Não sei se será exactamente aqui que começa a questão da educação. Tenho visto o debate decorrer essencialmente em duas vertentes, esta colocada no "post", que refere o suposto facilitismo como origem da falta de competências, e a vertente do debate em torno da polaridade público/privado.
Julgo, contudo, que antes de tudo isto importa pensar a própria educação, desde logo começando por esclarecer qual é a idéia de homem, de sociedade, de civilização que subjaz a todo o sistema, matéria e metodologias. Sem ter isto claro todas as reformas são tiros no escuro, sem que se saiba bem o que se atingiu.
Porque podemos considerar, nem que seja academicamente, por virtude do debate, que o facilitismo existe e que é prejudicial em termos de aquisição de competências, podemos ainda, e também academicamente, desde logo porque pessoalmente não estou convencido da validade destas hipóteses, podemos ainda, dizia, em teoria, considerar que a organização do sistema educativo actual, em face de uma justa medida ideal de proporção público/privado, esteja também desiquilibrada, mas, se tudo isto, todos estes equilíbrios e medidas de eficácia for para melhor se aprender sobre gambuzinos, resta, ao fim de tudo, perguntar do valor e da razão dos gambuzinos que com tanta eficácia se quer ensinar nas escolas.
O exemplo é pitoresco, reconheço, mas espero com ele ilustrar que a aproximação à questão da educação está longe de começar pelas questões do facilitismo ou do público/privado. É preciso ir até ao que se tem de tal modo garantido que já há muito deixamos de pensar nisso - o valor da educação que se pretende tornar mais eficaz.
Será que a indisciplina, o desinteresse dos alunos, não resulta também de uma espécie de resistência a uma educação que lhes diz muito pouco? E que, neste caso, público ou privado, não resolve a questão. E que exigir eficácia, aplicação, numa educação que não nos move de modo algum, chega quase a ser uma violência.
O Cachimbo de Magritte é um blogue de comentário político. Ocasionalmente, trata também de coisas sérias.
Sabe que a realidade nem sempre é o que parece.
Não tem uma ideologia e desconfia de ideologias.
Prefere Burke à burqa e Aron aos arianos.
Acredita que Portugal é uma teimosia viável e o 11 de Setembro uma vasta conspiração para Mário Soares aparecer na RTP.
Não quer o poder, mas já está por tudo.
Fuma-se devagar e, ao contrário do que diz o Estado, não provoca impotência.
3 comentários:
Em Portugal…
O nosso sistema escolar
é uma boa caricatura
desta política exemplar
com tanta falta de cultura.
Neste esquema ficcional
do sucesso educativo
revela-se a razão banal
de cunho assaz defectivo.
Aproveito para acrescentar…
Estando bem amarrados
e sem flexibilidade
ficaremos desterrados
da real civilidade.
Mascarados de intrepidez
tapando males disfarçados,
daqui emerge a acidez
de muitos feitos esforçados!
São tantas palavras cansadas
sobre problemas por resolver,
as esperanças reforçadas
de alegrias por devolver.
http://educar.wordpress.com/2010/02/16/os-angulos-errados/
Um excelente texto! Recomendo a leitura.
Ana
Não sei se será exactamente aqui que começa a questão da educação. Tenho visto o debate decorrer essencialmente em duas vertentes, esta colocada no "post", que refere o suposto facilitismo como origem da falta de competências, e a vertente do debate em torno da polaridade público/privado.
Julgo, contudo, que antes de tudo isto importa pensar a própria educação, desde logo começando por esclarecer qual é a idéia de homem, de sociedade, de civilização que subjaz a todo o sistema, matéria e metodologias. Sem ter isto claro todas as reformas são tiros no escuro, sem que se saiba bem o que se atingiu.
Porque podemos considerar, nem que seja academicamente, por virtude do debate, que o facilitismo existe e que é prejudicial em termos de aquisição de competências, podemos ainda, e também academicamente, desde logo porque pessoalmente não estou convencido da validade destas hipóteses, podemos ainda, dizia, em teoria, considerar que a organização do sistema educativo actual, em face de uma justa medida ideal de proporção público/privado, esteja também desiquilibrada, mas, se tudo isto, todos estes equilíbrios e medidas de eficácia for para melhor se aprender sobre gambuzinos, resta, ao fim de tudo, perguntar do valor e da razão dos gambuzinos que com tanta eficácia se quer ensinar nas escolas.
O exemplo é pitoresco, reconheço, mas espero com ele ilustrar que a aproximação à questão da educação está longe de começar pelas questões do facilitismo ou do público/privado. É preciso ir até ao que se tem de tal modo garantido que já há muito deixamos de pensar nisso - o valor da educação que se pretende tornar mais eficaz.
Será que a indisciplina, o desinteresse dos alunos, não resulta também de uma espécie de resistência a uma educação que lhes diz muito pouco? E que, neste caso, público ou privado, não resolve a questão. E que exigir eficácia, aplicação, numa educação que não nos move de modo algum, chega quase a ser uma violência.
João.
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