Quarta-feira, 12 de Maio de 2010

"Sacrifícios terão de ser repartidos por todos os sectores"

Eu não tenho nada contra Pedro Passos Coelho. Mas esta frase de Pedro Passos Coelho revela grande desconhecimento quanto à crise presente, e à forma como os seus sacrifícios se distribuiram até este momento e se devem distribuir no futuro. Existem sectores, e esses sectores são todos privados, que já sofreram mais que muito. Desemprego, baixa de rendimento, tudo isso já chegou a muitos lugares.

Já quem trabalha para o Estado, ainda não sofreu nada.

Para repartir os sacrifícios por todos os sectores, a aproximação correcta, como se depreende, não é dividir os sacrifícios futuros por todos. É aplicá-los em quem ainda não sofreu nada.

31 comentários:

Anónimo disse...

Verdade! Corajoso!

Anónimo disse...

Isto é engraçado, porque os partidários de Paulo Rangel queriam uma ruptura, mas é como tema para blogues e conversa de café. A ruptura de que ele falava, os dez anos de sacrifícios, era isto. O que se passa na Grécia e já em Espanha. A ruptura não é um tema agradável, como as reformas também não são. Essa é que é essa!!!

lpb disse...

Extraordinária afirmação.

Continuo surpreendido pelo efeito amnésico da síntese neoclássica. Mais: surpreendo-me com a falta de memória e de leitura.

Comecemos por esta última. Caso não tenha lido Wolfgang Munchau e Paul Krugman (dois colunistas de tendências diferentes), o problema, em Portugal, não a) o sector público) ou b) a dívida pública. É o sector privado, especialmente o sector bancário. Isto leva-me à primeira (falta de memória). Estará, decerto, recordado da linha de financiamento disponibilizada a instituições bancárias, à imagem daquilo que sucedeu em toda a Europa, no ano transacto. Agora, a dívida externa portuguesa ascende a 240%.

Isto é que agudizou o problema da dívida pública; não é o suposto decréscimo de produtividade ou situação privilegadia da Administração Pública. Mais: os indicadores de produtividade e inovação no sector público demonstram uma significativa melhoria, apesar dos ataques ideológicos constantes ao mérito da AP.

Para além disto, você não consegue demonstrar que os trabalhadores da administração pública estão verdadeiramente escudados da crise. A não ser que os considere imunes à inflação e a cargas fiscais regressivas.

Este blog é, geralmente, de uma qualidade baixíssima, mas está a chegar ao paroxismo. Nunca se cansam de vomitar cartilhas? Queixam-se da esquerda e dos jacobinos, mas não passam de um alter-ego do Arrastão ou do 5dias.

Em todo o caso, parabéns: pautam-se pela mediocridade nacional e debitam ortodoxias banais. Apesar de ter outro tipo de ideias, penso que a vitalidade intelectual de Portugal só teria a ganhar com ideias liberais coerentes e sustentadas. Não esta miscelânea de nacional-conservadorismo, liberalismo-toys'r'us e populismo. Enfim, temos (eu incluído) o que merecemos: ideias ocas e bafientas.

Paulo Santos disse...

Mas quais ataques ideológicos?

Uma educadora de infância em final de carreira em Portugal no sector público ganha 3364 Euros.

Três mil trezentos e sessenta e quatro euros.

É uma palhaçada. E são os contribuintes que a pagam.

A ideologia não é para aqui chamada.

E a educadora de infância é apenas um exemplo entre muitos.

Anónimo disse...

