Quinta-feira, 13 de Maio de 2010

«A notícia da minha morte é um pouco exagerada»

Nós estamos num estado comparável somente à Grécia: mesma pobreza, mesma indignidade política, mesma trapalhada económica, mesmo abaixamento de caracteres, mesma decadência de espírito. Nos livros estrangeiros, nas revistas quando se fala num país caótico e que pela sua decadência progressiva, poderá vir a ser riscado do mapa da Europa, citam-se a par, a Grécia e Portugal.

Eça de Queiros, As Farpas, 1872.

Agradecendo a Dalila Carvalho, que me deu a conhecer esta citação.

4 comentários:

roskoff disse...

bom as farpas tem outros comentários semelhantes quanto á nossa fraqueza e comparando-nos a outros países e povos que devem ser riscados do mapa...
portanto esta será apenas uma coincidência

desde o babadé dos soldados indigenas na india portuguesa...

"o agricultor moderno, inteligente,..começa a aparecer no Douro...(mais 19 adjectivos verbos e particulas de ligação).....contra o desleixo excelso dos nossos antepassados"

assim as farpas estão cheias de diatribes que ora elogiam uns e farpeiam o governo e por vezes a ignorância fonte de todos os males

"as obras abandonadas pela incúria oficial, pelo desleixo governativo ,pela estupidez do Estado"

assim quase tudo se pode encontrar nos muitos volumes de Ramalho e secundáriamente Eça

há até um capítulo num dos fascículos originais creio existir no volume V ou Vi das edições posteriores sobre a mania das grandezas e a melomania doenças hereditárias na ou da sociedade Portuga...
por isso citar tais portentos como profetas do futuro se foi isso que pretendeu com o post...é como utilizar o horóscopo

Zé Luís disse...

O Eça sabia tudo. Ainda fantástico e sempre actual.

Manuel Brás disse...

Palavras sábias...

São tantas as farpas certeiras
que há muito foram riscadas,
com todas as nossas besteiras
de medidas putrificadas.

Com a mesma decadência,
desde séculos passados,
instamos na imprudência
de enganos repassados.

roskoff disse...

e se queria farpas estas eram melhores para o que pretende

"O país perdeu a inteligência e a consciência moral.Os costumes estão dissolvidos,as consciências em debandada,os carácteres corrompidos.A práctica da vida tem por única direcção a conveniência.Não há príncipio que não seja desmentido.Não há instituição que não seja escarnecida.Ninguém se respeita.Não há nenhuma solidariedade entre os cidadãos.Ninguém crê na honestidade dos homens públicos.
Alguns agiotas felizes exploram-nos
.A classe média abate-se progressivamente na imbecilidade e na inércia.O povo está na miséria.Os serviços públicos são abandonados a uma rotina dormente.

Vivemos todos ao acaso.Perfeita,absoluta indiferença de cima abaixo

.O tédio invadiu todas as almas.A mocidade arrasta-se envelhecida das mesas das secretárias para as mesas dos cafés.A ruína económica cresce,cresce,cresce.As quebras sucedem-se.O pequeno comércio definha.A indústria enfraquece.A sorte dos operários é lamentável.O salário diminui.A renda também diminui.
O Estado é considerado na sua acção fiscal como um ladrão e tratado como um inimigo. Neste salve-se quem puder a burguesia proprietária de casas explora o aluguer.

A agiotagem explora o lucro.
A ignorância pesa sobre o povo como uma fatalidade.O número das escolas só por si é dramático.O professor é um empregado de eleições.A população dos campos,vivendo em casebres ignóbeis,sustentando-se de sardinhas e de vinho,trabalhando para o imposto por meio de uma agricultura decadente,puxa uma vida miserável,sacudida pela penhora;a população ignorante,entorpecida,de toda a vitalidade humana conserva únicamente um egoísmo feroz e uma devoção automática. No entanto a intriga política alastra-se.O país vive numa sonolência enfastiada.Apenas a devoção insciente perturba o silêncio da opinião com padre-nossos maquinais. Não é uma existência,é uma expiação. A certeza deste rebaixamento invadiu todas as consciências. Diz-se por toda a parte:o país está perdido!Ninguém se ilude.Diz-se nos conselhos de ministros e nas estalagens.E que se faz?Atesta-se,conversando e jogando o voltarete que de norte a sul,no Estado,na economia,no moral,o país está desorganizado-e pede-se conhaque! Assim todas as consciências certificam a podridão;mas todos os temperamentos se dão bem na podridão" acho na verdade que este seria mais enquadrado nesta realidade