Segunda-feira, 31 de Maio de 2010

Gaza e os tréns de cozinha

É preciso uma certa dose de bondade para achar que facas de cozinha e canivetes de bolso constituem armas per si e que a sua utilização para outros fins, nomeadamente de ataque a outros, é a prova de que a violência era premeditada. Só faltava mostrarem cintos apreendidos, que poderiam ter servido para estrangular os soldados, ou sapatos de salto afiado, que com pontaria cegariam qualquer um.

Não está em causa a reacção violenta dos tripulantes do navio e a necessidade, então, de defesa das tropas desembarcadas. Está em causa o que vem antes: a abordagem absolutamente estúpida dos israelitas, um desembarque de comandos às duas da manhã num navio o de gente cuja sanidade não será seguramente elevada e cujo perigo era, se não baixo, de controle relativamente fácil. Como disse uma deputada trabalhista, You simply do not send commandos into a PR situation. Ler também isto.

Claro que a estupidez daquela abordagem deriva de algo mais profundo e essencial, a forma como Israel lida com tudo o que entende ser uma ameaça à sua segurança e à sua sobrevivência. Criticar um acto estúpido, gravíssimo, consequente dos sentimentos de impunidade e prepotência próprios de um estado cada vez mais pária não implica, por um segundo que seja, a adesão ao discurso ou aos métodos do "outro lado". A clubização extrema do tema é realmente fácil, mas ainda é uma escolha.

Ajuda humanitária

Se a intenção era a ajuda humanitária, porque não a deram a quem a faz chegar todos os dias a Gaza? E para quê estas armas, senão para aquilo que serviram? E o que seria uma resposta proporcionada por parte das Forças de Defesa Israelita? Facas, correntes e matracas?

Com som e tradução



O ponto de vista do Parlamento israelita, pelo seu porta-voz, à BBC.

Se não me engano...

Este pacifista...


... é o mesmo pacifista que participou no linchamento do comando israelita, que desencadeou a violência na flotilha turca pacifista. Imagem daqui.

4a às 18h30




Uma espécie de táctica do quadrado

...mas ao contrário: invadir o inimigo que se encontra num terreno bastante delimitado, e fazê-lo com força desproporcional, na certeza que o ele, o inimigo, numa reacção esperada perante tal desproporção, entre a emoção, a loucura e o desespero, "cerque", em quadrado ou círculo ou elispse, os atacantes com os meios disponíveis - garrafas de vidro, colheres de pau, armas entretanto roubadas -, com isso provocando uma ameaça suficiente para justificar uma limpeza que deixaria os aficionados de jogos de computador a salivar... E ainda há quem não reconheça a superior inteligência daquela gente.
[reescrito]

Razões de uma candidatura


1. No próximo dia 8 de Junho, o CDS vai a votos para a eleição dos órgãos Distritais de Lisboa;
2. Há 10 anos que não há eleições disputadas na Distrital de Lisboa do CDS;
3. Os actuais responsáveis pela Comissão Política e Assembleia Distrital pretendem revezar-se nos respectivos cargos, contornando a norma estatutária de limitação dos mandatos, não mostrando capacidade, nem tão pouco vontade, de contribuir com novas ideias e melhores propostas, susceptíveis de servir as pessoas;
4. O CDS, a nível nacional, tem vindo a crescer, sem que a estrutura distrital esteja à altura desse crescimento, reflectindo-se nos resultados eleitorais locais;
5. O CDS tem uma larga tradição no distrito de Lisboa, necessitando nestes difíceis tempos que Portugal atravessa, de uma renovada geração de políticas e de políticos;
6. O candidato, já conhecido, Dr. Telmo Correia, foi eleito há poucos meses deputado pelo distrito de Braga.

Entendemos, como imperativo de militância, apresentar um projecto alternativo, que visa procurar devolver ao distrito um CDS mais dinâmico, mais mobilizador e mais empenhado. O tempo é de crise e não se coaduna com políticas gastas e com políticos já comprometidos com outros desafios. Decidi, em conformidade, apresentar a minha candidatura à presidencia da Comissão Política Distrital de Lisboa, contando a meu lado com outros 18 candidatos. Eduardo Nogueira Pinto e Nuno Pombo encabeçam respectivamente a lista à Mesa do Plenário e ao Conselho de Jurisdição. Como mandatário contamos com o apoio de José Luís da Cruz Vilaça.

Realmente, um grande dilema...


















Num teste de acesso aos cursos de formação de polícia: a PSP é informada da presença de um grupo de indivíduos numa discoteca em Lisboa que se desconfia estar na posse de armas brancas e de montante substancial de material estupefaciante. Não existem saídas de emergência na discoteca e o perigo imediato é baixo. O que fazer?

(1) Montar unicamente uma operação à saída da discoteca, de dimensão calibrada para o risco esperado, isto é, o perigo provável que poderá emanar do grupo suspeito.

(2) Montar uma operação à saída da discoteca de dimensão suficiente para poder lidar com o perigo máximo estimado.

(3) Montar uma operação à saída da discoteca de dimensão suficiente para poder lidar com o perigo máximo estimado, simultaneamente enviando agentes especiais desarmados para o interior da discoteca, com cartão verde para, consoante o contexto, falar com indivíduos do grupo suspeito e/ou indivíduos não suspeitos, de modo (i) a averiguar do perigo envolvido e (ii) minorar efeitos colaterais do confronto previsível à saída da discoteca.

(4) Enviar um grupo de comandos para o interior da discoteca, armados até aos dentes, para pôr ordem na casa e evitar que os estupefacientes acabem no mercado de rua.

PS: na foto, Eduardo Pitta com doses cavalareves de testosterona, atento a movimentações de anti-socratistas.

Win-Win situation, diz uma pacifista



Outro pacifista a bordo da flotilha turca,

E a reportagem actualizada, por um jornal, de costume, extremamente pacifista.

Mais imagens da pacífica recepção dos comandos israelitas que se preparavam para arrestar o barco, depois de este ter sido devidamente avisado de que não poderia prosseguir, sob pena de romper o bloqueio a Gaza, imposto por Israel, em guerra com o Hamas.


Aqui, o quadro jurídico da questão, tal como é equacionado por Israel.

O exército de Maomé

Quem é a IHH, a principal organização da flotilha que foi barrada pelas Forças de Defesa de Israel, à aproximação de Gaza, quando pretextava trazer ajuda humanitária, num confronto, hoje, de que resultaram 15 mortos, entre os «activistas da paz», e seis soldados feridos? Um relatório, de 2007, do Danish Institute for International Studies, esclarece, e eu traduzo:

- O fenómeno dos grupos/frentes de caridade que fornecem apoio à Al-Qaeda não está de modo algum circunscrito exclusivamente aos limites da Península Arábica. Com efeito, noutras paragens do mundo muçulmano, outras entidades deste género se estabeleceram com quase idêntico sucesso - como na Turquia, com a chamada Fundação para os Direitos Humanos, Liberdades e Ajuda Humanitária (IHH). As autoridades turcas iniciaram as suas prórpias investigações criminais sobre a IHH em Dezembro de 1997, altura em que as fontes revelaram que os líderes da IHH estavam a comprar armas automáticas a outros grupos regionais islâmicos. Os escritórios da IHH em Istambul foram amplamente investigados, e os seus responsáveis presos. As forças de segurança descobriram uma vasta gama de artigos inquietantes, incluindo armas de fogo, explosivos, instruções para a confecção de bombas e uma bandeira da Jihad. Depois da análise dos documentos apreendidos à IHH, as autoridades turcas concluíram que «os membros detidos da IHH iam lutar para o Afganistão, Bósnia e Chechénia».

- Uma análise aos registos de chamadas telefónicas da IHH em Istambul mostrou repetidas chamadas em 1996 para uma casa da Al-Qaeda em Milão e vários operacionais terroristas argelinos noutras partes da Europa - incluindo o famoso Abu el-Ma'ali, que foi posteriormente chamado pelas autoridades norte-americanas «Osama Bin-Laden Junior».

Et caetera.

Aqui, está o vídeo da partida da flotilha de Istambul, no passado dia 24. Os «actividas da paz» gritam:

Intifada, intifada, intifada!
Khaybar, Khaybar, ó Judeus! O excército de Maomé vai voltar!



Khaybar foi o sítio onde Maomé esmagou a comunidade judaica existente, matou os seus líderes e tomou uma das viuvas para sua mulher.

