Terça-feira, 30 de Novembro de 2010

Em defesa do Ensino Particular e Cooperativo

Sou, por convicção, um claro defensor da liberdade de escolha no Ensino, entendendo que o serviço público que o Estado deve assegurar, se pode materializar no mero financiamento da escolha que cada aluno efectua para a sua formação académica, uma vez garantidos os parâmetros de qualidade de referência.

Se assim acontece em relação à abertura à participação das entidades privadas, percebe-se que ainda mais facilmente reconheça a valia das Entidades do Ensino Particular e Cooperativo que hoje possuem contrato de associação, as quais garantem também a existência de pólos de desenvolvimento e qualificação nas mais diversas comunidades, do Norte ao Sul do País, do Litoral ao Interior.

Alguém pode imaginar o que seria de tantas e tantas zonas do nosso País, sem o papel catalisador do desenvolvimento assumido por entidades desta natureza?

Por todas estas razões, tenho que rejeitar as opções recentemente assumidas pelo Governo nesta área, e que têm vindo a ser alvo de uma forte contestação da APEPCCA (a correspondente Associação de Professores), tendo dado origem à Petição Pública que já subscrevi e a cuja subscrição aqui apelo.

Infelizmente, este Governo continua a insistir em medidas cegas, pouco sustentadas e de consequências tantas vezes irreparáveis, por mera teimosia ou incompetência, beneficiando da tolerância dos visados e da comunidade em geral.

Laurie Anderson - Life on a String


(...)
Statue of liberty
Stands in the harbor
Holding her torch
Hello goodbye
To all the men and women
Who pass through her port
Into the open ocean
Just another speckle on horizon
Just another speckle in the sea
Cool water
Cool wind
Freedom is a scary thing
Not many people really want it.


Um bom feriado.

0,00

Agora é isto, mas em inglês, a abrir o Financial Times.

Os discursos políticos que não temos, mas deveríamos ter (o exemplo da educação)

Ontem estava a ler uma revista americana e topei com um artigo onde se discutia a posição da Administração Obama sobre a possibilidade de os salários dos professores passarem a depender do seu desempenho. O método seguido pelo autor do artigo é relativamente simples: ler e confrontar as opiniões que nos últimos anos o presidente Obama e o seu Secretário de Educação, Arne Duncan, vão expressando acerca do assunto. Regra geral, as opiniões aparecem em discursos que um e outro fazem em encontros com os sindicatos de professores, grupos de empresários, durante visitas a escolas, etc.

Ia lendo o artigo ao mesmo tempo que me ia perguntando: “E o que é que o Primeiro Ministro e a Ministra da Educação de Portugal pensam sobre a possibilidade de os professores portugueses serem pagos em função do mérito do seu trabalho? E sobre a possibilidade de as escolas contratarem directamente os seus professores? E sobre a possibilidade de os pais escolherem a escolas dos filhos? E sobre a possibilidade do financiamento público de educação ser dirigido igualmente a escolas públicas e privadas? E sobre a possibilidade de serem implementadas medidas particulares a escolas que manifestamente obtêm maus resultados escolares em diversos anos sucessivos? E sobre a possibilidade...? Não tenho resposta para estas perguntas, nem sei onde as procurar.

Posso, até, tendo em conta uma ou outra opinião expressa numa entrevista de jornal, ou programa de TV, tentar adivinhar o que ambos pensam sobre estes assuntos. Pior ainda, tendo em conta o posicionamento ideológico do partido que os apoiam, posso tentar pressupor o que cada um deles pensa. Mas uma coisa é tentar, outra bem diferente é saber. Uma coisa é dizer: “Mas V. Exa., a este respeito, na entrevista do dia tal, quase que dá a entender que...” Outra é dizer: “Desculpe lá, mas V. Exa. disse isto e justificou o que disse com base naquilo.” Os discursos políticos, ao contrário das entrevistas, não só assumem uma outra seriedade e gravidade, como requerem um princípio, meio e fim, posições bem fundamentadas, e princípios claros que a qualquer momento poderão ser sujeitos à responsabilização de quem faz o discurso.

Quando penso nisto, a primeira bola que tiro do saco é a da incompetência. Não me custa nada imaginar que nem o Primeiro Ministro nem a Ministra da Educação sabem o que quer que seja sobre estes temas. Como não sabem, não o dizem (o que, como princípio de acção, se não nos reconforta, pelo menos também não nos escandaliza). Verdade seja dita, esta incompetência foi iluminada no caso da triste mensagem que a Ministra da Educação dirigiu aos alunos no início do ano lectivo (e que me levou ao absurdo de o comparar com o discurso que Obama dirigiu aos alunos no Verão de 2009).

Mas esta verdade será até injusta, pois, quando olho à minha volta, verifico que só neste ano foram publicados três livros por três ex-Ministros da Educação: A escola pública pode fazer a diferença (Maria de Lurdes Rodrigues); Difícil é educá-los (David Justino); e Se não estudas estás tramado (Eduardo Marçal Grilo). Por outras palavras, bem ou mal, os nossos Ministros da Educação pensam a educação e têm ideias claras sobre os seus aspectos mais relevantes. É claro que, na maioria das vezes, quando lemos os livros dos ex-Ministros, não podemos evitar o pensamento, “Bem que podias ter feito durante o teu consulado as coisas que agora estás aqui a escrever!” Mas esta seria já outra conversa.

Os países diferem uns dos outros e têm tradições politicas distintas (o mesmo é dizer que uns países são melhores do que outros). E é uma pena que em Portugal não haja a tradição do discurso politico. Por diversas razões: o discurso obriga a pensar e a fundamentar o que é dito; o discurso transcende a mera gestão de mercearia dos assuntos políticos; o discurso estende o horizonte temporal; o discurso oferece uma medida para avaliação da prática política; o discurso compromete e responsabiliza. E o discurso politico, quando é bem escrito e bem feito, mobiliza as pessoas.

Manuel Alegre e os poderes presidenciais

Manuel Alegre tem uma curiosa interpretação dos poderes presidenciais. Incluem o golpe de Estado, se os governos tocarem nisto, naquilo e mais não sei em quê.

Enquanto não se encerra o CEJ

Podia pelo menos acabar-se com o seu monopólio de facto.

Obsessões

Ainda a Greve Geral



in Vida Económica, Diário do Minho

Red carpet?

A convite do Pedro Correia, hoje, serei publicado no Delito. Agradeço ao Pedro e restantes membros da casa o convite e este incentivo à tão escassa circulação de ideias.
E este é já um bom tópico para o texto que ali escrevo. Não deixa de ser curioso que convites como este nunca cheguem pela mão do Partido. É por essas e por outras também que, quando alguns morgados falam da “descolonização do Estado”, eu atrevo-me a propor a “socialização” ou -talvez melhor- a “civilização” do mesmo e nomeadamente dos Partidos. ‘Tá certo, os termos não soam nada bem. Mas pode ser que agucem a curiosidade. E eu cá estou para defender o meu delito.

Endgame

Bloomberg

Portugal is “insolvent” and will likely need “soon” to join the emergency-loan program from the European Union and the International Monetary Fund now available to Greece and Ireland, Citigroup Inc. said.

“The market’s attention is likely to turn to Portugal’s sovereign, which at current levels of interest rates and growth rates is less dramatically but quietly insolvent, in our view,” Willem Buiter, New York-based chief economist at Citigroup, wrote in a report yesterday. “We consider it likely that it will need to access the European Financial Stability Facility soon.”

Zero vírgula zero zero de ajustamento em Portugal, em 2010

O abismo do Inferno, Botticelli

A ler, três, quatro vezes, as que forem necessárias.

Começa assim:
O sistema financeiro português enfrenta um conjunto de sérios desafios, decorrentes do clima de instabilidade financeira internacional, particularmente acentuada na Europa no decurso de 2010, e agravados, no caso português, pela necessidade de ajustamento dos desequilíbrios estruturais que têm vindo a intensificar-se.

Prossegue assim:
A deterioração das perspectivas dos participantes nos mercados financeiros internacionais sobre a sustentabilidade da situação das finanças públicas em Portugal tem-se reflectido num forte aumento do prémio de risco da dívida soberana, com repercussões negativas sobre o acesso e condições de financiamento do sistema bancário português aos mercados internacionais de dívida por grosso.

Mais à frente é assim:
A insustentabilidade do recurso permanente e em larga escala a financiamento junto do Eurosistema exigirá uma redefinição da estratégia de financiamento dos bancos portugueses.

E ainda:
Ao longo de 2010, o crédito concedido pelos bancos portugueses a empresas não financeiras e a particulares evidenciou apenas uma gradual desaceleração e o endividamento do sector público continuou a aumentar.

Diz o Banco de Portugal, que a desalavancagem da economia ainda não começou. Tudo por fazer, portanto.

