Não vi o debate de ontem, na RTP, entre os candidatos à liderança laranja, mas se o resumo no telejornal da 2 espelha o que se passou, então compreende-se que os eleitores ainda não vejam o PSD como alternativa ao comatoso PS. O Alexandre tem razão: não ouvi discutir uma única ideia para o país. Talvez o resumo seja infiel e injusto, mas parece-me que tudo andou à volta da votação do PEC, ou não, da demissão do PGR, ou não, da moção de censura, ou não, e dos números de circo de Aguiar-Branco. Sobre os problemas reais do país, só o tiro no escuro de Passos Coelho, que nos explicará como reduzir o défice sem aumentar impostos depois de um grupo de sábios lá no Olimpo fazer as contas. Suponho que as contas ainda não estejam feitas porque o Dr. Jekill passa o tempo no twitter, mas Passos não o diz na carta enviada há dias aos militantes pedindo "que lhe confiem o seu voto" (sic, a bold, não vá alguém esquecer-se de ter fé no messias) porque passou os últimos dois anos a "trabalhar, estudar, conhecer melhor, debater e preparar-se" (sic, a bold, não vá alguém etc.). Está à vista. Aliás, Passos mostrou a sua fibra de estadista quando, acusado por Rangel de ter estado ao lado do Governo em diversas ocasiões (além de trabalhar e estudar, acrescento), fez cara de mau e lhe atirou com um "Mas como é que diz isso sem se rir?". Momento alto do debate, sem dúvida. Por todo o país, as tascas levantaram-se em aplausos delirantes ao sofisticado argumento. Entretanto, Aguiar-Branco resolveu acabar com as ilusões que eu ainda tinha sobre ele. Quis vingar-se de Rangel e irritou-o, mas à custa de uma notícia que Rangel desmentiu. Insistiu na vitimização (que continua hoje através de um email aos militantes sobre uma "campanha" para acabar com a sua candidatura, uma acusação gravíssima ao Conselho de Jurisdição Nacional a reboque da saga das assinaturas do último fim-de-semana; sempre quero ver como é que isto acaba: ou Aguiar-Branco tem provas do que afirma e obriga Morais Sarmento a demitir-se, ou não tem provas e está a dar um tristíssimo espectáculo). Atirou-se a Passos Coelho com a exigência de uma declaração de apoio à recandidatura de Cavaco a Belém, e Passos lá disse que sim a saca-rolhas, como se isso fosse uma questão. Se Passos ganhar, não tem outra saída. Aguiar-Branco sabe-o, mas vinha com a coisa na manga para clamar vitória. Que lhe faça bom proveito: suspeito que seja a última.
Rangel confirmou as razões pelas quais votarei nele, mas deixou-se enredar no debate. Ainda procura o tom certo. É um bom tribuno, mas reage mal sob pressão. Se a rábula de Aguiar-Branco é uma falsidade, só há uma resposta possível: dizer-lhe nos olhos que está a mentir. Rangel não o fez. Sempre apoiei Manuela Ferreira Leite, apesar de tudo o que correu mal, porque para ela uma mentira é uma mentira. E di-lo. Perdeu eleições assim? Pois, mas deixa saudades.


19 comentários:
O Pedro diz que Rangel desmentiu a notícia, provavelmente porque não viu o debate (sem ironia).
Rangel não desmentiu a notícia, e disse-o expressamente (que não desmentia, pois não tinha que desmentir notícias, quando a verdade é que me lembro de ter desmentido anteriormente duas notícias: a de que tinha despedido a assessoria de imagem que com ele foi alegado trabalhar e a de que tinha um call-center).
Tenho muito respeito por Rangel e por Aguiar-Branco, mas a verdade foi esta.
Por outro lado, acho difícil de provar uma actuação menos correcta de Morais Sarmento, pelo que Aguiar-Branco poderá dela suspeitar, mesmo fundadamente, mas terá muita dificuldade em provaá-la. E essa dficuldade de prova não me parece dever impedi-lo de mostrar estar disso convencido, por um conjunto de indícios, mesmo que insuficientes para constituírem uma prova inequívoca.