Aqui, está outro vídeo, onde se vê a recepção pacífica feita pelos «activistas da paz», aos soldados israelitas que executavam barragem à flotilha.



O último prego


Manuel Alegre está a pagar os custos de ser o candidato das esquerdas: conseguiu a admiração eterna de Louçã, mas abriu irremediavelmente velhas feridas no PS, nomeadamente com Mário Soares e Sócrates e os seus pequeninos. Por isso, na escala das megaproduções propagandísticas do PS de Sócrates, o apoio a Alegre equivale a nada – está, portanto, à escala do potencial do candidato. A sua derrota, que é inevitável, marcará simbolicamente o início do fim de Sócrates. E não deixa de ser curioso – quase poético – que seja o outrora miúdo que pregava pregos a pregar o último no caixão do Governo.

Tendes no governo português um amigo

«A comissão nota com extrema preocupação que, na Venezuela, grupos como o Movimento Tupamaro (foto), Colectivo La Piedrita, Colectivo Alexis Vive, Unidad Popular Venezoelana e Grupo Carapaica estão a perpetrar actos de violência com o envolvimento ou aquiescência de agentes do Estado» (§ 41)


A Comissão Inter-Americana de Direitos Humanos, de que são membros, entre outros, Filipe Gonzalez, principal corpo da Organização dos Estados Americanos para a promoção e protecção dos direitos humanos, não é autorizada a entrar na Venezuela desde 2002. Apesar disso, dada a escalada de repressão e violência política contra os opositores de Chavez, parcialmente coberta pelos media internacionais, elaborou, com base em informação pública, um relatório, datado de 30 de Dezembro do ano passado, onde revela (reproduzo ipsis verbis o relatório):

- Foram criados mecanismos na Venezuela para restringir as possibilidades de candidatos opostos ao governo acederem ao poder (...) pelos quais 260 indivíduos (...) foram desqualificados para eleições (§ 5 do sumário executivo);
- Uma tendência para o uso de acusações criminais para punir pessoas que exercem o seu seu direito à demonstração ou protesto contra as políticas governamentais. (...) Foram levantadas acusações criminais contra mais de 2200 pessoas em relação com o seu envolvimento em demonstrações públicas (...), que podem conduzir a sentenças de prisão de mais de 20 anos (§ 8);
- O exercício do direito à demonstração pacífica na Venezuela conduz frequentemente a violações do direito à vida e ao tratamento humano (...) consequência do uso excessivo da força do Estado ou da acção de grupos violentos. (...) Entre Janeiro e Agosto de 2009, seis pessoas foram assassinadas em demonstrações públicas, quatro delas em resultado de acções das forças de segurança do Estado (§ 9);
- Numerosos actos violentos de intimidação levados a cabo por grupos privados contra órgãos de comunicação social, conjuntamente com declarações de altos responsáveis do Estado, contra esses media e jornalistas, por causa das suas linhas editoriais (§16);
- Dois assassinatos de jornalistas em 2008 e 2009, levados a cabo por pessoas não identificadas, juntamente com ataques físicos sérios e ameaças contra repórteres e os seus órgãos de informação (...), incidentes que demonstram o grave clima de polarização e intimidação em que os jornalistas têm de trabalhar na Venezuela (§ 17);
- O aumento de procedimentos administrativos sancionando órgãos de informação que criticam o governo (§ 18), (...) casos de censura prévia (§ 19), (...) procedimentos iniciados em Julho de 2009 visando o possível cancelamento das concessões de emissão a 240 estações de rádio (§ 20).

«Têm aqui um Governo amigo do Governo da Venezuela», disse-lhes este fim-de-semana Sócrates.

Deve ser por acaso

No ano passado, no clímax do caso das escutas, os comentadores televisivos afectos a Passos Coelho (gente que, por mistérios insondáveis, se considera e é considerada de direita) mostravam grande clarividência: Cavaco Silva devia pedir a resignação do cargo, ir para casa ajudar as nanas a tratar dos netos, aproveitar o resto da reforma com a dignidade que ainda lhe sobrava, de certeza absoluta que não se recandidataria, se se recandidatasse iria ser humilhado nas urnas, e demais profecias sumamente sagazes.
Agora, na blogosfera passista (deixei de ver comentário político em televisão, para além da sempre interessante Quadratura do Círculo e das raras vezes em que aparece alguém que diz coisas dissonantes das verdades estabelecidas pelos comentadores de esquerda - mesmo os que, iludidos, se pensam de direita - como o Henrique Raposo) também já sabem: Cavaco Silva agora (da outra vez, afinal, e apesar de tanta certeza, foi só falso alarme) é que vai perder, por causa da promulgação do casamento gay.
Espera-se que Passos Coelho seja substancialmente mais inteligente do que aqueles que o apoiam e entenda que a reeleição de Cavaco Silva lhe é necessária. Pelo élan de ter uma vitória nas primeiras eleições, mas também porque nunca - repito: nunca - Alegre patrocinaria uma passagem de poder do PS para o PSD (não, nem para ser o simpático presidente que doma a 'direita'); Alegre só encurtaria a presente legislatura se, livre da enfermidade socrática, o PS fosse novamente o mais votado e pudesse governar sozinho ou, preferencialmente, com o BE.

Nio tiendriemos caindidato

Sócrates decidiu e pela mão de Francisco Assis fiquei a saber que o PS desistiu de apresentar um candidato próprio às próximas presidenciais: apoiará Manuel Alegre, cuja militância socialista sobrevive apenas formal e muito, muito discutivelmente.

Saudades de Sampaio?

A questão presidencial à direita deste PS provavelmente redundará numa questão prática. Há uma agenda reformista, mais ou menos traçada em linhas gerais, que o PS não fez e que não é defendida pelos partidos à sua esquerda. Esta agenda é defendida, com maior ou menor intensidade, à direita. O Presidente poderá ser um facilitador destas reformas ou uma força de bloqueio. Têm saudades da retórica de vida para além do défice ou de assuntos de gestão da RTP mandados para o Constitucional? É simples, bastará não votar Cavaco.

O país tem as prioridades que lhe apetece

Cavaco não queria distrair "o país" do problema económico, mas acabou involuntariamente a assistir a uma discussão ainda mais estéril sobre as presidenciais.

Mas alguém ainda acredita neste homem?

"Apoio Manuel Alegre de forma convicta", disse José Sócrates, ontem à noite, no final da reunião da Comissão Nacional do PS. Até Manuel Alegre se deve estar a rir.

Domingo, 30 de Maio de 2010

Para variar o tema



Sobre um livro de que já aqui falei. Para os que queiram alguma informação mais sistematizada, aqui. Para os que, não tendo a mais pequena pachorra para se informarem capazmente, mas não prescindem de dar palpites sobre tudo e mais alguma coisa, aqui fica um súmula do que podem encontrar lá dentro:
- entre 1990 e 2008, a taxa de crescimento médio anual em Israel foi de 4,8%, quase dupla da média da OCDE (2,5%);
- Israel tem um persistente excedente da balança de transacções correntes (excedente externo, ao contrário de défice externo), desde 2003;
- de 2003 para cá reduziu o nível de dívida pública em 23 pontos percentuais do PIB;
- a despesa pública baixou, no mesmo período, de 52% do PIB para 44%;
- é a economia com maior número de cientistas per capita e o país com maior nível de investimento em Investigação & Desenvolvimento do mundo: 4,7% do PIB;
- a seguir aos EUA, é o país com maior número de empresas cotadas no NASDAQ;
- é a segunda maior concentração de empresas high-tech do mundo, a seguir a Silicon Valley;
- quatro israelitas, nos últimos cinco anos, ganharam prémios Nobel nos campos da Economia e Química.

High Standards (2)

Os Loucos Anos 80 (111)

The House of Love, "Christine", 1988

Grécia aconselhada ...

A Grécia está a ser aconselhada a abandonar o Euro e incumprir na sua dívida, pelo Centre for Economics and Business Research (CEBR).

Ler

"As desvantagens da alternativa fiscal", pelo Ricardo Reis no i.

Se o ridículo matasse, o impasse político resolvia-se

Ele não tem vergonha. Mas não há ninguém ao pé dele que tenha? E lho faça sentir que tem? Ou é tudo da mesma laia? Sem excepção?

