Terça-feira, 31 de Agosto de 2010

Beba, pela sua saúde...

Esta parece ser a conclusão de um estudo da Universidade do Texas. Segundo estes investigadores, os abstémios morrem mais cedo que as pessoas que bebem álcool, especialmente aquelas que o fazem moderadamente. Um conselho a seguir?

Lei da gravidade

Portugal é um país zangado (deixo de lado nas considerações que se seguem os bobos da corte). Nota-se pela maneira como se fala dele e ele fala de si. Uma multidão só se zanga assim, em boa verdade, com aquilo que lhe é muito caro. E há razões de sobra para a zanga. Não é só a ubiquidade de Sócrates e dos seus dependente, e a náusea que a sua simples aparição já causa. Posso garantir: estive acordado nestes últimos 36 anos e nunca um Governo, um primeiro-ministro ou um político de primeira fila qualquer causaram semelhante efeito de repulsa, porque nunca o descrédito e a desesperança chegaram a este fundo, que parece não acabar de recuar. Mas não é só Sócrates, que se tornou uma maldição. É - tudo. É a cumplicidade, não se sabe se por oportunismo puro, se por inconsciência, se por um composto dos dois em doses difíceis de determinar, das outras instâncias políticas; é o desamparo perante um Presidente, totalmente ocupado com os lances tácticos da sua agenda pessoal, erigindo a estabilidade política em torno do orçamento acima de qualquer outra consideração, como se a estabilidade política que tanto preza não estivesse, de facto, sobre um vulcão - a situação económica e financeira do país -, que pode explodir a qualquer momento, com uma dimensão de estragos inédita, que só uma drástica ruptura de políticas - primeiramente a orçamental - poderia mitigar, se não viesse a ser, como parece ser esse o destino, forçada ex-post facto pelas circunstâncias da explosão. É a oposição à direita, medíocre, desprezível, anos-luz aquém do que dela se gostaria de esperar, jogando ora à defesa, com um discurso vazio como o de Pedro Passos Coelho na feira de Verão do Algarve, ora na mais pura demagogia, como o CDS de Paulo Portas, o que hoje, por exemplo, só um exemplo, quer chamar ao Parlamento a ministra do Trabalho e o seu secretário de Estado para... discutirem os números do Eurostat (!), num número simétrico de abrantização da política e das décimas da estatística que seria cómico, se não fosse o espelho desta gente merdosa que nos governa, ou espera a sua vez de nos governar. É o desastre da Justiça e da Educação, a cujo desmoronamento diário assistimos inermes, entre um encolher de ombros (que fazer?), e umas tiradas ácidas, para desanuviar. É a paisagem desolada dos media, onde publicamente deveríamos tomar conhecimento do que se passa à nossa volta e reflectir sobre isto tudo: sim, repito, os jornais portugueses de referência não valem o papel que custam, dominados que estão por uma classe de jornalistas genericamente ineptos, preguiçosos e convenientemente enviesados. Num ambiente assim, apodrecido, sufocante, é natural que um país esteja zangado. É a impotência, a falta de saída, a hipoteca disto tudo e do seu futuro, a paródia da liberdade. Vai, é claro, acabar mal. Muito mal. É a lei da gravidade.

Atentado em Israel

Mais um atentado em Israel, desta vez com quatro pessoas mortas, entre elas, uma mulher grávida. Os terroristas, sejam eles do Hamas ou da Al-Qaeda, apenas pretendem matar o maior número de inocentes. Como aconteceu há pouco em Hebron. O assassinato é o jogo deles.

Aconselho a leitura deste artigo do Henrique Raposo, "A outra Palestina", a esquecida pelos media europeus.

Mestre Federer brilha no Open dos Estados Unidos

E agora?


Segundo o EFFIS, em Agosto arderam 94016 ha, ultrapassando todos os anos desta década com excepção de 2003 e 2005. Trata-se efectivamente de um claro retrocesso no “sucesso” da política de controle e combate aos incêndios florestais tão apregoada pelos socialistas e anualmente reiterada desde 2006. A tónica positiva manteve-se mesmo em 2009, apesar da área ardida ter quintiplicado relativamente a 2008. O governo apresentou os 87 416.27 ha queimados nesse ano como um sucesso, porque se tratava de um valor inferior ao objectivo estipulado no plano nacional de 100 000 ha anuais.
Depois de 116 milhões de euros investidos dos 170 milhões do Fundo Florestal Permanente oriundos da ecotaxa financiada com o imposto petrolífero (dos quais pouco ou nada se sabe), depois dos planos, das estratégias, das campanhas de sensibilização (que este ano não existiu ou passou despercebida), depois de muito papel e de novos organismos e novas competências, os socialistas bem podem questionar os dados europeus, acusar o tempo e as as gentes, revelarem tiques de “ PREC mental” com ameaças de nacionalização, a realidade é apenas uma: Portugal continua a arder e, num lento processo de combustão, a empobrecer.
Resta agora assistir à estratégia de comunicação que o executivo adoptará para do real fracasso criar o aparente sucesso. Nesta como em outras áreas da actuação governativa vale a pela ler o conto do roubo do elefante branco de Mark Twain.

> 600 000

Foto: Daqui.

Toy Story

Durante duas semanas ouvimos o PSD a assegurar que não viabilizaria um orçamento PS que aumentasse a carga fiscal, designadamente através do corte de deduções fiscais na educação e na saúde.
O Senhor Presidente da Républica falou e, afinal, parece que o PSD já admite o corte de deduções fiscais em alguns escalões do IRS.
E tenho aqui um dedo que adivinha que me diz que o PSD já não vai apresentar o projecto de revisão constitucional em Setembro, como anunciado.

O monstro


Oito anos volvidos sobre a revelação dos abusos sexuais na Casa Pia, vamos conhecer a sentença esta semana. Qualquer que seja o deve e o haver entre condenações e absolvições, o balanço não pode deixar de ser negativo. Seis anos de julgamento, 460 sessões, 2043 requerimentos, 1933 despachos, 800 testemunhas, 300 volumes, sem falar nos recursos que vão fazer arrastar ainda mais o processo, e nos pedidos de nulidade que podem fazer regressar tudo à casa da partida.
As semelhanças deste “monstro” jurídico com a parábola kafkiana do Processo são evidentes. Uma Justiça cada vez mais desumanizada e enredada numa lenta e pesada teia burocrática, que conduz à sua própria negação. Onde os aspectos formais se tornam mais importantes que o apuramento da verdade.
Até há pouco tempo acreditava-se que a Justiça era lenta mas funcionava. Agora, com a mediatização dos processos Casa Pia, Freeport, entre outros, generaliza-se uma ideia de fragilidade e de ineficácia. Um sistema que é forte com os fracos, mas fraco com os ricos e poderosos.
A situação é de tal modo grave que já não bastam reformas legislativas. Não se tem feito, aliás, outra coisa nos últimos anos: sucessivas alterações legais com resultados medíocres. Se não concordam, leiam as conclusões dos últimos relatórios do Observatório Permanente da Justiça Portuguesa, ou o recente estudo da associação europeia MEDEL.
O nosso sistema é formalista e burocrático, o que atrai mais complexidade e morosidade. É intolerável que haja processos que se arrastam durante décadas. Por detrás desses quilómetros de papel estão pessoas concretas, com problemas reais que carecem de uma solução rápida.
A palavra-chave, por isso, tem de ser simplificar. O que implica, sejamos claros, reduzir certas garantias processuais em benefício da eficácia. Se nada fizermos o sistema corre o risco de perder legitimidade e apodrecer.
A introdução de um regime de “sentença simplificada” seria um passo positivo. Tal como a eliminação de algumas exigências probatórias. Não faz sentido, por exemplo, que a prova produzida perante um magistrado na fase de Inquérito (ou Instrução), com todas as garantias processuais, tenha de ser repetida em julgamento. Tal como não faz o excesso de testemunhas em certos processos.
Que me perdoem os meus colegas advogados, mas esta simplificação implica aumentar o poder dos magistrados, com riscos de aumento da discricionariedade decisória. E libertá-los das tarefas administrativas, para se poderem concentrar na actividade jurisdicional. Apostar na oralidade, desmaterialização e nos sistemas de acesso à informação.
É urgente uma revolução do nosso paradigma processual, pensado para um outro tempo. Trazer a justiça portuguesa para a modernidade, aproximando-a do tempo socialmente justo, mais próximo das expectativas dos cidadãos e das empresas.

