Quarta-feira, 30 de Junho de 2010

União

O sonho «federalista»: transformar Portugal no sítio onde vivem os europeus (?) de etnia portuguesa. Com os seus costumes, toleráveis até um certo ponto, a sua língua exótica, a sua culinária, o seu folclore (entediante, mas curioso), a sua cultura em geral (a cultura é um assunto muito interessante), e as suas elites sobrantes, minúsculas, mas espantosamente poliglotas, cosmopolitas e viajadas.

Argentina

Compreendo as razões (sem dúvida muito fortes) invocadas pelo PPM no seu apoio ao Paraguai. E espero que a selecção de Cardozo elimine a Espanha, especialmente depois da promessa feita pela nova musa paraguaia. Mas neste campeonato do mundo, a minha selecção é a Argentina. Messi, mais do que qualquer outro jogador, merece o título mundial.

Ponto de ordem

A utilização pelo Governo da golden share tem causado uma histeria colectiva.

Antes de se rasgarem vestes convém não esquecer que:

- A golden share tem mais de 15 anos e foi instituída no tempo em que Cavaco Silva era Primeiro Ministro.
- O Governo de Guterres pôde mas não quis acabar com a golden ghare;
- O Governo de Durão Barroso pôde mas não quis acabar com a golden ghare;
- O Governo de Santana Lopes pôde mas não quis acabar com a golden ghare;
- Nas ultimas eleições legislativas nenhum dos três partidos do arco da governabilidade propôs terminar com a golden share.
- Os accionistas da PT sabem da existência de uma golden share.

«Loucura colonial»

Será que estamos condenados a entrar nos lugares centrais dos grandes órgãos de comunicação mundiais apenas quando o Governo faz m**** total? Alguém me explica como é que qualquer investidor em qualquer parte do mundo pode confiar numa espelunca assim? Para a horda que nos governa não há amanhã? Nem bom nome que valha a pena defender? E anda aquele indivíduo com a palavra «confiança» pregada aos beiços...

Tunhas chamado ao Cachimbo

Vale a pena ler mais um excelente texto de Paulo Tunhas no i, concorde-se ou não com todas as conclusões: "O primeiro-ministro, que se sente sozinho na tarefa de 'puxar pelo país', como confessou, crê que o seu único destino neste mundo é 'criar confiança'. Uma crença estranha, já que a possibilidade de 'criar confiança' repousa sobre dois alicerces. Primeiro, dizer a verdade sobre a situação em que vivemos. E, como se sabe, essa não é a especialidade de Sócrates." Se me é permitida uma recomendação, há que forçar o Paulo Tunhas a escrever aqui pelo menos um texto todas as semanas.

PS: Caro Fernando Martins, vejo que concordamos quanto ao Paraguai e aceito que as razões que apresentas sejam melhores que a minha...

Por Larissa? Não. Por Paco González.

Eliminada a selecção portuguesa do Mundial 2010, o Miguel Morgado faz aqui no Cachimbo juras de amor à Espanha, enquanto que o Paulo Pinto Mascarenhas, no seu abc, insinua (?) que por causa do "carisma" de Larissa Riquelme o apoio ao Paraguai tem toda a razão de ser. Não podia estar mais de acordo. Porque não desdenho a Larissa (era o que faltava), porque tenho um lado anti-espanhol, porque as restantes selecções não me aquecem nem me arrefecem, mas, sobretudo, por causa de Paco González. Jogador dos Belenenses no início da década de 1970, Paco González, internacional pelo Paraguai, foi o melhor jogador de futebol ao serviço do Belém que alguma vez vi actuar num relvado. Esquerdino, goleador, baixo, rápido, forte, finta rápida, fortes traços índios no rosto, foi vendido, com o central Freitas, ao Futebol Clube do Porto. Mais tarde regressou ao Restelo depois de ter ganho algum dinheiro na Invicta mas sem quase nunca ali ter jogado ao serviço da equipa principal. Pelo prazer que me deu ver Paco González jogar à bola, mais do que por Larissa Riquelme, gostava de ver o Paraguai nas meias-finais do Mundial.

Cachimbos


















[Um jovem soldado, com a espada apoiada ao ombro, acende o seu cachimbo com uma vela. Quadro de Hendrick Terbrugghen (1588-1629), datado de 1617]

Depois da minha primeira entrada n' O Cachimbo de Magritte, não queria deixar de agradecer o convite para fazer parte deste colectivo de individualidades e as simpáticas palavras de recepção do meu amigo Miguel Morgado. É uma honra escrever ao vosso lado.

Educação sexual?













[Fotografia de um dos kits vendidos nas escolas portuguesas pela APF]


No dia 9 de Junho escrevi e editei uma notícia no i sobre a introdução da Educação Sexual como matéria obrigatória nas escolas portuguesas. Fui, como aliás esperava, alvo da intolerância histérica da habitual brigada dos costumes que por aí anda nos blogues e nos jornais. Com a entrada em vigor da regulamentação da Lei 60/2009, a Educação Sexual passou a ser obrigatória nas escolas, através das disciplinas curriculares e não-curriculares, de um "modo transversal" - uma expressão sintomática. Tendo em conta que a maioria dos professores receberam formação da famosa Associação para o Planeamento da Família (APF), com os seus kits modernos e os seus pénis de esferovite a serem distribuídos massivamente, a Educação Sexual será leccionada de um modo no mínimo discutível.

Em boa hora, o Correio da Manhã voltou ao tema - e as ondas de choque sentiram-se com maior intensidade. Hoje, por exemplo, Francisco José Viegas escreve o óbvio: o Ministério da Educação e a APF querem tratar as crianças - os meus e os vossos filhos - "como se fossem propriedade de um Estado moderninho e fracturante". É a liberdade que está em causa: não tenho qualquer objecção a que os pais que assim o entenderem permitam que os seus filhos participem no plano de Educação Sexual. O que me repugna é que queiram também obrigar as minhas filhas a serem "educadas" de acordo com as normas politicamente correctas do Estado e da APF.

Como escreve FJV, "outro dia, um papagaio profissional" dizia "que ninguém tem o direito de recusar a educação sexual. Não faltava mais nada." Mas já faltou mais.

Sócrates Telecom

Dois pontos a reter da Assembleia Geral da PT.
Afinal o bloco português, que detinha 27%, ficou reduzido a 15%. Se descontarmos a CGD e a Parpublica o bloco português que resistiu ronda os 6%. O que significa que BES votou a favor da venda.
Por outro lado esta votação vem demonstrar que o Conselho de Administração, que tomou posição contra a venda, apenas teve a confiança de 15% dos accionistas.
(corrigido)

Vitória(?) dos burocratas sobre a língua

A coisa alastra para a Escola. É natural. Prossegue e aprofunda a perversora degradação que se vem, paulatinamente, instalando.

Adjetivo - ativo - ato - atuação - espetáculo - espetador - aspeto - detetar - redação - correto - fatura - olfato - colecionar - conjetura - caráter - fação - conceção - perceção - sução - ...

Aquelas são palavras mutiladas. (Há sempre, para defender estas coisas, argumentos que, na verdade, não passam de míseros pretextos.)
Também há um valor estético na grafia, na ortografia. É pena que pessoas, incapazes de reconhecerem esse valor, ou indiferentes a ele, pura e simplesmente cortem a possibilidade dos outros virem a apreciá-lo, a saboreá-lo. A castração estética começa desde logo na e pela Escola, insidiosamente, no meio invisível da própria língua.
Que alternativa, senão ir resistindo à coisa? Recusar a mutilação. Com todas as letras.

Portugal, segundo Luciano Amaral

Vale a pena ler - eu diria que é imprescindível ler - a Economia Portuguesa, as últimas décadas, de Luciano Amaral. E vale a pena ler, porque os problemas nacionais, que a crise de dívida veio expor à luz, não podem ser debatidos com proveito, se não forem colocados no horizonte temporal em que se construíram, que é o horizonte de sucessivas e coerentes opções políticas incidentes sobre o quadro institucional da democracia. De acordo com o autor, postas em perspectiva, elas desenham os dinamismos próprios, os limites e os impasses do regime em que vivemos no pós-25 de Abril. Esta crise não é, em suma, como as outras, e conviria que percebêssemos porquê, para que percebêssemos os seus «enjeux», aquilo que está em jogo e, no fundo, o que é o regime.

