Quarta-feira, 31 de Março de 2010

Farsa não será, com certeza

E não é, com certeza, como farsa.

Hoje parecem sobrar cada vez menos dúvidas de que a Casa Branca se resignou a um Irão nuclear. É essa a convicção do senador John McCain, e a comparação entre Neville Chamberlain e Obama é (também a) dele. O que explica, diz Stephen Hayes, a reacção aparentemente histérica do presidente norte-americano em relação à recusa israelita de suspender a construção em Jerusalém. «Pensam que estamos a sobre-reagir à questiúncula das casas? Então experimentem bombardear o Irão», terá sido a mensagem. Entretanto, vai avançado o debate sobre a nova era de contenção. A new beginning? De quê? Não há como um appeaser para chamar a guerra.

Blogue renovado

O Amor nos tempos da blogosfera, do João Gomes de Almeida, apareceu esta semana renovado, com alguns nomes bem conhecidos, entre eles o Nuno Miguel Guedes. A visitar regularmente.

Sobre os primarismos

A propósito de um post que publiquei acerca dos artigos de Alberto Gonçalves, obtive vários tipos de reacções. Uma dessas reacções, a mais interessante de esclarecer e de rebater, é a do Miguel Noronha, que faz os seguintes comentários lá na caixinha:
(a) «Não percebo como é que a opinião do Alberto Gonçalves pode constituir uma ameaça à liberdade ou diversidade. Será que a liberdade ou a diversidade de opiníões já não conta?»;
(b) «Tolerar a diversidade não implica um olhar acritico à realidade nem abdicar de valorizá-la segundo a nossa escala de valores. O socialismo é que costuma implicar “entrar na carneirada”».
Julgo que o Miguel terá feito uma leitura precipitada do meu post (talvez incendiada pelos ataques moralistas que alguma esquerda fez aos artigos), embora eu também aceite que poderia ter explicado melhor o meu ponto final sobre o que escreveu Alberto Gonçalves. Tentarei fazê-lo agora, em resposta às duas observações do Miguel.

Não disse, em momento algum do meu texto, que a opinião de Alberto Gonçalves constituía uma ameaça à liberdade ou à diversidade. O que digo no post é somente que Alberto Gonçalves não lida bem com a diversidade, o que me parece manifesto na série de insultos que faz àquilo que desconhece (ou que simplesmente não aprecia), o que é muito diferente do que o Miguel me aponta.

É evidente que ele é livre de ter a opinião que quiser. Contudo, não pode, por um lado, elaborar uma série de manifestações de intolerância e, por outro, pretender que não deve ser qualificado de intolerante. Liberdade e responsabilidade -- ele é livre de escrever o que quiser, mas deve assumir o que escreve. E não é porque todos somos livres de dizer o que queremos que todas as opiniões valem o mesmo e devem ser igualmente respeitadas. [Por exemplo: não podemos impedir um nazi de pensar o que pensa sobre o povo judeu, mas também não podemos considerar que a sua opinião tem o mesmo valor que a dos outros. Este exemplo, que é provavelmente o mais radical, aplica-se a casos menos radicais, i.e. a todas as formas de intolerância para com o ‘outro’].

É a segunda observação do Miguel que me parece mais curiosa, nem que seja porque sugere (subtilmente) que o meu post tem vestígios de socialismo -- nunca ninguém me tinha dito nada assim. Espero que o que acima digo afaste a ideia de que vi na opinião de Alberto Gonçalves algum tipo de perigo à liberdade que devesse ser ‘resolvido’.
É óbvio, como diz o Miguel, que tolerar a diversidade não significa ter um olhar acrítico. Mas há uma enorme diferença entre ter um olhar crítico (demonstra tolerância) e insultar (demonstra intolerância). Dizer que não se aprecia bonés não é igual a dizer que quem usa boné é um cretino. Ou seja, o que Alberto Gonçalves faz não é avaliar a realidade a partir da sua escala de valores, mas meramente um ataque àquilo que não coincide com o seu gosto.

Finalmente, quanto ao socialismo, julgo que uma leitura mais atenta do que eu escrevi, e sobretudo do que escreveu Alberto Gonçalves, será esclarecedora. Ao afirmar que não é imprevisível a morte de um rapper porque ele é diferente, depois de insultar tudo o que caracteriza a sua diferença, Alberto Gonçalves mostra que é a única pessoa que tem dúvidas quanto às vantagens do pluralismo. Julgo que se o Miguel ler com atenção estes dois artigos do Alberto Gonçalves, encontrará lá muitos mais vestígios desse socialismo de que fala.

O Cônsul Expiatório

A forma expedita como o Ministério dos Negócios Estrangeiros suspendeu o cônsul honorário de Portugal em Munique, por causa do negócio de compra pelo Estado português de submarinos aos mesmos alemães que tanto zelam pelo equilíbrio das contas públicas e da balança de transacções correntes nos países meridionais que pertencem à zona Euro, demonstra claramente que, para problema idêntico (alegada corrupção), o Governo e o Estado português têm dois pesos e duas medidas.

Burkas e Niqabs

Depois da França em 2009 é agora a vez da Bélgica .... pelo meio fica a posição muito multiculturalmente correcta do comissário para os Direitos Humanos do Conselho da Europa Thomas Hammarberg. A ponta de um "tema icebergue" que merece reflexão.

Esta esquerda é um lugar fantástico

O Eduardo Pitta está alí a trazer uns argumentos daquelas coisas dos pais e dos filhos, mas já sabemos que é apenas para demonstrar que é injusto. À atenção do João Galamba, para quem estas coisas têm um certo nome.

Então não era moderno e arejado?

A aposta energética feita por Sócrates e Pinho foi elogiada por muita imprensa que tinha a obrigação de estar mais atenta e informada. Foi apresentada como excelente e uma das vitórias do governo em momentos de balanço. Começa agora a aparecer em força nos media aquilo que são as consequências de facto de uma má decisão socialista, atempadamente alertada como está patente em diversos documentos públicos no Instituto Sá Carneiro. Tal como foi desenhada, a estratégia energética é uma autêntica SCUT ambiental. Imaginem quem paga.

Coisas com imensa graça

Coisas às quais certas pessoas devem achar imensa graça. E que provam que elas têm imensa razão. E que aqui (por enquanto) elas até são imensamente meiguinhas. Lá fora estão imensamente mais avançados. Esta é uma fotografia da forma imensamente engraçada com que, no ano passado, «resistentes islâmicos» se manifestaram em Nova Iorque contra Israel. O Arrastão, como de costume, não inventa nada. O inimigo é outro. A técnica terrorista da generalização à marretada é a mesma. Diz que a marreta era para lançar o debate, coitado.

Um Dilema

Com Pedro Passos Coelho feito novo "líder" do PSD há, pelo menos, duas estratégias possíveis para, no interior do PSD ou à sua volta, enfrentar com êxito tamanha adversidade: a) antes quebrar que torcer; b) baixar um pouco a cabeça para deixar passar a borrasca, porque o essencial é não quebrar.

Terça-feira, 30 de Março de 2010

Notas atrasadas sobre o PSD

Pedro Passos venceu forte. Os números dispensam retórica e esmagam qualquer tentativa de os contornar: o PSD tem aquilo que uma grande maioria dos seus militantes quis. E sobre isto não há narrativa desresponsabilizadora que cole, a dimensão da vitória não permite acantonar os votos apenas no "aparelho" ou procurar outro tipo de álibis mais ou menos marginais. Os militantes são e foram soberanos, esta propriedade não os torna especialmente mais nem menos sábios, torna-os decisivos. E foram-no de forma clara.

Aguiar-Branco tem sido um excelente líder parlamentar, ao ponto de já ser uma repetitiva banalidade dizê-lo. Lançou legitimamente a sua candidatura, mas deveria ter agido em conformidade com os dados que da campanha toda a gente, incluindo o próprio, percebeu: que a disputa seria Passos e Rangel. Com a naturalidade com que o fazem os americanos nas primárias, Aguiar Branco deveria ter desistido, a favor de alguém ou não, mas desistido, permitindo um debate público e escolha mais clara entre as únicas duas alternativas reais que se afirmaram. Acabou com menos votos do que as assinaturas que tão energicamente entregou, e com poucos mais dos que as assinaturas necessárias para sequer se apresentar a votos. O dano que causou na candidatura de Rangel, especialmente no espaço mediático, vai muito além dos votos que efectivamente recebeu, os quais sendo ditados pelas circunstâncias são curtos face ao que tem dado ao partido.

Paulo Rangel, o meu candidato, recebeu genericamente os votos do eleitorado PSD que votou Manuela Ferreira Leite nas anteriores directas. Sendo um candidato mais completo que MFL, foi uma relativa surpresa que não tivesse conseguido descolar eleitoralmente, deixando no ar o sentimento que a política partidária, pelo menos no PSD, atingiu um patamar que exige tempo e equipas que não se montam e garantem resultados em pouco mais de um mês.

Resta destas eleições um clima de facilitação do trabalho de quem ganhou. Quem conhece os partidos e este nosso país sabe que esta disposição é frágil e nada intemporal. Mas neste clima de unidade PSD é importante não esquecer quem venceu: Pedro Passos, e que isso lhe dá a natural legitimidade para escolher trabalhar com quem com ele (e o seu programa) concordou. A mobilização do partido poderá eventualmente ser feita área a área, procurando pontos de contacto de modo a mobilizar em torno de algo. A manutenção de António Capucho no Conselho de Estado foi um bom sinal. Cá estaremos para acompanhar o resto.