Discos que giram ao domingo (2)


Junius – The Martyrdom of a Catastrophist

Ano: 2009
Origem: EUA
Género: post-rock

[Tocam dia 1 em Guimarães e dia 2 em Lisboa]

Alta tensão

Dificilmente

Como é óbvio, dificilmente surgirá um candidato presidencial alternativo a Cavaco na área da direita. Ninguém se quererá prestar ao divisionismo. Mas é bom que o Presidente da Repúbica, depois de defraudar o eleitorado conservador promulgando o casamento gay com argumentos hipócritas, não dê o voto católico por seguro, como parece ter dado por seguro o voto laranja - depois de comprometer seriamente o resultado do PSD nas últimas legislativas.
Nem sempre somos obrigados a optar pelo mal menor. Por mim, votarei em branco em Janeiro. Será a primeira vez na vida e tenho algum receio da derrota de Cavaco, mas há momentos em que a ética da responsabilidade vem à frente das convicções, não é?

Sábado, 29 de Maio de 2010

A propósito do que aconteceu hoje em Lisboa: oh if only they had a hammer!... And we, and we...

O euro como destino

É normal que Mário Soares tenha do significado do que é uma moeda mais ou menos a mesma precisão de ideia que eu tenho do que é um querubim: demasiado vaga. A moeda - tê-la - sempre foi um pressuposto da vida política. Naturalmente que somos - e de que maneira! - regidos pelas leis desse, como dos demais «pressupostos» e, não por acaso, visões conspiratórias do mundo ambiente incluem com notável regularidade notícias de poderosíssimos banqueiros, centrais, de preferência, em misteriosíssimas reuniões, em castelos na Itália ou em ranchos afastados de tudo, onde, diz-se, se decidem os destinos da humanidade. Mas para tratar de assuntos tão excessivamente complicados os políticos (género Soares) costumavam ter umas criaturas ao seu lado - os ministros das Finanças - que davam conta do recado. Estes, por seu turno, faziam a ligação entre o universo esotérico da moeda e os políticos - que se limitavam a querer resultados e, no pior dos casos (para eles), a receber dos seus ministros respostas peremptórias sobre a impossibilidade de voar, ou o inconveniente de tentar fazê-lo. Não é assim com Cavaco. Da biografia dele, que li quando saiu, no ano que antecedeu a sua campanha, retenho que ele considera, ao contrário do que se diz, ou julga, que a maior reforma que os seus governos realizaram foi a adesão do escudo ao Sistema Monetário Europeu. Ele sabe do que fala. Foi a nossa pré-entrada no euro. Sem ela não teríamos lá chegado. Releiam a biografia e confirmem.

Mas o ponto aqui é outro, completamente diferente. O ponto é que a adesão ao euro foi um desígnio nacional, pensado por políticos fundadores como Cavaco - que sabem o que é a moeda - e por políticos fundadores - que não sabem -, de igual modo: o euro era, por assim dizer, a nossa prova de identidade substituta. Coroava a entrada na «Europa», terminando o período de nojo pelo fim de uma era de cinco séculos, durante a qual Portugal se pensara como império. Era, o euro, o apogeu do novo regime e a garantia da sua viabilidade. Não interessa acumular aqui o brumoso inventário de sonhos evasivos que se colaram a esse desígnio. O resultado está à vista. O euro falhou e Portugal é a mais viva evidência disso mesmo. A negação desse fracasso, em que vive, é extremamente favorecida pela negação dos seus pares europeus. Se perante um terramoto nos juntarmos todos a dizer que o abalo é passageiro é natural que o creiamos, até nos faltar o chão sob os pés. Não interessa agora, tão-pouco, fazer a arqueologia das razões e desrazões por que o euro foi, com igual paixão, ou maior, se possível, na «Europa», objecto de devoção. Para nós, era o futuro tornado presente, e é o que me importa.

A potência metonímica do euro foi o que o pôde converter em destino - para nós. Nele tudo se concentrava. Cavaco e Soares quiseram-no com igual convicção e eles e todos os que eles representaram a ele aderiram e nele se empenharam de corpo e alma. Que o desastre estivesse previsto por gente muito avisada - em geral, não por acaso, não europeia - não foi obstáculo. Parece que ninguém parou para pensar. A paixão que mobilizou e obnubilou quem não devia, ou podia não ter sido, é a mesma «razão» por que a saída não é sequer considerada. Não é fácil desistir de «tudo», mesmo quando «tudo» parece estar errado. A verdade é que o euro não é tudo, e é apenas uma coisa, nem sequer essencial, totalmente errada.

5% ou 10% pouco importa

Deep down isto padece de ingenuidade, que se desilude facilmente.

A propaganda rasca de Sócrates

A história que o Gabriel Silva refere aqui resume bem o nível desta gente. Depois do próprio Sócrates pedir um encontro com Chico Buarque, o gabinete do Primeiro-ministro tratou de espalhar pelos jornais portugueses que o famoso músico brasileiro é que tinha pedido a Lula da Silva o encontro. Segundo as notícias fabricadas, porque Chico Buarque "queria muito conhecer José Sócrates". Definitivamente não há vergonha neste Governo.

Sexta-feira, 28 de Maio de 2010

Repugnar

Vale a pena ler este texto da vizinhança - sobre uma certa parasitagem carnavalesca que amanhã acompanhará a manif da CGTP.


(Também é por estas e por outras que, só por malícia ou ingenuidade, alguém pode mostrar-se chocado pelas (não-)reacções do PCP às recorrentes "renovações", "aberturas", "refundações", etc. Não deixam de ser movimentos desviantes - como tais, contraditórios. E, meus queridos, o contraditório é aquilo que é por excelência repugnante para uma identidade.)

Correcção

Não, não é verdade. Querer encerrá-lo seria dar-lhe ainda alguma importância (a importância do alvo). Trata-se de indiferença.

Zidane


Este será o primeiro mundial desde há muito sem Zidane. Estarão lá outros prodígios como Cristiano Ronaldo e Messi. Provavelmente, são até superiores a Zidane - muito mais rápidos, muito mais goleadores, etc. Mas havia qualquer coisa de superiormente estético, e até de épico, na forma de jogar de Zidane. A elegância lendária dos seus movimentos e o modo como a bola parecia diferente nos seus pés tornavam-no distinto dos outros. Até a célebre marrada com que terminou a carreira teve algo de Aquiles e da sua fraqueza.

Histerias selectivas

A reacção à promulgação por Cavaco Silva do diploma do casamento gay está, há que reconhecer, a raiar a histeria. É certo que Cavaco Silva teria feito bem melhor em vetar a lei: as engenharias sociais devem ser travadas ou obstruídas sempre que possível. E as desculpas do PR são ridículas: um veto numa questão de valores não tem qualquer efeito numa crise económica e o facto de a AR poder votar novamente a lei, forçando a promulgação- algo que não se sabe se sucederia, afinal não é uma política muito popular e, depois das medidas de austeridade, talvez o PS pretendesse não irritar mais o eleitorado - também não é razão para se deixar de vetar; nesta coisa dos princípios, é importante tomar uma posição, mesmo que não tenha efeitos ou se venha a ter dissabores pela ousadia. Mas Cavaco promulgou e na verdade ninguém pode ignorar que as questões económicas são determinantes na actuação do PR. Nem só de pão vive o homem, mas os homens tendem a esquecer-se disso quando não têm pão. Por mim, nem por um momento questiono o meu voto em Cavaco Silva. Não pretendo ter um lírico aprisionado nos anos sessenta a defrontar-se, em Belém, com o mundo de 2011.

A reacção à decisão do PR é tanto mais estranha por ser muito mais histriónica do que aquando da promulgação por Cavaco Silva da liberalização do aborto até às dez semanas de gravidez (e, para mim, o PR devia ter vetado essa lei, já que nada no referendo falava de abortos pagos com dinheiro dos contribuintes nem de ausência de aconselhamento às grávidas que ponderem abortar). A existência de um referendo não desculpa: 60% dos eleitores não quiseram saber do assunto, o que o tornou não vinculativo. Para o casamento gay não houve referendo, mas os partidos de esquerda eram reconhecidamente favoráveis, pelo que havia legitimidade eleitoral. Acresce que este casamento gay será relativamente inócuo - a Coco Chanel e o Paul Poiret, com as suas roupas que permitiam às mulheres movimentarem-se, fizeram mais pela igualdade entre os sexos do que qualquer peça legislativa, e não é por imposição legal que os casais homossexuais terão o reconhecimento social que almejavam com a presente lei - enquanto que a legalização do aborto tratava de exterminar pessoas absolutamente desprotegidas. Algo, parece-me, substancialmente mais grave. E se houve muitos católicos (leigos e consagrados) empenhados na campanha contra o aborto, é certo que a hierarquia da Igreja em Portugal entendeu olhar para o lado e aceitar, entregando uma declaração de voto, a liberalização do aborto. Fica a ideia que, tal como Cavaco, se decidiram pelo pragmatismo: a maioria é favorável à liberalização do aborto, aceite-se o aborto; a maioria é contra o casamento gay, combata-se o casamento gay. Não vale a pena o Senhor Cardeal Patriarca rasgar as vestes.

