Marie Gaille-Nikodimov, Maquiavel, Edições 70, 2008
É habitual dizer-se dos grandes autores que eles são inesgotáveis. Esta observação assenta que nem uma luva a Nicolau Maquiavel, o grande pensador político florentino do século XVI. Em certa medida, podemos dizer que a observação aplica-se mais a Maquiavel do que à grande maioria dos pensadores. Afinal, é provável que não haja um outro exemplo tão manifesto de alguém cujo pensamento tenha sido sujeito a tantas interpretações diferentes e a tantas interpretações contraditórias. Os seus rivais mais óbvios na corrida a este título duvidoso – Platão, Hegel, Rousseau, por exemplo – não chegam a ameaçar a posição cimeira. Basta pensar nas diferentes teses que sucessivamente, desde meados do século XVI, foram sendo avançadas a propósito de Maquiavel.
Mandam os textos e o horror à banalidade que se ignorem as visões mais vulgares que descrevem um Maquiavel demasiado preso às suas circunstâncias históricas e aos preconceitos inevitáveis de que não se soube libertar, ou um outro Maquiavel de bata branca e óculos na ponta do nariz, que cuidadosamente desinfecta as mãos dos lamacentos “juízos de valor” quando entra no seu laboratório imaculado onde só os “factos” imperam. Sendo assim, mais vale notar que ao longo da história da Europa já tivemos um Maquiavel pio e cristão, um outro ateu e ainda um outro diabólico, um verdadeiro génio do mal, como o nosso D. Jerónimo Osório não deixou de apontar. Já tivemos um Maquiavel patrono dos tiranos, como Innocent Gentillet ainda no século XVI revelava ao descobrir a associação entre o imoralismo e o poder absoluto e tirânico, lição que, de resto, seria reactualizada por Jacques Maritain no século XX. Foi perante o abismo do totalitarismo da nossa era, perante a aberração da idolatria do Estado e confrontado com as extraordinárias ameaças à dignidade humana, enfim foi diante do triunfo momentâneo de uma espécie de niilismo ultra-violento, que Maritain fez o seu apelo dramático ao fim de todas as formas de “maquiavelismo”.
Maritain sabia do que estava a falar. Afinal, o fascismo italiano não se coibiu de, pela voz de Mario Piazzesi, reclamar Maquiavel como um dos “nossos”. Sabe-se igualmente que Mussolini redigiu um prefácio admirador de uma edição italiana d’O Príncipe. Como se isso não bastasse, não se desconsiderou a hipótese anacrónica de Maquiavel ser um apoiante longínquo da revolução proletária inspirada nos ditames do marxismo-leninismo, o que acabou por custar caro a Kamenev quando enfrentou a fúria dos juízes-fantoches de Estaline. Porém, a via mais sofisticada viria da pena sofisticada de Antonio Gramsci, que converteu o Príncipe das páginas de Maquiavel nessa grande agência colectiva fazedora de progresso e de revolução chamada Partido, com ‘P’ maiúsculo porque o que é único e divino não pode ter outro início.
Mas também já nos foi apresentado um Maquiavel porta-estandarte da democracia e da liberdade, um Maquiavel inimigo do privilégio e da desigualdade; e se é verdade que teve de disfarçar as suas convicções dada a hostilidade dos tempos, nem por isso eram essas convicções menos autênticas. Em suma, que longe de ser um patrono dos tiranos, Maquiavel foi sempre um dos seus mais ferozes inimigos. Leitores tão atentos como Espinosa ou Rousseau apostaram tudo nesta hipótese. Mais tarde chegou o tempo dos nacionalismos, e sobretudo o Risorgimento italiano. Maquiavel seria rapidamente recrutado por Francesco de Sanctis – e pelo seu discípulo Pasquale Villari – para a causa patriótica que tinha um objectivo político determinado: a unificação da Itália, tal como aparentemente se propõe no último capítulo d’O Príncipe. Neste contexto, Maquiavel, em rigor, deixava de ser um pensador malévolo ou benévolo, para ascender ao estatuto de herói ou de profeta. Foi por essa razão que De Sanctis, um pacato professor universitário, um historiador da literatura, pôde escrever gritos tão entusiasmados como “Viva a unidade italiana! Glória a Maquiavel!”.
