Segunda-feira, 3 de Maio de 2010

A esquerda está muito baralhada

Hoje o Financial Times brinda os seus leitores com uma análise muito lúcida de um dos seus principais colunistas, Wolfgang Münchau, outrora crente nas virtudes da «Europa», hoje com a fé abalada. Integrar ou desintegrar é o seu título. Coligi uns quantos excertos que me parecem de leitura recomendável a um público mais vasto do que os familiarizados com o economês.

O principal objectivo do pacote de resgate acordado para a Grécia não pode ser concebido como sendo evitar o incumprimento. (...) os números não chegam. O principal propósito que consigo detectar é a inversão do crescimento na rendibilidade das obrigações gregas e o estancamento do contágio.

A decisão de retirar a Grécia dos mercados de capitais durante três anos evitará a ruína imediata, mas terá um impacto apenas marginal na sua solvência futura.

Se a solvência de um Estado está em dúvida, também o está a dos seus bancos, cujo passivo é garantido pelo Governo. Na semana passada, o sector bancário, em porções consideráveis do Sul da Europa, esteve, de facto, cortado dos mercados de capitais.

Angela Merkel e os seus conselheiros económicos inexperientes não têm qualquer ideia sobre a dinâmica da crise
[da dívida] soberana. Nunca se deram ao trabalho de olhar para a experiência de outros países, designadamente a Argentina.

Qual é, então, o cenário final da crise múltipla na zona euro? Para a Grécia, a restruturação da dívida, um termo polido para dizer incumprimento acordado. O resultado mais amplo é difícil de predizer: ou uma reforma profunda do sistema, ou a sua ruptura.

Há apenas um comentário que me ocorre: «a reforma profunda do sistema» - quaisquer que viessem a ser os seus contornos, implicaria um radical cerceamento dos mecanismos de soberania ainda residentes nos Estados-membros. A esquerda está profundamente baralhada. Reclama essa reforma e não se cansa de delirar com as suas virtudes. Não percebe o quanto a indepenência e a democracia, que supõe um povo e um modo de ele se autogovernar, estão em causa nas reclamações que faz. De nada lhe vale a retórica anti-imperialista. Quer mais Europa, mais Europa, mais Europa, e não lhe entra pelos olhos a evidência de que, fora os clichés vazios, a Europa é um conjunto de Estados, de nações, de casos, de histórias, de identidades, umas mais poderosas do que outras, em grande parte devido à sua dimensão e pujança económica. De facto, por detrás de tanta vontade de Europa, a esquerda sonha com a revogação das leis da economia e do espaço gravitacional, chamemos-lhe assim, onde o poder económico se exprime, forçosamente, como poder político. Vendo bem, a esquerda «europeista» não percebe já sequer a natureza do poder político, que há muito dissolveu numa espécie de moral abstacta, sem agentes nem responsabilides particulares - numa espécie de enfrentamento, onde a um bem desencarnado está prometido o triunfo sobre o mal, que é quase tudo o que houve e há de real. Uma gnose moderna, em suma.

8 comentários:

Crocker disse...

Será que Raul Castro quer dar uma ajudinha a esta esquerda baralhada? A divulgar. O que é que isto tem a ver com Portugal? Continuem a assobiar para o lado e não tentem ver a realidade.

http://www.elpais.com/articulo/internacional/Cuba/debe/despedir/millon/empleados/estatales/elpepuint/20100501elpepiint_6/Tes

Crocker disse...

Será que Raul Castro quer dar uma ajudinha a esta esquerda baralhada? A divulgar. O que é que isto tem a ver com Portugal? Continuem a assobiar para o lado e não tentem ver a realidade.
http://tinyurl.com/33exa4u

Anónimo disse...

As analises deste blogue sao sem duvida do mais incoerente que se pode imaginar. Este texto do Munchau mostra bem como as obras publicas nao sao sequer um factor nesta crise, e no entanto, por nao saber mais, e tudo de que fala este blogue. Outras analises misturam a defesa da racionalidade economica e da soberania historica das nacoes europeias, dois argumentos completamente as avessas e que no entanto aparecem, como nest post, combinados na mesma frase!

Paulo Santos disse...

Anónimo,

As obras públicas não serão decisivas, porque mesmo que não avancem, não resolvem o problema.

Porém, as obras públicas não serem decisivas, não significa que não agravem o problema se avançarem, porque agravam.

(e daí a dizer que não são um factor, vai uma grande diferença. Produzem despesa pública actual e futura, são um factor. Tudo aquilo onde se gaste dinheiro é um factor, menor ou maior)

Anónimo disse...

Talvez nas contas de uma mercearia o raciocinio faca sentido. Mas claramente aqui nao. Eu penso claro que ha muito melhores maneiras de gastar o dinheiro, mas os problemas de credito do pais nao sao esses, nao sao um aeroporto e uma linha de comboio, meu deus.
Os problemas sao:
- divida privada externa fora de controlo, muito suprior a divida publica: o estado portugues e na pratica o garante desta divida, pois garante os depositos nas instituicoes financeiras
- responsabilidades do estado social fora de controlo, num pais que envelhece e emigra todos os dias e onde o desemprego vai subir.
- absolutamente nenhumas perspctivas de crescimento e por isso as piores perspectivas para a receita fiscal e para a reducao da divida privada
- um sistema politico incapaz de libertar a economia
- uma economia tao dependente do estado que se afigura provavel que todas a causas acima se agravem no momento em que a despesa publica seja cortada. Comecar pelo fim, por estes cortes, vai ser desastroso.

Paulo Santos disse...

O dinheiro é fungível, despesa é despesa (e nesse aspecto as obras públicas até são mais fáceis de cortar que outro tipo de despesas).

Apesar de as obras públicas serem investimento, estes em particular (TGV, Aeroporto) não são nem reprodutivos, nem particularmente necessários (pois só melhoram algo que já existe).

Ninguém está a dizer que as obras públicas em questão são o cerne de todos os problemas.

Paulo Santos disse...

(nota, eu concordo com os problemas listados)

Anónimo disse...

Anónimo, deve estar a confundir com outros blogues que têm analisado esta crise. Como leitora do Cachimbo de Magritte encontro aqui referências aos vários aspectos que v. refere Náo tenho lido muitos posts sobre obras públicas.

Ana