Um novo rumo para Portugal?

Foi ontem apresentado o Projecto Farol, um novo think tank que promete dar que falar. Romper com o "pacto de conivência" é um dos motes dos seus promotores, que inclui nomes como Belmiro de Azevedo e Pinho Cardão. A acompanhar nos próximos tempos.

Chomsky e os seus

Noam Chomsky está de volta aos seus. Encontrou-se ontem com o sheik Muhammad Hussein Fadlallah, o líder espiritual do Hezbollah, a quem deu conselhos tácticos. Nada de novo: o apoio de Chomsky a este, como a qualquer outro, movimento empenhado na eliminação de Israel - de facto e declaradamente no extermínio judaico (Cf. aqui, a auto-apresentação do sheik) - é uma constante da sua vida. Que já vai longa. Nem Chomsky é o primeiro judeu da história a dedicar a sua vida ao extermínio judaico. Mas há algum povo à face da terra que não tenha tido nos seus traidores os seus maiores e mais eficazes inimigos? O mesmo vale para os EUA, onde Chomsky nasceu e de que é cidadão, pátria a que vota um ódio não menos obsessivo.

PSD; 43.9% ; CDS-PP: 7.5%

"Valem o que valem", mas não deixam de ser boas notícias.

A ver

Também me parece um conselho ajuizado.

Quinta-feira, 27 de Maio de 2010

Chesterton, Sábado

Continua o clube de leitura da Aletheia, ainda sobre Chesterton. No próximo Sábado, às 15h30, falarei dos capítulos IV e V da Ortodoxia.
A "Moral do País das Fadas" à Calçada do Combro. Apareçam.

A viagem do museu (2)

Uma curtinha notícia do Público diz hoje que o Ministério da Cultura e o Ministério da Defesa não estão a pensar extinguir o Museu da Marinha, afinal, mas que o futuro Museu da Viagem vai mesmo para os Jerónimos, ocupando o lugar do Museu de Arqueologia.
As suspeitas confirmam-se, mas a notícia é estranha. Aparentemente, haverá uma tutela conjunta dos dois museu, mas de que modo? Na dependência de que serviço público? Será criado um novo chapéu administrativo? O espaço será contíguo mas diferenciado? Cada um deles terá a sua própria colecção? E de onde virá o espólio do Museu da Viagem?
Há aqui qualquer coisa que não bate certo. Dá ideia que a notícia se destina a tranquilizar a opinião pública, alarmada com o possível fim do Museu da Marinha, mas que o Ministério da Cultura voltará à carga quando os abaixo-assinados e as movimentações na internet passarem. Foi o que a anterior Ministra tentou fazer com o Museu de Arte Popular. E teria feito, acreditem, se não fosse a persistência de algumas pessoas que merecem o nosso aplauso. Quase a ganhar a batalha do Museu de Arqueologia, Gabriela Canavilhas não quer abrir outra frente de guerra. Para já.
Por quanto tempo?

Cachimbos de lá


Roger La Fresnaye, Natureza morta com garrafa e cachimbo, 1913.

Programa da "Avenida"

Hoje, mais de 2000 polícias em protesto, itinerário Marquês Pombal - Praça do Comércio.

Respondendo a apelo da CGTP, andam já uns carros com som de exterior a apelar: este Sábado vamos descer a Avenida.

Imagino que durante a semana comece já a ocupação de passeios e vastas áreas de estacionamento para a montagem de bancadas relacionadas com o Santo António (fim de semana a seguir).

Começo a dar razão ao Manuel Salgado, o melhor é mesmo escritórios com isto e esquecer habitação. Na Avenida e à volta.

Brincadeiras de género

Segundo o Diário de Notícias, o Bloco de Esquerda vai avançar com uma iniciativa legislativa no Parlamento que visa permitir que um homem se torne mulher mantendo pénis e uma mulher seja homem mantendo a vagina. Como? Espero não me ter enganado, bolas!, perdão camaradas, sem ofensa, não pretendia ser brejeiro muito menos homofóbico. O que vale é que a coisa é menos complexa e dolorosa do que parece. Nem é preciso ir à faca. Para ser um verdadeiro transexual em Portugal basta mudar o bilhete de identidade. Pois é camaradas. Continuem a brincar aos médicos, aos papás e às mamãs e outras engenharias sociais e depois espantem-se que o povo goze com o pagode.

Boa vida

Certo, Zapatero é Zapatero e está tudo dito (como Sócrates é Sócrates e está tudo dito). Mas ao menos Zapatero enxerga-se: comunicou hoje que não põe os pés na reunião da Aliança das Civilizações, uma organização com um nome superlativamente ridículo, uma daquelas coisas que seriam fatalmente inúteis, se não servissem para digníssimos membros seus, como o Irão, a Síria ou a Organização da Conferência Islâmica, proclamarem os seus elevdíssimos padrões civilizacionais no circo mediático global, com o alto patrocínio, é claro, dessa luminária nacional chamada Jorge Sampaio, seu «chairman». A «Aliança», sobre ser o que é, reune-se no Brasil, sob os auspícios de Lula, o sindicalista que pretende alçar o Brasil ao lugar de potência de primeiro plano no concerto das nações, alavancado, justamente, no apoio de países como o Irão ou a Venezuela, ou seja, a escória torcionária do planeta. Sócrates, claro, não é Zapatero e vai. Corre-lhe bem a vida e o que é a agenda interna ou europeia para interromper um programinha assim! Enfim, a política externa portuguesa, tirando a Europa, de facto assunto de política interna, tem sido governada pelo grande desígnio de conquistar um lugar no Conselho de Segurança das Nações Unidas. Vendo bem, está lá tudo o que convém arrebanhar.

Pode não parecer, mas houve um tempo em que até o PS se regia por uns mínimos de decência (ainda que não de competência)

Nos tempos do despesista Guterres, quando se instalou a ideia de que todos os nossos problemas (dos públicos e dos privados) se resolveriam se gastássemos dinheiro (privado, mesmo aquele que já foi apropriado pelo público), havia ainda no PS uma noção de decência que até Jorge Coelho aceitava: demitiu-se para assumir a responsabilidade política de um acidente mortal num equipamento tutelado pelo ministério que chefiava. António Vitorino, com bitola semelhante, no meio de umas dúvidas que se verificaram infundadas sobre umas suas propriedades, apresentou a demissão porque, dizia, um ministro não pode estar sob suspeição. Podem parecer comportamentos de uma era distante, regida por estreitos códigos de honra medieval, mas não, passou-se tudo há menos de quinze anos.

Actualmente temos um primeiro-ministro envolto em nuvens mais negras do que as do vulcão de nome impronunciável, que só nos oferece as suas mal amanhadas explicações quando a isso é obrigado; pensa, parece, qual monarca iluminado, ser ilícito media e eleitores pedirem explicações a quem os representa. Temos um deputado que rouba uns gravadores a uns jornalistas porque não gosta das suas questões, que inventa umas desculpas de 'acção directa' e que continua deputado com a bênção do PS. Temos, como no tempo do Estado Novo, empresas e empresários do regime (JP Sá Couto e Mota Engil, só para dar dois exemplos) com quem as negociatas mais escuras são feitas, com a originalidade de serem feitas às claras.

A herança de Sócrates não vai ser apenas a bancarrota; pior do que a bancarrota será a jóia de família de compensar a ausência de ética na política. Afinal Sócrates foi recompensado por ser um vazio ético em Setembro do ano passado.

A ler (e reler)

In short, in spite of unprecedented resources devoted to our Education system, and in spite of a self-proclaimed “passion” for this area, Portugal continues to lag in terms of average schooling years and in terms of the quality of human capital (proxied by the PISA results) vis-à-vis virtually every country in the OECD.
Thus, and in spite of all the political rhetoric that we are often bombarded with, our governments truly deserve a fail in their effort to improve our average human capital. And it is this disadvantage in our human capital that, more than major public works, will be one of the true determinants of our competitiveness and our success in the future.

