Sábado, 31 de Julho de 2010

Inconsciência


No dia 24 deste mês, escrevi num post:

Esta gente do governo (secretários, ministra e Sócrates himself) devia aprender a não condicionar politicamente a Escola de cada vez que abre a boca. Deviam mantê-la higienicamente fechada. Afirmações sobre "faltas", "retenções", "sucesso", "didáctica", etc que, em pessoas abalizadas, se revestem de um significado meramente técnico, se ditas por aqueloutros, têm sempre um objectivo político que instrumentaliza a Escola (alunos e professores) e que nada tem que ver com o que a ela diz respeito.

A citação aplica-se perfeitamente a este novo plano.
O objectivo do governo (de um qualquer governo) não deveria ser o de "acabar com as repetências", mas sim "acabar" com as razões que levam a que haja repetências - tantas repetências. E isso é coisa, se prosseguida seriamente, para levar anos - não para se anunciar aos quatro ventos e se preparar o terreno retórico, de maneira a "despachar" a medida "progressiva" num instante "socrático": contra tudo e todos, sem ouvir ninguém depois de se ter garantido que se ouviria toda a gente. Com este primeiro-ministro, já se sabe o que a casa gasta.
A "retenção" (ou "repetência", ou "chumbo") não deve ser vista como uma punição, mas sim como uma nova e efectiva oportunidade que é dada ao aluno, para atingir os objectivos indispensáveis estabelecidos. Dirão que, em grande parte, senão na maior parte, não é isso que acontece; que o aluno é, por assim dizer, quase deixado à sua sorte, numa situação em que a única novidade é a sua turma. E, assim, em tantos casos, a retenção tende a repetir-se, não a ultrapassar-se. Tudo isso é verdade. Mas muito pior do que isso é acabar "burocraticamente" com a retenção - ou, pelo menos, dispor uma miríade de pretextos, de "critérios" que, armadilhando o terreno avaliativo das escolas, acabam, intencionalmente, por tornar a retenção artificialmente impossível. (Este segundo "método" anestesiante da Escola já é aplicado há alguns anos - mais do que os dos governos do engenheiro Sócrates...) É costume ouvir-se algumas vozes do interior do establishment político-burocrático dizendo que a melhor prova de não haver "facilitismo" está na quantidade excessiva de retenções e de reprovações que sofremos. Mas não é assim - é ao contrário. As retenções e as reprovações acontecem cronicamente, em grande número, precisamente porque estão instalados vícios que induzem, criam espaço para isso a que se vem chamando "facilitismo".
"Acabar com a repetência" artificialmente, num país que tem uma visão desinteressada da Escola (e do que deve ser a Escola) e que tem a imaturidade cultural que sabemos, é uma medida inconsciente, criminosa. Não basta invocar outros países com tradições, hábitos culturais, perspectivas sociais bem mais afins daquilo que se espera da Escola, do que as nossas. Acenar com "os países do Norte da Europa" não passa de demagogia falaciosa, que nos toma a todos por parvos. O objectivo proposto pelo governo só faz sentido noutras condições que não as nossas. (O argumento típico de José Sócrates segundo o qual, se se espera pelas condições ou se se espera a concordância dos intervenientes, "nunca se fará coisa nenhuma", é tão imbecil que não merece resposta.)
Não há ninguém bem intencionado que não queira "acabar" com as retenções - mas também não há ninguém honesto que não saiba que eliminá-las seriamente é impossível.
Querem reduzir drasticamente as retenções, sem o fazer artificialmente, mas sim efectivamente? Muito bem, há então que criar as condições para que os alunos atinjam os objectivos estabelecidos. Alterar curricula, programas (p. ex., os programas de Português: pensem nas dificuldades de interpretação das perguntas dos exames de 11º e 12º Anos de Biologia, Química e outras que os alunos experimentam), ir criando as condições para uma "cultura" do estudo, do esforço e do trabalho nas nossas escolas, tornar de facto possível a constituição de equipas de apoio pedagógico, etc. É verdade que não é fácil e leva tempo. Fechar escolas e atulhar alunos em depósitos, diabolizar a exigência dos professores, decretar a morte da "repetência" ou sabotá-la administrativamente é mais fácil, não é? Pois, mas as alternativas são duas e exclusivas: ou se tem uma Escola ou se tem um arremedo.

Grande Finale (30)

Les Parapluies de Cherbourg, Jacques Demy, 1964

A pegada ecológica de José Sócrates

"Vai acabar [o Tâmega], como vai acabar o Tua e o Sabor, às mãos de gente de gabinete que nunca olhou para o céu pelo intervalo escuro das margens agrestes de um vale escavado, desconhece o que é água límpida a correr e o cheiro de urze. Quando já for tarde vamos todos lamentar não saber o que é um rio."

Vale a pena ler o texto todo.

Não, Sra. Ministra, assim não convence ninguém



P: O fecho de mais de 2500 escolas do primeiro ciclo nos últimos anos tem apenas motivos pedagógicos?
R: Exclusivamente pedagógicos. As escolas muito pequenas não oferecem uma educação adequada às necessidades actuais de recursos e complementos de aprendizagem.
P: De que estudos dispõe o Ministério para afirmar que as turmas pequenas têm mais insucesso?
R: Temos a indicação estatística de que turmas de 15 e menos alunos apresentam taxas de sucesso mais baixas. (...) Além disso, as escolas pequenas não têm refeitório, campo de jogos...
P: Algumas já têm porque foram feitos investimentos recentes.
R: (...) Mais importante do que o que se fecha é o que se abre. Temos 555 centros escolares aprovados. No próximo anos abrirão mais de 100. Em matéria de edifícios escolares vamos ficar (...) com todos os recursos de aprendizagem que consideramos básicos na nossa época. E não há direito que haja crianças que tenham acesso a esses recursos e outras que não.

(Parte final da entrevista com Isabel Alçada no Expresso de hoje)


A vida de milhares de alunos, com idades compreendidas entre os 6 e os 9 anos, e das suas famílias e comunidades, tem sido e continuará a ser significativamente alterada por decisões do Governo que ainda estão por ser devidamente justificadas. Quanto mais oiço ou leio a Ministra ou o Secretário de Estado da Educação a tentar justificar o encerramento das pequenas escolas, mais me convenço que a decisão é tomada com base em motivos não confessados e justificada por motivos sem fundamento evidente.

Por exemplo, que raio de argumento é este que diz “Não há direito que umas crianças tenham acesso a refeitórios, salas de informática, bibliotecas e espaços para a prática desportiva e de enriquecimento curricular, e outras não tenham direito a estes recursos? Mas desde quando é que o direito das famílias à educação deixou de ser o direito de escolha do género de educação que privilegiam para os seus filhos e passou a ser o dever de adaptação àquilo que o Governo considera verdadeiramente importante? E este aqui que diz “Mais importante do que o que se fecha é o que se abre”? Mas mais importante para quem? Para o Ministério da Educação? Para o Governo? Mas desde quando é que a educação existe para servir as nossas instituições governativas? Mais importante para o País? Mas mais importante como? O País já foi devidamente informado dos benefícios que decorrem da transferência dos alunos? Mais importante para as comunidades locais? Mas que sentido faz fechar escolas quando estão em curso programas promovidos por juntas de freguesia e autarquias que visam dinamizar e atrair famílias de jovens para as suas comunidades? Mais importante para as famílias? Mas porque motivo considerarão as famílias que vale a pena trocar a educação escolar de proximidade e o contacto familiar com os professores, característico de uma pequena escola, por uma educação de massas e relações pessoais distantes, como acontece nos centros escolares maiores, apenas porque ali há uma panóplia de recursos materiais interessantes?

Não, senhora Ministra, o que se abre não é necessariamente mais importante do que o que se fecha. Não o é, pelo menos, enquanto as pessoas directamente envolvidas no processo, assim como todas as outras que se preocupam com a educação em Portugal, não estiverem disso convencidas. E para as pessoas se convencerem disso não basta que o Ministério avance vagamente com uma qualquer “indicação estatística”. Já numa outra entrevista do Expresso, de 19 de Junho de 2010, o Secretario de Estado, João Trocado da Mata, avançou a ideia de que “As estatísticas têm vindo a mostrar que as escolas pequenas apresentam taxas de insucesso superiores à média nacional”. Mas quais estatísticas? Alguém as conhece? Alguém leu algum estudo sério e rigoroso, especialmente dedicado à realidade portuguesa, onde seja patente que a taxa de insucesso dos alunos que frequentam as escolas pequenas é maior do que nas outras escolas? Eu não tenho conhecimento de nenhum estudo e, a julgar pelo artigo de Paulo Trigo Pereira, publicado no Público de 16 de Julho, onde ele justifica a sua demissão do lugar de coordenador do Observatório das Politicas Locais de Educação (OPLE), também nenhum investigador deve ter conhecimento da existência de algum.

