Domingo, 28 de Fevereiro de 2010

Leitura imprescindível


Não li nem todos, nem metade, nem nada que se pareça dos livros que nos últimos anos foram escritos em língua portuguesa. Portanto não posso dizer que este seja o mais importante. O mais belo. Talvez seja, não sei. É um livro sobre o tempo que sobra, ou melhor, sobre o tempo como sobra, e sem préstimo. Sobre o tempo que sobra, porque vamos morrer em breve e já nada com sentido é, de aqui em diante, possível. Ou sobre o tempo que sobra, porque o luto é impossível e o tempo se quebra (leiam, se quiserem perceber o que é isso). É um livro sobre o tempo nu. Sobre o tempo quando ele verdadeiramente (?) aparece. É um livro que conta histórias sobre o irremediável. Sobre pessoas que vivem com o irremediável no tempo que lhes sobra, e sem préstimo. Um paradoxo, bem sei. Talvez a grande literatura, com que o livro dialoga permanentemente, seja a forma humana de encontro com esse nó de ser que resiste à, e reclama a apropriação com sentido, pela forma narrativa. Ou talvez seja isso a grande tradição da filosofia, que tem na sua origem o espanto inextinguível por serem as coisas aquilo que são. O que é como é. O livro de Filipe Nunes Vicente participa da tradição da grande literatura e da filosofia. Uma tradição que não chega. É um livro necessário.

Arqueologia

Os meus Scorsese preferidos são Mean Streets, Taxi Driver, Touro Enraivecido e Goodfellas. Não há que ter medo dos consensos. Todos estes filmes têm uma marca comum: a urgência. Filmes de autor, a esticar limites estéticos e morais, tal como as personagens que os habitam. Harvey Keitel no primeiro, Robert de Niro nos outros dois e Ray Liotta no último. Casino, também muito bom, é menos urgente, produto de um realizador mais seguro e mais perfeito mas menos interessante. Aqui, a violência, mesmo quando brutal na intensidade (a cena do espancamento no milheiral), é mais inócua (comparar com a cena inicial de Goodfellas), mais estetizada. Uma abordagem da violência que atinge o paroxismo nas videoclipescas cenas de luta em Gangs de Nova Iorque: as facadas e os golpes de machado já não ferem. Scorsese, também não. Há comparação possível com a catarse sangrenta de Travis Bickle, com as fúrias domésticas de Jake La Motta, com o descontrolo maníaco de Tommy DeVitto? Não há. Scorsese deu lugar ao mestre. Depois de Goodfellas, os filmes começaram a ser realizados pelo cinéfilo apaixonado que nos levou pela mão e pelo coração através do cinema americano e do cinema italiano. Duvido que este Scorsese tivesse a audácia de filmar a trip de Ray Liotta, muito provavelmente a sequência mais radical, inovadora e influente do cinema mainstream americano dos últimos 25 anos.

Scorsese, tal como outros companheiros da geração de 70, não queria implodir Hollywood, queria ressuscitá-la. Esta tensão entre tradição e ruptura, entre a lei dos estúdios e a independência autoral, é o código genético de grande parte dos filmes daquela década que se tornaram clássicos. Os falhanços de Friedkin, Cimino e Coppola reduziram o espaço dos realizadores e, aqueles que não desapareceram, foram obrigados a renunciar a uma visão mais pessoal em favor de projectos menos arriscados para os estúdios. O Cabo do Medo é uma obra que nasce neste contexto. Spielberg terá dito a Scorsese que iria produzir o seu maior sucesso comercial e entregou-lhe este remake de um série b do início anos 60, de J. Lee Thompson. O filme, apesar de todo o virtuosismo de Scorsese, é uma homenagem, um exercício de estilo, uma obra impessoal. Anos depois, com o Aviador, Scorsese levaria ao extremo esse exercício de arqueologia cinéfila. Somos obrigados a admirar a fotografia de Robert Richardson, mas quando um aspecto técnico se sobrepõe à visão do realizador é porque este não tem uma ou é tão frágil que temos de nos contentar com o superficial. A paixão de Scorsese pela história do cinema está bem expressa no documentário A Personal Journey with Martin Scorsese Through American Movies. Enquanto declaração de amor, Shutter Island não nos diz nada que não soubéssemos. Mais uma vez há a notável fotografia de Richardson e a montagem da eterna Telma Schoonmaker. A interpretação de diCaprio é a mais convincente das quatro colaborações com Scorsese, mas o filme é plot, plot e mais plot.
“Nos melhores filmes de Scorsese só cabe a vida inteira. Um simples enredo não chega para o realizador que ele é. Scorsese é narrador de percursos, de ascensões, quedas e redenções. Não é o tarefeiro a quem se peçam filmes d'hór-i-meia, planos eficazes, trabalho despachado e adeus-até-à-próxima. Dos seus filmes diz-se que são "character driven" porque a narrativa obedece às personagens e não aos truques do argumento. As personagens não estão submetidas às necessidades da intriga, seguem apenas as suas pulsões, quase sempre auto-destrutivas, das quais apenas uma muito católica ideia de redenção as pode salvar.” Escrevi isto a propósito de Entre Inimigos e o mesmo pode ser aplicado a Shutter Island. A violência continua inócua (a cara desfeita de um general alemão, criancinhas afogadas como nos filmes japoneses de terror, alguns sustos série b) e é fraco consolo saber que ninguém filma como Scorsese. Dele queremos e esperamos mais. Mas, pelas últimas amostras, o melhor é tirar o cavalinho da chuva e rever muitas vezes aqueles quatro filmes, da época em que o artista não brincava aos tarefeiros.

Os alvos escolhem-se

Passos Coelho, na entrevista à tsf, parece alçar-se e engrossa a voz quando se refere a Jardim. Intransigente. Duro. "Era o que faltava". O que é curioso é que não me lembro de alguma vez o ter ouvido assim (e tantas oportunidades houve!) em relação a José Sócrates. Valentias selectivas.

Entre cá e lá: é diferente, mas vendo bem

Jim Fitzpatrick, ministro do Ambiente britânico denuncia infiltração de radicais islâmicos no Partido Trabalhista.

Há dias, falando com uma amiga, dizia-lhe eu: «Começa a ser cada vez mais difícil respirar na Europa. Há dias impossíveis. De novo. Parece que desta é a nossa vez.» E ela respondeu-me: «Em Portugal, felizmente, as coisas não estão tão más como no resto da Europa.» Dizia-me: «Claro que há, como sempre houve, uma espécie de anti-semitismo larvar, que ao mínimo problema sério pode voltar a estalar. Mas, apesar de tudo,» insistia, «as coisas aqui estão mais calmas.»

Acedi. Não porque estivesse convencido do «ponto» que ela queria fazer, ou porque a calma (aparente) que a sossega (por enquanto) me engane, mas para quê insistir, explicar que não, nisto não há ilhas, e que o trabalho de preparação para a violência está outra vez em curso e com toda a clareza. Que a esquerda radical, bem mais do que a direita radical, tem, entre nós, feito por sua conta o que noutras paragens é obra partilhada com o radicalismo islâmico. (Sim, é claro, os judeus não são os únicos alvos do radicalismo islâmico. Mas, sim, é claro, são o catalizador do seu combate. E serão os primeiros a cair.)

Para quê lembrar-lhe os recorrentes textos de Alexandra Lucas Coelho, por exemplo, mas é só um exemplo, porventura o mais óbvio, onde o ódio a Israel - a alavanca do anti-semitismo contemporâneo -, sem qualquer inibição, tem, por cá, a respeitabilidade do que, só por ofuscação, se confunde com jornalismo. Por exemplo: no jornal Público, nesta entrevista, ainda há coisa de um ano, a Zeev Sternhell (sim, claro, aos judeus nunca faltaram judeus idiotas úteis ao serviço dos seus piores inimigos):

O historiador está a explicar à jornalista (?) o que entende ser a motivação da deslocação para a direita do eleitorado israelita.

Pergunta da jornalista do Público: Há também aquela frase que diz: «Mata tantos árabes quanto possível e fala tanto de paz quanto possível». Neste caso, trata-se de escolher quem mata muitos árabes e não fala muito de paz.

Resposta do entrevistado: (...).

Isto passa por jornalismo. É claro, que hoje, como no passado, o ódio aos judeus se propaga em nome do humanitarismo como ideologia. Israel, o único Estado judaico do mundo (e, já agora, a única democracia do Médio Oriente, onde, por exemplo, Zeev Sternhell é premiado pela sua obra científica e se pronuncia publicamente sempre que pode), é o mal. A humanidade pertence aos seus inimigos mortais. Nada de novo debaixo do Sol.

Já há cartaz da visita do Papa

Sábado, 27 de Fevereiro de 2010

PS a descer nas intenções de voto


A sondagem da Marktest para o Económico/TSF retrata uma queda na imagem pública de José Sócrates e das intenções de voto no PS. Ao mesmo tempo que o PSD vê a sua percentagem de intenção de voto subir 3.6%. De escuta em escuta, de escândalo em escândalo, com a economia em farrapos e o desemprego a subir, seria estranho se a tendência fosse diferente.

Música



An die Musik:

Du holde Kunst, in wieviel grauen Stunden,
Wo mich des Lebens wilder Kreis umstrickt,
Hast du mein Herz zu warmer Lieb' entzünden,
Hast mich in eine beßre Welt entrückt!