Uma Entrevista





Segunda-feira, 30 de Agosto de 2010

Gente firme, sempre a postos

Manouchehr Mottaki, ministro dos Negócios Estrangeiros do Irão, e Luís Amado, há mês e meio, por cá.

Quando a 13 e 14 de Julho passado, corriam pelo mundo já as notícias da iminente lapidação de Sakineh Mohammadi Ashtiani, e Manouchehr Mottaki, ministro dos Negócios Estrangeiros do Irão, se passeava pelas Necessidades, honrosamente recebido pelo seu homólogo luso, a quem o visitante não poupou elogios, onde estavam estas boas almas? O súbito pathos desta minúscula assinatura comove-me. Em Julho* havia mais que fazer.

* Se tiver paciência, é só percorrer nove páginas de rolo. Há resmas de posts sobre a fé, uma verdadeira fixação jugular, havia a chatice do Freeport, muita alegria, muito coisa gira, etc.

Ódio


As manifestações valem o que valem, o que na maioria dos casos é muito pouco. Dificilmente será uma manifestação a mudar o rumo dos acontecimentos, mesmo que repartida por vários cantos do mundo, quando o seu destinatário é o regime iraniano. Mas não será isso a retirar-lhe a dignidade. O que há a lamentar, para além do inevitável destino de Sakineh Mohammadi Ashtiani, é que a razão que juntou as pessoas seja abafada pelo ruído dos interesses particulares. A Fernanda Câncio partidarizou o que aos partidos não pertencia e, ao contabilizar as ausências, transformou a comoção em manifesto político. O João Pereira Coutinho, ao defender que o Irão só se resolve à bomba mas sabendo que isso não acontecerá a tempo de salvar Sakineh Mohammadi Ashtiani, desvalorizou o papel político da sociedade civil e apelou à indiferença colectiva. Ambos, plenos de ódio, têm a mesma visão egoísta do mundo.

Vida acasalada

Desgosta-me ver o João Gonçalves subscrever a inanidade dessa "reflexão" da intragável Sontag acerca da vida acasalada. Cita o João as palavras da autora: "O mundo todo em casais, cada casal na sua casinha, a tomar conta dos seus pequenos interesses e oprimidos na sua privacidadezinha". Essa presuntiva realidade do mundo, diz-se aqui, "é a coisa mais repugnante do mundo" (assim de repente ocorrem-me umas boas dezenas de coisas mais repugnantes, mas enfim). Entre outras coisas, o que o João e a sua autora provavelmente se esquecem é de notar a merdinha de vida de muitos dos que se emanciparam heroicamente da opressão da "privacidadezinha" da vida acasalada.
Parafraseando os americanos, João, it was a now opinion then; and a then opinion now.

cabecinha de polícia, alminha de bufo

Esta cabecinha de polícia andou a contar judeus no Largo Camões. Esperta como é, imagino o método: somar os payot à vista e dividir por dois. Parece que a conta deu zero. Bem, payot, não é costume nesta terra. E os judeus portugueses, pelo menos os que guardam o Shabbat, estavam de certeza em casa. Como de costume. Dos outros não sei. Mas no relatório da cabecinha não constam. E, se ela diz, é porque não havia. Confirmem: a alminha de bufo diz que são critérios jornalísticos.

Citação montesquieuana do dia

«Os homens, no fundo razoáveis, submetem a regras até os seus próprios preconceitos.»

Irão mas não foram

A manifestação de sábado parecia ter um objectivo importante, mas o Nuno Gouveia explica em grande medida porque foi um fracasso. Há quem se julgue dono da verdade e se permita fazer avaliações de carácter a propósito da presença ou da ausência em manifestações. O João Pereira Coutinho também é capaz de ter alguma razão.

Não sei se repararam

Primeiro acto da recandidatura presidencial de Cavaco Silva: "os governos não precisam ter a confiança política dos Presidentes, nem respondem politicamente perante o Presidente da República. Nos termos constitucionais, respondem politicamente perante a Assembleia da República." Mais: "Estou a exercer as minhas funções à luz da Constituição que está em vigor e que eu jurei cumprir. E, para mim, a palavra ‘jurar’ tem muito significado e, por isso, confirmo o texto da Constituição que jurei cumprir e fazer cumprir. Não quer isto dizer que concordo ou não com todo o conteúdo da Constituição. Não é isso que está em causa. Agora eu sou Presidente no contexto desta Constituição, não de outras."

Domingo, 29 de Agosto de 2010

De la Démocratie en Massamá

Parece que uma das grandes polémicas do defeso consiste em saber se Passos Coelho é ou não "do povo". Magna questão. Não tenho um demómetro nem sei o que é ser do "povo", mas há quem saiba: ser "do povo", dizem, é viver em Massamá, passar férias no Algarve e ir à festa do Pontal com Mendes Bota. Logo, conclui-se, Passos é "do povo" porque faz o pleno do charme indiscreto do proletariado.

Note-se que esta súbita plebeização de Passos, antigo leitor de apócrifos de Sartre e putativo candidato a uma carreira de barítono, nada deve ao eterno projecto de reconduzir o PSD à social-democracia. Para isso basta citar Bernstein. O downgrade a que me refiro, fenómeno de mobilidade social descendente também conhecido por bota-abaixismo graças à metonímica companhia de Bota, é uma táctica de objectivos tão modestos quão precisos. Primeiro, diferencia Passos de Sócrates pelo fato-de-banho, já que não se distinguem pela gravata. Segundo, diferencia Passos de Manuela Ferreira Leite, com a qual o PSD deixou de "ir para a rua", na expressão orgulhosamente lumpen de Miguel Relvas. Por fim, e not the least, permite acalmar os receios do povo, o verdadeiro, quanto ao anunciado projecto de "revisão constitucional" de Passos, acusado pelo PS e pelo Dr. Arnaut de querer acabar com o Serviço Nacional de Saúde, o ensino tendencialmente gratuito, a progressividade dos impostos e o lince da Malcata.

Estas coisas deixam mossa e o PSD desceu nas sondagens, o que certamente preocupou muito quem se preocupa muito com sondagens. De modo que a corte passista se sentiu na necessidade de convencer o povo, o verdadeiro, de que Passos é do "povo". Se Passos é do "povo", nunca faria ao povo aquilo de que o acusam. Nunca. Metam o homem em calções, salvo seja - e já ninguém lhe vai perguntar pelo lince da Malcata.

Como táctica, está muito bem. A esquerda não ousaria criticar o Passos "do povo" porque o povo é quem mais ordena. E a direita muito menos porque está tão preocupada em parecer democrática que se esquece de ser democrática. Só que a democracia, convém lembrar, não é o regime em que desaparecem as classes sociais, mas em que um político vai a votos pelas suas ideias, pelas suas propostas, pelo seu programa e não pela sua classe social. E, sobre isto, continuamos sem saber o que realmente pensa o novo PSD do SNS e do lince. Se é que pensa alguma coisa. Porque é mais fácil viver em Massamá do que pensar na São Caetano à Lapa. Mais fácil e mais classista: julgar-se "do povo" por aparecer em calções no Expresso é tão snob como julgar-se um cavalheiro por aparecer de chapéu alto em Ascot. "Todas as revoluções fazem crescer a ambição dos homens, sobretudo as revoluções que derrubam uma aristocracia", disse Tocqueville há muito tempo. Que pena não o ter dito no Pontal, em vez de escrever livros em francês.

Sobre a miséria do jornalismo português em geral

e do Público em particular. Pelo Nuno Gouveia, aqui. E, por aqui, visita guiada de João Miranda ao disparate consumado. Apetece dizer: «diga não a isto. Não compre o Público».

Sábado, 28 de Agosto de 2010

Manuel Núñez Bernal, natural de Almeida (1615?, 1655), 40 anos, mercador

Dele não consta sequer uma entrada na internet. São omissos tanto o Dicionário Histórico dos Sefarditas Portugueses, quanto o Dicionário do Judaísmo Português e a História dos Judeus Portugueses, de Carsten Wilke. Não consta também das histórias de Meyer Kayserling, de Mendes dos Remédios ou J. Lúcio de Azevedo. O que só mostra – tudo somado – o que muito bem se sabe: o quanto há ainda por fazer, por muito que já esteja feito, e muitas vezes muito bem.

