Uma das coisas irritantes no jornalismo é a mistura de preguiça, simplismo e espírito de «Maria-vai-com-todos». Com este último vício quero significar o processo de trabalho que consiste em adoptar uma ideia propalada por alguém, de preferência simples, depois propalada por dez, depois por todos repetida, supostamente explicativa do facto de que se quer dar conta. E enquanto não houver um terramoto qualquer, a ideia, por muito estúpida e desadequada aos próprios factos que seja, mantém-se, repete-se, e fica a ser uma verdade. O jornalista tem de fechar o jornal a horas certas e não pode estar com grandes pinças a tratar dos assuntos. Ideias simples dão uma ajuda dos diabos! Põe-se o microfone à frente de três pobres comentadores de serviço, ou economistas, e conseguem-se títulos brilhantes assim: «economistas dizem que...». Ou: «analistas de mercado dizem que....». Isto quando, mais levianamente, não se escarrapacha no título, sem aspas e tudo, com «o que» dizem «os economistas» e se dispensa a autoria da tese. Então não é óbvio que o que é é o que dizem os três analistas ou os três economistas que atenderam a chamada?
Ilustro. Consta, mesmo entre os jornalistas mais competentes, que a recente pressão em alta, forte pressão, sobre as rendibilidades das Obrigações do Tesouro (OT) portugueses - visível em todos os prazos, mas quase sempre ilustrada com a referência dos 10 anos - se deve à revisão em baixa do rating da Irlanda, um dos periféricos (eufemismo recentemente adoptado no jornalês para evitar o acrónimo PIIGS), que os teria arrastado a todos na desgraça.
A revisão da Moody's deu-se no dia 18 de Agosto. Em Londres, no dia 17 de Agosto, o mercado fechou com as seguintes rendibilidades para as respectivas OT de referência (10 anos) - este indicador é de suma importância na actualidade, pois baliza o preço a que cada Estado consegue financiar-se no longo prazo.
17 de Agosto:
Irlanda - 5,36%
Itália - 3,82%
Portugal - 5,19%
Espanha - 4,10%
Grécia - 10,86%
No fecho da praça londrina, ontem:
Irlanda -5,79%
Itália - 3,76%
Portugal - 5,66%
Espanha - 4,06%
Grécia - 11,52%
Variação ao longo do período:
Irlanda: + 43 pontos de base
Itália: - 6 pontos de base
Portugal: + 47 pontos de base
Espanha: - 4 pontos de base
Grécia: + 66 pontos de base.
Portanto: a manter como boa a palavra de passe do jornalismo económico, mesmo o melhor, deve concluir-se que a redução do rating da Irlanda - o acontecimento explicativo - afectou mais extensamente Portugal e a Grécia do que a Irlanda. E de facto afectou os periféricos no seu conjunto: no caso da Espanha e da Itália, aliviando a pressão sobre as rendibilidades. Chega de non-sense?
Usar as ferramentas daqui, se não tiverem outras, para trabalhar um bocadinho, ok?
Ilustro. Consta, mesmo entre os jornalistas mais competentes, que a recente pressão em alta, forte pressão, sobre as rendibilidades das Obrigações do Tesouro (OT) portugueses - visível em todos os prazos, mas quase sempre ilustrada com a referência dos 10 anos - se deve à revisão em baixa do rating da Irlanda, um dos periféricos (eufemismo recentemente adoptado no jornalês para evitar o acrónimo PIIGS), que os teria arrastado a todos na desgraça.
A revisão da Moody's deu-se no dia 18 de Agosto. Em Londres, no dia 17 de Agosto, o mercado fechou com as seguintes rendibilidades para as respectivas OT de referência (10 anos) - este indicador é de suma importância na actualidade, pois baliza o preço a que cada Estado consegue financiar-se no longo prazo.
17 de Agosto:
Irlanda - 5,36%
Itália - 3,82%
Portugal - 5,19%
Espanha - 4,10%
Grécia - 10,86%
No fecho da praça londrina, ontem:
Irlanda -5,79%
Itália - 3,76%
Portugal - 5,66%
Espanha - 4,06%
Grécia - 11,52%
Variação ao longo do período:
Irlanda: + 43 pontos de base
Itália: - 6 pontos de base
Portugal: + 47 pontos de base
Espanha: - 4 pontos de base
Grécia: + 66 pontos de base.
Portanto: a manter como boa a palavra de passe do jornalismo económico, mesmo o melhor, deve concluir-se que a redução do rating da Irlanda - o acontecimento explicativo - afectou mais extensamente Portugal e a Grécia do que a Irlanda. E de facto afectou os periféricos no seu conjunto: no caso da Espanha e da Itália, aliviando a pressão sobre as rendibilidades. Chega de non-sense?
Usar as ferramentas daqui, se não tiverem outras, para trabalhar um bocadinho, ok?


1 comentário:
Junte-se o aumento, no ano, de 40 mil milhoes de Euros de divida publica (que ja' vai em 172 mil milhoes) e temos um caldo famoso.
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