O efeito dessa leitura em profundidade dos acontecimentos é profilático, a vários títulos: ajuda-nos, antes do mais, a mitigarmos a cegueira própria das inclinações partidárias e dos afectos ideológicos, cujo resultado é sempre a reiteração do mesmo, circularmente, em petição de princípio, e a ensaiar a abordagem dos problemas a partir das «coisas mesmas». Não vou discutir os problemas complexos de hermenêutica na escrita da história. Serve isto, antes, para dizer, que, se mais méritos o livro de Luciano Amaral não tivesse, bastaria o de ter elevado o debate dos problemas para o ponto em que uma outra perspectiva menos dramática da situação em que nos encontramos, talvez recusando a radicalidade da do historiador, vai obrigar a escrever outra história destas últimas três décadas, pelo menos tão bem fundamentada como esta. Não é exactamente a ideia de que, contra factos, não há argumentos. É antes a de que, para melhor argumento do que este, vai ser necessário organizar de forma pelo menos tão persuasiva os factos que se trata de compreender. É obra.

Não tenho, no momento em que escrevo, a auto-biografia de Cavaco Silva à mão. Mas, como já aqui lembrei, ele considera que a reforma das reformas dos seus governos foi a adesão de Portugal ao sistema monetário europeu, em 1992. Num certo sentido, que nada tem a ver com a causalidade mecânica alheia aos assuntos humanos, também Luciano Amaral sugere que tudo o que precedeu esse ano, e não apenas o intervalo rigidamente anti-inflacionario que vai de 1990 a 1992, o prepara; e tudo o que sucedeu, depois, dele decorre. De modo que 1992, ano também do Tratado de Maastricht, de que Portugal foi signatário, é o ano axial da história económica da democracia. «A partir de 1990-1992 tudo mudou», diz o autor.

Se a história económica pós-25 de Abril é uma história de decadência, se tomarmos o factor crescimento como factor diferenciador, pois é a partir de 73-74 que a tendência inflecte e começam três décadas de abrandamento (de que se exceptua o breve surto de 1986-1990), então o pós-1992, o tempo do «câmbio forte», é o tempo da passagem à saturação e crise final - aquela em que vivemos. Como se revela essa crise? Como uma «separação entre uma acentuada convergência institucional com os países europeus», traduzida na «instalação do Estado-providência», com o seu potencial de crescimento natural da despesa muito elevado, «e uma débil convergência económica». «Quando a situação se revelou incomportável, no início do século XXI, tornou-se necessário controlá-la. Sendo indispensável por uma série de razões, a verdade é que esta política contraccionista [onde o freio à despesa é operado com recurso medidas ah-hoc, excepto alguma intervenção no domínio da segurança social] constitui hoje em dia mais um travão ao crescimento económico. Actualmente, a economia portuguesa não é estimulada pelo lado do câmbio, que trava a expansão industrial, mas também não o é pelo lado da despesa pública. Para estimular a economia, restariam as taxas de juro. Mas como o crescimento do sector industrial se encontra bloqueado, elas acabam sobretudo por acelerar o consumo, dessa forma continuando a agravar o endividamento do país». O livro, terminado em Fevereiro deste ano, já não é contemporâneo da contracção de crédito brutal que está em curso, primeiro com a subida acentuada das taxas de juro para a dívida pública, depois com o encerramento do mercado para os bancos nacionais, intermediadores do endividamento.

A saída? O livro é um livro de história, mas dado o seu termo temporal na actualidade, não se exime de considerar alternativas: além de uma positiva e improvável - um «milagre irlandês» em Portugal -, resta uma negativa e outra não consensualmente valorizável. A negativa, com duas versões possíveis, passa pelo abandono da União Monetária - do «câmbio forte» que vigora desde 1992 -, e/ou declaração de incapacidade de cumprir a dívida. A outra, cujo valor depende das «preferências de cada um», implica que o país aceite «transformar-se numa mera região de qualquer coisa semelhante a um Estado nacional europeu». O autor concede que, independentemente da sua viabilidade política no que esta supõe aceitação própria, «resta saber como encarariam esta possibilidade os países capazes de financiar a mudança. Não é claro que o fizessem com alegria.»

A mim, que concorro com o autor no diagnóstico, ocorre-me dizer, por fim: o paradoxo que é esta democracia assim historiada, que optou pela Europa como condição de possibilidade e terminou como só tendo saída - se tiver saída - saindo da Europa, qualquer que seja o grau de ruptura institucional que essa saída venha a revestir. Explico-me: não considero sequer que faça sentido, económico ou outro, uma declaração de incumprimento sem saída do «câmbio forte». E parece-me óbvio que a democracia portuguesa não dispensa o Estado-nação português.

O síndroma da avestruz

Sim, é sério o problema do desemprego junto dos nossos licenciados. Não, não são estágios na função pública que o vão solucionar. Na verdade apenas o vão agravar. Como? Adiando por 12 meses a triste realidade destes jovens terem sido enganados pelo Estado Português. Um Estado que distorcendo o mercado da educação superior não estimulou - por ausência efectiva de concorrência e por políticas duvidosas de alocação de recursos financeiros - as Universidades suportadas pelo erário público (o nosso dinheiro) a adequarem a sua oferta ao mercado de trabalho português. Esta desadequação torna-se ainda mais grave quando se analisa os resultados efectivos desta política, com os seus corolários de eliminação da noção de risco e de ausência de valorização do empreendadorismo, e se constata que grande parte dos nossos jovens quer hoje, não trabalho, mas sim um emprego ( pelos vistos a receber mais do que 900,00€ mensais). Uma vez mais, e como é seu apanágio os socialistas enfiam a cabeça na areia.

O perfil do Procurador Geral

É uma construção muito complexa e não definitiva, algumas qualidades podem compensar alguns defeitos não desejáveis, mas não pode ser colocado no lugar quem não tenha pelo menos uma excelente capacidade de análise. Ora agora vejam isto:

«Se corrermos a Europa, não encontramos justiça melhor que a portuguesa

Pinto Monteiro, em declarações hoje ao "i".

Para enganar quem?

Apesar de a Telefónica ter sido proibida – e bem – de votar sobre a venda da Vivo, a maioria dos restantes accionistas votou a favor da venda (74%). No entanto, o Estado usou a sua golden-share e proibiu a venda.

No início de Julho deverá ser conhecida a posição da Comissão Europeia sobre esta golden share, havendo uma probabilidade de 99% de ser considerada ilegal. Ou seja, dentro de quinze dias a Telefónica lança uma nova proposta e o negócio faz-se. Como é evidente, este compasso de espera – com todo o desperdício de tempo e recursos que envolve – destina-se meramente a salvar a cara do governo, que depois se poderá queixar que fez tudo ao seu alcance para evitar a venda. Mas estes teatros destinam-se a enganar quem?

Uma restituição

Um texto que restitui à verdade o contumaz delírio malicioso da ex-ministra da "educação", na entrevista que deu ao Expresso: este.

Notícias do Mercado de Transferências - o Cachimbo de Magritte

Esta é daquelas que estava na calha há muito tempo. Tem iniciais de partido monárquico, mas é republicano. É benfiquista mas não gosta do vermelho (em política). É pai de família mas não rejeita uma boa farra. Entre a bloga e os jornais (e revistas) a nossa mais recente aquisição é já uma instituição nacional. Não gosta de tretas, e não tem tempo nem para quem as pratica, nem para quem as encena. É um gajo com pinta para além de ser um bom amigo de muitos dos Cachimbos, entre os quais me incluo. Tem um ânimo de leão, um sentido de humor inesgotável e uma sólida sensatez. Tudo coisas que se notam naquilo que escreve.
É verdade. Em breve no Cachimbo: Paulo Pinto Mascarenhas. Bem-vindo, Mascas.

O perigo

A Alemanha só cria problemas à retoma.