O problema em Portugal é a distorção económica provocada pelo Estado e a sua cultura, Sector Publico e por um clientelismo e promiscuidade entre o Publico e Privado que nasce do extraordinário poder do Estado. O problema do sector público começa logo na educação que destroí e trucida dezenas de milhar de crianças transformando-as em clientela normalizada desde de pequeninos.
As empresas só nascem e crescem fazendo diferente, não sendo parte de um rebanho. Para isso é preciso pensar pela própria cabeça.
Em Portugal o Estado fala de inovação mas faz tudo para sermos iguais uns aos outros e para sermos o mais normalizados, menos independentes e autónomos possíveis. Vai desde a lei das rendas, aos limites ao nascimento de novas TV's, passando pela escola socialista, saúde socialista.
A entrada na CEE/UE foi uma entre muitas dos exercícios de negação da diferença e um ataque a pensar pela própria cabeça. Quando o que é preciso é o contrário, explorar as diferenças, torna-las notadas. Para discriminar, outra palavra proíbida, e escolher melhor, distinguir.Inovação é diferença e só aparece tendo capacidade para pensar diferente da maioria.
Portugal só é bom onde explora as diferenças : no futebol e no vinho.

E no fim disto tudo, só uma pequena parte da economia tem preços reais. Ora como é que uma sociedade sem preços reais pode decidir racionalmente?

lucklucky

Conservador disse...

Paulo, concordo.
Trabalho no público.
E compreendo que muita gente quer o pequeno almoço no trabalho e o lanche, deslocam-se às 17.01.

Mas vejo policias, magistrados, funcionários das finanças, enfermeiros, médicos a darem o litro.
Vejo professores em reuniões, em vez de estarem nas salas de aula (mais de 25000!). Vejo assistentes sociais a fazerem o que qualquer pessoa faz.
Vejo nas autarquias o jeitinho e o laxismo.

Vejo um país sem gosto.

lpb classifica de mediocridade mas não percebeu. É triste quando a raiva ideológica suplanta a inteligência.

Eduardo F. disse...

Caro lpb,

Talvez fosse bom alargar o leque de colunistas que lê.

Paulo Santos disse...

Conservador, neste caso a qualidade em está em questão, e existem certamente muitos funcionários públicos de elevada qualidade e bem trabalhadores.

Inclusive, eu tenho reparado que muitos serviços públicos estão francamente melhores, fruto de algum esforço nesse sentido, e no sentido de simplificar processos.

Porém, para a nossa realidade económica, os salários em topo de carreira de uma série de profissões publicas são, simplesmente, exagerados. É algo incontornável.

Paulo Santos disse...

lpb, quanto à falta de leitura e memória, eu devo dizer-lhe que eu previ a crise actual melhor do que o Paul Krugman e afins.

Se quiser ver, leia estes 3 artigos e note a data indicada nos ditos (não a da "História", porque eles já vêm de uma versão anterior do site):

http://www.thinkfn.com/wikibolsa/A_bolha_invis%C3%ADvel

http://www.thinkfn.com/wikibolsa/O_poder_dos_incentivos

http://www.thinkfn.com/wikibolsa/O_modelo_de_origina%C3%A7%C3%A3o


Vale a pena ler os artigos mesmo DEPOIS da crise já se ter dado, simplesmente porque se fica a compreender melhor o que aconteceu.

Paulo Santos disse...

O segundo link é:

http://www.thinkfn.com/wikibolsa/O_poder_dos_incentivos

Paulo Santos disse...

(há qualquer coisa de errado no sistema de comentários, o final do link é "incentivos", eu copio integralmente mas ele posta o link partido)

Escalabitano disse...

Não o problema nem é arranjar dinheiro para pagar os 60 % da despesa pública em pensões e salários...
O problema é termos que ir a uma fatia cada vez menor de cidadãos sem rendimentos assegurados e sem emprego vitalício no sector público, buscar esses quase 60 % da despesa, que não se vê que tenha que continuar nesses parâmetros tão elevados e não descer abaixo dos 50 % como no resto da CE, principalmente agora que ninguém nada dá que fazer, senão caminhar para os hospitais e para os Postos Médicos.
O que é que os registos prediais e civis têm que fazer se não há transmissões aos níveis de 1998/2000?
O que é que os serviços técnicos e de urbanismos e demais sectores municipais da Grande Lisboa e Grande Porto e cidades médias T~em que dar a fazer aos mesmos quadros de 1998/2000?
Com tantas escolas que fecharam e se aglomeraram em grandes centros, para quê tantos professores, se a população juvenil está em redução?
Ou será que a ideia de fazer turmas mais pequenas visa colmatar essa brecha e proteger empregos ao professorado?
Se a Espanah já propôe 5 % na redução dos salários do funcionalismo, quando é que os funcionários públicos querem contribuir para a causa pública, que os sustenta?
Não confunda o sector bancário com o sector privado. Eu também não confundo o Mexia e o Bava com o funcionalismo público...