Baptizados de pé

Depois de insinuar que todos os padres são pedófilos, o Daniel Oliveira agora insinua que todos os que criticaram pela baixaria são católicos. É uma versão moderna da ordem de D. Manuel que obrigou os judeus a baptizar-se ou a sair do reino. O Jorge Costa vai de arrastão para o rebanho dos beatos, como os seus antepassados há quinhentos anos.

Talvez devesse dizer-lhe que o Daniel Oliveira não quis ofender ninguém, a bem do ecumenismo, mas tenho pouca fé. No livro de Daniel, aqueles que mostram a mais leve repugnância pelo seu altíssimo humor são lançados no inferno das virgens ofendidas. E quem sou eu para negar o inquisidor-mor da virgindade alheia?

Kafka com laranja

Hoje, pela manhã, tentei reler O Processo de Kafka. Esbarrei de novo contra aquele ambiente ao mesmo tempo banal e absurdo a que chamamos kafkiano (belo adjectivo). No Processo, na Metamorfose, no Castelo há um espaço familiar e uma expectável rotina que, de repente, se tornam ameaçadores pela existência de um elemento sem sentido, mas que todos, menos o protagonista, aceitam como lógico e óbvio. É a detenção nunca explicada de Joseph K., é a transformação matutina de Gregor Samsa em insecto, é a ausência do castelão para o qual se trabalha e nunca se vê. Kafka ensina-nos que o maior perigo para o sentido comum não vem da loucura, da morte ou da subversão total do quotidiano, mas do que julgamos ser a normalidade. Porque a nossa vida nunca é normal. Não há vidas normais.
Só li uma página. Ninguém devia ler Kafka três dias depois das directas do PSD.

Da série "vale a pena ler"

Scoundrel Time(s), na revista First Things. George Weigel escreve sobre as situações de abuso sexual de crianças e os ataques à Igreja Católica.

Quantos?

De facto, não haveria grande coisa a dizer de Daniel Oliveira. Ele é o que é, e não está para mais. Só tem interesse como caso. Ele tem imensa razão. 13 argumentos. Gráficos. Suponhamos que há 600 bandalhos a escrever posts como o dele. A partir de que número fazem uma sociedade respeitável? Aproveito para o informar que não sou católico.

O dia seguinte


Leio os jornais do fim-de-semana. Vejo nuvens negras sobre a economia portuguesa. Previsões de crescimento anémico. Sondagens que mostram os portugueses cada vez mais pessimistas. Leio uma entrevista ao ex-ministro Jorge Coelho, presidente da Mota-Engil, a maior empresa de construção nacional. Fico a saber que o Governo quer colocar, através da CGD, outro ex-ministro socialista, Mário Lino, à frente da Cimpor. Leio que a Provedoria está a investigar as adjudicações directas feitas pela empresa Parque Escolar.
Tudo isto a par das notícias sobre a eleição de Pedro Passos Coelho.
Não é animador o panorama com que se depara o novo presidente do PSD. O problema não é tanto Sócrates, cada vez mais descredibilizado, mas como ele deixa o País. Uma economia decadente. Um Estado colonizado pelos interesses partidários. Instituições descredibilizadas, incluindo os partidos. Desemprego elevado e uma crise social eminente. É esta a pesada realidade que Passos Coelho terá de enfrentar. É isto que é preciso mudar, usando o verbo “obamiano” por ele escolhido. O caminho não será fácil.
Passos Coelho preparou-se durante dois anos para este dia. A campanha correu-lhe bem. Mostrou persistência e vontade em liderar o PSD, o que é uma qualidade. Falta agora o mais difícil: afirmar-se como candidato a primeiro-ministro. Juntar uma equipa sólida, passando por cima da lógica do aparelho, e construir um projecto alternativo credível para governar.
Para isso tem de mostrar que o PSD é diferente do PS. E que ele próprio é diferente de José Sócrates. Não basta esperar pelo desgaste do governo. Terá de explicar como vai fazer crescer a economia (algo que os socialistas não conseguiram), como vai reduzir o peso do Estado (e não apenas privatizar à pressa por causa do garrote orçamental), e como vai libertar o Estado dos interesses partidários e económicos que dele se têm apropriado. Só isso permitirá passar dos 43.949 militantes que o elegeram, para os dois milhões e meio de portugueses necessários para governar com maioria absoluta.
Passos Coelho deu sinais positivos, no discurso de vitória, ao convidar os seus adversários para os órgãos nacionais do partido. Paulo Rangel mostrou dignidade ao aceitar o resultado e ao manifestar-se disponível para colaborar. Apesar da sua candidatura ter surgido tarde, Rangel fez uma boa campanha. Mostrou inteligência e conseguiu lançar novos temas e propostas para a discussão política: mobilidade social, descolonização do Estado e a aposta numa sociedade descentralizada, com mais autonomia e responsabilidade dos cidadãos. Rangel confirmou-se como um talento político da nova geração. As suas ideias são um capital político para o futuro.

Segunda-feira, 29 de Março de 2010

Memória

De novo a respeito disto, será que o Daniel Oliveira ainda se recorda por que chamou Arrastão ao seu blog? (Na altura, muitos terão produzido piadas igualmente edificantes sobre os Pretos, esses gatunos.)
(Imaginem, num dia de chuva, alguém dizer 'Os Pretos hoje não arrastam nada.' - giro, não é?)

Podia ser só uma piada rasca, mas não é

Esta piada rasca do Daniel Oliveira e o comentário que deixou aqui mostram que, em certas cabecinhas, a tragédia da pedofilia na Igreja é apenas uma oportunidade para atacar os católicos.
Vale tudo. Até ridicularizar as vítimas. A sua preocupação com estas resume-se a duas palavras: carne tenrinha.
gaffes que dizem mais sobre uma pessoa do que todas as declarações de princípios. Teria ele coragem de chamar o mesmo às crianças da Casa Pia?

Brutal e instrutivo

Sempre tive a maior repugnância em debruçar-me sobre as fontes directas da cultura nazi. Sobre os escritos dos seus mentores, a arte dos seus artistas. Nunca li, por exemplo, Mein Kampf, embora tenha lido, dispersas por tantas obras, seguramente centenas de citações. O problema é que a cultura nazi não é um dado do passado, uma realidade transcendida. É inspiradora. Os meus inimigos são por ela abundantemente informados, iluminados. Sendo uma coisa de actualidade, decidi-me (tinha de ser um dia, estava escrito nos astros) a meter mãos à obra. É duro, mas compensa. Este livro é um guia clássico

George L. Moses

Vou dando os meus passos nesta floresta negra. Uma primeira observação. Hitler, como é óbvio, compreendeu as massas. Isso é da ordem da evidência empírica. Até, pelo menos, 1940, teve a Alemanha a seus pés. Ignoro se leu Sorel ou Gustave Le Bon (em breve saberei). Mas foi capaz de escrever isto, que revela um profundíssimo avanço reflexivo na matéria, e - julgo - explica à perfeição uma regra de ouro do jogo da sua progenitura ideológica.

No ataque implacável ao inimigo, as massas vêem, sempre, uma prova do seu próprio direito, e percebem a renúncia à sua destruição como uma incerteza a respeito do seu próprio direito, se não mesmo um sinal de que estão erradas.

É brutal. Mas instrutivo.

E agora PSD?

A vitória de Pedro Passos Coelho nas eleições directas foi clara. Os militantes escolheram esse caminho e agora resta esperar que o novo líder esteja à altura desse voto de confiança. E também que o partido, que se ocupou em dilacerar líderes nos últimos 15 anos, consiga mudar de vida, como diria Marques Mendes. Escrevi no início desta campanha que esperava que o PSD fosse a partir do desfecho destas eleições “um partido normal e minimamente unido em torno de um projecto para Portugal”. A minha opção foi Paulo Rangel. Tenho orgulho no apoio (dentro das minhas imensas limitações) que dei à sua candidatura. Acredito que seria um excelente líder para o PSD e para o país. A sua derrota não me convenceu do contrário. Mas em democracia são os votos que fazem as lideranças, e o resultado destas eleições não deixou margem para dúvidas. Pedro Passos Coelho será o líder do PSD nos próximos dois anos. Pelo menos.
A partir daqui espero que o partido balcanizado dos últimos 15 anos dê lugar a um novo partido, mais unido em torno da liderança. O objectivo do PSD é derrubar o Partido Socialista e protagonizar um projecto alternativo para o país. Conforme se observou na campanha interna, existe um relativo consenso sobre o rumo que o PSD deve assumir, nomeadamente na área económica. Um projecto que retire o Estado da economia, que termine com a promiscuidade entre o sector público e privado, e que dê maior liberdade aos agentes económicos. No fundo, e apesar das diferenças entre os candidatos, todos assumiram a bandeira da liberdade económica, e é isso que se espera de Pedro Passos Coelho. Noutros sectores, também espero que a nova liderança seja inovadora e aproveite algumas ideias que surgiram nesta campanha eleitoral dos seus adversários. Estou a lembrar-me por exemplo da revolução na educação defendida por Paulo Rangel. Uma liderança inclusiva também o deverá ser no campo das ideias. Estou certo que Passos Coelho irá colocar em prática as lições retiradas dos erros das anteriores lideranças, bem como dos erros cometidos pelas oposições internas. Um partido onde todos tenham espaço. Só assim será possível o PSD voltar ao poder e protagonizar um governo que termine com a balbúrdia socialista dos últimos 15 anos.

