Há quem vaticine o recuo da integração europeia como resultado da crise financeira que a margem sul da Europa vive actualmente. Mas se há algo que os últimos 30 anos indicam é que há qualquer coisa de auto-propulsionado na centralização do poder na União Europeia. Os impasses aparentes convertem-se sempre em novos passos em frente. Por isso, talvez seja mais seguro prever que desta crise financeira resultará mais federalismo, mais centralização, menos autonomia dos Estados-membros. Um exemplo: os economistas sempre avisaram que sem centralização fiscal, a União Monetária vacilaria diante de um grande choque. Não obstante, fez-se a dita união sem federalismo fiscal. Agora, os europeístas mais convictos têm a oportunidade e o trunfo de que precisavam. Chama-se Grécia/Portugal. É a oportunidade para criar um orçamento europeu digno desse nome, com imposto europeu à mistura. É a ocasião para justificar sobretudo a desinibida ingerência política e económica nos Estados que não sabem comportar-se. Doravante todos os que desconfiarem da centralização do poder europeu e do federalismo estarão condenados a jogar à defesa. Afinal, não ficou demonstrado que de outro modo as integrações económicas se tornam disfuncionais?
E Portugal? Até meados dos anos 90, Portugal sonhou com a "convergência real". Era uma questão de tempo até sermos como "eles". Longe de ser uma miragem, era uma matéria concreta e até quantificável. Depois, veio o euro. No início, todos pensaram que o euro era precisamente a confirmação de que estávamos muito perto de nos confundirmos com "eles". Fosse por causa de uma taxa de câmbio excessivamente apreciada, fosse devido à nossa proverbial indisponibilidade para viver com regras disciplinadoras que uma união monetária impõe, o certo é que o euro foi o ponto de viragem nas nossas ilusões. A apreciação real que a nossa economia sofreu desfez todas as fantasias. "Eles" acabaram por ficar cada vez mais distantes. Nós por cá, frustrados pela pobreza, pela estagnação infindável, talvez até enfeitiçados por uma resignação fatalista, sentimo-nos mais e mais seduzidos pela ideia de nos tornarmos numa colónia do Norte. Sem grandes entusiasmos, é verdade, e arrastando os pés.
Diante da alternativa que seria sempre custosa e morosa (basta pensar nos longos 15 anos que a paciente e disciplinada Alemanha demorou a corrigir os seus desequilíbrios), este destino aparece como razoável. Nem o sorriso trocista do Norte nos dissuade, nem o desastre que o projecto anuncia nos demove. O medo do futuro justifica muita coisa.
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9 comentários:
Ninguém perguntou ao Nojeira o que pensa destes problemas. Não vale a pena, porque ele ainda não sabe bem o que quer deixar. O outro é existencialista, por isso também não vale a maçada.
Tudo isto é uma grande maçada para quem só quer chegar ao poder para distribuir lugares pelos Ruas das rotundas e os Relvas das baldas.
Pois é... Mas o problema é dos governantes e dos povos destes paíse. Sabiam que a Grécia comprou 51 caças de combate entre 2005-2009 e neste período é um dos 10 maiores compradores de armamento do mundo? Sabemos que existe a Turquia, mas mesmo assim... Realizou os jogos olímpicos sozinha e inaugurou o novo aeroporto de Atenas mais caro do que o nosso. Quem não tem dinheiro não tem vícios destes. Por causa desses senhores estamos já a pagar juros mais altos, não é a Alemanha. Se não fossem os paísese do Norte e os malandros dos especuladores eles continuavam...
Seria bom que pagássemos juros ainda mais altos. Seria altura de acabar com o endividamento. Mas parece que 99% quer continuar por esse caminho. Adiante.
O centrão em Portugal sempre quis ser colonizado e fazer de capataz para um eventual Chefe. A posição intermédia seja em política ou numa organização tende sempre a ser a mais confortável.
Por isso a partir do fim dos anos 70 o centrão tratou de se procurar um álibi. Um Salazar simpático e não violento que pudesse ficar com as culpas quando surgisse um baixo que seria aliás coisa momentânea porque os poderosos tudo controlam e nunca perdem.
A Europa nunca foi vista como algo que nos desse liberdade de dizer não. Porque a liberdade é principalmente isso, poder dizer não.
Ou de escolha que é outra forma de dizer não.
O que nós quisemos foi pertencer a um clube de ricos e por fazermos o que eles nos dissessem que estava certo e talvez por mimetismo ficaríamos tão prósperos como eles.
lucklucky
Nós queríamos ser como eles, mas sem fazer como eles. Há 20 anos quem não acreditava porque conhecia o povo a que pertencia era de imediato carimbado como "euro-pessimista".
O Estado-Nação ficou irremediavelmente doente após a IIª Guerra Mundial - de resto, a europeização (pelo totalitarismo) era o projecto de Hitler.
O grande direito, entre os direitos humanos, é o "direito de residir" (Arendt).
Os direitos humanos eram conhecidos das nações, mas faltava o reconhecimento de direitos iguais às minorias étnicas ou às minorias sem solo (como os judeus, por isso os mais frágeis e aptos ao extermínio).
Os EUA, a grande nação federal, é uma criação europeia e criação das "luzes"; na Europa, ninguém prognostica a federação, mas a confederação existe já.
E é óbvio que, para o esclarecimento do que é verdadeiramente a soberania, nos dias de hoje, convinha que essa confederação aprofundasse e clarificasse ainda mais os seus verdadeiros domínios e a sua margem de consenso.
J.M.
Excelente, Miguel.
Deve ser também o medo do futuro que te levou a não comentar o resultado das eleições no PSD. No cachimbo houve duas versões, mas todos os militantes deram a cara. Parece que o Nojeira quer guilhotinar os rapazes que lideram a corrente Fox news que idolatra Pacheco... Perigoso.
Abençoada união política que teima em não chegar.
Que venha quanto antes e já vem tarde.
Precisamos de mais países não de menos. A Europa trará a Tirania. Na menos má das hipóteses será a Tirania Democratica que destruirá a Democracia a prazo.
lucklucky
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