Iberismo



Apesar do Miguel Morgado continuar a alertar para a possível agenda escondida dos federalistas europeus que está a ser introduzida na janela de oportunidades criada pela actual crise, suspeito que ninguém o ouvirá. Não só porque romper com a retórica dominante, em que todos bebem das mesmas fontes e replicam-nas à exaustão, implica um espírito criativo, crítico e livre sempre escasso mas também porque, a tomar como representativos os resultados do Barómetro de Opinião Hispano-Luso de 2010, os portugueses crescentemente parecem desinteressados em manter o projecto Portugal como seu. Na resposta à pergunta "Portugal e Espanha deveriam unir-se para formar uma Federação" eis os resultados:

"No Barómetro de 2009 a idea de uma Federação de Estados era apoiada por 30,3% dos espanhóis e 39,9% dos portugueses. Um ano depois, 31% dos espanhóis está totalmente de acordo ou de acordo com esta alternativa, enquanto que entre os portugueses o número ultrapassa os 45%, concretamente chegando aos 45,6%.
Os espanhóis mostram-se, contudo, em boa medida indiferentes (29,7%), o que não ocorre, pelo menos na mesma magnitude, entre os portugueses, que adoptam posturas algo mais polarizadas no que diz respeito a este assunto."

Indigno, diz ela & outras coisas no Público de hoje


«Merkel tem uma opinião muito fraca de Barroso e não o esconde», diz um analista hoje citado pelo Público. Fraca? Diz que ele tem um comportamento «indigno». Ah! Agora imagine o que há-de pensar um português, que se empenhou como pôde no governo dele, convencido que o homem era de alguma serventia, para num belo dia saber que a reacção do homem às dificuldades que o país então vivia, que, a custo, acabou por compreender, foi pirar-se (não acredito na justiça imanente, mas que parece estar a pagar as passas do Algarve parece). Pois é: indigno. Muito mais do que a senhora pensa.
....
«Portugal arrisca-se a passar mais 15 anos sem resolver o problema do défice», titula o jornal, na notícia sobre o sombrio relatório da OCDE. É falso. Não arrisca. Se o país não resolver, e rapidamente, o problema do défice, o défice resolve-se sozinho. Sem o país. Pondo-o a pão e água. A água, sobretudo. Não parece, mas isto tem tudo a ver com aquele senhor ali em cima. Também.

Atribuição merecida

Medalha de Mérito "Socrático"


É inesquecível, ficará para sempre gravado nos nossos corações, o auxílio inesperado ao senhor primeiro-ministro, quando ele, coitado, se encontrava cercado de todos os lados e não se atrevia sequer a aparecer, preferindo responder por escrito - sem as suas inflexões convictas na voz, sem as suas caretas de homem determinado e, nunca o saberemos, sem outras mímicas plenas de sentido de Estado. Privou-nos de um lindo e revelador espectáculo, mas não se pode levar a mal que não quisesse arrostar com a sanha persecutória de uns quantos deputados cegos de ódio e embriagados "desse primarismo da verdade", para usarmos a expressão desse antigo jovem promissor já prometido que é Sérgio Sousa Pinto. É verdade que já se vinha notando, nas sessões, uma estranhíssima animosidade do contemplado para com os deputados do PSD, do PCP, do CDS e do Bloco - mas nada fazia prever este gesto de lucidez imperativa que fez com que tudo acabasse. A bem da Nação.

O fim do Jus publicum Europaeum

Quarta-feira, 26 de Maio de 2010

Uma história de decadência

(Ligações corrigidas)
Obama confirmou e superou todas as piores expectativas, todos os piores receios que a iminência da sua eleição suscitou. O ano e quase meio que já lá vai foi um ano de sucessivos fracassos - perigosos fracassos para todo o mundo - da sua política externa. A recente humilhação que o Brasil e a Turquia (país aliado) lhe infligiram, e toda a sequência de eventos que se seguiram ao acordo com o Irão, que seriam cómicos se não desenhassem um cenário ameaçador, merece um balanço ou, pelo menos, uma descrição comentada de como semelhante golpe na credibilidade dos EUA foi possível (porque não era imaginável: lá está, Obama é pior e, por isso, mais perigoso do que, pelo menos eu, optimista incorrigível, alguma vez pude imaginar). A tarefa não tem sido fácil, para mim que ando a pensar fazer esse balanço, pois a «bola», como diz o Miguel, a «bola», aqui, está a ocupar-me demasiado, e não tenho sido capaz de parar e olhar com menos sufoco para a distribuição no campo. Além do mais, é preciso tentar compreender Obama, o indíviduo, para tentar perceber com um mínimo inteligência como é que o que antes era impensável se foi construindo. O indivíduo Obama é um presidente único. Tenho vindo a pensá-lo como o mais europeu dos presidentes dos EUA. Um presidente que parece ignorar as realidades duras das relações internacionais, convicto defensor do multilateralismo, que parece adoptar como uma ideologia e não como uma possibilidade pragmática (recomendável, ou não, conforme as circunstâncias), numa situação algo paradoxal, pois se faz algum sentido uma tal posição na Europa, cujo capacidade de iniciativa própria na cena do mundo terminou irreversivelmente em 1956, não faz nenhum no caso dos EUA, com responsabilidades e capacidades excepcionais (que obviamente não podem descurar alianças e o envolvimento dos aliados). Penso ainda arranjar tempo para o balanço do desastre em que se converteu a Presidência Obama, mas, para já, recomendo a leitura de dois artigos, que deitam alguma luz sobre o homem e a sua maneira de agir, sem a consideração dos quais é impossível produzir uma narrativa coerente sobre os acontecimentos que não param de nos surpreender todos os dias pela negativa. John Bolton, ex-embaixador dos EUA nas Nações Unidas, caracteriza a criatura como o primeiro Presidente Pós-Americano da América; Daniel Halper, corroborando muitas das observações de John Bolton sobre o que faz correr Obama, fala da «sua profunda falta de sentido histórico», de forma muito persuasiva, embora à primeira vista inesperada, em alguém que tem como imagem de marca uma formação cultural acima da média dos últimos presidentes. A ler. Pela minha parte tentarei ainda, um dia destes, ordenar ideias sobre o mais grave e momentoso fiasco dos tempos que correm: Obama e a sua presidência nefasta.

Agora a Sério

A peça de Tom Stoppard, em cena no Teatro Aberto, é uma escolha de Pedro Mexia, responsável pela tradução e encenação. Agora a Sério – no original “The Real Thing” – conta a história de um dramaturgo dividido entre duas mulheres. A peça é de 1982 e lança o debate em torno de temas como o talento, a fidelidade e percepção da realidade.

Agora a Sério põe em palco Ana Brandão, São José Correia, João Reis e Pedro Lima, nos principais papéis. Se a conjugação de actores é bem conseguida, a interpretação de São José Correia e de Pedro Lima mais “natural”, num registo televisivo, onde o cómico sobressai na linguagem corporal, contrasta com a de Ana Brandão e João Reis, com trabalhos de composição apurados, onde a ironia perde-se, ofuscada pela densidade dramática.

A distinção entre actores é notória e levanta a questão: será possível conciliar no palco duas visões tão distintas de interpretação? É que no final, o enredo enxuto de Stoppard, autor de argumentos como o Império do Sol, ou Shakespeare in Love, perde ritmo e graça, sobrando uma peça com duas velocidades dramáticas, dessincronizadas.

República de bananas

Aqui, Ricardo Salgado anuncia que, se houver uma OPA sobre a PT, o Estado vai usar a sua Golden Share. Aqui, José Maria Ricciardi, em grande estilo, explica a aflição. E aqui Teixeira dos Santos anuncia que vai haver fusões na banca. Parece que já não há mais fundo para bater quando já ninguém sequer se preocupa em manter as aparências. Oxalá assim seja. Capitalismo de Estado, ou socialismo bancário, ou lá como isto se chama - espero que a suinice acabe depressa.

O patético apoio do PS a Alegre

A candidatura presidencial de Manuel Alegre tem sido um conjunto de equívocos e erros grosseiros desde o seu arranque que prenunciam um desastre eleitoral. Se em 2006 as coisas correram relativamente bem, isso talvez se tenha relacionado com a falta de tempo que Alegre teve para pensar a sua campanha presidencial. Esta, tendo sido delineada desde o dia seguinte às eleições de 2006, tem sido um verdadeiro desastre. O planeamento, apesar de essencial, não é sinónimo de sucesso em política.