Oh gracious Art, in how many grey hours,
When life's fierce orbit ensnared me,
Have you kindled my heart to warm love,
Transfigured me into a better world!

Franz von Schober

Será que algo está a mudar?

Acabo de saber pela Lusa que Miguel Relvas perdeu as eleições para Presidente da Mesa da Assembleia Geral da Concelhia do PSD de Tomar. Depois de muitos anos à frente daquele órgão partidário, o braço direito de Pedro Passos Coelho, nesta campanha para as eleições directas, foi derrotado por uma lista que tinha como lema "mudança". Curioso nome este. Será isto um sinal de que alguma coisa está a mudar no PSD? Parece que afinal não há vencedores antecipados, como alguns nos querem fazer crer.

Aniversário d'O Insurgente

Aqui está o meu presente de aniversário.
Abraços aos Insurgentes.

Da série "A concorrência faz melhor"

O estado a que isto chegou, do Pedro Correia.

Falta de

Estas gracinhas do primeiro-ministro com uns microfones revelam muito bem (para mais sabendo-se o que sabemos hoje e ao mesmo tempo em que se ia sabendo mais) o descaramento, a falta de vergonha da personagem.
E, como é da praxe, há sempre uns cortesãos de riso pronto ao “humor” do senhor primeiro-ministro.

Há mais de cem anos que o melhor CV é o cartão de militante

“Portugal é para todos, mas o Estado é para os republicanos”. Este dito, que durante a I República tantas vezes foi repetido entre militantes do PRP, relembra-nos como a nossa forma de compreender a política evoluiu tão pouco. O significado que os militantes do PRP lhe davam era diferente (exclusão dos adversários políticos dos cargos públicos), mas a ideia de apropriação dos cargos públicos por quem governa mantém-se: cem anos depois, basta substituir no dito ‘os republicanos’ pelo nome do partido no poder (seja PS ou PSD) para obter um fiel retrato do Portugal dos últimos 35 anos. Um sinal grave e preocupante que, por perdurar, corre o sério risco de se tornar num traço de personalidade; e, portanto, irresolúvel.

Estado de direito formal

O procurador-geral da República argumenta que, mesmo que estivessem provados os factos indiciados, eles não constituiriam qualquer crime. Não tem razão. O crime de atentado ao Estado de direito tem três modalidades: destruição, alteração e subversão do Estado de direito. A modalidade que se indicia nas escutas referidas no Sol é esta última. Há subversão do Estado de direito quando há uma "instrumentalização dos órgãos e processos constitucionais para fins estranhos às funções constitucionais do Estado", como já escrevi há anos. É o que se indicia no caso. Em face das escutas referidas no Sol, indicia-se que a posição institucional e os poderes funcionais de um membro de um órgão constitucional (Governo) foram instrumentalizados para fins estranhos ao Estado. Como crime de empreendimento puro, o crime consuma-se com a violação ou a tentativa de violação da liberdade de imprensa de um jornalista ou de um meio de comunicação social. No caso em apreço, o bem jurídico da liberdade de imprensa é encabeçado nos concretos jornalistas (Manuela Moura Guedes e José Eduardo Moniz) e nos concretos meios de comunicação visados (a TVI, o Correio da Manhã e o Público). Por isso, a lei tutela especialmente o direito de acção do cidadão ou entidade "directamente ofendidos pelo acto considerado delituoso". É a própria lei que considera que os actos delituosos previstos na Lei n.º 34/87 podem "ofender directamente" cidadãos e entidades! Note-se que o legislador escolheu a palavra "ofendidos" e não "vítimas", o que tem o significado dogmático de que os tipos desta lei também tutelam bens jurídicos das pessoas singulares e colectivas visadas.
Paulo Pinto de Albuquerque, no DN (ler tudo aqui)

Sexta-feira, 26 de Fevereiro de 2010

The Cure - Friday I'm In Love

Tivoli


Ontem fui ao Hotel Tivoli. À saída assinei a proposta de candidatura de Paulo Rangel à liderança do PSD. Gostei de ver alguma gente conhecida. E, sobretudo, de ver tanta gente desconhecida. Claro que não gostei de ver alguma gente conhecida, mas, que diabo, a sala do Tivoli não é exactamente a minha casa.

Hoje não comprei os jornais todos. A vida não está para supérfluos. Dos que li, em papel e online, fico com a estranha impressão que o jornalista que lá foi não ouviu o mesmo discurso que eu.

Eu ouvi: uma década de sacrifícios, dez anos de sacrifícios. E, ouvi, claro, a ideia de que estamos escravos da dívida e o PSD terá de servir outra vez para nos libertar, desta vez disto. Sacrifícios. A ideia de que, socialmente, a mobilidade e, com ela, a igualdade de oportunidades se promove com um escola responsabilizadora e exigente, e não com uma «escola inclusiva», estratagema socialista para gerar estatísticas e autêntica desigualdade social. Claro que os ricos vão para os colégios e os pobres ficam com o lixo inclusivo. Sacrifícios. Libertarmo-nos. Liberdade. Uma década de sacrifícios, dez anos de sacrifícios.

Acredito que, se começarmos por aceitar isto, ainda um dia havemos de ter futuro. Gostei do discurso de Paulo Rangel.

O Psicólogo Explica

Do estado de negação, passando para a vitimização e terminando no branqueamento. Um artigo de opinião que não merece comentários.

Citação tocquevilliana do dia



"DA CORRUPÇÃO E DOS VÍCIOS DOS GOVERNANTES NA DEMOCRACIA; DOS EFEITOS QUE DAÍ RESULTAM PARA A MORALIDADE PÚBLICA
(...)

Se os homens que dirigem as aristocracias procuram por vezes corromper, os chefes das democracias mostram-se eles mesmos corruptos. Nas primeiras ataca-se directamente a moralidade do povo; exerce-se nas outras, sobre a consciência pública, uma acção indirecta que é ainda mais temível.
Nas nações democráticas, sendo os que estão à cabeça do Estado quase sempre alvo de suspeitas infames, dão de algum modo o apoio do governo aos crimes de que os acusam. Apresentam assim exemplos perigosos à virtude que se afirma e fornecem comparações gloriosas ao vício que se esconde.
(...)
O povo não penetrará jamais no labirinto obscuro do espírito de corte; descobrirá sempre com dor a baixeza que se esconde sob a elegância de maneiras, o refinamento do gosto e as graças da linguagem. Mas roubar o tesouro público ou vender por dinheiro os favores do Estado, isso qualquer miserável compreende e pode vangloriar-se de fazer o mesmo, por seu turno.
O que devemos temer, pois, não é tanto a visão da imoralidade dos grandes, mas a da imoralidade que leva à grandeza. Na democracia, os simples cidadãos vêem um homem que saiu das suas fileiras e chega em poucos anos à riqueza e ao poder; esse espectáculo provoca a sua surpresa e o seu ressentimento; interrogam-se como é que alguém que ontem era seu igual exibe hoje o direito de os conduzir. Atribuir a sua ascensão a talentos e virtudes é incómodo, porque seria confessar que eles mesmos são menos virtuosos e menos hábeis. Dão então por principal causa algum dos seus vícios, e muitas vezes têm razão. Opera-se assim uma não sei que odiosa mistura entre as ideias de baixeza e poder, indignidade e sucesso, utilidade e desonra."

Alexis de Tocqueville, De la Démocratie en Amérique (1835)

Há coisas fantásticas, não há?

Parece que as escutas do caso Face Oculta "apanharam" Manuela Ferreira Leite e Passos Coelho, sempre tão tolerante com o Primeiro-Ministro, se apressou a comentar a notícia. A insurgente Elisabete Joaquim faz o cronograma.

A última viagem


No próximo Domingo, o centenário Sud-Express que liga diariamente Portugal a França fará a sua última viagem.

O comboio que parte diariamente de Lisboa para França já não rola até Paris, (em Hendaye os passageiros fazem transbordo para o TGV), e já não é o mesmo comboio que fazia a viagem no início do século XX em 34 horas, mas no mesmo ainda seguirá a mítica carruagem azul construída nos anos 60 (Camas Wagon Lits), e a última carruagem restaurante da CP.

Quando tinha 20 anos viajei no Sud-Express sozinho na primeira etapa do meu primeiro Inter-Rail. Entre algum desconforto e a horas que não passavam, a viagem era bonita e servia para se planear a primeira semana do Inter-Rail. Entre a carruagem azul (camas) e a carruagem restaurante experimentava-se um encanto desconhecido que associei à nostalgia dos grandes Expressos do início do século XX.

Entalado entre as novas auto-estradas a os aviões low-cost, o Sud-Express perdeu importância e deixou de ser um canal de ligação importante à Europa. Fica a memória de um comboio que faz parte da nossa história. A sua última viagem merecia uma evocação condigna. Se pudesse embarcava na última viagem Sud-Express.

Quinta-feira, 25 de Fevereiro de 2010

os intolerantes são os outros

(a propósito disto escrito por eles)
Tirou-me as palavras da boca, cara Fernanda. Estava também a pensar nisso e julgo que a resposta à pergunta seria que existe (ainda) uma esquerda que encontra como principal foco de legitimação a sua oposição aos EUA, i.e. o confronto com um (suposto) poder imperial -- uma esquerda que vive numa espécie de Guerra Fria mitológica, porque um mundo bipolarizado é mais simples de compreender (e de caracterizar o adversário moralmente). Cuba, símbolo da résistance (em francês, porque é mais Sartre) por excelência, é também a persistência desse mito, e o Daniel Oliveira, que vive nesse mito, não podia correr o risco de ser confundido com aquela gente (que ele despreza) que concorda com ele quanto aos Direitos Humanos (neste caso a morte de um prisioneiro político em Cuba), mas que não acha que os EUA sejam a fonte do Mal. Tal como quanto à Liberdade, quando ele fala de Direitos Humanos não se refere ao mesmo que nós. Na verdade, como ficou manifesto em ambos os casos, o verdadeiro problema não é de conceitos ou valores, mas a companhia. E ainda faz de conta que os intolerantes são os outros.