Primarismos

Obviamente, o hip hop é principalmente uma invenção das indústrias discográfica e televisiva, e não traria mal ao mundo se o mundo não se deixasse influenciar por semelhante patetice. Infelizmente, do Bronx a Chelas, essa celebração da boçalidade é erguida aos currículos escolares e milhões de jovens tomam-na por "afirmação". Na verdade, é o inverso: o hip hop é a sujeição dos pretos ao que o "multiculturalismo" em vigor deles espera. Ao trocar a literatura pela "poesia das ruas", a música pelo ruído, a educação pela agressividade, o esforço pela automarginalização, a única afirmação do hip hop é a da inferioridade. Se levado a sério, o paternalismo condescendente limita os membros de uma etnia a uma existência parcial nas franjas da legalidade. E não anda longe do folclore abertamente racista.

Alberto Gonçalves, 21 de Março, no DN.

Aquilo que Alberto Gonçalves afirma (erradamente) a propósito do hip hop poderia aplicar-se, apesar das pequenas particularidades, a todos os géneros musicais que fogem ao mainstream. Por definição, os movimentos minoritários, sejam eles sociais ou simplesmente musicais, são marginais –- no sentido de estarem à margem. O que não significa que sejam habitados por criminosos ou que suscitem à violência. O preconceito de Alberto Gonçalves acerca do hip hop (e agora mais moderadamente acerca do heavy metal (o que os distingue, para ele, é apenas a sua esfera de influência, que é maior no hip hop do que no heavy metal) é o mesmo que outros têm para com o punk (vadiagem), o rap (crime) ou a música techno (drogas), definindo-os como música de gente delinquente que promove a delinquência. Assim, os seus dois artigos apoiam-se numa caracterização simplista, baseada nos sinais exteriores, que por serem diferentes dos tradicionais são compreendidos como sinais de delinquência. É este olhar sobre o ‘outro’ que torna, aos olhos de Alberto Gonçalves (mas não só), a morte de um rapper relativamente previsível. É também este olhar sobre o ‘outro’ que, há já uns anos, identificou na música heavy metal a razão para o parricídio que um jovem cometeu em Ílhavo.

Sejamos claros. O que incomoda nos artigos de Alberto Gonçalves não é que ele defenda que o hip hop faz uma glorificação da violência. Ele até pode ter razão nesse ponto, embora me pareça difícil estabelecer uma relação causa-efeito (ouvir hip hop causa comportamentos violentos). Nem é sequer o preconceito que choca: é compreensível o preconceito sobre o que não conhecemos, e é evidente que o cronista não é familiar com os estilos de música que avalia.

O que incomoda realmente é a repulsa de Alberto Gonçalves por estes estilos de música (ou os seus respectivos movimentos sociais). O cronista do DN não se limita a reproduzir as opiniões de intelectuais, como ele alega, mas incendiou-as através de considerações insultuosas e odiosas. Ao afirmar “sobre o hip hop, limitei-me a reproduzir algumas evidências repetidas por intelectuais americanos contemporâneos”, Alberto Gonçalves não está a ser verdadeiro.
Dizer que o hip hop faz a glorificação do crime e sustentar essa afirmação com letras de músicas e episódios da vida real dos artistas é digno da linguagem das ciências sociais, que constrói evidências. Caracterizar o hip hop como ‘primarismo’ e ‘ruído’, e os seus adeptos como ‘primários’, ‘animalescos’, ‘analfabetos’, ‘boçais’ e de ‘vestuário ridículo’ é somente uma demonstração de intolerância. Ao optar pela segunda abordagem, Alberto Gonçalves dá razão a quem o criticou com base nessa intolerância.

Para terminar, devo dizer que o que mais me impressiona não é essa intolerância em si, mas que ela habite em alguém como Alberto Gonçalves que, manifestamente desconfortável com a diversidade, se julga um defensor de sociedades livres e pluralistas.

Acumula

O facto de ser manifestamente parvo não o obrigava a ser suíno. Mas acumula.

Isto não é notícia

Something funny happened on the road to a Greek bailout: nothing.

Caro Tyler Durden: lamento informá-lo, mas a notícia tinha sido dada em primeira mão pelo primeiro-ministro português, a quem coube a honrosa tarefa de representar os seus pares à saída da reunião. Como deve saber melhor do que eu, o resultado era mais do que previsível. Era necessário. Nada é mesmo a única coisa acertada - se é que ainda as há possíveis - que a Europa pode fazer, de momento, pelo assunto. Dir-me-á que não ouviu o primeiro de que lhe falo. E que a ele competia fazer, ao menos, de conta que algum coisa se passara por lá. Pois. Mas vê-se que não conhece a espécie. Nem do que é capaz um sujeito assaz medíocre em momento de entusiasmo, avesso a qualquer toque de realidade e comissionado para mais um número de propaganda. De tudo.

Domingo, 28 de Março de 2010

Alexandre Herculano

No dia 25 de Dezembro de 1872, Alexandre Herculano escreveu uma carta curiosíssima a Oliveira Martins:

Illm.º Am.º e Snr.

Vale-de-Lobos, 25 de Dezembro de 1872

Recebi em tempo o seu livro socialista [Teoria do Socialismo] e quisera logo corrê-lo e ler aquilo que a minha velha e gasta compreensão pudesse alcançar; mas chegou em má conjuntura, na dos começos da colheita e fabrico do azeite. Nesta faina apenas podia tirar alguns pedaços de noite para ir meditando no conteúdo do livro, quando podia traduzir em linguagem inteligível para mim as suas frases. O socialismo é uma espécie de religião e, como todas as religiões, tem dogmas, e os dogmas, por via de regra, pertencem ao mundo do sobre-inteligível. Não se admire, pois, de que eu, pouco familiarizado com as profundezas da nova crença, não saiba ligar nenhuma ideia a certas proposições e frases, em que até o valor dos termos é para mim novo e desconhecido. Não tome isto por ironia. É a pura verdade.

Tenho, por isso, lido pouco: aqui e acolá, às furtadelas. Burguês dos quatro costados, liberal ferrenho e proprietário, ainda que pequeno, tenho todos os sinais que caracterizam a besta do moderno apocalipse do evangelista Proudhon; sou tirano do operário. [...]

Com esse pouco, porém, que tenho visto do seu livro já apanhei uma ruma de dúvidas, para as quais lhe pediria explicação se me coubesse no tempo que desbarato agora com as contas do lagar [...].

Agora o que eu não quisera era deixar de responder às perguntas da sua carta. Assim eu as entenda bem! Pergunta-me se não me parece que da sucessão dos factos da história sai uma lógica da história, e que essa lógica conduz a conclusões diferentes das de um mero concurso de acidentes, determinado por um outro concurso atomístico de indivíduos. Se muitas vezes não atino com o sentido dos seus períodos é pela ignorância em que estou dos progressos modernos. É esse o verdadeiro quid que V. S.ª acha dar-se entre mim e os pensadores actuais. Eu posso lá saber o que é a lógica da história que sai da sucessão dos factos históricos? A lógica, no meu tempo, era o complexo das leis, das regras espontâneas conforme as quais funciona a inteligência: era a fórmula por cujo meio se manifesta a razão no homem. [...] Lógica engendrada pelos factos da vida das nações ainda não havia no meu tempo. É descobrimento mais moderno.[...]

Parece-me que, reduzindo a pergunta a termos chãos, alheios à terminologia nebulosa da filosofia socialista (que seria dela sem essa terminologia?), V. S.ª quer saber se, à vista das suas apreciações históricas, eu acho que a vida das sociedades não resulta dos efeitos da vontade individual, combinados com os acontecimentos fortuitos. Distingo. A vontade individual, ajudada pela superioridade da inteligência, tem, teve e há-de ter sempre uma influência maior ou menor, às vezes grandíssima, na vida exterior das sociedades, e até não raro na sua vida interior, na sua fisiologia. Que esta influência necessariamente é limitada pelas outras vontades inteligentes, também me parece óbvio: que há circunstâncias independentes, tanto de qualquer vontade individual como do complexo de todas, que as limitam, parece-me indispensável. Que estas circunstâncias sejam determinadas pelo concurso das vontades individuais, não o creio, aliás confundir-se-iam com os efeitos delas, e o modo de ser das nações teria essa única origem. Circunstâncias tais dependem de factos anteriores, de leis físicas ou morais, de causas, em suma, que podemos ou não podemos conhecer. Neste último caso chamamos-lhe circunstâncias acidentais, fortuitas. No mundo real não há senão causas e efeitos. Fortuito é um adjectivo inventado para consolar a vaidade humana de ignorar a cada passo a genealogia dos factos e dos acontecimentos. Assim, eu creio que o génio militar e político de Napoleão exerceu uma influência enorme nas condições de existência das sociedades actuais da Europa; que a vontade enérgica de um fidalgo russo, Rostopkéne, modificou, limitou os efeitos dessa influência com o incêndio de Moscovo; que a circunstância fortuita de ser rigorosíssimo o Inverno de 1812 (fortuita, enquanto um mais cabal conhecimento das leis meteorológicas nos não vier revelar porque o Inverno de 1812 foi tão rigoroso) completou a obra do fidalgo russo, dando cabo de um exército de 700 000 homens, que teriam dado cabo do poder da Rússia se tivessem podido invernar em Moscovo; que a destruição desse exército explica Waterloo - Waterloo que, além dessa causa, tem a das vontades em concurso de Wellington, Blücher e talvez Bourmont, de Waterloo, a queda do cesarismo, o remodelamento da carta da Europa, o estabelecimento do governo representativo. Não sei se o concurso destas vontades foi atomístico, porque não sei se emprega este adjectivo no sentido vulgar, se no sentido filosófico de Epicuro ou de Leibniz, ou, finalmente, na significação da química moderna. Se é no primeiro (o que me parece mais provável, para apoucar o indivíduo diante da humanidade), há-de confessar que os tais indivíduos átomos tinham sua acção sobre as sociedades da Europa. Seriam eles já moléculas?[...]