Alegre andou quatro anos a brincar à oposição interna do PS, para com isso obter o apoio de toda a esquerda, e apresentar-se, em 2010, como o inevitável candidato presidencial do PS. E se acabará por ter o apoio do PS, tudo o resto tem sido um fracasso. Alegre não terá pensado que nestes últimos anos criou muitos anti-corpos no seu partido de sempre. E esqueceu-se também da influência que o seu arqui-rival Mário Soares ainda desfruta no PS. Por outro lado, a sua teoria da "favas contadas" à esquerda também falhou. O PCP lá irá apresentar o seu candidato presidencial, e Alegre ainda terá de dividir o apoio da restante esquerda com o sui generis monárquico Fernando Nobre.

As patéticas reuniões que José Sócrates tem promovido para decidir a sua estratégia presidencial destina-se somente a fragilizar o apoio que vão acabar por oferecer a Manuel Alegre. Com este arrastar da tomada de decisão, o PS demonstra inequivocamente que apenas o irá fazer porque não tem alternativa. Esta semana tem sido prova disso: encontros com várias estruturas, declarações públicas de dirigentes a manifestar a sua oposição a Alegre e várias notícias dando conta do descontentamento de muitos socialistas. Em breve lá virá José Sócrates à televisão para dar conta da sua decisão, e os “aparelhistas”, aqueles que até ao momento têm estado caladinhos, lá virão exclamar o quanto estão entusiasmados com a candidatura de Alegre. Mas na verdade, limitar-se-ão a cumprir os serviços mínimos. No entanto, até às eleições, ainda teremos bons momentos para observar. Por exemplo, acho que ver José Sócrates ao lado de Francisco Louçã e Luís Fazenda a apelar ao voto em Alegre será um grande momento na nossa vida política.

Deus nos proteja dos católicos

Há uma série de críticas que podem ser feitas à decisão de promulgação, pelo Presidente, do casamento entre pessoas do mesmo sexo. Esta, de Aura Miguel, é a mais contraproducente de todas. Não sei exactamente o que cada pessoa espera da política, se o seu credo vertido em lei, se um necessário enquadramento institucional à paz e prosperidade de uma comunidade. Em todo o caso, invocar Cristo e colocar uma barricada acusatória de uma espécie de colaboracionismo profano, com o secularismo como palavra acusatória, é um acender de archotes inquisitórios bem perdidos no tempo.

Um excelente colaboracionista profano foi, por exemplo, Rocco Buttiglione, a quem muitos apontaram o dedo por não acreditarem que o fosse, excluindo-o do cargo de Comissário Europeu. A visão da Aura Miguel, a vingar, daria razão a quem persegue pela fé do outro lado.

«I may think that homosexuality is a sin, and this has no effect on politics, unless I say that homosexuality is a crime.
(...)
Many things may be considered immoral which should not be prohibited.
(...)
The state has no right to stick its nose into these things and nobody can be discriminated against on the basis of sexual orientation... this stands in the Charter of Human Rights, this stands in the Constitution and I have pledged to defend this constitution.»

Estas frases de Buttiglione não servem para a defesa concreta da decisão de Cavaco nem para a matéria sobre a qual decidiu, mas estabelece um princípio de separação de esferas de acção que o argumento de Aura Miguel perigosamente quebra.

Sempre a mesma coisa

(Clicar em cima)

Aqui uma fábula.

água das pedras, ou melhor...

O Prof. Doutor João Ferreira do Amaral calcula que uma redução generalizada dos salários na economia de 30% limitar-se-ia a aumentar a nossa competitividade em 9%. Isto porque, explica o Prof. Doutor João Ferreira do Amaral, o «conteúdo salarial» das exportações é 30%. (O resto é água das pedras?). Como se vê, santos da casa fazem milagres. Para mim, há aqui macumba.

Terça-feira, 25 de Maio de 2010

Santos da Casa Não Fazem Milagres

Quando estive uns dias na Bélgica em finais de Abril, o Governo federal lá do sítio teve que sair. A partir de Sábado, e durante uma semana, deverei estar em Espanha. Ao que tudo indica a minha estada no país das tapas e do AVE poderá coincidir com a queda do "Governo" Zapatero. Pena é que, enquanto estou por aqui, essa coisa decomposta por bonzos inomináveis e pastoreada por Sócrates também não vá desta para melhor. Mas como dizia o outro: santos da casa não fazem milagres.

Uma clarificação

Disse-me o Duarte Schmidt Lino que este post nao era suficientemente claro. Provavelmente, tem razão. Aqui vai, portanto, uma clarificação.
O meu argumento não era jurídico; era económico, moral e político. Por um lado, quis chamar a atenção para o desperdício e a "afectação ineficiente de recursos" que este lamentável jogo das indemnizações e "golden parachutes" de que goza quem está no topo das hierarquias empresariais (públicas e privadas). E que não vale apontar apenas os desperdícios gerados pela protecção laboral a quem mal tem para se desenrascar. Por outro lado, pretendi censurar o conteúdo moral destes actos, como é evidente, tanto no que diz respeito a quem os pratica ou com eles coopera, como com os efeitos morais destas jogadas sobre o resto da população e sobre a comunidade humana que é a própria empresa onde tudo se passa.
Mas, além disso, parece-me que adquiriu um carácter de urgência avisar para as perigosas consequências políticas da defesa deste estado de coisas. Vejo e ouço alguns defender estas práticas escondendo-se atrás da liberdade contratual. Nada a obstar à liberdade contratual, esse esteio necessário da economia de mercado. Todavia, convém notar que se estas jogadas duvidosas forem protegidas a todo o custo pela liberdade contratual, o resultado é que, um dia, se tirará a conclusão mais tentadora e que se pode exprimir assim: "que se dane a liberdade contratual e que se dane a economia de mercado".
Os tempos que correm não são os mais amigáveis para o mercado. É bom, portanto, que não se abuse dele. E seria melhor ainda que se retivesse que quando a justiça e a liberdade estão às avessas, uma delas acaba por ceder o passo, o que quer dizer que, no final das contas, ficamos com nenhuma.

... ou o euro vai partir.

Na minha modesta opinião, nenhum economista português, de entre os que participam assiduamente na conversa cívica, articula - há anos, repito: há muitos anos - os problemas reais do país como Vítor Bento. Com a clareza, o rigor conceptual, a ousadia e o desassombro dele. Por isso, é sempre importante lê-lo. Sobretudo num meio como o português. Pequenino, feito de apertadas dependências e enormes vaidades, sufocado pela auto-censura que essas dependências promovem, tendente ao consenso mole, gregário, horrivelmente gregário no pior sentido do termo, avesso à liberdade de espírito... No fundo, todo o economista com algum talento está talhado para fazer carreira algures, as carreiras são ainda mais escassas do que os talentos verdadeiros, e não são poucos os que aceitam pagar a factura em conformismo deletério. Pois há excepções. A lê-lo, aqui.

Para a propaganda nunca falta dinheiro

Magalhães para todos os alunos do 1.º e 2.º ano no próximo ano lectivo.

Diferenças

PP pede a convocação imediata de eleições em Espanha. Diferenças, diferenças... Aqui ao lado, a oposição não corre (só) por conta da extrema-esquerda, em exercícios de aquecimento para o apocalipse. A direita tem vontade de governar - à direita, justamente, de maneira totalmente diferente. Também queria.

Só não ouviu quem não quis

Uma das tentativas de narrativa desresponsabilizadora do actual momento tem origem no ensaio da imprevisibilidade, sobretudo externa, do mesmo que, de tão imprevisível, ninguém seriamente o teria antecipado. É a linha oficial Socialista para lidar mediaticamente com a realidade.

Uma outra ensaia a incompetência de classes, dos políticos aos economistas, as quais deveriam ter sido capazes de prever, alertar e corrigir, mas não o fizeram. Assim, sem mais, tudo no mesmo saco para espalhar a irresponsabilidade por todos e esquecer a responsabilidade particular dos vários agentes nos seus momentos. É a pergunta ensaiada por alguns jornalistas com cara de quem aterrou hoje em Portugal, como por exemplo Miguel Sousa Tavares ontem na SIC.