Adenda: acabo de notar que o Daniel Oliveira comentou no post da Fernanda. Cito duas frases: "Porque os que fazem a petição decidiram que a luta pelos direitos humanos em Cuba não é um exclusivo dos que defendem uma nova Baia dos Porcos" ; "E não assinaria outra ao lado de amigos do Pinochet . Como noutra ocasião, escolho as companhias". I rest my case.

Aproveito para lhe dizer, caro Daniel, que sou do Sporting (como julgo que também é), e que estou a pensar ir ao estádio no domingo. Aviso-o com antecedência porque sei que escolhe as companhias, e quero deixá-lo à vontade para não aparecer.

Uma imagem forte

Fortemente perspicaz. Sobre uma certa relação. Um género de relação. Uma relação que determina os seus correlatos. Lede, irmãos. E ride.

A rachar

Há cerca de um ano, um reputado economista português, que já teve responsabilidades políticas de primeira ordem em Portugal, dizia que Portugal estava cerca de 3 meses atrasado em relação à Grécia. Só em parte é que a proposição é verdadeira, mas percebe-se a ideia. No entanto, a verdade da proposição depende da sua confirmação empírica. Para não estarmos sempre a insistir na nas variáveis económicas, experimente-se um outro teste. Por enquanto aqui na lusa pátria ainda mantemos as agências de rating e o neoliberalismo no banco dos réus, ao passo que na Grécia essa acusação entretanto perdeu novidade e já se passou à categoria superior. Na velha Hélade as bandeiras da União Europeia ardem nas ruas. Mas isso não chega. É ainda insuficientemente concreto. Pela boca do Vice-Primeiro Ministro grego, aquele que vem logo a seguir ao chefe do executivo, recorda-se agora o nazismo alemão. E por cá: o que se irá inventar daqui por 3 meses? Seja lá o que for, não há dúvida de que as coisas estão a ficar perigosas. A “casa comum europeia” está a rachar.

Esclarecimento

Peço só um bocadinho de atenção. Ao contrário do que sugerem alguns comentários a posts que venho fazendo sobre a tragédia – reparem: isto não é um modo de falar; quero mesmo dizer «tragédia» – em que nos metemos, eu nunca «advoguei» uma saída do euro: disse apenas que me parecia haver cada vez menos saídas. Que não essa.

A ideia de que estamos escravos da dívida parece-me um bom ponto de partida para pensarmos onde estamos e para onde vamos. Com a expressão «escravos da dívida» há-de querer dizer-se, certamente, uma vez mais, literalmente isso. Um escravo tem escolhas? Tem opções? Um escravo não tem liberdade, não escolhe, não opta. Faz o que lhe mandam e quando mandarem.

É certo. Não há nos tratados nenhuma cláusula que preveja a expulsão de um país do euro. Acreditavam os seus autores que, uma vez lá dentro, sempre lá dentro. E o euro era eterno. O paraíso, enfim. O paraíso tornou-se um inferno. E há muitas maneiras de sair. Os tratados são tão eternos como o euro. Sairemos quando os custos de permanecer forem superiores aos de ficar. Para quem manda e para quem pode.

O caos económico e financeiro que ocorrerá no tempo imediatamente a seguir a uma eventual saída só é importante na medida em que contaminar quem manda e pode. É evidente que o incumprimento, que resultaria automaticamente da saída do euro, e o colapso do sistema financeiro, que esta acarretaria, pesam na deliberação sobre se ficamos ou não apenas na medida em que significarem mais danos para quem pode e manda do que os causados pela nossa já muito evidentemente nociva presença.

Contra todas as evidências, a eurocracia insistiu em que as nações e os Estados em que estas se constituíram eram coisas do passado. Estamos a aprender, da maneira mais extrema e violenta, que elas e eles existem. E nós, «europeus», nada somos fora delas e deles. Não há como as situações-limite para a verdade se revelar.

É bom que nenhuma das saídas possíveis passe pelo salto em frente que resultaria na eliminação de quaisquer restos de Estado nacional, varridos na voragem da união política. Continuo a dizer: o que está em causa é isto – Portugal. Se não houver nenhuma saída senão o salto para a união política, então eu estava errado: Portugal já não existia e eu não dei por isso.

P.S.: Eu fiz parte do consenso nacional sobre a adesão ao euro. Depois de me ter convencido que ele não era uma simples utopia e ia para a frente, acabei por aderir. Julgo que, de todos os erros de avaliação que cometi como cidadão, nenhum foi tão grave.

Possivelmente a Frase Política da Década.

Manuela Ferreira Leite, 25 de Fevereiro de 2010

Pinto Monteiro ainda não se demitiu?

Os investigadores do Ministério Público e da Polícia Judiciária de Aveiro ficaram intrigados com as mudanças que ocorreram no discurso sobre o negócio da compra da TVI pela PT e que coincidem com uma reunião que teve lugar na Procuradoria-Geral da República que contou com a presença de Pinto Monteiro, do procurador Marques Vidal e do procurador distrital de Coimbra Braga Themido.

Estas datas coincidem também com a altura em que alguns dos arguidos, nomeadamente Armando Vara e Manuel José Godinho, mudaram de telemóvel ou começaram a utilizar cartões diferentes. A revista avança também que o Departamento de Investigação e Acção Penal de Coimbra está a investigar as eventuais fugas de informação nesta fase da investigação e que poderão ter comprometido o caso.

Numa escuta gravada a 25 de Junho Rui Pedro Soares, administrador da PT que recentemente apresentou a demissão, garante que conversou com o primeiro-ministro sobre o negócio da compra da TVI e assegura mesmo que José Sócrates estaria furioso por não ter sido informado antes. A conversa, que aconteceu com o advogado Paulo Penedos mostra que, ao contrário do que tinha vindo a afirmar nas escutas anteriores, José Sócrates só então tomou conhecimento das intenções de negócio da operadora de telecomunicações.

[notícia da Sábado, explicada no Público; negritos meus]

Sobre Ron Paul

O congressista republicano do Texas tem muitos seguidores em Portugal. Causa-me uma certa estranheza que alguém com ideias tão exóticas suscite tanto entusiasmo. Sobre o assunto, aconselho a leitura do post A (não) revolução de Ron Paul, do José Gomes André.

O Nacionalismo de Alegre

Tenho sérias dúvidas quanto ao tipo de nacionalismo que Manuel Alegre efectivamente defende e, por conseguinte, não concordo com o João Rosas quando afirma, em defesa de um pretenso nacionalismo tolerante e progressista (logo de esquerda) por oposição ao nacionalismo de sangue ou étnico (logo de direita), “Este outro tipo de nacionalismo pode ser apelativo para mais pessoas e transparece no discurso de alguns políticos de esquerda (por exemplo, Manuel Alegre).”
Para começar: não existem nacionalismos de esquerda e de direita. Existem sim concepções de nacionalismo cultural, nacionalismo político, nacionalismo liberal, nacionalismo cívico, nacionalismo étnico, nacionalimo romântico-colectivo, nacionalismo liberal-individualista, apenas para enumerar algumas categorizações possíveis para o mesmo fenómeno.
Sou defensora do nacionalismo liberal cujo principio basilar é a assunção de um sentimento de pertença a uma comunidade nacional, existe, é sentido e utilizado como fonte de identificação dos sujeitos. Este sentimento de pertença potencia um outro, o da solidariedade entre os membros de uma comunidade nacional. O ponto de partida é o da liberdade individual, não de uma perspectiva atomista mas sim de uma perspectiva do social.
Penso que é este o nacionalismo que o João Rosas gostaria que Manuel Alegre defendesse, mas esquece que o cerne das leituras liberais do nacionalismo se centram num ponto fundamental: a possibilidade de ser ultrapassada a necessidade do direito à auto-determinação. E este é um ponto em que Manuel Alegre não abdica. Assim, o nacionalismo de Alegre é um puro exercício de retórica que somado ao seu fascínio pela extrema-esquerda contraria em absoluto o nacionalismo liberal.

Um Figo

A ler: Linhas de sobrevivência, do Pedro Lomba.

Quo vadis Rangel?

Quando lançou a candidatura à liderança do PSD, Paulo Rangel afirmou que não dispunha de exércitos, nem estava comprometido com notáveis ou estruturas partidárias. Avançava por estar «convicto de era necessária uma ruptura com este caminho de inércia e apatia para o abismo de um país endividado e sem horizontes para as gerações presentes e futuras. Rangel disse ainda que «não alinhava em consensos moles, oportunistas ou de mera conveniência», criticou o «apodrecimento lento das instituições» e falou da necessidade de fazer «um corte, uma clarificação, uma ruptura para libertar o futuro (...) que não basta mudar é preciso romper».

