca com fita adesiva… mas como esta manifestação não provém das hostes da 5 de Outubro e da sua oposição convencionada, o senhor Nogueira, há que meu Deus que é tudo uma falta de gosto e uma indignidade!!"
"Estou curiosa de ouvir Isabel Alçada quando no dia 24 de Março, o dia do estudante, o PCP e o BE puserem os meninos na rua a pedir educação sexual para todos."

Escolas com Contrato de Associação

Um dos méritos não intencionados pela legislação recentemente aprovada pelo Governo acerca dos apoios do Estado ao ensino particular e cooperativo é o de ter promovido o debate em torno da liberdade de educação junto da opinião pública. Evidentemente, há quem prefira o "obscurecimento" em desfavor do "esclarecimento", como acontece com as declarações que o Ministério da Educação tem feito, ou com as várias pessoas que, por ignorância ou má fé, teimam em avançar slogans como "Os contribuintes não têm nada de pagar escolas privadas que apenas alguns podem frequentar". Mas deixando de lado o Governo e a má fé de alguns, haverá certamente muitas pessoas realmente interessadas em saber melhor aquilo que ainda desconhecem. Neste sentido, ainda bem que as escolas se organizaram e criaram o site Escolas com Contrato de Associação. Serviço Público de Educação. O novo site inclui a rubrica Conheça as Escolas, onde se pode consultar os sites das diversas escolas com contrato de associação localizadas em Aveiro, Castelo Branco, Coimbra, Guarda, Leiria, Viseu, Braga, Bragança, Porto, Viana, Vila Real, Viseu, Lisboa, e Alentejo. E inclui também a rubrica Perguntas e Respostas, com o esclarecimento de cerca de três dezenas de pontos sobre o que são as escolas com contrato de associação e o lugar que ocupam no seio do serviço público de educação. Vale a pena dar lá um salto e conhecer um pouco melhor o que está em causa quando falamos da possibilidade de se acabar com os contratos de associação.

Agora o Egipto?

Surgem rumores que a família do presidente Mubarak (incluindo o filho e provável sucessor na presidência) na sequência das manifestações que se seguiram a queda do ex-ditador tunisino Ben Ali.

Detesto ser desmancha prazeres mas, faço novamente notar que nada garante que a mudança seja para melhor.

Contas que não batem certo


No Massa Monetária, Rui Pereira Jorge relata as divergentes versões dos governantes quanto às contas do SNS: 10.3% para o Ministério das Finanças e 0.4% para o Ministério da Saúde. Uma diferença considerável.

E por falar em contas que não batem certo, ainda está por explicar a misteriosa divergência entre o défice e o endividamento público aqui esmiuçada neste post do Jorge Costa.

Que tristeza...


Não é segredo para ninguém que desde Domingo a depressão instalou-se na hostes abrantinas. A indisposição é visível e os posts mais incongruentes que o costume. Não vos quero enviar qualquer palavra de ânimo. Apenas recordar que na chefia do governo continua o mesmo incompetente que continua a precisar de vós para justificar o injustificável e sustentar teorias conspirativas. Vamos lá limpar essa lágrima e assoar esse narizito. Há trabalho a fazer.

Terça-feira, 25 de Janeiro de 2011

Foi há 30 anos



New Order, "Ceremony", 1981 - o "single" de arranque da banda.

As crianças e a política II

Fernando, confesso que ainda não estou convencido. O problema é a presença das crianças e adolescentes em manifestações ou as repercussões políticas ou mediáticas dessa presença? Não é exactamente a mesma coisa. E falamos da manifestação de hoje em particular ou de qualquer manifestação? Pois, como bem sabes, a Ministra já anda com esta da "manipulação" e "instrumentalização" há alguns dias. Quanto à pergunta que me fazes, respondo com sinceridade que não sei dizer se a presença das crianças nas manifestações é politicamente inteligente. Eu vejo a coisa como um facto absolutamente normal (daí a comparação que fiz com a minha experiência passada, que também rotulo de normal). Na verdade, não consigo conceber o problema. Eu diria que a acusação da Ministra é absolutamente ininteligível. Finalmente, a questão que importa discutir é outra, concretamente a do financiamento do ensino, mas sobre esta a Ministra não diz nada de jeito e o PS não deixa averiguar. Quanto é que custa um aluno no ensino estatal? Qual é a fórmula adoptada para avaliar o custo? Isto é que nos devia preocupar a todos. (A par, naturalmente, do direito dos pais a escolher a escola dos filhos.)

