Sexta-feira, 31 de Dezembro de 2010

O progresso na entrada de 2011

Ainda me lembro do costume, nos bairros "populares", dos típicos cidadãos irem batendo tachos, tampas e panelas. Agora, ouvem-se tiros. Até rajadas. Muito bem.

Acabar com 2010

O grande personagem do ano 2010, de que nos vamos despedir dentro de umas horas, foi o bode. Bode expiatório. Não estou a brincar. Foi mesmo. Umas vezes chamou-se-lhe Alemanha, outras Europa, com mais frequência mercados, mas era sempre um algures, nebuloso, um ersatz do velho sistema, uma espécie de xix exterior capaz de aglutinar magicamente a origem dos problemas internos, uma operação meticulosamente calculada para evitar o confronto com a verdade. Não pretendo com isto negar a evidência: a Europa é uma coisa moribunda e naturalmente incapaz de fazer face aos problemas que criou; a Alemanha defende-se, e tem força para o fazer, embora valha a pena referir que Merkel, no conjunto europeu, é, europeiamente falando, o que resta de bom-senso, até mesmo porque não pode evitar, pelo interesse próprio e poder que tem, o recurso forçoso a um módico de contacto com a realidade; e os mercados são os mercados, com a sua lógica própria, a sua natural incapacidade de cálculo a longo prazo, a sua reacção tardia e, por tardia, percebida como excessiva, ao passivo de imprudências que acumularam, dentro de um sistema, é verdade, um sistema, sabemos agora, construído para que elas se pudessem acumular maciçamente, sem alarme, durante tempo de mais: o euro. Até gente que não é totalmente obtusa, como a deputada europeia Ana Gomes (não digo o mesmo do candidato presidencial Manuel Alegre, coitado), respira no ambiente zombie do Bode Expiatório, como ilustra este pequeno post excitado, onde, vejam bem, pede que alguém lembre à Srª Merkel que é responsável por que converjamos com a Alemanha, em troca da bondade de não lhe lembrarmos que está unificada à nossa «conta» (sic). Por isso, quando hoje tocarem as 12 badalas, o melhor que (nos) posso desejar é que deitemos com elas, pela janela fora, o bode. E segunda-feira regressemos à realidade. Por pior que seja, e é muito má, pior não pode haver do que este estado onírico em que vive Ana Gome e, reconheçamos, a generalidade do país.

Discutir África não é fácil

Os problemas são tantos e tão complexos que fico sempre com amargo de boca ao falar do continente esquecido. O Luís Naves tem razão em algumas das coisas que escreve neste post. Eu prefiro centrar-me no futuro, não esquecendo obviamente as razões históricas do atraso africano. No entanto, e como o Luís refere, os últimos anos do período colonial até foram benéficos para África em alguns aspectos, e poderiam ter sido encarados como o inicio de uma nova era para o continente. Angola, por exemplo, e apesar da guerra, viu o seu PIB crescer à média de 7 por cento entre 1960 e 1974. Já sabemos que a seguir às independências, a situação económica voltou a andar para trás, desperdiçando-se o que até então tinha sido feito.

Mas olhemos para o futuro. Aquilo que o Luís Naves chama neo-colonialismo é precisamente aquilo que pode ajudar África: o aumento das trocas comerciais com os países desenvolvidos. Quem poderá comprar os recursos e os bens africanos senão os países ricos? É evidente que uma empresa quando vai comprar os produtos africanos tenta obter o melhor preço. São essas as regras do mercado e não há volta dar. O que é preciso é que o comércio livre aumente, que as nossas barreiras alfandegárias diminuam e que os apoios aos agricultores europeus e americanos desapareçam. Aqui talvez resida um dos vértices do problema africano: a excessiva protecção comercial que existe nos países desenvolvidos. Ao contrário do que defendem as correntes altermundistas, África precisa de comprar e vender produtos aos ocidentais. Mas se falamos na justiça destas trocas, aqui entra decisivamente o poder das instituições africanas. Sem estabilidade das instituições, os africanos estão condenados a verem os seus recursos favorecer uma camada restrita da população. E a corrupção a alastrar-se. Centro-me apenas no caso Angolano. Nos últimos anos Portugal viu um enorme fluxo de empresários deslocarem-se para o país. Conheço alguns que o fizeram. E o que se deparam quando lá chegam? Elevado grau de corrupção onde o pagamento de luvas é necessário para conseguir “fazer coisas”. Desde o simples polícia de rua até ao burocrata da Administração estatal. E imagino como funcionará a outros níveis mais elevados. De quem será a culpa? Do corrupto ou corruptor? Talvez dos dois, mas se Angola fosse um país mais “limpo” e “credível”, certamente quem sairia a ganhar era o povo angolano. Repito, há bons exemplos e são nesses que reside a esperança africana. Bem sei que é difícil que vinguem, e que retrocessos podem acontecer, como o exemplo que o Luís dá com a Costa do Marfim. Mas se não tentarmos promover estes bons exemplos o que resta? Nada.

A responsabilidade dos povos africanos e das suas próprias lideranças é para mim o ponto central desta questão. Continuando a olhar para trás, vitimizando-se e responsabilizando terceiros não adianta. Não resolve. Se as elites são inexistentes, e que o são na maioria dos casos, promova-se a Educação. Por exemplo, em Portugal todas as universidades têm grupos de estudantes dos PALOPs. Na Universidade do Minho recordo-me bem desta comunidade bastante numerosa. Com a educação dos povos africanos e a constituição de elites, será certamente mais fácil criar infra-estruturas democráticas que possam combater a corrupção, a desigualdade e a miséria. Fácil não é, nem digo que vá acontecer. Mas por algum lado se deve começar.

O Relatório dos Testes Intermédios de 2010


Se o primeiro-ministro Sócrates (e a tropa que o acolita) não tivesse feito um aproveitamento demagógico/aldrabado do último relatório PISA (enfim, o homem não consegue escapar à sua identidade), não haveria lugar a fazer comparações, agora, entre esse e o dos Testes Intermédios (3º Ciclo e Secundário) de 2010. A comparação é desajustada, porque os dois relatórios tratam, em grande medida, de objectos diversos? É verdade, num sentido. Mas acontece que a inevitável comparação não é feita sobre aspectos neutralmente "técnicos" - é feita sobre um objecto já inquinado por Sócrates: como não podia deixar de ser tratando-se da personagem em causa, o Relatório PISA foi transformado num objecto de propaganda política - e da mais rasteira e grosseira que se possa conceber.

Esta maravilha (pode ser consultada aqui - passeiem pela Conclusão...) é ainda o resultado (mesmo que parcialmente) de anos de práticas criminosas - com origem não nas escolas, mas em orientações e opções políticas vindas de cima. Há já muito tempo que, "curiosamente", para além de os de Língua Portuguesa ou História, os professores de Biologia, de Matemática, de Física, de Química se vêm queixando das tremendas dificuldades experimentadas pelos alunos na interpretação de perguntas e problemas dos Exames do 12ºAno (!).
Durante anos (e essa tendência agravou-se nos últimos dois governos), procurou-se mais mascarar o "insucesso", do que combatê-lo de frente, resolvê-lo. Sempre através de mil e um artifícios mais ou menos burocráticos, respaldados na mais miserável propaganda demagógica, foi-se perseguindo, com uma rapidez artificial, desligada da natural dificuldade da coisa, um "sucesso" não correspondido na realidade. Com uma leviandade criminosa, foi-se substituindo um "sucesso" lento, esforçado, efectivo, por um arremedo de "sucesso" - mais rápido, vistoso, cosmético, simpático. Esta conversa já cansa, não é? Talvez, mas é indespedível: faz-se a respeito duma realidade que não muda e até se tem agravado.
Perante esta miséria, tem-se ensaiado um discurso para o público (por parte de antigos responsáveis, por exemplo) assente numa argumentação enviesada: na verdade, temos agora "jovens" dotados de outros "saberes" e "competências" que não aqueles que "nós" reputamos como importantes, etc, havendo, por isso, nestas matérias, um erro de focagem, etc. Esta litania faz sempre por esquecer que os "saberes" e as "competências" não são substituíveis e/ou equivalentes: acontece que há uns mais estruturantes do que outros. E a falta desses não se preenche com truques e pensos-rápidos.
Tem-se esquecido que a dificuldade e o constrangimento fertilizam as aprendizagens, não as impossibilitam.

Melhores golos de 2010

3 dos melhores golos de 2010 (surripiados a goal.com):






E vejam este video extraordinário com as melhores defesas de 2010 (incorporação proibida).