Hipocrisia laboral

Com o carregar da crise acentuam-se as desigualdades. Para além dos 610 mil portugueses que não encontram emprego, há um outro grupo menos mediático, mas não menos preocupante. São os trabalhadores “precários”, com contratos a termo, cerca de 752 mil segundo o INE, sem contar com os “recibos verdes” que engrossam as fileiras do outsourcing, a que cada vez mais empresas recorrem, para evitar encargos laborais permanentes.
A população dos “precários” tem sofrido flutuações acentuadas, em paralelo, com os números do desemprego. São estes trabalhadores os primeiros a sofrer com a crise. Sem protecção legal ou social (não fazem greve nem são sindicalizados), são os primeiros a dispensar quando o vento sopra desfavorável. Funcionam como uma válvula de escape do sistema.
Como escreve Luciano Amaral, «o mercado de trabalho português combina características de extrema rigidez e de extrema flexibilidade. O resultado final, no entanto, aproxima-o mais dos mercados tidos por flexíveis» (Economia Portuguesa, As últimas décadas, pg. 73). Será? Não digo que o autor, cuja leitura se recomenda, não tenha razões estatísticas para esta conclusão. O problema é que esse “resultado” é feito à custa de uma injustiça, uma vez que a tal flexibilidade global do mercado é sempre feita à custa dos mesmos. São os “precários” a pagar a crise com o desemprego.
É triste perceber que esta gente é dispensada sem atender ao mérito individual. São estes os sacrificados apenas porque nos outros, com contrato de trabalho, ninguém se atreve a tocar, tal é o inferno financeiro e burocrático exigido por uma lei laboral tão anacrónica quanto rígida. O seu estatuto e antiguidade torna-os intocáveis mesmo que de calões ou incompetentes se trate. Também isto conduziu-nos a uma das mais baixas taxas de mobilidade profissional da Europa, com quase 2,4 milhões de trabalhadores (47% da população activa) a ter o mesmo trabalho há mais de dez anos.
Destes imobilismo e injustiça quase ninguém fala. Separa os protegidos pelo sistema dos que não conseguem entrar. Estes outros são já um milhão e meio, quase um terço da população activa, a ser discriminados perante o clube do emprego-para-a-vida.
A esta injustiça jurídica acresce uma outra geracional. São os jovens que mais sofrem com a precariedade. Basta olhar para as estatísticas para perceber este enviusamento geracional do mercado do trabalho. Há toda uma geração entalada, sem oportunidades, por causa de uma lei laboral rígida que não promove o mérito, nem a mobilidade profissional (ou social), sendo que os novos se têm de contentar com uns biscates temporários ou a emigrar para outras paragens. Até quando?

Mais um projecto mobilizador

Porto e Vigo terão primeiro eixo europeu para carros eléctricos

Certamente terá sido a infame Sra Merkel que nos obrigou a enterrar mais recursos investir neste elefante branco projecto mobilizador. Uma indústria de futuro que necessita de subsídios para sobreviver.

PPP for the boys

Governo cria nova empresa pública para gerir PPP e grandes obras

Bastante mais útil seria facultar um resumo plurinanual dos encargos já assumido com as PPP. Mas isso não permitiria ao governo nomear mais três boys administradores.

Germans? "Don't mention the War"



A partir do minuto 4.

Segunda-feira, 29 de Novembro de 2010

Obama sabe do que fala (V)

Nos últimos dias publiquei aqui alguns vídeos incómodos de Barack Obama. Mais haveria para colocar. Um político moderno, exposto 24 horas a câmaras e microfones, dificilmente escapa a situações problemáticas deste género. Como é evidente, e dado o culto que rodeia o Presidente americano (já não tanto assim nos Estados Unidos), logo surgiram alguns a criticar esta exibição. Curiosamente, estes devem ser os primeiros a atirar pedras quando surgem na imprensa portuguesa semelhantes exemplos de políticos republicanos. Alguns até perguntaram pelas gaffes de Sarah Palin. Evidente que não perceberam o alcance destes vídeos. As gaffes, e mesmo quando não o são, de Palin ou de um outro qualquer republicano, são logo conhecidas. Os media portugueses, em geral, na sua cobertura deficiente e parcial sobre a política americana, não perdoam uma. Mas aos democratas, e especialmente a Barack Obama, tudo é perdoado e esquecido. Por exemplo, nunca li em nenhum jornal português referência a estas suas gaffes, algumas bem graves. Por isso, foi precisamente a pensar nos admiradores mais distraídos de Obama que publiquei estes vídeos.

Tragédia

Diálogo na blogosfera

JPT - Pergunta (muito) inocente: O João não votou favoravelmente as medidas de austeridade?
João Galamba -
Enquanto a UE não mudar a sua política, estamos condenados a OEs como aquele que acabamos de aprovar. Por isso, e só por isso, votei a favor. Não é um bom orçamento - muito longe disso - mas é o possível, dados os constrangimentos políticos e financeiros que o país enfrenta. É trágico, mas é o que temos.

Reconstituição (com recurso a duplo) do momento excruciante em que João Galamba é arrastado ao voto no Orçamento; à esquerda, os mercados, à direita, a «Europa».

Em solidariedade com o deputado forçado a tamanha violência, em nome da Pátria e do mais profundo sentido do dever, resta-me dirigir-lhe uma palavra de consolo: João Galamba, você leva demasiado a sério as suas convicções e os seus deveres como deputado da nação. Relaxe. Saia. Descontraia-se. Faça um retiro. Uma viagem. Qualquer coisa. Pense no seu futuro. Não se deixe esmagar pelo presente. E vai ver que a vida lhe retribui a boa onda. Eu até tenho ideia que você vai longe. Vai ver.

Podem explicar como se eu fosse muito burro?

Governo não mexe no Código Trabalho mas quer potenciá-lo e dinamizá-lo.

Obama sabe do que fala (IV)

Assim é difícil, com tudo contra

Sócrates quer governar, transpira confiança, é um optimista nato, tem vontade, tudo. Tem tudo, menos sorte. A Grécia, as Agências de Rating, a Alemanha, o facto de estar em minoria no Parlamento, os mercados, a crise de 2008, submarinos, a Irlanda, a incapacidade da «Europa» de dar respostas e, agora, muito especificamente, até a Comissão Europeia, que também não está a ajudar.

(...) Também o preço dos CDS sobre obrigações a cinco anos portugueses disparava 42 pontos até aos 546,26 mil euros, o que corresponde à subida mais expressiva no mundo. Os indicadores de risco da dívida de Portugal começaram a agravar-se depois de a Comissão Europeia ter divulgado as suas Previsões Económicas de Outono.

O relatório de Bruxelas aponta para que o défice das contas portuguesas passará de 9,3% do PIB em 2009 para 7,3% este ano, 4,9% no próximo e voltará a crescer para 5,1% em 2012, se o Governo não tomar mais medidas de contenção orçamental.

O resto, aqui.

A solução encontrada numa caixa de comentários

Vai ter de clicar se quiser perceber alguma coisa.


O mapazinho das compras de Obrigações pelo BCE. Novembro foi um fartar vilanagem. O que não impediu a Irlanda, a queda iminente de Portugal, a Espanha, a Itália, e agora há quem aposte na Bélgica, quem aposte na França - rendibilidades em voo picado. O mapa foi gamado daqui. Estando em curso um processo de monetização indirecta dos défices - proibido pelos tratados -, pergunda um leitor, presumo que ao João Galamba:

Why should we ever pay taxes again?
Just print it!

Espero bem que falhe

O recém eleito Bastonário da Ordem dos Advogados, Marinho e Pinto, apresenta na imprensa as suas duas prioridades, e passo a citar a notícia: «travar excesso de advogados e reduzir custas judiciais».

Desconheço o que o PSD pensa neste momento sobre a Justiça e sobre estes dois temas em particular, mas sei muito bem o que gostaria que defendesse: Tentar travar todo o tipo de barreiras artificiais no acesso à profissão de advogado, e defender o aumento das custas judiciais como medida incontornável numa mais ampla reforma da Justiça (sobre a qual já se escreveu bastante aqui no Cachimbo). Preços mais altos no acesso à Justiça incentivam à desjudicialização do conflito, obrigam à criação de um sistema efectivo de ajuda aos mais pobres e deixam de fazer a classe média subsidiar o acesso à Justiça dos grandes litigantes, que por ironia tendem precisamente a litigar logo à cabeça contra quem os subsidia.