Nesse artigo, Paulo Trigo Pereira lembra que o facto do fecho das escolas pequenas ter um efeito negativo na vida das aldeias e vilas deve ser necessariamente ponderado em função do esperado efeito positivo no desempenho escolar das crianças transferidas dali para os centros escolares maiores. Mais ainda, ele denuncia a recusa do Ministério em facultar aos centros de investigação o acesso às bases de dados estatísticos na posse do GEP, Gave, GGF e MISI, dados esses sem os quais não é possível realizar estudos portugueses que demonstrem - se for efectivamente essa a realidade no terreno - que a taxa de insucesso dos alunos são mais elevadas nas escolas que o Ministério tem vindo a fechar e nas outras que ainda pretende fechar. Neste sentido, Paulo Trigo Pereira conclui sobre a impossibilidade de haver no nosso pais uma política rigorosa e transparente de combate ao insucesso escolar - obviamente, demitiu-se.

Como se não bastasse o Ministério agir ao arrepio do que pensam os pais, professores, associações e autarquias locais, o Ministério não se inibe de nos tratar a todos como se fossemos meio imbecis e dispostos a engolir qualquer coisinha que se assemelhe a um meio argumento.

O fascínio pelo Norte


Anuncia-se o projecto ou o desejo de se "acabar com as repetências" e, mais uma vez, para apoiar uma ideia assim interessante, fatalmente remete-se para essas entidades retoricamente salvíficas que são "os países do Norte da Europa". Para ilustração e sossego dos indígenas, diz-se tratar-se de importar de um "modelo" - segundo o tal "modelo", não se retêm alunos, mas vão "potenciar-se" certas "formas de apoio" para aqueles dotados de "ritmos diferenciados" (este linguajar numa ministra da Educação é, de resto, eloquente do estado da coisa).
É fácil anunciar estas maravilhas e é igualmente fácil transplantar "modelos" abstractamente, desgarradamente. Transplantar sem mais - sem curar das condições em que eles medraram e se consolidaram. Importa-se apenas o "modelo"? E o resto? Também se vão buscar os povos, o seu entendimento da Escola e os seus hábitos culturais?...


(Talvez volte a isto hoje, mas agora vou sair. Não vale a pena desperdiçar um dia destes com proclamações idiotas.)

Mertas de aprendizagem

Uma pergunta: como combinar o sentido da proposta das metas de aprendizagem com o desejo esfusiante de "acabar com a repetência"? Ou melhor, que sentido fazem aquelas com a proclamação política que vem hoje no Expresso?...

A Boa Nova

Patriotas, a Escola está salva! Arregalai bem os olhos e olhai para aqui. Sim, vistes bem: não mais, não mais haverá insucesso na Escola portuguesa. Essa palavra funesta e acabrunhante desaparecerá da nossa memória. Não cabem em si de felicidade as criancinhas nos seus aviários-agrupados e os pais, enquadrados pelo incessante Albino, incessantemente concordando com o governo da Pátria, sorriem sem parar, num contentamento que só para os Velhos do Restelo é estúpido.
Insucesso. Anulando a palavra, acaba também a coisa. Salve, ó Sócrates! Ainda está para nascer um primeiro-ministro que tenha feito tanto à Escola como tu!

Devem penitenciar-se agora aqueles que te bota-abaixaram no passado. Sim, a esses nunca lhes ocorreu esta solução brilhante. (Que a OMS ponha os olhos neste homem determinado - também ela, assim o queira com determinação, pode acabar num ápice com muitas doenças que assolam a humanidade.) Penhorados nós e as gerações-agrupadas futuras. Obrigado, senhor primeiro-ministro, obrigado.
(Não, por favor, não chore - não está a entregar diplomas das Novas Oportunidades.)

Sexta-feira, 30 de Julho de 2010

Centrifugal Meditation

"Privilegiados" (dedicado ao Carlos Botelho)

Na foto acima seguem dois portugueses extremamente "privilegiados". Mas extremamente mesmo. Tão envergonhados se sentiam (ou seria soberba?) por causa dos seus "privilégios" que nem sequer tiveram coragem para olhar de frente a câmara que os fotografava enquanto fugiam tentando proteger o anonimato (e os "privilégios"). Ao pé deles, e no que a "privilégios" diz respeito, (quase) todos neste país são nada. Como se não bastasse, as duas personagens da foto nunca trabalharam na vida, sobretudo a da esquerda. Já se perceberá o motivo. Razão para o estatuto de privilegiado? O da esquerda (outra vez) é funcionário público (por isso nunca trabalhou nem trabalhará na vida…), e como o da direita é seu filho (notem-se as parecenças indiscutíveis), são ambos beneficiários da ADSE. Ora ser beneficiário da ADSE é um "privilégio" imenso, alvo de inveja, ou de admiração, em Portugal e nos quatro cantos do mundo.
Mas o da esquerda tem um problema que atenta contra os seus "privilégios" e que nem o facto de ser beneficiário (na verdade privilegiado) da ADSE alivia. Ficou a saber, ao ler este pedaço de boa prosa, que tem emprego “vitalício” e que, portanto, não se poderá reformar (ou aposentar). Morrerá a trabalhar apesar de, como se sabe, os funcionários públicos não saberem o que é trabalhar. Por isso, porque não se aposentará, pergunta angustiadamente. Primeiro: se não se aposentar quando é que poderá finalmente começar a trabalhar? Segundo: para onde vai o dinheiro que todos os meses lhe descontam do salário e cujo destino lhe garantem ser a Caixa Geral de Aposentações. Irá para o IPRI? Para a FCT? Para o IDN? Para ajudar a compor um insignificante subsídio público a alguma Universidade "privada"? Para pagar publicidade de organismos do Estado nalgum jornal? Não me parece… Continuará o "privilegiado" a sua indagação na esperança de ajudar a resolver as aparentemente insanáveis contradições deste mundo. Acreditem.

Sobre os talentos musicais comparados estamos falados. Do resto é melhor não falar



Bem vista ali a questão do talento musical de Hillary Clinton.

E agora a sério. Mesmo.

Coisas que nunca se deveriam esquecer

Ilha de Moçambique.
(clique para ampliar)

Um mundo simples e falacioso

Este artigo de Henrique Raposo não analisa um problema. Não é sério: é mais um panfleto demagógico do que outra coisa. A facilidade com que usa as palavras “privilégio” e “privilegiado” é reveladora. O método é antigo: aplica-se o ferrete de privilegiado num grupo – e ele fica logo desqualificado moralmente. A partir desse momento, praticamente não é preciso apresentar argumentos fundamentados. Usam-se uns adjectivos excitantes (como “salazarista”), que, sendo sempre verdadeiros, mascaram o seu uso ilegítimo – isto é, a sua verdade nada acrescenta nem nada retira à sua razão de ser. Ou outros, como “viver acima” (este resulta sempre) ou a “casta” – neste contexto já envenenado, curiosamente, “casta” equivale sempre a “corja”.
Para além da simplificação mentirosa (“saúde à borla”, p. ex.), apresentam-se as coisas de um modo enviesado, deixando-se na sombra factos que não convêm à pulsão difamatória e persecutória do artigo (situação bem respondida aqui).
Enfim, é um texto, que, na verdade, não trata de um tema – simplesmente, pretende acicatar incautos e açular aqueles que já decidiram de antemão quem são os culpados (há-os sempre, nestes processos, transitados em julgado logo no começo): agora, a corja dos funcionários públicos. Já foram outros. E há sempre pretextos disfarçados de argumentos “factuais” e “objectivos”, claro. Parece que a Direita precisa destas coisas estimulantes.

País cancelado por falta de interesse

Como se .

Uma colossal trapalhada

As a profession we have made a mess of things.

Discurso na recepção do Prémio Nobel: The Pretence of Knowledge. A reler, reler, reler.

Perguntas

Vale a pena ler o artigo do Paulo Pinto de Albuquerque no DN.

Citação montesquieuana do dia

«O governo não pode ser injusto sem ter mãos que cometam as suas injustiças; ora é impossível que essas mãos não sejam empregues para se servirem a elas mesmas.»

Esperança?