Geografia da perseguição - o Cristianismo sob ataque

Clique em cima para ampliar e ver melhor.

Retirado daqui. Ler e meditar.

Primeira nota: o Figaro, dos poucos jornais europeus que frequento mais ou menos diariamente, é o único que vai levando a sério a situação. Com reportagens periódicas sobre o assunto, perante a indiferença mais ou menos generalizada.

Segunda nota: aqui há uma justa indignação. Não me parece que a divisão clássica Dar al-Islam/Dar al-Harb seja alheia à situação, antes pelo contrário: é essa tradição, actualizada hoje, que confere consistência ideológica (mítica) ao Islão Político e à reislamização radicalizada (é mesmo, parece-me, a pedra angular do movimento; não é preciso grande argúcia para o perceber; basta uma rápida passagem de olhos pelos teóricos do movimento), mas, em todo o caso, folgo em saudar Rui Herbon, pela atenção. Há mais do que gritinhos e a inefável fedayn Palmira do ateísmo obsessivo para ler no Jugular.

A orquestra continua a tocar enquanto o navio se afunda



Estonia Joins Euro as Currency Expands Into Former Soviet Union

Quinta-feira, 30 de Dezembro de 2010

Cachimbos de lá

Depois de Aron, direito ao contraditório (grafitti, s.d.).

Inaceitável

João, nunca respondo a posts com este teor, nem quando me são endereçados, nem quando atingem amigos pessoais, como é o caso. Mas vou abrir uma excepção. Porque eu e tu nos conhecemos e porque sempre falámos com franqueza.
O que tu aqui escreves é lamentável e inaceitável. Uma coisa é a crítica, que inclui a possibilidade da crítica radical; outra coisa bem diferente é a pura e simples violência verbal. Não é uma diferença de grau, como se costuma dizer, mas de espécie. A fronteira da civilidade passa por aqui.
E digo-te isto sem qualquer reserva mental: no meio disto tudo, o único atingido acabas por ser tu. Se quiseres converter o teu blog num megafone de insultos, é contigo. Mas então não te admires por não te levarem a sério.

Hoje e amanhã

são dias de Bicos de Bunsen. Não tendo o glamour dos Cachimbos de Ouro, não deixam de ter a respeitabilidade da provecta idade de dois ou três anos.

O homem branco é mau

Há várias teorias sobre o atraso estrutural de África: uns responsabilizam sobretudo as suas elites e outros defendem que a culpa é do colonialismo e do imperialismo ocidental. As correntes neomarxistas, sempre ávidas por explicar o mal dos povos pelo capitalismo, culpam o homem branco, que colonizou os povos africanos durante séculos, como o eterno mau da fita. Meus amigos: o colonialismo é um facto histórico e não temos como lhe dar a volta. Mas a verdade é que os europeus não colonizaram apenas África; estiveram também na Ásia, e na América e na Oceânia. Com efeitos positivos e negativos para todos os territórios que foram administrados pelos europeus. África terá sofrido em maior grau, e apenas na segunda metade do século passado se libertou do poder europeu. Mas continuar a responsabilizar os europeus e os brancos pelo atraso estrutural africano é errado, e significa acima de tudo, um relativismo histórico na avaliação das suas próprias responsabilidades.

Luís Naves, neste post, atribui-me um simplismo que admito: a democracia e a liberdade são uma das soluções para os problemas africanos. Não são de resolução fácil e até reconheço imensas dificuldades para atingir este objectivo. Muito terá que ser feito para chegar até lá e a até admito que ajuda ocidental não tem sido a melhor. Mas os (poucos) bons exemplos que existem demonstram que é possível. É verdade que as elites corruptas não chegam para explicar a miséria africana. De acordo. Mas como culpabilizar a ordem económica mundial, se foi precisamente esta que tirou milhões da fome nas últimas décadas em todo o mundo? O que poderá ajudar África é precisamente o aumento das trocas comerciais com os países desenvolvidos, e neste aspecto, são as nossas protecções, como a PAC, que prejudicam o desenvolvimento continente. A resposta é mais comercio livre. Mas para melhorar as condições de vida dos povos africanos, é fundamental que estes se reorganizem e credibilizem as suas instituições de poder.

“As democracias africanas não têm raízes e não são estáveis”. Uma frase certeira. Mas o que isso quer dizer? Que o povo africano deve estar condenado a viver sob o jugo de ditadores e elites corruptas que roubam os seus recursos para proveito próprio? Observemos a Angola, que agora é adulada por algumas elites portuguesas. Não será, em primeiro lugar, responsabilidade dos seus governantes o atraso que o país atravessa, apesar das suas imensas riquezas? Será que continuarão a culpabilizar Portugal pela sua presença no passado, esquecendo-se das suas próprias responsabilidades na governação? E o que dizer do Zimbabwe? Um dos países que foi literalmente destruído nos últimos anos. Será que também vamos responsabilizar os ocidentais pelos erros de Mugabe? Eu não acredito nesta teoria que defende que, por nunca terem vivido em democracia, não a merecem ou não a possam viver. <

Nas relações internacionais não há ilusões: é verdade que as viagens de Bush a África tiveram também interesses económicos por trás: foi por isso que o Presidente visitou a Nigéria, o maior produtor de petróleo do continente. Mas não deixou de colocar ênfase nos bons exemplos africanos, como os países que citei no post anterior. E devem ser estes que devem servir de farol para os restantes países da África subsariana. É isso que defendo e que o Luís parece discordar. Está tudo mal e não há solução á vista não me parece ser a melhor resposta.

Bordalo Pinheiro

O que aí vem

A ler. Extractos:

Janeiro: It could prove to be one of the most difficult starts to a year for a long while. (...) Portugal will be the focus (...).

Sair do euro (4) Fim do euro

São quatro as razões pelas quais não acredito no futuro do euro. Em primeiro lugar porque tem uma arquitectura muito incompleta, em que avulta a ausência de um orçamento federal, problema para o qual não existe a mais leve vontade política de resolução.

A segunda razão prende-se com as diferenças de mentalidade (ou de preferências) dentro da Europa, que são um obstáculo à unidade. Porque é que os países actualmente em dificuldade não são uma amostra aleatória da zona do euro, mas sim praticamente os mesmíssimos que tinham idênticos problemas graves de desequilíbrios nas suas contas públicas e externas no século XIX? Alguém pode acreditar que se trata de uma mera coincidência, da qual nada se pode inferir?

Em terceiro lugar, houve um acompanhamento muito deficiente das economias na fase que antecedeu a adesão, bem como posteriormente. Neste aspecto basta referir que Portugal apresentou um brutal défice externo (quase 9% do PIB) já em 2000 e desde então este tem-se mantido praticamente intacto. É estranhíssimo que um desequilíbrio tão elevado e tão persistente nunca tenha merecido severas recomendações para o corrigir.

Mesmo no caso das contas públicas, onde havia metas numéricas, houve uma extraordinária complacência quer para com a desonestidade da Grécia em relação aos seus números, quer com medidas de óbvia desorçamentação, como foi o caso das SCUTs em Portugal.

Estes problemas passados são extraordinariamente importantes para o futuro, pela quarta razão porque não acredito no futuro do euro: porque o sistema de alerta é intrinsecamente instável, como já expliquei aqui: com moeda própria a variável que sinaliza os problemas ajuda a resolvê-los; numa união monetária a variável que sinaliza os problemas agrava esses mesmos problemas.

Se o sistema do euro não tivesse acumulado desequilíbrios tão significativos (muito para lá dos que derivam da chamada Grande Recessão, iniciada em 2008) talvez pudesse sobreviver. Assim, a única dúvida que resta é saber até que ponto este fim vai ser amigável ou conflituoso, ou seja, até que ponto vai destruir muito do projecto de paz na Europa.

Há quem defenda que a união política ainda poderia ser a salvação do euro e da UE mas, para além da fortíssima resistência política a esse passo, é necessário desfazer a doce ilusão de que mais integração conduz a mais paz. Há já uma década que isso não é verdade e que o projecto europeu tem criado crescentes resistências e conflitos.

Uma união política, ao obrigar mais países a engolir políticas da maioria, mas indesejáveis para eles, poderia bem ser o golpe de misericórdia da UE.

PS. Para comodidade dos leitores, passo a acrescentar as ligações desta série:





Leitura obrigatória


Um retrato da política em Portugal.

2010: Odisseia neste espaço


Senhoras e senhores passageiros, mantenham por favor os cintos apertados, a nossa viagem por 2010 vai entrar em contagem decrescente, prevendo-se a aterragem no ano novo dentro de aproximadamente um dia.