O euro na RR

"Recordar é viver e morrer". A minha crónica na RR.
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"Aproveitar uma crise para ir mais longe": esta foi desde Jean Monnet a divisa da integração europeia. Fiel à divisa, houve quem visse a actual crise como uma oportunidade. Agora, diante da concretização de tantos improváveis, a confiança já não é a mesma.
Hoje, discute-se abertamente que a moeda europeia vacila e que pode cair. Mas não é rigoroso dizer que nunca se aventou tamanha desgraça.
Ainda não estava seca a tinta do Tratado de Maastricht e já muitos economistas (sobretudo americanos, diga-se) indicavam que o espaço europeu não tinha suficiente flexibilidade de preços, que os seus factores produtivos – na realidade, o trabalho – eram pouco móveis ou que o seu orçamento central era insignificante. Outros alertaram vezes sem conta para a necessidade de se dar eficácia às instituições zeladoras das regras comuns que aí viriam, a começar pelos famosos critérios de convergência. A interpretação criativa dos ditos critérios foi o primeiro passo para a edificação da farsa. Seguiram-se as mentiras orçamentais que constituíam a agenda habitual das negociações entre as Finanças dos países do sul e a Comissão Europeia, em que as primeiras fingiam piedosamente dizer a verdade e a segunda fingia piedosamente acreditar.
Neste contexto, a entrada in extremis da Grécia na inauguração da Zona Euro não surpreendeu ninguém. Numa farsa safam-se melhor os farsantes, e nesta farsa não só as contas gregas estavam em ordem, como os défices externos perdiam miraculosamente a sua milenar importância. Depois, veio a crise.
Além disso, muitos apontaram para o facto de que a economia europeia era menos homogénea do que a americana, o que tornava a união monetária uma ideia perigosa. A profundidade dos ajustamentos económicos necessários impunha respeito, tanto no que respeitava ao tecido produtivo, como à estrutura financeira dos Estados-membros. E o euro agravaria o custo desses ajustamentos. Seria como uma pesada e paralisante armadura de ferro. Há que admitir que soa a algo que nos é familiar.
O euro fez durante estes anos as delícias da retórica europeísta. Foi a etapa desejada de um processo de integração cego e surdo. Era tudo uma questão de vontade política, lembram-se?

No fundo? Não. Com este governo não há fundo à vista

É muito verdade, como aqui diz Gideon Rachman: há muito que por estas bandas o problema está em contsrução. Ou, como com clareza acrescida, aqui explica como e porquê Vítor Bento. Mas se o precipitante é uma questão de crédito, no sentido múltiplo, total, da palavra crédito (incluindo aquele sentido em que digo de alguém que não me merece o menor crédito), então é forçoso reconhecer que não houve nenhuma ocasião que se prestasse a mais uma machada no dito crédito que este governo não tenha aproveitado ao máximo. Quando a Comissão Europeia explica ao mundo que o Orçamento de Estado, aprovado há dias, não lhe merece confiança, é provável que tenhamos batido no fundo (desgraçadamente, sabemos, por exeperiência, que com este governo o fundo é uma miragem).

Confirmações de uma surpresa


Há quatro meses, quando João Aidos foi nomeado Director-Geral das Artes, escrevi que a sua maior vantagem seria também o seu maior defeito: "é um homem do sistema. Conhece o meio como poucos, mas não contem com ele para grandes mudanças."

A entrevista que dá hoje ao Público confirma a previsão. Aquilo a que chamei a sua "inflexibilidade ideológica" (sem ser necessariamente um mal, porque a política de cultura é isso mesmo - uma política) nota-se mais quando há menos dinheiro. E o último OGE impõe cortes de 23% ao orçamento da Direcção-Geral das Artes. Nenhuma visão programática resiste a tamanha falta de vil metal. Aidos, quando acusa Sócrates de não ter uma estratégia para o sector (uma absoluta evidência que o próprio confessou nas últimas eleições), di-lo por outras palavras: "A estratégia foi esgotada pelo orçamento. Não é possível ter uma estratégia sem um orçamento mínimo".

É sintomático, por exemplo, que critique a integração dos teatros nacionais no OPART, duvidando que isso represente uma optimização de recursos e afirmando que "o modelo de entidades públicas empresariais não é o melhor. O melhor modelo seria que cada um fosse uma fundação, mas estas exigem parceiros privados com parte activa que não existem. Isso implicaria um financiamento do Estado sozinho para o qual não há capacidade financeira". Em resumo, tudo começa e acaba no Estado porque os privados não se interessam. Nem uma palavra sobre as razões pelas quais a alternativa - o mecenato - está a falhar. E haveria tanto a dizer...

Outro exemplo: a crítica, justíssima, de que "ao longo dos anos, o ministério nunca criou nem hábitos nem alternativas para as próprias companhias [de teatro] procurarem outro tipo de sustentabilidade, independentemente do apoio do MC". É a mais pura das verdades, mas isso não acontecerá exactamente devido à política de cultura de que Aidos se faz porta-voz na entrevista - a tal que garante "se a Ministra pudesse ter mais cinco ou seis milhões, teria evitado os cortes"?

João Aidos é um profissional muito competente e uma pessoa muito estimável, mas temo que venha a arrepender-se da sua passagem pela DGA. E nós também.

Uma alternativa ao Euro

Em 1989 o governo do Reino Unido propôs que em vez de se introduzir uma moeda comum europeia (mais tarde, o euro) se optasse pela competição monetária em que várias moedas poderiam ser legalmente utilizadas como meio de pagamento no interior da (ex)zona euro. Num cenário de desagregação da zona euro talvez este fosse um cenário preferível à (re)adopção de moedas nacionais por parte de todos os estados-membros.

Podem ler aqui o documento com a proposta

Grandes titulos

Juros da dívida portuguesa estabilizam

Decisões dos ministros das Finanças diminuem pressão sobre a dívida dos países europeus. Juros da dívida portuguesa estão pouco alterados, numa altura em que o comportamento entre os restantes países europeus é semelhante.

Nem mais. No mercado secundário as OT's a 10 anos estabilizaram em torno dos 7%. O que é sempre uma grande notícia. O Titanic também se encontra estável no fundo do Oceano Atlântico.

"Balada para uma velhinha"...


... é o fado que os germanófilos portugueses escutam, e com o qual se comovem, enquanto falam da sua adorada Alemanha (ou de Frau Merkel), coitadinha.
Fado com letra de Martinho de Assunção e letra de José Carlos Ary dos Santos

Grande Finale (74)

The Conversation, Francis Ford Coppola, 1974

Domingo, 28 de Novembro de 2010

A obsessão com o Irão

«Ahmadinejad é Hitler», terá vociferado o Príncipe Mohammed bin Zayed bin Sultan Al Nahyan, dos Emiratos Árabes Unidos, tentando comover Obama

Depois da longa leitura disto, a impressão com que se fica é a de que Obama se candidata a delapidar o que aos EUA resta de fiabilidade como factor de segurança na região. Junto do seu principal aliado, Israel? Não. Ou não só. Entre a quase generalidade dos países árabes de maioria sunita na região, cuja mobilização da confiança pareceu, em determinados momentos, valer, nos seus cálculos, o sacrifício da solidariedade com «o» aliado. Pior? É difícil conceber.

I am want my debt back!

Falando de horrores, agora a sério:

Right now the surest way to stop cold the unrelenting default speculation is a one-time assumption of Greece, Irish and Portuguese sovereign debt by the treasuries of Germany, France and other fiscally stronger countries. Sharply reducing their debt burden also would ease the drag imposed on budgets by the cost of servicing that debt with the exorbitant risk premiums demanded by investors.

Podeis, até, num acto simbólico e perfeitamente conforme à circunstância, começar por rasgar a bandeira.

Ler o princípio e o resto, aqui.

Obama sabe do que fala (III)

A luz ao fundo e o túnel

Estou mesmo convencido que a luz ao fundo de que fala o Jorge Costa e o túnel ou a saída podem estar algures no decote da Rita Pereira. Andámos a fazer Magalhães e sei lá mais o quê, mas o que realmente nós sabemos fazer é novelas - e não só televisivas.

Palmira F. Silva

Há um fenómeno blogosférico que me fascina. Eu tenho destes fascínios perversos. Por exemplo, fico totalmente encadeado com a luz que provém dos vídeos de música pimba. Não sei explicar a minha particular atracção por filmes da Série B, especialmente os de horror. Limito-me a sentir-me não de todo mal acompanhado, nisso, por Quentin Tarantino. E, o caso, aqui, é Palimra F. Silva, uma jugular. Acompanho, com fervor, os seus exercícios diários de wild wrestling contra Deus. Não falho uma naifada dela. Faça o Jugular o favor de me contar, à pala de Palmira F. Silva, entre os números das suas estatísticas diárias. Num intervalo de zelo, Palmira resolveu recomendar-me a Paul Krugman. Esfreguei as mãos de alegria. Traduziu, e tudo, um trecho do «artigo para reflectir» do «Nóbel da Economia», que o inicia com uma referência ao «autor consagrado das viagens de Gulliver». Lambo os beiços. A tradução, pu-la logo de lado à primeira linha, quando reparei que Palmira dá «eventually» por «eventualmente». Mas deixando de lado as picuinhices do inglês, fiquei francamente bem impressionado com Palmira e a sua reflexão: uma radical extrema, defende uma posição que a Srª Merkel nunca ousaria sonhar, nem nos seus momentos de maior furor «neo-liberal»: assunção integral, como na Islândia, ao contrário da Irlanda, por parte dos bancos irresponsáveis na avaliação de risco, das perdas resultantes da sua gestão calamitosa - na exposição à dívida pública, ao crédito hipotecário às famílias, etc. Os bancos fizeram-nas? Pois que estoirem. Não é isso, os mercados? Assumir riscos, perder, ou ganhar? Querem agora ajudas públicas, não? Era o que faltava. Um bem haja à jugular Palmira, por partilhar connosco estes momentos de reflexão sem tabus. Ou muito me engano, ou Palmira F. Silva está aqui está a pedroarrojar-se.