O João Gonçalves recomenda esta posta do Pacheco Pereira e saúda-a como um regresso do mesmo aos "grandes posts". Não percebo a razão do entusiasmo. Sobretudo quando leio a última linha da conclusão de um texto sobre o Portugal "empancado". Não que eu não subscreva algumas daquelas observações. Não que eu duvide de que Portugal é um País "empancado". Mas ler que "É difícil viver num país sem esperança", ouvir que este é o grande remate e o grande problema, é demais para mim. Sucumbir a um lugar-comum, de mais a mais sem fundamento para ser comum, não recomenda ninguém.
.
Para quem quiser saber a minha opinião sobre o assunto da "esperança", espreitem aqui (isto foi publicado no i em Março de 2010):

Na retórica política contemporânea, há poucos lugares-comuns mais piegas que o apelo à esperança. Desde que Obama ganhou as eleições, passou a ser invocada por especialistas sérios, comentadores sábios e candidatos a estadistas mobilizadores. Ninguém resiste a diagnosticar que Portugal, na mais miserável das crises, precisa de esperança. É uma espécie de palavra milagrosa que arranca povos à morte e produz vitórias arrebatadoras. Presume-se que quem a não pronuncia com frequência é aliado secreto das trevas e do desespero.
A coitada da esperança tem um passado glorioso. Antes de reclamada para a política, era virtude teologal, indispensável para a salvação da alma. Com o recuo da religião, politizou-se. Nalguns casos com efeito catastrófico, se recordarmos os messianismos políticos do séc. XX. A esperança na Revolução e na terra prometida pelo Líder deixou atrás de si um rasto de trevas.
Mais recentemente, a esperança converteu-se no recurso psicológico por excelência da modesta democracia representativa. Portugal, arrastado pela moda, não fugiu à regra. Sucede que Portugal precisa não de esperança, mas de vitalidade histórica. O país dispensa miragens equivalentes a transes colectivos capazes de levitar os povos acima de problemas e perigos e a ilusão de que se acreditarmos todas as ameaças desaparecerão. O que já não dispensa é energia moral para olhar nos olhos ameaças que pendem sobre si. Não pode prescindir da vitalidade que nos sustenta quando combatemos perigos concretos. Vitalidade histórica é outra expressão para consciência da realidade, pés assentes na terra. Mas é mais que isso. É a força que nos permite ter confiança nos nossos esforços e não desistir diante da grandeza da tarefa. É o derradeiro antídoto contra a decadência.

Memória

Numa época em que tantos sonham outra vez com a Revolução sem terem mudado de inspiração, vale a pena perder os 30 segundos que demora a ler este artigo.

Enemies of the People:

THE Khmer Rouge “Brother Number 2”, Nuon Chea, plays with his grandchildren, watches a broadcast of Saddam Hussein’s execution and dreams of Democratic Kampuchea. For years Pol Pot’s right-hand man has had visits from Thet Sambat, a journalist whose parents and brother died in the genocide. The writer wants to learn why, but does not tell his story, hoping that the taciturn ex-leader will volunteer an explanation. He also tracks down Khuon and Suon, low-level cadres who executed villagers, slit stomachs to eat their gall bladders and buried victims in ditches.
The edgy and often surreal conversations of these men are shown in “Enemies of the People”, a prize-winning documentary made on a shoestring. It has drawn interest from the tribunal that will try Mr Nuon Chea and three other regime leaders next year, and which has tried to subpoena the footage.
The film has two climactic moments. First, when the writer brings the cadres to Mr Nuon Chea, who initially says Cambodians were not responsible for killings and then assures his former underlings: “You did not have any intention, therefore you did not commit any sin”. His hybrid Buddhist-Maoist logic is chilling. “Ours was a clean regime”, he insists. Even now he calls his victims “enemies of the people”, their deaths justified by the revolution. Then the writer reveals (just before Mr Nuon Chea’s arrest) how his family suffered. Brother Number 2 seems moved—he too lost many relatives to a regime which he helped run. Distinctions between victims and perpetrators are blurred in a traumatised country.
Never before have cadres confessed to murder on screen; and never since has this leader spoken frankly of his role. Mr Thet Sambat shows a smiling determination to uncover terrible histories, but says that “I need to stop researching the past.” Others will conclude the opposite.


Economistas e outros seres fabulosos

É verdade. O Estado impossível em que hoje vivemos também foi uma construção teórica (consensual, no essencial) da classe de «cientistas» a que chamamos, com o respeito antes devido aos sacerdotes, economistas. Estão quase todos no poder. Defenderão contra todos os vulcões de evidências os castelos no ar que ajudaram a erguer, quando não foram mesmo os seus principais artífices. O menor dos males que daí advirá será a péssima reputação daquilo a que chamam ciência, que obrigaria à humildade perante os imprevistos da história.

Tão absurdo quanto trágico

Julgamento da Casa Pia em risco de ser anulado.

Recordo aqui o artigo 20.º da Constituição, que prevê o direito fundamental dos cidadãos a uma decisão judicial num prazo razoável. Espero que os juízes desembargadores do Tribunal da Relação de Lisboa tenham o bom senso de fazer prevalecer a Verdade e a Justiça sobre meras formalidades processuais que, cada vez mais, ameaçam de morte o nosso Estado de Direito.

António Feio...

...com Ruy de Carvalho, em O Viajante Sem Bagagem.

Quinta-feira, 29 de Julho de 2010

Sobre Deficits, Black Swans, Ponzi Schemes e outras coisas fabulosas - a ler

What are are potential sources of fragility or danger that you're keeping an eye on?

The massive one is government deficits. As an analogy: You often have planes landing two hours late. In some cases, when you have volcanos, you can land two or three weeks late. How often have you landed two hours early? Never. It's the same with deficits. The errors tend to go one way rather than the other. When I wrote The Black Swan, I realized there was a huge bias in the way people estimate deficits and make forecasts. Typically things costs more, which is chronic. Governments that try to shoot for a surplus hardly ever reach it.

The problem is getting runaway. It's becoming a pure Ponzi scheme. It's very nonlinear: You need more and more debt just to stay where you are. And what broke [convicted financier Bernard] Madoff is going to break governments. They need to find new suckers all the time. And unfortunately the world has run out of suckers.

O resto da entrevista de Nassim Taleb está aqui.

Não exageremos

Ou bem que José Sócrates é "inocente" no caso Freeport, ou bem que Portugal é um "estado de direito". As duas coisas é que não. Por uma razão muito simples. Não é verosímil. Ninguém acredita. Basta que olhemos à nossa volta.

(Des)inspirações

Ao sabor do mote do Fernando, e inspirada pelo (in)contornável Vital Moreira, cujos posts me provocam sempre uma saudável discordância, não resisto a recorrer ao seu mais recente contributo que sob o sugestivo título Território Libertado transcrevo na integra:
”Com a probição das touradas na Catalunha, uma parte da Península Ibérica foi libertada da bárbara e degradante prática da flagelação e morte de animais para gáudio público.”
Fiquei com a certeza que esta “libertação” é mais um “avanço civilizacional”, na lógica de um Peter Singer que escreveu pérolas como esta e que sem dúvida Vital subscreveria:
The influence of the Judeo-Christian insistence on the God-like nature of human beings is nowhere more apparent than in the standard Western doctrine of the sanctity of human life: a doctrine that puts the life of the most hopelessly and irreparably brain damaged human being — of the kind whose level of awareness is not underestimated by the term 'human vegetable' - above the life of a chimpanzee. The sole reason for this strange priority is, of course, the fact that the chimpanzee is not a member of our species, and the human vegetable is biologically human. This doctrine is now starting to be eroded by the acceptance of abortion, which is the killing of a being that is indisputably a member of the human species, and by the questioning of the value of applying all the power of modern medical technology to saving human life in all cases.”

P.S. Não gosto, nem vou a touradas, da mesma forma que não apreciando o trabalho da Ana Vidigal não vou visitar a sua exposição antológica no Centro de Arte Moderna da Gulbenkian.

Citação montesquieuana do dia

«Normalmente, temos a capacidade de transmitir os nossos conhecimentos aos nossos filhos; temos uma capacidade ainda maior de lhes transmitir as nossas paixões.»

Grande Finale 29



O Padrinho, Francis Ford Coppola, 1990

Sai muito caro


De futuro, quem quiser comprar um activo relevante em Portugal (ou de uma empresa portuguesa) mais vale começar por falar logo à cabeça com quem é relevante para o negócio. Está visto que ignorar os poderes fácticos não compensa: sai muito mais caro.

Eles sabem do que falam.