Uma viagem para fazer aqui enquanto 2010 não mergulha na espuma dos dias que correm.

A todos, Feliz Ano Novo!

Para @s apaixonad@s desencontrad@s nesta quadra natalícia.

Portishead - Glory Box


Pronto. Não se fala mais do assunto. Amanhã é outro dia. Daqui a um mês já ninguém se lembra. E assim é melhor para todos. Até para Defensor de Moura, coitado, que não teve um ano de campanha, apoiado, a sério, pelo PS. E para o rato Mickey. E tudo. Fiquem com a música, que é muito boa, digo eu.

Religião, felicidade e infelicidade

Realizou-se nos dias 9 e 10 de Outubro passado, no Seminário da Boa Nova, Valadares, um Colóquio internacional, subordinado ao tema "Religião e (In)felicidade", com 220 participantes, e conferencistas vindos das Neurociências, da Sociologia, da Filosofia, da Teologia.
Aquele "in" de (In)felicidade indicava, à partida, o reconhecimento de que as religiões foram e são simultaneamente causa de felicidade e infelicidade.
Pela sua própria definição, a religião está referida à salvação: felicidade, sentido último, o sentido de todos os sentidos...
Grandes filósofos, como Kant, Hegel, Bloch, Habermas, reconheceram que foi pelo cristianismo que soubemos da dignidade da pessoa humana. Em tempos terríveis de miséria material e humana, foi a religião que ajudou homens e mulheres a erguerem-se um pouco acima da animalidade e do quotidiano embrutecedor.
Quando não havia médicos nem analgésicos, foi a oração e a cruz de Cristo que deram sentido e algum alívio a todo aquele mundo de horror. E as pessoas sabiam que tinham uma missão na vida, e Deus acolhia-as na morte. Não é calculável o que as religiões fizeram e fazem pela cultura, pelo combate pela justiça e dignidade, no exercício da compaixão e do amor. Quem não reconhece o que a Igreja faz na presente crise pelos mais pobres?
Mas a corrupção do óptimo é péssima, e lá está a perversão da religião/religiões e as suas patologias. Como não pensar no terrorismo, na guerra e na tentativa de legitimar a violência com a religião?
Há três impulsos com que o Homem tem de aprender a viver: o ter, prazer, o poder. Saber viver com eles - nisso consiste a arte de viver.
O mais difícil é o poder, porque ele é o maior afrodisíaco. Por isso, de modo geral, Deus é pensado como omnipotência. Significativamente, na revelação cristã, Deus não se apresenta imediatamente como omnipotente, mas como Força infinita de criação e de amor. O Evangelho diz: "Sabeis que, nas nações, os poderosos mandam e dominam; entre vós, não será assim: quem quiser ser o primeiro deve ser o último." "Eu não vim para ser servido, mas para servir", disse Jesus.
Assim, quando a Igreja se identificou como instituição de poder, começou o afastamento do Evangelho. Até Constantino e Teodósio, os pagãos diziam, referindo-se aos cristãos: "Vede como eles se amam." Depois, surgiu o poder sacro, à maneira do poder imperial, e tudo se modificou. Não é possível a uma pessoa que conheça minimamente o Evangelho e a História deixar de fazer perguntas como esta: como é que o Evangelho de- sembocou num Papa chefe de Estado, com uma Cúria imperial, e bispos a viver em palácios?
Quando se toma o poder sacro em nome de Deus, os perigos são imensos e terríveis. Até surge a tentação de "administrar" Deus. Então, quem não está com os "administradores" de Deus é herético e condenado. Lá está o perigo do fanatismo: somos a única religião verdadeira e todas as outras devem ser combatidas. Lá está o impedimento da liberdade de pensar e a censura. O pior é a imagem de um deus mesquinho, cruel, violento, causa de ateísmo e de infelicidade.
Esses "administradores" da religião e do próprio Deus arrogam-se também o direito de administrar a moral e são eles então quem determina o que é bem e mal, o que se deve fazer e não fazer. E lá está o controlo do prazer pelo poder, porque o prazer subverte o poder. Lá está então uma sexualidade envenenada, a proibição dos contraceptivos, o celibato eclesiástico obrigatório e a sua grandeza e miséria. Lá está a pedofilia dos clérigos, ocultada para tentar preservar a instituição-poder.
E ainda: quem detém o poder deverá, no quadro desta lógica, ter também mais teres e privilégios.
A questão da religião é mesmo a religião (o conjunto de atitudes e organizações na relação com Deus): o que a religião fez e faz de Deus e como usou e usa o seu nome na sua relação com os humanos e destes com Deus. Para a felicidade, é preciso voltar ao Evangelho.

Máximas da mercearia

Paulo, ou dessa máxima ou desta: um cliente que reclama é um consultor gratuito. Mesmo quando o cliente não tem razão (as manhas não são exclusivas das empresas) é importante entender as razões que o levaram a reclamar e tentar renovar a confiança.

Quarta-feira, 29 de Dezembro de 2010

Os Grandes Interesses

Na sua mensagem final, Manuel Alegre disse, sem se rir, que os "grandes interesses" estavam alinhados com as "forças conservadoras" para destruir o Estado Social, blá, blá, blá.
O candidato não se riu, mas quem viveu em Portugal nos últimos 15 anos não pode ter deixado de rir à gargalhada. Caso tenha passado todo este período em greve sensorial, posso informá-lo, meu caro candidato, que todos esses "grandes interesses", o "grande capital", as grandes organizações, o "imperialismo" europeu e outras coisas mais, gostaram muito de andar de braço dado com o seu socialismo.
Quer exemplos? Há muitos. E olhe que o BPN é capaz de não ser excepção.

A importância de uma agenda pró-democracia em Africa

Este texto do Henrique Raposo, já aqui citado pelo Miguel, é de extrema importância. Africa, o continente esquecido, tem sido sobretudo vítima das suas elites corruptas. Ao contrário do que é aventado pelas correntes altermundistas, são os seus líderes os principais responsáveis pela pobreza generalizada que grassa no continente. Apenas a democracia e a liberdade pode salvar África da miséria. Mas, como o Henrique demonstrou, nem tudo é mau e existem bons exemplos para serem seguidos. O Presidente George W. Bush, que visitou Africa duas vezes, foi um dos poucos políticos ocidentais que nas últimas décadas que tentou colocou a agenda democrática africana na ordem do dia. Além da sua muito elogiada política contra SIDA no continente, Bush foi destacando os bons exemplos democráticos, visitando países como o Benim, Gana ou Botswana. Enquanto no Ocidente os populares berravam contra as políticas de Bush, no Gana construíram uma auto-estrada com o seu nome. As suas visitas nunca tiveram tanto calor humano como nas ruas africanas. Além disso, os programas de educação, no valor de 600 biliões de dólares, foram um óasis na ajuda ao continente, por contraste com a doação de bens e de dinheiro, oferecidos sem critério, e que não raras vezes vão parar às mãos das elites corruptas. Só uma agenda pró-democracia em Africa pode oferecer dignidade aos seus povos. Barack Obama, com raízes africanas, tem aqui um bom legado para continuar do seu antecessor.

No Estado Social ninguém toca (excepto se for socialista...; mas um socialista defende sempre o Estado social, mesmo quando o ataca...)

"Alguns desempregados passam a pagar taxas moderadoras"

O rigor, a competência, a palhaçada

"Negócio dos blindados da PSP pode acabar em Angola"

Tribunal de Contas

O Tribunal de Contas censura, e o Governo responde respeitosamente. O Tribunal de Contas denuncia os rombos orçamentais, e o Governo responde com grande consideração pelas instituições da República.
Mas quando o Tribunal de Contas recomenda a demissão de gestores públicos e outros amigos do poder socialista é bom que se prepare. É que não há institucionalismo que resista quando se passa a fronteira, quando se toca naquilo que verdadeiramente interessa. O País pode cair, mas na clientela ninguém toca.

Era Uma Vez Na América


O excelente blogue Era Uma Vez na América, do nosso camarada Nuno Gouveia e de José Gomes André, começou uma leitura do ano, com a eleição comentada e ilustrada de actores e acontecimentos que marcaram 2010, do ponto de vista da América, claro, e, portanto, gostando ou não, também em boa parte o nosso. Uma boa ocasião para se familiarizar com um dos melhores locais da nossa blogosfera. Escolhi a ilustração em cima, claro, por mero acaso.

Momentos ONU: o melhor de 2010

Como mudaram em tão poucos meses, senhores!

