Sexta-feira, 19 de Novembro de 2010

You say potato...

Diz o senhor Carlos Farinha Rodrigues que há cerca de 171.000 portugueses que não recorrem ao rendimento social de inserção por 'vergonha' e por 'medo do estigma de pobreza', curiosamente motivações apresentadas como negativas pela notícia e pelas palavras do senhor que lhe deu origem. Ora parece-me que a recusa de alguém se identificar como pobre é muito positiva; dá alguma esperança de que quem assim recusa ser catalogado tem a ambição de deixar de ser pobre e mais facilmente conseguirá sair da pobreza do que alguém que se resigna a ser pobre. Também a vergonha por receber dinheiro, a troco de nada, obtido pelo trabalho esforçado de outros é algo que só merece elogios; e demonstra que quem tem este tipo de vergonha ainda acredita em si e nas suas capacidades para sair de dificuldades - e a auto-estima e a auto-motivação, não sei porquê, dão-me ideia de ser variáveis importantes para quem quer melhorar a sua situação económica.

Em suma, que haja quem recuse estar de mãos estendidas para sobreviver é referido como algo danoso que deve ser combatido. Desde logo, presume-se, desmascarando-se os autores da 'violentíssima campanha' contra o RSI (feita, quiçá, por gente malévola que não entende que deve estar agradecida pela porção do seu rendimento que o Estado magnânimo permite que mantenha, em vez de ousar questionar a forma como o Estado gasta o seu hard earned money). Contudo, ainda não cheguei ao verdadeiramente arrepiante desta notícia (mais desenvolvida no i): nota-se a pena de os beneficiários do RSI - que já são 4% da população portuguesa - não serem em maior número. E isto leva-nos ao real objectivo de muitas medidas supostamente de combate à pobreza, sempre da autoria de pessoas que sabem, de sabedoria certa, como os outros devem viver a sua vida, seja no destino que devem dar ao seu dinheiro seja se devem pedir ajudas estatais ou não: a criação de uma clientela dependente do Estado e, como tal, fácil de manipular. Estas medidas nada têm de combate à pobreza, que só existe efectivamente com crescimento económico. Devia fazer soar todas as campainhas (mas não faz, que o gosto de controlar a vida alheia é muito poderoso) que tenha sido desde que, com Guterres, foi decretado o estado que sustenta toda a gente (que o PSD e o CDS, quando puderam, escolheram manter) que começámos a divergir da média da UE e, depois, nos atolámos neste despesismo estatal sustentado por estrangeiros. Mas dizer estas coisas não dá tão boa imagem como defender o RSI.

18 comentários:

Eduardo F. disse...

Muito, muito bem!

Pedro disse...

Maria João, é tão simples: é mesmo vergonha de pedir. Não é acreditar em si e nas suas capacidades, nem é escrúpulo em tirar dinheiro aos outros, como pensa. Vergonha de pedir, é… vergonha de pedir. Essas pessoas preferiam que a ajuda lhes fosse directamente depositada na conta, ou que o cabaz de alimentos e roupa lhes fosse colocado directamente à porta de casa, sem terem de o ir buscar, dando a cara. Falar em auto-estima e auto-motivação a propósito de pessoas que têm vergonha de pedir, parece-me forçado, no mínimo. As coisas não são como a Maria João gostaria que fossem. São como são. Essas pessoas, se pudessem, iam-lhe ao bolso a si, tirando-lhe o dinheirinho que tanto lhe custou a ganhar, se é isso de que se queixa.

Maria João Marques disse...

Pedro, por acaso conheço quem tenha mesmo vergonha de viver sustentado pelo Estado, mesmo com situações de grande carência.

Mas a vergonha de ir à SS e pedir também não é má. Há aí ainda um resquício de orgulho que dá alguma esperança. Quer dizer que ainda não passou a linha em que já se acha que se tem direito a receber dinheiro porque sim.

Pedro disse...

Maria João, eu, se tivesse em grande dificuldade para alimentar o meu filho, até roubava, quanto mais, ainda que com vergonha de ser apanhado pela policia... Deixava o meu filho morrer à fome, por respeito pelo dinheiro dos outros? náááá... Vergonha é dar a cara, é ter medo que os outros descubram, vizinhos, familia, colegas. Porque é que acha que muitas pessoas escondem a cara quando vão ao Banco Alimentar ou quando (cada vez mais) vão comer a instituições de solidariedade social?
As pessoas não pedem, não é por não quererem recorrer ao Estado. Não é por respeito ao dinheiro dos outros. As pessoas não pedem, porque têm vergonha que alguém saiba que estão a pedir dinheiro ao Estado. É humano. A vida é mais cruel do que a Maria João pensa.

Anónimo disse...

"Mas a vergonha de ir à SS e pedir também não é má. Há aí ainda um resquício de orgulho que dá alguma esperança."

Há aqui um resquício de orgulho, certo. Pode ser construtivo, certo.

Mas gostaria de perguntar por outro resquício. Que resquício há em considerar que alguém em grandes dificuldades ao pedir ajuda ao Estado - ou seja, ao tesouro do país - está a ir-nos ao bolso?