Palavras fortes estas. Ninguém pode acusar Rangel de falar em politiquês, ou de falta de coragem ou clareza no discurso. Mas há ainda muito por explicar. É preciso dizer ao que vem. Que ruptura é essa de que ele está sempre a falar. E o que se propõe fazer como líder da oposição, num país a viver uma crise profunda. Perante isto, confesso que estou curioso com o que Paulo Rangel vai dizer logo à noite (25 de Fev, 21h30), no Hotel Tivoli em Lisboa, na apresentação das principais linhas programáticas da sua candidatura aos militantes e simpatizantes do PSD.

Noites assim



Direcção de Pierre Boulez. Perfeito.

Quarta-feira, 24 de Fevereiro de 2010

Uiii mudava tanta coisa ...


Se a minha Mãe fosse lésbica muita coisa mudava na minha vida.
Poderia ser filho natural, mas sendo a minha mãe lésbica eu não teria sido gerado numa relação de amor, pois uma lésbica sente atracção sexual por outras mulheres e biologicamente duas mulheres não geram vida.
Não era indiferente e muita coisa mudava na minha vida.
Sendo filho natural eu até poderia viver com o meu Pai e com a minha Mãe mas numa relação sem amor, pelo menos sem o amor entre um Pai e uma Mãe na medida em que a minha seria lésbica.
Não era indiferente e muita coisa mudava na minha vida.
Sendo filho natural poderia também viver sem o meu Pai. A minha mãe poderia viver sozinha ou com uma companheira. Eu não teria um Pai e uma Mãe.
Não era indiferente e muita coisa mudava na minha vida.
Porventura seria um filho adoptivo e também não teria o meu Pai a viver comigo.
Não era indiferente e muita coisa mudava na minha vida.
Se a lei aprovada no Parlamento entrar em vigor e a minha mãe me quisesse adoptar só o poderia fazer caso não fosse casada, porque se fosse casada com a pessoa que ama já não me poderia adoptar.
Não era indiferente e muita coisa mudava na minha vida.
Finalmente não é indiferente que a Cml suporte custos com a afixação e divulgação desta campanha. Há tantos problemas em Lisboa que não são resolvidos por falta de recursos que não se compreende que uma câmara desvie recursos para patrocinar uma campanha destas.

Do Corta-Fitas a São Vicente

O Corta-Fitas prossegue a melhor série da blogosfera portuguesa em tempos recentes. Não sei onde é que os cortafiteiros foram desencantar a autora, mas as fotografias de Lisboa são fantásticas. É, aliás, uma curiosa ironia que, num blogue onde escrevem vários monárquicos e um descendente de alemães (o Rui Crull Tabosa, se bem percebi), a série tenha começado com uma vista de São Vicente de Fora.
O mosteiro de São Vicente, hoje sede do Patriarcado, foi desde sempre um símbolo da presença régia em Lisboa. Fundado por D. Afonso Henriques logo após a conquista de 1147, serviu de cemitério aos cruzados alemães e flamengos mortos durante o cerco. O direito de padroado, isto é, a nomeação do prior, pertenceu sempre à coroa, em contraponto a Santa Maria dos Mártires, no lado oposto da cidade (embora não exactamente no local onde hoje está), que o rei ergue em memória dos cruzados ingleses, mas doa a Gilberto de Hastings, o primeiro bispo pós-1147. Em São Vicente será até cultuado pela primitiva comunidade monástica, composta por premonstratenses flamengos, um cruzado alemão, Henrique de Bona, que aí recebera sepultura e fama de santidade - nunca oficializada por qualquer processo de canonização. Uma curiosíssima devoção local que só esmorece com a chegada das relíquias do próprio São Vicente, em 1173, e sobretudo dos cónegos regrantes de Santo Agostinho, que se instalam no mosteiro até à extinção das ordens religiosas em 1834.
Entretanto, a última dinastia de Portugal, de D. João IV a D. Carlos, faz-se enterrar na cripta. Trocando o seu panteão de Vila Viçosa pelo mosteiro régio de Lisboa, os Bragança selavam um destino nacional. Tal como, antes deles, fizera Filipe I, o rei espanhol, que manda reconstruir por completo a velha igreja românica original. O resultado foi a obra de arte maneirista que hoje podemos contemplar e o terramoto de 1755 poupou.
Vale a pena subir as centenas de degraus até ao telhado. Pelo caminho, pareces forradas a azulejos dos séculos XVII e XVIII com cenas de trabalho e de caça. Lá em cima, a vista sobre a zona oriental, um dos tesouros mais bem guardados de Lisboa. Amplíssima, com o Tejo aos pés, apanha todo o cotovelo onde começa o Mar da Palha. Ao fundo, vê-se distintamente a Expo, a ponte nova, Sacavém, Vila Franca, Palmela, a Arrábida, Alcochete, o esteiro que entra pelo Barreiro dentro. Num dia bom, é de perder o fôlego. Às vezes, enterrados no trânsito ou nos corredores do Metro, esquecemo-nos de que a cidade tem recantos deslumbrantes. Obrigado ao Corta-Fitas por nos lembrar.

Novo blogue sobre a Economia Portuguesa

Este blogue chama-se The Portuguese Economy. Abriu hoje e é escrito em americano. Não por um saloio pretensiosismo dos autores, mas porque o Pai Fundador do blogue, o Pedro Lains, quis abrir a discussão sobre a economia portuguesa ao público internacional que não fala senão americano. Fez muito bem.

Madeira

«Ó infelizes mortais! Ó deplorável terra! Ó agregado horrendo que a todos os mortais encerra! Exercício eterno que inúteis dores mantém! Filósofos iludidos que bradais "Tudo está bem"; Acorrei, contemplai estas ruínas malfadadas, Escombros, despojos, cinzas desgraçadas, Estas mulheres e crianças amontoadas Estes membros dispersos sob mármores quebrados Cem mil desafortunados que a terra devora (...) Direis vós, perante tal amontoado de vítimas: "Deus vingou-se, a morte é o preço dos seus crimes" ? Que crime, que falta cometeram estas crianças Sobre o seio materno esmagadas e sangrando? Lisboa, que já não é, teve ela mais vícios Que Londres ou Paris, mergulhadas em delícias? Lisboa em ruínas, e dança-se em Paris.»

Terça-feira, 23 de Fevereiro de 2010

Euro ou não Euro?

Não parece haver outras opções. Ou saímos desta com o Euro, ou rompemos com a União Monetária e adoptamos uma nova moeda bem desvalorizadinha. Esta segunda solução é politicamente insustentável. Seria a morte política de PS e PSD que tudo apostaram, tudo conciliaram, para termos o Euro. O Euro é o símbolo máximo do "sucesso" da nossa integração no espaço político-económico europeu. Morrendo o Euro, morre este regime que por enquanto ainda subsiste.
O problema é que superar a crise em que estamos envolvidos amarrados ao Euro coloca imensas dificuldades económicas. A ponto de se dever considerar não apenas cortes nos salários nominais, já que num ambiente sem inflação a coisa só lá vai assim, mas também cortes nas prestações sociais e muito provavelmente nas pensões de reforma. Vai ser a doer. Como diz o Jorge Costa (sim, o homem que "treslê"), quer a gente queira, quer não.
Mas antes que se prepare o assalto ao Banco Central Europeu é preciso notar que uma hipotética nova moeda desvalorizada não nos pouparia à dor. Bem pelo contrário. A experiência de outras economias que foram forçadas a desvalorizar em circunstâncias semelhantes sofreram colapsos económicos severíssimos. Em particular, quando, como nós, a dívida privada era elevada. Nestas condições, uma moeda sem credibilidade e com necessidade de desvalorizar equivale a pressão esmagadora sobre a banca.
É verdade que o gráfico da trajectória económica de países que fizeram a experiência de desvalorizar é, com excepções, um pronunciado V: queda abrupta, recuperação relativamente rápida. Mas essa rapidez depende da profundidade das mazelas sofridas pelo sector bancário. Alguém quer arriscar?

Sinais de fogo


Não sei se todos, ou algum, têm por Jorge de Sena a espécie de veneração que eu tenho, pela particular sorte que tive de o conhecer, quando era miúdo e nada sabia ainda, excepto que o meu pai, o meu herói, e os seus amigos, outros heróis, tinham por ele uma admiração exemplar. Um dia, vindo do exílio, na abertura marcelista, lá foi a Lourenço Marques. E eu, miúdo, lá fui com o meu pai a todas as palestras que deu, sobre Camões e outros temas, em que ele (pouco) veladamente zurzia no regime e no país, em salas cheias, inclusive de pides anónimos e disfarçados, fazendo servil e lealmente o seu trabalho de marcação. Lembro-me que uma foi no cinema Gil Vicente, outra na Associação dos Antigos Estudantes de Coimbra, de que era presidente, julgo, Almeida Santos, outra ainda no anfiteatro da Faculdade de Medicina. Depois, pude ouvi-lo algumas vezes, em serões e ocasiões mais íntimas, porque andava lá pela casa dos amigos que ele tinha ou fez em Lourenço Marques, como o saudoso Rui Knopfli. Depois ainda, cheguei a saber de cor uma série de poemas dele. Acho que li tudo o que havia para ler dele. O Knopfli punha-ma a ler o que fosse necessário.

Ontem com os sinais de fogo, pois, lembrei-me dele, como não? E deste poema, de que reproduzo aqui os versos finais. É a

Carta aos meus filhos sobre os fuzilamentos de Goya
...
E, por isso, o mesmo mundo que criamos
nos cumpre tê-lo com cuidado, como coisa
que não é nossa, que nos é cedida
para a guardarmos respeitosamente
em memória do sangue que nos corre nas veias,
da nossa carne que foi outra, do amor que
outros não amaram porque lho roubaram.


