Ao contrário do Henrique Raposo, que consegue ver virtudes conservadoras em Barack Obama, eu considero que a sua derrota foi justíssima. Um Presidente não pode governar enfiado no bunker sem ouvir a vontade popular e contra os cidadãos. Bill Clinton, que foi um presidente de sucesso, ensaiou fazer o que Obama fez na primeira parte do mandato. Ouviu o eleitorado e percebeu o que tinha de fazer. Foi reeleito facilmente. Veremos o que Obama faz a partir desta derrota histórica.
Bush não foi de facto um conservador tradicional, na medida em que aumentou a presença do estado federal em sectores chave, como na educação e na saúde. E foi de Bush o primeiro plano de estímulos quando a crise rebentou. Mas neste aspecto importa recordar que a legislação foi aprovada no Congresso maioritariamente por democratas e não por republicanos. Muitos revoltaram-se contra o TARP, e alguns deles até caíram nestas primárias devido a esse voto.
E o que fez Obama para combater a crise? O Henrique diz que Obama sabe que a recuperação económica depende mais das empresas do que o Estado. Ora, isso não me parece que seja verdade. O que Obama tem feito para recuperar a economia é gastar, gastar e gastar. Para os seus conselheiros económicos, entretanto já quase todos despedidos, a solução para a recuperação da economia foi injectar dinheiro na economia. Ainda no passado mês de Setembro, à boa maneira de José Sócrates, anunciou um novo plano de 50 mil milhões de dólares para infra-estruturas rodoviárias e ferroviárias. Nestes dois anos o todo poderoso estado federal avançou por tudo quanto é sector. As agências nascem todos os dias, e as regulações e a intervenção estatal não pára de crescer. Sobre a reforma da saúde, concordo com o Henrique. Obama não aprovou uma reforma socialista, apesar dele ser, em muitos aspectos, um social democrata à europeia.
Por fim, uma nota sobre o Partido Republicano: deve-se ouvir mais o que dizem líderes como Chris Cristie, Mitt Romney, John Thune ou até o recentemente eleito Marco Rubio. Sarah Palin é muito mediática, atrai multidões e representa, de facto, uma parcela importante do Partido Republicano. Mas ela não é nem representa o GOP. Apenas uma lembrança histórica: Jerry Falwell também foi muito importante para a eleição de Ronald Reagan.
Bush não foi de facto um conservador tradicional, na medida em que aumentou a presença do estado federal em sectores chave, como na educação e na saúde. E foi de Bush o primeiro plano de estímulos quando a crise rebentou. Mas neste aspecto importa recordar que a legislação foi aprovada no Congresso maioritariamente por democratas e não por republicanos. Muitos revoltaram-se contra o TARP, e alguns deles até caíram nestas primárias devido a esse voto.
E o que fez Obama para combater a crise? O Henrique diz que Obama sabe que a recuperação económica depende mais das empresas do que o Estado. Ora, isso não me parece que seja verdade. O que Obama tem feito para recuperar a economia é gastar, gastar e gastar. Para os seus conselheiros económicos, entretanto já quase todos despedidos, a solução para a recuperação da economia foi injectar dinheiro na economia. Ainda no passado mês de Setembro, à boa maneira de José Sócrates, anunciou um novo plano de 50 mil milhões de dólares para infra-estruturas rodoviárias e ferroviárias. Nestes dois anos o todo poderoso estado federal avançou por tudo quanto é sector. As agências nascem todos os dias, e as regulações e a intervenção estatal não pára de crescer. Sobre a reforma da saúde, concordo com o Henrique. Obama não aprovou uma reforma socialista, apesar dele ser, em muitos aspectos, um social democrata à europeia.
Por fim, uma nota sobre o Partido Republicano: deve-se ouvir mais o que dizem líderes como Chris Cristie, Mitt Romney, John Thune ou até o recentemente eleito Marco Rubio. Sarah Palin é muito mediática, atrai multidões e representa, de facto, uma parcela importante do Partido Republicano. Mas ela não é nem representa o GOP. Apenas uma lembrança histórica: Jerry Falwell também foi muito importante para a eleição de Ronald Reagan.


14 comentários:
OLÁ podia-me explicar o que é o GOP? E já agora tem alguma ideia de o Obama ser ais popular fora dos eua do que dentro?