Dispenso-me de recordar em detalhe o passado mais recente, nomeadamente na ênfase do problema da dívida por Paulo Rangel e a visão de austeridade com o famoso "não há dinheiro para nada" de Manuela Ferreira Leite: a resposta do país e dos militantes a ambas as agendas é um facto conhecido. Mas basta puxar o filme um pouco mais atrás e lembrar advertências, saindo agora da área da direita, de gente à esquerda como por exemplo Daniel Bessa. Estamos em Dezembro de 2003:

«Factura do Endividamento

As consequências deste elevado nível de endividamento perante o exterior e da sua progressão a ritmo tão elevado ficam à vista. O montante de juros a pagar ao exterior tenderá a aumentar, com o rendimento nacional a crescer tendencialmente menos que o PIB; a subida das taxas de juro, que acabará por se verificar, não deixará de intensificar este desvio. Os spreads deste endividamento externo tenderão a aumentar, a menos que ocorra uma melhoria considerável no risco atribuído à generalidade das operações financeiras em Portugal.

Os credores externos ficarão na posição de decidirem, cada vez mais, sobre as operações de financiamento que devem e que não devem ser efectuadas pelo sistema bancário português (não precisando para isso mais do que pronunciarem-se sobre os títulos que são e que não são elegíveis para operações de securitização), ou, no mínimo, na posição de escolherem como garantia a fracção de maior qualidade, de melhor compromisso entre rentabilidade e risco, na totalidade do activo do sistema bancário português, sendo a garantia dos credores internos constituída pelo activo sobrante.»

Dizia ainda de forma mais contundente para não deixar dúvidas sobre a sua prioridade:

«O défice da balança de transacções correntes com o exterior é o mais grave de todos os problemas estruturais da economia nacional. Mais grave até do que o défice das nossas finanças públicas»

Não vale a pena reescrever a história. Existem muitos mais exemplos e ainda mais antigos. Portugueses ou internacionais. Ouviu quem quis.

Notícia interessante (mais uma)


(A propósito, o que é que aconteceu à famosa fundação em que Carlos Carreiras ia transformar o IFSC? Também fez um acordo com o Governo para hibernar até 2011?)

Kierkegaard, o ser e o jornal Público

Kierkegaard foi muitas coisas grandes, entre as quais um grande filósofo. Em relação às categorais modais do ser - possibilidade, realidade e necessidade - mostrou que:

a) A necessidade não é uma nota da realidade; nada do que é é porque tinha de ser (há um abismo entre a essência e a existência);
b) Da possibilidade para a realidade há, pois, um abismo correlativo; o facto de alguma coisa ser possível - e a sua possibilidade é tudo o que o intelecto pode conhecer nas coisas - nada nos diz sobre o facto de ela ser.

É claro que, pelo caminho, ficaram feitas em nada todas as demonstrações da existência de Deus (Louvado seja!). Mas também todas as demonstrações da existência de qualquer outra coisa. Tudo o que é aparece - ao intelecto - indexado a essa perturbante questão de, nas coisas, só podermos conhecer a sua possibilidade, sendo a sua realidade forçosamente problemática. Vendo bem, filosoficamente, é tão problemática a existência de Deus como a de uma pedra.

Não é assim, com o jornal Público: ali, se algo pode ser, é. Necessariamente. Pelo menos certas coisas. Metabasis eis allos genos. E dupla.

Da série "T-shirts políticas"

Viva o jornalismo (o que é preciso é fé)

Documentos revelam que jornal Público aceitou luvas para fazer propaganda ao Hamas e Hezbollah

O então responsável pelas negociações com os movimentos terroristas desmente a notícia veiculada pelo The Guardian.

A serem verdadeiros os documentos divulgados pelo The Guardian, são a primeira prova documental da existência de relações entre o jornal Público e o terrorismo islâmico.

A linguagem cifrada dos documentos ainda sublinha mais a probabilidade de se estar a falar de venda de serviços de propaganda ao terrorismo.

Os movimentos terroristas acabaram por se virar para outros media, uma vez que o jornal Público pedia muito dinheiro.

Não é claro que, se o acordo tivesse sido feito, o director do Jornal o tivesse aprovado.

Mas os movimentos terroristas sempre conseguiram levar a cabo a campanha de propaganda planeada, possivelmente com ajuda do jornal Público.

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Acreditou na notícia atrás? Just kidding!

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A verdadeira notícia é, na edição de hoje (não ponho aspas, porque são tudo extractos):

Título a 4 (quatro) colunas: Documentos mostram que Israel ofereceu armas nucleares à África do Sul do apartheid

[foto enorme: um aparatoso cogumelo]

Entrada: Ministro da Defesa da altura e hoje Presidente de Israel, Shimon Peres, desmente notícia do diário The Guardian.

Lead: A serem verdadeiros os documentos ontem revelados pelo diário The Guardian são a primeira prova documental da existência de um programa de armamento nuclear de Israel – e ao mesmo tempo contrariam o pressuposto de que o país sempre usaria o poder atómico com responsabilidade.

O Presidente israelita já negou veementemente a notícia do The Guardian e alguns académicos israelitas como Avner Cohen (...) vieram em sua defesa.

A linguagem cifrada e o facto de no próprio documento estar definido o seu secretismo (...) ainda sublinha mais a probabilidade de se estar a falar de nuclear. A África do Sul acabou por rejeitar a oferta por razões de preço, diz o Guardian. Não é também claro que, se tivesse chegado ao então primeiro-ministro, Itzhak Rabin, o acordo tivesse sido aprovado.

A África do Sul acabou por produzir as suas próprias armas nucleares – possivelmente com ajuda israelita.

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Viva o jornalismo!

Cartier Bresson

Paris

Sócrates a alta velocidade

Estou espantado com a agenda do Primeiro-Ministro. Em pouco tempo, esteve em Madrid (três dias), liderou em Lisboa uma cimeira com o Brasil, vai para S.Paulo amanhã, quinta está no Rio e sexta na Venezuela. Seguem-se dois dias em Marrocos. Pelo meio, reúne-se com o Presidente, empresários e com a Comissão Nacional do PS. Não duvido das boas intenções de Sócrates com estas viagens. Mas por detrás desta azáfama, vejo um governo desorientado e com discursos contraditórios, como assistimos nas últimas semanas.

Primeiro foram as obras públicas. Uma enorme confusão com a nova travessia do Tejo, o aeroporto e o TGV. O ministro António Mendonça entrou em contradição consigo próprio e com Teixeira dos Santos. Ninguém percebe o que vai acontecer, por exemplo, com o troço Poçeirão-Caia, depois do adiamento da linha espanhola. Depois foram os impostos. O SE dos Assuntos Fiscais disse que as novas taxas se aplicavam a todo o ano de 2010, vindo a ser contrariado pelo Ministro e depois pelo Primeiro-Ministro, que falou no mês de Junho. Ficam dúvidas sobre a retroactividade dos aumentos (IRS, IRC e IVA), apesar dos despachos das Finanças, o segundo a esclarecer o primeiro. Provavelmente vai tudo parar aos tribunais. Entretanto, o SE do Orçamento está de baixa e o director-geral demitiu-se. Más notícias quando se prepara mais um orçamento rectificativo.

Mas pior do que estas “trapalhadas”, uma palavra que fez história, é verificar que o Governo já não sabe o que fazer para combater a crise. As medidas do PEC1 ficaram desactualizadas mesmo antes de entrar em vigor. O pacote de austeridade (PEC2) vai pelo mesmo caminho. Tudo feito em cima do joelho, para o curto prazo, sem uma estratégia para os problemas estruturais. É cada vez mais óbvio que não é carregando nos impostos que vamos reduzir a despesa pública ou melhorar a competitividade. Há que regressar, desta vez com coragem, à reforma do Estado, o que passa por eliminar regalias (como as duplas reformas), extinguir institutos e empresas municipais. Ter uma estratégia económica de longo prazo. Mas para isso é essencial termos um PM que reconheça o buraco onde estamos. Em vez disso, temos um personagem mitómano e frenético. Que ainda não percebeu (ou não quis perceber) a crise financeira internacional. A culpa não é apenas dos “especuladores”. Nem é verdade que o mundo tenha mudado «nas últimas semanas», como dizia Sócrates à RTP.

