Quarta-feira, 29 de Setembro de 2010

Austeridade (5)

O Pedro Guerreiro está na TVI e acaba de repetir o que se tornou num lugar-comum, a saber, que até agora "quem pagou a crise foram os desempregados", para dizer que a partir de agora todos pagarão a crise. O lugar-comum está incompleto. Até agora não foram só os desempregados a pagar a crise, embora tenham sido esses que pagaram mais, por assim dizer. Foram também todos os trabalhadores do sector privado que têm partes substanciais dos seus salários em montantes variáveis (prémios, bónus, etc.) Esses estão a ganhar menos há dois anos, quando não três (e não estou a falar dos gestores de topo, nem de ociosos conselheiros de administração, mas de gente ligada aos departamentos comerciais, por exemplo). As renegociações de horários, horas extraordinárias e dos salários que decorreram, e estão a decorrer, em várias empresas por todo o País, tudo isto tem de contar como diminuição dos salários, como diminuição do nível de vida.
E não esquecer os empresários que viram as suas empresas falir. É que ao contrário do que diz a extrema-esquerda, e muita da esquerda do "socialismo democrático" que normalmente fala bem instalada no conforto dos seus empregos protegidos, muitos dos empresários que andam por aí não têm Ferraris escondidos na garagem, nem contas na Suíça. É gente que quando perde a sua pequena empresa perde tudo, ou quase tudo.
Esta gente, trabalhadores e empresários, está a pagar a crise há muito tempo.

8 comentários:

Cfe disse...

Muito bem dito.

Muita gente, de meu círculo de amizade pessoal, só agora começará a entender minha saída de Portugal ano passado.

É que vi que os ferros do travão haviam sido gastos, minha sola estava sendo desgastada e antes que chegasse a meu pé resolvi retornar ao Brasil, meu país natal.

Uma pena, espero que o mais rápido possível Portugal encontre um rumo pq o que o governo fez hoje não dá nem para o começo.

Daniel Santos disse...

a factura é para os mesmos do costume.

floribundus disse...

os socialista enriqueceram
os contribuintes empobreceram

Anónimo disse...

Os do costume:desempregados e privados.
O floribundius desde que perdeu o doutoramento deixou de saber o que diz.

Ana Gabriela disse...

Miguel

Exactamente.

Mas este termo "austeridade" também gera muitos equívocos que seria útil desmontar.
Como ouvi a um lúcido (e é raro) comentador na televisão: "Este governo não teve e continua a não ter uma estratégia, uma política, isto não são medidas são expedientes avulsos, contabilísticos."

Por isso, em vez de "medidas de austeridade" poderíamos designá-las por "expedientes":
- que também podem ser encarados como o resultado da gestão danosa dos recursos colectivos;
- e como cortes tardios e, por tardios, mais radicais.

E, como o Miguel destaca, a "austeridade" só abrange uma parte da população; os gestores públicos e chefias intermédias, por exemplo, as empresas públicas, as fundações, os institutos, etc., não são abrangidos.
Ana

M. Abrantes disse...

Os funcionários públicos também andam a pagar a crise há muito tempo.

Basta atender a salários congelados, a progressões na carreira congeladas, a contratos renovados anualmente, por menos de 12 meses (há professores a trabalhar nos politécnicos que são pagos pela mesma letra - o escalão mais baixo, dos principiantes - há mais de 10 anos; e sem direito à totalidade desse salário; e realizando trabalho correspondente a escalões de vencimento superiores - resumindo, sendo chulados descaradamente). Também se pode verificar o que era, antes, e o que é, agora, comparticipado pela ADSE - que diferença!

E, convém não esquecer, os funcionários públicos não fogem aos impostos. É verdade que muitos privados o fazem - a acreditar na imprensa, as fugas ao fisco andam pelos milhares de milhões de euros (se esta dívida fosse paga, éramos capazes de estar um bocadito mais desafogados, ora então não estaríamos?).

Pelo que me toca, se o governo e a assembleia decidirem cortar-me ao salário pois que o façam (sabendo eu que uma boa parte dos que reclamam bem alto medidas desta natureza são aqueles a quem um corte deste tipo não causaria problemas económicos de nenhuma espécie - e isto não é detalhe despiciendo, bem pelo contrário).

Agora, os cidadãos precisam de sentir que vigora alguma moralidade. Porque se nos cortam nos salários, mas nós continuamos a ver funcionários do estado com reformas de luxo, empresas de serviços com participação do estado a terem lucros astronómicos e benesses de todo o tipo e feitio (à custa do Zé), os bancos a terem lucros pornográficos (à nossa custa), os partidos a gastarem 11 milhões de euros em campanhas (parte desse dinheiro vindo dos nosso bolsos), os boys dos partidos a terem bons tachos de cada vez que há eleições, é natural que a disponibilidade para racionalizar de forma cooperante possa dar lugar à vontade de reagir como qualquer manifestante grego - por vezes parece-me que algumas pessoas encaram o que se passou na Grécia como se fosse um filme com maus efeitos especiais; o que, só por si, é demonstrativo de uma valente dose de burrice.

Aiden McKenna disse...

mas de gente ligada aos departamentos comerciais, por exemplo....pois o problema é quem paga são os 3 milhões que recebem entre 500 e 900 euros

3 milhões x700 euros de impostos retidos por ano
dá só 2100milhões
2,1 submarinos

e a gajada que os partidos
puseram como tecnocratas de topo desde engenheiros ambientais a arquitectos e sociólogos custa muito mais do que isso por ano

e foram os partidos todos

em menor grau os bloquistas por falta de autarquismo

bolas ainda o ano passado 3 glórias do passageiro PRD
foram para a reforma a 2500 cada
um a 2800 estão naquele sítio
que já não publica molhadas de papel...na imprensa dita nacional
que também tem muitos
gajos que só aparecem ao meio-dia
e que almoçam até às 5

Pedro Lomba disse...

Absolutamente Miguel