Deixo de lado a vasta problemática dos criptojudeus na Espanha moderna – em esmagadora medida uma questão de judeus portugueses – e vou directo ao assunto. Sem muitas pinças e introduções: para quem se interessar, o tema tem merecido aturada investigação histórica, e nela têm lugar fundamental dois nomes: Julio Caro Baroja, com o seu monumental Los Judios en la España Moderna y Contemporánea, em três volumes, e Antonio Domínguez Ortiz, com extensa obra, e esta, em especial: Los Judeoconversos en la España Moderna*, que me fez cruzar com ele: Manuel Núñez Bernal. A fonte primária é um relato do Doutor Nicolás de Vargas, médico no Tribunal do Santo Ofício de Córdova, à época do auto de fé: 3 de Maio de 1655. O título do referido relato é ele, por si só, um epigrama sobre uma faceta do barroco ibérico. Reproduzo, pelo estilo inimitável: Triunfo gloriosamente grande, demostración heroicamente religiosa, azote pavoroso de ignorante malicia, castigo de la perfidia judaica, juicio tremendo de las venganzas de Dios.

O que me importa, agora, é este nome: Manuel Núñez Bernal. Domínguez Ortiz conta assim, e eu não vou traduzir tão límpido castelhano.

Como muestra de lo que eran estos autos [autos de fé] voy a resumir el relato que se imprimió acerca del celebrado en Córdoba el 3 de mayo de 1655. Su celebración se publicó el 30 de marzo antecedente, y en seguida se empezaran los preparativos, una vez obtenido el perceptivo permiso de la Suprema Inquisición. Se avisó al obispo de la diócesis y al Ayuntamiento para que prestasen su concurso, y se recordó a los familiares y comisarios [funcionários da Inquisição] del partido de Córdoba la obligación que tenían de asistir. En la Plaza de la Corredera, la más espaciosa de la ciudad, se levantaron las plataformas y graderíos de madera, defendidos por un gran toldo de los rayos del sol.


Desde días antes de la celebración reinaba en Córdoba una expectación semejante a la que en nuestros días rodea un decisivo partido de fútbol. Se aseguraba que habían llegado ochenta mil forasteros (exageración andaluza), entre ellos algunos señores de la mas alta nobleza, como el marqués de Priego, a quien se confió el encargo de llevar el Estandarte de la Fe en la procesión, distinción que admitió agradecido, haciendo partícipes de ella a sus parientes el duque de Cardona y el marqués de los Vélez, que llevarían las borlas del estandarte. Llegó también el Generalísimo de la Orden de San Francisco, que no quería perderse tan lucida función, y el dominico fray Enrique de Santo Tomás, a quién se encomendó el sermón. Es de imaginar el trajín de idas y venidas, cumplidos y ceremonias que ocasionaría la visita de tan ilustres huéspedes. La distribución de asientos se hizo con suma atención para no desairar a nadie, pues en punto a etiquetas aquella sociedad era muy puntillosa.

La víspera del día señalado salió de los Reales Alcázares, morada de la Inquisición, una lucida procesión, acompañando a una cruz cubierta de negros velos «que eclipsando las soberanas luces de su esplendor, influía horrores, ocasionaba sentimientos y provocaba venganzas». Tras largo recorrido acompañada de música y de infinito pueblo, quedó colocada en el tablado de la plaza, y allí se celebraron misas durante toda la noche.

El 3 de mayo muy temprano se fueron sacando los presos a la luz del día de la que tanto tiempo habían estado privados; a cada uno se colocó su insignia, según sus delitos, entregándolo a la vigilancia de dos familiares [funcionários locais]. «Iban los reos en cuerpo, velas de cera amarilla en las manos, apagadas como su caduca Ley y sogas a la garganta». Les seguían veinte estatuas de difuntos y ausentes, y tres mujeres condenadas a relajación [à morte, a ser executada pelas autoridades seculares], que por haber pedido misericordia serían estranguladas antes de entregar sus cuerpos a las llamas. Las asistían muchos religiosos para consolarlas y mantener su perseverancia. De los relajados varones uno había también aceptado dicha mitigación, mientras el otro, Manuel Núñez Bernal, portugués vecino de Écija, se mantenía aferrado a su fe.

Judío tan pertinaz que asistido toda la noche en la Inquisición y todo el día en el cadalso de religiosos graves y santos, cuya predicación derritiera bronces y ablandara escollos… cansados de su protervia se retiraban confusos.
No agradaba a los inquisidores que se dieran estos casos de entereza y por eso agotaban todos los medios para probar la eficacia de su pedagogía, que mezclaba el terror y la persuasión para la conversión de los condenados, siquiera fuese aparente y motivada por el temor a las llamas.

El auto duró desde las nueve de la mañana a las nueve de la noche, relevándose los escribanos en la lectura de las sentencias. Fueron despachados con rapidez los tres bígamos, las cuatro hechiceras y una berberisca. Los judaizantes eran 78, treinta y seis mujeres y cuarenta y dos hombres, todos portugueses, aunque no pocos nacidos en España de familia portuguesa, muchos emparentados entre sí. Los había de Baeza, Cabra, Andújar, Écija y otras ciudades andaluzas, mercaderes en su mayoría. Las penas más frecuentes, cárcel y destierro, agravadas en algunos casos con multas y azotes.

Antes de terminar el auto, los relajados fueron conducidos al campo donde se habían de verificar las ejecuciones; primero fueron agarrotados el hombre y las tres mujeres que habían confesado sus errores. Se dejó para el final a Manuel Núñez Bernal, que seguía impenitente; era portugués, natural de Almeida, de 40 años, mercader, vecino de Écija. Salieron también al auto las estatuas de su cajero y de un criado que evitaron el castigo con la fuga. Su mujer y una hija suya fueron reconciliadas, pero él se mantuvo firme y se dejó quemar vivo con admirable entereza.

* A acrescentar mais recentemente: HUERGA CRIADO, Pilar, En la raya de Portugal, solidariedad y tensiones en la comunidade judeoconversa, Salamanca, 1993. A lista de historiadores que se dedicaram ao assunto é, porém, muito longa: Y. Baer, H. Beinart, E. Benito Ruano, B. Bennassar, J. C. Boyajian, J. Contreras, F. Chácon, J. P. Dedieu, J. I. Israel, H. Kamen, H. Ch. Lea, B. López Belinchón, H. Méchoulan, G. Nahon, B. Netanyahu, J. Pérez Villanueva, M. Schreiber, Y. H. Yerushalmi, para referir muito selectivamente alguns dos autores mais importantes.

Leituras de Verão



A melhor (e mais útil) até ao momento, até porque isto não pode ser só "alta cultura".

Grande Finale (43)

The World at War, Jeremy Isaacs, 1973

(a partir de 6:14)

Vamos ouvir um Cigano - vamos?...

Gnomenreigen, de Liszt

[György Cziffra também soube o que é ser deportado.]

Palavras sensatas - palavras contra o ruído

Palavras sensatas, sim, sensatas - mais exactamente, palavras enquanto tais contra o rolo compressor da estupidez cega:


Daqui.