Tenha paciência, meu amigo, visto que me faz perguntas, perguntas sobre questões altíssimas a um pobre lavrador d'azeite! Sofra-lhe as tolices abrutadas. Há na primeira pergunta da sua carta um triunfante e decisivo finalmente, que me atemorizou e me fez a princípio crer que, tendo labutado 25 anos com trabalhos históricos, nada tirara disso senão cair numa esparrela de conclusões erróneas, de que a teoria socialista vinha desembaraçar-me, afinal. Nesses 25 anos (e creia que durante eles trabalhei deveras) pude estudar seriamente apenas uma época da história do meu país, e ainda assim ficaram-me obscuras mais de uma face do poliedro social. Mas as conclusões que tirei dos meus estudos nunca tiveram por alvo o determinar as evoluções passadas, presentes e futuras das sociedades maiores e menores, constituídas pelo género humano nas diversas partes do globo. O único intuito do que escrevi foi deixar às gerações futuras em Portugal alguns meios para uma coisa que me parece hão-de algum dia tentar fazer, isto é, tornar as instituições mais harmónicas, mais consequentes com as tradições e índole desta família portuguesa, a quem V. S.ª nega individualidade própria e que, todavia, já no século XII, chamava com malévolo desdém, estrangeiros aos Espanhóis. A minha crença é que, por esse meio, nós chegaremos a tornar a liberdade verdadeira e real, o que não temos obtido com imitações bastardas de instituições e até de utopias peregrinas. Já vê que não tenho de abrir finalmente os olhos para ver a luz que derrama ante mim a teoria do socialismo. Não pego no facho, porque nada tenho de procurar com ele.

Mas permita-me que duvide que o tal facho alumie coisa nenhuma. O Socialismo, desde que fabricou a humanidade, cujos átomos moleculares eu e V. S.ª com toda a gente nossa conhecida e não conhecida temos a honra de ser, tratou esta abstracção da antiga ciência, que se chama o género humano, com um desprezo por tal modo iníquo que não nos dá esperanças de que o reinado do socialismo seja o reinado de Astréa. Buscando as leis gerais e absolutas que regem a evolução social de Mme. Humanidade, o socialismo vai-se à história dos povos que têm habitado e habitam uma pequena parte do mundo chamada a Europa, e, respigando, aqui e ali, factos bem ou mal averiguados, instituições bem ou mal estudadas, doutrinas bem ou mal compreendidas, adjectiva-as ao seu idealismo, e acha assim a tal lógica que sai da sucessão dos factos e que é a lógica da história. Arranja a sua igrejinha, como se arranjariam dez igrejinhas diferentes ou contrárias, com as memórias passadas, exactas ou inexactas, de 80 ou 100 milhões d' homens e com uma nesga do mapa-mundi. E 300 milhões de Chins e 200 milhões de Hindus, que representam civilizações antiquíssimas e ainda subsistentes? E as civilizações extintas de Assírios e Egípcios e Persas e Tolteques, etc?

O Destino da Economia

Este artigo de David Brooks sobre o destino da Economia como área do saber tem de ser lido à luz das admoestações de Greg Mankiw. Há muito tempo que insisto nos pontos que Mankiw refere (e noutros para além desses). Mas Mankiw é Mankiw.

Israel, EUA, um conflito aberto, uma carta importante

337 congressistas - três quartos da Câmara dos Representantes - assinaram uma carta bipartidária dirigida a Hilary Clinton exprimindo o seu sólido apoio a Israel e a esperança de que as divergências entre Jerusalém e Washington sejam limadas rapidamente e em privado.

Formulações importantes da carta:

- Escrevemos para reafirmar o nosso empenhamento na ligação inquebrantável que existe entre o nosso país e o Estado de Israel e para lhe exprimir a nossa profunda preocupação com a tensão recente. Um Estado de Israel forte é um activo para a segurança nacional dos Estados Unidos e traz estabilidade ao Médio Oriente;

- Preocupa-nos que as tensões altamente publicitadas nas relações não contribuam para fazer avançar os interesses que os EUA e Israel partilham. Sobretudo, temos de concentrar-nos na ameaça que o programa nuclear iraniano representa para a paz e estabilidade no Médio Oriente.

Muito resumidamente, como ler esta carta?

Primeiro: as tensões referidas foram impulsionadas com o episódio infeliz de publicitação da autorização de construção de 1600 casas em Jerusalém, durante a visita de Joe Biden, vice-presidente dos EUA, a Israel. Se a oportunidade do anúncio é discutível, a opção, não. Não há nenhuma razão para Israel suspender a construção em qualquer parte de Jerusalém. Jerusalém não é um colonato, nem o regresso a qualquer divisão interna à cidade, tal como a que existiu entre 1949 e 1967 é uma hipótese negociável - para uma das partes do conflito. A exigência, como condicionante do regresso à mesa das negociações, por parte de Mahmud Abbas, presidente da Autoridade Palestiniana, do congelamento de toda a construção na margem ocidental do Rio Jordão e Jerusalém, funcionou como pretexto da sua recusa, até que o Governo de Netanyahu decidiu aceder a uma moratória de 10 meses, no que à construção em torno dos colonatos diz respeito. Ao passo dado por Israel não correspondeu nenhum passo dado pela outra parte, nem pressão nenhuma efectiva por parte da Administração norte-americana, nesse sentido. A Administração insistiu em dar cabimento à exigência palestiniana de extensão da suspensão de construção em Jerusalém, algo que não é negociável por Israel, uma vez que Jerusalém não é, em nenhuma das suas partes, susceptível de uma abordagem do mesmo tipo da aplicável aos territórios ocupados em 1967. A indivisibilidade de Jerusalém foi um princípio enunciado pelo próprio Obama, quando precisou do voto judaico. O abandono de facto desse princípio, ao acolher a exigência palestiniana, insere-se na estratégia de apaziguamento árabe, à custa do enfraquecimento das posições do seu aliado, Israel. A recusa israelita enfraquece os EUA, pois mostra ao mundo, ao mundo árabe, nomeadamente, que o poder de influência dos EUA em Israel não é o que parece. Tem limites. Jerusalém é um desses limites.

Segundo: a publicitação das tensões prende-se, não só com os discursos, ou nem sequer primordialmente com os discursos e tomadas de posição públicas pelas autoridades americanas ou israelitas, embora certamente que dela façam parte, mas, antes de mais, com as humilhações protocolares a que Netanyahu foi sujeito durante a sua visita a Washington. A fúria de Obama perante a irredutibilidade do seu aliado traduziu-se em espectáculos inéditos como o cancelamento de uma conferência de imprensa conjunta no final da visita, e outras exibições de alta tensão. Verdade que Joe Biden não teve uma visita fácil a Israel. Mas a verdade, a verdade mesmo é que não vale a pena tapar o sol com uma peneira: neste momento são muitíssimo profundas as divergências entre os EUA e Israel relativamente à situação de conflito regional.

Terceiro: o fundo da questão, além de incluir a arrogância norte-americana relativamente à presunção de que pode definir, em vez de Israel, o que são condições aceitáveis para o futuro de Israel - designadamente quanto ao estatuto de Jerusalém -, tem a ver com a interpretação do conflito e de tudo o que o envolve. Para Israel, é central conter o ascendente crescente do Irão na região, e vital, nesse sentido, parar o seu programa nuclear. O Irão é um dado essencial do problema: define o campo de forças em que uma solução viável - dois Estados, em paz, lado a lado - pode, ou não, acontecer. Para os EUA de Obama, o conflito israelo-árabe é resolúvel em si, e a sua resolução desactivaria as demais tensões no Médio Oriente. (É possível que os EUA já se tenham resignado a um Irão nuclear.) É a importação em Washington da Weltanschauung dominante na Europa.

Mas não é essa a dos 337 congressistas.

Vão até lá...

...e vejam e leiam: de aqui até aqui.

Quizz

Esgotadas as suas esperanças de que uma alternativa de resposta política aos desafios do seu país tivesse alguma hipótese de construção, vai:

1. Dedicar-se à cultura (aprender sânscrito, macramé, feng-shui, escrita criativa, etc.);
2. Imigrar para um país viável (os filhos não têm culpa da indigência dos pais, ou, na versão heróica do Padre António Vieira: Portugal para nascer, o mundo para morrer);
3. Esperar que isto passe e logo se vê;
4. Pensar no assunto um dia destes;
5. Poupar;
6. Isto não está bom para ter filhos;
7. Reler os anarquistas conservadores (Jünger, etc.), e reponderar se aquilo é uma saída;
8. Danças de salão;
9. Não sabe/não responde.

