Estamos em 2011. O mandato de Cavaco Silva está a chegar ao fim. Nunca se pensou que o último ano presidencial fosse tão dramático. Dez anos depois de Cavaco publicar o seu famoso artigo sobre o "monstro", a despesa pública continuou a crescer e a devorar tudo à sua volta.
Quase até ao fim, o primeiro-ministro Sócrates negava a gravidade da situação. Na véspera de ser substituído por um governo de iniciativa presidencial, falava de "ataques especulativos sem fundamento", esquecendo a fragilidade da economia, estagnada há mais de uma década, e com graves problemas estruturais. Como a economia não gerava riqueza suficiente para suportar a despesa pública (mais de metade do PIB), contraímos novos empréstimos para pagar os anteriores. Apesar dos alertas sobre o endividamento externo, défice após défice, vivíamos acima das nossas possibilidades, aproveitando o crédito com juros baixos.
De repente tudo mudou. A implosão da Grécia contagiou de medo toda a zona Euro. A crise grega transformou-se numa crise da dívida soberana europeia. Portugal foi apenas mais uma peça do dominó grego. Depois de cortes sucessivos no rating, os juros que teríamos de pagar para nos refinanciarmos eram incomportáveis. Quando os mercados perceberam isso o colapso tornou-se inevitável. De um dia para o outro deixaram de nos emprestar dinheiro. Tornámo-nos insolventes um dia antes de Espanha e dez dias depois da Grécia. De pouco serviu o fundo de emergência milionário criado pela UE/FMI, com a bênção de Obama e de Merkel.
De repente tudo mudou. A implosão da Grécia contagiou de medo toda a zona Euro. A crise grega transformou-se numa crise da dívida soberana europeia. Portugal foi apenas mais uma peça do dominó grego. Depois de cortes sucessivos no rating, os juros que teríamos de pagar para nos refinanciarmos eram incomportáveis. Quando os mercados perceberam isso o colapso tornou-se inevitável. De um dia para o outro deixaram de nos emprestar dinheiro. Tornámo-nos insolventes um dia antes de Espanha e dez dias depois da Grécia. De pouco serviu o fundo de emergência milionário criado pela UE/FMI, com a bênção de Obama e de Merkel.
Para estancar a fuga de capitais, foi aprovada uma lei que congela as contas e restringe os levantamentos em dinheiro, inclusive dos multibancos. O desemprego disparou, apesar da emigração de muitos jovens para Angola e para o Brasil. Os empregos na indústria e na construção civil diminuíram. Teme-se uma recessão prolongada. Já houve tumultos nas ruas e está marcada a terceira greve geral contra a descida dos salários e o pagamento do 13º mês em títulos do tesouro, não vendáveis durante seis anos.
Desde o início de 2011, que somos administrados pelo FMI, sob observação da Alemanha, que impôs medidas severas para nos emprestar dinheiro. O fim da independência financeira está a abalar o nosso sistema político, acentuando o teor presidencialista. As regras do sistema monetário europeu foram alteradas. O Tratado de Lisboa prevê prevê a expulsão do Euro para os países com défices excessivos. Aprendemos da pior maneira que a soberania de um estado é tanto maior quanto melhor estiverem a sua economia e as suas contas públicas.
Desde o início de 2011, que somos administrados pelo FMI, sob observação da Alemanha, que impôs medidas severas para nos emprestar dinheiro. O fim da independência financeira está a abalar o nosso sistema político, acentuando o teor presidencialista. As regras do sistema monetário europeu foram alteradas. O Tratado de Lisboa prevê prevê a expulsão do Euro para os países com défices excessivos. Aprendemos da pior maneira que a soberania de um estado é tanto maior quanto melhor estiverem a sua economia e as suas contas públicas.
Nota: Com este cenário futurista vou ser acusado por alguns de pessimismo. Espero sinceramente que tenham razão. Que Portugal consiga controlar o seu défice e a dívida externa. E que o fundo de emergência de 750 mil milhões anunciado no Domingo pela UE/FMI acalme os mercados.