A propósito desta oportuna lembrança, sou só eu ou há mais quem estranhe a ausência daqueles comentadores, os de esquerda e os supostamente de direita, que rasgavam as vestes com a infame campanha que atacava o nosso (como se sabe) impoluto primeiro-ministro pelo lado do seu (estou segura) irrepreensível carácter, mesmo quando esses ataques eram filhos da possibilidade de um crime de atentado ao Estado de Direito, consubstanciados em escutas que só não são válidas por formalismos jurídicos contestáveis, ou de um licenciamento muito manhoso, ou de uma licenciatura acidental, ou de umas casinhas que não se sabe bem quem desenhou, ou..., e que quando se trata de ataques de carácter a Cavaco Silva estão caladinhos? Todos os carácteres são iguais, mas uns são mais iguais que outros, é isso? Mas percebe-se, a gente de esquerda, mesmo quando supostamente de direita, não gosta que haja quem ganhe dinheiro com esse expoente do capitalismo que são acções de uma empresa. Lamenta-se que seja o único argumento que tenham contra Cavaco. Deve ser da falta de imaginação de fim de ciclo.

Sem título

Enquanto o ano de 2010 não chega ao fim, ainda vamos a tempo de escutar o Bowie com um tema adequado aos tempos.

A Guerra Sagrada

(Composto por Alexander Alexandrov, para as palavras de Vasily Lebedev-Kumach, em 41, logo no início da guerra. Alexandrov foi também o autor do Hino Nacional da União Soviética, a partir de 44 - hinos que não deixam indiferente o mais empedernido dos anticomunistas. O video também é extraordinário.)

Combate de Blogs - nº 35

O próximo programa regressa ao horário de Domingo (das 18h às 19h). Passará de meia-hora para uma hora completa.

A outra África

Henrique Raposo no Expresso online

Para os nossos media, "África" quer dizer "sangue" e "pobreza". É por isso que muita gente ainda não sabe que existem democracias consolidadas e - relativamente - prósperas em África: Mali, Gana, Benim, Namíbia, São Tomé & Príncipe, África do Sul e Botswana. [E]stes países são factos empíricos que não encaixam na narrativa apocalíptica que o Ocidente gosta de reproduzir sobre África. O que é uma pena. Os outros países africanos não vão sair do buraco através dos conselhos morais e abstractos dos ocidentais. Os outros países africanos só encontrarão o caminho da boa governança quando quiserem olhar para as práticas dos seus vizinhos que têm a cor verde no mapa da liberdade . As Angolas só caminharão para a democracia e prosperidade quando quiserem olhar para o exemplo que o Botswana oferece há várias décadas.

O regresso da inflação

Para já nos BRIC. Primeiro na China e agora no Brasil, Rússia e India.

ADENDA: Entretanto na frente "interna". Ontem o BCE não conseguiu , pela primeira, esterilizar por completo uma operação de compra de dívida soberana. Isto equivale a dizer que o BCE está, ainda que involuntariamente, a monetizar a dívida dos estados-membros. (a tendência implícita neste gráfico não é muito reconfortante)

O custo da gratuitidade das novas tecnologias

"O Fim da Privacidade" de Fernando Gabriel (Diário Económico)

Tal como a difusão dos ‘scanners' corporais é facilitada pela recusa geral de medidas que possam ser consideradas discriminatórias, também não é possível inocentar os consumidores, que pretendem ligações mais rápidas mas recusam-se a pagar pelo aumento da qualidade do serviço sob a forma de preços mais altos. Os fornecedores e companhias de marketing encontraram uma solução: compensar o diferencial entre receitas directas e custos através de receitas de publicidade. O preço "escondido" é a perda de privacidade.(...) [H]á uma escolha a fazer entre a protecção da privacidade e a adesão incondicional aos brinquedos tecnológicos e essa escolha revela se pretende ser tratado como adulto ou como criança. E as crianças não devem ter segredos.

Anestesiados

Garanto que me esforcei. Andei aqui às voltas a tentar escrever um texto optimista para fechar o ano. Mas com nuvens tão carregadas no horizonte, um balanço realista não pode ignorar a incerteza que o presente projecta sobre o futuro. Não penso apenas na crise económica. Sobre isso haverá outros a escrever com mais propriedade. Penso no ambiente político que vivemos. No sentimento de beco sem saída. Na apatia e desistência que vejo à minha volta.

Há um efeito secundário dos escândalos políticos dos últimos tempos. Talvez mais subtil mas não menos perigoso. Semelhante ao que acontece com as catástrofes longínquas que as notícias nos trazem todos os dias: banalizam-se e tornamo-nos indiferentes. Deixamos de reagir a mais um “caso político”, tal como nos passa ao lado uma nova tragédia no Uzbequistão. Com a abundância de “casos” mal explicados, envolvendo membros do Governo e o próprio Primeiro-Ministro, a desconfiança entranhou-se na vida política portuguesa. Casos como o Freeport ou Face oculta, episódios como a licenciatura ou as casas da Guarda banalizaram-se. Como estão longe os tempos em que uma simples dúvida sobre a sisa ou uma manta de avião eram suficientes para a demissão de um ministro. Perdemos sensibilidade. Descemos o nosso padrão de exigência. Fomo-nos tristemente habituando à promiscuidade entre interesses públicos e privados. Vulgarizou-se a ideia de que um partido pode colocar os “seus” em certos lugares nas empresas privadas (PT, BCP, Cimpor) para depois os utilizar como peões de uma estratégia de poder e controlo sobre os media e a sociedade em geral.

Claro que sempre se disse mal dos políticos pelas esquinas e cafés. A diferença é que agora ouvimos o mesmo discurso pelas alcatifas bem cuidadas dos escritórios, bancos e universidades. Generalizou-se entre as elites uma ideia negativa sobre a política. Perdeu-se a noção de serviço público. Recordo-me de ouvir, na vetusta Faculdade de Direito, elogios aos que colaboravam em partidos ou gabinetes. Hoje, pelos mesmos corredores, vejo desdém por aqueles que fazem o mesmo. Os melhores, que podem escolher, preferem uma carreira “privada”, porque a política, mesmo uma colaboração técnica num gabinete, é vista como uma mancha no currículo.

A vida vai-se fechando num círculo cada vez mais privado. As pessoas cruzaram os braços, estão indiferentes, anestesiadas. Cada um a tratar da sua vidinha. A pensar na carreira. A ganhar dinheiro. O resto não vale a pena, nem justifica “sujar as mãos”. Com a crise sobra ainda menos tempo para a vida pública. A política perdeu espaço, basta ver o alinhamento dos telejornais. Esta despolitização, este fechamento numa lógica privada é preocupante. Faz lembrar o pior do salazarismo. A política perdeu qualidade. Mais do que a crise económica, este será porventura o pior legado dos governos Sócrates: a apatia generalizada, a decadência da nossa vida pública de que vamos demorar muito tempo a recuperar.

Grande Finale (84)

2010, Peter Hyams, 1984

Terça-feira, 28 de Dezembro de 2010

Reviver o passado

«SÁ, PAGA OS 33 000!» e «CARNEIRO CALOTEIRO!» - lembram-se?... Parece que algumas personagens do PS estão a repetir o método. Antecipam o esmagamento do "seu" candidato e sentem que já não têm nada a perder - e quando não se tem nada, aposta-se em tudo. Tudo.
Seja. Mas ocorre-me uma imagem que refere 'telhados' e 'vidro'.
Não é qualquer um que sabe atirar um boomerang. Cuidado.

Parabéns à Universidade do Minho

Universidade do Minho é a primeira do país a anular doutoramento por plágio

A Internet foi uma dádiva para todos os investigadores académicos. Mas também facilitou imenso a vida aos batoteiros. Isto só se combate com a repressão dos prevaricadores. Acredito que nem sempre é fácil para um professor acompanhar os trabalhos dos seus alunos, e quando são muitos, será mesmo impossível verificar a autenticidade dos mesmos. Depende das situações. Mas quando estamos a falar em teses de doutoramento ou até de mestrado, é vergonhoso que se chegue a uma situação destas. A Universidade do Minho actuou como devia neste caso, e deu uma lição para os batoteiros desta vida. Que isto lhes sirva de lição.

Por cá, nada acontece, nada tem consequências

Governo diz que não há razões para demitir gestores públicos.

Até se percebe. Pela mesma ordem de razões era preciso demitir o Governo logo a seguir. Mais vale não fazer nada. É mais fácil manter tudo numa nebulosa de mediocridade generalizada. Eles não sabiam, não foi por mal. Somos todos amigos, damo-nos bem, conhecemo-nos lá da terra e das reuniões do partido. Não vale a pena fazer ondas. Por cá todos bem. Nada acontece. Nunca há consequências. Ninguém é responsável. E o último que feche a porta.