Bill Clinton presidente de sucesso. Cof cof...!
GOP: Grand Old Party é um acrónimo para Partido Republicano.
Obama vendeu facilidades, sonhos, coisas que chocam sempre contra a realidade, agora única coisa que faz é despejar dinheiro em cima dos problemas.
Nos EUA os media conseguiram enganar durante algum tempo. Na Europa consegue-se enganar durante muito mais tempo.
Basta uma pontinha de romantismo.
E claro varrer para debaixo do tapete que Guantanamo ainda está aberta, etc etc...
Aquela prisão que era uma das questões malvadas de Bush...
lucklucky
Ai o Falwell ui ui. Tranquilo. Louis Farrakhan também foi importante para a eleição do Ohbummer.
A meu ver Obama é popular na europa por ser um homem culto e, diria, à falta de melhor expressão, cosmopolita.
Os radicais do tea party, com o seu moralismo vincadamente religioso e os seu belicismo de fundo, podem conseguir aproveitar a onda da crise para fazer emergir algo da sua mundividência ao "main stream" da política norte-americana. Mas a realidade de hoje não é a da guerra fria, onde a ameaça soviética dispunha imediatamente a europa ocidental a aliar-se quase incondicionalmente aos EUA.
O desgaste de Tony Blair na Inglaterra, naquilo que respeita à sua aliança com Bush, já deve deixar de sobreaviso os próprios conservadores ingleses quanto aos riscos de uma aliança muito estreita com o belicismo e a estreiteza cultural dos conservadores americanos mais radicais, para os quais o mundo começa e acaba nos EUA e tudo o mais é um puro espaço de expansão do interesse doméstico, sem verdadeiro valor intrínseco.
Eu acho que o pessoal do tea party deve pensar que os EUA podem viver sem o resto do mundo, podem crescer sem compromissos com os demais.
Mas, uma vez terminada a guerra fria, uma posição desse tipo, tornará as relações entre a europa e os EUA meramente utilitárias além da quais sobrará o desprezo mútuo. Poderá, caso os conservadores mais radicais, de indole autoritário e arrogante, venham a tomar as rédias de Washington, inclusive, esbaterem-se as resistências ao imperialismo económico chinês por falta de alternativa dialogante vinda dos EUA. Quer dizer, colocar um e outro ao mesmo nível no plano das relações exteriores.
O Tea Party, julgo, está a vender, de sua parte, uma grande ilusão, a de que os EUA podem sobreviver sozinhos, erguidos no pódio do "american way of life", a que as outras nações se submeterão e tomarão como guia do mundo civilizado. A europa, penso, já não vai nesta história, tal como não vão a China, a Rússia (que aqui destaco da europa), o Brasil, a Índia, o Japão...
Se vencer o isolacionismo conservador os EUA serão oposição declarada à europa e ao resto do mundo. Serão uma força económica considerável, é verdade, das maiores, mas não terão muitos aliados, senão os de circunstância.
Obama aparece como um presidente mais disposto ao reconhecimento da diferença cultural como factor de riqueza, mais disposto ao diálogo com essa diversidade cultural, de que aliás, a Europa também se faz, mesmo com a UE. Eu julgo que isto é mais agradável ao resto do mundo e à própria europa, e daí, penso, em parte a razão da sua popularidade.
João.
A meu ver Obama é popular na europa por ser um homem culto e, diria, à falta de melhor expressão, cosmopolita.
Os radicais do tea party, com o seu moralismo vincadamente religioso e os seu belicismo de fundo, podem conseguir aproveitar a onda da crise para fazer emergir algo da sua mundividência ao "main stream" da política norte-americana. Mas a realidade de hoje não é a da guerra fria, onde a ameaça soviética dispunha imediatamente a europa ocidental a aliar-se quase incondicionalmente aos EUA.
O desgaste de Tony Blair na Inglaterra, naquilo que respeita à sua aliança com Bush, já deve deixar de sobreaviso os próprios conservadores ingleses quanto aos riscos de uma aliança muito estreita com o belicismo e a estreiteza cultural dos conservadores americanos mais radicais, para os quais o mundo começa e acaba nos EUA e tudo o mais é um puro espaço de expansão do interesse doméstico, sem verdadeiro valor intrínseco.
Eu acho que o pessoal do tea party deve pensar que os EUA podem viver sem o resto do mundo, podem crescer sem compromissos com os demais.