São rosas, senhores, são rosas

Florista fazia 300 € por mês, segundo o Correio da Manhã.

Despedimentos

Com a multiplicação nos últimos dias na blogosfera de conselheiros políticos de Pedro Passos Coelho, tenho para mim que na próxima semana, e vistas as novas circunstâncias tão favoráveis, começarão a ser redigidas e enviadas as primeiras "cartas" de despedimento de gente que sempre foi dispensável mas não convinha dizer. Estaremos, portanto, diante de um dos maiores despedimentos colectivos de que há memória na blogosfera política portuguesa.

Sábado, 27 de Março de 2010

Algumas notinhas sobre as directas no PSD, Belém e o Illinois

1. A vitória de Passos Coelho foi clara, mas não ficou a dever-se ao que o PSD mais precisa: ideias. Passos ganhou porque os militantes esperam que leve o PSD ao poder o mais depressa possível, tal como há dois anos esperavam o mesmo de Manuela Ferreira Leite. Não funcionou e o país preferiu Sócrates. Agora, o PSD escolheu o que tem de mais parecido com Sócrates. Talvez funcione porque o país, entretanto, está tão farto de Sócrates até um sucedâneo de Sócrates é um mal menor.
2. As eleições de ontem terminaram o ciclo das legislativas. Para parte do PSD, com Passos Coelho à cabeça, as eleições de Setembro foram também um referendo a Manuela Ferreira Leite e os dois últimos anos serviram apenas para lhe fazer oposição. Agora, têm que fazer oposição ao PS. Prevejo alguma dissonância cognitiva.
3. O fim do ciclo das legislativas coincide com o início do ciclo das presidenciais, que vai dominar o próximo ano. O PSD só tem uma alternativa: apoiar Cavaco Silva. Além disso, Belém vai ter um papel cada vez maior perante um Governo fragilizado e minoritário e uma oposição paralisada pelo medo de precipitar a crise política. Passos, dos quatro candidatos às directas, foi o que se distanciou mais de Cavaco. O que o obriga a ser, até às presidenciais, um jogador à defesa no jogo de que PR será o árbitro.
4. Dificilmente o PSD poderá governar sem uma coligação à direita. Passos e os seus apoiantes fizeram questão de sublinhar que o candidato vindo do CDS era Rangel. Mais: se a blogosfera passista reflecte a realidade do passismo (e eu acredito que sim), alguns episódios edificantes dos últimos dias prenunciam sérios problemas de convivência entre os dois partidos. O fino tacto a que já nos habituaram o professor-doutor-para-lá-de-Badajoz-ó-meu-Deus Jekill e outros hermeneutas menores, desta vez em relação à "pequenada" do "Paulo" (sic), não será um ponto de partida auspicioso. No Illinois de baixo talvez se aprenda muita coisa (embora Badajoz fique para o outro lado), mas não se parende, pelos vistos, a distância entre bullyish instinct e stupid instinct.
5. Espero para ver o que acontecerá ao Instituto Sá Carneiro, mas duvido que Passos Coelho tenha a coragem de reconduzir Alexandre Relvas. Pessoalmente, é também um ciclo que se encerra. A convite do Alexandre, colaborei durante dois anos nos grupos "Novas Ideias, Novas Narrativas" e "Portugal 2020". Dois anos de trabalho intenso, de debate vivo, de gente interessante. É isso o que levo da experiência e estou-lhe grato. Para mim, os projectos são pessoas. Só assim concebo a dedicação a uma causa. O meu modesto contributo só faz sentido com uma liderança em que me reveja, seja a de Manuela Ferreira Leite no partido ou a de Alexandre Relvas no Instituto. E não me revejo nas pessoas, nos métodos e nas "ideias" que aí vêm. Até porque li Sartre há muito tempo e podia esquecer-me de alguma coisa.

Proteccionismo temporário?

Dada a situação delicada que algumas economias enfrentam em virtude da persistência dos seus défices da balança de transacções correntes, não seria surpreendente que se começasse a a invocar o proteccionismo como solução temporária para esse problema, como o Pedro Lains avisou aqui. Mas é preciso reter um facto renitente relativo ao proteccionismo temporário - a que já se recorreu no passado para apoiar as indústrias nascentes, para garantir termos de troca favoráveis ou para aliviar desequilíbrios macroeconómicos graves. E esse facto é muito simples: nenhum proteccionismo é temporário. Nunca o é porque o proteccionismo, não só rompe com os padrões de comércio estabelecidos, como conduz a uma reafectação dos recursos que, por sua vez, cria fortes grupos de interesse que farão o que for preciso para impedir o regresso à situação anterior.
Há muitos anos, o historiador económico François Crouzet declarou, com bastante exagero, é certo, que a resistência ao comércio livre no seu próprio tempo - a década de 60 - era uma consequência da profunda reafectação de recursos causada pelo Bloqueio Continental das Guerras Napoleónicas. Seja como for, o proteccionismo só é desfeito com lutas políticas graves ou por um choque externo de proporções bíblicas.

A paisagem política

A Douta Ignorância

Nasceu ontem um blogue que promete tornar-se num espaço de referência da blogosfera nacional. Chama-se A Douta Ignorância e reúne o talento do Bruno Vieira Amaral (aqui da casa), do Tiago Moreira Ramalho e do Rui Passos Rocha (meus colegas no Aparelho de Estado). Ide ler.

Sexta-feira, 26 de Março de 2010

Águas de Março

A ler

Escolher o Bullying?, de André Abrantes Amaral no site do IFSC.

Período de reflexão

Convinha que os militantes do PSD que hoje vão votar, além de pensar nas lideranças possíveis

pensassem também em

miasmas

e outros problemas não menos sérios. Em princípio, o PSD deveria sobreviver.

A ignóbil mentira

A lenda do domínio do neoliberalismo e da conspiração dos especuladores em Portugal serve de guarda-chuva ao PS quando a emergência aperta. Assim de repente faz lembrar os partidos constituídos pelos movimentos de libertação em África que para tornar o poder mais seu acusavam o neocolonialismo dos males que eles próprios provocavam. No fundo, é o clássico enredo usado com mestria no filme "Underground" de Kusturica. Todos para a cave de abrigo porque a guerra continua - eis a metáfora para a "nação" que Tito fundou.
É uma mentira, mas não é nobre. A gente acredita?

A tripla escolha do PSD


Enquanto Portugal se afunda numa grave crise política e económica, os militantes sociais-democratas têm hoje um triplo poder: escolher o seu próprio presidente, o líder da oposição e o provável próximo primeiro-ministro.
Como líder parlamentar e candidato europeu, Paulo Rangel mostrou um discurso vivo e acutilante, longe do politiquês habitual. Esse registo diferente permite-lhe ser ouvido com atenção tanto pelas elites como pelo povo. A sua vitória nas europeias permite antecipar que será um líder da oposição combativo e eficaz.
O percurso profissional e académico de Rangel, anterior à vida política partidária, aumentam a sua independência face ao aparelho e dão-nos garantias de qualidade e solidez como futuro chefe de governo. Com Rangel nunca teremos problemas de licenciaturas feitas tarde, à pressa ou ao domingo. Não teremos dúvidas sobre ligações pouco transparentes a padrinhos ou grupos económicos que vivem à conta das autarquias ou do Estado.
Em poucas semanas de campanha, Rangel trouxe uma nova linguagem e novos temas de ruptura com o discurso e a propaganda socialistas. Temas como mobilidade social, prosperidade económica, descolonização do Estado, sociedade descentralizada. Não sei se vai ganhar hoje as eleições directas. Mas sei que Rangel é um líder de futuro e com futuro.

Cachimbos de lá

Darryl Young, Whaleman, 2008

Como alguns jornalistas noticiam as sondagens

Hoje a TSF está a noticiar em todos os seus "jornais" o barómetro político da Marktest.
Quando analisamos os números o PS, (o tal que segundo a notícia trava a descida) desce 0.3% em relação a Fevereiro, e o PSD, (o tal que desce ligeiramente) desce 0.1%.
Ou seja o PS desce o triplo do PSD mas é apresentado na notícia com uma carga positiva (travou a descida) o PSD que desce três vezes menos é apresentado negativamente (desde ligeiramente).
Mas como aprendi que nas sondagens tão importante como os resultados é relevante verificar as tendências, fui ao site da Marktest confirmar os resultados dos últimos 6 meses. As evoluções são esclarecedoras.
PS
Outubro - 42.9 %
Novembro - 41.7 %
Dezembro - 41.1 %
Janeiro - 40.5%
Fevereiro - 35,9%
Março - 35,6%
PSD
Outubro - 23.7%
Novembro - 25.6%
Dezembro - 27.4%
Janeiro - 29.2%
Fevereiro - 30.9 %
Março - 30.8%
Nos ultimos seis meses o barómetro da Marktest mostra uma subida acumulada do PSD de 7% e uma descida constante do PS que ultrapassa os 7%.
A subida do PSD não é feita tanto à custa do CDS, que segura valores que rondam os 10%, mas sobretudo à custa do PS.
Tudo isto é indiferente. O importante é noticiar que o PS trava a descida e o PSD desce ligeiramente.