Aquilo são palavras - e as palavras (uoces) são para ser ouvidas.
Ora, do lado do governo, do lado de Sócrates e cúmplices, nada há para se ouvir - a única reacção humanamente possível ao ruído "socrático" diário é a de tapar os ouvidos. A "comunicação" de José Sócrates é qualquer coisa próxima de uma perversão da linguagem. O homem pratica apenas um matraquear constante - que se reproduz a si mesmo (e não por contacto com a realidade) numa vertigem de propaganda e num delírio de mentira. Tudo o que faz ou finge fazer é pretexto para mais ruído intoxicante: todos os dias lá anda a criatura, de tribunazinha às costas, como um vendilhão de feira, apregoando a última maravilha do seu governo, proclamando mais uma realização inaudita - sempre a melhor do mundo e arredores. Aproveita sempre essas oportunidades de pantominice para borbulhar para cima do público as suas inanidades aparvalhadas: ora berra contra os "extremistas-radicais-liberais", ora se vai esganiçando contra a "esquerda-arcaica-reaccionária". Para temperar aquela linguarada ridícula, o homem ainda acrescenta uns trejeitos e umas momices de espanta-pardais para assustar criancinhas. (A sua última predilecção é a do "acabar com o combate à dor" [sic] e do "fim da prestação de cuidados de saúde" - tudo perpetrável, não o impedisse o-Sócrates-que-vela-e-não-dorme, pela voragem assassina dessa malta sem nome do PSD. Amanhã, o papão será outro.) A "luta política" portuguesa está dominada pelas funambulices da personagem. A oposição a haver tem que ser uma alternativa (efectiva alternativa) ao delírio irresponsável que Sócrates todos os dias proclama e promove, montando um biombo entre o público e a realidade.

Sexta-feira, 27 de Agosto de 2010

The Brain...

A propósito disto, não resisto a transcrever:


The Brain – is wider than the Sky –
For – put them side by side –
The one the other will contain
With ease – and You – beside –

The Brain is deeper than the sea –
For – hold them – Blue to Blue –
The one the other will absorb –
As Sponges – Buckets – do –

The Brain is just the weight of God –
For – Heft them – Pound for Pound –
And they will differ – if they do –
As Syllable from Sound –

O que andamos a ler?




Nos últimos dias de Agosto, numa altura em que os dias continuam quentes e muitos ainda estão a banhos o que andam a ler os portugueses? Os livros da Fundação Manuel dos Santos. As semanas passam e eles teimam em aparecer no top de vendas de livros não ficção. O que têm afinal estes ensaios de tão extraordinário? Falam de nós, da nossa educação, da economia nacional, em edições apelativas, disponíveis em qualquer tabacaria, supermercado ou bomba de gasolina. Custam apenas 3,50€ e procuram explicar como andam as políticas públicas em Portugal. No contexto de incertezas e de falta de seriedade política em que vivemos, esta Fundação, estes livros, o site que os acompanha, são uma boa notícia.

Problemas

Aqui nem tudo é decifrável. Umas partes são opacas por causa da ruína da sintaxe, mas em geral é por falta de sentido. Uma coisa é certa: o Diário Económico não anda nada bem.

Narcisismo-leninismo

Esta luminária tem uma série de soluções para os problemas do país:

a) Um novo escalão de IRS de 55%;
b) Tributação de 25 % no IVA dos grandes carros e das carteiras Hermès;
c) Suspensão da privatização da Galp e EDP.

Já não acho muita graça a palhaços.

Via O Insurgente.

Liberalização dos horários dos hipermercados: mixed feelings.

Sou ferozmente contra a quantidade assombrosa de restrições legislativas e regulamentares que existe para actividades de comércio e serviços onde o consumidor tem (ou pode facilmente ter, se assim o quiser) tanta informação sobre os produtos e serviços como o vendedor ou prestador de serviços e que os nossos legisladores entenderam criar para poluir o nosso Direito e atrapalhar a vida das empresas, sobretudo das PMEs. Limitação da época de saldos, cruzadas contra as colheres de pau, restringir o tipo de produtos que se pode vender numa mesma loja (o caso das ourivesarias, por exemplo), a necessidade de alvarás para actividades simples como as agências de viagens (num tempo em que cada vez mais pessoas compram viagens de avião e estadias em hotéis na internet e em que se obtém geralmente maior informação sobre um hotel no seu site ou no Tripadvisor do que numa agência de viagens), a necessidade de licença para abertura de lojas superiores a quinhentos metros quadrados (cortesia do governo Barroso). Os exemplos são quase infinitos. Por isso, se a medida de Licenciamento Zero do governo for o que parece nos jornais (e com este governo a dúvida sistemática recomenda-se), é um passo no bom sentido. Também concordo com a eliminação da restrição imposta por António Guterres do número de horas máximo em que podem estar abertos os hipermercados aos Domingos e feriados. O efeito desta medida no tal pequeno comércio é nula e não vejo qualquer legitimidade do legislador para impor restrições de horários de funcionamento a qualquer empresa. Por outro lado, o frenesim da vida actual torna muito conveniente as compras fora dos horários tradicionais de comércio.



E, no entanto, esta liberalização de horários inquieta-me. Há dias estava num gabinete de estética e a senhora que me arranjava as mãos, que conheço há anos, contava-me as novidades do seu primeiro neto recém-nascido. Perguntei-lhe, perante o normal enlevo, se iria deixar de trabalhar, pelo menos a tempo inteiro, para tomar conta do neto. Respondeu-me que não; a nora trabalhava numa loja de grandes dimensões ao lado de um grande centro comercial e iria deixar o filho numa creche para os trabalhadores do centro comercial e da tal loja, creche essa que está aberta até à meia-noite. Ora deixar um bebé ou uma criança numa creche até à meia-noite, onde vai ser colocado a dormir por alguém com quem tem uma relação casual (e que deve ir mudando, dados os horários tão alargados se fazerem por turnos), transportado a dormir (se tiver a sorte de ser uma criança de sono fácil) para sua casa, habituado a horários diferentes do levantar cedo e cedo erguer que dão saúde e fazem crescer, nada disto pode ser saudável para um bebé ou uma criança e devia fazer soar todas as campainhas.



Fui durante anos responsável pelo projecto de retalho da minha empresa, que incluía algumas lojas em centros comerciais, e sei como é só por necessidade que se aceita um trabalho com horários tão incómodos como os dos centros comerciais e como muitos colaboradores preferiam transferir-se para as lojas de rua, mesmo com diminuição de rendimento (deixavam de receber as compensações pelo trabalho ao Domingo e feriados e pelo trabalho nocturno), tendência que se nota especialmente em quem tem família. Não considero saudáveis nem sustentáveis estes empecilhos à vida familiar, algo a que a maioria das pessoas aspira e que continua sendo, quando funcional, uma das grandes panaceias para os males do mundo. É um regresso auto-imposto aos tempos mais cruéis da revolução industrial.



Uma coisa é certa: contrariar estes hábitos pouco saudáveis não cabe nem ao legislador nem aos empresários (cuja obrigação é aproveitarem as oportunidades de negócio); cabe aos consumidores. Quando os consumidores preferirem passar os fins-de-semana passeando fora-de-portas, levando os filhos aos parques e museus, brincando com os filhos, em vez de se passearem pelos centros comerciais (por vezes comprar algo nem é o objectivo da deslocação) e de organizarem visitas em família ao hipermercado, a vida familiar de quem não tem outra opção se não aceitar trabalhar a desoras melhora.

Leituras de Verão (4)

A Vista de Castle Rock, de Alice Munro.
Já terminei o livro há umas duas semanas e ainda estou maravilhada com a capacidade desta canadiana de origem escocesa, que eu nunca havia lido, de pegar em vidas rurais, corriqueiras, aparentemente desinteressantes e dar-nos a oportunidade de ler sobre elas como se de personagens de Cem Anos de Solidão se tratassem. A treat.
(Com novo agradecimento aos dois ilustres bloggers que me ofereceram o livro.)

Para ir a correr à primeira livraria decente


Se ele só fizesse o que sabe, tínhamos todos muito a ganhar. Ele, e nós. Como se vê.