Há-se haver uma saída

Parafraseando, Shimon Peres: a luz ao fundo ainda vejo; não vejo é o túnel.

Sábado, 27 de Novembro de 2010

Lisboa - antes

City and Spectacle: A Vision of Pre-Earthquake Lisbon from Lisbon Pre 1755 Earthquake on Vimeo.

Nigel Farage: The Euro game is up

Ecomomia do caos


Um país, cuja economia cresce (crescimento nominal, a preços correntes), abaixo do nível das taxas de juro a que o seu Estado se financia, pode ter um problema muito complicado: deve ter um excedente orçamental primário, isto é, uma diferença entre toda a receita e toda a despesa, excluindo os juros, suficientemente grande para neutralizar a falta da economia relativamente aos custos a que o Estado que ela suporta se endivida. Quanto maior for o stock de dívida, maior deverá ser esse saldo. Se a dívida for igual a 100% do PIB, o saldo deve ser igual à diferença entre a taxa de juro e o crescimento. Se for maior do que 100% do PIB, o saldo terá de ser maior que a diferença entre a taxa de juro e a taxa de crescimento (naturalmente que o problema se complica infinitamente, pois as taxas de juro aumentam com o aumento da dívida, mesmo que a relação não seja linear, embora seja o que se está a passar já connosco*, e seja esse o toque de finados, além de que o crescimento é refreado pelas restrições orçamentais e/ou de crédito associadas, e por aí adiante). Como o saldo não pode aumentar indefinidamente - converge para um valor qualquer finito -, há um ponto de acumulação de dívida a partir do qual a dívida deixa de convergir para um valor finito: explode. Matemática pura.

Bom: em Portugal entrámos numa fase de crescimento aquém das taxas de juro e, em vez de um saldo capaz de cobrir a diferença, temos um défice primário que deve rondar os 6% do PIB. Enquanto não obtivermos o saldo suficiente, a dívida aumenta. Matemática pura.

Um estudo recente do FMI, que recomendo a todos os economistas que por ventura me leiam, inclusive ao pretenso ou real idiota Costa Pina, secretário de Estado do Tesouro, calcula, entre 23 economias avançadas, as que estão mais perto do ponto de saturação e explosão subsequente. Portugal, Japão, Itália e Grécia. Atenção ao quadro quarto.

* Com moeda própria a variável que sinaliza os problemas ajuda a resolvê-los; numa união monetária a variável que sinaliza os problemas agrava esses mesmos problemas. Pedro Braz Teixeira, aqui.

Obama sabe do que fala (II)

Palavras para quê?

Obama sabe do que fala (I)

Sexta-feira, 26 de Novembro de 2010

Todos diferentes todos iguais

O Miguel é Economista no Banco de Portugal e tem um vencimento de 2500 euros. A partir de Janeiro o seu vencimento vai ser reduzido. Já o Nuno é Economista da CGD e tem um vencimento de 2500 Euros. Em Janeiro a Administração da CGD decide se seu o vencimento será reduzido.
A Maria é Jurista na ERC e é especialista em Direito da Comunicação Social. Tem um vencimento de 3000 euros que vai ser reduzido a partir de Janeiro. Já o Pedro trabalha como jurista na RTP, também é especialista em Direito da Comunicação Social. Em Janeiro a Administração da RTP vai decidir se o vencimento vai ser cortado.
Todos são diferentes mas todos são iguais.
Se do ponto de vista da equidade a opção do OE é infeliz do ponto de vista da constitucionalidade a solução encontrada pode ter as maiores consequências. Uma coisa são os cortes decorrerem automaticamente da aplicação de um diploma com força de lei outra, bem diferente, é resultarem da decisão de uma administração ou de um acto administrativo de um Ministro.

Espero acordar amanhã sem este pesadelo

Em defesa de Sarah Palin

Quem costuma ler o que escrevo sobre os Estados Unidos, principalmente no Era uma vez na América, saberá que não morro de amores por Sarah Palin. Ainda recentemente tive aqui no Cachimbo uma discussão saudável com a Maria João sobre os méritos ou deméritos da senhora. Mas nem tudo vale para “bater” em Palin.

Esta semana li num blogue americano que Palin teria dito que os “Estados Unidos devem permanecer ao lado dos seus aliados norte-coreanos”. Ia escrever qualquer coisa sobre o assunto, pois isso seria mais um argumento de peso para acrescentar ao penso sobre as suas capacidades políticas. Mas decidi ir ouvir primeiro o que ela realmente tinha dito, para escrever com segurança, como tento sempre fazer. E ao ouvir a entrevista dela desisti de escrever. E porquê? Palin estava a falar nos perigos que a Coreia do Norte representa para a região, repetindo a argumentação tipicamente republicana que é preciso impedir o regime de Pyongyang de obter armas nucleares e parar de ameaçar o vizinho do sul. Depois disse que a tal frase citada, que foi um óbvio erro verbal e não uma gaffe de proporções bíblicas, como tem sido repetido na imprensa europeia. Isto não muda nada o que penso de Palin, mas não é verdade que ela pensa que os aliados americanos são os norte-coreanos. Há muitos argumentos para criticar a senhora, mas não este. Lapsos deste género numa argumentação verbal todos cometemos.

Obviamente que Palin respondeu de forma bastante incisiva sobre este incidente e como foi relatado, e que nem foi muito explorado pela imprensa mainstream americana, ao contrário do que sucedeu por cá. Ontem numa mensagem no Facebook, Palin atacou Obama. E o que ela relembrou? Algumas da gaffes memoráveis do Presidente, bem mais graves do que esta. Os 57 estados americanos, a fundação da América há 20 séculos atrás, o estranho país chamado Europa ou a famosa língua austríaca. Tudo expressões utilizadas por Obama, mas que nunca ninguém refere.

Há de facto padrões diferentes para analisar os políticos americanos. Sarah Palin não tem condições, qualificações ou conhecimentos para ser Presidente dos Estados Unidos. Mas este tipo de enviesamento no tratamento que recebe só a fortalece, pois as pessoas não são estúpidas e percebem que há um exagero nas críticas que lhe fazem.

Cachimbos de lá


Pablo Picasso, Mosqueteiro com cachimbo, 1968

Sair do euro (3) Falta mecanismo de correcção

Os países com moeda própria (e com livre circulação de capitais) são avaliados pela sua taxa de câmbio, enquanto dentro de uma união monetária são avaliados pelas taxas de juro (da dívida soberana e outras).

Este mecanismo de avaliação tem duas componentes, uma de potencial castigo e outra de potencial auxílio na correcção de problemas.

Um país com moeda própria e com problemas sérios nas contas externas pode ver a sua moeda atacada pelos especuladores. Este ataque tem um duplo efeito, castiga o país, cuja produção passa a valer menos, mas recebe uma forte ajuda para corrigir as suas contas externas. Depois da depreciação as exportações aumentam, o défice externo cai e o problema que desencadeou o ataque é resolvido.

O que se passou em Portugal quando pedimos ajuda ao FMI em 1978 e 1983 não foi exactamente o que foi descrito acima, porque não havia liberdade de circulação de capitais, mas o escudo foi desvalorizado e o problema do défice externo foi muito rapidamente sanado.

Como é agora com as taxas de juro no euro? Elas têm uma óbvia capacidade de castigar, mas uma enorme dificuldade em ajudar a corrigir problemas. A subida das taxas de juro poderia ajudar a corrigir problemas se tivesse ocorrido no início destes e não a meio. Se os mercados tivessem penalizado correctamente os países gastadores estes nunca poderiam ter ido tão longe no seu endividamento (público e privado).

É evidente que os mercados erraram no passado, mas não é legítimo criticá-los quando quem falhou em primeiro lugar foi quem tinha mais responsabilidades pela defesa do euro: os países membros e a Comissão Europeia. Vou apontar um único erro: como foi possível que os membros do euro tivessem permitido que a Grécia os enganasse nos números que apresentou para conseguir aderir e depois os voltasse a enganar descaradamente com o défice público de 2009? Aliás, quem critica os mercados considera-os incompetentes e nunca deveria ter esperado que fossem eles a resolver os problemas.