Um homem muito tenaz


Sócrates pode ser tenaz. E outras coisas muito fortes. Mas não se pode dizer que seja precisamente uma pessoa excessivamente inteligente. Por exemplo: «Não se trata de ajudar a Grécia a pagar as suas dívidas. Trata-se, isso sim, de dar um sinal claro de que estaremos ao lado da Grécia»; claro? Mais que claro: branquíssimo. Porque: o acordo de hoje foi «principalmente uma decisão contra a especulação financeira», já que toda a situação foi alimentada por um «movimento apenas especulativo, que vivia da dúvida e da incerteza. Este acordo vem colocar um ponto final nessa dúvida e nessa incerteza». Ufh!

Quinta-feira, 25 de Março de 2010

Está à vista a perda da nossa independência


A despeito de nem sempre ter concordado consigo, sei que vamos ter saudades suas, à frente do PSD. Pela minha parte, obrigado. Está à vista...

O triste fim de Manuela Ferreira Leite

A abstenção do PSD na votação do PEC é uma lamentável notícia para o país porque é viabilizado um mau PEC. E é uma terrível notícia para o PSD, que viabiliza um PEC com o qual não concorda e que vai contra o seu programa eleitoral, compromisso que assumiu com os seus eleitores. É, também, uma inexplicável decisão da ainda líder que, vendo o seu partido dividido e amanhã com nova liderança, quis impor a sua posição (que é só sua e não corresponde ao que prometeu ao país em Setembro) sobre o partido e a sua futura liderança -- Rangel e Passos Coelho assumiram que votariam contra este PEC. Nada disto faz sentido.

Questões fundamentais como os investimentos públicos (terceira travessia do Tejo e TGV Lisboa-Madrid), os impostos, a contenção de despesas, ou os cortes na Administração Pública mantiveram-se inalteradas. Ao que parece, mudou a redacção do PEC, i.e. simularam-se alterações para que o PSD pudesse justificar o seu voto.

Ora isto diz-nos três coisas sobre a actual liderança do PSD: (1) Ferreira Leite liderou o partido a 'medo' (sempre pela estabilidade e receando conflitos com o Governo) e deixa o partido sem rumo; (2) a estratégia do 'respeitinho' e da 'responsabilidade' que o PS impingiu à oposição funcionou com Manuela Ferreira Leite; (3) Ferreira Leite estará mais preocupada com a reeleição de Cavaco Silva do que com a governação do país.

Depois de ter defendido as melhores ideias para o país, nas eleições legislativas, Manuela Ferreira Leite despede-se da liderança do PSD com um mês de Março particularmente terrível: uma inoportuna 'lei da rolha' e a viabilização do PEC. Numa e noutra, Ferreira Leite rompe com os princípios que vendera ao país. É difícil imaginar pior epílogo.

Manual de Maus Costumes

Um blogue de Jorge Carvalho.

Sobre o cancro. A Caixa


Sempre tive alguma dificuldade em digerir a lógica de que a Caixa Geral de Depósitos deveria manter-se na esfera pública, sob pena de cair em mãos estrangeiras e, assim, se perderem centros de decisão nacional. A dificuldade estava em perceber o conceito e a sua mecânica, o todo e as suas partes, testar a sua pregnância, com se diz por empréstimo de certa teoria da percepção. Perguntei e perguntei. Por grosso, os centros de decisão nacional são empresas, quase todas integralmente privadas, que têm um lugar de primeira ordem na estruturação do tecido económico em território português, pelo emprego que geram, pelos serviços e bens que produzem, pelas participações estratégicas no capital de outras empresas, etc., que, pelo facto de serem dirigidas a partir de Lisboa, por portugueses, são permeáveis, nos seus processos de decisão, às dinâmicas próprias em que estão inseridos os seus decisores. Atendem ao contexto social e político que as envolve, e integram-no no cálculo económico. Não são orientadas por lógicas de grupo multinacional, exterior e fechado a essas dinâmicas locais, insensíveis a determinantes que não sejam estritamente económicos (esta linguagem é feia, claro, mas estou a tentar reproduzir com alguma fidelidade a semântica asseptizada dos proponentes da teoria e, se possível, irritar o leitor, algo que também pretendo, por espírito revanchista: aguentem-se!).

A Caixa, à luz desta teoria, é, por assim dizer, o centro nacional por antonomásia. Qualquer ataque ao capital de outros centros de decisão nacional (bancos e arredores) tem de enfrentar o risco de uma barragem, não só política, e muito complicada – quem não se lembra do Totta –, dispendiosa e desgastante, como ainda a possibilidade ver coberta a sua oferta, com os rodos de dinheiro que a Caixa é capaz de mobilizar, no mercado e fora dele – por exemplo, sob a forma de aumentos de capital, via accionista, o Estado – prática que se tornou método dos últimos anos, até mesmo para trafulhices orçamentais que não vêm agora ao caso.

A renitência um bocado totó que tinha em relação ao discurso do método dos centros de decisão nacional era a de que não conseguia ver como é que empresas privadas protegidas por uma espécie de bomba atómica financeira dissuasora de quaisquer ataques nos mercados de capitais não acumulariam, necessariamente, ineficiências, desvitalizando-se assim uma das funções essenciais do mercado, que é justamente a de obrigar à eficiência. O mal, no fundo, de qualquer forma de proteccionismo. A prazo é um desastre: um enorme passivo de competitividade. Talvez, dizia eu com os meus botões, apesar de tudo compense sacrificar um pouco de mercado em nome da coesão nacional.

Uma mentira não dura sempre. O problema é o mesmo: essa mútua imiscuição das esferas do público e do privado, perigosa para ambos, quer dizer para os interesses nacionais, que só são bem servidos se ambas as esferas tiverem o seu lugar, um lugar que não se confunde e regras que não se confundem. Mas a questão não é obviamente a da corrupção, digamos assim, do privado protegido. A questão é – infinitamente mais grave, incomensuravelmente mais grave – da corrupção da esfera pública, que é literalmente arrestada por interesses privados em nome dos interesses nacionais.

Sobre a vergonha, o cancro da vida pública em que hoje a Caixa Geral de Depósitos se converteu às mãos de um governo - é este; o problema é que pode sempre ser qualquer outro e, podendo, será - corrompido por ela e corruptor por ela, ler hoje, imprescindivelmente, a crónica de Pedro Lomba no Público, que não autoriza o link. A verdade da teoria dos centros de decisão nacional está ali exposta. Fede, mesmo. Isto é que fede. Continuar em discursatas sobre isto e aquilo, o PEC e mais não sei o quê, enquanto o país apodrece às mãos da Caixa, é um peditório para o qual me apetece dizer: já dei.

Mobilidade social


Ao contrário do discurso socialista-igualitário dos últimos anos, Portugal é um país cada vez mais desigual. Estamos no fim da lista europeia no que respeita ao fosso entre ricos e pobres. Pior ainda: os níveis mobilidade social em Portugal são muito baixos, dos piores a nível europeu. O último estudo da OCDE (Intergenerationl Social Mobility: a family affair?) mostra que o contexto económico da família de origem é o factor determinante para o sucesso futuro. Pais com educação superior, tendem a ter filhos com educação superior. E com salários vinte vezes mais elevados do que os outros. Não só somos pobres como a pobreza, qual carga genética, tende a propagar-se de geração em geração, o que é profundamente injusto.
Isto significa o maior fracasso da democracia portuguesa.
Fiquei contente, por isso, ao ler na Moção de Estratégia do Paulo Rangel a ideia de que «a mobilidade social deve passar a constituir o eixo unificador das políticas públicas do PSD.» E perceber que isso se traduz num conjunto de políticas como: i) ensino público orientado para a aprendizagem, para a responsabilização e diferenciação das escolas; ii) cidades com políticas urbanas que combatam a “guetização”; iii) na libertação do mercado de trabalho de factores de imobilismo e protecção dos insiders; iv) no reforço dos pilares de uma sociedade de deveres e com justas recompensas, baseada na meritocracia e na igualdade de oportunidades.
Andamos há vários anos a discutir o que é a social-democracia nos nossos dias. A mobilidade social pode ser uma palavra chave nessa discussão. E transformar-se no grande objectivo unificador da acção política do PSD.

Alavanca ou muleta ?

As eleições internas do PSD estão marcadas para amanhã. O PSD, razoavelmente, solicitou o adiamento da votação do PEC por uns dias, por forma que a nova liderança tome uma posição.
O PS, numa atitude arrogante, não acedeu e forçou a votação só dando a conhecer o teor da resolução a 24 horas da votação.
Os dois candidatos com reais hipóteses de ganhar a eleição do PSD, já se pronunciaram publicamente pelo voto contra o PEC. Eventualmente os dois terão entre 80% e 90 % dos votos.
Dentro de algumas horas saberemos se o PSD quer ficar comprometido com as medidas anunciadas no PEC ou liderar uma alternativa ao Governo PS.

Cumprir promessas

A Maria João Marques diz o óbvio no Insurgente:

Manuela Ferreira Leite, durante a campanha eleitoral para as legislativas, foi muito clara numa promessa: não aumentaria os impostos. O facto de estar na oposição não desobriga os deputados eleitos com um determinado programa de respeitarem os eleitores que confiaram o voto a esse programa. É por isso que Manuela Ferreira Leite tem de pôr o PSD a votar, mais logo, contra o PEC e os seus aumentos de impostos (via novo escalão de IRS e diminuição das deduções fiscais).