É o tipo de argumentação muito ao gosto de um certo catolicismo - dinheiro para matar a fome?!, comam raízes que o sofrimento redime, principalmente se auto-imposto. E depois querem rendimento, trabalhinho, andar a palmilhar quilómetros, se preciso for, à procura de emprego, que talvez não chegue, de quem pouco tem para comer.

Há coisas que não mudam.

Já dizia Júlio Diniz, em "A Morgadinha dos Canaviais":

"Eu queria os ver com uma enxada a trabalhar todo o dia no campo, que lhes dessem depois raízes para roer, a ver se gostavam. (...) Vai-lhes lá perguntar se quando chegam a casa, não têm a sopa e o toucinho à espera deles?"

João.

Maria João Marques disse...

Pedro, parece-me que estamos em conversas diferentes. Claro que por um filho se faz tudo, mas esse argumento não tem sentido, porque por um filho também se aceita - e se mantém - um emprego de que não gostamos, a ganhar menos do que preferíamos, em vez de se ficar a receber o subsídio social de desemprego até ao fim. Por outro lado, se a questão é a alimentação dos filhos, porque não se atribuem vales a quem comprovar ter necessidades económicas extremas (com fiscalização à séria, incluindo visitas-surpresa a casa de quem se candidata) que podem ser descontados nos supermercados?

Eu sou muito favorável à concentração das prestações sociais nas crianças, nos deficientes e nos idosos; nas crianças sobretudo, porque além de não poderem ser responsabilizadas pela sua situação financeira aí as prestações sociais servem também para favorecer as oportunidades das crianças mais desfavorecidas.

A questão é que isto não tem nada a ver com o RSI.

Maria João Marques disse...

'considerar que alguém em grandes dificuldades ao pedir ajuda ao Estado - ou seja, ao tesouro do país - está a ir-nos ao bolso?'

Eu não sei do João, mas eu pago impostos. O dinheiro 'do estado' não é do estado, é daqueles que trabalham, produzem e, sobre os seus rendimentos, consumos, transacções pagam impostos.

É precisamente por se ter esta ideia peregrina de que o dinheiro pertence ao estado, de que há um ´tesouro nacional', que chegámos a este descalabro despesista a que chegámos.

Maria João Marques disse...

E, já agora, João, não meta o catolicismo nisto. Ainda hoje as acções de muita gente movida pelo catolicismo alimenta muita gente no mundo inteiro. Olhe para o Banco Alimentar que já foi referido. Se calhar na sua criação esteve envolvido um padre e se calhar as pessoas que o dirigem fazem-no porque entendem que essa é a sua Missão (vá pesquisar mais sobre o conceito).

Anónimo disse...

Pois, mas esquece que existem 600 mil desempregados, ou seja, que existe um déficit de 11% na oferta de emprego. Mesmo considerando que existam 100 mil empregos disponíveis que não são ocupados - o que me parece já um número muito inflacionado, mas que por mor do argumento assim o aceitemos - ainda sobram 500 mil pessoas sem emprego. Destas como sabe há cada vez mais desempregados de longa duração que, por tal e muito provavelmente, já não têm direito a subsídio de desemprego.

Considerando-se ainda, junto com os desempregados que já perderam o direito a subsídio de desemprego, os jovens à procura de primeiro emprego e que, por definição, não têm direito a este subsídio, nomeadamente aqueles oriundos de camadas já pobres, cujos pais porventura para lhes por comida na mesa têm eles de passar fome.

Sem oferta de trabalho, como se deve responder às necessidades destes muitos milhares de pessoas?

Pessoalmente também pago impostos, embora num país estrangeiro que tembém tem ainda muita pobreza e um RSI, embora com outra denominação. Por mim o dinheiro que dos meus impostos vá para a segurança social, RSI e afins, é bem empregue.

Não vou ser eu, que tenho sopa e toucinho no prato todos os dias, que vou reclamar deste emprego dos impostos.

João.

Anónimo disse...

Muito bom texto. O Senhor Carlos Farinha está chateado por ainda não ter conseguido substituir a palavra Caridade por Social.
A instituição da palavra Social é o nec plus ultra do poder da Esquerda.
Pois o Social é algo que deve ser permanente - para criar uma clientela -enquanto a Caridade é algo por definição temporário.
O Senhor Carlos Farinha está preocupado que haja um estigma porque o objectivo é formar uma clientela e tal é impossível de concretizar enquanto o estigma exista.

lucklucky

Anónimo disse...

Não tenho dúvidas da abnegação de muitos padres e leigos em favor do próximo. Serão um exemplo para mim.

Eu falei, no entanto, de um certo catolicismo, o jesuítico e inquisitorial, que desconfia por natureza dos homens.
Aquele para quem o sofrimento é sinal de redenção, de expiação e que, portanto, há que deixar correr porque o futuro transcendente o justificará.

Poderá até justificar, sim, esses que sofrem mas não sei se nos justifica ao deixarmos outrém sofrer em nome de dogmas e impostos.

É deste catolicismo que falo.

João.

Maria João Marques disse...