Mas, uma vez terminada a guerra fria, uma posição desse tipo, tornará as relações entre a europa e os EUA meramente utilitárias além da quais sobrará o desprezo mútuo. Poderá, caso os conservadores mais radicais, de indole autoritário e arrogante, venham a tomar as rédias de Washington, inclusive, esbaterem-se as resistências ao imperialismo económico chinês por falta de alternativa dialogante vinda dos EUA. Quer dizer, colocar um e outro ao mesmo nível no plano das relações exteriores.
O Tea Party, julgo, está a vender, de sua parte, uma grande ilusão, a de que os EUA podem sobreviver sozinhos, erguidos no pódio do "american way of life", a que as outras nações se submeterão e tomarão como guia do mundo civilizado. A europa, penso, já não vai nesta história, tal como não vão a China, a Rússia (que aqui destaco da europa), o Brasil, a Índia, o Japão...
Se vencer o isolacionismo conservador os EUA serão oposição declarada à europa e ao resto do mundo. Serão uma força económica considerável, é verdade, das maiores, mas não terão muitos aliados, senão os de circunstância.
Obama aparece como um presidente mais disposto ao reconhecimento da diferença cultural como factor de riqueza, mais disposto ao diálogo com essa diversidade cultural, de que aliás, a Europa também se faz, mesmo com a UE. Eu julgo que isto é mais agradável ao resto do mundo e à própria europa, e daí, penso, em parte a razão da sua popularidade.
João.
A meu ver Obama é popular na europa por ser um homem culto e, diria, à falta de melhor expressão, cosmopolita.
Os radicais do tea party, com o seu moralismo vincadamente religioso e os seu belicismo de fundo, podem conseguir aproveitar a onda da crise para fazer emergir algo da sua mundividência ao "main stream" da política norte-americana. Mas a realidade de hoje não é a da guerra fria, onde a ameaça soviética dispunha imediatamente a europa ocidental a aliar-se quase incondicionalmente aos EUA.
O desgaste de Tony Blair na Inglaterra, naquilo que respeita à sua aliança com Bush, já deve deixar de sobreaviso os próprios conservadores ingleses quanto aos riscos de uma aliança muito estreita com o belicismo e a estreiteza cultural dos conservadores americanos mais radicais, para os quais o mundo começa e acaba nos EUA e tudo o mais é um puro espaço de expansão do interesse doméstico, sem verdadeiro valor intrínseco.
Eu acho que o pessoal do tea party deve pensar que os EUA podem viver sem o resto do mundo, podem crescer sem compromissos com os demais.
Mas, uma vez terminada a guerra fria, uma posição desse tipo, tornará as relações entre a europa e os EUA meramente utilitárias além da quais sobrará o desprezo mútuo. Poderá, caso os conservadores mais radicais, de indole autoritário e arrogante, venham a tomar as rédias de Washington, inclusive, esbaterem-se as resistências ao imperialismo económico chinês por falta de alternativa dialogante vinda dos EUA. Quer dizer, colocar um e outro ao mesmo nível no plano das relações exteriores.
O Tea Party, julgo, está a vender, de sua parte, uma grande ilusão, a de que os EUA podem sobreviver sozinhos, erguidos no pódio do "american way of life", a que as outras nações se submeterão e tomarão como guia do mundo civilizado. A europa, penso, já não vai nesta história, tal como não vão a China, a Rússia (que aqui destaco da europa), o Brasil, a Índia, o Japão...
Se vencer o isolacionismo conservador os EUA serão oposição declarada à europa e ao resto do mundo. Serão uma força económica considerável, é verdade, das maiores, mas não terão muitos aliados, senão os de circunstância.
Obama aparece como um presidente mais disposto ao reconhecimento da diferença cultural como factor de riqueza, mais disposto ao diálogo com essa diversidade cultural, de que aliás, a Europa também se faz, mesmo com a UE. Eu julgo que isto é mais agradável ao resto do mundo e à própria europa, e daí, penso, em parte a razão da sua popularidade.
João.
Desculpem o triplicado, não sei porque aconteceu.
João.
Desculpem o triplicado, não sei porque aconteceu.
João.
Depois do triplicado teve de se justificar com um duplicado. Agora desculpa-te singularmente.