E o que mais Verão


Desta vez o calor chegou com toda a força e na hora certa para não deixar desiludidos todos quantos ansiavam por uns merecidos dias solarengos, de “papo para o ar”, nas praias, piscinas e jardins do nosso País.
Todavia, enquanto uns descansavam, muitos lutavam em condições desesperadas por conter uma das maiores ofensivas recentes dos tradicionais incêndios da época, ora provocados por negligência, ora causados por mãos criminosas que a justiça ainda não pune devidamente.
Num e outro caso, por entre as tentativas tantas vezes hercúleas para minimizar os danos em bens materiais, as ameaças a zonas habitadas e os atentados a espaços ambientalmente protegidos, repetiram-se as queixas sobre a insuficiência dos meios, a falta de coordenação das respostas, a ridícula invocação de estatísticas mais favoráveis pelos responsáveis governativos.
Saudou-se, como sempre e bem, a bravura dos bombeiros, lamentou-se a falta de medidas e atitudes preventivas e avançou-se com propostas de ressarcimento dos danos ou de penalização dos negligentes, esquecendo que, na maior parte dos casos, é o Estado ou Entes Públicos quem dá o pior exemplo…
Logo que a temperatura abrandou e que as primeiras chuvas temperaram as agruras estivais, a nossa vocação catastrófica transferiu-se para as estradas, acumularam-se os acidentes, fomos confrontados com tragédias como a que esta semana ocorreu na A25 e outras tantas – ainda que menos impactantes do ponto de vista estatístico – nos quilómetros, portajados ou não, que nos percorrem de lés-a-lés ou que levam e trazem os “nossos” aos/dos seus ofícios para lá das nossas fronteiras.
Por outros caminhos, da animação do Pontal à secura de Mangualde, acelerou-se nas palavras e aqueceu-se o tom do discurso político, lançando algum nevoeiro sobre os meses que se seguirão.
De um lado, exigiu-se o óbvio: opções claras, justas e atempadas em matéria orçamental e assumiu-se a desvinculação de uma política em que se disfarçam os contínuos e agravados descalabros do lado da despesa com a arrecadação sôfrega de receitas fiscais, a expensas das famílias e da competitividade da nossa economia.
Do outro, utilizou-se o expediente habitual (porque sempre bem sucedido até prova em contrário), da manipulação do campo mediático, da martirização política, da afirmação das “causas sociais” e dos “ideais de esquerda” que qualquer análise mais descomprometida pode facilmente desmontar.
E terá havido Verão em que os Governantes em funções mais primaram pelo disparate, ao ponto de os próprios terem de assumir sucessivos desmentidos? Os aumentos da função pública, as passagens com notas negativas, os “espiões” cujas missões são anunciadas pelos responsáveis?
Como seria de esperar, a economia também sorriu, timidamente; o desemprego estancou, como é normal na estação, mas a fuga do mercado de trabalho é também notória; as prestações sociais estão a ser reavaliadas e a permitir algumas poupanças por entre o despesismo generalizado.
Em Agosto, renovam-se anualmente as esperanças dos aficionados, prometem-se novas conquistas, e fazem-se avultados investimentos em contra-ciclo (ou deveria dizer-se contra-senso) com os passivos acumulados e as sucessivas reestruturações financeiras, que tantas vezes se assumem como péssimas opções estratégicas.
Também aqui, há espaço para o exemplo. Com os tostões contados, sob uma liderança de pulso, um discurso e postura ambiciosa e um espírito de luta indomável – que noutras esferas se poderia traduzir em esforço colectivo e produtividade – o Sporting Clube de Braga lá vai conquistando os seus milagres… e os seus milhões.
Afinal, a demonstração de que com rigor, planificação e capacidade de trabalho se consegue a “competitividade” necessária para fazer de cada mês uma Primavera.
Em Portugal, com o Outono ainda distante, resta esperar que sejam assim positivas as cores com que se vão pintar os dias que restam deste Verão.

in Vida Económica

Amanhã, no Largo Camões, 18 horas


Grande Finale (42)

Splendor in the Grass, Elia Kazan, 1961

Quinta-feira, 26 de Agosto de 2010

As eleições de Novembro

Os Estados Unidos vão a votos daqui a dois meses. Estas eleições não têm a relevância mediática de umas eleições presidenciais, mas podem mudar radicalmente o panorama da vida política americana. Em Portugal não se tem escrito muito, por isso aqui fica o meu contributo sobre o tema. A grande dúvida é se os democratas irão ter uma derrota normal neste género de eleições para o partido que ocupa a Casa Branca, ou sofrer um vendaval de proporções históricas. Está tudo ainda em aberto...

Provar do próprio veneno

Não deixa de ser divertido ver os miseráveis "abrantes" do regime provarem do próprio veneno. Eles que atacam, perseguem e insultam todos os que não concordam com Sua Excelência, sempre cobardemente instalados atrás de pseudónimos colectivos, bem podem fazer-se agora de virgens púdicas. Parabéns à Elisabeth Butterfly, que aliás sigo há algum tempo no twitter mas não tenho o prazer de conhecer.

LDR-à-v-PC

Vital Moreira deu a notícia em primeira mão. Há Liberais de Direita Radicais à volta de Passos Coelho (LDR-à-v-PC). Apanhei o queixo do chão e fui tentar saber quem são. Os nomes continuam envoltos em mistério. Só se sabe que (não) são de Massamá. Mas consegui este flash: LDR-à-v-PC em rave. Aqui fica um primeiro apontamento. (Notícia em actualização).

Lopes


Como já seria de esperar, a escolha do candidato do PCP fez torcer alguns narizes à esquerda. Confundem os seus gostos pessoais, a "esquerda" que desejam, que idealizam, com o interesse do PCP. É claro que o PCP não poderia optar por mais um Alegre ou um Fernando Nobre. Também se trata de não dispersar, de assegurar o voto dos comunistas. Marcar o seu espaço de manobra. Aquele partido não nasceu ontem, joga pelo seguro e não gosta de embarcar à primeira em "aventureirismos frentistas" - isso são devaneios que caem bem na Rua da Palma.
Vamos ver quem faz mais estragos (a Sócrates, principalmente, o que não deixa de ser meritório): se o "sectário" e "ortodoxo" Francisco Lopes, se o "moderno" e "democrático" Francisco Louçã, embarrilado na campanha de Alegre e, objectivamente, refém do Chefe do PS.

[Também tenho gostos pessoais: teria preferido o outro Lopes à direita na foto, Agostinho: um deputado sólido e aguerrido, com sotaque autêntico.]

Absolutamente.

Itálicos meus.

Tanta gente!

Eu bem sei que, em princípio, toda a gente sensata está de acordo, sobretudo se, passando-se do princípio à prática, na prática for o outro a pagar. A mim, sinceramente, não me dá jeito. Toda a gente, salvo seja. Tirando o Conselho de Ministros, o comissário Metelo, o anónimo que escrevinha uns quantos editoriais do Diário de Notícias (será o mesmo?), Mário Soares, que aprendia economia ao serão com as prelecções televisivas do comissário (ele é que disse), e uma caterva (gostei da palavra, já não largo) de bloguers com mais ou menos talento literário. Peço desculpa se me esqueci de alguém. Não foi de propósito. Mesmo assim, no plano da teoria, espanta-me - e, vá lá, uma boa surpresa! - que 59% dos portugueses «concord[e]m inteiramente» com a «urgência de pôr travões ao endividamento público». É certo que é a menor percentagem entre as sociedades europeias. Mas, mesmo assim, é muita gente. Coragem, PSD, É a Hora!

Video miséria


Chegámos a isto. Motivo para estarmos orgulhosos, certamente. Fossem as escolas mais pequenas, de dimensões sensatas, com número e preparação de funcionários adequados; fosse reconhecida a autoridade (auctoritas) natural dos mais velhos e não tivesse ela sofrido uma erosão (para mais, acelerada por um discurso político bestial); não houvesse um permanente discurso político chantagista do "sucesso" a todo o preço, um discurso que torna reféns os alunos, as famílias e os professores (estes últimos, com o ingrato papel de Cassandra); não tivéssemos um primeiro-ministro arauto da ignorância, cujo deslumbramento pacóvio com as "info-ferramentas" - que o homem imaginará salvíficas - é todos os dias confirmado pelo seu silêncio sobre as condições (essas sim) sine quibus non da Escola: a necessidade do esforço, o mérito do aluno como algo não-automático, a importância do estudo, do trabalho, a dificuldade como inevitável e indispensável, a não-sabotagem política constante da profissão do professor, a relação pessoal (sim, pessoal) no ensino, uma referenciazinha que seja (posso dizer?) ao... livro, à leitura... Mas não - como se viu nestes anos, o discurso do primeiro-ministro sobre a Escola não tem sido, na verdade, sobre a Escola: tem sido antes um reflexo das limitações do seu próprio olhar e das suas obsessões - oscilando entre a lamúria da "incompreensão" pela sua "obra", a gritaria persecutória e vingativa relativamente aos que dela desconfiam e a proclamação constante de opções que são puramente exteriores à Escola. Nada mais. Nesse sentido, o discurso de José Sócrates não é sobre a Escola, é sobre José Sócrates.
Retomando o fio à meada: não fosse tudo isso e não haveria necessidade, pelo menos em quantidades tão arrepiantes, de aplicar aquela maravilha. Como se tudo não bastasse, esses que nos governam chegam a orgulhar-se, repito, a orgulhar-se de constituirem "centros escolares" com milhares de alunos. É difícil conceber uma irresponsabilidade mais imbecil... O que vamos tendo, enfim, é cada vez menos Escola, mas antes uma rede de armazéns cada vez mais concentracionários - lubrificados e reluzentes como convém, mas concentracionários. Parabéns.