Silly season (I)

Quarta-feira, 28 de Julho de 2010

Até já


A razão que o sangue não pode ter

A Catalunha, depois das Canárias, foi a segunda região autónoma da Espanha a decretar, no parlamento, o fim das touradas. É um acto de civilização que merece ser saudado daqui, por mais que isso custe ao inesperado cavaleiro tauromáquico Paulo Portas e ao seu grupo de forcados.

Sou o primeiro a defender a bravura e a beleza estetética de todo aquele bailado. Há muitas formas de mostrar que se tem cojones, como as largadas de toiros (como as da Terceira). Isto talvez bastasse para contrapor à tonteria de dizer que se não houver toiradas, deixa de haver toiros.

Lembrar que o conservador se pauta sobretudo pela prudência, pela humildade em relação à vida, aos seus mistérios, e ao uso da razão, mormente na esfera política, mas não pela desistência de ponderar a justeza de algo apenas porque é costumeiro. Pacheco Pereira escreveu há uns anos um artigo definitivo sobre o assunto. De como continuar aquilo é aceitar (celebrar) uma certa forma de barbárie. Um espelho da sociedade que o permite.

Todo aquele sangue procede de actos muitas vezes admiráveis dos pontos de vista estético e da sinalização testosterónica (e, pobre coitado, sou capaz de vibrar com eles aqui e acoli), mas o homem que não acautela algumas das suas paixões aproxima-se da minhoca.

Socialismo Ibérico

O inefável Ministro do Fomento do governo espanhol, socialista, pois claro, deu hoje mais um sinal da sua graça. Em plena festa com o seu homólogo português, o inefável Mendonça, por terras de Espanha, e para celebrar as obras do TGV, disse o que lhe ia na sua bela alma: «É a prova de que superámos o obstáculo das eleições em Portugal. Hoje reafirmamos um compromisso com esta linha».
Assim se vê o grande respeito que lhe merece, a ele grande democrata visto que é socialista, essa coisa estranha de eleições que nem sempre produzem o resultado "certo". Assim se vê como para a aliança PS/PSOE não existem assuntos internos do vizinho. Assim se vê como os socialistas ibéricos, sem grande pudor, cantam o que cantam as claques de futebol: «Esta m.... é toda nossa!»
Os respectivos eleitorados que tomem nota, se puderem. É que isto não é deles.

Choque Alegre

Ilegalizamos as "touradas"...

... logo não somos espanhóis. É esta ideia simples, mas nada inconsequente, que justifica a ilegalização das corridas de touros em sessão do parlamento da Catalunha realizada hoje. É verdade que além de uma questão nacional e identitária, ou seja política, que pretende pôr catalães e a Catalunha contra espanhóis e a Espanha, a ilegalização das corridas de touros tem por trás a velha luta (político-ideológica, socio-económica e cultural) que em Portugal, Espanha, sul de França e vários países da América "espanhola" opõe os amigos dos toros aos amigos dos homens, o "tradicional" ao "moderno", o "rural" ao "citadino", os "ricos" e os "pobres" ignaros aos "citadinos" iluminados ou instruídos. No entanto, sejamos francos, vistos os seus custos económicos, a ilegalização das touradas na Catalunha nunca avançaria caso valores mais altos não se levantassem para além da garantia dos direitos dos benditos touros bravos.
Note-se, porém, que enquanto movimento politicamente identitário e nacionalista, a ilegalização das touradas na Catalunha é irónica, para não dizer cínica. E é-o pela simples razão de, no outro lado da fronteira, por todo o sul de França, onde o nacionalismo catalão quotidianamente se alimenta "espiritualmente", as corridas de touros, em diversas modalidades ou estilos, constituírem um forte elemento de identidade cultural e política e uma actividade com alguma relevância económica.
Por fim vale a pena chamar a atenção para o facto de, aparentemente, os amigos dos animais se prestarem, na Catalunha, a desempenhar o papel de idiotas úteis numa ampla frente política anti-espanhola, ou "catalanista", que está a matar a Espanha tal como a conheci em mais de quarenta anos de vida. O papel exemplar desempenhado pelos amigos dos animais ficará aliás selado no dia em que uma Catalunha independente, governada pela pragmática CiU, resgatar as corridas de toros da clandestinidade.
Quadro: Toureiro Morto de Édouard Manet (1864).

Da Série "A Concorrência Faz Melhor"

Coisas giras que se começam a ouvir, do João Miranda. (Copiei o post inteiro porque merece reprodução integral)

«1. A Oi é um activo estratégico de grande importância, um pouco como a insubstituível Vivo o era ainda há 15 dias.

2. Vender a Vivo por 7,5 mil milhões é um grande negócio. Há quinze dias atrás a venda por 7,15 mil milhões era uma asneira tendo em conta o grande potencial da empresa.

3. A Oi é uma empresa de grande potencial. Há 15 dias atrás era uma empresa cheia de problemas cujo potencial não tinha qualquer comparação com o da Vivo.

4. A PT está a vender a Vivo na altura certa. O potencial de crescimento está esgotado. Esgotou-se nos últimos 15 dias.

5. Ser minoritário na Oi não é um problema. Há 15 dias uma posição de controlo da Vivo era essencial.

6. O governo fez muito bem em usar a Golden Share. Conseguiu-se subir o preço e os accionistas privados ganharam. Há 15 dias intervenção estatal era justificada pelo interesse nacional, hoje intervenção estatal é justificada como forma de reforçar o poder de barganha de privados.

7. Se não fosse o uso da Golden Share a PT não tinha entrado na Oi. Non sequitur óbvio. Mas pronto. Há quem acredite nisso.

8. Conseguiu-se vender a Vivo por bom preço e ficar no Brasil. (Falta dizer que a Oi foi cara, o que em parte anula o bom negócio que se fez com a Vivo).

9. Há 15 dias era inaceitável vender a Vivo porque se teria que sair do mercado brasileiro. Entrar noutra empresa seria muito difícil. Ou a Vivo ou o caos. Ao fim de 15 dias trocou-se uma posição de controlo na Vivo por uma minoritária na Oi.

10. E já nem falo nos grandes nacionalistas portugueses, que se contentam com muito pouco. Basta a ilusão de que ser minoritário na Oi é tão bom como controlar a Vivo para os manter felizes. Ficam contentes por mandar menos em menos. Santana Lopes nem se vai lembrar do que disse.»

E não se pode dispensá-los? (Os factos)

Quando eu trabalhava nos jornais havia a piada do editor que berrava: «Não permito que os factos me venham estragar uma boa história; o jornal é para fechar hoje.» Mas o editor é assim sempre tão diferente do comum dos mortais, mesmo dos que trabalham em ciência (tenho em vista essa reserva especial que dá pelo nome de ciências humanas onde cabe a economia e, horror dos horrores, a história também, cuja a única razão de ser é impedir que o que foi não passe duas vezes, uma com o tempo e, uma segunda, da memória para o esquecimento)? Às vezes é muito diferente.

Sondagens: Porquê?Para quem? Para quê?

Para quem ainda liga a sondagens, e com os dados descaradamente surrupiados ao Pedro Magalhães no Margens de Erro, aqui fica por ordem cronológica:
15-20 Jun: Marktest,
Intenções de voto após redistribuição de indecisos (e correcção de brancos e nulos):
PSD: 47,7%
PS: 24,1%
BE: 8,9%
CDS-PP: 6,9%
CDU: 6%
1-6 Julho: Eurosondagem,
Intenção de voto após redistribuição de indecisos:
PSD: 36,2%
PS: 33,7%
CDS-PP: 9,6%
CDU: 8%
BE: 7,7%
8-11 Julho: Euroexpansão,
Após redistribuição de indecisos:
PSD: 41%
PS: 31,7%
BE: 6,5%
CDU: 6,3%
CDS-PP: 3,8%
16-20 Julho: Intercampus,
Após redistribuição de indecisos:
PSD: 39,2%
PS: 34,4%
CDU: 9,5%
BE: 9%
CDS-PP:5,9%

Antes dos mergulhos

Um amigo lembrou-mo, e vale mesmo a pena ouvir a entrevista que Jaime Gama deu a Maria Flor Pedroso na Antena 1, no dia 23. Sobretudo a partir do minuto 17, onde se fala da candidatura de Manuel Alegre, um "candidato vencedor em relação ao seu desejo histórico e ancestral em ser Presidente da República". No que diz respeito à escolha de Alegre como candidato, Gama declara que respeita sempre o partido quando ele decide o melhor, quando não decide o melhor, e quando decide o pior. Maria Flor Pedroso pergunta-lhe qual terá sido o caso do PS nesta matéria. Jaime Gama pede desculpa, mas diz que não pode responder.
Antes de uns mergulhos, contados aos tostões, em Agosto, vale sempre a pena saber que há cabeças que funcionam bem. Ou, como diria Bertie Wooster de Jeeves, cujas meninges estão impecáveis.