Alienados

O Paulo Marcelo escreve hoje um texto cujo desalento partilho (suponho, pelo tom, que terá sido o texto que mais lhe custou escrever até hoje. Vale a pena ler).

O retrato desolador do país que ele traça, chamando-lhe «anestesiados», não é completo. Falta-lhe o complemento, por ventura tão ou mais deprimente, do capítulo dos «alienados». É rápido. Basta ler esta prosa inacreditável, de tão imaginativa como descosida, do João Galamba. É um patchwork de coisas que não existem, vacuidades esotéricas e inconsistências.

Declarações de responsáveis europeus elogiando os esforços heróicos dos países periféricos na consolidação orçamental? Heróicos? Mesmo entre aspas? Mesmo que existam, dignos de relevo, o que, como ele está farto de saber, não é o caso de Portugal, seriam heróicos por que carga de água? Que poderia ter de heróico inverter uma trajectória de endividamento suicidária? E que responsável europeu, mesmo tendo no grupo gente alucinada como Jean-Claude Juncker ou o comissário Olli Rehn, algum vez se referiu aos esforços, onde eles existem, como «heróicos» ou coisa parecida?

A «Europa» pôs-se de fora? Mas não existe o Fundo Europeu de Estabilização Financeira (FEEF), que o seu - dele, João Galamba - governo acha que Portugal pode e deve dispensar? O BCE não está comprador praticamente único dos títulos de dívida portuguesa no mercado secundário e não é o único fornecedor de fundos da banca nacional desde Maio?

Não. Ou melhor, sim. Tanto faz. O deputado acha, porém, que se a «Europa» fosse «coerente com as suas declarações», usaria antes «o seu poder para garantir que, enquanto os países em dificuldades forem cumprindo o acordado, estes têm todas as condições para realizar os ajustamentos necessários sem pressão adicional e contraproducente dos mercados». Aqui o deputado mergulha no oculto. Quais poderes, para além da cobertura que vem dando com o já referido FEEF, as compras massivas de títulos e a cedência de fundos? E quando se refere a «cumprir com o acordado» está a referir-se a que país, ele, que é deputado de um que furou tudo o que havia para furar, depois de ter sido forçado a comprometer-se, em Maio, com qualquer coisa significativa em matéria de consolidação orçamental?

O João Galamba vive onde? Na realidade não é de certeza. Vale apenas como exemplo do estado mental doentio da corte.

Ensitel vs Maria João Nogueira: mau serviço e prepotência

Maria João Nogueira

Portanto, a Ensitel não gosta que os clientes expressem livremente a sua opinião. A liberdade de expressão é muito linda e coiso e tal, mas só quando não chateia. Se chateia, já não há liberdade de expressão para ninguém. Eu não minto nos meus posts sobre a Ensitel. Descrevo a situação, dou os factos, e escrevo o que penso acerca da coisa.

Toda a história aqui:
Ensitel
Ensitel (take 2)
Dia do consumidor
Conflitos de consumo
Centro de Arbitragem de conflitos de consumo
Ensitel (take 6)
Ensitel - Take 7

(links roubados do Insurgente)

Palpites para 2011

Inspirado pelo post do Miguel Noronha partilho convosco alguns dos meus palpites para 2011 relativos ao cumprimento das metas de consolidação orçamental dos países aflitos. Com probabilidades e tudo.
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- Portugal - Probabilidade de cumprimento da meta orçamental: 30%
- Espanha - Idem: 40%
- Irlanda - Idem: 40%
- Grécia - Idem: 0%.

São palpites e só palpites, meus caros. Não é preciso ficar nervoso. É verdade que nos meus palpites os quatro países têm uma probabilidade inferior a 50% de cumprir o que prometeram em termos orçamentais. O que vale por dizer que é mais provável que falhem do que acertem. E não acertar terá um preço muito elevado nos custos de financiamento externo.
Mas quem sabe? Talvez os três primeiros países se encontrem na situação menos provável. Eu seria o primeiro a rejubilar. Já a Grécia parece ser um caso perdido. Não há receita que lhe valha. Ou fica ligada à máquina (alemã) ou sai do Euro em 2013 (2014, o mais tardar).
Mas também é certo que os milagres acontecem...
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(A leitura deste post pode ser acompanhada pelo tema aqui sugerido)

Now I stand here waiting...

Para 2011



Previsões para o próximo ano no Zero Hedge. Algumas parecem-me óbvias. Outras nem por isso. Vamos lá ver quantas acertam. Prevêm a queda da Espanha durante o 1º trimestre e que as atenções do mercado se passarão a centrar na Itália. Não fazem qualquer referência à situação portuguesa.

O governo Sócrates nunca perderá uma oportunidade de estampar o país contra uma parede. Jamais

(...) Será o primeiro passo de um caminho que se antecipa penoso. Se em 2010, o principal problema foram as elevadas taxas de juro exigidas pelo mercado para comprar a dívida nacional, com as obrigações a 10 anos a chegarem aos 7,288%, é possível que o próximo ano traga um obstáculo acrescido - a falta de procura pela dívida nacional. Portugal enfrenta a concorrência de uma "avalanche" de dívida europeia, com países com qualidade creditícia muito superior a inundar o mercado. A Morgan Stanley estima que os governos europeus emitam, no seu conjunto, dívida no valor de 863 mil milhões de euros, com economias como a Espanha a irem buscar ao mercado 300 mil milhões, a Alemanha 302 mil milhões e França a emitir 184 mil milhões. Portugal irá necessitar de emitir cerca de 46 mil milhões de euros no próximo ano. Só no primeiro trimestre vencem cerca de 11 mil milhões de euros em Bilhetes do Tesouro, mas será com o vencimento de quase 10 mil milhões de euros em Obrigações do Tesouro em Abril e Junho que Portugal "decidirá" o seu futuro.

A notícia está aqui.

Em 2010, «tudo o que podia correr mal, correu. Foi um ano que possivelmente vai ficar para a História, dentro de décadas vamos olhar para este ano e estudá-lo». Sérgio Aníbal, editor de economia do Público. Ver aqui o vídeo.

A única coisa de que podemos estar certos em 2011: com este governo, na sua boa tradição, tudo o que puder correr mal, correrá mal.

O meu sonho de criança

Segunda-feira, 27 de Dezembro de 2010

Vermelho de vergonha

Agora que fui desmascarado sem remissão, só me resta repetir as confissões de Abril: esta e esta.

Anarquismo na RR

A minha crónica desta semana na RR: Anarquismo.

Depois da explosão das encomendas armadilhadas em duas embaixadas em Roma, houve quem falasse de uma “onda de terrorismo” anarquista. Por enquanto, é difícil distinguir o aviso sincero do mero alarmismo. Mas a julgar pela nota de revindicação dos atentados, a Federação Anarquista Informal está a tentar recuperar a letra e o espírito da famosa “propaganda pelo acto”, que fez estremecer a Europa de há 100 anos.
O caso trouxe ainda mais à superfície as ligações internacionais do movimento anarquista de índole violenta e não-violenta. Sabe-se que existem laços estreitos de coordenação entre grupos espanhóis, italianos e gregos. A coincidência histórica é interessante, mas estamos muito longe da imensa força política e entusiasmo revolucionário que o anarquismo mostrou na primeira metade do século XX nestes três países. O anarquismo fez a revolução na IIª República espanhola, ajudou a preparar “semanas vermelhas” antes e depois da I Guerra Mundial em Itália, e formou o partido proletário grego nos anos 20, que, para desgraça futura dos anarquistas, acabaria por ser dominado pelos comunistas de lealdade soviética.
No entanto, convém perceber que o grito de revolta anarquista está desde há muito associado a um desejo ardente de destruição pela destruição. Na sua origem, a exortação à “propaganda pelo acto” correspondia à enunciação de uma tarefa que o “Catecismo do Revolucionário” descrevia como “terrível, total, geral e implacável”. Era a tarefa da destruição de um mundo que não conhecia inocentes.
Durante vários anos, o anarquismo terrorista foi capaz de provocar ondas de pânico nas sociedades europeias. Hoje, o retorno de tamanha ameaça não parece ser plausível. Mas a mesma vontade niilista de rejeição total da sociedade permanece nalguns grupos, que tenderão a crescer numa época de incerteza, de angústia e de perda de confiança, como é a nossa.

Um bocadinho de história

Clique em cima para ver melhor.

Com um obrigado a Vítor Bento.