E quanta dívida pública desses 240 % não incluem empresas públicas e parcerias publico privadas, que vivem acima das possiblidades e vêm acumulando juros em cima de juros.
E como é que se mede a produtividade do funcionalismo público?
Pelos poucos despachos a tempo e horas e pelas muitas recusas ou indeferimentos em que se despacha o cliente para até mais não ver...
Quantos investimentos e fontes de receita não pararam por esse país fora por um indeferimento mal fundamentado ou preconceituoso?
Quantos desses indeferimentos não causaram PARAGEM na cobrança da receita do Estado, durante anos, quando teria sido mais fácil que essas receitas chegassem uns anos mais cedo?!
VAMOS LÀ A FAZER ESSAS CONTAS E DEPOIS DIGAM LÁ QUANTO È QUE NOS TEM CUSTADO ESSA BRINCADEIRA IDEOLÓGICA DO PÚBLICO E PRIVADO, tá?
O que é que

Paulo Santos disse...

"Nem tudo o que pode ser contado conta, e nem tudo o que conta pode ser contado.", Albert Einstein

Anónimo disse...

O comentário do lpb é bastante oco e bafiento,lá isso é.
O lpb que explique a inflação sofrida pelos funcionários públicos.
Cresce e aparece.

tenho medo de dizer quem sou disse...

Alguem trouxe a medicação do lpb?

Rui Felício disse...

"Uma educadora de infância em final de carreira em Portugal no sector público ganha 3364 Euros"

Quantas conhece nessa situação, Paulo?

Joaquina Maria Abundância no Presépio disse...

Tabela de vencimentos de 2009:
Remuneração líquida de um professor do ensino público no escalão máximo: entre 2.025,14 € e 2.272,49 €

Paulo Santos disse...

Rui Felício, todas as que chegam ao topo de carreira, ou seja, ao longo da vida serão uma percentagem elevada das que existem.

Joaquina, o topo salarial bruto é EXACTAMENTE o que eu indiquei.

Paulo Santos disse...

O Rui Felício é a favor deste tipo de salários em topo de carreira, às custas de um povo que ganha em média 900 euros?

A Joaquina é a favor disto?

Será que as pessoas que são sujeitas ao que os outros querem pagar, e os outros só querem pagar 900, devem depois ser obrigadas a pagar 3364 a alguns? Será que isso deve ser feito mesmo que se saiba que no privado, no MESMO mercado a que as pessoas se sujeitam, só ganhariam 1500 ou pouco mais?

Anónimo disse...

Na minha óptica, depende das habilitações de cada um; há professores doutorados no ensino secundário, diria que muitos bem mais competentes que os do superior ou mesmo que muitos "funcionários" de topo; não me repugna nada que ganhem isso ou mais.
Joaquina Maria Abundância no Presépio

Paulo Santos disse...

Joaquina, o salário de uma pessoa não é função de ser doutorado, é sim função do que custa obter uma pessoa para preencher uma dada posição, com uma boa qualidade.

E ainda para mais, neste caso eu até estava a falar de educadoras de infância.

Estes salários são obviamente absurdos para Portugal.

Anónimo disse...

Quanto vale para si uma educadora de infância em topo de carreira, Paulo Santos? Essa é que é a questão fundamental.
100 €? 500 €? 1000€?

Uma educadora de infância vale mais ou menos do que um jornalista? Mais ou menos do que um polícia? Mais ou menos do que um médico? Mais ou menos do que um professor de economia da nova? Mais ou menos do que um varredor de ruas? Mais ou menos do que o Mexia? Mais ou menos do que o Paulo Santos?

Para mim, isso é que é importante saber. Que é contra os funcionários públicos, já sabemos. Mas diga quanto vale para si uma educadora de infância, por favor!