Para o ler ou ouvir na íntegra, como merece, aqui.

É só gente sombria

Olivier Blanchard, economista-chefe do FMI

Outro doido que não compreende a bondade de Pedro Passos Coelho.

Quem diria?



O que são as coisas. Há meia dúzia de meses, quando Cavaco teve aquela sucessão de desastres que começou na comunicação ao país sobre as escutas à Presidência e acabou na demissão de Fernando Lima assassina para o PSD, muita gente vaticinou o seu óbito político. Uns com horror, outros com júbilo. Eram os tempos em que Sócrates se dava à provocação triunfal de chegar meia-hora atrasado a uma audiência. Eu lembro-me.

Hoje, com o Primeiro-Ministro enfraquecido, o Governo à deriva, o PSD em busca de rumo, um Parlamento que se permite ser insultado por jornalistas em sede de comissão, um poder judicial enredado em contradições e esoterismos e, ó doce vingança dos deuses de Boliqueime providenciada pelo Dr. Soares, dois rivais à esquerda que já começaram a esgadanhar-se e vão fazer do seu regresso a Belém um passeio, o Presidente surge como a grande referência de estabilidade e confiança do regime. Para uns com horror, para outros com júbilo. São os tempos em que se comprova, mais uma vez, que as notícias da morte política de certas pessoas tendem um pouco ao exagero. O que também vale, diga-se de passagem, para Sócrates.

Bons sonhos

Isto não está mesmo nada bem. Na imprensa séria da Europa discute-se o fim da «Europa». A nossa praça pública parece-se mais com uma imensa casa mal afamada, onde a expressão «corno» já serve para explicar alguns dos lances. Ou para os escamotear. Por exemplo, ontem, Sócrates pretendeu convencer o país que era o maior «corno» de todo o sempre. A «Europa», essa, onde estamos metidos até ao fundo, e cujo fim se debate, não existe aos olhos dos portugueses, concluirão com espanto, daqui a uns anos, os historiadores da nação (ou sem espanto, também pode ser.) Como, por aqui, pouco do que se opina tem interesse - estamos presos às «pontas» do primeiro-ministro -, não há como medir a desgraça a sério pelo que lá fora, em locais mais bem frequentados, se escreve. Diz-nos absolutamente respeito, mesmo que nos custe a acreditar.

Gideon Rachman escreve hoje um importante artigo no FT. A Grécia ameaça mais do que o euro, é o título e é verdade.

Sublinha a natureza emininentemente política da crise por que passamos. Compreendê-la nesses termos parece-me essencial, para, quando acordarmos deste torpor de bas-fonds, sabermos pensar uma resposta à altura da situação. Há uns dois ou três anos traduzi e anotei com gosto o livro de Pierre Manent, A Razão das Nações - Reflexões sobre a democracia na Europa, a obra que, de tudo o que li até hoje, me parece ter ido mais fundo na análise e na história do desastre sobre o qual se debruça hoje Gideon Rachman. Aconselho.

Mas para compreendermos a dimensão do problema como resultado, talvez valha a pena ler hoje este post de Izabella Kaminska no FT Com Alphaville. Tecnicamente é exigente. Conclui: o FMI pode estar indisponível para financiar e manter [mesmo cumprindo o actual plano de ajustamento] uma tal situação de endividamento. Caso em que, diz o analista [do Barclays], a restruturação da dívida seria, de facto, a única opção. Há alguns números sobre nós, e referências oblíquas, cuja consideração se recomenda. Bons sonhos.

Ler os outros

Da classe. João Gonçalves
O que merecemos. Tiago Moreira Ramalho

Uma campanha nobre e alegre

«Não podemos ter um senhor que foi durante 34 anos deputado do PS, foi vice-presidente da AR indicado pelo PS, que pertence a um partido e que, continuando a ser deputado do partido, diga que quer dinamizar um movimento de cidadania

Fernando Nobre em entrevista ao i, falando sobre Manuel Alegre.

Série B

Há qualquer coisa de actor de série B em Sócrates. Ontem, ao ouvir os "não sei", "não tenho nada a ver", "repudio veementemente", "o meu nome foi usado abusivamente" do costume, dei-me conta de que a sua convicção soa pitoresca, mas artificial. Compare-se Sócrates com um profissional da mentira executiva. Clinton, por exemplo: "I did not have sex with that woman!"
Caramba, é comparar a Ilíada com um editorial do Marcelino.
Ainda nos falta muito para sermos uma democracia madura.

Segunda-feira, 22 de Fevereiro de 2010

Presos

O que é insuportável já neste homem é vê-lo enredado na mais longa sequência de «casos» de que a minha memória tem registo, na cena política caseira - a justiça decidirá, um dia, o que lhe fazer, esperemos - e o país preso, com ele. O país, diz ele, antes de ter fechado a televisão aos 28 minutos, até nem está mal, comparado com o resto da OCDE. Até quando vamos ter de o sofrer?

Entrevista a Sócrates

(ponto prévio) Sócrates está hoje numa situação desconfortável, talvez a mais difícil desde 2005, vendo-se envolvido no Face Oculta, acusado de ‘contratar’ Figo para a campanha eleitoral, envolto numa crise nacional crescente e sob a vigilância das instituições internacionais. Depois de no PS se falar da sua substituição, o primeiro-ministro reuniu o partido para juntar forças e fez um esclarecimento público sobre o seu (não) envolvimento na conspiração de controlo dos media. Não correu bem: o seu comportamento no partido foi interpretado como sinal de fraqueza e/ou nervosismo, e o seu esclarecimento nada esclareceu, caindo no vazio. Esta entrevista de hoje era, por isso, da maior importância para José Sócrates, que tinha aqui uma oportunidade para limpar a sua imagem política e convencer os portugueses que existe de facto um rumo na sua governação. Ou seja, convencer-nos que ainda faz parte da solução e não do problema.

Madeira. Decretou-se o luto nacional e mobilização de estruturas para dar apoio ao Governo Regional, quer-se accionar o fundo de solidariedade europeu, e auxiliar ao comércio do Funchal. Afirmou solidariedade para com os madeirenses, garantindo que o Governo estará ao lado do Governo Regional da Madeira, com cooperação total. Mostrou-se firme e informado. Sobre a construção em leitos de cheia: Sócrates nega que o Governo tenha construído em leitos de cheia, e afasta a discussão (pareceu apanhado de surpresa).

Figo. Sócrates recusa a interpretação de que o apoio de Figo foi comprado. Remete para a entrevista que Figo deu ao DE, quando o Governo soube que Figo o apoiava. Sócrates nega todas as acusações peremptoriamente. Não é, contudo, capaz de explicar a ‘coincidência’ de tudo ter acontecido no mesmo dia, nem o facto de Penedos e Perestrello se terem referido antecipadamente ao assunto. Não responde porque recusa falar sobre as escutas: opta por afastar a realidade, defendendo que se tratam de ‘conversas privadas’.

PT e a compra da TVI. Sócrates reitera que não teve qualquer envolvimento. Defende-se com a mais recente violação ao segredo de justiça, onde o PGR declara que não está envolvido (na questão anterior, recusou-se a comentar violações de segredo de justiça, mas aqui já o faz). Confrontado com as transcrições das escutas relativas ao caso, Sócrates recusa-se novamente a comentar o seu conteúdo (diz que não comenta resultados de violações ao segredo de justiça). Distingue as transcrições pelo ‘facto’ das primeiras serem ‘conversas privadas’, e afirma que se nessas o seu nome foi referido, tal foi feito abusivamente.

Rui Pedro Soares e a sucessão de casos que o envolvem. Jobs for the boys? Sócrates nega qualquer envolvimento na subida de carreira de Rui Pedro Soares na PT, e diz que Miguel Sousa Tavares está a ser injusto nos seus ‘julgamentos apressados’. Afirma que sempre prestou todos os esclarecimentos (o que não é verdade, de todo). Tentou ridicularizar a sucessão de casos, e argumentou a sua legitimidade com base no acto eleitoral (o que não faz sentido).

Justiça. Ataque à Oposição que, segundo ele, aproveitou os ‘crimes’ para o ferir politicamente. Considera necessário reformar a lei do ‘segredo de justiça’. Adopta um tom moralista, questionando o ‘interesse público’ nas recentes polémicas, e argumenta sempre com base na preservação das ‘liberdades individuais’. Um argumento falacioso, pois o enfraquecimento do Estado de Direito afecta directamente as liberdades individuais.

Economia. Sócrates defende que Portugal está a sofrer as mesmas dificuldades que os restantes países da UE. Munido de números, relativizou a nossa situação, como que pretendendo explicar-nos que estamos melhor que todos os outros. Confunde a crise nacional com a internacional. É o pior discurso possível, pois opta por afastar a realidade. Meteu a cassete do investimento público como resposta à crise, desvalorizando o relatório da SEDES. Cita Krugman para legitimar as suas opções políticas. Evita falar do PEC.

Conclusão. Foi uma entrevista que não trouxe nada de novo nas áreas da Economia e da Justiça. Sócrates não esclareceu nada quanto aos casos em que o seu nome foi referido, utilizando as violações ao segredo de justiça como mais lhe convinha, para não ter de comentar as escutas. Continuam a faltar esclarecimentos, até porque as explicações sobre o caso 'Figo' são extremamente frágeis, e ninguém engole que um negócio estratégico na PT fosse feito sem conhecimento do Estado. Por isso, não esclareceu ninguém nem limpou a sua imagem.