Doravante, o patriotismo de Maquiavel não ficaria esquecido, apesar de não ser inteiramente claro se a sua pátria era a grande Itália ou a mais pequena Florença. Assim, quando Maquiavel, noutras épocas, renascesse para uma nova vida republicana ou “neo-romana”, colocar-se-ia no centro do seu “republicanismo cívico” uma concepção activa e fervorosa de cidadania que teria como substrato um intenso e autêntico patriotismo. Em certa medida, diriam estes recentes intérpretes, a teoria política de Maquiavel não era mais do que uma proposta de um modelo de cidadania patriótica, e simultaneamente de uma teoria da liberdade. Nos nossos dias, esta tese foi espalhada com fulgor pelos quatro cantos do mundo a partir de um foco central situado lá para as bandas inglesas de Cambridge.
Algumas décadas antes, alguns alemães que procuravam a origem ou a paternidade da ideia de raison d’État viram em Maquiavel o progenitor desejado. A Realpolitik, o poder, a concepção moderna de Estado, e sobretudo o horizonte frio onde estas noções figuravam, acabariam por ficar associadas ao nome de Maquiavel. No entanto, também já conhecemos um Maquiavel filósofo, no sentido mais profundo da palavra, que, como sugere Christopher Marlowe, proclama que “não existe outro pecado além da ignorância”; um Maquiavel que exige que a sua pretensão de se equiparar e superiorizar a Cristóvão Colombo seja tomada como primeiro princípio de leitura, e cujo continente anunciado à humanidade não é do espaço, mas do tempo, do que veio a seguir.
O livro de Marie Gaille-Nikodimov tem o mérito de não partir do princípio de que Maquiavel corresponde a um destes retratos pré-definidos. A autora procura o “verdadeiro” Maquiavel. Talvez por isso combine o método biográfico com o método analítico. Essa combinação traz indubitáveis benefícios desde que não se permita que a biografia domine a teoria, nem que a teoria domine a biografia; caso contrário, acarretará sobretudo desvantagens. O tratamento biográfico é admiravelmente conciso, informativo e rigoroso; a contextualização histórica da vida de Maquiavel nas agruras internacionais do espaço italiano merece os mesmos adjectivos. Mas, ao se estudar o pensamento de Maquiavel, por vezes a concisão pode ser inimiga do rigor.
Os dois aspectos que o livro pretende abranger – a vida e a obra de Maquiavel – encontram-se mais estreitamente ligados quando são focadas as relações do autor florentino com os seus contemporâneos mais famosos: Leonardo da Vinci, Savonarola, Soderini, Leão X, Júlio II, Francesco Guicciardini ou César Bórgia. É que em Maquiavel algumas destas personagens tornam-se objectos de reflexão teórica: ou como exemplares de uma inclinação humana, ou como tipificações dos dilemas políticos. No caso de César Bórgia isso é particularmente notório. Para percebermos o que Maquiavel pensou de César Bórgia é muito útil conhecer o registo histórico; mas é ainda mais importante dominar as subtilezas do discurso maquiavélico. Se essa proficiência estivesse perfeitamente equilibrada no livro de Gaille-Nikodimov, não se leria aí que Bórgia foi “apresentado em O Príncipe como o único homem capaz de libertar a Itália dos bárbaros” (p. 80) nem que “o comportamento de César Bórgia é realçado como um verdadeiro modelo” (p. 81). Podemos estender esta crítica ao tratamento que é dado a conceitos centrais do pensamento de Maquiavel como a fortuna, por exemplo. Não é por sobrarem mais vestígios históricos (cartas, discursos, episódios quotidianos) da famosa comparação da fortuna a um rio que se pode concluir que “a metáfora da corrente furiosa é privilegiada em detrimento das outras” (p. 101). Afinal, n’O Príncipe, a última palavra – literalmente falando – de Maquiavel sobre o assunto indica que a fortuna deve ser vista como uma mulher.Nada disto, porém, deprecia um livro que procura ser cuidadoso, reflectido, meticuloso, atento às realidades políticas e literárias do glorioso Renascimento italiano. Com efeito, trata-se de um excelente guia para quem começa a ler Maquiavel ou para quem quer compreender as condições históricas em que ele viveu, agiu e pensou. Além disso, também as páginas de Maquiavel nos fazem respirar o “ar fino e seco” de Florença.