A subida das taxas de juro depois do problema se ter instalado só agrava o problema das contas públicas. Ela sinaliza o problema e cria um incentivo político para ajudar a resolver o problema, mas a sua evolução não ajuda a resolvê-lo.

Isto é radicalmente diferente do que se passa com a taxa de câmbio. A depreciação da taxa de câmbio não só sinaliza o problema como diminui o défice externo. A subida das taxas de juro sinaliza o problema, mas agrava o défice público.

E os efeitos são ainda piores no caso de países que, para além de terem um problema nas contas públicas, têm também um problema nas contas externas, como é o caso de Portugal e da Grécia, sendo o nosso caso mais grave na vertente externa.

Se antes da crise da dívida soberana Portugal tinha uma quase total incapacidade de atrair investimento estrangeiro para exportar (pelos problemas de competitividade), com a subida das taxas de juro passou a ser ainda menos atractivo para investir, inclusive para os investidores nacionais.

Esta questão parece-me ser um dos elementos centrais a considerar: com moeda própria a variável que sinaliza os problemas ajuda a resolvê-los; numa união monetária a variável que sinaliza os problemas agrava esses mesmos problemas.

A greve (geral) explicada às crianças



Por razões didácticas, sempre pensando nos pequeninos, destaco algumas passagens:

"Para se compreender o papel do sindicalismo, em bom rigor, da defesa organizada de interesses numa democracia, pode fazer-se este exercício que em muitos sítios é tudo menos absurdo. Imaginem que, em Portugal, em 2010, não havia sindicatos, nem os que existem (na sua maioria influenciados pelo PCP através da CGTP), nem quaisquer outros. Uma coisa seria certa, os salários seriam muito mais baixos, os desempregados muitos mais, o trabalho precário a norma, a vida dos trabalhadores muito mais fragilizada e a economia não seria muito diferente. (...) Haverá também quem diga que não faria mal à competitividade da economia portuguesa uma nova “flexibilidade” especialmente com maior facilidade de despedir e empregar e menos rigidez da legislação laboral. É verdade, mas coloquem-se no lugar de alguém que tem emprego, e perguntem-lhe se está disposto a perdê-lo ou a torná-lo mais precário em nome da reparação da economia e da sua competitividade. Não está, porque uma coisa é a racionalidade económica e outra a expressão de interesses individuais e colectivos que partem das circunstâncias concretas das pessoas."

Só mais um pouco (vá, não são textos difíceis):

"É por isso que o sindicalismo é um mecanismo correctivo fundamental numa sociedade democrática, mesmo que gere efeitos perversos, o mais importante dos quais é favorecer quem tem emprego em detrimento de quem não o tem. Isto é verdade, mas também é verdade que quem não o tem sabe que se o tiver não pode ficar sempre suspenso no medo de o perder. (...) Dirão os realistas da economia cínica – que se caracterizam quase sempre por não estar na situação laboral sobre a qual opinam – que, com medo ou sem ele, com sindicatos ou sem eles, quando a racionalidade económica obriga, não há outro remédio senão perder o emprego, a bem ou a mal. (...) Não é verdade, porque no mundo complexo do real, a racionalidade económica não é uma linha definida que deixa de um lado o branco e do outro o preto. As coisas são quase sempre cinzentas e o jogo de luz e sombra faz-se de múltiplos interesses contraditórios sem os quais haveria muitos abusos e prepotências.
Por tudo isto, mesmo em crise, o protesto sindical é uma manifestação de forças que equilibra e impede os desequilíbrios. Por tudo isto, a greve geral tem uma componente de resposta ao medo e à prepotência que, não contribuindo para “combater” a crise, impede que no seu decurso haja uma perda completa da dignidade pessoal de quem trabalha."


São textos de um famoso comuna barbudo - podem lê-los completos aqui e aqui.

Sair do euro (2) Faz sentido abordar o tema

O meu primeiro post sobre a saída do euro provocou reacções de quase acusação de sacrilégio, como se fosse até proibido reflectir sobre alternativas para o nosso futuro. Peço para encararem estes textos como cenários para reflexão e não como recomendações.

Mesmo que um cenário não seja o mais provável, faz sentido considerá-lo se tiver custos elevados associados. A maior parte dos leitores terá um seguro contra incêndio da sua habitação, não porque considera que a probabilidade disso ocorrer seja elevada, mas porque os custos disso acontecer são elevadíssimos.

Neste momento, a probabilidade de implosão do euro é certamente mais elevada do que a probabilidade de qualquer das nossas casas sofrer um incêndio. Usando unicamente a imprensa de hoje, temos este artigo do FT, onde aparece um investidor a dizer “Some people want to put on a just-in-case euro break-up trade and they’re looking for any way to do this.” Temos também um artigo do José Manuel Fernandes, no Público: “Vou escrever o que nunca pensei escrever: é tempo de pensar em alternativas à actual configuração da moeda única para que o seu eventual fracasso não arraste consigo a obra muito maior e mais importante que é a União Europeia.”

Há inúmeras formas de a implosão do euro ter lugar, desde logo pela saída da Alemanha, provavelmente o país que o integrou com maior relutância. Durante décadas a Alemanha pagou para acalmar os sentimentos negativos decorrentes da segunda guerra mundial. A actual geração sente-se liberta dessa responsabilidade, por isso que sentido é que tem estar agora a pagar e com isso atrair novos sentimentos negativos, por serem, na opinião de muitos (que eu, de maneira alguma partilho), os alemães que nos estão a obrigar a fazer tantos sacrifícios.

Ainda por cima, quando os problemas dos países periféricos não têm fim à vista. De acordo com o FMI, quando Portugal chegar a 2014 os défices públicos voltam a disparar. Mesmo quando o problema das contas públicas estiver resolvido, ficará ainda o das contas externas. Ainda de acordo com o FMI, a nossa dívida externa deverá continuar a sua trajectória explosiva, passando de 109% em 2009 para 145% do PIB em 2015. Ou seja, continuaremos com enormes dificuldades de financiamento, mesmo para lá de 2015.

Após a saída da Alemanha e alguns outros, isso degradaria o euro (cada vez mais uma moeda de países endividados) e forçaria a saída de mais alguns, com nova degradação e novas saídas e assim sucessivamente. Imaginem que o euro ficava reduzido a Espanha, Portugal e à Grécia. Dar-se-ia a implosão final.

Um bem haja à Alemanha por nos impedir de continuarmos neste haraquiri

Por pressão muito forte da Alemanha, fomos todos obrigados na Zona Euro a travar as políticas económicas expansionistas e a concentrar o nosso esforço em medidas de austeridade orçamental muito duras, afirma Augusto Santos Silva.

Isto é falso. Mais nada. É falso. Só isso. Primeiro porque as «políticas económicas expansionistas» de que fala o ministro foram travadas pelos mercados que não estão dispostos a financiá-las, uma vez que passaram, muito tarde, demasiado tarde, a calcular o seu retorno: zero.

A Alemanha interveio, sim, uma vez soado o alarme nos mercados, depois que se tornou claro para ela, muito tarde, demasiado tarde, que forçosamente, com o retorno nulo das tais «políticas económicas expansionistas», quem pagaria o custo do desvario seria ela, basicamente ela, e mais ninguém.

Se eu fosse alemão e o governo do meu país não protegesse o meu país, tarde, demasiado tarde, mas antes tarde do nunca, das «políticas económicas expansionistas» dos países assombrados por «políticas económicas expansionstas» (actuam do lado da procura, quando o problema dos assombrados se situa do lado da oferta - incapacidade competitiva!), eu consideraria que haveria razão bastante para o acusar de traição.

Evidentemente que Augusto Santos Silva, na boa tradição socialista - e, convenhamos, nacional por grosso - vai continuar a verberar contra a legítima, mais do que legítima, incompreensível se não acontecesse, posição intransigente da Alemanha, na defesa do seu país que, iornia das ironias, impondo-nos uma queda na realidade, talvez nos force a olhar para ela pela primeira vez.

Com problemas gravíssimos do lado da oferta - incapacidade competitiva! - as sonhadas «políticas económicas expansionistas» de Augusto Santos Silva, avalizadas pela Alemanha, resultariam exclusivamente num passporte para mais um lapso de tempo a acumular dívida externa - há quinze anos que temos constantes défices externos, há dez que andam à beira dos 10% do PIB, e há dez que não crescemos.

Um bem haja à Alemanha, por nos impedir de continuarmos neste haraquiri.

Sudoeste de Kunduz, no norte do Afeganistão

Três soldados alemães mortos em combates contra talibãs

Estalinegrado, 2 de Fevereiro de 1943.