(Miguel Sousa Tavares, em boa forma, a fazer as perguntas certas e a questionar as respostas do primeiro-ministro. Esteve bem.)

New blogs on the block

Ao fim de uma longa ausência, João Pedro Henriques volta à bloga com companhia.
A nossa também não.
E por falar em blogues novos, o não-tão-novo-mas-renovado Corta-Fitas foi buscar uma revelação que está a dar literalmente nas vistas com as suas fotografias de Lisboa. Ora espreitem também isto.

Pedro Passos Coelho não serve, II


Sintetizando: Pedro Passos Coelho considera que este Orçamento não ataca «a sério» o «problema» financeiro de Portugal, porque «a medida mais forte [de contenção que adopta] é o congelamento de salários na função pública, impondo-lhe o maior esforço. O que não é justo, porque o Estado tem muita despesa com gordura que precisava de ser removida. Todos os consumos do Estado podiam ser reduzidos em 15% face ao ano anterior.»

Passos Coelho está em campanha de fora do PSD para dentro do PSD. Ignoro se irá ao ponto de apoiar explicitamente a greve convocada para 4 de Março por gente totalmente irresponsável, como a que dirige, por exemplo, o Sindicato dos Quadros Técnicos do Estado, entre os quais se contam quadros do PSD, como Leodolfo Bettencourt Picanço.

Se não vier a expressar o seu apoio à greve, Passos Coelho deu, pelo menos, um passo significativo para alimentar a guerra de atrito que sindicatos como este, como se vê, se preparam para fazer a este, como a qualquer Governo, que algum dia venha a decidir-se por tomar as medidas adequadas para estancar o défice, afectando forçosamente as expectativas irrealistas e nacionalmente insuportáveis que os funcionários, enquadrados por estas organizações e estimulados pela demagogia ou impotência de sucessivos executivos, puderam acalentar.

Se faltassem outros argumentos para desqualificar Passos Coelho como possível futuro primeiro-ministro de Portugal, Passos Coelho deu o decisivo: não terá nunca legitimidade para propor, perante o país, aos sindicatos e ao mais de meio milhão de funcionários das administrações públicas colaboração na partilha dos enormes sacrifícios que o País como um todo vai ter de fazer. Foi ele que disse que achava injusto o congelamento. Se viesse a Governar, teria de se contentar com negociar com a «gordura.» (O que é a «gordura»? Cerca de 4% do PIB de consumo intermédio? 22% de prestações sociais? Outras despesas correntes da ordem dos 4%? Os 3% de investimento? É que é «injusto» mexer nos 12% do PIB da massa salarial. Como ele fala em «consumos», presumo que se trate, por exclusão de partes, dos primeiros 4%. Ora 15% de 4% dá assim uma «gordura» do género bem abaixo de 1%. Ou ligeirissimamente acima, se se tratar também das «outras despesas correntes». O défice, se se recordam, é superior a 9%. Para os interessados em conhecer o detalhe da despesa das administrações públicas, ver a partir daqui, na página 119).

Este estilo, por agora vale tudo, depois logo se vê, o que importa é lá chegar, já não dá. Os resultados estão à vista. Se Passos Coelho é assim em campanha no PSD, imagine-se o que será em campanha nacional. É bom que Passos Coelho fique sossegado onde está. Para políticos que se armadilham a si em campanha, já chega. E se ele julga que isto ainda aguenta este género de demagogia, então certamente não vive neste mundo.

O resto, e não é assim tão pouco, disse e repito: está no link em cima, logo à entrada deste texto.

Hoje às 21h

Será que é agora que começa uma real oposição a este governo?

Crónicas da Renascença


Há cerca de três meses, comecei a escrever uma crónica quinzenal para a Rádio Renascença, alternando com Rosário Farmhouse. As crónicas vão para o ar aos Domingos, por volta das 23h30, e a partir de hoje passarei a postá-las no Cachimbo, com eventuais alterações ou desenvolvimentos. Aqui fica a de ontem.
O país ficou em estado de choque com a publicação, pelo jornal Sol, das escutas do caso "Face Oculta" relativas aos negócios entre a TVI e a PT. Independentemente da legalidade dessa publicação, ninguém parece sair bem no retrato: nem o poder político, sobre o qual pesam graves suspeitas de tentar silenciar um telejornal incómodo, nem o poder económico, surpreendido em repugnante promiscuidade com o Governo, nem o poder judicial, ao que parece cego e surdo a tudo isto.
Entretanto, a Comissão Parlamentar de Ética, Sociedade e Cultura prossegue audições a diversos profissionais da comunicação social para averiguar se há ou não falta de liberdade de imprensa entre nós. Consta que a audição a Mário Crespo foi divertida. O que me pergunto é se terá sido mais do que isso. Uma democracia que não respeita o Parlamento também não se dá ao respeito. A história portuguesa dos séculos XIX e XX mostra-o bem.
Não é uma questão de somenos. Nenhum regime sobrevive muito tempo se a opinião pública desconfia das instituições que o governam. Quando o ambiente moral de uma sociedade se torna irrespirável, pela degradação das relações de confiança entre o poder e os cidadãos, a democracia torna-se meramente formal.
Tocqueville, um dos primeiros pensadores da civilização política moderna, já nos ensinou há século e meio que uma democracia meramente formal não é uma verdadeira democracia, mas um despotismo da maioria. A única maneira de fugir ao despotismo democrático é partilhar uma ética comum no espaço público. Uma ética que não está em nenhuma lei, mas tão indispensável à liberdade como a própria lei.
Devíamos ler Tocqueville mais vezes. Talvez como alternativa ao Sol.
(21 Fev. 2010)

Shame on you

Aqui, por causa de uma questão de direitos de autor ou de precedências, não percebi bem, Vasco Campilho coloca o nosso Jorge Costa ao nível de Pedro Passos Coelho (ou vice-versa). Sinto muito meu caro Jorge. Mas... shame on you!

Luís Lavoura, o bestial

A Educação do Regime Democrático Direito à educação ou Estado educador? é o tema do 3º Encontro FLE, que terá lugar depois de amanhã, Quarta-feira, na Gulbenkian. Anunciado aqui pelo AHC e com o comentário bestial de Luís Lavoura, para quem as crianças portuguesas devem ser roubadas às famílias em tenra idade e entregues aos cuidados da 5 de Outubro.

"Aos pais pertence a prioridade do direito de escolher o género de educação a dar aos filhos."
Declaração Universal dos Direitos do Homem, artigo 26, número 3

Da série "a concorrência faz melhor"

Extinção das golden shares e a regulação, pelo Duarte Schmidt Lino, no Suction with Valcheck.

The Clash: The Magnificent Seven (triplo álbum "Sandinista")

Contra todos os esquecimentos.

É verdade que podem dizer que este lamento não passará de ansiedade ou de ciúme doentio. Mas uma vez que o blogue E Deus criou a Mulher não dedicou um post ao Cachimbo de Magritte, assinalo aqui, com uma escolha veemente, o meu (nosso?) luto por tão injusto como incompreensível esquecimento.

FLE, 24 de Fevereiro (Gulbenkian)

Dia Europeu da Vítima de Crime

Clicar para ampliar
Foto da campanha de violência contra as mulheres ("há marcas que ninguém deve usar") da APAV. As campanhas mais emblemáticas da APAV aqui.

Pordata

Nas últimas semanas, por razões profissionais, tenho utilizado várias vezes o sítio da Pordata para encontrar informação estatística fiável sobre a realidade nacional. Criado há poucas semanas pela Fundação Francisco Manuel dos Santos, liderada por António Barreto, permite conhecer melhor os números do Portugal contemporâneo, desde o saldo migratório, (des)emprego, número de nascimentos e óbitos, casamentos e divórcios, jornais e revistas em circulação, número de doutoramentos e outros aspectos curiosos sobre as contas nacionais. Vale a pena visitar e explorar.

Domingo, 21 de Fevereiro de 2010

Directas no PSD

Esta sondagem mostra que está tudo em aberto nas eleições internas do PSD. Segundo o estudo da Aximage para o Correio da Manhã, Pedro Passos Coelho (41,9%) e Paulo Rangel (37,1%) estão muito próximos. Já Aguiar-Branco, que foi o último a apresentar a sua candidatura, apenas é o preferido de 12% dos inquiridos. Na base eleitoral que votou PSD nas últimas legislativas, os dois candidatos surgem praticamente empatados: 40,8% preferem Passos Coelho, enquanto 40,7% escolhem Paulo Rangel. É muito cedo e os números valem o que valem. Muito pouco neste caso. Mas mostram a importância que terá a campanha eleitoral, e sobretudo o congresso extraordinário, de 13 e 14 de Março. Espero que a campanha corra bem, com elevação, inclusive na blogosfera. Que se discutam sobretudo ideias e projectos alternativos, com poucos mexericos pessoais à mistura. E que tudo isto ajude a uma maior clarificação ideológica e programática do PSD nos próximos anos.

E depois?