"Depois do triplicado teve de se justificar com um duplicado. Agora desculpa-te singularmente."
:)))
João.
Estou de acordo com alguns pontos, em desacordo com outros, mas queria saber se me podia dizer onde viu que "As agências nascem todos os dias, e as regulações e a intervenção estatal"?
Eu acho que Obama podia ter ouvido tudo e o resultado seria semelhante. Bill Clinton foi um Presidente de sucesso porque a economia começou a crescer. (se com sucesso significa segundo mandato)
Relativamente às medidas que foram tomadas para salvar a economia, tenho dois pontos. Um Presidente republicano teria feito basicamente o mesmo. O tea party parece-me uma associação com demasiadas vozes para ter uma posição clara no que quer que seja. Não é verdade que todos queiram o Estado fora da economia, nem que todos sejam birthers. Parece-me a mim que só agora iremos começar a ver qual dos tea parties vai surgir. Se um mais ligado ao movimento libertário, e que pode ter o apoio de muitos jovens, ou se vai ser um movimento conservador que acabará por se ficar pelas posições dos republicanos ou ainda mais radicais.
João um extraordinário texto.
Você disse bem cosmopolita, não confunda culto com cosmopolita.
Os resultados da sabedoria do cosmopolitismo estão à vista. As várias Polis estão na bancarrota.
"Os radicais do tea party, com o seu moralismo vincadamente religioso"
-Claro tem sido o "não ao preservativo" o mote dos Tea Party.
"para os quais o mundo começa e acaba nos EUA e tudo o mais é um puro espaço de expansão do interesse doméstico, sem verdadeiro valor intrínseco."
-Pois a Primeira e Segunda Guerra Mundial,Coreia, Vietnam, Iraque.
"Mas, uma vez terminada a guerra fria, uma posição desse tipo, tornará as relações entre a europa e os EUA meramente utilitárias além da quais sobrará o desprezo mútuo."
-Já vi esse filme, quando eles nos dão coisas a relação é altruísta, tipo na Guerra Fria, quando nos pedem coisas é utilitária.
"Se vencer o isolacionismo conservador os EUA serão oposição declarada à europa e ao resto do mundo."
-Os capitalistas direitistas americanos vão-se isolar e deixar de explorar o mundo. uh uh terrível para um esquerdista. É como o embargo a Cuba.
Cuba a comunista não prospera porque os capitalistas malvados que exploram os trabalhadores não fazem negócios com ela.
Conforme as conveniências para o esquerdista manipulador os capitalistas ou só pensam no dinheiro ou são moralistas.
Não notam claro contradição em tal coisa.
"Obama aparece como um presidente mais disposto ao reconhecimento da diferença cultural como factor de riqueza, mais disposto ao diálogo com essa diversidade cultural"
- Em 2 ou 3 parágrafos o moralismo religioso, já passou a ser uma coisa boa, diversa.
Não devia ser "cosmopolita" e ser tolerante com os Tea Party? "Reconhecer a diferença cultural" dos Tea Party como "factor de riqueza"?
lucklucky
Caro Lucklucky,
Para resumir, eu falo do conservadorismo tipo Fox News - Bill O'Rilley, etc -, do tipo Sarah "drill baby drill" Palin, do tipo que associa, em cartazes públicos, Obama a Hitler, do conservadorismo evangélico, fanatizado. O conservadorismo de um livro só.
Se você se identifica com isto, força! Eu, pessoalmente, não me identifico nada com isto e, julgo, mas posso estar enganado, que a generalidade da europa não encontra aí muito com que se identifique também.
"-Pois a Primeira e Segunda Guerra Mundial (...)" Em todo o caso foram presidentes dos democratas que presidiram a entrada dos EUA em ambas as guerras mundiais...
Se você encontrou contradições no meu texto, pois bem, que fiquem por si declaradas - eu apenas direi que não faço a mesma interpretação que você faz daquilo que escrevi.
cumpts,
João.
E, já agora, numa nota pessoal, posso, de facto, ter uma inclinação para um ponto de vista político mais à esquerda mas, bem ou mal, isto não me impediu de ter apoiado a eleição de Cavaco Silva para a presidencia no primeiro mandato e, embora ainda queira ver as coisas até ao fim da campanha eleitoral, de estar muito inclinado a apoiar a sua eleição para um segundo mandato.
João.
Enviar um comentário