Terça-feira, 16 de Novembro de 2010

À espera do FMI

Há uma peça de Samuel Becket que retrata uma espera ansiosa, no limite do absurdo, por um personagem chamado Godot. Todo o enredo é marcado pela expectativa da chegada dessa entidade misteriosa, que nunca aparece, mas que condiciona a vida de todos. Lembro-me disto a propósito do momento que vivemos. Apesar da urgência da crise continuamos à espera. O Governo está paralisado, sem saber o que fazer para nos tirar do buraco onde nos meteu. Com a escalada dos juros a situação vai-se tornando insustentável, mas continuamos à espera que algo ou alguém que venha em nosso auxílio. Sem que ninguém o queira confessar, a começar pelo mitómano que nos governa, muitos políticos e agentes económicos já vivem na expectativa da chegada do FMI.

Por desventura e culpa própria, somos a terceira peça no dominó europeu. É o que resulta do novo acrónimo da imprensa financeira: depois do clube Med e dos PIGS, fomos agora incluídos nos GIPSI. Basta seguir as letras para perceber que, depois da Grécia e da Irlanda, segue-se Portugal. Dublin já está a sofrer pressão política europeia para pedir ajuda. Quando isso acontecer, não teremos margem para não fazer o mesmo, recorrendo ao FMI para evitar a bancarrota.Custa escrever isto. Mas tornando-se o FMI inevitável, mais vale que venha depressa. Talvez assim se vá embora mais cedo, recuperando Portugal parte da soberania que, em rigor, já não nos pertence por inteiro. Ou será que se pode considerar "soberano" um país que implora de gatas que lhe emprestem dinheiro? Ou indo mais longe: podemos falar de soberania (e independência) quando metade da população depende do Estado que, por sua vez, depende do estrangeiro?

A entrada do FMI será dolorosa. Agravará a nossa imagem externa e as empresas terão mais dificuldade em aceder ao crédito externo. Com as medidas duras é bem possível entrarmos em recessão. Mas perante a nossa incapacidade de resolver os problemas mais vale que outros o façam. E quanto mais cedo melhor. Até isso acontecer o despesismo vai continuar, financiado com juros elevadíssimos, a onerar as novas gerações, que não terão capacidade de pagar. O Governo continuará a adiar as reformas de um Estado construído à sua imagem. Não será fácil executar este Orçamento, aprovado por pressão externa, mas com o qual o próprio Governo não concorda por ser contra a tradição despesista do socialismo nacional.

2 comentários:

Anónimo disse...

Será que vai ser o António Borges a chefiar a delegação? Imagino o pesadelo do Sócrates a ver a personagem chegar...

Anónimo disse...

"é bem possível entrarmos em recessão"
.
Resumindo se deixarmos de pedir tanto dinheiro emprestado entramos em recessão.
Curioso não quererá isso dizer que já estamos em recessão desde há 10 anos e que só o dinheiro pedido emprestado tem camuflado?

lucklucky