Os políticos portugueses (e os outros também não teriam nada a perder, mas esses não são os meus) deveriam ser obrigados a ler dez vezes este artigo de George Soros, hoje no FT. E depois deveriam responder ao seguinte teste de compreensão:

1. De que maneira é que Soros, aliás a partir de uma citação de Otmar Issing (o primeiro economista-chefe do Banco Central Europeu), que já assumiu a sua culpa de wishful thinking bastante em relação à viabilidade do euro, tal como concebido em Maastricht, vê o passo em frente necessário para o euro sobreviver?
2. De que maneira isso, que ele vê como solução possível, significa literalmente um salto em frente para a união política?
3. De que maneira uma tal união política, construída (e isto diz-nos brutalmente respeito) a partir de Estados de rastos, significa a pura anexação, sem apelo nem agravo, dos pedintes das margens mediterrânicas do euro?
4. E, se a análise de Soros é simplesmente sóbria (terão de fazer por vós o esforço de mostrar que o que ele diz não tem toda a pertinência), estais em condições de abdicar do país, deste modo miserável?
5. Agora, para acalmar um pouco os ânimos: contenta-vos o facto de a «solução política do euro» não ser viável, não só porque, como ele diz, mesmo resolvida a crise grega com uma euroemissão obrigacionista, sobraria um problema português, espanhol, italiano e irlandês, «insolúvel» nos mesmos termos, mas ainda porque a Alemanha não cobrirá, por tantas razões que não vale a pena insistir, a sugestão de Soros (ele próprio também o diz)?
6. E já pensastes como sairemos «disto»?

Os tempos não estão para políticos de brincadeira.

Não tenho gosto nenhum em reconhecer-me um tanto isolado, não completamente, felizmente (aqui no blog e também fora dele a companhia é boa), nesta história de andar a chamar repetidamente a atenção para o facto de estar em causa, na crise que atravessamos, muito mais do que uma questão de «opções de política económica e financeira». Mesmo mais, embora as coisas estejam relacionadas, no caso vertente, do que um questão de «regime», no sentido grego da palavra - o tipo de sociedade e o tipo de homem que ela reconhece e valoriza. É, Portugal, é a sua soberania, é o seu futuro como Estado, é disso que ando a falar há algum tempo. Esta não é uma «crise normal»!

Salto quântico


Tudo, praticamente tudo nesta entrevista, do que importa neste momento, é um argumento para lutar pela vitória de Paulo Rangel na conquista da liderança do PSD. Nenhum político até ao momento, sobretudo entre políticos responsabilizáveis porque serão poder no caso de ganharem o partido, nenhum, repito, expôs até agora a circunstância do país como ele: estamos escravos. (A dívida, de que ele fala, é um sintoma económico e financeiro de uma doença muito mais profunda.) Com Paulo Rangel, poderá acontecer o que ainda nos falta. Uma espécie de salto quântico no discurso político. Há o estado de necessidade, que ele tão lucidamente caracteriza. E há, além disso, e está por fazer, a justificação política, positiva, do que teremos de mudar para sair desta servidão. Teremos, no fundo, de mudar muitíssmo: a maneira como pensamos as relações entre o Estado e a sociedade, para que possamos, um dia, vir a viver numa sociedade livre, num Estado de cidadãos livres e responsáveis. O socialismo, praticado até à náusea e ao limite do impossível pelo PS, trouxe-nos aqui. (O PSD contemporizou, mais ou menos, e não me estou a referir a nenhum dos seus líderes em particular, porque os houve e há que sabiam, de um modo ou outro, que «isto» não serve.) Libertarmo-os disto, é o que quero dizer, vai implicar termos a coragem de definir o que é viver estavelmente em liberdade. Para que o futuro seja diferente. É esse salto quântico que poderá acontecer com Rangel. Julgo que ele tem a coragem para isso. Também o PSD terá de se libertar do consenso mole do socialismo mais ou menos.

As "Causas" Sustentadas pelo Erário Público

Propaganda falsa paga com o nosso dinheiro. (Pacheco Pereira)

Entrevendo as entrevistas

A entrevista de Paulo Rangel ao i, na Quinta-Feira
Rangel identifica muito bem o principal sector onde tem que haver uma ruptura com o passado socialista: a educação. "É o sector onde temos de mudar mais as políticas". A aposta no ensino profissional foi o ponto mais destacado, mas a verdadeira revolução, se a chegarmos a ver, é na cultura de exigência. Sócrates governou para as estatísticas (somos um país cada vez mais qualificado, não somos? temos cada vez mais licenciados, não temos? e as Novas Oportunidades, dão imensos diplomas do secundário, não dão?). Em suma, o PS confundiu democratização do ensino com massificação do ensino. O resultado está à vista em testes internacionais como o PISA. Com a agravante de que, ao fazê-lo e ao contrário do igualitarismo apregoado, "uma escola pública facilitista é a que mais favorece a estratificação social. Porque as classes mais baixas do pnto de vista sociocultural ou económico-cultural não têm outro sítio para aprender além da escola - não têm colégios privados. Neste momento, eu diria que temos quase uma escola classista que, cada vez mais, aumenta o fosso entre as classes privilegiadas e as menos privilegiadas." Haja alguém que diga isto.
A entrevista de Passos Coelho ao Público, no mesmo dia
Alertado pelo Jorge Costa, fui ler. Passos Coelho confirma cada vez mais a imagem deixada na anterior corrida à liderança do partido, entretanto enriquecida com os episódios do Sartre de má memória, do charro de compreensão lenta, da volátil opinião sobre o TGV e o casamento gay, enfim, da permanente deslealdade a Manuela Ferreira Leite em ano eleitoral. Nada de novo, portanto. Discurso redondíssissimo, débito contínuo de banalidades vagamente semelhantes a ideias por efeito de acumulação, incapacidade de dar uma resposta directa a qualquer questão incómoda. Veja-se, por exemplo, a resposta a esta pergunta: "-Concorda com a tese da asfixia democrática? -Penso que em Portugal existe um excesso de intervenção pública e que o facto de de haver uma grande confusão entre a esfera do Estado e a esfera dos partidos permite que quem está no Governo coloque instrumentos que deviam estar ao serviço do Estado ao serviço de interesses ou estratégias partidárias. Isso tem de ser combatido, não porque esteja em causa o Estado de Direito, mas mas porque pode estar em causa a credibilidade e a independência das instituições." Convém recordar que a existência de indícios de atentado contra o Estado de Direito foi defendida pelo poder judicial, a propósito do caso Face Oculta, e não por Rangel ou Ferreira Leite. Pormenores, claro. Passos Coelho nunca diria que há asfixia democrática porque a tese é de Manuela Ferreira Leite e ele associou publicamente Rangel, na entrevista à RTP, a essa "estratégia derrotada pelos portugueses". Agora que todos sabemos o que sabemos, o homem torce-se para não dar razão aos adversários internos. Asfixia democrática? Não! Isto é só um probleminha de "independência das instituições". Coisa pouca.
A entrevista de Manuela Ferreira Leite à RTP, também no mesmo dia
Curiosamente, e não havendo duas sem três, à noite tivemos a entrevista da ainda líder do PSD a Judite de Sousa. Um bocado entalada entre a comunicação de Sócrates ao país (mais uma) e o jogo do Benfica, Manuela Ferreira Leite voltou a acusar Sócrates de mentir no negócio da TVI. Como já tinha dito no Verão. Não se compreende, por isso, a sua certeza de que ninguém teria ganho as eleições ao PS em Setembro. Talvez fosse a sua convicção mais íntima e houve quem desconfiasse quando apresentou as listas de deputados (salvo erro, o Rodrigo Moita de Deus). Mas nem todos acreditámos na derrota inevitável, sobretudo depois da vitória de Rangel nas europeias de Julho. E continuamos a não acreditar. O PSD cometeu erros graves na campanha e vale a pena recordá-los muitas vezes, não para pedir contas a Manuela Ferreira Leite, que nos livrou durante um ano de demagogos como Menezes e Passos Coelho e merece uma estátua por isso, mas para que esses erros não se repitam. Será possível ou o PSD esquece tudo e não aprende nada?

Isto deve ser proibido

Eu não aceito isto. Penso que isto é incompatível com a noção de dignidade humana, tal como ela é articulada no Ocidente. A imposição da invisibilidade do rosto, no espaço público, é equivalente à imposição da inexistência pública de um ser. Proibir isto é proibir a proscrição de certos indivíduos. Se o decoro implicasse a supressão da visibilidade do rosto, então implicaria a violação frontal do princípio sagrado da igualdade humana, porque a igualdade humana também implica o direito igual de todos os seres humanos a uma existência pública. Sagrado. Se não for sagrado, é apenas uma conveniência, uma convenção. E, dessa, podemos bem desfazer-nos. (Não será por acaso que é entre certa esquerda radicalmente ateia, com o seu relativismo deletério, que se encontram os mais eloquentes opositores à proibição da Burka.) Aceitar isto em nome de que que se trata de uma inexistência consentida é, como lembra aqui Bernard Henry-Lévi, equivalente aceitar a escravatura, desde que voluntária. Gostei, sobretudo, de saber por este artigo que o imã de Drancy, Hassan Chalghoumi, argumenta que a Burka é «claramente anti-islâmica.» O problema mais sério vem sendo sempre o mesmo: tem o Islão recursos espirituais próprios para suprimir aquilo que nas suas práticas contemporâneas choca frontalmente com a ideia europeia de civilização? No fundo, tudo se joga aí.

Sábado, 20 de Fevereiro de 2010

Isolada


Não há notícias de Curral das Freiras.

