Segunda-feira, 31 de Janeiro de 2011

Educação e Ideologia na RR


A minha crónica desta semana na Rádio Renascença: "Educação e Ideologia".

O debate público em torno dos cortes no financiamento às escolas com contratos de associação tem sido bastante revelador do estranho entendimento que alguns têm dos objectivos do Estado social. Assim que o Governo anunciou os cortes às escolas não estatais, acompanhado pela propaganda do costume que apresenta sempre os bravos ministros lutando infatigavelmente contra as hordas do “privilégio”, levantou-se uma barragem de comentadores em seu apoio. O seu intuito pode ser resumido a isto: criticar tudo o que fuja ao controlo total do Estado central. A crítica é muitas vezes mal informada; outras vezes mal intencionada. Mas procura sempre esconder-se atrás de um argumento geral de defesa intransigente do Estado social e da sua superior humanidade.
Pouco importa que o Estado social tenha como propósito e justificação o acesso das pessoas a bens que se consideram indispensáveis; pouco importa que as estruturas agora afectadas forneçam esses bens de forma satisfatória e que sejam as populações, e não a burocracia do Ministério, a reconhecer o facto. O que conta em Portugal em pleno ano de 2011 é a propriedade dos meios de provisão desses bens. Se é do Estado, então está salvaguardado o Estado social e a fraternidade entre os povos. Se a propriedade escapar à malha do Estado, então teremos necessariamente a opressão dos pobres às mãos dos ricos, os fracos agrilhoados pelos poderosos. Para que a questão concreta dos problemas orçamentais do nosso sistema educativo encaixe nesta aberrante perspectiva vale quase tudo. Desde o sofisma mais inocente até à mentira descabelada, já para não falar na exploração indecorosa e sistemática dos ressentimentos que inevitavelmente grassam numa sociedade pobre, rígida e desigualitária como a nossa.
Como o País não está suficientemente estatizado querem estatizá-lo ainda mais. Afinal, é só mais um passo no caminho para a pobreza, para a uniformização e para o definhamento.