Ali em cima, com a curva apontada ao céu, o governo populista, demagogo e incompetente aumenta o salário mínimo. Já li mesmo economistas a justificarem a coisa, indignados com a não recepção dos maus argumentos do seu bom coração. No fundo, toda essa curva, bem espremidinha, é (também) uma invenção (terrivelmente real) de economistas. Admiramo-nos de quê
?

Guilty as charged

Queria aqui dizer à Edite Estrela que uma boa parte da minha geração cometeu a decisão de investir e ganhar uma pipa de massa em acções de uma data de empresas que nunca deram um dólar ou euro de lucro na vida. A maioria delas, aliás, já nem existe: umas por dissolução, falência, etc, outras porque foram compradas, fundidas, etc. Foi a loucura das dot.com.

Mas houve e há também uma data de gente que fez dinheiro em "private equity" ou conceito aproximado, tomando e vendendo posições em empresas com transacções fora do mercado das bolsas. A prazo, muitas dessas empresas prosperaram, outras ficaram "belly up".

São dois exemplos mas há mais. Mas das duas uma, ou Edite Estrela quer acabar com este tipo de mercados e transacções ou está de má fé. Voto na segunda.

O título está em inglês porque já se sabe que o lucro é uma demoníaca invenção anglo-saxónica.

Paz na Europa

O objectivo último da construção europeia é a paz e não propriamente a prosperidade económica, ainda que esta possa contribuir em algum grau para aquela. Para alcançar aquele objectivo usou-se o instrumento da integração, alargando o número de países e o número de áreas abrangidas pela “Europa”.

Infelizmente, nos últimos anos parece que se esqueceu a hierarquia das questões e tem havido uma insistência absurda no instrumento e um desprezo incompreensível pelo objectivo. Talvez durante muitos anos a integração possa ter sido o instrumento ideal para alcançar o objectivo da paz, mas ultimamente parece que se esqueceu que a integração não é um objectivo em si mesmo.

A Europa “à la carte” pareceria uma estratégia muito mais de acordo com o objectivo da paz, já que os países escolheriam, para além de um núcleo central, apenas as áreas que considerassem convenientes. Ninguém seria forçado a seguir a opinião da maioria. Como todas as integrações seriam voluntárias é provável que isso minimizasse os conflitos.

No caso do euro parece que se cometeu o mesmo erro de inverter a hierarquia das questões e colocar o instrumento integração acima do objectivo da paz. Os países da UE são obrigados a aderir ao euro (com excepções negociadas), a partir do momento em que preencham os requisitos de entrada. Nem sequer foi previsto que um país, depois de entrar, possa escolher sair.

A frágil arquitectura do euro e a má gestão da sua criação e desenvolvimento colocaram-nos numa situação clara em que a integração é inimiga da paz.

Numa situação normal, quando um instrumento se revela contrário ao alcançar do objectivo, esse instrumento é posto de lado e substituído por outro mais adequado. No caso da UE, em que se confundiu o instrumento com o objectivo, há uma resistência brutal em mudar de instrumento.

Considero que o projecto do euro tem demasiadas fragilidades e já acumulou um conjunto excessivo de problemas para conseguir sobreviver a prazo. Só vejo duas saídas: um divórcio amigável ou um divórcio litigioso.

Um dirigente europeu que perceba que o mais importante é a paz, deveria tomar passos para encontrar o mais rápido possível as condições para se produzir um divórcio amigável.

Um dirigente “europeísta”, obcecado pela integração e incapaz de perceber que ela não é um objectivo mas apenas um instrumento, vai tentar prolongar o euro para além do defensável, conduzindo ao divórcio litigioso. É extraordinariamente irónico que sejam os defensores da integração aqueles que se preparam para destruir o projecto europeu e que mais inimizades vão criar. Infelizmente, parece-me que é este grupo que vai dominar os acontecimentos. O processo vai ser muito feio e no final a Europa vai estar mais longe da paz do que esteve nas últimas décadas.

Ser europeísta, uma escolha e não uma obrigação, não significa defender mais integração, mas sim defender mais paz. E estes “europeístas” vão destruir o verdadeiro objectivo da construção europeia desde o seu início: a paz.

O ABC

Está muito islamofóbico.

Lesgislação ordinária: dois exemplos

Jornal de Negócios
Lei de valor reforçado que define toda a gestão orçamental do Estado passa a obrigar a "défice zero", mas sem sanções por incumprimento

Público
A legislação recentemente promulgada por Cavaco Silva passou a admitir como despesas declaráveis de um partido as coimas a si aplicadas, tal como o Expresso já noticiara. Mas a lei também passa a prever que as multas decretadas contra os seus dirigentes possam ser inscritas nas despesas.(...)A inclusão das coimas nas despesas tem uma aplicação prática. É que como é a partir das despesas que o Estado calcula a subvenção concedida aos partidos, ao incluir as coimas nessas despesas, os partidos acabam por receber de volta, mais tarde, o valor monetário das coimas que lhe foram aplicadas.

Grande Finale (83)

Quando Passam as Cegonhas, Mikhail Kalatozov, 1957

Domingo, 26 de Dezembro de 2010

Kiosk - To Kojaee


Como sei que gostaram muito do anterior, aqui fica mais um Kiosk. Divirtam-se, se puderem.

Kiosk : Love for Speed (Eshgh e Sorat) legendado


O Irão, ao contrário do que se seria levado a crer pela leitura das notícias, não é apenas a selvajaria islamista fanática, tão ao gosto da esquerda marginal, traída sucessivamente pelo proletariado aburguesado e pelo terceiro mundo cleptocrata, com o seu cortejo de enforcamento de gays e apedrejamento de mulheres alegada ou realmente (que diferença faz para o caso?) adúlteras, e, cereja no bolo, a promessa (como eles trepidam de alegria à simples ideia...) de um apocalipse nuclear. Há uma contra-cultura underground, que (isto deve ser um choque para os amantes da «resistência islâmica») mais tarde ou mais cedo se exila em Nova Iorque, ou outros destinos igualmente sinistros, como o grupo Kiosk, de quem aqui fica um simpático vídeo. Mas renasce sempre, com uma vitalidade impressionante, depois de mais 30 anos de repressão violentíssima. Não é lá muito fácil destruir completamente um país há tanto tempo civilizado. Tenho esperança: se Deus quiser, ainda hei-de poder passear pelas ruas livres de Teerão.

Cripto-comunistas



textos fundamentais:
- "The Smurfs Were Communists!" (textos de Dave Morgan e Kristen M. Sonntag, Esq)
- Smurf Communism
- S.M.U.R.F.
- Communist Smurfs and Obama's Budget: Why Gargamel was a Capitalist
- The Smurfs Were Communists, when You Think About It
- The political leanings of the Smurf community. Fact or fiction.

Uma opinião divergente: "The Theory of Smurfian Communism" de Andrew Dougherty

(as caixas de comentários são um conhecido meio de propagação do comunismo)

Espírito de Natal

Sócrates limitou-se a aproveitar a época natalícia para assumir uma muito cristã ‘mea culpa’ em público. Penitenciou-se de todas as ocasiões em que explorou o tema da "pobreza e das dificuldades do País" com finalidades eleitorais. Concordo com o primeiro-ministro: é inaceitável, por exemplo, que o próprio Sócrates tenha dito a 15 de Janeiro de 2008 que "o risco de pobreza desceu fundamentalmente junto dos idosos" e "os dados comprovam que os riscos de pobreza têm vindo a diminuir nestes últimos dois anos de Governo". Igualmente inaceitável é a utilização do argumento da pobreza nas campanhas eleitorais.

Hoje no CM

Igualzinho

Em pose. Há coisas que devem nacer com a pessoa. O resto é igual.

Da escassez de pachorra

Era só o que faltava que um tipo tenha como que prestar provas de bom comportamento anticomunista de cada vez que aponta algum facto histórico. Sim, leram bem, facto. Não preciso que me recordem isto. Será que me devia sentir esmagado? Será que é mesmo necessário apontar que aquilo já está pressuposto no meu post? (Leiam de novo, por favor.) Esta querela (para mim, inútil, senão ridícula) só me faz lembrar as iniciadas pelos maluquinhos ateus que, de cada vez que alguém se atreve a pronunciar, mesmo que baixinho, a palavra 'hóstia', vêm logo a correr gritando aqui d'el-rei com a memória das fogueiras da inquisição. Um dia destes, um sujeito que se atreva, por exemplo, a comparar o canhão do Tiger II (88mm) com o do Stalin II (122mm), sofrerá imediatamente acusações lancinantes de branqueamento do estalinismo, ou de aplauso de Katyn, etc, etc. Tenho a impressão que alguns dos comentadores que aqui aparecem (deixo de fora os sérios que merecem respostas sérias), nem sequer leram o texto: apenas avistaram os T34 na foto, desataram logo a salivar e a rosnar.
Sinceramente, lamento ter que dizer isto: convinha que, a troco da obtenção de um atestado de pureza anticomunista (ou antibolchevique, ou anticomuna, se preferirem), não se escolhesse a amnésia histórica ou a negação patológica de condições históricas que são, agora, indespedíveis. É que, meus queridos, ter uma opção ideológica não tem de levar necessariamente a uma qualquer forma de aldrabice, está bem?
Por agora, não quero perder mais tempo com estas criancices.
(Concedo uma única coisa: não fiquei satisfeito com o título do post - mas, agora, depois das reacções que suscitou, mantenho-o.)