Portugal

Doeu. E não há como ignorar os erros flagrantes de Queiroz. Alguns dos quais foram implicitamente reconhecidos pelo próprio com a segunda e terceira substituições. Como o Nuno já disse mais abaixo, a defesa de Portugal continua a ser o seu sector mais forte ou pelo menos estável. É assim desde 2002. R. Carvalho e Bruno Alves constituem uma excelente dupla de centrais e Fábio Coentrão é o lateral esquerdo que a selecção há muito não tinha. Além disso, Eduardo fez um torneio extraordinário, sobretudo tendo em conta as minhas expectativas quanto à sua prestação.
Lá mais para a frente é que as coisas se complicaram. Tiago e Raúl Meireles fizeram um bom Mundial, mas não suficientemente bom para jogar contra as selecções candidatas ao título - no nosso caso, Brasil e Espanha. É evidente que Pedro Mendes teria de ser titular contra a Espanha. Contra o melhor meio-campo do mundo - aquele Xavi é, de facto, um fenómeno - não podia haver recuperações de jogadores. Era Pedro Mendes quem estava em condições, não Pepe, que apesar de tudo já sabe cantar o hino.
O resto não resultou. Simão foi Simão. Danny, que no Zenith mostra todas as suas inegáveis qualidades, não se dá bem com a selecção. E depois temos C. Ronaldo. Aquela crista levantada já o serviu muito bem nos momentos em que é preciso desejar ganhar e ser melhor do que o adversário. Mas convém por vezes baixar um pouco a crista quando o que se pede é talvez humildade. Aí não há como deixar de recomendar o caso de Messi. Nunca o vi fanfarrão. E não se tem saído mal.
Seja como for, saímos derrotados pela Espanha. Depois da nossa eliminação e da Itália, espero que a Espanha seja campeã do mundo. Têm equipa para isso. Ainda mais se Torres finalmente acordar.

Terça-feira, 29 de Junho de 2010

Algum dia teria de postar uma coisa assim como esta de que sou razoavelmente fanático

Estados de espírito IV

Não fizemos um campeonato miserável. Aliás, era o esperado, quando se verificou que poderíamos cruzar com a Espanha nos oitavos de final. Mas com um pouco mais de ousadia, e um espírito de grupo mais forte poderíamos ter feito bem melhor. Pelo menos, ter deixado melhor imagem na África do Sul. Eduardo, Bruno Alves, Ricardo Carvalho, Raul Meireles e Fábio Coentrão deixaram excelente imagem. Os restantes não se sabe por onde andaram. Cristiano Ronaldo o melhor do mundo? Não brinquem com coisas sérias. Vejam o Messi jogar.

Estados de espírito III

Carlos Queiroz fez uma convocatória risível. Levou uma equipa cheia de defesas, deixando de fora jogadores ofensivos que poderiam ter dado outra cor a esta selecção. Estou a lembrar-me de Carlos Martins e de João Moutinho ou até Ricardo Quaresma, depois do afastamento do extremo Nani. Preferiu construir uma selecção à imagem de uma Grécia. Conseguimos marcar golos à grande selecção da Coreia do Norte, e ficamos a zero com as restantes equipas. Alguém terá ficado surpreendido?

Estados de espírito II

Cristiano Ronaldo, capitão de equipa e um verdadeiro flop neste campeonato, diz a um jornalista para pedir ao Carlos Queiroz explicações sobre a derrota.

Estados de espírito I

No final do jogo, Eduardo, o melhor em campo, chorava. Pepe, um dos piores da selecção nacional, abraçava um colega espanhol, com um grande sorriso na cara.

Primeira página do Daily Telegraph*

E não tem nada a ver com a insolvência.
*Era.

Patusco

Depois de ter demolido o governo na semana passada, Vieira da Silva acusa agora os portugueses de falta de confiança. Não estamos [os consumidores] a dar o «nosso contributo», queixa-se o ministro, uma versão saturnina de Manuel Pinho.

Juro


"Juro pela minha honra desempenhar fielmente as funções em que fico investido e defender, cumprir e fazer cumprir, a Constituição da Républica Portuguesa."
(juramento efectuado pelo PR no acto de posse das suas funções - artº 127º da CRP)

Cumprir a constituição não se compadece com a promulgação de normas em relação às quais se tem duvidas sobre a sua constitucionalidade.
Depois do PSD ter dado um pontapé na Constituição ao aprovar normas mesmo assumindo dúvidas sobre a sua constitucionalidade, chegou a vez do Presidente maltratar a Constituição.
Se o Presidente tem duvidas quanto à constitucionalidade de normas contidas num diploma que lhe é submetido para promulgação, o seu juramento de defesa da Constituição impõe que requeira a fiscalização preventiva da sua constitucionalidade. Caso contrário não está a cumprir com o seu juramento de defender, cumprir e fazer cumprir a constituição da Républica Portuguesa.

"Que viva España": Manolo Escobar, Diana Navarro Rosa Lopez



Em dia de Portugal-Espanha em futebol, 24 horas depois dos nossos vizinhos terem dado mais um passo rumo ao fim do Estado espanhol tal como o conhecemos desde 1976 (o Tribunal Constitucional chumbou parcialmente o novo estatut de Catalunya), oiçamos pois o velhinho Manolo Escobar.

Hoy, vamos a ganar!


Com os cumprimentos de Dom Afonso Henriques e D. João I...

Grande Finale (6)




Das Leben der Anderen, Florian Henckel von Donnersmarck, 2006

Alentejo (35)

Mourão.

Banqueiros preocupados com as aparências

Diz que os banqueiros foram ontem a São Bento queixar-se da «reduzida capacidade de financiamento à economia da banca portuguesa», ou seja, do facto de não lhes emprestarem dinheiro lá fora para eles poderem emprestar cá dentro. E diz que disseram ao senhor primeiro-ministro que «querem que o Executivo tome mais medidas de contenção orçamental para ajudar a credibilizar a imagem do País junto dos mercados internacionais, o que permitiria facilitar o acesso a novos empréstimos por parte das instituições financeiras.» Diz ainda, por fim, que Sócrates «está preocupado com os efeitos no tecido empresarial do corte da concessão de crédito e com a possível falência de empresas em resultado dessa contracção». Não me parece... Há outra ordem de prioridades. Urgências e urgências. Preocupado, preocupado a sério estará o primeiro-ministro com a falta de dinheiro nos bancos para continuarem a financiar o Estado. Ontem, as Obrigações do Tesouro portuguesas a 10 anos transaccionavam-se a preço de saldo, com a rendibilidade a atingir os 6%. Hoje há uma acentuada correcção do nível estratosférico atingido ontem. Quando os bancos deixarem definitivamente de ter dinheiro para manter as aparências (a maior facilidade de liquidez até hoje aberta pelo BCE, ainda por cima, termina hoje), lá terá o primeiro-ministro que... fazer o quê? O que a UE/FMI mandar, para ter acesso aos fundos de resgate de 10 de Maio.

De fundo, a ler aqui. Paulo Pinho e o regresso do Crowding Out.

Segunda-feira, 28 de Junho de 2010

Cachimbos de lá

Maurice Vlaminck, O Pai Bouju, 1900.

Belém, we have a problem

Esta pergunta do André Amaral nasce de dois equívocos.

O primeiro é supor que acho positivo o exercício cavaquista do "deve e haver" na contabilidade dos votos e a correspondente pressão do "voto católico". Não acho: nem uma coisa nem outra. Aliás, tenho reservas quanto ao tal "voto católico", termo que eu próprio já usei à falta de melhor. Talvez seja mais correcto dizer "voto dos católicos" porque ninguém pode arrogar-se o monopólio da representatividade política de tanta gente (e tão diferente). O que vale tanto para uma segunda candidatura à direita como, evidentemente, para a candidatura de Cavaco Silva. Ou seja, acho ainda menos positiva a exclusividade da candidatura do actual PR à direita. Não gosto de homens inevitáveis, sobretudo quando me desiludem. E há muito quem queira substituir um alegado frentismo católico por um real frentismo direitista. Ou Cavaco ou o caos: eis o remake da velha "ética da responsabilidade"que aguentou meio século de ditadura com o argumento de que criticar Salazar era favorecer os comunas. Esses tempos já lá vão, e não serei eu quem o lamente. Lamento antes que se queira calar, com a ameaça do papão Alegre, os católicos que estão desiludidos com o presente inquilino de Belém e procuram outro candidato que represente os seus legítimos interesses. Chama-se a isso democracia. Mas para alguns cavaquistas mais cavaquistas que Cavaco, todos podem jogar o jogo democrático - menos os católicos. Isso seria misturar "questões morais" com política, alegam. Como se a política, quando transcende a mera conquista e gestão do poder, pudesse abdicar de "questões morais" (ou talvez possa: eles lá sabem).