Quarta-feira, 24 de Março de 2010

Socialistas preferem Passos Coelho

Durante esta campanha interna do PSD tenho reparado nas preferências dos socialistas. Lendo blogues ou redes sociais, uma coisa salta à vista: a esmagadora maioria prefere Pedro Passos Coelho para líder do PSD. Seja por simples simpatias ideológicas ou políticas, ou por interesse partidário, quase todos revelam a sua preferência por Passos Coelho. Por isso não estranhei o que li há pouco no Diário Económico, que avança esta noite com uma sondagem que dá uma vantagem a Passos Coelho na corrida à liderança do PSD. Não são revelados todos os valores da sondagem, mas destaco esta parte:

O eleitorado PS mostra maior afinidade pelas capacidades políticas de Passos Coelho do que o próprio eleitorado do PSD: 47% dos inquiridos que dizem votar PS apontam para o ex-líder do JSD como o mais capaz para ser primeiro-ministro, enquanto entre os social-democratas esse valor se fica pelos 42%.

Na próxima sexta-feira os militantes do PSD irão optar entre Paulo Rangel e Pedro Passos Coelho. E se eu penso que o Partido Socialista terá sempre motivos para se preocupar independentemente de quem ganhe, uma coisa é certa: uma vitória de Rangel será bem mais amarga para os socialistas do que uma vitória de Passos Coelho. E os militantes do PSD deverão ter isso em conta na hora de escolher o seu líder.

Complicado

Uma agência de rating, a Fitch, aumenta a avaliação de risco à dívida de longo prazo portuguesa. Depois de estudar, presume-se, a fundo (também não havia muita novidade), o PEC, o único instrumento de condução das Finanças Públicas num prazo acima do curto. O ministro das Finanças entra em curto-circuito e confronta a Assembleia da República: ou aprovam o PEC (chumbado pelas agências de rating, uma já o fez, outra já ameaçou), ou serão responsáveis por novas descidas do rating. Percebido?

Words, words, words

Um pequeno exercício extemporâneo. Deixemos de lado o óbvio. Que o PEC não reduz duradouramente a despesa, porque congelá-la não resolve (embora seja necessário). Que é tímido nos congelamentos, pois que o que terá de ser feito será mesmo reduzir salários. Que sobe os impostos. É óbvio; e também claro que isso não resolve nada, só agrava, embora não possa deixar de se fazer, provavelmente em doses maiores. Que mantém certas opções em matéria de obras públicas, já por pura casmurrice, pois até mesmo Sócrates já deve ter percebido que não as vai fazer. Quanto ao lado «estabilidade» do Programa, estabilidade mais precária é difícil.

Crescimento. O que se pode fazer pelo crescimento sem contar com,

- reduções de impostos;
- benefícios fiscais discricionários, em função de sectores (género taxas de imposto mais favoráveis às empresas exportadoras; é proibido na Europa);
- melhoria das condições de crédito;
- impossibilidade de ajudas directas, sob a forma de investimentos, apoios, subsídios, etc., etc., a tralha socialista do costume;
- em suma, dinheiro.

Sem dinheiro faz-se o quê?

Imenso. A longo prazo. Na Justiça, na Administração e burocracia, num prazo ainda mais longo, na Educação. No combate à corrupção, que deveria ser uma bandeira, a bandeira, e pressupõe áreas atrás referidas.

E para a economia, especificamente para a economia, não sobra nada? Tirando uma profunda reforma laboral, que integre o princípio de que as empresas podem ajustar a quantidade de trabalho em função do mercado, em vez de serem obrigadas a falir, não estou a ver.

O resto parece-me conversa. Mas, para sair da conversa, é preciso coragem para assumir rupturas relativamente à filosofia do Estado Segurador Socialista que ainda não foram enunciadas. Como, aliás, para uma verdadeira redução da despesa pública, única condição para uma diminuição efectiva da carga fiscal. Rupturas, em suma. Quebrar tabus, destruir (des)caminhos, para usar a expressão que Felipe Nunes Vicente tomou de empréstimo, com enorme oportunidade, a Benjamin. Sem o que, falar de crescimento, é parole, parole, parole...

Obviamente contra

Premissas para compreender a votação da resolução de apoio ao PEC Sócrates.

- Este PEC não resolve nenhum problema de Portugal.

- O Governo tem competência para aprovar o PEC sem o sujeitar a uma resolução da AR.

- O Governo sabe que não tem uma maioria parlamentar, razão pela qual não sujeitou sequer o seu programa de Governo a votação.

- O Governo não aceitou mudar uma vírgula no PEC.

Primeiro Ministro para a História

Hoje José Sócrates tem muitos directores de órgãos de informação a quem telefonar e exigir "respeitinho". Alguns exemplos:





Impotência


Não tenho o mais leve vestígio de vontade de polemizar em torno disto. Seguir-se-ão as outras duas. A execução orçamental já indicia um desastre. O orçamento nasceu morto. O PEC também. Lá fora, a Europa arde. E por aqui só nos acontecem coisas. Acontecem. Coisas. A tagarelice é que começa a ser ulcerosa.

TGV ou o Atávico Conservadorismo

Afinal, Manuela Ferreira Leite tinha razão e André Macedo (sem o saber) acaba de se juntar ao grupo daqueles portugueses que, num atávico conservadorismo nacional, ainda discutem se devemos gastar dinheiro nesses "luxos ferroviários”, como tão elequentemente Vital Moreira denunciava a 5 de Fevereiro em sede do Causa Nossa, comentando o início das obras da primeira linha TGV em Marrocos, utilizando como link uma notícia do Le Monde que referia os milhões de euros que essa obra significava para as empresas...francesas!

E de repente...

... graças a uma crónica na rádio e respectivo post subsidiário, parece que me tornei um especialista em pedofilia e celibato dos padres. Hoje, ao início da tarde, vou a um debate na Rádio Renascença e amanhã, às 14h, ao Sociedade Civil da RTP 2.
Não é por nada, mas preferia o casamento gay.

3 em 1

Manuel Alegre considera-se republicano, democrata e socialista. Alguém lhe explica que não dá para ser tudo ao mesmo tempo?

New blog on the block

Isto de não andar pela bloga diariamente tem os seus contras. Só agora dei por um novo blogue com os sempres interessantes Zé Neves e Miguel Serras Pereira, entre outros. Vias de facto, assim se chama.
Tendência canhota. Forte.
Vão lá ver.

Terça-feira, 23 de Março de 2010

Um parlamentar israelita que confraterniza com o terrorismo - se lhe tocarem, isso é racismo

Ahmad Tibi, aqui referido, é há dez anos membro do Parlamento israelita, e uma personagem sobejamente conhecida em Israel. A sua identificação oficial e currículo como parlamentar estão aqui. Não se exime de participar solidariamente em eventos como este, no vídeo que aqui fica, celebrando o terrorismo. Continua a ser membro do Parlamento. Há israelitas que consideram insuportável que o seu mandato não seja imediatamente cassado, uma vez que a sua lealdade é obviamente com os inimigos mortais do Estado. Eu, pessoalmente, não percebo não só porque não lhe cassam o mandato, mas também porque não é preso, por actos que, em qualquer outro país democrático do mundo, seriam julgados como de traição. A contemporização com situações que relevam da situação excepcional de Israel, com uma minoria árabe naturalmente solidária com a situação miserável e altamente problemática dos palestinianos, até hoje incapazes de gerar uma liderança política verdadeiramente interessada na criação de um Estado que possa existir ao lado e em paz com Israel, tem limites. Ou melhor, não estava tendo, e uma das leis que os ignorantes que pegam por arrastão, provavelmente sem sequer a conhecerem, e conhecerem o contexto em que surgiu, apelidaram de «racista», visa instituir o quadro legal de penalização de situações como esta, em que um cidadão de Israel, e para mais membro de um órgão de soberania, confraterniza com o inimigo, ou é assumidamente o seu agente, beneficiando das regras formais que protegem as imunidades especiais dos parlamentares. Uma pesquisa rápida pela internet esclarece as posições políticas de Ahmad Tibi, defendo o Hamas, etc. Seria um pouco como um congressista norte-americano regressar a Washington D.C., depois de ter festejado com... a Al Qaeda?, e nada de especial acontecer. É claro que Israel terá de acabar com isto. Porque os seus cidadãos, os seus cidadãos leais, não suportam.


Do desprezo

Inês de Medeiros, deputada na Assembleia da República, mostrou naquela curta entrevista à Sábado que desconhece por completo as regras institucionais da nossa democracia. Ontem acrescentou elegantemente que não pagava as viagens. Alega que não é diferente dos outros e que por isso quer um tratamento igual, ou seja quer que lhe paguem as viagens a Paris para ver a família. Esquece-se (ou não sabe) que o que estabelece a igualdade entre os deputados (e o mesmo se aplica aos cidadãos) é a lei, e não o resultado individual da aplicação da lei. Disse ainda que não vê mal em Sócrates ter eventualmente mentido no Parlamento, e não percebe (ou não sabe) que o respeito pelas instituições democráticas é fundamental para o seu funcionamento.
Tudo isto poderia ser apenas ignorância sobre os princípios de um Estado de Direito, o que já seria grave. Mas revela, essencialmente, um certo desprezo pela política, o que não se pode aceitar num representante político do povo. Que o PS a tenha escolhido diz muito sobre a consideração que o partido tem pelo regime.

Pub


(Clicar para ver melhor.)