Aqui fica um pedido. Senhor Primeiro-Ministro: Pare um pouco. Adie algumas viagens. Tenha tempo para ler os dossiês e reunir com os seus ministros que andam desorientados. Eu sei que falam ao telemóvel mas não é a mesma coisa. Oiça alguns economistas da sua confiança. Até podem ser socialistas. Ou mesmo o Paul Krugman que gostava tanto de citar. Mas não nos leve a alta velocidade contra a “parede”.

Segunda-feira, 24 de Maio de 2010

A seguir

Martin Wolf
Aguardamos com elevada expectativa o cumprimento da promessa.

Aumento de impostos por despacho?

Aprende-se nos primeiros anos de qualquer curso de Direito que todos os despachos ministeriais estão sujeitos ao princípio da legalidade. Bem. Pelos vistos todos menos este Despacho n.º 8603-A/2010 do Ministro das Finanças. Como há pouco tempo para aumentar a receita, e é preciso ir rapidamente ao bolso do contribuinte, o Ministro das Finanças lembrou-se de assinar e publicar um despacho mesmo antes da aprovação e publicação de uma Lei da Assembleia da República sobre o aumento do IRS. Por este andar já não precisávamos dos deputados, nem de discutir e aprovar o orçamento de Estado todos os anos. Mais uma vez o Estado não cumpre as regras definidas na Constituição. Todas estas pressas vão conduzir a uma enorme incerteza por parte das empresas que fazem a retenção na fonte. E a muitos processos em tribunal, alegando a nulidade das novas tabelas de retenção na fonte do IRS. Vamos ver como saímos de mais esta trapalhada fiscal.

Nota: Já pensaram se os deputados votassem contra as alterações ao IRS, IRC e IVA propostas pelo Governo? Será que o Ministro das Finanças manda na Assembleia República? Pretendemos mudar a natureza parlamentar do regime?

Combate de Blogues

"Combate de Blogues", TVI24, 23.05.2010

A burqa

A recente proibição, em França e na Bélgica, do uso da burqa no espaço público é um acontecimento tão decisivo como o referendo que proibiu os minaretes na Suíça. Estranhamente, não notei grande reacção por cá. Talvez porque a burqa nos choque muito mais do que os minaretes. Será isso? Espero voltar ao tema assim que tiver algum tempo.

Sir Humphrey explica o acordo entre Governo e PSD

Crónicas da Renascença: Consciência e Circunstâncias



Na passada segunda-feira, o Presidente da República comunicou ao país que iria promulgar a lei do casamento entre pessoas do mesmo sexo para “não arrastar mais o debate”, como aconteceria se vetasse o diploma e a Assembleia da República o discutisse outra vez, mas também para que os portugueses não se distraíssem dos seus verdadeiros problemas, a saber, a crise económica.
Dito de outro modo, Cavaco Silva informou-nos, em directo e em prime time, que considera a mudança radical na definição jurídica de casamento aprovada pela maioria parlamentar de esquerda, com tudo o que isso implica para a sociedade, uma questão secundária. E nós agradecemos: dá sempre jeito conhecer as prioridades de quem nos governa.
Mas o pior da decisão é o fundamento invocado. Servindo-se da dicotomia de Max Weber entre “ética de convicção” (a que devemos seguir, de acordo com a nossa consciência) e “ética de responsabilidade” (a que somos obrigados a seguir, de acordo com as circunstâncias), o Presidente da República esclareceu que há circunstâncias difíceis em que a única opção é agir contra a própria consciência.
Os horizontes que esta doutrina abre à acção humana são infinitos. Estou certo que os portugueses saberão explorá-los quando forem chamados a pagar impostos. Ou a votar nas presidenciais. Em contrapartida, a ideia de que não podia fazer outra coisa diminui o mais alto magistrado da nação. Cavaco tinha toda a legitimidade ética, jurídica e política para vetar a lei, sobretudo se acreditava que o devia fazer. Não o fez e isso é uma escolha. Livre, como todas as escolhas. Atribuí-la à responsabilidade do cargo é negar a sua própria liberdade. Uma liberdade de consciência que todos temos, mesmo nas circunstâncias mais difíceis. Porque o nosso eterno dilema não é entre ética da responsabilidade e ética da convicção, mas entre seguir as circunstâncias ou seguir a consciência.

(23/5/10)

Só para relembrar

Quando as comadres se zangam ...

Para que não se fique com a ideia que o desnorte do executivo Sócrates se cinge a matérias económicas, e uma boa ilustração do estado do nosso Estado observem as discrepâncias de substância entre estas duas notícias relativas a uma rusga da GNR a um Estabelecimento prisional.

A 29 de Janeiro de 2010, ficámos a saber:

"Equipas de militares da GNR com cães de busca (binómios cinotécnicos) passaram ontem revista aos guardas prisionais do Estabelecimento Prisional da Carregueira, em Sintra, "mas não aos graduados dos postos de comando, nem ao pessoal administrativo nem aos reclusos". A denúncia foi feita ao DN por fonte da direcção do Sindicato Independente do Corpo da Guarda Prisional, que critica esta operação por "discriminar os guardas prisionais em relação a todas as outras pessoas". (...)
"O que nos indigna é que só passaram revista aos guardas. Isso é discriminação. Os guardas não têm qualquer problema em serem revistados, mas teriam de o fazer a toda a gente", sublinhou.(...). Anunciou que o sindicato "vai exigir explicações ao ministro da Justiça e à DGSP sobre estas buscas que discriminam os guardas".

De facto, Alberto Martins nada satisfeito com a actuação do seu mui amigo Pereirinha (Rui Pereira) pediu uma averiguação por parte da PGR ( Pinto Monteiro). Note-se então o conteúdo da notícia a 19 de Maio de 2010.

"A Procuradoria-Geral da República confirmou que está a fazer uma avaliação sobre a legitimidade e meios empregues pela GNR numa rusga efectuada, no ano passado, ao estabelecimento prisional de Santa Cruz do Bispo. (...)Em causa está uma operação que a GNR realizou em Dezembro de 2009 naquela prisão, com o objectivo de detectar e identificar o alegado cabecilha - recluso - e cúmplices de uma rede de tráfico de droga e extorsão que estaria a operar a partir daquele estabelecimento. Contudo, os guardas prisionais, pela voz do seu sindicato, criticaram a forma como a operação se desenrolou e acusaram a GNR de tratá-los também como “criminosos” bem como de violar regras de actuação em vigor para o interior das prisão.(...)"

Pode ter sido gralha mas eu li bem. Os militares da GNR não passaram revista aos reclusos, certo? Mas o objectivo era detectar o "alegado cabecilha - recluso", correcto?

"Jornalismo" Hagiográfico

Sinceramente, gostava de saber o que é que preciso fazer para merecer este "jornalismo" hagiográfico e que não é mais do que outra forma do chamado jornalismo de causas.

A grande atracção

Vamos "brincar, cantar, dançar, desenhar, aprender, pensar, filosofar, ver e ouvir histórias, correr e crescer" (puf, puf). E casar - "com o que [sic] tu quiseres" - que vai ser a "atracção principal".
Uma coisa destas só pode ter vindo de uma organização homófoba. Se os skinheads-espancadores-de-maricas pensassem, pensariam numa coisa assim.

Se é a sério, se não é sabotagem de uma quinta coluna homófoba, então é de renovar a sugestão já feita antes. Acrescente-se um recorte adequado à coisa que se avizinha:


Também desta vez os pobres (agora, de espírito) estarão protegidos por uma entidade superior (o presidente da câmara), mas na modalidade de quinta pedagógica ou de circo - a que voluntária e alegremente se sujeitam. Haverá, certamente, "muitas dezenas de gentis" costureirinh@s - é esse o espírito atávico da coisa (um "elegante e colorido certame"), que fará as delícias das famílias bem comportadas na moral em moda.

Domingo, 23 de Maio de 2010

Anish Kapoor

Anish Kapoor conhece as regras (os limites) da representação.


Sabe que, a partir de um certo ponto, não se pode ver nada, mais nada pode ser representado, salvo o rasto.


Do que foi, resta esse rasto (nem isso), resta a ideia desse rasto, e um imenso resíduo, um bloco de cera, cor de sangue, como o rasto, inteiramente compactado e moldado pelas passagens, que funcionam como cortantes. Brutalmente nada (decifrável). A presença nem sequer é uma miragem.


É impossível não confrontar a escultura/instalação de Kapoor com Abendland de Kiefer (as linhas de comboio, o ponto de fuga para nada, o resto e o triunfo da matéria espessa e, em última instância, insignificante.)