Moral hazard by the book

Dublin has played by the book. It has taken pre-emptive steps to please the markets and the EU. It has done an IMF job without the IMF. Indeed, is has gone further than the IMF would have dared to go.

It has imposed draconian austerity measures. The solidarity of the country has been remarkable. There have no riots, and no terrorist threats.

Yet as of today it is paying 5.48pc to borrow for ten years, or near 8pc in real terms once deflation is factored in. This is crippling and puts the country on an unsustainable debt trajectory if it lasts for long.


Ambrose Evans-Pritchard não viu tudo. Portugal não fez nada de significado, excepto uns aumentos de impostos com a bênção do PSD, pelos quais este pediu acto contínuo desculpas à nação, está em derrapagem clamorosa, «paga» o mesmo que a Irlanda - 5,46% a esta hora - para se financiar a dez anos. Moral hazard de bradar aos céus. Um dia isto acaba mal. Mas entretanto assobia-se para o lado.

Quarta-feira, 25 de Agosto de 2010

Wim Mertens - The Fosse

Manipulação, ignorância... oh não, outra vez o Jornal de Negócios!!

O coveiro, em comício, como de costume

Esta notícia do Jornal de Negócios é uma meia verdade e, na verdade, acaba por ser uma dose considerável de mentira. Vejamos: é um facto que a rendibilidade das Obrigações do Tesouro (OT) portuguesas (o Tesouro foi hoje ao mercado pagar de novo prémios de risco proibitivos, mas isso não tem já nada de novo) está a subir fortemente. É verdade que o risco e o juro da dívida soberana também na Irlanda estão em forte alta. E que a Grécia está sob elevada pressão, como sempre que a aversão ao risco aumenta (a Grécia já está dispensada de ir ao mercado, embora, por razões misteriosas, já tenha ido, desde que ficou debaixo da asa da UE/FMI).

Porém, este não é um padrão comum aos «países periféricos», como o jornalista quer fazer crer, não sei se por ignorância do metier, se por má-fé, se por uma mistura conveniente dos dois ingredientes. Os títulos espanhóis e italianos estão mesmo em ligeira correcção, com as rendibilidades em baixa face ao fecho do mercado londrino de ontem.

Claramente, o foco de risco está com uma espécie de cordão sanitário à volta da Grécia, de Portugal e da Irlanda, cujo rating foi revisto em baixa.

Veja, aqui, o relatório da Reuters/Thomson de ontem, 24 de Agosto. E aqui o valor das OT de referência, com um desfasamento de 20 minutos em relação ao seu valor corrente de mercado. E mande o Jornal de Negócios à fava.

De facto, Portugal não é a Espanha e muito menos é a Itália, está cada vez mais parecido com a Grécia, e aos dois juntou-se, parece, recentemente, a Irlanda.

Ver na caixa de comentários a resposta do jornalista Nuno Carregueiro.

Guerra do Vietname

O risco da dívida pública portuguesa é o segundo que mais sobe no mundo, apenas superado ligeiramente pelo Vietname, agravando-se 3,66 por cento, de acordo com os dados da CMA, uma empresa especialista em análise de crédito.

CM

Writing course



Have you ever in your life taken a writing class?
I took a writing course in summer school in 1939, when I was in high school. But it didn't work. The secret of writing was, to go and live in the library two or four days a week for ten years. I graduated from the library having read every single book in it. And along the way I wrote every day of every week of every month, for every year. And in ten years, I became a writer.

[Entrevista neste sítio, encontrada a partir daqui, onde podem também apreciar um video clip pleno de... amor à literatura.]

O ministro dos ataques

Noutros tempos, um ministro da Defesa que denunciasse o envio de "serviços de informação" para territórios inóspitos como o Afeganistão ou o Líbano, colocando ainda mais em risco a vida já de si perigosa dos "espiões militares" e do restante contingente, teria de ser liminarmente demitido. Mas nestes dias que correm tudo é admissível e até defensável. Santos Silva é apenas um dos muitos erros de casting deste governo, uma espécie de comissário político no ministério da Defesa. Ele poderia ser ministro dos ataques mas jamais da Defesa. Leio por aí que os EUA também anunciam a presença de serviços secretos nos territórios onde operam - o que, para além de ser uma mentira grosseira demonstra alguma ignorância. Mas são estes os tempos de Sócrates e da sua matilha pública e anónima - tempos de mentira e de ignorância.

Péricles ultrajado


O ministro Augusto Santos Silva, nesta sua entrevista-maravilha, diz ter como "principal referência" Péricles. A ironia não está na parolice ser dita por um colaborador de um Sócrates desgraçadamente lusitano, não. A ironia, terrível ironia, é a de que Péricles, o Péricles στρατηγός das guerras com Esparta e com Samos, nunca cometeria um disparate inconcebível como este.

Grande Finale (41)

Pygmalion, Anthony Asquith e Leslie Howard, 1938

Terça-feira, 24 de Agosto de 2010

Perseverança

Muito Prazer

Domingos Lopes, candidato do PCP à presidência da República nas eleições de 2011, foi hoje informalmente apresentado à sociedade portuguesa. Se bem percebi, a apresentação em baile de debutantes fica para depois da Festa do Avante. Confesso que sempre me fascinou esta preocupação dos comunistas portugueses com as formalidades.

"Sevilla tiene un color especial": Los del Rio

A Sakineh Mohammadi Ashtiani


Uma carta para Sakineh Mohammadi Ashtiani.

A grande conspiração contra Obama II

O Paulo referiu aqui o artigo de Mário Soares. Com curiosidade fui ler, já à espera de encontrar um artigo patético. Por isso não fiquei surpreendido. Além das considerações absurdas que Soares escreve sobre grande "conspiração" que os malvados republicanos estão a engendrar contra Obama (dignas de um jovem de 18 anos sem acesso a informação básica), há erros grosseiros que me envergonham. Como cidadão português que já teve este político como Presidente da República.

Em jeito de reescrever a história, refere que a guerra do Afeganistão e do Iraque foi desencadeada pelos EUA e pela Inglaterra (e aproveita para meter Portugal de Durão Barroso ao barulho) sem ouvir terceiros. Eu sei bem que isto deve custar ouvir, mas é ridículo dizer que a intervenção no Afeganistão, foi uma intervenção unilateral desses dois países, quando foi a própria Nato, que engloba diversos países, que actuou. E muitos mais países fora da Nato tiveram/têm lá soldados. E devo referir que a força internacional no Afeganistão, denominada de ISAF, tem o apoio das Nações Unidas. Sobre o Iraque, será preciso recordar a famosa carta dos oito para o senhor Soares avivar a memória? E que estiveram no Iraque bem mais países do que os Estados Unidos e a Inglaterra? Mas admito que são duas situações bem diferentes, por isso é errado colocarem-se no mesmo patamar. Enquanto a intervenção no Afeganistão teve amplo apoio internacional, o Iraque foi bem diferente.

E como ele perdoa tudo ao seu "Messias" Obama, esquece-se de referir um pequeno pormenor sobre a "terrível guerra" do Afeganistão: o aumento brutal contingente militar aliado foi efectuado apenas por Barack Obama, pois este sempre considerou esta uma guerra justa. Porque será que Soares esquece-se sempre de referir isto nos seus artigos? Será que ele pensa que Obama foi obrigado pelos malvados republicanos, ou se calhar por Bush, a mandar mais 30 mil soldados para o teatro de guerra afegão? E mesmo sobre o Iraque, Soares demonstra ignorância. Obama retira do Iraque antecipando num ano o acordo que George W. Bush tinha feito com os dirigentes iraquianos. Mas esta retirada não deixará de ser evocada como um sucesso pela Administração americana. Não por acaso, Obama irá esta semana discursar sobre o assunto, para retirar dividendos políticos da situação. Se Obama em 2007 esteve contra a "surge", tal como Soares, agora agradece o facto dela ter existido, pois criou condições para que esta retirada acontecesse de forma mais ou menos pacífica. Nunca mais ninguém ouviu Obama falar mal da "surge".