[Não há que ter medo de manter caixas de comentários.]

Sábado, 25 de Dezembro de 2010

Resposta ao camarada Botelho tirada do baú - do meu e do dele

Their Vilest Hour

Há 68 anos era assinado o infame pacto Molotov-Ribbentrop. Estaline mostrava ao mundo inteiro que não era muito diferente de Hitler e que o regime soviético tinha ambições imperiais semelhantes às do regime nazi. Foi num dia 23 de Agosto.
Foi a tradução diplomática da tese posterior que defendeu que ambos os regimes eram essencialmente idênticos, baptizando-os com uma palavra nova: "totalitarismo".
Foi o momento mais alto do mundo das trevas, dividido entre o nacional-socialismo e o bolchevismo.
Foi o momento mais baixo da civilização europeia.
Quando vemos quem eram os signatários do pacto, e o que representavam, e quando recordamos tudo o que daí resultou, sentimos aquele impulso estéril de dizer que o 23 de Agosto seria o candidato perfeito para um dia de luto europeu.
.
A seguir, ler "Há Setenta Anos" (da autoria do Carlos Botelho);
e, "Há Setenta Anos III" (da minha autoria).

Judenrein

Se um dirigente israelita sugerisse um centésimo do recíproco disto, caía-lhe o mundo inteiro em cima, em apoplexia humanitária. Como, por definição, os dirigentes palestinianos são inimputáveis (ou o que dizem, em geral, não é para levar a sério), ninguém, como de costume, ligará ao caso. Mas lá que lhe deu hoje para repetir pela enésima vez o seu anseio por um Estado Palestiniano judenrein, lá isso deu.

Dado o estado mental aberrante da esquerda em Portugal as presidenciais correm o risco* de ser o momento mais desinteressante da história eleitoral

Diz-se que Portugal tem a direita mais estúpida do mundo. É capaz. O que já não oferece discussão é que tem a esquerda mais estúpida do mundo.

Luciano Amaral, continuar a ler no O Gato de Cheshire.

* Sinceramente: riscos, já chegam os que há, de modo que, bem feitas as contas, não me parece muito mal um Janeiro eleitoral profundamente entediante.

Natal

Neste caminho cortado
Entre pureza e pecado
Que chamo vida,
Nesta vertigem de altura
Que me absolve e depura
De tanta queda caída,
É que Tu nasces ainda
Como nasceste
Do ventre de Tua mãe.
Bendita a Tua candura.
Bendita a minha também.

Mas se me perco e Te perco,
Quando me afogo no esterco
Do meu destino cumprido,
À hora em que eu Te rejeito
E sangra e dói no Teu peito
A chaga de eu ter esquecido,
É que Tu jazes por mim
Como jazeste
No colo de Tua mãe.
Bendita a Tua amargura.
Bendita a minha também.

REINALDO FERREIRA [1959?]

Inconsequências

É curioso que Pedro Adão e Silva, num mesmíssimo texto, com apenas uma dúzia de linhas, observe que "as palavras são importantes" no debate público, ao mesmo tempo que tropeça na expressão "totalitarismo do cinismo". De facto, em Portugal, a melhoria do debate no espaço público é uma "tarefa hercúlea".

Males menores




- Terror Vermelho (1918-1922)
- Gulags (1930-1969)
- Deportações (1 e 2) (vários periodos)
- Eliminação dos Kulaks (1929-1932)
- Holodomor (1932-1933)
- Processos de Moscovo (1936-1938)
- Massacre de Vinnytsia (1937-1938)
- Grande Repressão (Mongólia) (1937-1939)
- Massacre de Katyn (1940)
- Massacre de Backa (Jugoslávia) (1944-1945)
- Campanha de eliminação de contra-revolucionários (China) (1950-1951)
- Guerra da Coreia (1950-1953)
- Grande Salto em Frente (China) (1958-1961)
- Revolução Cultural (China) (1966-1976)
- Campos de Morte (Cambodja) (1975-1979)
- Terror Vermelho (Etiópia) (1977-1978)

Peço desculpa por não ter sido exaustivo.

A Christmas Tree

VIGGO JOHANSEN, Glade Jul (1891)

I have been looking on, this evening, at a merry company of children assembled round that pretty German toy, a Christmas Tree. The tree was planted in the middle of a great round table, and towered high above their heads. It was brilliantly lighted by a multitude of little tapers; and everywhere sparkled and glittered with bright objects. There were rosy-cheeked dolls, hiding behind the green leaves; and there were real watches (with movable hands, at least, and an endless capacity of being wound up) dangling from innumerable twigs; there were French-polished tables, chairs, bedsteads, wardrobes, eight-day clocks, and various other articles of domestic furniture (wonderfully made, in tin, at Wolverhampton), perched among the boughs, as if in preparation for some fairy housekeeping; there were jolly, broad-faced little men, much more agreeable in appearance than many real men—and no wonder, for their heads took off, and showed them to be full of sugar-plums; there were fiddles and drums; there were tambourines, books, work-boxes, paint-boxes, sweetmeat-boxes, peep-show boxes, and all kinds of boxes; there were trinkets for the elder girls, far brighter than any grown-up gold and jewels; there were baskets and pincushions in all devices; there were guns, swords, and banners; there were witches standing in enchanted rings of pasteboard, to tell fortunes; there were teetotums, humming-tops, needle-cases, pen-wipers, smelling-bottles, conversation-cards, bouquet-holders; real fruit, made artificially dazzling with gold leaf; imitation apples, pears, and walnuts, crammed with surprises; in short, as a pretty child, before me, delightedly whispered to another pretty child, her bosom friend, “There was everything, and more.” This motley collection of odd objects, clustering on the tree like magic fruit, and flashing back the bright looks directed towards it from every side—some of the diamond-eyes admiring it were hardly on a level with the table, and a few were languishing in timid wonder on the bosoms of pretty mothers, aunts, and nurses—made a lively realisation of the fancies of childhood; and set me thinking how all the trees that grow and all the things that come into existence on the earth, have their wild adornments at that well-remembered time.
Being now at home again, and alone, the only person in the house awake, my thoughts are drawn back, by a fascination which I do not care to resist, to my own childhood. I begin to consider, what do we all remember best upon the branches of the Christmas Tree of our own young Christmas days, by which we climbed to real life.

CHARLES DICKENS [1850]

Ladainha dos Póstumos Natais

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que se veja à mesa o meu lugar vazio

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que hão-de me lembrar de modo menos nítido

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que só uma voz me evoque a sós consigo

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que não viva já ninguém meu conhecido

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que nem vivo esteja um verso deste livro

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que terei de novo o Nada a sós comigo

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que nem o Natal terá qualquer sentido

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que o Nada retome a cor do Infinito

DAVID MOURÃO-FERREIRA

Sexta-feira, 24 de Dezembro de 2010

Cachimbos de lá

Retrato do nosso padroeiro, s.d. (eu sabia que tinha isto em qualquer lado). Feliz Natal!

Há males que são menores, bem menores


É melhor não considerar a pura sensatez histórica como loas 'ao camarada Stalin' ou, por exemplo, um qualquer apreço pelo velho NKVD. Simplesmente, as coisas devem ser postas no seu lugar. É tão "simples" como isso. Comparar não é igual a equiparar. Apesar de tudo, de toda a brutalidade da tropa, de todas as abominações dos regimes post-45, a progressão relativamente rápida do Exército Vermelho a partir de 1944 salvou centenas de milhar (ou milhões?) de vidas - que teriam, pura e simplesmente, desaparecido da face da terra, graças à eficiência alemã e ao zelo dos fantoches ucranianos, bálticos, húngaros, croatas, etc. E sim, ao dizer isto, tenho em conta Katyn e outras, as violações por toda a Prússia e na Hungria... - escusam de vir recordar o que não foi esquecido. Gostava de ver como teria sido o decorrer da guerra sem o contributo do Exército Vermelho para a derrota terrestre (por mais voltas que dêem, essa foi a decisiva) do Reich.