Rendição do Generalfeldmarschall Paulus e do VI Exército Alemão.

Grande Finale (73)



Andrey Rublev, Andrei Tarkovsky, 1966

Quinta-feira, 25 de Novembro de 2010

Resposta a Miguel Morgado por causa da Alemanha

Goldhagen e os seus Carrascos Voluntários de Hitler é um livro meritório, embora, segundo muitos dos seus críticos que percebem bem mais da poda do que eu, contenha demasiados erros tanto de “facto” como de “método”. De qualquer modo, a transformação do livro num grande fenómeno mediático, chamou a atenção para um facto muito importante sistematicamente desvalorizado por historiadores e pela opinião pública e publicada que se interessa por estas coisas. Ou seja depois de Goldhagen deixou de ser possível sustentar que o extermínio de judeus na Alemanha e na Europa não foi apenas uma coisa de nazis, foi uma coisa de alemães. Porém, Goldhagen esqueceu-se “convenientemente” de acrescentar que o anti-semitismo mais violento e radical não tinha historicamente a Alemanha e os alemães como seus mais fieis praticantes: polacos, russos ou franceses eram, à partida, mais fortes candidatos a darem aos judeus o destino que a Alemanha e os alemães lhes deram entre 1933 e 1945. Resta porém acrescentar que no fim foram os alemães que tentaram resolver o problema judeu através do extermínio de uma “raça”, independentemente de terem podido contar para o efeito com aliados preciosos oriundos de quase todos os cantos da Europa: húngaros, romenos, passando por franceses, polacos e nórdicos de várias extracções, holandeses, belgas e croatas deram o seu contributo.
Quanto à parte substancial do teu post, em que apontas como fraqueza da “tese” por mim e por muitos outros perfilhada acerca da natureza imperial da Alemanha, o facto de não ter enunciada a “causa”, uma “causa” ou até um conjunto de “causas” que a explique, respondo-te de uma forma simples. Não é apontada qualquer causa por essa causa não existe. Desde logo porque fenómenos históricos complexos – e até outros bem simples – não podem ser explicados em função de relações causais (podíamos ainda divagar sobre se as relações causa/efeito são úteis no mundo da ciência e em particular das ciências humanas e sociais). Há, no entanto, um conjunto de acontecimentos, alguns deles que poderemos ainda assim considerar “reversíveis”, que se convenientemente analisados podem ser apontados como determinantes para se perceber a natureza da Alemanha (e da Prússia) no universo da política europeia e mundial. Enuncio-os e depois calo-me: guerra de sucessão da Áustria (1740-48); Congresso de Viena (1815), Guerra da Crimeia (1853-1856), em que a Prússia se manteve neutral; as guerras de “unificação” da Alemanha (que foram guerras de expansão e de ocupação da “Alemanha” pela Prússia) e respectivos tratados de paz impostos às potências derrotadas; resignação de Bismarck (1890) que pôs fim a um imperialismo prussiano e alemão saciado desde 1871; política externa e diplomacia alemã em Junho e Julho de 1914; objectivos de guerra alemães durante a Grande Guerra; Tratado de Paz de Brest-Litovsk (Abril de 1918); reacção alemã ao Tratado de Paz de Paris (1919); Tratado de Rapallo com a URSS (Abril de 1922); Pacto Molotov-Ribbentrop (Agosto 1939); invasão e ocupação da Polónia e da URSS (1939-1944); Ostpolitik de Willie Brandt; unificação da Alemanha e política externa alemã para a Jugoslávia; imposição do Deutshmark (com a designação de Euro) como moeda europeia; Diktat político alemão à Europa no Verão-Outono de 2010 sob a forma de moralização das finanças públicas dos Estados membros da União Europeia e que muita agente acredita ser verdade.

Da inutilidade de guerras e revoluções

As guerras e as revoluções - há sempre uma ou outra em curso - chegam, na leitura dos seus efeitos, a causar não horror mas tédio. Não é a crueldade de todos aqueles mortos e feridos, o sacrifício de todos os que morrem batendo-se, ou são mortos sem que se batam, que pesa duramente na alma: é a estupidez que sacrifica vidas e haveres a qualquer coisa inevitavelmente inútil.

Todos os ideais e todas as ambições são um desvairo de comadres homens. Não há império que valha que por ele se parta uma boneca de criança. Não há ideal que mereça o sacrifício de um comboio de lata. Que império é útil ou que ideal profícuo?

Fernando Pessoa, Livro do Desassossego

Falta a "causa"?

Como quem não quer a coisa, atrevo-me a regressar ao assunto que tanta cachimbada provocou nas últimas horas. Faço-o para provocar o habitus de historiador do nosso Fernando Martins, enquanto fumo um cachimbo da paz, evidentemente.
Quando leio os posts do Fernando Martins sobre a Alemanha não consigo evitar a associação a uma outra corrente historiográfica. Parece-me que, bem lá no fundo, a tese do Fernando sobre o percurso histórico da Alemanha é apenas a outra face da tese de homens como - para citar o mais recente e famoso - Daniel Goldhagen. Goldhagen tornou-se uma celebridade mundial quando publicou há um punhado de anos o livro acima representado. Procurou mostrar que existe uma continuidade "cultural" alemã que explicaria a II Guerra Mundial e sobretudo o Holocausto. A "prova" que Goldhagen exibiu para comprovar a sua tese consistia na adesão espontânea e voluntária do alemão comum ao massacre organizado das vítimas do nacional-socialismo, em particular dos judeus. Goldhagen ficou especialmente impressionado com a diligência e até o entusiasmo com que alemães anónimos se dedicaram ao assassinato e tortura dos que lhes caíram nas mãos, não só nos momentos de histeria triunfante, mas mesmo quando o regime já ruía, mesmo quando a derrota derradeira estava a chegar às suas portas. Segundo Goldhagen, a "cultura" alemã, que se foi desenvolvendo ao longo do século XIX e das primeiras décadas do século XX foi uma autêntica incubadora de carrascos disfarçados de pais de família, homens de negócios, trabalhadores e professores universitários.
Bem sei que todas estas teses de "explicação histórica" de fenómenos complexos padecem inevitavelmente de uma certa teleologia. Mas no caso de Goldhagen parece-me haver teleologia em excesso, para ser brando. Já na tese do Fernando, a do imperialismo destrutivo germânico como única constante da história alemã dos últimos 200 anos, ficamos sem saber a "causa" de tamanha patologia. Falta a "causa", Fernando?

Portugal não é a Irlanda (cont.)

«Macroeconomic Outlook 2011–14
(...)

Real GDP will grow by an average of 2¾% in the years from 2011 to 2014;
(...)
Maintain the 12½% corporation tax rate; this will not change

Números do Governo, podem ser consultados aqui. Possivelmente demasiado optimistas e cobertos com alguma incerteza política para garantir a execução nalguns pontos. Ainda assim impressiona na diferença face ao "outlook" de não crescimento local aqui da pátria.

Um eterno "vencedor"

José Miguel Júdice gosta de estar do lado dos vencedores. Há anos que não perde uma. E não sabe actuar de outro modo. Só assim se percebe que tenha aceite fazer parte da Comissão de Honra de Cavaco Silva quando sabia que iria sair um livro onde critica o legado do Presidente enquanto líder do PSD. Há pessoas que não sabem mesmo estar, pensando apenas no seu umbigo.

Pouca vergonha

Entre carícias e belinhas terminou hoje o debate do OE.
Na especialidade há a assinalar a alteração da norma que estabelece a redução do salário de todos os funcionários do estado com vencimento acima dos 1500 Euros.
Na proposta inicial a norma abrangia "todos os trabalhadores das empresas de capital exclusivamente ou maioritariamente público, das entidades públicas empresariais e das entidades que integram o sector regional ou municipal"
Ontem o PS, com o acordo do PSD, aditou a expressão "com as adaptações autorizadas e justificadas pela sua natureza empresarial".
"Adaptações autorizadas", mas autorizadas por quem ? Quem é que desencadeia o processo de autorização ? O funcionário ? O Governo ? O Conselho de Administração da Empresa ?
A forma vaga e imprecisa da versão final da norma abre as portas para as maiores arbitrariedades e para o desenvolvimento de um poder discricionário.
Afinal, os cortes não serão para todos. Há sempre uns boys e umas girls que serão objecto de uma autorização justificada. Em tempos complicados foi um péssimo serviço que se prestou ao país. A descolonização do estado que o Miguel Morgado defende começa por aqui.

Quebrar o "muro de silêncio" à volta de Manuel Alegre

Para falar não do candidato, mas da jornalista que assina esta notícia no Publico, Tânia Marques. E o que nos conta Tânia Marques? Conta-nos que estiveram num jantar com Alegre 128 apoiantes. 128. Nem mais um nem menos um. Tânia, contamos contigo para nos contares greves e manifestações, é que já não há paciência para tanta manipulação nas contagens.