Jornalistas zangados com Pedro Passos Coelho. Ainda bem.

Não posso deixar de ler com um sorriso as queixas do Nuno e do Paulo pela reacção da maioria dos jornalistas à proposta de revisão constitucional do PSD. É certo que Pedro Passos Coelho tem sido tratado pela comunicação social com uma bonomia nunca dispensada a outro presidente do PSD (pelo menos na minha memória, que vai até aos inícios de Cavaco Silva). Contudo não se deveria esperar que a nossa comunicação social, politicamente alinhada, esquerdista, disposta a fazer política através dos jornais, rádios e televisões - excepções como as do 'nosso' PPM só confirmam a regra - tivesse mudado radicalmente devido aos esforços meritórios da equipa passista para conquistar também os corações jornalísticos, mudança agradável depois de Manuela Ferreira Leite com a sua hostilidade para com os jornalistas. Os jornalistas deram boa imprensa a Passos Coelho (e ao PSD) enquanto o viram como um sucedâneo de José Sócrates, que nada mudaria neste nosso podre regime socialista. Quando Passos Coelho propôs (bem ou mal, e eu inclino-me para o mal) mudar alguma coisa, mesmo que levemente, os media mostraram-lhe as suas garras. E será sempre assim. Desenganem-se os que pensam que o PSD poderá ter o tratamento deluxe do PS com esta comunicação social. Nada que deva preocupar excessivamente o líder do PSD; PPC é bom comunicador, tem boa imagem e todas as condições para conseguir fazer como Cavaco Silva sempre fez: falar aos portugueses directamente, por cima dos jornalistas. E, para mim, mesmo considerando abstrusa a proposta de revisão constitucional, a zanga dos jornalista com PPC é um bom sinal; algo está muito errado com um líder político querido pela classe profissional que levou Sócrates ao colo para São Bento em 2005, que tanto se indignou com as 'trapalhadas' de Santana Lopes e tanto assobiou para o lado com as bem piores 'trapalhadas' de Sócrates e sus muchachos, que suportou resignadamente e confiante no bem maior todas as pressões sobre a comunicação social, que não poupou esforços para ajudar a reeleger Sócrates em 2009, que trata como credível um ministro das finanças que enganou deliberadamente os eleitores, que viu com normalidade este actual governo de pesos-extra-pluma políticos (chamaram-lhe governo 'técnico' e pronto para a negociação) e que, mesmo depois destes alucinantes dez meses após eleições, ainda tenta dar a Sócrates uns golinhos de oxigénio.

Indignações


Sem querer desculpar esta empresa [é sintomático ter que fazer esta prevenção...], antes de - ou para além de - de se entrar em indignações apressadas, ponto de vista abstracto de um distanciamento "burguês", há que perguntar: o que leva as pessoas a enveredar por aquelas barbaridades? É preciso reflectir sobre as causas. (É assim que se costuma dizer, não é?...)

Consequência ou...?

Perante isto, vão continuar a arrastar-se as convenientes docilidades ou vão começar a ser consequentes?...

Vida para além da VIVO

Telefónica confirma acordo para comprar Vivo à PT.

Espero que desta vez o "patriotismo", o "sentido de Estado" e outras coisas que tais tenham estado tão VIVOs como da primeira.

Terça-feira, 27 de Julho de 2010

"Ficaram evidentes as calúnias, falsidades e injustiças contra o meu nome e o da minha família"

Coitadinho!

O ridículo "acaba sempre por vir ao de cima"

Esta cena é duplamente ridícula - pelo próprio facto do comunicado e pelo seu conteúdo. A prova acabada de que o homem não tem a percepção do lugar que ocupa, nem faz a mais pequena ideia daquilo que dele se espera, investido nesse lugar. Tudo sacrifica aos seus humores mais ou menos birrentos. Há aqui uma derivação da sua vaidade: tudo se reduz à manifestação ou exibição do seu ego ofendido. Num certo sentido, não deixa de haver nisto sinceridade: vemos ali uma criatura vulgar que vem alardear a sua vitória sobre a "calúnia" e o "ataque pessoal", chamando para isso todos os holofotes da praça. Não lhe basta que as dúvidas legais tenham ficado aparentemente sanadas (não haverá ainda incertezas políticas?) - tinha que vir estridente, num misto de lamúria e cântico de vitória, convocar os Portugueses para lhes revelar o seu estado de alma. Alguém ainda se lembra que um primeiro-ministro deve saber manter-se no seu lugar?

A natureza dos judeus

This is the nature of the Jews. By nature, they abhor keeping their commitments. By nature, they hate peace. By nature, they love treachery, betrayal, deception, killing, and blood. This is their nature. Isto podia ter sido dito por José Saramago, mas não foi. Foi dito numa tele-prelecção religiosa no Egipto, recentemente, pelo pregador Hussam Fawzi Jabar.

Se o ridículo matasse não ficaria de pé um só político ou um só soldado israelita, esses especialistas em crueldade, esses doutorados em desprezo que olham o mundo do alto da insolência que é a base da sua educação. Compreendemos melhor o seu deus bíblico quando conhecemos os seus seguidores. Jehová, ou Yahvé, como quer que se lhe chame, é um deus rancoroso e feroz que os israelitas mantêm permanentemente actualizado. Isto, por seu turno, podia ter sido dito, com, talvez, alguns acertos retóricos, pelo pregador supra, se tivesse a grandiloquência do bardo luso. Mas não. É mesmo do bardo.

Hitler was right to say what he said and to do what he did to the Jews. Isto é que o bardo não podia dizer. Só mesmo naquelas paragens é que é moeda corrente. O bardo limitava-se a deplorar que o «ridículo» não matasse. Outros fusos, corolários ajustados às longitudes.

Deus adora portos

Deus falou. Repetidamente, porque, tratando-se de Deus, só pode repetir-se (só diz a Verdade e a Verdade, Irmãos, é só uma), tem de teimar na sua cabeçuda tautologia. Repare-se na cadência da Palavra. Não só conhece os portos (omnisciência), como os adora. Aliás, sempre os adorou (e sempre os adorará, na sua ternura infinda). Gosta de visitar os portos, perora Deus, tocante, tão próximo de nós - mas, se já os conhece, porque gosta de os visitar? Ah é a "atmosfera dos portos", Ele gosta de se deleitar na sua obra, na sua criação (vê-Lo-emos, muitas vezes, a partir de hoje, assombrando o porto de Sines).

Deus parece experienciar aquela tão humana ânsia da partida (e também nós, humanamente, ansiamos pela sua) - a ânsia que se sente à beira dos portos. Aqui, Deus parece hesitar - condescende em aparentar hesitação - é um Deus paradoxalmente humano, grisalho e tudo, que diz 'aah... um... umaa...' -, mas, generoso como só Ele sabe ser, lá nos ensina que os portos, senhores, são "inspiração prà aventura". Temos, portanto, um Deus aventureiro que arrasta todas as suas criaturas nas suas aventuras. E que aventuras temos tido, Irmãos, nestes cinco anos que são uma eternidade!

Agora mais seriamente, Irmãos, assistir a este vídeo da divindade levanta alguns problemas. Será que nos coube um Deus inteiramente imbecil, que não sabe o que dizer, senão inanidades ridículas, numa espécie de vertigem de propaganda idiota que já nem os fins da propaganda serve? Um Deus-abécula? Tal é impossível, Irmãos. Quando, néscios, nos rimos das teofanias "socráticas", mesmo quando os seus anjos-guardiões empurram os jornalistas e, quais Moisés, só conseguimos avistar as costas de Deus, mesmo aí, revelamos somente a nossa humana e mundanal pequenez. Não esqueçamos que o que para nós é loucura, para Ele é sapiência, o que para nós é pequeno, é, para Ele, Grandeza, o que para nós é aldrabice, para Ele constitui a mais pura das verdades, o que, para o nosso olhar, é má-criação, para Ele é vivacidade democrática, o que para nós é teimosia irracional, é, para Ele, determinação e, aquilo que, aos nossos pobres olhos, não passa de incompetência, é, para o Senhor, qualidade da governação.