Por fim, um apontamento que demonstra o rigor e a honestidade intelectual de Soares. No final do seu artigo, ele refere sobre Rupert Murdoch, líder da News Corp, dona da Fox News e do Wall Street Journal, entre outros:

"A verdade é que da parte dos republicanos há muito dinheiro em jogo e vale tudo. O dono de várias televisões e empresas, Murdoch, tem feito tudo para que Barack Obama seja destruído, não apenas vencido. Acaba de dar alguns biliões de dólares ao Partido Republicano para que cumpra a sua missão de destruir Barack Obama."

Meus amigos: a News Corp doou 1 milhão de dólares na semana passada à Republican Governors Association para as eleições para os governos estaduais deste ano. E não "alguns biliões de dólares" como é dito no DN. Será que Soares sabe quanto é que a ComCast Corp. (que controla a NBC), a Microsfot ou a AT&T doaram este ano para o Partido Democrata? Está longe de serem os patéticos biliões referidos, mas só a ComCast já doou mais de 1,4 milhões de dólares ao Partido Democrata. Será que Soares sabe do que fala? Não me parece. Ninguém faz a revisão dos textos de Soares? Parece-me que ele precisa disso, para não dizer este tipo de barbaridades.

Absurdo português

Uma das mais peculiares características nacionais é a capacidade deslumbrante de assistir impávido ao absurdo, tempos sem fim.

Uma cidadã portuguesa foi assassinada no Brasil, mas a PGR não está a investigar o caso porque uma “solicitação ou comunicação [das autoridades brasileiras] é condição essencial para que a justiça portuguesa possa tomar qualquer tipo de iniciativa.

A grande conspiração contra Obama

Mário Soares, no DN, em coro com Benjamin Formigo, no Jornal de Angola.

Sobre um desastre anunciado

Quando se olha para o que o Estado gastou nos primeiros sete meses deste ano, a perplexidade é total. Mas como é que a despesa do Estado sem incluir os gastos de investimentos e os juros da dívida pública aumenta 5,7% com a inflação de Julho fixada em 1,8? É um aumento inexplicável, se levarmos em conta que estamos a comparar com um ano de fortíssima derrapagem da despesa - o ano de 2009 - e que foram entretanto adoptadas medidas de contenção dos gastos no designado plano de austeridade.

Editorial do Jornal de Negócios, hoje, por Helena Garrido.

Nota: como salta dos números, da execução orçamental ou do endividamento, não há plano de austeridade nenhum: há, como houve no ano passado, e como houve em 2001, um des-con-tro-lo-to-tal; e, talvez, aqui ou acoli, um remendo qualquer de congelamento disto ou daqueloutro.

Estratégia?...



«Calvão da Silva contrariou, assim, as declarações de Macedo, que, há poucos dias, assegurou aos jornalistas que as alterações no campo das políticas sociais e emprego estão concluídas e serão mantidas. Ontem, em conferência de imprensa na sede nacional do PSD, o professor de Direito disse não garantir "nada", sublinhando que o grupo de trabalho "não deve ser confundido com um órgão decisório". "[Pedro Passos Coelho] pode até pôr tudo o que nós quisemos no lixo, se quiser. Mas também pode ver alguns méritos e aproveitá-los", ilustrou, insistindo que as ideias já divulgadas não vinculam o partido. Contudo, ressalvou, Passos Coelho e a comissão política não deverão alterar drasticamente o anteprojecto: "Se estamos a desmentir aquilo que o texto diz, não é para ir ao encontro daquilo que o PS gostaria, não é de certeza."»
Daqui.

Já pensaram com que olhar o público aprecia estes ziguezagues? Não será isto visto como o método da aposta dupla (ou múltipla), como exemplo de esperteza saloia?... A não ser que o PSD tenha enveredado por uma estratégia kamikaze. E mesmo esta metáfora tem limites, porque esses pilotos japoneses sempre iam tendo alguma eficácia pontual.

Maldades

O Fernando "acusa-me" de ter cometido uma maldade ao colocar a imagem da Rima Fakih. Pior maldade foi a dele, ao comparar-me à agremiação desportiva do Porto, pois ele sabe bem que o meu clube é o tal que abriu uma churrasqueira este ano, para gáudio dos nossos adversários. Mas acredito que o bom senso vai imperar, e tal como nos Estados Unidos, JJ vai arrepiar caminho já no próximo fim de semana. Mas ele tem razão: apenas nos Estados Unidos uma muçulmana poderia chegar a Miss e opinar livremente sobre questões deste género. A liberdade de religião está no ADN do país, mas também a liberdade de expressão. E tem sido essa a mover os oposicionistas da dita mesquita, que a bem da tolerância e a convivência saudável entre comunidades religiosas, defendem que o centro Córdoba que deve ser construído noutro local. Não sou daqueles que gosta de dar o exemplo dos intolerantes países muçulmanos que perseguem os crentes de outros credos. Não podemos comparar os EUA à Arábia Saudita, por exemplo. Mas o bom senso aconselha à sua deslocalização. Será que os seus promotores vão seguir o exemplo da tolerância dado por João Paulo II na década de 80, como conta aqui William McGurn no WSJ? Está certo que nem todos podem ter a graça de João Paulo II, mas só lhes ficava bem seguir o seu exemplo de tolerância e respeito pelos outros.

Quanto a fotos, Fernando, respondeste à altura. Nem me atrevo a colocar outra imagem. Um grande abraço.

Sítios em que Portugal ainda vai estando vivo

Aqui.

(A favor da sempre maravilhosa diversidade faunística, também há por aí Esaús e pratos de lentilhas - como, provavelmente, no sítio onde a insuportável personagem esbracejou há dias.)

Do regular funcionamento das instituições *


Ontem, o Ministro da Defesa deu uma entrevista ao jornal I, anunciando que Portugal deverá enviar espiões para o Líbano.
Num Estado decente, ou o Ministro se demitia ou o Chefe do Estado Maior das Forças Armadas seria demitido.
Faltam 14 dias para o PR perder o direito de dissolver o Parlamento.
* corrigido

Grande Finale (40)

Au Revoir les Enfants, Louis Malle, 1987

Segunda-feira, 23 de Agosto de 2010

A mesquita do Iman Rauf

(Rima Fakih, Miss USA 2010)

A chamada mesquita do Ground Zero continua a suscitar debate um pouco por todo o mundo. O Fernando Moreira de Sá tomou partido e "chamou-me" para o debate (agradeço as suas simpáticas palavras, apesar do exagero). Espectador atento da realidade política americana, o Fernando recorda as palavras de Barack Obama sobre a legalidade da sua construção. Não coloco isso em causa. Mas, e ao contrário de Obama, que na manhã seguinte a essas declarações citadas, disse que não se pronunciava sobre a prudência da escolha do local (a palavra utilizada foi "wise" - ou seja, Obama tentou colocar-se fora da polémica outra vez. Sem sucesso diga-se), eu concordo com Howard Dean, um dos baluartes da esquerda americana. O antigo candidato presidencial disse que a construção da mesquita naquele local era uma afronta. Não por acaso, não são apenas as vítimas do 11 de Setembro, ou os republicanos, como parece ser o caso para quem lê a imprensa portuguesa, que estão contra a localização desta mesquita. Quase 70 por cento dos americanos, incluindo mais de metade dos eleitores registados como democratas, opõem-se a essa decisão. E mais importante, a esmagadora dos nova-iorquinos, uma das cidades mais à esquerda dos Estados Unidos, está contra. E também muitos muçulmanos americanos, como a bela Miss USA 2010, a primeira muçulmana a vencer o concurso de beleza, têm vindo a publico pedir para mudarem o local da mesquita. Além que não me parece sério falar em liberdade religiosa numa cidade que tem mais de 30 mesquitas e igrejas de todos os credos e seitas confessionais.