O segundo equívoco do André Amaral, que decorre do primeiro, é supor que a eventual perda de votos de Cavaco para Alegre me aflige, ou devia afligir. Sejamos claros: faltando ao funeral de Saramago, o PR não perde nenhum voto que não estivesse perdido. Contudo, mesmo que perdesse, relembro que não sou eu que devo votar em Cavaco para que a "esquerda" não vença - é Cavaco que deve merecer o meu voto, entre outras coisas para que a "esquerda" não vença. Entre outras coisas tão ou mais importantes, para mim, como a famosa "ética da convicção". E não é por faltar a um funeral que Cavaco vai merecer o meu voto. Nem por ser "de direita", ou por se apresentar como a única alternativa ao apocalipse, ou por ter andado ao colo do Papa há mês e meio. Não passo cheques em branco a ninguém. Passei há cinco anos e o resultado está à vista: um Presidente que dá o meu voto por adquirido. Só não digo que vai ter uma surpresa em Janeiro porque já nem é uma surpresa.


Nem só de futebol vive o homem

Também há o rugby. E enquanto na África do Sul, por acaso Campeã do Mundo da oval, as massas se queixam do Queirós, das vuvuzelas e dos árbitros, as equipas do Seis Nações fazem as suas digressões de Junho overseas. França e Itália à mesma RSA, por estes dias da bola redonda, França e Escócia à Argentina, Inglaterra e Irlanda à Austrália, Irlanda e Gales à Nova Zelândia. Contas feitas, e depois de uma dúzia de jogos, a supremacia dos meridionais impressiona. Venceram quase todos os encontros com as equipas europeias, alcançando por vezes resultados próximos do atropelamento: 66-28 dos All Blacks à Irlanda e 42-9 a Gales, 42-18 dos Springboks à França e 55-11 à Itália, 41-13 dos Pumas aos Bleus (pasme-se, mas não demasiado, porque os argentinos já tinham batido concludentemente os gauleses no último Mundial).
Só a Escócia conseguiu vencer os dois tests contra a menos cotada Argentina, mas jogando mal e marcando apenas um ensaio. A França, vinda de um triunfal Grand Slam no Seis Nações, voltou a uma fase descendente por culpa das mexidas de Lièvremont (outra vez...) e da ausência da eficacíssima dupla de centros Bastareaud-Jauzion. Em sentido contrário, a Inglaterra confirmou a subida de forma visível no fim do Seis Nações e deu luta aos Wallabies, embora perdendo por 27-17 e 21-20. Mas os grandes vencedores de Junho são sem dúvida os sul-africanos, que têm uma equipa inteirinha de suplentes de luxo, e os neozelandeses, que têm de novo o melhor abertura do mundo (Dan Carter, vide ensaios contra Gales).
A uma semana do Três Nações e a um ano do Mundial, não é muito difícil prever que estes dois monstros sagrados vão repartir entre si os despojos nos próximos tempos.

Coisas que verdadeiramente importam


O Papa anunciou hoje a instituição de um Conselho Pontifício dedicado à evangelização das nações secularizadas. Num tempo em que muitos cristãos vivem como se Deus não existisse, o Papa alerta o perigos do "eclipse de Deus".

Trata-se do primeiro Conselho Pontifício criado no nosso século e demonstra bem as prioridades do Papado.

Combate de blogues (12)

Verão


A Grécia está de volta aos mercados. Em Julho. Atendendo a que o Verão também pode ser tempestuoso aqui ao lado, resta-nos pensar que... um dia destes terá (teria), forçosamente, que ser.

Mafia (Breve história do socialismo)

Primeiro foi o socialismo utópico. Depois veio o científico. Era insuportável e inventou-se o de rosto humano. Não deu nada. Por aqui, inventámos o socialismo bancário, que rapidamente se transformou no socialismo mafioso. Gostararia de pensar que ficamos por aqui. Felizmente, para mim, aprendi, também com Tocqueville, a não ter grandes ilusões sobre a tal «paixão, ardente, insaciável», dos povos na era democrática. Como todas as paixões políticas, é cega. Está, assim, não direi condenada, mas muito inclinada a repetir os mesmo erros. Em todo o caso, é tempo de fazermos uma pausa, agora que isto chegou aqui.

Domingo, 27 de Junho de 2010

Porque raio estaria o euro acima das nações?

Europe’s political leaders and their economic advisers are, for the most part, financially illiterate.

Certo, Munchau está certo e temos - há anos, senhores, anos! - demonstrações eloquentes de que assim é.

E o diagnóstico dele, que é muito fácil de aceitar, pois, visto bem, decorre de um raciocínio óbvio: há parcelas consideráveis de banca francesa e alemã que estão insolventes (não é verdade que há Estados e economias insolventes, do outro lado do balanço?), também é certeiro. E importa reter.

Só há uma coisa nos Munchaus deste mundo que eu não consigo entender: a solução passaria por recapitalizar os bancos, com fundos públicos, claro (resta o pequeno detalhe, para brincar com a coisa séria, de que, para os recapitalizar, é preciso, antes, reconhecer a insolvência). E, depois, união financeira total. Se bem percebo: para salvar o aborto natural do euro, acaba-se com a autonomia política dos Estados. Não percebo a conta. Julgo que os Munchaus deste mundo são tão politicamente analfabetos, quanto os líderes políticos de que fala o são, em matéria de economia e finanças. Porque raio o euro estaria acima das nações? Há até quem não se importe de ser governado por quem quer que seja, desde que seja «bem governado» (a fantástica, no sentido literal, ideia de que o governo é uma coisa técnica). Mentalidade de servos foi coisa que nunca faltou, em tempo algum. O que não temos que é que cantar todos hossanas à servidão.

Alentejo (34)

Discos que giram ao domingo (6)

Löbo - Älma [EP]

Ano: 2009
Origem: Portugal (Setúbal)
Género: sludge / post-doom metal

Selvagem

Portanto, a ver se eu compreendo: o Osservatore Romano, órgão de comunicação oficioso do Vaticano, caracterizou Saramago como «populista extremista», «ideólogo antirreligioso, um homem e um intelectual que não admitia metafísica alguma, aprisionado até ao fim na sua confiança profunda no materialismo histórico, o marxismo», e (logo) de selectividade muito suspeita nas suas denúncias da opressão. O Osservatore Romano disse, correctamente, verdades absolutamente incontroversas (excepto, porventura, no ponto em que o materialismo histórico é uma forma de metafísica, normalmente praticada de modo boçal e dogmático). A hipocrisia funerária não me parece propriamente uma virtude. É claro que, quando se dizem estas evidências indiscutíveis, aparecem logo seiscentos a defender os «indiscutíveis» méritos literários do «populista extremista». Bem sei que há oráculos que decretaram a pertença da obra à eternidade. Não tenho dotes de pítia e, portanto, não entro nessa onda. Pode ser que sim, mesmo que eu desconfie. Mas porque há-de uma obra, concedamos, eterna (também não sei o que isso queira dizer, mas não interessa agora), redimir a frágil memória terrena de um crápula, entre nós, pobres mortais, que mal nos aguentamos na duração? Façamos um pequeno exercício. Fosse Saramago um genial escritor, que, como cidadão, se tivesse notabilizado por ter sido um neo-nazi confesso: mereceria a mesma indulgência? Os louvores fúnebres a Saramago participam dessa duplicidade que caracteriza o caldo ideológico em que vivemos: aos «notáveis», sequazes dos regimes políticos totalitários originados na direita, está decidido que lhes cabe em sorte o inferno da memória na Terra. Aos outros, redenção imediata. O comunismo, bem vistas as coisas, mesmo entre quem o abomina, mantém intocável, numa heteronomia que tem muito que se lhe diga, um capital de prestígio capaz de levar a desconto as maiores safadezas. Parece-me, isto, que se sabe de onde vem, assaz selvagem. Muito à Saramago. Muito hormonal.

