A propósito de um post que publiquei acerca dos artigos de Alberto Gonçalves, obtive vários tipos de reacções. Uma dessas reacções, a mais interessante de esclarecer e de rebater, é a do Miguel Noronha, que faz os seguintes comentários lá na caixinha:
(a) «Não percebo como é que a opinião do Alberto Gonçalves pode constituir uma ameaça à liberdade ou diversidade. Será que a liberdade ou a diversidade de opiníões já não conta?»;(b) «Tolerar a diversidade não implica um olhar acritico à realidade nem abdicar de valorizá-la segundo a nossa escala de valores. O socialismo é que costuma implicar “entrar na carneirada”».
Julgo que o Miguel terá feito uma leitura precipitada do meu post (talvez incendiada pelos ataques moralistas que alguma esquerda fez aos artigos), embora eu também aceite que poderia ter explicado melhor o meu ponto final sobre o que escreveu Alberto Gonçalves. Tentarei fazê-lo agora, em resposta às duas observações do Miguel.
Não disse, em momento algum do meu texto, que a opinião de Alberto Gonçalves constituía uma ameaça à liberdade ou à diversidade. O que digo no post é somente que Alberto Gonçalves não lida bem com a diversidade, o que me parece manifesto na série de insultos que faz àquilo que desconhece (ou que simplesmente não aprecia), o que é muito diferente do que o Miguel me aponta.
É evidente que ele é livre de ter a opinião que quiser. Contudo, não pode, por um lado, elaborar uma série de manifestações de intolerância e, por outro, pretender que não deve ser qualificado de intolerante. Liberdade e responsabilidade -- ele é livre de escrever o que quiser, mas deve assumir o que escreve. E não é porque todos somos livres de dizer o que queremos que todas as opiniões valem o mesmo e devem ser igualmente respeitadas. [Por exemplo: não podemos impedir um nazi de pensar o que pensa sobre o povo judeu, mas também não podemos considerar que a sua opinião tem o mesmo valor que a dos outros. Este exemplo, que é provavelmente o mais radical, aplica-se a casos menos radicais, i.e. a todas as formas de intolerância para com o ‘outro’].
É a segunda observação do Miguel que me parece mais curiosa, nem que seja porque sugere (subtilmente) que o meu post tem vestígios de socialismo -- nunca ninguém me tinha dito nada assim. Espero que o que acima digo afaste a ideia de que vi na opinião de Alberto Gonçalves algum tipo de perigo à liberdade que devesse ser ‘resolvido’.
É óbvio, como diz o Miguel, que tolerar a diversidade não significa ter um olhar acrítico. Mas há uma enorme diferença entre ter um olhar crítico (demonstra tolerância) e insultar (demonstra intolerância). Dizer que não se aprecia bonés não é igual a dizer que quem usa boné é um cretino. Ou seja, o que Alberto Gonçalves faz não é avaliar a realidade a partir da sua escala de valores, mas meramente um ataque àquilo que não coincide com o seu gosto.
Finalmente, quanto ao socialismo, julgo que uma leitura mais atenta do que eu escrevi, e sobretudo do que escreveu Alberto Gonçalves, será esclarecedora. Ao afirmar que não é imprevisível a morte de um rapper porque ele é diferente, depois de insultar tudo o que caracteriza a sua diferença, Alberto Gonçalves mostra que é a única pessoa que tem dúvidas quanto às vantagens do pluralismo. Julgo que se o Miguel ler com atenção estes dois artigos do Alberto Gonçalves, encontrará lá muitos mais vestígios desse socialismo de que fala.


10 comentários:
Mozart
http://www.youtube.com/watch?v=SHIw-ZfbDSQ
Agora compare-se lá com rap.
lucklucky
Eu também não gosto de rap, mas essa não é a questão.
Por questões de comidade não vou trocar a ordem de algumas frases e agrupa-las de forma diversa do texto original.
1.le é livre de escrever o que quiser, mas deve assumir o que escreve."
Não compreendo esta critica. Onde é que o Alberto deixou de assumit as suas opiniões. Até escreveu um segundo artigo a reafimar a sua posição.
2. "Contudo, não pode, por um lado, elaborar uma série de manifestações de intolerância e, por outro, pretender que não deve ser qualificado de intolerante."
"O que digo no post é somente que Alberto Gonçalves não lida bem com a diversidade"
Todos nós somos intolarantes a várias coisas. Desde a penicilina ao vizinho de cima, ao Primeiro-Ministro ou às intolerâncias alheias. Nada disso será grave a não ser que pretendamos coagir a adoptá-las. Não me parece que tenho sido esse o caso.
Inferir, a partir daquele artigo, que existem um problem mais genérico com uma nebulosa "diversidade" parece-me deveras exagerado.
3. "Finalmente, quanto ao socialismo, julgo que uma leitura mais atenta do que eu escrevi, e sobretudo do que escreveu Alberto Gonçalves, será esclarecedora."
Aquilo não era uma acusação mas meramente uma refutação (algo tosca, admito) do que é dito no último parágrafo do prime. iro posto.
4. "Ao afirmar que não é imprevisível a morte de um rapper porque ele é diferente"
Penso que não será propriamente uma novidade dizer que o hip hop está, em muito casos, ligado a uma sub-cultura que glorifica o crime (e sobretudo) os criminosos e a um estilo de vida marginal (no sentido criminoso do termo). É claro que isto não é genaralizável a todos os estilos de hip hop nem a todos os amantes ou praticantes do género. Não podemos é ignorar que existe. Pelo que li, parece-me que a biografia do dito MC Snake poderia ser um desses casos. Será injusto? Talvez.
5."Julgo que se o Miguel ler com atenção estes dois artigos do Alberto Gonçalves, encontrará lá muitos mais vestígios desse socialismo de que fala.