Mas também nos devemos centrar nos promotores da iniciativa, nomeadamente no Iman Rauf, que está longe de ser um moderado. Adepto da introdução da Sharia nos Estados Unidos, este clérigo tem um passado, no mínimo, questionável. Apoiante do regime iraniano, recusa-se a condenar o grupo terrorista Hamas e foi um dos que defendeu que os Estados Unidos foram, em parte, responsáveis pelo 11 de Setembro. Isto deveria obrigar muito boa gente a colocar em questão os propósitos desta mesquita.

E falemos de tolerância: será que esta mesquita está a promover a tolerância entre os diferentes credos nos Estados Unidos? Hoje em dia escreve-se muito sobre o aumento da islamofobia no país. Mas não seria normal isso ter sucedido precisamente após os atentados do 11 de Setembro? Durante a última década nunca o sentimento anti-muçulmano esteve tão vivo. Será que colocar uma questão destas na praça pública não contribui precisamente para aumentar a desconfiança relativamente à comunidade muçulmana? Os milhões de muçulmanos americanos não estarão precisamente a ser os principais prejudicados por este debate? Será que os muçulmanos nova-iorquinos ficavam a perder com um centro deste género noutro local? Ou será que é precisamente alimentar a islamofobia que está a orientar os objectivos promotores?

Uma nota importante sobre o local em questão. Não é verdade que fique propriamente no Ground Zero, pois situa-se a dois quarteirões. Mas o edifício foi parcialmente atingido no 11 de Setembro por destroços, tendo perdido valor económico. Os donos do prédio chegaram a pedir 18 milhões de dólares pelo espaço, mas acabaram por vendê-lo por 4,8 milhões aos actuais donos em 2009. Não se diga que o edifício nada tem a ver com o 11 de Setembro, pois sem ele certamente não teria sido adquirido por esse preço. Além que ninguém se incomodaria com o facto de construírem lá uma mesquita, uma sinagoga ou um templo budista se o ataque não tivesse acontecido.

SS: upgrade na segurança

Há que dizer que são muito injustas as críticas que se têm feito na blogosfera ao anúncio pelo ministro SS do envio de espiões para o Afeganistão e para o Líbano - sendo que isto até pode fazer parte de um inexcedivelmente inteligente plano de guerra psicológica com as gentes do Líbano e do Afeganistão, que estão já transidas de medo com a possibilidade da aparição dos agentes do senhor ministro SS, e como resultado ainda se poupa o envio de gente para tão longe, que os afegãos e os libaneses já perceberam que não conseguem brincar connosco.
Para os padrões socialistas, o ministro SS é tão discreto quanto o homem invisível.

Caspar David Friedrich



À atenção, em especial, do Pedro Picoito.

"As abelhas estão a desaparecer do país...

Prazos constitucionais?

A nossa constituição tem imensas normas que não têm dignidade constitucional. Entre elas está a fixação de prazos entre eleições, um questão meramente administrativa. Se se teme que os portugueses elejam um PR que não tenha discernimento sequer para escolher datas de eleições, não vale a pena “proteger” os portugueses apenas desta questão, porque um PR sem esse discernimento faria mil estragos mais graves ao país.

Esta questão dos prazos é sempre absurda, mas neste momento é particularmente grave. Temos perante nós doze meses que se devem mostrar dos mais difíceis da 3ª República, com a ameaça de bancarrota a ensombrar ciclicamente o país. O PR ficar sem o instrumento de eleições antecipadas (falo não só no acto, mas também na ameaça do acto, que é parte integrante deste poder) é equivalente a ficarmos sem leme no preciso momento em que a tempestade se agrava.

Seria muito útil que as novas propostas de revisão constitucional retirassem do actual texto praticamente todos os prazos de carácter meramente administrativo, que só estão a sujar a constituição e que podem ter consequências bem graves nos próximos tempos.

Citação montesquieuana do dia

«Não se encontra nenhuma lei romana que permita expor as crianças. Foi, sem dúvida, um abuso introduzido nos últimos tempos, quando o luxo retirava o conforto, quando às riquezas partilhadas se chamava pobreza, quando o pai julgava ter perdido o que dava à família e distinguia essa família da sua propriedade.»

Para a Moody's



Lembrei-me de oferecer à Moody's - dava um lindo hino -, quando li esta notícia.

Só um pequeno exercício, coisa pouca: suponhamos que o valor do défice é o do ano passado, e não maior como a indicação da execução orçamental sugere que virá a ser - em milhões de euros. Suponhamos que, na óptica da contabilidade nacional, o défice fica, pois, nos 15.367 milhões de euros, e não acima; que o Governo, como diz, vai vergar a tendência despesa, etc. Ou, até, nem consegue vergar lá muito, e ela cresce o bastante apenas para não aumentar o défice, limitando-se a aumentar tanto quanto o aumento da receita o permitir, que é o que não está a acontecer. E suponhamos ainda que a economia vai crescer como o Governo prevê, ou previa (já não sei ao certo): 0,7%; que o deflator do PIB é 0,8% - o défice é 9%. O efeito do crescimento sobre o défice - não aumentado! - dá uma redução 0,3 décimas de ponto percentual medido em relação ao PIB. O resto teria de ser esforço de consolidação. Teria.

«Mais seis razões por que não podemos deixar que o Irão se nuclearize»

Aí. A ler. Por Christopher Hitchens.

Citações instrutivas

Apesar de uma citação ser sempre um recorte, muitas vezes, impõe-se por si e vale a pena lê-la e pensá-la. Assim as pessoas o queiram. É o caso desta e das outras que a seguem: 1, 2 e 3. E, recordando o mecanismo da "compaixão selectiva", aqui.

Céu nublado

Silva Lopes, hoje:

Ainda nem começámos a consolidação orçamental.

Portugal está a "fingir" que corta na despesa.

Ainda não fazemos ideia das dificuldades que nos esperam.

Terá que haver "um choque tremendo".

Et caetra.

Buscamos um tempo transparente



Citando um dos meus bloggers preferidos de sempre, o meu amigo Francisco Mendes da Silva, "se a direita quiser servir para alguma coisa, tem de perceber que há um Portugal mental velho, que espera do Estado a doação de um modo de vida, e um Portugal mental novo. Se quiser ter uma influência duradoura no governo do país, é para este último que tem de falar, construindo uma narrativa ideológica consistente e um discurso que suporte intelectualmente essa mudança geracional e sociológica. Tem de falar, com coerência e propostas concretas, de liberdade. Se o PS é o partido dos instalados do velho Portugal, a direita tem de ser a escolha natural do novo Portugal: de gente livre, cosmopolita, empreendedora e ambiciosa." E mais não cito que poderia ser considerado plágio. Leiam o resto, incluindo a letra da música, sff. Vem tudo de Viseu.

Grande Finale (39)

Sunset Boulevard, Billy Wilder, 1950

Domingo, 22 de Agosto de 2010

Esta gente passa-se big time! (*)

O chefe da seita de Roma, em tempos de deportações livres, iguais e fraternas, entregando-se a mais uma das suas palermices obscurantistas:

'Je salue cordialement les pèlerins francophones (...). Les textes liturgiques de ce jour nous redisent que tous les hommes sont appelés au salut. C’est aussi une invitation à savoir accueillir les légitimes diversités humaines, à la suite de Jésus venu rassembler les hommes de toute nation et de toute langue. Chers parents, puissiez-vous éduquer vos enfants à la fraternité universelle.'
[Toda a palermice fundamentalista aqui.]

(*) Com a devida vénia à incansável Palmira. Incansável e bem mais importante para o universo do que o hidrogénio.

Wim Mertens - Struggle for Pleasure



O videoclip também é muito bom.

Um bom assunto...


Aqui está um bom assunto para Eduardo Pitta troçar.

[Fotografia da casa onde viveu António Feliciano de Castilho, ao cimo da Rua do Sol ao Rato, em Lisboa. É claro que, da casa, hoje, só resta o sítio, assinalado por uma placazita pindérica - apesar de tudo, superior à sorte da casa de Garrett, o "pardieiro", que nem a uma inscrição teve direito.]