Declaração de interesses: não sou do psd e conheço AB e Rangel há mais de 15 anos. E só escrevo anonimamente para não afectar negativamente qualquer deles que, como disse, admiro. Faço-o, portanto, de boa-fé.
A notícia, fui confirmar, cita por fonte "a candidatura de Rangel" e não o próprio Rangel. Há uma diferença, bem sei que elástica, mas Rangel distancia-se. Insistir na questão depois de Rangel dizer claramente que não quis verificar assinaturas nenhumas é um número de circo.
Sim.
Também me parece que terá sido isso que aconteceu: alguém da candidatura de Rangel fez saír a notícia e não o próprio Rangel, que depois se quis distanciar, mas não pôde desmentir a notícia (que havia saído da sua candidatura).
No entanto, discordo que se possa desresponsabilizar completamente Rangel por actos menos corectos de membros da sua candidatura. Porventura Rangel não será pessoalmente responsável, mas não me parece que deva levar a mal que se questione os actos de membros da sua candidatura.
Claro que o equilíbrio da questão é difícil...e nestes momentos de tensão é natural existirem exageros de parte a parte...
Picoito em momento de delírio ingénuo, quiçá a caminho de Fátima...
Então Rangel ia queimar-se ao ser ele o link directo para a notícia?! Brincamos?! Rangel sabe muito bem como isto se faz...
Pena que Aguiar também sabe e já deve estar vacinado contra as mordidelas e urdiduras do seu ex-secretário de estado.
Passos gozou o espectáculo da bancada...
Agora comecem a pedir a Marcelo que comece a conspirar contra passos, para haver eleições no PSD em menos de 1 ano.
Rangel desmemtiu NO DEBATE a notícia e acusou JPAB de faltar à verdade. Remeteu a sua posição sobre o tema às declarações (duas) que fez no fim de semana e não para um qualquer título de peça de jornal.
Fiquei com a(s) mesma(s) impressões sobre o debate. Muito bom texto.
A caminho de Fátima devias ir tu, anónimo. Só mesmo um milagre te pode dar alguma gramática.
Concordo com o post, foi isso que se passou, tal e qual.
Simplesmente, já me cansa esta coisa de se acusar os políticos de não apresentarem propostas quando os jornalistas se encarregam de os obrigar sistematicamente a pronunciar-se sobre politiquice pura para disfarçarem a sua impreparação para questionar propostas nos vários domínios (economia, justiça, saúde, educação). Esse é o verdadeiro problema do espaço público português. Não é possível fazer política séria se jornalistas e opinion-makers não dominam suficientemente bem os problemas das diferentes áreas de governo para discutirem isso em vez das picardias polítiqueiras dos candidatos. É esse estado de coisas que nos condena a ter um Sócrates ou um Passos Coelho que brilham nesse jogo rasteiro e que não são questionados na sua evidente falta de qualificações para os cargos que ocupam ou virão a ocupar.
Não viu o debate, mas comenta com base numa notícia truncada e manifestamente tendenciosa.
Isso é que é rigor.
Qual notícia truncada? (Isso é que é rigor...) Comento com base no que vi no telejornal da 2, que passou um resumo de cerca de um quarto de hora do debate.
Enquanto Aguiar Branco se preocupa com as suas assinaturas e Passos Coelho com a sua imagem, Portugal afunda-se em mentiras graves sobre economia e finanças, umas atrás das outras. Paulo Rangel está mais moldado para a política do que para a imagem pessoal e estes debates não o beneficiam. É por isso que José Sócrates e Portugal estão onde estão, nós continuamos todos a debater os debates, e os assessores do governo preparam a papinha toda para o PM debitar em cima de quem vier a ser eleito. E ele debita como ninguém. Quando o PSD acordar da ratoeira vai ter o FMI e a culpa ao colo.
deixa saudades sim.
