Quinta-feira, 11 de Novembro de 2010

Dramas

Imagine que eu chego ao pé de si e lhe digo, afogueado: olhe, empreste-me dinheiro; uma parte pago-lhe já em Março, a mais pequena (entre 500 a 750 milhões de euros), e o resto, ainda não tenho a certeza dos montantes, mas será qualquer coisa entre 2.000 milhões de euros e 1.250 milhões, pago-lhe dentro de um ano. Com juros, claro, os que me cobrar. Tudo somado, dá que, até ao final de Dezembro, não consigo pagar as minhas contas sem qualquer coisa que pode variar entre os 2.750 milhões de euros e os 1.750 milhões.

(suspiro profundo)

E continuo: claro, sejamos honestos, sabemos ambos que a probabilidade de lhe pagar a totalidade do capital e dos juros que me cobra, ou pagá-los nos prazos que referi, é reduzida (para não dizer praticamente nula), pois, como sabe, para o ano preciso de 46 mil milhões de euros emprestados para manter a casa a funcionar...

(desalento, muito desalento)

... são 35.300 milhões para pagar dívidas antigas e 10.700 milhões para cobrir mais uma vez a falta de receita em relação à despesa da casa, que não há meio de conseguir diminuir. Ou melhor: digo que vou diminuir, mas depois não consigo. Tenho de confessar: tenho vícios e sou um gastador compulsivo. Compreenda.

(novo suspiro profundo, mais profundo ainda)

Prossigo: como já ninguém acredita que o consiga fazer, começaram ultimamente a cobrar-me um preço absolutamente aloucado para me continuarem a emprestar dinheiro, de tal modo que, se fosse por aí, tal como estão as coisas, dentro de uns tempos só nos juros ia-se-me uma parte de tal modo grande do cabedal que lá vou conseguindo arrecadar, com cada vez maior dificuldade... e bem vê, vou ter de pedir a um parceiro meu, lá do Norte, para entrar com a massa, mas, lá está, ele quer que quem me vem alimentando os vícios, que, no fundo, são a contrapartida dos vossos vícios, seja responsabilizado, e só entra com o dinheiro emprestado que preciso, se eu não pagar a totalidade do que vos tenho prometido, e, bem vistas as coisas, estou a prometer agora.

Empresta-me? A quanto?

Dias 17 de Novembro, 1 de Dezembro e 15 de Dezembro.

11 comentários:

sergio morais disse...

isto está a começar:

http://www.youtube.com/watch?v=qrElFScH8-Y&feature=player_embedded#!

Anónimo disse...

"ele quer que quem me vem alimentando os vícios, que, no fundo, são a contrapartida dos vossos vícios, seja responsabilizado, e só entra com o dinheiro emprestado que preciso, se eu não pagar a totalidade do que vos tenho prometido, e, bem vistas as coisas, estou a prometer agora."

Afinal o mercado também tem vícios. De acordo. O mercado não é todo ele racional.

Quem não tem vícios agora é a Alemanha. Tudo bem. O seu argumento é forte, desde que a Alemanha não tenha vícios.

Eu não vou chamar viciosos aos alemães. Que nos devorem, portanto! É isso?

João.

João.

Mani Pulite disse...

QUEM NO MOMENTO OPORTUNO VAI DEVORAR SÓCRETINOS,TEIXEIRONES,XUXAS E APARENTADOS SÃO OS PORTUGUESES.

Anónimo disse...

Parece-me que falta aí um pequeno pormenor na sua alegoria. A história não deve começar em "Olhe, empreste-me dinheiro..." mas em "Olhe, eu sei que lhe devo bastante dinheiro mas, para poder vir a pagar-lhe preciso que me empreste mais, se possível a mais longo prazo para ver se me consigo virar entretanto...". Depois, pode continuar com a sua alegoria. As contas podem ser igualmente absurdas, não sei, mas a situação é ligeiramente diferente e qualquer credor sabe disso.

IsabelPS

Zephyrus disse...

Tão bom começar o dia a 7.41%! http://markets.ft.com/markets/bonds.asp

Luís Lavoura disse...

O Jorge podia explicar qual a diferença entre "obrigações do tesouro" e "bilhetes do tesouro"?

Jorge Costa disse...

http://www.igcp.pt/gca/?id=58. Luís Lavoura: a diferença que interessa imediatamente é que as OT são instrumentos de médio e longo prazo. Os BT de curto (até 12 meses). Mas explore o site do IGCP que tem muita informação interessante.

Luís Lavoura disse...

Jorge Costa, obrigado pela resposta.

E, já agora... bom sábado!

Anónimo disse...

Caro Jorge Costa,
acabei de ler que ouve um alívio no sector finaceiro europeu devido à recepção da notícia de que o plano de estabilização projectado só se aplicará a dívida contraída futuramente. Será possível uma ignorância tão colossal? O sector financeiro não consegue ter acesso a uma entrevista em alemã? Até eu sabia disso e não sou especialista. Numa entrevista dada no início da semana por Schäuble e num artigo da Zeit isso é dito com clareza.
Parabéns, por ser uma das poucas pessoas que fala sobre a questão constitucional alemã, que é decisiva e sobre a patranha de chamar FMI ao fundo. Até um grande banqueiro já disse as maiores enormidades a respeito do caso. Esses tipos não têm dinheiro para contratar uns explicadores?


Pedro Panarra

Jorge Costa disse...

Obrigado, Pedro.

Jorge Costa disse...

Obrigado, Luís Lavoura.