João, dois pontos:
1. A questão da alimentação dos filhos já comentei em resposta ao Pedro (são o mesmo comentador?).
2. Tem piada que não veja que os mais de 600.000 desempregados existem porque o Estado asfixia as empresas com impostos e TSU, criando custos com o trabalho e restrições de tesouraria (pagamentos de IVA, por exemplo) a que algumas empresas simplesmente não resistem e que impede as restantes de investirem (logo, o país de crescer). E porque as famílias também estão afogadas em impostos e em taxas, o que restringe o consumo (logo o crescimento) e a poupança (o que nos livraria da nossa dependência das poupanças estrangeiras, é dizer o mesmo que do endividamento ao exterior, que tornaria o crédito bancário às empresas menos escasso, logo estas poderiam investir mais e haveria maios crescimento económico).

Anónimo disse...

Maria João,

se você me disser que o Estado Social poderia estar melhor organizado de forma a ser mais eficaz com os mesmo recursos ou até menos, eu aceito isso.

Que este governo seja criticável em muitos aspectos, também aceito da mesma forma.

Agora o que me parece é que a Maria João está a propor todo um sistema económico sobre o fundamento de uma certa infalibilidade, ou seja, que sendo como advoga - o Estado mínimo, etc - resultaria inevitavelmente num estado de prosperidade média que reduzisse a números muito pequenos a necessidade de assistência social.

Eu só não sei onde é que vai buscar essas garantias. Porque para mim o Estado Social, o princípio da sua existência, digamos assim, deriva da ideia de que qualquer sistema económico é falível e sujeito a crises graves.

A ideia do Estado social é a de uma estrutura de amparo face a esta falibilidade, que é enfim, sinal da falibilidade humana.

João.

Anónimo disse...

Como pessoa, como cristão e como cidadão quero deixar aqui o meu veemente repúdio ao post publicado por Maria João Marques.

A profunda insensibilidade de Maria João Marques é chocante.

Convidava a senhora a fazer um exercício simples, e simultaneamente exigente: a assumir a condição de alguém que é pobre. E, por fim, a abandonar as teses liberais radicais, anarco-libertárias.

Se Maria João Marques é cristã, confronte o que escreveu com o Evangelho de Jesus. Se é católica, confronte o que escreveu com os documentos oficiais da Igreja, nomeadamente as encíclicas sociais e o Compêndio da Doutrina Social da Igreja. Concluirá, espero eu, que o que escreveu se encontra em contradição aberta com a mensagem cristã.

Um dos aspectos que mais me comove no Evangelho de Jesus é a especial atenção dada por Jesus aos pobres, aos fracos e aos humilhados. Algo que remonta já ao Antigo Testamento. É ler o Pentateuco, é ler Amós, é ler Isaías. A opção preferencial pelos pobres por parte da Igreja tem raízes arreigadamente bíblicas.


José Carlos Miranda Coelho

22 anos
Católico, apaixonado pela Doutrina Social da Igreja
Estudante de Economia
Oriundo de uma família de classe social baixa

Maria João Marques disse...

João, a inexistência de crises não mostra a falibilidade de um sistema económico; as crises económicas são normais; só o comunismo (que não consta ter sido bom a eliminar a pobreza) não tinha crises. E nem me chocaria que houvesse algum mecanismo de curto prazo que impedisse bolsas de pobreza em tempo de crise. Mas, voltando ao assunto, o RSI não é nada disso; de resto foi criado em tempos de prosperidade económica em que existia, como dizia o esponjoso Guterres, pleno emprego.

E sabe que o padre que eu referi aquando do BA é um jesuíta?

José Carlos, não se preocupe que eu tenho por hábito conviver bem com opiniões diferentes, e, ao contrário de muitos, acho uma vantagem a Igreja ter dentro dela gente tão diferente. Lembro só que a DSI não é matéria de fé. Para mim está ao nível da doutrina católica sobre os contraceptivos: um disparate. E nada disto me impediu de ser, até há pouco tempo, ministra extraodinária da comunhão.

Por fim, lamento, mas não vejo que o amor pelo próximo se confunda com criação de clientelas estatais e a promoção de dependências que só perpetuam situações de pobreza.

Pedro disse...

Maria João, eu não falava do que o Estado devia fazer, os vales e essas coisas, mas do que as pessoas fazem por necessidade, por si e pelos filhos. A Maria João diz que conhece pessoas que não pedem ao Estado, por não quererem viver à custa do Estado, por respeito ao que ganham o dinheiro esforçadamente, mesmo sendo carenciadas. Não pedem, por isso, portanto. É fantástico. Eu não conheço.

Anónimo disse...

Maria João,

A minha crítica a esse certo catolicismo não abriga a todos os católicos. O jesuitismo de que falo foi o que trouxe o absolutismo romano à nossa sociedade, que estimulou a beatice e a intransigência doutrinária, que sufocou o nosso ensino com a escolástica e com um perfeito desprezo pelos saberes técnicos que poderíamos ter desenvolvido a partir das descobertas.



"Acredito que o branco que eu vejo é negro, se a hierarquia da igreja assim o tiver determinado"

Inácio de Loyola.

João.

Luís disse...

Parabéns pelo post.