Uma questão de relações públicas

A divulgação de documentos secretos da guerra do Afeganistão trouxeram de novo os holofotes mediáticos para esta guerra. Quem segue pela imprensa a situação no Afeganistão, não pode ter ficado surpreendido pelos factos que são revelados. Que há elementos dos serviços secretos paquistaneses suspeitos de agirem em prol dos Talibãs? Qual a novidade? Que tem havido vítimas de inocentes deste conflito? Qual a guerra que não produz danos colaterais? A guerra evoluiu muito desde a WWII, e hoje em dia já não se vêm bombardeamentos de cidades, como aconteceu em toda a Alemanha, por exemplo. No entanto, continuam a haver vidas inocentes que perecem em cenários de guerra. Infelizmente. A outra suposta novidade é que o exército americano tem grupos especializados em perseguir, prender e assassinar líderes terroristas. Mas alguém honestamente não sabia disto? Já ouviram falar, por exemplo nos ataques com Drones, que até têm sido bastante publicitados na imprensa internacional?

Mas a divulgação destes documentos secretos acarreta problemas para a guerra no Afeganistão. A reacção da Casa Branca não deixa margem para dúvidas. Numa altura em que a situação no terreno não é a melhor, trazer para a opinião pública estes dados lança uma nuvem sobre a condução da mesma, podendo aumentar a pressão da opinião pública para uma retirada. Além dos danos que podem causar aos governos europeus ainda com tropas no Afeganistão. E nunca é bom para os militares terem facções anti-guerra a acusá-los de terem cometido crimes de guerra. Mesmo que tal não tenha sucedido. O problema da divulgação destes documentos secretos, mesmo que não tragam grandes novidades, é precisamente contribuir para aumentar as dúvidas das populações.

Por fim há uma pergunta que todos podem fazer: os aliados, mas também os inimigos dos Estados Unidos: como é possível que milhares de documentos secretos apareçam desta forma? Estão assim tão vulneráveis?

Coincidências?

No dia em que se cumprem 40 anos sobre a morte de Oliveira Salazar, tudo indica que um braço do Ministério Público irá divulgar uma nota em que informará que a investigação do caso Freeport levará a julgamento dois arguidos: os srs. Manuel Pedro e Charles Smith. Pode parecer ironia, pode parecer que uma coisa não tem a ver com a outra.

Usar o ouro como colateral

Tal como o Jorge Costa já chamou a atenção aqui, o IGCP prepara-se para ceder colateral nas suas operações de derivados, por razões que não são ainda inteiramente claras: estão a ser forçados a isso ou estão a antecipar-se ao mercado?

De qualquer forma coloca-se o problema de qual o colateral o IGCP vai ceder e como o vai obter. Como já tinha sido sugerido na peça inicial, o ouro parece ser um colateral interessante e sucede que o Banco de Portugal (BdP) ainda mantém um valor apreciável deste activo. O Estado poderia pedir ouro emprestado ao nosso banco central, sem a necessidade de prestar colateral, porque até seria muito estranho o BdP exigi-lo, logo após os testes de stress dos bancos terem deixado de fora a hipótese de incumprimento das dívidas soberanas.

Este empréstimo seria uma violação dos tratados europeus, mas menos grave do que a compra de dívida soberana pelo BCE, dado que o ouro não é moeda como a que o BCE pagou os títulos e o BdP não tem capacidade de criar moeda. Para além disso, se houve outra violação dos tratados com a ajuda à Grécia, neste caso a violação também é menos grave, dado que se trata de um activo português, o ouro (aliás em última análise propriedade do Estado português), que seria emprestado ao Estado português. Não há aqui nenhum bail out de outros estados membros do euro a Portugal.

Contra o pessimismo

"Um travão ao crescimento".
Não. Rejubilai, patriotas, estais acaso esquecidos que, nas imorredoiras palavras do "príncipe da democracia", o primeiro-ministro, mais do que nosso Pai, é Deus omnipresente? Ora, não é verdade que Ele, José Sócrates, sendo o Bem da Nação e estando prodigiosamente em todo o lado, zelando por nós (quantas vezes ingratos, Senhor!), não é verdade que criou, ex nihilo, as maravilhosas Novas Oportunidades?
Assim, patriotas-crentes-optimistas-camaradas, a batalha da "qualificação" do "stock de capital humano" está ganha! Fechai os vossos ingénuos ouvidos ao pessimismo bota-abaixista dos cães infiéis que de tudo desconfiam, nada constroem e nem sequer servem para fechar escolas. É gente que não crê no Senhor. É gente incapaz de grandeza (aos 2:08). É gente que morde a mão que a alimenta.

O "príncipe" tem razão: Ele está, de facto, "em todo o lado". A lançar pedras disto e daquilo, ou, com o longo braço, quando não está a lançar pedras, a encerrar escolas, quando não está a encerrar, a esbracejar, a berrar urbi et orbi as maravilhas incomparáveis da sua governação e, de dedinho espetado, a denunciar as aleivosias dos outros, acusando-os de praticar aquilo que ele mesmo faz com zelo de recém-convertido. É difícil não o ouvir ou ver, sempre agitado, atrás dos seus amados microfones e diante dos seus cenários de vendilhão de feira, a derramar a sua inaturável demagogia. Irra, que Deus ainda não está morto! Sufoco insuportável. Resta-nos o ateísmo praticante.

Lusitânia

Os que avançam de frente para o mar e nele enterram, como uma faca aguda, a proa negra dos seus barcos, vivem de pouco pão e de luar.

Sophia de Mello Breyner Andersen

Alerta laranja (ou vermelho?)

A notícia foi dada aqui.

O Instituto de Gestão da Tesouraria e do Crédito Público (IGCP) prepara-se para se tornar no primeiro grande utilizador soberano de derivados de obrigações [neste caso, a referência é especialmente feita aos CDS, ou seja, instrumentos que protegem contra o risco das emissões de dívida] a vergar-se à pressão dos mercados e a concordar na colaterlização bilateral [no momento da contratação dos derivados]. A mudança significa que o IGCP vai começar a oferecer activos às suas contrapartes quando o valor de mercado se deteriora, para mitigar o risco de incumprimento português.

Matéria tecnicamente complexa. Aqui fica o comentário no Financial Times (FT Alphaville). Extraímos a seguinte observação:

(...) let’s just note that Portugal is one of the weaker sovereign credits out there. It may simply be that it cracked first.

The latest wikileak

Afghan War Diary, 2004-2010

Segunda-feira, 26 de Julho de 2010

John Cale - Dying On The Vine

Conversa de café

(Foto Ricardo Oliveira - GPM)

No café, passa um noticiário televisivo e vê-se o Primeiro na sua segunda versão favorita, sem powerpoint, mas em fato de inauguração, no caso de uma Unidade de Saúde Familiar, em Barcelos por sinal. E fica o registo do comentário pronto do empregado de mesa, audível por todos os presentes: "-Havias era de ir às que estão a fechar!..."

Não percebe, claro está, que encerrar uma unidade ou valência não dá o mesmo pretexto e enquadramento para criticar a lógica dos "serviços mínimos de Saúde" que se sugere ser a matriz de outros que, supostamente, não se está a criticar...

Grande Finale (28)

Macbeth, Roman Polanski, 1971

O melhor da ilha

Letters to the FT, July 24/25 2010

1. Better to resist that third Martini
Sir,
In "A date with a Mad Man", her profile of Jerry Della Femina, the former Madison Avenue copywriter, Katie Roiphe begins: "If I were truly dedicated to my research and had consumed three martinis over lunch, I'm pretty sure the room would be spinning." (FT Magazine, July 17).
The American humorist Dorothy Parker envisaged the next step:
I like to have a martini,
Two at the very most,
After three I'm under the table,
After four I'm under my host.
Journalistic dedication should be taken only so far - and no further!
(Jeremy Archer, London)

2. Far-fetched comparisons with Tolstoi
Sir,
Your reviewer Simon Schama was plainly in ectasy over The Invisible Bridge, Julie Orringer's novel about Hungarian Jews during the second world war ("Life fiercely felt", Life & Arts, July 17-18), and naturally one grants him his literally pleasures.
But comparing the work of a thirtysomething literay ambitionist from Brooklyn with that of Tolstoi did seem (I hope I get this Briticism right) a bit rich.
(Paul Reidinger, CA, US)

3. No more 'Not tonight, darling'
Sir,
The recent takeover of the manufacturers of Durex by the manufacturers of Nurofen has to be one of the better examples of vertical integration we have seen for some while.
(Duncan Moir, London)

Também se publicam cartas sobre coisas menos sérias, naturalmente.

