Sábado, 4 de Dezembro de 2010

A assombração

Ao contrário do que diz esta assombração, com a razia aos mercados tentada pelo BCE na semana passada, o que se percebeu não foi a «determinação» da «Europa» em defender o euro, mas a sua impotência.

Depois de dez anos de resgates proibidos sem que isso obstasse ao empilhamento de dívida, impossível de ignorar a partir do primeiro estoiro em 2008, depois de um ano de violação dupla dos tratados europeus com dois resgates sucessivos - e abortados - na tentativa de «acalmar os mercados», acordados subitamente para a possibilidade da insolvência dos Estados do Sul (mas já não só), Trichet e o BCE, à falta de recursos para travar a ameaça final - uma sucessão em dominó de resgates, com a Espanha, pela sua dimensão, à beira de forçar a ruptura do mecanismo posto a rolar em Maio - limitou-se, na quinta-feira, a explicar ao mundo que a resolução do problema está do lado dos Estados nacionais.

Nenhuma intervenção pontual e espectacular, como a compra que, tudo indica, foi massiva a partir do momento em que iniciou as suas declarações, resolve o problema restante das quantidades abismais de fundos que o sector público e a banca dos Estados mais expostos - com Portugal, embora pequenino, entre os mais desesperadamente carenciados - vão ter de mobilizar para atravessar o ano de 2011.

Na menos gravosa das hipóteses, do ponto de vista do curto prazo, onde aquela assombração está fechada, como explica aqui Alan Greenspan, o aumento do volume de compras pelo BCE fornece à nossa assombração e às assombrações em geral um alívio momentâneo da pressão, sem a qual não agem.

Trichet, ao devolver aos Estados nacionais a responsabilidade pela resolução do problema e ao simular que lhes retira o único incentivo - provado! - para agirem revela bem o impasse, a desorientação e a impotência, em doses explosivas, a que chegámos. Mas não revela mais nada. Salvo àquela assombração.

8 comentários:

Mani Pulite disse...

A ASSOMBRAÇÃO PERSISTE NA SUA OBSESSÃO DE CONSTRUIR O TGV-TRAGÉDIA A GRANDE VELOCIDADE.AGRADEÇAMOS AO TRICHEUR TRICHET QUI TRICHE DAR-LHE ESTA OPORTUNIDADE PARA AGIR RUMO AO ABISMO.

Anónimo disse...

Vejo que por aqui continua a não se perceber que o euro é um projecto POLÍTICO, e que o poder político, depois de deixar cair a Grécia (aldrabões, piores do que os portugueses) e a Irlanda (quem os manda financiar hipotecas na Espanha?), não quer deixar cair mais ninguém

os saxónicos (incluindo o Sr Greenspan, que veio agora dizer que afinal se enganou em 2002-2004) não percebem isso - deve ser da elevada latitude, e aqui continua-se pela mesma bitola

A laia de nota de margem de página, os EUA estão com um problema muito maior do que a Europa, ao nível das dívidas estaduais. Muitos investidores americanos mo disseram, em conversas recentes. A Califórnia já faliu, mais se seguirão. E o volume de dívida é muito superior ao da Europa

3ª feira, o Senhor Jorge Costa e os demais ilustres saberão a enormidade de dívida que o BCE adquiriu - até à semana passada, 67 biliões de euros, 1% do PIB europeu

A contrapartida da intervenção (espero que muitos hedge funds tenham falido nestes dias, com a descida das yields em 150pb) é uma aceleração do ritmo de redução dos défices orçamentais. O Trichet disse bem qual seria o preço a pagar

Espanha já anunciou mais medidas.

E em Portugal só um cego-surdo-mudo não percebeu que as associações patronais aceitam até um pequeno aumento do salário mínimo - a contrapartida será a liberalização dos despedimentos individuais.
O Conselho de Ministros anunciou alterações à lei de enquadramento orçamental (passou a notícia despercebida, e aqui ninguém a viu).
Os alemães vão estar a monitorizar a execução orçamental como nunca ocorreu. E creio que a Sra Merkel não vai deixar o Governo cair (ou ser derrubado) até ao final de 2011 (com grande pena da turba que se preparava para rapidamente ocupar uns tachitos no tão odiado Estado)

Haverá recessão? Sim
Uma quebra do consumo privado? também
Desalavancagem? Obviamente

Mas, no ponto a que chegámos, são essenciais para corrigir os desequilíbrios da economia: excesso de consumo e consequente agravamento do défice externo
Quanto ao crescimento, choca-me ver tanto liberal à espera que seja o Estado(!!!!) a mudar a economia. Isso é tema para o sector privado, e muitas empresas já ajustaram...
Esquecia-me: se for o Estado, dá muito dinheiro em estudos encomendados a professores universitários ociosos

Atkinson

PS: MANI:
O TGV É DO INTERESSE DOS ALEMÃES E FRANCESES, QUE CONSTROEM OS COMBOIOS E ASSEGURAM A SUA MANUTENÇÃO. MAS AINDA VAMOS VER SE SERÁ FEITO

Anónimo disse...

O Atkinson ainda não percebeu que há nações que não querem desaparecer tão cedo. A alemã está entre elas. É uma maçada, mas é assim.
Não confunda empresas com estados. Há empresas que têm interesse nisso. Os estados não, pois acabam por ter de pagar os projectos.

Anónimo disse...

"o euro é um projecto POLÍTICO"

"há nações que não querem desaparecer tão cedo"

QED

PMP disse...

O Sr. Jorge Costa insiste que o BCE comprar divida publica é um sacrilégio e que os deuses dos mercados perfeitos e eficientes vão castigar a zona euro.

Já reparou que o Euro subiu com estas compras.

Afinal o mercado concorda que deixar metade da zona euro entrar em recessão ou depressão não interessa a ninguém, não aos alemães.

Anónimo disse...

Sim, que o Greenspan é um ótóridade na matéria. Olha quem. É ele em finanças públicas e o Sócrates em arquitectura na Covilhã.

Mani Pulite disse...

PARA AS EXPORTAÇÕES E O CRESCIMENTO ALEMÃO E FRANCÊS QUAL O INTERESSE NUM EURO FORTE?PELO CONTRÁRIO, UM EURO MAIS FRACO SERÁ UM BOM ESTÍMULO PARA ESSAS ECONOMIAS QUE EXPORTAM FORTEMENTE PARA FORA DA ZONA EURO.DAQUI A POUCO,A NOVA CRISE DA DÍVIDA SOBERANA,A PORTUGUESA,AJUDARÁ A UMA NOVA DESCIDA DO EURO PARA PATAMARES MAIS CONFORTÁVEIS PARA OS EXPORTADORES EUROPEUS.MONSIEUR TRICHET QUI TRICHE MAINTENANT DANS UN SENS TRICHERA ALORS DANS L'AUTRE.MERKEL E SARKOZY MANDAM.PARLEZ VOUS LE FRANÇAIS CHER MONSIEUR ATKINSON?VEUILLEZ AGRÉER,MONSIEUR, L'EXPRESSION DE MES SENTIMENTS LES PLUS DISTINGUÉS,MANI

Anónimo disse...

Alan Greenspan não foi aquele sábio economista que antecipou a crise de 2008 e agiu em conformidade?
É ouvi-lo que o homem é bom a acertar em previsões.