Será mesmo sustentável?

Ontem foi mesmo dia de greve geral

...a avaliar pela actividade do Cachimbo: nada mais, nada menos do que trinta e três postas, densas e polémicas, como é apanágio aqui da casa. E os leitores gostaram, como se pode ver pelas 7.761 page views em apenas um dia. E reparem que o Pedro Picoito anda mais comedido por estar embrenhado na tese de doutoramento. Nada mal camaradas, que venham mais greves gerais.

Da série "vale a pena ler"

Para quem quiser saber mais sobre as recentes polémicas à volta dos preservativos, para além da espuma dos últimos dias, recomenda-se este texto El Papa, el preservativo y la apertura e os artigos abaixo relacionados.

Do outro lado do Reno

Carlos, fico sempre sensibilizado quando citam Adenauer. Todavia como esquecer tempos tão recentes em que, do outro lado do Reno, Mitterand vociferava "gosto tanto da Alemanha que prefiro que sejam duas".

Cemitério na Normandia...


... a outra porta de entrada para a libertação da Europa.

Quarta-feira, 24 de Novembro de 2010

Quão muitos? Quão poucos?

Podemos concordar ou não com a greve que aconteceu hoje. Podemos discutir a sua oportunidade, o seu sentido, a sua utilidade e por aí fora. Mas há uma coisa que não podemos fazer, se quisermos conservar um módico de decência. Não podemos embandeirar em arco ou exultar com a (relativamente) baixa adesão dos trabalhadores do(s) sector(es) privado(s).
Que o governo o faça, não admira - trata-se de um governo sem vergonha, capaz das maiores trampolinices em público ou das maiores idiotices, como é o caso do secretário de estado que hoje recusava a denominação "geral" à greve, porque nem todos aderiram(!)... (À II Guerra também não se pode chamar "mundial"...) [Tentando aqui fazer um desenho para a criatura: uma greve é geral no universo potencial, não no resultado actual.] Que o façam também aqueles que, obsessivamente, experimentam uma espécie de embirração "ideológica" para com o princípio da greve, que disparam logo sem pensar contra tudo o que cheire a sindicato, que, de bom grado, sacrificam a sua honestidade ao seu ressentimento, não nos deve espantar - com esses nem é possível argumentar e só podemos desejar as suas melhoras.
Agora, quem quiser ser sério não pode ir por aí. Essa alegria espúria (que se prostitui politicamente) só seria justa, se os privados tivessem um grau de liberdade suficiente para poderem escolher participar na greve ou não. Acontece que a não têm - ou, pelo menos, não é liquído que a tenham. Usar a consequência dessa liberdade diminuída como argumento para a "fraqueza" da greve é como apresentar como prova da aversão de um tipo pela corrida o facto de o não vermos correr, fingindo não sabermos que ele está acorrentado a uma parede.

Ainda estamos aqui

Herr Adenauer


Uma vez, se não me engano, numa conversa com Golo Mann, Konrad Adenauer terá dito qualquer coisa como isto: Sabe, os Alemães são um povo... especial. Digamos que são alguém que eu não gostaria de ter como vizinhos.

Será que amanhã podemos ser esclarecidos?

Os cortes salariais quando foram anunciados abrangiam os funcionários públicos e os trabalhadores das empresas do sector empresarial do estado.
Ontem, aparentemente, deixaram de se aplicar a trabalhadores de empresas do sector empresarial do estado que estejam em concorrência com empresas do sector privado.
Agora acabo de ouvir na TVI 24 o deputado do PS Strech Monteiro a afirmar que, afinal, os cortes salariais se aplicam apenas a funcionários públicos e não abrangem os trabalhadores do sector empresarial do estado com contratos individuais de trabalho.
Em que é que ficamos?

À vol de vautour


Isto não é bonito. E tem um nome adequado. O bicho não está bom da cabeça, como o revela a alusão (maníaca e involuntariamente divertida) ao Avante! e o avistar carniça onde ela não existe. Vai esvoaçar para outro lado, pá!

Cachimbos de cá


Estou em condições de informar que não vamos perder a sensual leitora abaixo identificada

Outra Vez a Questão Alemã

Meu querido Pedro.
Há certamente muita coisa admirar na Alemanha e nos alemães, embora deva desde já salvaguardar que não creio que tu acredites mesmo (eu não acredito) que as suas boas políticas de imigração são apenas um acto de desinteressada generosidade e que a Alemanha é um caso de sucesso, mesmo que relativo, de integração de imigrantes [a própria Frau Merkel já reconheceu o seu fracasso, embora tenha recordado aos mais distraídos que a culpa do dito fracasso não é alemão (como, curiosamente, nestas ou noutras coisas, a culpa nunca é portuguesa)].
Seja como for não é isso que está em causa naquilo que escrevo. Como aconteceu recorrentemente no passado, desde, pelo menos a década de 1860, e esse é o meu ponto, primeiro a Prússia e depois a Alemanha (imperial ou não), não têm olhado a meios para atingir os seus fins no domínio da política externa/internacional. No caso presente, o Governo de Berlim tem-se limitado a aproveitar os problemas mais ou menos graves, mas nem sequer originais (mesmo de um ponto de vista alemão, ou sobretudo de um ponto de vista alemão), sentidos por vários estados europeus mais débeis, para moldar de acordo com os seus interesses aquilo que resta de uma Europa livre e soberana. Como é público e notório a Frau Merkel não tem feito outra coisa nos últimos meses que não seja tentar impor sucessivos Diktats à Europa e em especial aos povos e aos governos do sul da Europa e à Irlanda (Irlanda que, convém recordar, há uma par de anos desafiou a poderosa Alemanha ao recusar em referendo aprovar o tratado de Lisboa). Se preciso for, e para atingir os seus objectivos, e como já aconteceu no passado, e essa é a minha opinião assente na interpretação de factos passados e presentes, a Alemanha voltará a destruir a Europa para atingir os seus fins. Aliás é isso que está a fazer. Não sei, meu caro Pedro, se sou louco nas minhas interpretações ou se tu és ingénuo ou masoquista, ou simplesmente lúcido e esclarecido nas tuas, mas isso agora pouco importa. Porém é assim que eu vejo e interpreto os factos com que sou confrontado. Não invento nada nem inventei nada. Interpreto, interpretei.
O post que fiz com uma fotografia da URSS ondeando sobre Berlim, além de recuperar metaforicamente uma célebre frase do não menos célebre Apocalypse Now, pretendeu recordar, aos alemães e aos germanófilos, o resultado mais dramático daquilo que têm sido os tais 150 anos de uma política externa criminosa levada a cabo por sucessivos líderes políticos alemães. Com isto não quero dizer, nem nunca disse, embora as interpretações sejam livres, que a Alemanha da Frau Merkl é a Alemanha de Herr Hitler, e que este e aquela sejam a mesma coisa, embora neste ponto valha a pena recordar que Hitler era austríaco e Merkl é uma antiga cidadã da RDA (a Alemanha comunista onde uma percentagem muito significativa dos seus cidadãos cooperava livre e voluntariamente com a célebre Stasi). Mas este reconhecimento não nega uma outra coisa. Há, do meu ponto de vista, uma densa e inquebrável linha de continuidade na história da Alemanha moderna desde as suas origens. E mais, posso garantir que muitos historiadores, intelectuais e políticos alemães pensam como eu (ou melhor, eu como eles). Não inventei nada.
Por fim, uma palavra para aqueles que aqui têm vindo insultar-me. Tenho a absoluta convicção de que o insulto também pode ser um direito, sobretudo quando radica na estupidez ou na má fé. Seja como for é um direito que, como tantos outros, deve ser exercido com parcimónia.
É tudo.
Um abraço,
Fernando
P.S.: Pedro, mesmo que o caso que citas não seja o tal, posso garantir-te que o jornal Avante já acertou em muita coisa mais vezes do que podemos imaginar (ou reconhecer).
P.P.S.: A metade da Europa que viveu ocupada e oprimida pelo Exército Vermelho entre 1945 e 1989 pode e deve agradecê-lo, em primeiro lugar, à política externa alemã pós-1933 e, sobretudo, à decisão alemã e dos seus aliados, como os húngaros ou os romenos, de invadirem a URSS nos idos de Junho de 1941. Não há, meu caro Pedro, almoços grátis.

Os Bolcheviques já tomaram conta disto?

Wishful thinking (5)

Elena Salgado: Espanha não corre o menor risco de ter que ser resgatada

Provavelmente terá razão. Ninguém vai ter dinheiro para o fazer

Novas Oportunidades



A propósito do artigo do Público recomendo os posts que o Prof Álvaro Santos Pereira tem dedicado ao tema no Desmitos.