Eis, pois, o racismo de que se fala (mas ninguém dizia o que é)

O meu apelo surtiu efeito. Não obtive o relatório, mas uma notícia um pouco mais substanciada. Aqui. De acordo com o relatório de organizações cuja identidade continua por estabelecer, embora agora seja bem mais fácil de situar, 2009 foi um ano de crescimento exponencial de «leis racistas» em Israel. Atingiram o número de 21. O que são as «leis racistas»? Não conseguimos chegar ao conteúdo das 21. Mas dá para perceber a coisa. Por estas, por exemplo:

- A possibilidade de condenação a um ano de prisão para quem se pronunciar contra o direito à existência do «Estado judaico e democrático» de Israel, se tal pronunciamento contiver a «possibilidade razoável» de «conduzir a actos de ódio, desprezo ou falta de lealdade para com o Estado, ou as suas autoridades governamentais, ou os sistemas legais legalmente estabelecidos». O mais acérrimo opositor a esta lei (não o único, nem entre os opositores à lei favoravelmente votada estão todos no seu campo partidário) foi o deputado Ahmad Tibi, da Lista Árabe Unida (Ta'al), que disse no debate: «Não reconheceremos um Israel judaico e sionista, apesar desta lei draconiana, mesmo se tiver de pagar um preço pessoal.» Curiosa «lei racista» esta, e curiosa democracia esta, onde um membro do Parlamento nacional se opõe à lei, invocando a não existência de jure do Estado de cujo Parlamento ele é membro. Não perceberam? A mim, ao princípio, também me custava a aceitar que semelhante coisa fosse possível. Mas é. É claro que só em Israel, e em mais nenhum Estado do mundo.

Não vou maçar o leitor com mais leis: outra das leis «racistas» permite ao ministro do Interior revogar a concessão da nacionalidade israelita, sem consulta à Procuradoria-Geral, se for estabelecida a evidência de que a obtenção foi fraudulenta na produção da informação requerida; outra ainda estabelece Jerusalém como capital do Estado de Israel (para o leitor que estranhe o facto, lembro-lhe que Israel não tem constituição, onde normalmente estão estabelecidas as capitais nacionais), etc.

Em resumo: não me vou dedicar mais ao assunto; termino lembrando apenas que Daniel Oliveira, do Arrastão, perdeu uma boa oportunidade de não fazer figura de parvo.

(Devo esta notícia a um link que um leitor me enviou para o mail. Permanece aberto. Obrigado, uma vez mais.)

Um debate inútil?

Não vi o debate de ontem, na RTP, entre os candidatos à liderança laranja, mas se o resumo no telejornal da 2 espelha o que se passou, então compreende-se que os eleitores ainda não vejam o PSD como alternativa ao comatoso PS. O Alexandre tem razão: não ouvi discutir uma única ideia para o país. Talvez o resumo seja infiel e injusto, mas parece-me que tudo andou à volta da votação do PEC, ou não, da demissão do PGR, ou não, da moção de censura, ou não, e dos números de circo de Aguiar-Branco. Sobre os problemas reais do país, só o tiro no escuro de Passos Coelho, que nos explicará como reduzir o défice sem aumentar impostos depois de um grupo de sábios lá no Olimpo fazer as contas. Suponho que as contas ainda não estejam feitas porque o Dr. Jekill passa o tempo no twitter, mas Passos não o diz na carta enviada há dias aos militantes pedindo "que lhe confiem o seu voto" (sic, a bold, não vá alguém esquecer-se de ter fé no messias) porque passou os últimos dois anos a "trabalhar, estudar, conhecer melhor, debater e preparar-se" (sic, a bold, não vá alguém etc.). Está à vista. Aliás, Passos mostrou a sua fibra de estadista quando, acusado por Rangel de ter estado ao lado do Governo em diversas ocasiões (além de trabalhar e estudar, acrescento), fez cara de mau e lhe atirou com um "Mas como é que diz isso sem se rir?". Momento alto do debate, sem dúvida. Por todo o país, as tascas levantaram-se em aplausos delirantes ao sofisticado argumento.
Entretanto, Aguiar-Branco resolveu acabar com as ilusões que eu ainda tinha sobre ele. Quis vingar-se de Rangel e irritou-o, mas à custa de uma notícia que Rangel desmentiu. Insistiu na vitimização (que continua hoje através de um email aos militantes sobre uma "campanha" para acabar com a sua candidatura, uma acusação gravíssima ao Conselho de Jurisdição Nacional a reboque da saga das assinaturas do último fim-de-semana; sempre quero ver como é que isto acaba: ou Aguiar-Branco tem provas do que afirma e obriga Morais Sarmento a demitir-se, ou não tem provas e está a dar um tristíssimo espectáculo). Atirou-se a Passos Coelho com a exigência de uma declaração de apoio à recandidatura de Cavaco a Belém, e Passos lá disse que sim a saca-rolhas, como se isso fosse uma questão. Se Passos ganhar, não tem outra saída. Aguiar-Branco sabe-o, mas vinha com a coisa na manga para clamar vitória. Que lhe faça bom proveito: suspeito que seja a última.
Rangel confirmou as razões pelas quais votarei nele, mas deixou-se enredar no debate. Ainda procura o tom certo. É um bom tribuno, mas reage mal sob pressão. Se a rábula de Aguiar-Branco é uma falsidade, só há uma resposta possível: dizer-lhe nos olhos que está a mentir. Rangel não o fez. Sempre apoiei Manuela Ferreira Leite, apesar de tudo o que correu mal, porque para ela uma mentira é uma mentira. E di-lo. Perdeu eleições assim? Pois, mas deixa saudades.

O Mensageiro das Estrelas ou Do Cachimbo ao Telescópio



O Henrique Leitão foi um dos fundadores do Cachimbo e por cá andou a escrever sobre ciência, até que resolveu dedicar-se a actividades mais lucrativas. Só agora descobri, via a sempre atenta Miss Pearls, que uma das ditas era a primeira tradução portuguesa do Sidereus Nuncius, a obra mais famosa de Galileu. A primeira desde que o livro foi publicado, já lá vão 400 anos. Não sei se o camarada Leitão lucrou alguma coisa com a troca, mas tenho a certeza que ficámos todos a ganhar.

De arrastão qualquer coisa pega

Já fiz o melhor que podia. Não encontro em parte nenhuma da internet o relatório a que se refere esta notícia do diário israelita Haaretz, e usada para propaganda aqui (amputada de parte considerável da sua informação). Das organizações signatárias do referido relatório, só o Mossawa Centre é detectável. Aparentemente a organização está desactivada electronicamente, uma vez que o seu site só tem informação até 2009. Do relatório, nem rasto. Quanto à Coalition Against Racism, não é identificável. Admito que sou eu que não esteja a conseguir lá chegar. Por isso dou alvíssaras a quem me enviar links das organizações, ou links (procurei em vários sites que citam a notícia do Haaretz, mas em vão) para o referido relatório. Gostava de saber que leis são as que as organizações responsáveis pelo relatório – repito que não é fácil sequer identificar uma delas e saber se a outra está mesmo viva – consideram «racistas». A notícia do Haaretz ainda tem algum cuidado. O juízo de valor é colocado entre aspas e, no lead da notícia, embora sem aspas, é atribuído. O Haaretz, naturalmente, noticia. A gente do arrastão faz jus ao nome e converte um juízo de valor num juízo de facto (tira as aspas e faz o truque de reproduzir um juízo atribuído, não sobre um juízo de valor, mas sobre um pseudo-facto. Complicado? É fácil. O resultado é: há não sei quantas leis racistas (sem aspas). Ponto. O que levou a organização x e y a considerarem o Parlamento israelita extremamente racista. Aliás, racista sempre foi. O ponto é que está mais racista do que nunca...). De arrastão qualquer coisa pega. Aguardo no meu mail por notícias do relatório. Um obrigado antecipado.

A Politização da Esperança

Na retórica política contemporânea, há poucos lugares-comuns mais piegas que o apelo à esperança. Desde que Obama ganhou as eleições, passou a ser invocada por especialistas sérios, comentadores sábios e candidatos a estadistas mobilizadores. Ninguém resiste a diagnosticar que Portugal, na mais miserável das crises, precisa de esperança. É uma espécie de palavra milagrosa que arranca povos à morte e produz vitórias arrebatadoras. Presume-se que quem a não pronuncia com frequência é aliado secreto das trevas e do desespero.
A coitada da esperança tem um passado glorioso. Antes de reclamada para a política, era virtude teologal, indispensável para a salvação da alma. Com o recuo da religião, politizou-se. Nalguns casos com efeito catastrófico, se recordarmos os messianismos políticos do séc. XX. A esperança na Revolução e na terra prometida pelo Líder deixou atrás de si um rasto de trevas.
Mais recentemente, a esperança converteu-se no recurso psicológico por excelência da modesta democracia representativa. Portugal, arrastado pela moda, não fugiu à regra. Sucede que Portugal precisa não de esperança, mas de vitalidade histórica. O país dispensa miragens equivalentes a transes colectivos capazes de levitar os povos acima de problemas e perigos e a ilusão de que se acreditarmos todas as ameaças desaparecerão. O que já não dispensa é energia moral para olhar nos olhos ameaças que pendem sobre si. Não pode prescindir da vitalidade que nos sustenta quando combatemos perigos concretos. Vitalidade histórica é outra expressão para consciência da realidade, pés assentes na terra. Mas é mais que isso. É a força que nos permite ter confiança nos nossos esforços e não desistir diante da grandeza da tarefa. É o derradeiro antídoto contra a decadência.
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No i de hoje.

Akira Kurosawa