Governo holandês caiu

Séries da década (8)

The Wire, HBO

Série verdadeiramente apaixonante, que tem como principais protagonistas polícias, traficantes de droga, políticos, jornalistas e sindicalistas. Baltimore, cidade afectada por problemas de droga e corrupção, é o palco central da acção, que se desenrola ao longo de cinco temporadas. Não há personagens centrais, mas sim várias histórias que decorrem ao mesmo tempo e que transmitem uma perspectiva muito particular das diferentes realidades relatadas. Aconselho vivamente.

Nobre em campanha, já com hino e tudo



Vai ser tão lindo. A não ser que.

Do Casamento

A família e o casamento não são questões ideológicas. Mas em Portugal em o debate sobre o casamento caiu, erradamente, numa armadilha ideológica que nega o que é e que tenta explicar o que não é.

Afirmar a natureza própria do casamento como uma construção social em torno de um princípio original: o reconhecimento de que compete aos pais biológicos uma responsabilidade especial sobre as crianças é, tão-somente, afirmar o que o casamento é. Negar este pressuposto básico é, pelo contrário, tentar explicar o que não é, para efeitos de acomodação de interesses particulares.
A necessidade de reconhecimento social da procriação e das suas inerentes exigências, é a natureza mais profunda e primária do casamento. Claro que o casamento veio enquadrar e garantir muito mais. Claro que sim, mas nenhuma mudança introduzida alterou a sua raiz identitária. E é ao nível dos efeitos sobre as crianças que os benefícios do casamento mais se fazem sentir. O que já está provado, é que a família biparental fundada no casamento é o benchmarking das tipologias da família no que toca aos seus efeitos nas crianças. A necessidade e direito de qualquer criança a um pai e uma mãe, a uma família estável, que a ame, proteja e eduque, permanece imutável. Nem nunca o Estado foi capaz de substituir a família cabalmente nas suas funções como chegamos ao ponto em que, na Europa, se assiste a uma necessidade premente de reforma dos sistemas sociais vigentes.

A baixa natalidade é assumida, hoje na Europa, como um problema social e político, mas se, não houvesse uma percepção partilhada, independentemente do quadrante ideológico, que a solução passa por políticas pró-família transversais, bastaria ao Estado contratar mulheres apenas com a função de gerar filhos, e garantir, posteriormente, serviços técnicos de criação e educação dos futuros cidadãos. Esta é por enquanto uma visão dantesca, pelo o horror que naturalmente nos causa. Porquê? Porque a natalidade não é nem uma questão técnica nem uma questão ideológica. Porque as crianças não são objecto de postura técnica e ideológica. E dada a relação intrínseca entre o casamento e as crianças, o casamento não é uma mera questão técnica ou ideológica.

Sexta-feira, 19 de Fevereiro de 2010

Os loucos anos 80 (104)

The Smiths - Panic (1986)

Pela família, marchar, marchar


Uma manifestação de portugueses livres. Contra a proposta de lei socialista que permite o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Não por falta de respeito aos homossexuais, mas porque o casamento é, naturalmente, entre um homem e uma mulher. Contra a ditadura do politicamente correcto. Contra a imposição legislativa de modelos artificiais de casamento, sem referendo, com desprezo pela vontade popular. Contra a adopção de crianças por casais homossexuais. Contra mais uma manobra de engenharia social que enfraquece o casamento, a família e o superior interesse das crianças. Amanhã, dia 20 de Fev, às 15h, na Avenida da Liberdade. Mais informações aqui.

Obrigado Alfredo


Tenho que admitir. Dormi muito mais tranquila depois de ouvir o ministro do interior espanhol, em Portugal ao lado do seu homólogo português (a saber, Rui Pereira), afirmar que ele, Alfredo Pérez Rubalcava, “pode assegurar” já não existirem bases da ETA em território português. Obrigado Alfredo.

Manias e verdades


Vasco Pulido Valente, inevitável leitura de sempre, tem coisas estranhas, no meio daquela inteligência toda. Sendo historiador, profissão onde se exercita o bom senso em mais do que nenhuma, não é imune ao mito. A mania do mito, para resumir, é uma espécie de concentração compulsiva numa fábula fundadora, num «acontecimento» originário que tudo explica. A vida é a sua infindável actualização. Nada verdadeiramente acontece. Tudo simplesmente decorre, como reiteração do mesmo. A mania do mito, com a sua compulsão remissiva, seria incompatível com a história. Mas não é, como se vê.

Tal como, para a mente simples de José Gil, Portugal é Salazar e o resto não inscrição, para Vasco Pulido Valente, mente muito menos simples, Portugal é Cavaco e a sua queda em 1994, e o resto, o resto é ler a crónica desconchavada dele hoje, aliás já várias vezes escrita, presumo que nos dias de maior tédio e de férias da imaginação. O resto de Portugal, desde então, é, segundo sugere, «o apodrecimento do PSD.» Há qualquer coisa de delirante nesta razia do resto, de um PS, por exemplo, fundador do regime, que governa Portugal quase ininterruptamente há três lustros, apostado, ao que parece, em destruí-lo. Mas, como em todos os delírios, mesmo nos mais esdrúxulos, também há neste qualquer coisa de verdadeiro.

E esse resto de verdade parece-me estar formulado noutra crónica de hoje, no mesmo jornal, o Público, da autoria de José Manuel Fernandes.

Cito-o: «Um dos principais problemas do PSD é ser demasiado parecido com o país, e o país ter decaído muito nos últimos anos. Isso significa que, tal como o país, o PSD tem demasiados militantes que se confundem com o aparelho de Estado, que alimentam dependências várias e, mesmo nas empresas, parecem ter perdido o gosto pelo risco e pela liberdade. Ora só um partido que olhe para o país e para o Estado de forma radicalmente diferente da do actual PS pode aspirar a, um dia, vir a fazer parte da solução em vez de continuar a ser parte do problema.»

Parece-me uma excelente formulação: ... o gosto pelo risco e pela liberdade. Mas em que país poderia o PSD, assim tão parecido com ele, cultivar esse gosto? Querem mesmo, os portugueses, ou, vá lá, não exijamos o impossível, as suas elites, liberdade e risco, viciadas que estão em viver na redoma do doce despotismo tão bem descrito por Tocqueville, já há bem mais de século e meio? Não sei. Há solução? Não sei. Solução há sempre. Nem que seja a dissolução. Modificando um pouco Elitot, with a bang. Or with a whimper.

Em todo o caso, eu acredito em milagres, quer dizer: sei que acontecimentos altamente improváveis, não deixam, por isso, de ser possíveis. Verdadeiramente, a história (também) é isso. Faz parte da condição humana. Elites, com gosto pela liberdade, é o que é.

[O Público impresso está trancado, pelo que o link para as crónicas não é possível.]

Bullshit

Daqui, note-se isto:

'Nego que eu ou o governo tenhamos sido informados pela PT das suas intenções em adquirir a TVI.' (Amanhã, se revelada alguma inconveniência, pode sempre vir dizer que foi informado pelo primo da tia da amiga da sobrinha da porteira da PT.)

O resto foi a litania dos 'ataques pessoais', 'ao carácter', etc; argumentos ad lapidem ('isso não é verdade, porque é absurdo, delirante', etc); o tique reaccionário da ridicularia destas questões menores se comparadas com os grandes problemas da Nação - problemas que ele, ferrabrás, se dispõe a confrontar (apesar de todos os 'ataques pessoais', etc).
Enfim, José Sócrates ad nauseam.

Quinta-feira, 18 de Fevereiro de 2010

Meramente

"O chamado caso das escutas é meramente político", diz o Procurador Geral da República.
Acontece que o advérbio 'meramente' deve ser posto entre aspas ou em itálico. Para mais num caso como este, um imbróglio, já um autêntico corpus de suspeições (um corpus putrefactum) e que envolve as personagens que sabemos, o que é 'político' nunca o é 'meramente'. Quanto muito, dir-se-ia que não é 'meramente jurídico' (e também isto não é líquido). Dizer-se que é apenas político não faz pura e simplesmente sentido. Toda esta história, para o mal ou para o bem, seja qual for a perspectiva em que nos coloquemos, com ou sem "buracos de fechadura", é essencialmente política. Tudo o que se diga em contrário não passa de uma manobra de diversão, uma cortina anestesiante com que se procura esconder a realidade.

Recordando Freund

Tenho pensado muito, nos últimos tempos, nesta passagem de L'Essence du Politique, a obra clássica de Julien Freund, há muitos anos, aqui, comigo, inscrita.

Com efeito, é um ponto cardinal de toda a actividade política consequente, responsável e dominando a situação ter em vista, prever o pior, não para fazer a política do pior, mas pelo contrário para afastar o perigo e, se necessário, fazer-lhe face com as medidas apropriadas. As coisas não se resumem a imaginar a paz mais humana, mais generosa e mais feliz possível, mas prevenir a guerra e, se porventura alguma vez ela parecer inevitável, prepará-la para sairmos vitoriosos e, sendo o caso, desencorajar o inimigo decidido a empreendê-la. (...) Agir politicamente é, portanto, agir em função do pior possível. Essa verdade é cruel e irritará talvez muitos espíritos, mas aquele que a neglicenciar expor-se-á às piores desilusões e fracassos e, talvez, arraste na sua queda a independência da colectividade.

Se assim for, então há que concluir que o maior défice da nossa classe política em geral (falo da regra) é um défice de - imaginação.