Bret Stephens e a defesa «liberal»* de Israel



*Para os menos advertidos das nuances transatlânticas do inglês: no idioma de Bret Stephens, editor do «internacional» do Wall Street Journal, «liberal» quer dizer mais ou menos o que, aqui, designamos por «de esquerda».

Sobre a ONU

Escola pública

O mais interessante da entrevista de Maria de Lurdes Rodrigues ao Expresso é a sua defesa da crescente descentralização do sistema educativo, i.e. da retirada do Estado da Educação, dando mais poder às autarquias e às escolas (financiamento, contratação de professores). Estas declarações da ex-ministra da Educação são tão interessantes porque sustentam uma visão para a Escola pública comummente vinculada à direita, e que a esquerda tem recusado sistematicamente sob a acusação de ‘privatização do ensino público’. Sendo Lurdes Rodrigues insuspeita de ser uma perigosa liberal, este é um sinal de que a autonomia das escolas e a liberdade de escolha estão em vias de ser consensuais no debate sobre a Educação. O futuro da Escola pública, da nossa Educação, dependerá, portanto, do que o futuro governo PSD fizer com esse consenso.

À procura do patriotismo



Um bom texto do Paulo Tunhas sobre o patriotismo. Infelizmente, confunde patriotismo com familiaridade. O patriotismo, por mais voltas que se dê, é mesmo uma forma de amor. E uma coisa é a natureza desse amor; outra coisa é a sua génese ou origem.

Parece-me que o Paulo está a tentar conciliar muita coisa ao mesmo tempo.

União nacional

Os apoiantes de Pedro Passos Coelho sempre juraram que o homem representava uma nova forma de fazer política. Não duvido. O dr. Passos Coelho é o primeiro líder da oposição que, em última instância, não se opõe a coisa nenhuma. Cada medida absurda do Governo é recebida pelo actual PSD a cinco tempos: 1) Recusa (o PSD acha a medida inadmissível); 2) Negociação (o PSD pretende obrigar o Governo a discutir a medida e forçá-lo a revê-la de acordo com as suas exigências); 3) Confusão (o PSD lança para a imprensa um nevoeiro informativo acerca das suas pretensões e do desenvolvimento da discussão que mantém com o Governo); 4) Aceitação (o PSD proclama que o interesse nacional o levou a concordar com a medida inadmissível do Governo); 5) Vergonha (o PSD pede desculpa ao País).

Alberto Gonçalves, hoje, no DN, a ler, aqui o resto.

Sábado, 26 de Junho de 2010

Não é para rir


Isto não é uma piada. É mesmo um editorial do Le Monde, explicando ao «Professor Obama» [sic!] que a questão não é «tão binária» como ele julga: crescimento ou dívida. Que a dívida afecta negativamente o crescimento. E que - imagine-se! - nem a austeridade alemã, nem as outras, quando as há, são assim tão severas como isso.

Um apoio convicto


Por Henricartoon, retirado daqui.

Grande Finale (5)

Shane, George Stevens, 1953.

Da vizinhança

Nos tempos que correm, uma coisa para ouvirdes, meus queridos: esta.

Sexta-feira, 25 de Junho de 2010

Vander Braflat disse...

Por exemplo:

Instrumentos de ouro.

Agora falando de coisas cómicas (nunca me passaria pela cabeça dizer que Paul Krugman está a ficar «histérico» e que há muito que o que diz deixou de ter qualquer coisa a ver com a análise da realidade) sem importância: o pano de fundo da reunião do G20, este fim-de-semana. Relaxem.

Andam aí uns velhos do Restelo arengando que nós precisamos de produzir, de aumentar a produtividade e a competitividade

e não percebem que, afinal, tudo o que necessitamos é de um extrazinho de motivação, um olhar mais positivo sobre a vida; no fundo, de agradecer todas as benesses que já podemos gozar. Nada que a repetição de uns mantras ou a leitura de uns livros sobre anjinhos não cure.

Imbróglio, versão digestiva (espero)

Resumindo (simplificando e exagerando, por forma a tornar a coisa digerível): metade do mundo deve quantidades abismais de dinheiro à outra metade. Quantidades que ultrapassam largamente a capacidade da primeira metade de servir a dívida, porque ultrapassam os seus rendimentos actuais e futuros. E porque são esses rendimentos inferiores tendencialmente cada vez menores, face ao montante dos compromissos? Por muitos motivos, um dos quais, com muito peso, é que organizar a vida para criar a ilusão de que esses compromissos vão ser servidos (políticas orçamentais violentamente restritivas e, como se já não fosse pouco, sem compensadores monetários, por exemplo) torna ainda mais difícil a geração de rendimentos. Como o ponto de partida e a sequência começam a ser generalizadamente compreendidos, ninguém empresta dinheiro a ninguém, até que o desequilíbrio se desfaça. (Obviamente que há quem advogue que o problema se resolve com mais dívida ainda. Lamentalvelmente, para esses, quem tem dinheiro não está pelos ajustes e quem advoga a solução do álcool para apagar a fogueira não tem dinheiro - felizmente!) Só que para desfazer o desequilíbrio, é necessário reconhecer: a dívida não é (toda) para pagar. Chega? Não. Para voltar a ter acesso ao mercado, ao dinheiro, para voltar à vida normal é preciso mudar tudo o que tornou possível chegar a semelhante imbróglio. Regime de cuidados intensivos, a que se seguirá prolongada convaçescença. Got it?

Petraeus no Afeganistão

Depois das criticas do general Stanley McChrystal, Obama despediu-o e nomeou David Petraeus para o substituir no Afeganistão. Uma escolha certeira, mas que não deixa de ser curiosa, dada a animosidade que terá existido no passado entre Petraeus e as três principais figuras da actual Administração.

No final do Verão de 2007 decorria a campanha eleitoral para as primárias democratas, ainda longe da crise económica. A guerra do Iraque era uma das principais armas de arremesso contra os republicanos. Todos os candidatos eram agora contra a intervenção no Iraque, apesar de vários deles, entre os quais Hillary Clinton Joe Biden, terem votado a favor dessa mesma intervenção no Senado. A hipocrisia democrata estava no auge. A condução do pós-intervenção tinha sido um desastre, e os democratas várias vezes tinham apelado à retirada sem condições do Iraque. Harry Reid tinha mesmo dito que a guerra estava perdida. George W. Bush não desistiu do Iraque, e no inicio de 2007 ofereceu o comando ao general David Petraeus para implementar no Iraque uma nova estratégia, que ficou conhecida como a “surge”. A Petraeus, que tinha sido o autor do Manual de Contra-insurgência do Pentágono, foi confiada a missão de dar a volta ao fracasso iminente.

Nesse mês de Setembro David Petraeus foi chamado ao Senado para dar conta dos progressos que tinham sido efectuados no Iraque desde o inicio do ano. O clima em Washington era bastante hostil, com os democratas, agora em maioria no Congresso, a pretenderem passar a mensagem, por motivos eleitorais, que a “surge” estava a falhar, sendo isso a prova que faltava do insucesso da Administração republicana. Uma organização de esquerda (MoveOn.org), apoiante de Barack Obama, comprou uma página de publicidade no NY Times no dia da audição no Senado a chamar traidor a Petraeus, com o título de “General Betray Us”. Os vários candidatos democratas na altura recusaram-se a criticar a MoveOn pela publicidade. Ao contrário do que desejavam os demcratas, Petraeus trazia boas noticias para o Congresso, com dados muito positivos sobre a evolução da situação no terreno. Nesse dia, Obama, Clinton e Biden fizeram perguntas bastante complicadas ao general. O actual VP várias vezes alegou que Petraeus estaria a mentir e a fabricar números e Clinton sugeriu que o relatório era um acto de fé. Obama afirmou que “as expectativas estavam tão baixas, que uma melhoria modesta no que foi uma situação completamente caótica, a ponto de só agora termos os níveis de violência intolerável que existiam em Junho de 2006, é considerado um sucesso. E não é”.