Ragabofe forever (a luta de classes não existe)

«Patrões» e «sindicatos» querem:

1. Mais tempo para corrigir o défice (como, que se consiga ver, não houve ainda correcção nenhuma, pergunta-se: a começar quando e acabar quando?);
2. Mais dinheiro da Europa («mais recursos próprios no orçamento comunitário» e, claro, «mais coordenação económica e orçamental na Europa»);
3. Taxas de juro mais baixas no Banco Central (0%? -1%?).

Poluição ideológica

É triste perceber a campanha de intoxicação ideológica que o PS tem feito, com a cumplicidade de alguns comentadores e jornalistas de esquerda, contra o projecto de revisão constitucional do PSD. Veja-se, por exemplo, esta entrevista no Público de hoje ao Ministro da Justiça (que devia ser mais reservado e prudente pelo cargo institucional que ocupa) ou este demagógico episódio a que aqui faço referência. Em vez de discutir a bondade das propostas, é mais fácil (e pelos vistos eficaz) rotular ou classificar, por vezes de forma retorcida, as ideias dos outros. A estratégia visa afastar as atenções e esconder o esgotamento do espaço socialista perante a crise em que vivemos. Sobre isto vale a pena ler o excelente texto de Zita Seabra no JN de ontem:

Novas do maravilhoso mundo "socrático"

Apreciem o prodígio, ó patriotas angustiados com a "coisa pública"!
Para se convencerem, podem sempre garantir, asseverar, afiançar que se trata de "dar às crianças as melhores condições", "socializá-las"[!], "combater o insucesso" e tal - mas, para dar convicção à coisa, digam-no esbugalhando muito os olhos e sorrindo (Isabel Alçada), clamando pròs microfones, com o bracinho direito e mão em concha, batendo um ritmo de gosto duvidoso (José Sócrates, versão 1) ou bufando e dando patadas enfurecidas com a injustiça dos incréus (José Sócrates, versão 2).
Era "racionalizar", não era?... Sócrates e a sua tropa conseguem a proeza (involuntariamente, claro) de dar um sentido desgraçadamente irónico àquele verbo.

QED


A reacção dos mercados aos resultados dos testes (?) de stress (?) à banca europeia produz efeitos impressionantes.

As taxas Euribor voltaram hoje a subir em todos os prazos. O indexante a 3 meses foi o que mais cresceu.

Combate de Blogues - 16º


Com o convidado Bacelar Gouveia.

Sombras de Maquiavel

Marie Gaille-Nikodimov, Maquiavel, Edições 70, 2008

É habitual dizer-se dos grandes autores que eles são inesgotáveis. Esta observação assenta que nem uma luva a Nicolau Maquiavel, o grande pensador político florentino do século XVI. Em certa medida, podemos dizer que a observação aplica-se mais a Maquiavel do que à grande maioria dos pensadores. Afinal, é provável que não haja um outro exemplo tão manifesto de alguém cujo pensamento tenha sido sujeito a tantas interpretações diferentes e a tantas interpretações contraditórias. Os seus rivais mais óbvios na corrida a este título duvidoso – Platão, Hegel, Rousseau, por exemplo – não chegam a ameaçar a posição cimeira. Basta pensar nas diferentes teses que sucessivamente, desde meados do século XVI, foram sendo avançadas a propósito de Maquiavel.

Mandam os textos e o horror à banalidade que se ignorem as visões mais vulgares que descrevem um Maquiavel demasiado preso às suas circunstâncias históricas e aos preconceitos inevitáveis de que não se soube libertar, ou um outro Maquiavel de bata branca e óculos na ponta do nariz, que cuidadosamente desinfecta as mãos dos lamacentos “juízos de valor” quando entra no seu laboratório imaculado onde só os “factos” imperam. Sendo assim, mais vale notar que ao longo da história da Europa já tivemos um Maquiavel pio e cristão, um outro ateu e ainda um outro diabólico, um verdadeiro génio do mal, como o nosso D. Jerónimo Osório não deixou de apontar. Já tivemos um Maquiavel patrono dos tiranos, como Innocent Gentillet ainda no século XVI revelava ao descobrir a associação entre o imoralismo e o poder absoluto e tirânico, lição que, de resto, seria reactualizada por Jacques Maritain no século XX. Foi perante o abismo do totalitarismo da nossa era, perante a aberração da idolatria do Estado e confrontado com as extraordinárias ameaças à dignidade humana, enfim foi diante do triunfo momentâneo de uma espécie de niilismo ultra-violento, que Maritain fez o seu apelo dramático ao fim de todas as formas de “maquiavelismo”.

Maritain sabia do que estava a falar. Afinal, o fascismo italiano não se coibiu de, pela voz de Mario Piazzesi, reclamar Maquiavel como um dos “nossos”. Sabe-se igualmente que Mussolini redigiu um prefácio admirador de uma edição italiana d’O Príncipe. Como se isso não bastasse, não se desconsiderou a hipótese anacrónica de Maquiavel ser um apoiante longínquo da revolução proletária inspirada nos ditames do marxismo-leninismo, o que acabou por custar caro a Kamenev quando enfrentou a fúria dos juízes-fantoches de Estaline. Porém, a via mais sofisticada viria da pena sofisticada de Antonio Gramsci, que converteu o Príncipe das páginas de Maquiavel nessa grande agência colectiva fazedora de progresso e de revolução chamada Partido, com ‘P’ maiúsculo porque o que é único e divino não pode ter outro início.

Mas também já nos foi apresentado um Maquiavel porta-estandarte da democracia e da liberdade, um Maquiavel inimigo do privilégio e da desigualdade; e se é verdade que teve de disfarçar as suas convicções dada a hostilidade dos tempos, nem por isso eram essas convicções menos autênticas. Em suma, que longe de ser um patrono dos tiranos, Maquiavel foi sempre um dos seus mais ferozes inimigos. Leitores tão atentos como Espinosa ou Rousseau apostaram tudo nesta hipótese. Mais tarde chegou o tempo dos nacionalismos, e sobretudo o Risorgimento italiano. Maquiavel seria rapidamente recrutado por Francesco de Sanctis – e pelo seu discípulo Pasquale Villari – para a causa patriótica que tinha um objectivo político determinado: a unificação da Itália, tal como aparentemente se propõe no último capítulo d’O Príncipe. Neste contexto, Maquiavel, em rigor, deixava de ser um pensador malévolo ou benévolo, para ascender ao estatuto de herói ou de profeta. Foi por essa razão que De Sanctis, um pacato professor universitário, um historiador da literatura, pôde escrever gritos tão entusiasmados como “Viva a unidade italiana! Glória a Maquiavel!”.

Doravante, o patriotismo de Maquiavel não ficaria esquecido, apesar de não ser inteiramente claro se a sua pátria era a grande Itália ou a mais pequena Florença. Assim, quando Maquiavel, noutras épocas, renascesse para uma nova vida republicana ou “neo-romana”, colocar-se-ia no centro do seu “republicanismo cívico” uma concepção activa e fervorosa de cidadania que teria como substrato um intenso e autêntico patriotismo. Em certa medida, diriam estes recentes intérpretes, a teoria política de Maquiavel não era mais do que uma proposta de um modelo de cidadania patriótica, e simultaneamente de uma teoria da liberdade. Nos nossos dias, esta tese foi espalhada com fulgor pelos quatro cantos do mundo a partir de um foco central situado lá para as bandas inglesas de Cambridge.

Algumas décadas antes, alguns alemães que procuravam a origem ou a paternidade da ideia de raison d’État viram em Maquiavel o progenitor desejado. A Realpolitik, o poder, a concepção moderna de Estado, e sobretudo o horizonte frio onde estas noções figuravam, acabariam por ficar associadas ao nome de Maquiavel. No entanto, também já conhecemos um Maquiavel filósofo, no sentido mais profundo da palavra, que, como sugere Christopher Marlowe, proclama que “não existe outro pecado além da ignorância”; um Maquiavel que exige que a sua pretensão de se equiparar e superiorizar a Cristóvão Colombo seja tomada como primeiro princípio de leitura, e cujo continente anunciado à humanidade não é do espaço, mas do tempo, do que veio a seguir.