RuiAlmeida
Não foi discutida nenhuma ideia porque Rangel e Aguiar Branco se entretiveram a atacar-se mutuamente e a interromper quem quer que falasse. Como não viu o debate não pode ver que se Passos Coelho não explicou a questão do aumento de impostos foi porque Rangel e Aguiar Branco o interromperam imediatamente não o deixando prosseguir. Veja o debate e verá que assim foi.
Quanto à cara de mau que Passos fez a Rangel só não percebo porque não o fez mais cedo, é que aceitar que alguém nos acuse, para mais de dedinho em riste (quem é que nos faz lembrar?), que pelo facto de pensarmois diferente estamos a colaborar com a oposição ou somos ingénuos é aceitar a socratização do partido. Acresce que, a ser assim, que teria o Rangel e o Pedro Picoito a dizer do papel que a MFL teve dentro do partido antes de chegar oinde queria (à Chefia): apunhalou por diversas e em cruciais ocasiões o Marques Mendes, promoveu o Luís Filipe Meneses à liderança do Partido e, ironia das ironias, veio defender enquanto lider aquilo que criticou a Marques Mendes. A sua declaração de interesses a favor da Senhora revelam efectivamente o acerto da sua posição.
Menos emoção e preconceito e mais racionalidade ajudam a uma melhor tomada de posição e à credibilidade da critica.
O Pedro, não tendo visto em directo, viu o mesmo que eu vi em directo. Rangel disse que não desmentia notícias inventadas pelos jornais. Se o senhor Anónimo e outros não viram isso, a razão é simples. Estão enfeudados, dos ouvidos ao cérebro, às outras candidaturas. O sr. Anónimo ainda por cima é cínico, associar a decisão permissiva e condescendente da comissão de jurisdição a Morais Sarmento, esquecendo os outros membros do orgão como a Assunção Esteves, é prova disso.
E assim, com temas destes, ridiculos e sem qq importância, se destroiem os militantes do PSD. Que tristeza!!
Esperei umas horas para comentar porque quis apurar previamente um dado que aqui avança no seu post. Mas já lá irei no final.
Antes disso, sempre direi, ainda, que o PP pode ver o debate em diferido. Foi o que eu fiz ontem.
Quanto à sua avaliação, e perdoe a expressão, não seja ingénuo... Rangel está muitíssimo mal rodeado, e depois de ter começado tão tristemente esta corrida - sejamos coerentes nos juízos de conduta -, não soube abdicar de travar, ou deixar que os outros travassem Aguiar Branco das piores maneiras. De uma coisa pode estar certo: conhecendo AB, não sabemos da missa a metade.
Por isso mesmo, ele não "tem de se cuidar": é um homem comedido, inteligente e um jurista seguríssimo. Jamais cometeria uma precipitação.
Quanto ao (cito) « email (de AB)aos militantes sobre uma "campanha" para acabar com a sua candidatura» , adorava, sinceramente, que nos revelasse que texto é esse e como soube dele.
É que (contrariamente ao que acontece com a carta de PPC, que confirmo) eu não recebi nenhum, nem muita gente a quem perguntei recebeu uma mensagem electrónica semelhante.
Não o considerando a si capaz de chicana, resta-me desabafar que, em matéria de idoneidade das fontes, esta campanha está mesmo a correr muito mal.
A mensagem de Aguiar Branco foi-me enviada por email, como tantas outras dos três candidatos. Como militante, o meu endereço consta das bases de dados do partido. Terei todo o gosto em reencaminhá-la se me fizer chegar o seu email (pode ser via email do blogue). E não gostei da insinuação.
PP, não fiz qualquer insinuação. Afirmei. Senão não lhe teria pedido a fonte, que por acaso me interessa imenso, como militante que sou.
Faltou dizer o óbvio, aliás. Eu voto no JPAB. E não sou do norte ;)
Não gostei da insinuação de que o email não existe, esclareço.
Quando eu disse isso, não descartara ainda a possibilidade de o facto lhe ter sido relatado. Só percebi que não fora assim no comentário seguinte.
Nota: sempre lhe mandei uma mensagem por email.
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