12 comentários:
Vejo que não é só a dupla Morgado-Costa a carregar as tintas neste blogue.
Apesar da situação ser grave, não nos deixarão cair sobretudo por causa das consequências que isso teria para toda a zona Euro.
Espero bem que tenha razão.
As medidas impostas ao governo português este domingo para diminuir o défice já no curto-prazo são um exemplo de que estamos a perder cada vez mais soberania financeira, o que pode não ser mau devido à míopia dos governantes nacionais.
"estamos a perder cada vez mais soberania financeira"
Não há genuína soberania financeira quando se vive à custa de dinheiro que nos é emprestado.
Isto tanto é verdade para um país como para um indivíduo.
Luís Lavoura
Essa do estancar as fugas de capitais congelando as contas bancárias parece-me disparatada. Para estancar as fugas de capitais o que se faz é impedir as transações bancárias com o estrangeiro. As pessoas não fogem para o estrangeiro, tipicamente, com o capital no bolso: enviam-no para o estrangeiro através de uma transação puramente bancária.
Note-se que até há uns 30 anos atrás, de facto, as transações de capitais com o estrangeiro eram restringidas pelo Estado. Por exemplo, os meus pais, que eram assinantes de uma revista estrangeira, todos os anos tinham que apresentar um pedido especial, e justificado, para poderem ter um cheque em moeda estrangeira com o qual pagar a assinatura. No entanto, isso não exigia, de forma nenhuma, limitar o acesso às contas bancárias.
Congelar as contas bancárias seria útil, isso sim, se pretendêssemos abandonar o euro. Aí sim, congelava-se totalmente as contas bancárias durante uns dias, enquanto se imprimiam novas notas de banco na nova moeda.
Luís Lavoura
Cavaco Silva: "Portugal recebe o papa no meio de interteza." Quase anedotico como medida do zeitgeist: eis como a velha incerteza do ultimo julgamento se ve transformada em incerteza fiscal. E cavaco, na sua extraordinaria ignorancia, metafisicamente desastrado...
Não percebo como haverá aumento de desemprego na indústria. Tirando, de facto, as indústrias parasitárias como a construção civil (que deveria ser classificada como serviços!), a indústria propriamente dita muito provavelmente prosperaria. O salário mínimo ira provavelmente ser abolido e existiria uma baixa generalizada no custo de mão-de-obra nas indústrias intensivas, com um aumento da competitividade.
Problemas financeiros em Portugal? Nem por sombras! E como é que se pode falar em tal coisa ainda não decorrida uma semana desde que se assinou o contrato para a ligação de TGV Poceirão - Madrid? A tal ligação cujos "estudos"* asseguram uma procura de 9,4 milhões de passageiros/ano, uma pequena insignificância se atentarmos à enorme metrópole que representa o Poceirão e os seus subúrbios.
Com Sócrates incompetente e convencido e Cavaco Silva sem dinâmica nenhuma de mudança, não tenha ilusões. Não é pessimismo, é realismo. Isto vai ser um desastre total e não demora.
Acrescento algo: para o Sr.Pinto de Sousa apressar a assinatura do contrato do TGV é porque de certeza absoluta soube de algo muito grave que nós ainda desconhecemos e que o impediria de avançar de todo. Brevemente veremos se é assim ou não.
Não perceberam que se o "Fundo de salvação do Euro" for cumprido quer dizer que vamos todos ao fundo. A primeira coisa a acontecer é o rating da Alemanha ir por aí abaixo.
lucklucky
Não sei se já perceberam mas:
a- O Sr. Pinto de Sousa está nas últimas e com o TGV garante o seu sustento nas próximas décadas. Haverá certamente alguma alma caridosa que se lembrará desse tão nobre gesto...
b-De caminho atira-se para debaixo das rodas do camião, para ver se é mesmo atropelado politicamente e se o livram deste peso da governação.
AD
Agradeço os comentários. Estou para ver que medidas são apresentadas no CM desta 5.ª, talvez ainda se vá a tempo de evitar o COLAPSO de que falo no meu post.
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