Sobre o uso de crianças em manifestações II

Se achas que a presença de crianças e de adolescentes, levados pelos pais e encarregados de educação, na manifestação de hoje em frente ao Ministério da Educação foi uma atitude politicamente inteligente e és capaz de o demonstrar... já cá não está quem falou.
O problema é que a presença de crianças e adolescentes na dita manifestação permitiu ao Governo e à ministra, e permitirá durante algum tempo, iludir a discussão de problemas realmente importantes em torno da alteração às regras de financiamento do ensino privado e cooperativo com dinheiro dos contribuintes, ao mesmo tempo que procurará enfraquecer moralmente a posição daqueles que se manifestaram hoje. É só isto.
Por isso, admitir um erro político que pode ter algumas consequências sérias é capaz de não ser má ideia. Digo eu que não percebo nada disto. Nem quero.
Uma nota final para dizer que o meu texto foi "sobre o uso de crianças em manifestações" e o teu "sobre as crianças em política". No teu lá dizes que crianças e política sim, com toda a certeza. Eu quanto ao uso das crianças em manifestações disse não, mas referindo-me a um caso concreto e pensando nos resultados que se poderiam retirar dessa participação. Eu fui realista. Tu idealista. talvez desta vez vença o idealismo.

As crianças e a política


O Fernando Martins alimenta a acusação da Ministra da Educação. Não percebo o que diz a Ministra e não percebo o que diz o Fernando Martins. Paciência. Pode ser que alguém ainda venha a ser capaz de esclarecer melhor o que é isto da "instrumentalização" ou "uso" das crianças em manifestações. Até lá só me resta recordar os tempos em que eu era instrumentalizado pelos meus pais e pela minha minha imaturidade. Lembro-me de ainda muito criança, na década de 70, ir pela mão do meu pai e da minha mãe a um comício do Sá Carneiro (salvo erro, no Campo Pequeno). Malvados dos meus pais. Lembro-me de na escola primária gritar os slogans "Rodoviária Nacional / Raistaparta p'ró Cunhal" e "Assim se vê a força da AD". Como não acredito de ter aprendido isto com os meus pais ou os professores, provavelmente devo ter sido instrumentalizado por um amiguito menos escrupuloso. Malandro do puto. Já rapazola ia por minha livre iniciativa a comícios do Cavaco, com bandeiras do PSD na mão, e do Freitas do Amaral (na célebre campanha presidencial de que muito me orgulho ter participado). Como já andava nestas andanças sozinho, o mais provável é eu ter sido instrumentalizado pela minha imaturidade. Malvada imaturidade. Se puxasse mais pela memória tenho a certeza de que me lembraria de outros momentos semelhantes. Curiosamente, já em adulto, nunca votei no PSD, e pelo andar da carruagem também não o farei pela primeira vez em breve. Mas talvez este seja apenas mais um motivo para eu concluir que fui mesmo instrumentalizado. Os meus pais, os meus amigos, e a minha imaturidade, todos juntos a instrumentalizar-me, a usar-me em campanhas do PSD, quando afinal nem do PSD acabei por gostar em adulto. Espero que compreendam que estou a brincar e que acho esta história da instrumentalização das crianças uma palhaçada. Eis então o motivo que me leva a não perceber o que vai na cabeça das pessoas que se apressam a criticar a presença das crianças e adolescentes em manifestações que têm como principal propósito manter as suas escolas abertas. Julgo que daqui a 20 ou 30 anos, estas crianças, agora levadas pela mão dos pais, e estes adolecentes, que se manifestam juntamente com os amigos, irão recordar estes dias com um sorriso nos lábios e a convicção de terem participado num momento importante das suas vidas e da vida do país. Talvez nessa altura até pensem de maneira diferente. Mas que importa isso! Alguém compreende que à Segunda-feira se ande muito preocupado com a falta de participação dos portugueses na política e à Terça-feira se critique aqueles que participam?