Gostava que me apontasse onde estão. Eu não consigo encontrar.
6. "E não é porque todos somos livres de dizer o que queremos que todas as opiniões valem o mesmo e devem ser igualmente respeitadas.
Exacto. Mas assim sendo não percebo a razão de tanta caracteres dedicados ao tema.
A propósito do que disse o sr.Gonçalves, já agora, acrescento apenas que as suas observações são próprias de um ignorante. Se dedicasse uns momentos a ouvir e analisar certas bandas de metal talvez pudesse aprender qualquer coisa e não questionar de forma tão veemente a sua estética. Quanto á violência e à misoginia, a segunda é um bocado difícil de entender, até porque mesmo no universo mais "radical" do black metal existem bandas que integram mulheres. Deve estar a fazer confusão com os conjuntos da época de juventude dele (que foi a minha). Mas, como diria Wittgenstein, numa frase de que gosto muito, "acerca do que não podemos falar, devemos manter-nos em silêncio". Neste caso, até podemos falar, mas o sr. Gonçalves perdeu uma boa oportunidade de estar calado. E fez-me lembrar o Herman José, que numa emissão da Roda da Sorte (quando dava na RTP1) recebeu uma carta de um leitor (ainda se escreviam) a propósito da sua hostilidade ao metal e passou parte da emissão a gozar o leitor e o metal, com aquela sobranceria própria dos ignorantes que leram dois livros e ouviram três discos e pensam conhecer a realidade na sua mais profunda dimensão ontológica. Saúde! Harms (do blogue A Cidade do Sossego - entro como anónimo que o bicho diz-me que a minha palavra-passe está incorrecta).
Não se pode simplesmente chamar imbecil ao que é imbecil? Como dizia o outro, um vintém é um vintém. É, ou não é, imbecil a associação do rap ao disparo do policia? Eu acho que ninguém está atentar contra a liberdade de expressão do Alberto Gonçalves, está apenas a comentar-se o texto, a opinião, do Alberto Gonçalves. Qual é o problema? Caramba, morreu um tipo baleado pela policia. O que tem isso a ver com o rap ou o mozart? Ou com a qualidade do rap e a quelidade do mozart? Um gajo tem de ouvir cada uma... posso dizer isto, ou estou a atentar gravemente contra a liberdade de expressão de alguém?
Caro Miguel,
Acho que o que separa as nossas leituras é o que consideramos intolerância. Pelo carácter insultuoso de alguns comentários de Alberto Gonçalves, eu considerei o que escreveu como uma manifestação de intolerância. Aceito que possa ser exagerado o que, depois, concluo sobre o próprio Alberto Gonçalves. E, também, não rejeito que aquilo que considero intolerância não o seja aos olhos de outros.
Obrigado pelos comentários, neste post e no anterior. Um abraço,
"também, não rejeito que aquilo que considero intolerância não o seja aos olhos de outros."
Julgo que o ponto está aí.
O que eu não percebo é que, mesmo admitindo o uso do insulto por parte do AG, isso seja visto como uma forma de intolerância e não algo que simplesmente serve para melhor manifestarmos a nossa opinião, gostos ou aversões. Parace-me que o Alexandre renega o insulto da discussão pública apenas por uma simples questão de forma. Podemos discordar, rebater e achar o outro um imbecil. Será que não o podemos expressar através do insulto(dizendo que é imbecil, que está errado, que não domina o tema, que é pouco sofisticado,etc,etc) porque, assim, estaremos a ser intolerantes? No lo creo.Insultar alguém comporta uma opinião valorativa sobre a pessoa e acerca daquilo que diz ou afirma. Bem fundamentado, o insulto é, pois, uma forma legitima e moralmente valida para se discutir.
ADM
Isto sim, caramba, é aducação. Um novo patamar. Estou deveras e sobremaneira impressionado.
Vossa excelêncioa saiba que considero o que disse intolerante e, quiçá, imbecil, com vosa licença. Mas o que eu acho e digo, vocelência ou outros podem dizer e achar exactamente o contrário. Porque isto, enfim, é tudo relativo. Não quero de maneira nenhuma ser insultuoso para com vossa excelência, note bem, muito embora considere que está no seu direito de insultar, porque, já se sabe, o insulto é uma forma normal e civilizada de expressão de cavalheiros.
Sem mais e com os meu protestos de elevada consideração.
LOL... bom, espero não ter sido insultuoso ou acintoso para com nenhum dos cavalheiros. Queiram ter a fineza de acreditar que nunca tal coisa esteve nos meus propósitos.
Snif snif! parece ninguém apanhou Mozart inspirado por Götz von Berlichingen...
A versão longa em tradução inglesa(via wikipedia):
Lick my ass nicely,
lick it nice and clean,
nice and clean, lick my ass.
That's a greasy desire,
nicely buttered,
like the licking of roast meat, my daily activity.
Three will lick more than two,
come on, just try it,
and lick, lick, lick.
Everybody lick his own ass himself.
Que tal uma versão rap...? :D
Eu até gosto de algum rap mas não o coloco ao mesmo nível. Não tem mistério, não consigo descobrir nada novo ouvindo repetidas vezes.
lucklucky
O caramelo é que tem razão: mas o que interessa o Alberto Gonçalves e o que Homem de Cristo sobre ele? Talvez se devesse aproveitar melhor o tempo. Estes comentários de segunda e esta conversa mole não interessa nem ao Pai Natal. Pelo menos o Lucky ainda fala de Mozart.
Escrevam sobre o que importa. Alberto Gonçalves só existe na rua dele e o Homem de Cristo também. Estas nulidades a alçaram-se e darem-se ares de grande importância é ridículo.Enxerguem-se.
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