"Parece-me que as notícias sobre a minha morte são manifestamente exageradas"

A maior greve de sempre...


Hoje, como de costume, levantei-me às 7.20. Tomei banho, vesti-me e fui levar o meu filho à escola (pública). Estava aberta e teve pelo menos a primeira aula.
Segui para a estação de Santa Cruz de Benfica. Pelo caminho ouvi a TSF e a Antena 1 ambas com programas em directo. Deixei o carro na estação e esperei pelo comboio menos de 15 minutos (eventualmente tive sorte). Às 9.15 o comboio terminou a sua marcha no Rossio e, como sempre, fui a pé até ao número 38 da Avenida da Liberdade. Depositei um cheque na Caixa Geral de Depósitos (aberta) e passei pelos correios dos Restauradores (abertos). As bancas vendiam todos os jornais e todo o comércio está aberto. Nas ruas o trânsito é o habitual e, para meu espanto, ainda pude ver alguns autocarros da Carris a subir a avenida.

Dizem que foi a maior greve geral de sempre.

Como disse Manuela Ferreira Leite, senhora sábia e sensata, 'Quem manda é quem paga'

Eu até entendo esta sanha anti-alemã vinda do governo e do partido acrítico e cúmplice que o suporta na AR. Afinal, tendo falhado (porque o PSD acordou a tempo) a estratégia para culpar o PSD de todos os males pecuniários que nos afligem, a propaganda socialista, depois de esgotar a panóplia de categorias que o Miguel já elencou, virou-se finalmente para a Alemanha, com o mesmo vigor com que um adolescente revoltado se vira contra os pais que lhe cortaram a mesada depois de ele a ter espatifado no sinal de uma mota que, por falta de meios e de autorização superior, não vai poder adquirir.

Mas, caríssimos: que obrigação têm os alemães de pagar os desvarios de outros países que sofrem de incontinência orçamental crónica? Nenhuma.

A Alemanha prescindiu da sua moeda colocando para isso condições bastante rigorosas e sensatas que constavam no Pacto de Estabilidade e Crescimento. Os países que entraram do euro com a Alemanha tinham toda a consciência disso. Se houve países que escolheram não cumprir os seus compromissos, esperando depois que os alemães os amparassem para segurarem o euro, fizeram-no certamente por sua conta e risco. Pela adopção do euro, Portugal teve acesso a taxas de juro mais baixas - que usou para consumir, para se endividar e para aumentar despesa pública aproveitando a diminuição (em tempos, em tempos) da parcela dos gastos com os juros da dívida pública. A Alemanha está, por mérito, no topo das potências exportadoras mundiais e é sem dúvida a 'locomotiva da Europa'. Portugal é o exemplo típico de uma 'pequena economia aberta' e graças às decisões dos nossos políticos (sempre confirmadas nas urnas) que nos viciaram numa riqueza a que ainda não temos direito, está por estes dias de mão estendida, cruzando os dedos para que afinal credores e potenciais credores tenham coração de manteiga e sejam bonzinhos connosco.

Se não queremos estar dependentes da Alemanha, então que não nos colocássemos na dependência da Alemanha. Não vale a pena agirmos como aqueles aristocratas arruinados dos romances de Thackeray que pediam (exigiam?) dinheiro a quem desprezavam e maltratavam socialmente. Também não vale a pena emular Churchill e discursar como se mais pela noitinha, como sucedia em Londres há setenta anos, os Dorniers e os Messerschmitts nos viessem visitar.

A culpa é deles

A história ensina-nos importantes lições. A responsabilização de terceiros pelos nossos fracassos leva-nos sempre a caminhos que não sabemos como terminam. Na Alemanha dos anos 20 e 30, o ódio e o preconceito contra um povo foi explorado pelos nazis, que terminou como sabemos: com o extermínio de milhões de judeus. Na União Soviética, os culpados eram outros: os proprietários e as classes mais abastadas. O culminar deste projecto totalitário foi a matança selvagem promovida pelos algozes de Lenine e Estaline. Recentemente assistimos na antiga Jugoslávia a assassínios indiscriminados de povos: sérvios, croatas e bósnios. Uns mais culpados do que outros, mas sem inocentes nesta história.

Podemos atribuir responsabilidades a certos movimentos ou a determinadas lideranças, mas considerar que um povo, uma raça ou uma classe, é responsável pelos nossos males é perigoso e extremamente desaconselhável. Portugal está numa encruzilhada especificamente por nossa responsabilidade e inacção. Tentar, de uma forma qualquer, atribuir culpa a terceiros, como bem refere aqui o Miguel, é errado. E então, se apontarmos para o povo alemão, que merece a minha total simpatia pela forma como evoluiu na última metade do século XX e contribuiu para o progresso da Europa e do Mundo, além de errado, é injusto.

Acidentalmente

Estes últimos dois dias do Cachimbo lembram-me os melhores tempos do velhinho Acidental: discussão viva e acesa sobre um tema europeu da maior relevância. Ainda há uma semana, o banqueiro Ricardo Salgado se atirava a Angela Merkel, entrando numa estranha coligação nacional entre personagens tão diferentes como ele próprio, Francisco Louçã, Jerónimo de Sousa e os amigos de José Sócrates. Aliás, é também o que o primeiro-ministro pensa mas não pode dizer: a culpada de todos os males portugueses - depois dos mercados e do diabo a quatro - é agora a Alemanha e a chanceler Merkel. Há, em Portugal, como na Europa, quem realmente pense que a Alemanha quer tomar - ou já tomou - conta "disto tudo" sem dar um tiro. Na minha opinião de recém-chegado, os óptimos postes de Fernando Martins são discutíveis e merecem, por isso, ser discutidos. Como, aliás, os também óptimos textos de Jorge Costa.

Caro Fernando

Com a franqueza de quem é teu amigo há muitos anos, devo dizer que estás a ser profundamente injusto com os alemães (e não só). Não vou sequer comentar o mau gosto deste post: "o cheiro de Berlim a arder" representou para metade da Europa e para a própria Alemanha uma tirania tão esmagadora como a de Hitler, embora três vezes mais longa. Fico estupefacto com a legenda, mas adiante. Todos cometemos excessos de vez em quando. O que mais me incomoda é que acuses a Alemanha actual de ser o Reich de Hitler ou a de Guilherme II só porque a Sra. Merkel defende, como seria de esperar e é inteiramente legítimo, os interesses do seu país numa questão em que a culpa está na irresponsabilidade de outros (entre os quais sucessivos governos do nosso querido Portugal). Li há poucos dias uma acusação parecida no Avante a propósito da fundação da NATO. E, como sabes, os terroristas do Baader-Meinhoff também a faziam à RFA. Cada um escolhe as suas companhias - eu prefiro a da Sra. Merkel.
Esta Alemanha, que acusas de ser herdeira do nazismo mas vive em democracia há mais tempo do que nós, pagou durante décadas as reparações da guerra de Hitler, como já tinha pago as da guerra de Guilherme II. Depois de pagar pelos seus erros, porque é que há-de pagar agora pelos erros dos outros?
Esta Alemanha, que acusas de ter trazido a guerra à Europa com o reconhecimento da independência da Eslovénia e da Croácia (não foi a única a fazê-lo...), recebeu generosamente milhões de imigrantes nos anos 60 e 70, entre os quais muitos compatriotas nossos. O Estado alemão paga escolas onde os filhos dos portugueses, já nascidos na Alemanha, têm metade das aulas na língua dos pais. Não conheço escolas semelhantes para filhos de romenos ou chineses em Portugal.
Esta Alemanha, que acusas de querer dominar a Europa (um pecado do qual parecem estar isentas a França, a Inglaterra ou a Rússia que fez arder Berlim), foi e continua a ser um dos principais contribuintes líquidos dos cofres europeus, de onde vieram os "fundos de coesão" para os mesmos países que agora esperam que a Alemanha pague anos e anos de políticas irresponsáveis, e apenas recebeu em troca a oposição de Thatcher e de Mitterrrand à reunificação de 89.

A verdade, por mais que nos custe, é esta: depois da reunificação e com o fim da Guerra Fria, a Alemanha, como disse alguém, tornou-se um "país normal", ou seja, um país que olha em primeiro lugar para os seus problemas (que não são assim tão pequenos) e só depois para os da "União Europeia", seja lá o que isso for. Já não tem que pedir desculpa por existir. Não me parece que seja um crime, pelo contrário. A tentativa negociada de cada país resolver os seus problemas constitui aquilo a que chamamos política internacional. Os alemães não são, nem têm que ser, diferentes dos outros. Apesar da especial responsabilidade histórica que lhe dão a posição geográfica, o dinamismo económico, o poder demográfico e político, por que razão deveriam ser sempre eles a pagar a conta?

Um abraço