[Na imagem, combate à volta de Prokhorovka, parte da batalha gigantesca de Kursk, em Julho de 43. Monumento aos mortos de Prokhorovka, aqui.]

Just use Government!



Espalhafatosamente roubado a O Insurgente.

Santo Natal

O Natal à venda


É por estes dias que se vão ouvindo os queixumes habituais sobre o "consumismo" natalício: lamentos, de resto, quase sempre meramente formais, analgésicos para as consciências.
Mas também não deixa de ser verdade que enunciados como estes só fariam sentido se as 'decisões de compra' fossem efectivamente "racionais" (muito haveria a dizer sobre o carácter 'voluntário' dessas 'decisões'...). Só uma grande candura nos permitirá não reconhecer os mecanismos e os dispositivos usados para gerar uma certa infantilização consumidora do público e, como que num segundo momento, aproveitar essa mesma infantilização. Por outro lado, receio bem que, ao dizermos 'procurarem as empresas ir de encontro às necessidades do seu mercado', estamos, ainda que não completamente, mas em grande medida, a confundir o efeito com a causa: uma componente nada desprezível dessas necessidades é, precisamente, induzida, gerada no "consumidor" pelo "vendedor".

É melhor assim (reeditado)

Os economistas sabem que o salário mínimo sobe aquela curva e causa desemprego naquele triângulo. Exactamente. Já a «ideia» é que não percebo. Sobretudo numa altura em que o desemprego explode e atingiu já níveis estratosféricos entre os jovens à procura de uma oportunidade para entrar no mercado de trabalho. E é assim, Pedro Lains: pode defender o salário mínimo em nome de uma série de considerandos. Só não pode ignorar que, tal como o subsídio de desemprego, e tudo o que onera directamente o custo do trabalho, não tem consequências indesejáveis - desemprego. É aquela curva chatíssima a que se refere. É bom que as pessoas saibam do que estão a falar e pesem devidamente as opções que fazem. Você escolhe, e ainda por cima hoje, botões e desempregados subsidiados, ou nem sequer. Eu escolho empregados e oportunidades de entrada no mercado de trabalho para os jovens, dos mais aos menos qualificados. Assim, pelo menos, sabemos a razão por que não concordamos. Mas entendemo-nos.

P.S.: quanto a ideias «normais», «social-democratas», não sei a que se refere. Só posso falar por mim: não sou social-democrata e tenho a social-democracia por um anacronismo anormal, perdoe-se-me a redundância. O facto de ser militante de um partido que ostenta esse anacronismo no seu nome, tendo a atribuí-lo, talvez por wishful thinking (todos temos as nossas fraquezas), a um deslize da história. Repare que também o Partido Socialista, social-democrata, se chama socialista e não tem o programa do Partido Comunista, e por aí adiante. Por mim, e só falo por mim, sou (quase sempre) um conservador amigo da democracia, desde que seja liberal (o oposto de despótico não é democrático, é liberal), se me quiser situar politicamente algures. Não creio que seja assim uma disposição tão radical. Embora, no contexto, às vezes possa parecer. É do contexto.

Feliz Natal


Josefa de Óbidos, Natividade, c. 1650.
A todos os camaradas e leitores do Cachimbo, votos de Feliz Natal - e que o Menino Jesus nos traga muita paciência para continuar a "teimosia viável".

Candidato (a post do ano)

Irene Pimentel, historiadora e Prémio Pessoa 2008, explica no Jugular por que razões é eticamente condenável usar os arquivos de uma polícia política para atacar um candidato em campanha. Não é preciso dizer mais nada, pois não?

Nem tudo está perdido

O ministro diz que isto «é difícil de compreender». É um avanço civilizacional, pois o ministro não diz que é impossível. Diz que que a República se tem financiado «com regularidade» a «preços desproporcionados». Vá lá: mais um esforçozinho.

O Come, All Ye Faithful



Bom Natal para todos

E depois dos "abrantes"?

"2011, a esquerda e a direita" de Nuno Garoupa (Jornal de Negócios)

2011: não é preciso fazer sondagens para saber que o PS está de saída e o PSD de regresso ao poder. O que não se percebe muito bem é que diferença isso faz para a maioria dos portugueses que não são "boys" nem "girls" do PSD e do PS. O líder do PSD fala muito de reformismo, como aliás falava Durão Barroso em 2002. Mas quando passamos da retórica aos actos, o que se tem visto é a mesma lógica de sempre, mais do mesmo. Nas comissões para avaliar as PPP e a execução orçamental. Na nomeação para o Tribunal Constitucional. Na lei do financiamento dos partidos políticos. Aguardemos pois pelo novo ano de 2011 para ver se muda alguma coisa

Um mundo sem europeus - outra perspectiva


Um belíssimo (Nikka) Yoichi. Venceu com estrondo o primeiro prémio de melhor whisky do mundo (categoria coveted single malt) na famosa competição organizada pela whisky magazine. Foi também o primeiro whisky a ganhar este prémio que não é oriundo dos nossos amigos highlanders.

A notícia tem mais de 2 anos, mas só esta semana soube dela, o que me cobre de vergonha e me obriga a bebê-lo como redenção. Na pior das hipóteses pode ser que ajude a conviver com a exposição tóxica a Defensor de Moura.

Quinta-feira, 23 de Dezembro de 2010

O que a esquerda, a parola sectária (não a geral), não perdoa a Cavaco

Aqui. Sem tirar nem pôr.

Pocilga da República

No debate de hoje, pela primeira vez, não estivemos perante dois candidatos à Presidência da República. Estivemos perante um candidato à presidência e um candidato à javardice.

Marianne Faithfull - Crazy Love


O inglês é belo e perfeito, como é raro ouvir. Mas para quem quiser ler o poema, aqui. O senhor que está em primeiro plano é o senhor Nick Cave, que entrou na composição desta canção.

Chocante ao quadrado

Concordo com o Miguel Morgado e digo mais: não se compreende como é que alguém pode elogiar a prestação de Defensor de Moura - não tinha nada a perder e etc. - que insultou Cavaco Silva, quase lhe chamando de corrupto - e depois critique a linguagem do Presidente da República quando se defendeu desses mesmos ataques. O cinismo não pode ser maior.

Chocante

Adão e Silva ficou chocado com algumas declarações de Cavaco que revelam, diz ele, pouca consideração pelos seus adversários.
É curioso. Nunca tive oportunidade de ouvir Adão e Silva a exprimir o seu choque com as acusações de fascismo e outras traições à democracia, uma forma particularmente reles de desqualificar o adversário, que invariavelmente são mobilizadas pelo seu partido (sim, o PS, poupem-me aos sofismas do costume) contra os adversários à direita. E teve muitas ocasiões para o fazer. Chocante?

Elogio do pudor

Defensor Moura acusa Cavaco de não ter denunciado a "corrupção" e o "clientelismo".
A que partido pertence Defensor Moura? Pois é. Que tal um bocadinho de pudor? A época festiva recomenda. E o povo agradece.

Não é por nada, mas


Nenhum dos digníssimos cachimbos do PSD ou do CDS comenta o artigo de Pedro Pestana Bastos no Público?

+1- (actualizado)

Mais um menos. Seguir ali a actualização. Continuar a ler aqui: corta e mantém a perspectiva negativa, o que significa que é maior a probabilidade de voltar a cortar.

Rota do Românico do Vale do Sousa

Para todos os que, nos próximos dias, andarão pelo Norte, aqui fica uma sugestão de turismo cultural: a Rota do Românico do Vale do Sousa. Entre nós, e devido à própria história do país na Idade Média, o gótico é maioritariamente o estilo das grandes igrejas urbanas do Centro e do Sul, enquanto o românico está sobretudo presente em pequenas igrejas rurais da Beira Litoral e do Minho. Este relativo afastamento dos grandes centros, aliado a algum desprezo pela arte românica, tem contribuído para deixar na sombra um património monumental que reserva belíssimas surpresas a quem o visita. É o caso dos capitéis de S. Vicente de Sousa, que podemos ver em todo o seu esplendor na fotografia acima. Por ironia, foi o isolamento que ajudou a conservar muitas das igrejas românicas: durante séculos, sofreram mudanças mínimas porque as comunidades que serviam (e servem) cresceram lentamente, situação que só viria a alterar-se na época contemporânea. O Natal pode ser uma boa oportunidade para conhecer melhor esta parte do nosso passado.