Francisco Faure

Fernando Martins disse...

Paulo Santos, o conhecimento e a objectividade que demonstras na "análise" daquilo que é o "público", por oposição ao "privado", é, como diria, risível?!

Paulo Santos disse...

Francisco Faure, vale o que as outras pessoas estiverem voluntariamente dispostas a pagar pelo seu trabalho.

Qual é exactamente a dúvida? O que sabemos é que NÃO vale 3364 Euros/mês, e que tirar esse dinheiro à população por esse serviço, é equivalente a vender torneiras de 500 euros, por 1000, ao Estado.

Francisco, eu SOU objectivo. O que eu digo, eu fundamento-o. Quem provavelmente não é objectivo, é o Francisco, a julgar pela sua resposta.

O Francisco acha bem colocar a população Portuguesa a pagar educadoras de infância a 3364 euros? Sim ou não?

Paulo Santos disse...

Francisco, não, Fernando.

Paulo Santos disse...

Fernando, de resto é óbvio porque é que não é objectivo - está a advogar em causa própria.

Mas, consegue dizer "with a straight face" que uma educadora de infância em Portugal tem que custar à generalidade da população, 3364 euros/mês?

Acha isso JUSTO? Ou não importa se é justo porque a população é um monte de otários que paga o que tiver que pagar?

Anónimo disse...

O vencimento máximo (líquido) que um professor no topo da carreira dos ensinos básico e secundário aufere é +/- 2000 Euros. Os actuais professores, já em topo de carreira como o meu caso, ganharam ordenados verdadeiramente miseráveis durante a maior parte dos seus trintas e tais anos de trabalho.

Neste momento estima-se que mais de 1/4 dos professores exerce funções a contrato. Com horário completo, licenciados e profissionalizados, vencem 1000 Euros. Estão deslocados das suas regiões. A maioria é materialmente mantida pelos seus familiares (pais ou conjuges)

A.

Paulo Santos disse...

Os 3364 euros são brutos. A média das reformas dos professores até o final do secundário anda nos 2300-2500. Quando dará líquido um salário de final de carreira, não fiz as contas. A generalidade das comparações internacionais fazem-se com salários brutos.

Anónimo disse...

O Paulo Santos faz o quê e quanto recebe? ... só para saber se estou disposta, enquanto sociedade, a pagar pelo seu trabalho.

Joaquina Maria Abundância no Presépio

Paulo Santos disse...

Joaquina, faço uma série de coisas e tudo o que recebo é-me pago voluntariamente. Não tenho necessidade que a Joaquina esteja disposta a pagar pelo meu trabalho, e desconfio que a Joaquina não compreendeu o alcance daquilo que é dito.

Existem educadoras de infância fora do Estado, que fazem o seu trabalho tão bem quanto as que trabalham no Estado. A Joaquina sabe tão bem como eu, que os seus salários - estabelecidos livremente - são substancialmente inferiores no topo de carreira (já nem falo na restante carreira). As pessoas que vendem o seu trabalho nessas condições NÃO DEVEM ser forçadas a serem obrigadas a comprar o trabalho dos outros a níveis anti-económicos.

imank disse...

É absolutamente delirante o apregoado e repetido até à exaustão, seguindo o preceito atribuído a Goebbels acerca da repetição da mentira até ela se tornar "verdade", montante do salário da "Educadora de Infância" em fim de carreira; "esquece-se" de mencionar que esse "balúrdio", os tais mais de três mil euros, não é o que ela "leva para casa", mas o VENCIMENTO BRUTO; o líquido anda pelos dois mil, isto, claro, ao fim de mais de trinta anos de serviço. E agora, com as medidas de "salvação" nacional impostas pelos mesmos que provocaram o naufrágio e com o agravamento da taxa do IRS, aos "ricos fiscais", que em Portugal estão, como é consabido, muito longe de ser os "ricos reais", nem tal vai "levar para a casa", vai ver o salário líquido, o único que lhe importa considerar, diminuído. É só ser intelectualmente honesto e fazer as contas.