No entanto, o relatório de David Petraeus era mesmo autêntico, e ele acabou por vencer o desafio no Iraque. Em 2008, a guerra do Iraque já nem esteve na linha da frente da campanha presidencial, e a Administração Obama abraçou uma linha de continuidade no Iraque. É este homem que agora Barack Obama recorre para salvar novamente a face dos Estados Unidos, agora no Afeganistão. Este país não é o Iraque, e a situação no terreno é bem mais complexa. Mas Obama sabe que só alguém com o génio de Petraeus pode salvar a situação no terreno. Resta saber se o general terá o apoio em Washington que teve quando actuou no Iraque.

Aconselho a leitura deste perfil de David Petraeus na Vanity Fair (via Francisco Mendes da Silva)

Em fuga




As reacções do PS (aqui, um partido refém do delírio "socrático") e do primeiro-ministro (esta maravilha retórica) às palavras avisadas do Presidente da República e, até, de Jorge Sampaio, outro notório "negativista" e "catastrofista", no léxico indigente de Sócrates (o homem que, só, contra todos, "puxa pelas energias do país"), são reveladoras do tipo de relação que eles têm com a realidade. A negação e a fuga também são formas de relação.
Afinal, o que pode ser mais "catastrofista" do que a fuga perante a realidade?

O gritante

Lá está o primeiro-ministro aos gritos no parlamento... (Estas prestações deviam ter um uso didáctico, para que as crianças aprendessem, por contra-exemplo, como não se deve comportar um chefe de governo.) Desta vez o alvo da gritaria esbracejada é Heloísa Apolónia - antes, parece-me, era Jerónimo de Sousa e imagino que deve ter sucedido o mesmo a Macedo, Portas e Louçã... É isso, Sócrates é algo que nos sucede, que nos acontece - algo tão materialmente estúpido como uma chuvada ou ventania. Adiante.
Na resposta à deputada dos Verdes, o primeiro-ministro cita Eça - o que provoca de imediato uma certa indisposição física: ver o homem que mais tem escaqueirado a Escola nos últimos anos, que mais tem contribuído para o embrutecimento do ensino (é um político que deixa a sua marca de identidade - talvez indelével, para mal dos nossos pecados), vê-lo a citar Eça (isto é, a usar Eça) não é espectáculo para todos os estômagos. José Sócrates é o tipo de figura pública que, pela sua natureza, transforma inevitavelmente um uso num abuso. É um homem que degrada aquilo em que toca. Adiante.
Ouço-o chamar à deputada (Sócrates raramente responde - chama nomes, tem aquela predilecção infantil em arrumar os outros em taxinomias da vulgaridade por si concebível) "pós-moderna"(!), "estalinista"[sic] e "marxista-leninista"[sic]. Ele não discute - arremessa não-palavras como se fossem palavras. Não diz nada - nele, as palavras são violentadas, porque são desvios da realidade. É o exemplo acabado da perversão da linguagem pública. Por outro lado, percebe-se que o homem não faz a mínima ideia do que queira dizer "pós-modernista", "estalinista" e "marxista-leninista".
Adiante, adiante.

Quando mais rapidamente percebermos, melhor

Peço a atenção dos estimados leitores para o artigo de Michael Pettis, que aqui ligo.

Do que tenho lido, em matéria de análise de fundo sobre a crise por que estamos a passar, corresponde ao melhor que me chegou até agora. Neste caso, graças a um leitor, a quem agradeço. A teoria económica usada para o perceber é muito básica, embora seja alguma. O grande interesse do artigo está naquilo que cada vez mais prezo na análise económica: consciência histórica - menos equações e mais exemplificações.

Uma das razões que aqui elenquei - várias vezes - para considerar fantasioso o cenário macroeconómico sobre o qual era construído, tanto o Orçamento do Estado como o Programa de Estabilidade, é que ele supunha a possibilidade deixar correr um défice da balança corrente da mesma ordem de grandeza do que foi «corrido» nos útimos anos, isto é, qualquer coisa na vizinhança dos 10% do Produto Interno Bruto. Ou seja, supunha condições de acesso a capital idênticas às que prevaleceram antes da crise, quer na sua fase pré-2008, quer na que se lhe seguiu, em regime de vazos comunicantes, e que se veio a traduzir num momento de saturação sobre a dívida soberana.

Michael Pettis, na minha modesta opinião, toca no centro nevrálgico do problema:

In my opinion the current set of crises, beginning with the sub-prime crisis in the US and spreading throughout the world, is not a short-term liquidity crisis like LTCM, the Asian Crisis, or the Mexican crisis of 1994. I think this is likely to be one of those big events, one that represents a major re-adjustment in the world during which time the massive imbalances that had been built up during the long globalization cycle that started around the late 1980s and early 1990s are finally worked out.

Not only will Greece, in other words, get worse, but it is by no means the end of the crisis. A lot more countries in Southern Europe, Latin America and Asia are going to be caught up in this before it ends.

Não vou aqui substituir a leitura do artigo, que vivamente recomendo, sobretudo aos (muito poucos na blogosfera que) realmente estão interessados em superar o estado larvar do (des)conhecimento que consiste em repetir enfaticamente lugares-comuns ideológicos, quando não vacuidades totais por simples ignorância do a-b-c da matéria. É que sem percebermos onde estamos não vamos a lado nenhum. E este artigo ajuda a situarmo-nos.

Deixo apenas os cinco «mmentos» do artigo: 1) O euro não sobreviverá na sua forma actual; 2) Estamos numa contracção de liquidez de longo prazo, e não curto; 3) suceder-lhe-á um choque comercial; 4) a recuperação económica nos países afectados pela crise não começará antes que a sua insolvência seja reconhecida; 5) a insolvência grega levará muito tempo a ser reconhecida.

Só espero que o 5 ponto seja uma má previsão. Espero mesmo.

Aos pais pertence a prioridade do direito de escolher o género de educação a dar aos filhos

O Filipe Nunes Vicente escreveu ali e o Jorge aqui. O assunto é sério mas - tendo em conta as palavras do Presidente da Confap, Albino Almeida - mais parece uma palhaçada.

Albino Almeida relembra os termos lei, segundo a qual os pais deverão ser “informados” das actividades desenvolvidas relativamente à educação sexual dos filhos; só faltaria mesmo acrescentar que os pais são pobres e mal agradecidos, mas adiante.

Depois, esta pérola da diplomacia e do bom senso retórico: “Os pais podem sugerir ideias. Se se sentem afastados é porque querem. Que se organizem!Claro está, os pais não precisam dos conselhos do Presidente da Confap para assumir o seu dever e não apenas se organizam como até deixam as suas ideias bem claras: reclamam para os filhos o direito a não assistirem às aulas de educação sexual. Calculo que isto já seja organização a mais. Os pais que se organizem mas que mantenham a bolinha baixa.

Relembra o Presidente da Confap que “o direito à educação é universal” e “nenhum cidadão pode dizer ‘eu não quero ser educado’”. Totalmente de acordo. O problema é que a lembrança não faz qualquer sentido. Não consta que os pais se estejam a organizar para exigir que os seus filhos não sejam educados - como se estivessem a condenar os filhos a permanecer analfabetos e incultos!

O que os pais querem é outra coisa bem diferente: reclamam que os filhos sejam educados de acordo com a educação que privilegiam e não de acordo com a educação que o Estado determina. E quanto a isto, a Declaração Universal dos Direitos Humanos é muito clara: “Aos pais pertence a prioridade do direito de escolher o género de educação a dar aos filhos” (Art. 26, número 3).

Vitória em toda a linha da cultura americana



Obama inaugurou ontem, nos arredores de Washington, um novo estilo de cimeiras com a Rússia. Suspeito que o latino com rabo de cavalo, logo no início do filme, seja um agente da CIA. Mesmo assim acabou de vez o glamour dos filmes de espionagem da guerra fria. Percebe-se a falta de naturalidade (incómodo?) de Medvedev, que até precisa de tradutor para pedir a mostarda.

Red light district

Um dia destes ainda vamos ter de pedir o confinamento da escola pública numa zona tipo um certo bairro de Amesterdão. Afastem as crianças, por favor. Longe.

O socialismo é quando se constrói um fosso à volta de um castelo



Ainda sobre a polémica em torno de Soros e a Alemanha, o sinistro «especulador» subitamente convertido em guru darling da esquerda, Hugh Hendry e a medida certa, como de costume. Ver, alternativamente, aqui.

