Meu querido Pedro.
Há certamente muita coisa admirar na Alemanha e nos alemães, embora deva desde já salvaguardar que não creio que tu acredites mesmo (eu não acredito) que as suas boas políticas de imigração são apenas um acto de desinteressada generosidade e que a Alemanha é um caso de sucesso, mesmo que relativo, de integração de imigrantes [a própria
Frau Merkel já reconheceu o seu fracasso, embora tenha recordado aos mais distraídos que a culpa do dito fracasso não é alemão (como, curiosamente, nestas ou noutras coisas, a culpa nunca é portuguesa)].
Seja como for não é isso que está em causa naquilo que escrevo. Como aconteceu recorrentemente no passado, desde, pelo menos a década de 1860, e esse é o meu ponto, primeiro a Prússia e depois a Alemanha (imperial ou não), não têm olhado a meios para atingir os seus fins no domínio da política externa/internacional. No caso presente, o Governo de Berlim tem-se limitado a aproveitar os problemas mais ou menos graves, mas nem sequer originais (mesmo de um ponto de vista alemão, ou sobretudo de um ponto de vista alemão), sentidos por vários estados europeus mais débeis, para moldar de acordo com os seus interesses aquilo que resta de uma Europa livre e soberana. Como é público e notório a
Frau Merkel não tem feito outra coisa nos últimos meses que não seja tentar impor sucessivos
Diktats à Europa e em especial aos povos e aos governos do sul da Europa e à Irlanda (Irlanda que, convém recordar, há uma par de anos desafiou a poderosa Alemanha ao recusar em referendo aprovar o tratado de Lisboa). Se preciso for, e para atingir os seus objectivos, e como já aconteceu no passado, e essa é a minha opinião assente na interpretação de factos passados e presentes, a Alemanha voltará a destruir a Europa para atingir os seus fins. Aliás é isso que está a fazer. Não sei, meu caro Pedro, se sou louco nas minhas interpretações ou se tu és ingénuo ou masoquista, ou simplesmente lúcido e esclarecido nas tuas, mas isso agora pouco importa. Porém é assim que eu vejo e interpreto os factos com que sou confrontado. Não invento nada nem inventei nada. Interpreto, interpretei.
O
post que fiz com uma fotografia da URSS ondeando sobre Berlim, além de recuperar metaforicamente uma célebre frase do não menos célebre
Apocalypse Now, pretendeu recordar, aos alemães e aos germanófilos, o resultado mais dramático daquilo que têm sido os tais 150 anos de uma política externa criminosa levada a cabo por sucessivos líderes políticos alemães. Com isto não quero dizer, nem nunca disse, embora as interpretações sejam livres, que a Alemanha da
Frau Merkl é a Alemanha de
Herr Hitler, e que este e aquela sejam a mesma coisa, embora neste ponto valha a pena recordar que Hitler era austríaco e Merkl é uma antiga cidadã da RDA (a Alemanha comunista onde uma percentagem muito significativa dos seus cidadãos cooperava livre e voluntariamente com a célebre
Stasi). Mas este reconhecimento não nega uma outra coisa. Há, do meu ponto de vista, uma densa e inquebrável linha de continuidade na história da Alemanha moderna desde as suas origens. E mais, posso garantir que muitos historiadores, intelectuais e políticos alemães pensam como eu (ou melhor, eu como eles). Não inventei nada.
Por fim, uma palavra para aqueles que aqui têm vindo insultar-me. Tenho a absoluta convicção de que o insulto também pode ser um direito, sobretudo quando radica na estupidez ou na má fé. Seja como for é um direito que, como tantos outros, deve ser exercido com parcimónia.
É tudo.
Um abraço,
Fernando
P.S.: Pedro, mesmo que o caso que citas não seja o tal, posso garantir-te que o jornal Avante já acertou em muita coisa mais vezes do que podemos imaginar (ou reconhecer).
P.P.S.: A metade da Europa que viveu ocupada e oprimida pelo Exército Vermelho entre 1945 e 1989 pode e deve agradecê-lo, em primeiro lugar, à política externa alemã pós-1933 e, sobretudo, à decisão alemã e dos seus aliados, como os húngaros ou os romenos, de invadirem a URSS nos idos de Junho de 1941. Não há, meu caro Pedro, almoços grátis.