O livro de Marie Gaille-Nikodimov tem o mérito de não partir do princípio de que Maquiavel corresponde a um destes retratos pré-definidos. A autora procura o “verdadeiro” Maquiavel. Talvez por isso combine o método biográfico com o método analítico. Essa combinação traz indubitáveis benefícios desde que não se permita que a biografia domine a teoria, nem que a teoria domine a biografia; caso contrário, acarretará sobretudo desvantagens. O tratamento biográfico é admiravelmente conciso, informativo e rigoroso; a contextualização histórica da vida de Maquiavel nas agruras internacionais do espaço italiano merece os mesmos adjectivos. Mas, ao se estudar o pensamento de Maquiavel, por vezes a concisão pode ser inimiga do rigor.

Os dois aspectos que o livro pretende abranger – a vida e a obra de Maquiavel – encontram-se mais estreitamente ligados quando são focadas as relações do autor florentino com os seus contemporâneos mais famosos: Leonardo da Vinci, Savonarola, Soderini, Leão X, Júlio II, Francesco Guicciardini ou César Bórgia. É que em Maquiavel algumas destas personagens tornam-se objectos de reflexão teórica: ou como exemplares de uma inclinação humana, ou como tipificações dos dilemas políticos. No caso de César Bórgia isso é particularmente notório. Para percebermos o que Maquiavel pensou de César Bórgia é muito útil conhecer o registo histórico; mas é ainda mais importante dominar as subtilezas do discurso maquiavélico. Se essa proficiência estivesse perfeitamente equilibrada no livro de Gaille-Nikodimov, não se leria aí que Bórgia foi “apresentado em O Príncipe como o único homem capaz de libertar a Itália dos bárbaros” (p. 80) nem que “o comportamento de César Bórgia é realçado como um verdadeiro modelo” (p. 81). Podemos estender esta crítica ao tratamento que é dado a conceitos centrais do pensamento de Maquiavel como a fortuna, por exemplo. Não é por sobrarem mais vestígios históricos (cartas, discursos, episódios quotidianos) da famosa comparação da fortuna a um rio que se pode concluir que “a metáfora da corrente furiosa é privilegiada em detrimento das outras” (p. 101). Afinal, n’O Príncipe, a última palavra – literalmente falando – de Maquiavel sobre o assunto indica que a fortuna deve ser vista como uma mulher.

Nada disto, porém, deprecia um livro que procura ser cuidadoso, reflectido, meticuloso, atento às realidades políticas e literárias do glorioso Renascimento italiano. Com efeito, trata-se de um excelente guia para quem começa a ler Maquiavel ou para quem quer compreender as condições históricas em que ele viveu, agiu e pensou. Além disso, também as páginas de Maquiavel nos fazem respirar o “ar fino e seco” de Florença.

Domingo, 25 de Julho de 2010

Ainda sobre a brincadeira (perigosa) dos testes de stress à banca

A supervisão

If you tried to test the safety of cars or children’s toys using the same method the European Union applied in its stress tests on banks, you would end up in jail.

(...)

Expectations were not very high. But the EU undershot the lowest of them.

Wolfgang Münchau*, aqui.

*Para os não familiarizados, Münchau é um dos principais comentadores do Financial Times, desde sempre um fervoroso amante da ideia de Europa, União Monetária, etc. Hoje, tem dúvidas sobre o seu futuro, como qualquer ser que não habita na galáxia Andrómeda, embora as expectativas que de vez em quando parece sugerir que tem em relação à viabilidade dos países do Sul dentro do euro, supondo que, rompendo todas as tradições, vão passar a auto-governar-se como nunca o fizeram, faça crer, nesses assomos, que não é deste planeta. Mas nem o mais sóbrio analista alemão é imune ao viés cultural. Entre nós, de costume, a variedade local desta gente optimista tem por hábito acabar arbitrariamente qualquer conversa séria com a afirmação peremptória de que temos é de «mudar as mentalidades».

Nota: quem abrir neste momento (21h28, 25 de Julho de 2010) a página on-line do Jornal de Negócios (Silva Lopes, Costa Pina, Sócrates, Ulrich, Santos Ferreira, Salgado e o resto que nem vale a pena nomear), exalçando os testes, sem um comentário, pergunta-se se aquilo é esquizofrenia, ou simples incompetência editorial.

Passos pede reunião urgente por causa das contas públicas

Pelos vistos, com alguns dias de atraso na reacção, Pedro Passos Coelho mandou às urtigas a «posição técnica» do seu fantástico conselheiro económico, e pede reunião urgente para o Governo explicar o mau desempenho das contas públicas.

Discos que giram ao domingo (9)


Laia - Viva Jesus e mais alguém

Ano: 2009
Origem: Portugal (Lisboa)
Género: post-rock



Cavaco muito à frente

Foi publicada uma sondagem que dá quase 60% das intenções de voto a Cavaco Silva, contra os 26% do poeta Alegre e 9% de Fernando Nobre. Ao contrário da narrativa que tem sido construída pelos media, com contribuições de opinion makers de esquerda e direita, afinal a vitória de Cavaco poderá ser mais fácil do que se pensa (Jorge Sampaio foi eleito com 55%). E estes números surgem quando Manuel Alegre e Fernando Nobre já andam em campanha, e depois das polémicas (artificiais) sobre funeral de Saramago e do casamento gay. Nem os candidatos nem as polémicas parecem afectar Cavaco Silva e as suas perspectivas de reeleição. Contra a vontade de muito boa gente que escreve e opina nos meios de comunicação social.

Annus horribilis (v)

Este gráfico da evolução da rendibilidade das Obrigações do Tesouro (OT) portuguesas a 10 anos, consideradas a referência do risco (e do custo) associado ao crédito de longo prazo a uma economia (o Estado, no tempo em que podia imprimir dinheiro, era, em teoria, não na prática, insusceptível de falir, sendo o agente económico mais seguro...), é um desenho do momento da crise em que nos encontramos. Primeiro, a explosão de risco desde o início de Janeiro, com a curva a subir vertiginosamente e atingir máximos desde a entrada no euro, mas também a oscilar com amplitudes impressionantes. Veja-se a correcção logo a seguir a 10 de Maio, depois de um pico em alta, e o sintoma do fracasso, em termos de restabelecimento da confiança dos mercados, imediatamente a seguir ao pacote UE/FMI, com as OT a regressarem para a proximidade do patamar estratosférico anterior, bem acima dos níveis de risco no auge da primeira fase da crise actual, desencadeada pelo sub-prime.

Seguro que, sem o pacote, Portugal teria falido em Maio. De lá para cá, a intervenção da banca/BCE na compra de OT não tem conseguido inteiramente estancar a tendência. Com a volatilidade existente, uma má notícia pode desencadear um tufão (sem regresso). Vive-se na corda bamba e talvez até nem fosse descabido que os líderes partidários com responsabilidades - estou, obviamente, a excluir o que está à esquerda do PS - levassem em conta tal facto nos seus luminosos jogos de táctica (a grande vocação da política em Portugal). O problema, porém, complica-se: a ausência de boas notícias será sempre tratada, face ao estado de coisas, como uma má notícia.

O gráfico procede deste site, muito bom em termos de informação sintética e comparativa para o retrato do estado e história recente da economia e da sociedade portuguesas. Recomenda-se. Veja-se, em particular, aqui, como Portugal é o segundo país, dos 39 seguidos, com maior subida anual (134 pontos de base) na rendibilidade das obrigações (juro associado ao financiamento), logo depois da Grécia. É interessante notar que nem todos os PIIGS estão na mesma situação: a Itália e a Irlanda, ao contrário de Grécia, Portugal e Espanha, estão ainda num patamar inferior aos valores de há um ano atrás.

Um mundo muito estranho



Notícias destas, fazem-me pensar que o mundo, o mundo todo não está lá muito bem. Aqui, leio sobre a indignação de nova-iorquinos, e certamente muitos americanos, em relação ao projecto de construção de uma mega-mesquita na proximidade do Ground Zero, no edifício da Burlington Coat Factory, destruído também ele depois de ter sido danificado pelo embate de restos de fuselagem de um dos aviões que se atirou ao World Trade Center. Leio, inclusive, sobre as ligações entre Daisy Kahn e o imã Feisal Abdul Rauf, seu marido, eles os dois promotores do projecto, a grupos radicais islâmicos. Aqui ouço, enfim, Daisy Kahn. Ouço uma vez. Ouço outra. E outra. Sobre o simbolismo de construir uma mesquita a dois quarteirões do local da tragédia. Ouço-a falar da mão de Deus, no projecto. E sobre a forte mensagem que a construção da mesquita transmitirá aos extremistas que mataram 2751 pessoas. Em nome de uma visão do Islão, convém lembrar: a visão que promove, com o terror, a ideia de que o mundo será do Islão. E penso que o mundo, ou partes consideráveis dele, está muito doente.