Do reino das sombras

Alguns dos comentários à morte de Saramago que li nos últimos dias, sobretudo nas caixas do Cachimbo, fazem-me lembrar a ferocidade com que Fialho de Almeida reagiu à morte de Eça de Queirós, de quem se considerava rival. Além de escrever um obituário em que chamava a Eça "génio falhado", devido à pobreza do vocabulário e à "galeria de grotescos" a que reduzira a pátria, o alentejano assistiu à passagem do cortejo fúnebre pelo Rossio ostentando uma evidentíssima gravata vermelha.
Este espírito vingativo nada retira ao seu valor literário (bom estilista, embora de imaginação limitada), mas não o engrandece. Pior ainda: Fialho diminui-se no seu desprezo público por Eça, mas não diminui Eça.
O que me leva de novo a Saramago. O homem está morto: por muito mal que tenha feito em vida, e fez, nem que o odeiem até ao fim dos tempos poderão agora exigir-lhe justiça. Não compreendem a futilidade de tanto ódio?
Deixem lá o reino das sombras e regressem ao mundo dos vivos. Há muito a fazer por aqui.

Grande Finale (4)

Cinema Paradiso (1988)

Quinta-feira, 24 de Junho de 2010

Enfim, uma aragem de realidade

Não esperem que nos anos mais próximos o Estado seja um agente impulsionador directo da nossa economia.

Cavaco, aqui. Só não percebo os tempos, mas, enfim, mais vale tarde do que nunca.

Obrigado

Pelo alerta. Um amável leitor já me tinha, em todo o caso, chamado à atenção para a atribuição errada. O artigo está tão bem escrito e tão bem argumentado que pensei que fosse do Wolfgang habitual. Não começa e acaba no mesmo ponto final.

Com os olhos postos em Obama (2)

Obama resolveu o primeiro problema depressa e bem. Decidiu deixar cair Stanley McChrystal e chamou para junto de si David Petraeus, o general que orquestrou o famoso e bem sucedido reforço militar no Iraque, ainda no tempo do saudoso George W. Bush. Mas o desafio que Petraeus tem pela frente é agora bem diferente, pelo menos se Obama continuar fiel à sua promessa de começar a retirar as tropas do Afeganistão em Julho do próximo ano. Eis o segundo problema que Obama tem de resolver: decidir se quer retirar as suas tropas do Afeganistão depressa ou bem.

Mas esta malta só ouve com o martelo? (2)

O Miguel já tocou no assunto aqui. Agora é a vez de Kaká. Por curiosidade apenas: há algum argumento que justifique a separação entre o futebol e a religião - qualquer coisa do género: os futebolistas estão a representar os seus países; os estados são laicos; logo os jogadores devem calar a sua fé?

Hoje, depois do último leilão de obrigações (será mesmo o último?)

Greece and Portugal were in the spotlight as their bond yields rose to the highest levels since the announcement of the €750bn “shock and awe” international rescue package on May 10.

Next week’s expiry of the European Central Bank’s long-term refinancing operation added to worries. Greek 10-year bond yields rose to 10.44 per cent, while Portuguese 10-year debt jumped to 5.67 per cent.

The cost to insure these two countries against default also jumped to the highest level since May 10 – with Greece at a record as indices are reshuffled – as their credit default swaps rose to 967 basis points and 323 basis points respectively.


Daqui.

O pior cego

"Se puderes olhar, vê. Se puderes ver, repara."

É o mote de Saramago para o Ensaio sobre a cegueira. Que ironia ser um dos mais cegos comunistas portugueses o autor de tal frase... (Se faz sentido diferenciar o grau de crendice naquela religião outros o dirão).

Editado daqui (via):

"Good people that are minimally informed and that are not simply blind cannot embrace communism in 2010. Therefore communists are either terribly uninformed, blind or simply not good people. Whatever the case, they deserve negative credit as actors in the political sphere and we ought not be indifferent to them, but rather should combat them with all the energy we can find."

Fátima Campos já podia ter feito um programa sobre o assunto, com muitos convidados oriundos de países que conheceram por dentro os "méritos" do comunismo. Talvez o país avançasse um bocadinho.

Medo

A forma como a Justiça portuguesa encara as questões relacionadas com o primeiro-ministro (escutas, freeport, TVI, Moura Guedes) denuncia medo. Ninguém decide nada porque ninguém ousa legitimar as acusações, que é o que está verdadeiramente em causa. A lei há muito que não tem espaço nestes assuntos. Este domínio da legitimidade sobre a legalidade é o sintoma máximo do fracasso do Estado de Direito em Portugal.

Mau Jornalismo

Sei que a concorrência pelo pequeno mercado de leitores e compradores de jornais é feroz e o desespero é muito, mas nada, nem sequer o próprio texto do artigo, justifica o seu titulo "Droga, sexo. Ser o mais popular na escola é arriscado mas compensa". A perda de qualidade do jornal i tem sido imparável desde a saida do Martim Avillez Figueiredo.

Merkel tem razão, mas está enganada

Merkel está absolutamente justificada quando diz: «O sucesso exportador alemão reflecte a alta competitividade e inovação das nossas empresas. Reduzir a competitividade alemã não seria útil a ninguém», razão por que rejeita as pressões internacionais para estimular a procura.

Merkel está bastante enganada quando diz que [com o pacote UE/FMI] as nações do euro compraram apenas algum tempo para consertarem as falhas da sua união monetária.

Não é nada disso. Pelo menos relativamente a uma - Portugal - posso garantir-lhe: comprou tempo para adiar tudo (como sempre), para não fazer uma única reforma das que se impõem para alterar a trajectória que aqui a trouxe. E não é apenas o seu governo que não sonha sequer fazer tais reformas. Nenhuma força ou instância política as exige, as promove. O país consensualmente abomina a sua ideia. De modo que, senhora Merkel, desejo-lhe boa sorte na defesa do seu país. Não desista.

E se porventura, caro leitor, entender que vale a pena entender de fio a pavio as razões - digo: razões - que assitem à senhora Merkel, leia aqui, hoje, Wolfgang Schäuble. Via O Insurgente.

Grand Finale (extra-série)

Grand Finale (3)

Acho que não era bem isto que o Miguel Morgado tinha em mente quando começou a série.



Do "One Night in Turin", relembrando o Itália 90.

Grande Finale (2)

Les uns et les autres (1981)

Quarta-feira, 23 de Junho de 2010

Que alguém ainda consiga defender esta coisa que faz de conta que nos governa sem corar...


O quadro que aqui fica, roubado ao Figaro, é enganador. Dá um retrato estático. De facto, consultando aqui a história, a imagem ganha outros contornos. Vejamos a posição dos países «vermelhos» em 1998 / e em 2009, tal como são retratados na figura, a partir dos valores do PIB per capita, em paridades de poder de compra.

Chipre - 87 / 98
Estónia - 42 /62
Letónia - 36 / 49
Lituânia - 40/ 53
Hungria - 55/63
Polónia - 46 /56
Roménia - 26 /42
Eslovénia - 79 /86
Eslováquia - 52 / 72
República Checa - 70/ 80

Portugal e Malta são os dois únicos países que, estando abaixo da média europeia em 1998 (vermelhos), estão hoje mais afastados dessa média. Todos os outros subiram consideravelmente, como se pode ver atrás. A Espanha (hoje acima da média) e a Grécia, que connosco partilham as aflições presentes, melhoraram as suas posições - convergiram. É que há vermelhos. E vermelhos. Nós e os malteses encaminhamo-nos galhardamente para a cauda absoluta. Ao contrário do que diz o aldrabão compulsivo que nos governa, nós não acompanhamos a tendência. Somos a excepção.

É difícil encontrar descrição gráfica mais eloquente do desastre a que o PS, de Guterres a Sócrates, nos conduziu. Pensar que foi reconduzido em eleições... dá que pensar.

Futebol e guerra

São interessantes as reflexões que o então Cardeal Ratzinger fez sobre o fascínio exercido pelo futebol. Ratzinger falava da ligação entre o futebol, o treino que exige e a liberdade. Falava igualmente da consciência que a prática do jogo cultiva da disciplina individual ao serviço do interesse comum do grupo.
Mas há algo que Ratzinger não diz e que, na minha opinião, explica uma parte substancial do fascínio e até do poder que o futebol exerce sobre multidões de todas as proveniências geográficas e culturais. É que o futebol é o desporto que mais rigorosa e subtilmente reproduz a prática da guerra. De uma guerra sem mortos, claro. Mas com os seus feridos. Basta ver a taxa de lesões que um jogo de futebol provoca quando comparada com a sua homóloga noutros desportos. Mesmo o reparo ignorante que muitos tontos não se cansam de fazer ao desporto-rei, o de que admite empates, inscreve-se nesta representação subtil da arte da guerra, em que o mais fraco encerra-se na sua fortaleza e combate para não perder.
É a guerra, é a guerra.

Petição Contra o Encerramento da BNP

Isto de ser manchete internacional...

Notícia de abertura do Financial Times on line.

E sobre o leilão de hoje, lê-se na peça: «If the yields keep going up at this rate, then they will be paying much more than 5 per cent next month, which is arguably unsustainable.»

E: «These yields are not sustainable. Portugal will have to access the emergency stability fund if they continue to rise at this rate.»

Pode ser que a parolada do jornalismo acorde. Ou, se calhar, não.

Grande Finale (1)

Blade Runner (1982)




Falta a última sequência do filme, em que Deckard finalmente compreende quem é antes de entrar no elevador com Rachel. Mas o YouTube aparentemente não dá para tudo.

Com os olhos postos em Obama

A reportagem/entrevista da Rolling Stone de que todos os editoriais nos EUA falam (a um ano apenas do prometido início da retirada das tropas americanas do Afeganistão).

«À beira do desespero»

Infelizmente o limite não é o céu. E, para espanto meu que não cessa, o noticiário - nacional - sobre o assunto é menos do que indigente. Não sei se estamos todos debaixo de uma nuvem de Lexotan, mas eu não. Pois bem. A República foi hoje ao mercado levantar, anunciava-se, entre 300 e 800 milhões de euros, com uma maturidade de cinco anos (um dia destes, quando o desespero atingir o paroxismo, ainda vamos ver o IGCP a anunciar emissões com quantidades indicativas, não vá a coisa estoirar, entre 1 euro e as centenas de milhões precisas: adiante). A taxa média ponderada foi de 4,657%, e foram levantados 943 milhões, ou seja, mais 17% do que o limite indicativo. Bom?

No último leilão para obrigações com a mesma maturidade, ocorrido há menos de um mês, a 26 de Maio, a taxa média ponderada foi de 3,701%. Ou seja, menos 96 pontos de base há menos de 30 dias. A única emissão anterior, para o mesmo prazo, foi em 24 de Fevereiro, e, tal como na seguinte, levantaram-se 1000 milhões de euros, mas a uma taxa ponderada de 3,498%, ou seja, menos 116 pontos de base. O leilão de hoje foi o primeiro em que ultrapassámos o custo de financiamento, para esta maturidade, atingido no pico da crise de 2008, quando em 12 de Novembro se levantaram fundos à taxa de 3,862%.

«Estão à beira do desespero para garantir fundos», comentou à Reuters, retransmitido pela CNBC, David Schnautz, analista do Commerzbank, em Londres.

«É algo alarmante, pois o Estado está a pagar cada vez mais para se financiar, e uma subida de um ponto percentual [em menos de um mês] é muito», comentou Filipe Silva, do Banco Carregosa, aos mesmos meios de comunciação social.

A consolidação orçamental, a médio prazo, levou mais um rombo. Prepara-se a bola de neve. A cobertura de risco do esquema UE/FMI deixou de ser garantia e factor do que quer que se pareça com custos de financiamento suportáveis.

Um retrato

Nem de propósito, um retrato da misologia selectiva da Esquerda e do analfabetismo bovino da Direita - aqui.

Prioridade Diplomática



São estas as notícias que justificam a existência de um corpo diplomático: manter o homem bem longe da política portuguesa. E quando acabar o novo mandato no alto-comissariado é tratar de encontrar outra coisa. Outra coisa qualquer que mantenha a distância.
A notícia já é antiga, mas pareceu-me oportuno recordar o essencial.

A seguir

A seguir: Juros da dívida sobem em dia de novo leilão de Portugal. A taxa das obrigações a cinco anos está a subir 15 pontos base, para 4,711%, enquanto a de 10 anos avança seis pontos, para se fixar nos 5,645%.

A seguir: Concerns mount over eurozone lenders. Investor worries over eurozone banks resurfaced on Tuesday after a warning by a European Central Bank governing council member that some faced funding difficulties.

E a seguir: July 1 could be the day liquidity dies.

Terça-feira, 22 de Junho de 2010

Devastador


Vieira da Silva arrasa o Governo. Ou melhor: o socialismo. Particularmente demolidoras, as críticas deixadas à política para a educação.

Insultos

Não, não venho aqui queixar-me, denunciar insultos. Nada disso. Venho aqui insultar. Duplamente.
Primeiro, porque terei de recordar algumas coisas a incertas pessoas - coisas tais que, por tão óbvias, constitui a sua recordação um insulto a esses que delas se esqueceram.
Segundo, porque as manifestações em apreço são-no, natural, essencial, constitutiva e, assim, inevitavelmente, manifestações de estupidez. Pura e simples estupidez. Pura e simples, porque, nela, não se vislumbra, por mais que miremos e reviremos, qualquer mistura, qualquer mancha lúcida de discernimento. É estupidez de cabo a cabo. E, não fora a sua mesma qualidade, dir-se-ia uma estupidez brilhante, tal a inteireza e coerência em toda a sua estúpida extensão.
Ora, como é bom de ver, uma completa e totalitária estupidez só pode ter como autores sujeitos de estupidez - isto é, indivíduos estúpidos. Integralmente estúpidos. Focos de estupidez. Não só pela sua estupidez estupidamente circunscrita a si própria, como também pelas estúpidas consequências irradiantes da sua estupidez central. Há, assim, um maravilhoso expansionismo possível da estupidez daqueles estúpidos, uma vez que ela se propaga para outros actos e objectos potenciais. Uma espécie de contaminação de possíveis. Uma estupidez, portanto.
Mas quais são as manifestações de estupidez em apreço?... São as manifestações que infestaram caixas de comentários neste blog e produziram até posts noutros a respeito do "caso" Saramago - velho comuna relapso que, ainda mal arrefecido, logrou suscitar copiosa estupidez de indivíduos que desatam, furiosamente, à espadeirada, como querendo, babados de fúria, matá-lo uma segunda vez. E uma terceira. E uma quarta. Pensam pela própria cabeça e tal, conseguem ver para lá da choradeira da esquerdalhada, estão sozinhos, mas íntegros - e outros heroísmos da adolescência da testosterona anticomunista (na sua militante estupidez, simétrica da outra, igualmente imbecil, não chorem).
A sua estupidez não lhes permite alcançar que uma apreciação estética (mesmo que contaminada afectivamente) não se confunde com a localização política do objecto. O objecto não seria aquele se as coordenadas ideológicas fossem outras. Pois não. E depois?... A escrita de Saramago sofre alguma alteração por o homem que a escreveu ser comunista? (e, para mais, não tão "disciplinado" quanto isso...) Saramago não é o tipo com concepções simpáticas ou antipáticas, com ou sem óculos, guedelhudo ou careca. Num sentido, Saramago é um conjunto de livros.
Vamos pôr as coisas de maneira que entendam (cá está - um insulto) : imaginem um ateu que babe injúrias furiosas ao Miguel Ângelo e defenda ser o tecto da Capela Sistina um amontoado de bonecos desconchavados indutores de torcicolos, só porque a obra foi encomendada por um Papa (esse tirano clerical) ou porque retrata "crendices ridículas". Ou então, imaginem uma criatura que insultasse corajosamente o cadáver do António Ferro e se recusasse a lê-lo, por ter andado nas companhias que se sabe. E o José Gomes Ferreira? E os Esteiros e o Soeiro Pereira Gomes? Ou o Gottfried Benn. O Mircea Eliade. Furtwängler. Brecht. Sartre. Não reconhecer um plano da Riefenstahl ou uma cena do Pudovkin.
Não sejam estúpidos. Tentem separar as coisas.