Quinta-feira, 31 de Dezembro de 2009

Um voto para 2010

Não sei se haverá réplicas metálicas da Torre de Belém. Manuseáveis. Se as houver, só espero que nenhum exaltado se lembre de aplicar uma no primeiro-ministro de Portugal (é assim que os reverentes gostam de se lhe referir). Se tal coisa funesta acontecer, lá teremos de aturar uma insuportável guinchadeira urbi et orbi que só aproveitará a quem nós sabemos.

Veritas adaequatio intellectus ad rem est. AD REM.

Realmente, é adequado.

Venha o diabo e escolha

A FENPROF reagiu à proposta do Ministério da Educação e fez uma lista de 30 correcções. Uma delas, a correspondente ao ponto nº3, propõe que se elimine a prova de ingresso para os que pretendam integrar o sistema educativo enquanto docentes. Ora, a FENPROF terá de explicar como é que, por um lado, se diz a favor de um modelo de avaliação exigente mas justo, e por outro propõe que não se avaliem candidatos a docentes. É que se o modelo de avaliação proposto pelo Ministério da Educação é mau, o modelo pretendido pela FENPROF parece ser pior, pois recusa até o próprio conceito de avaliação.
Após muitos meses de incapacidade em negociar, tanto de um lado como do outro, uma conclusão que se pode retirar deste ano negro para a Educação é que, aconteça o que acontecer, ficaremos sempre pior do que estávamos.

Bom ano


O súbito holofote sobre os credores de governos em apuros está a pôr em evidência um há muito esperado acerto de contas com os investidores que apostaram antes em países agora sob pressão.

E eu com isso?

(...) Investidores como a Balestra Capital Ltd., Hayman Capital Partners LP, North Asset Management LLP e a Pivot Capital Management Ltd. [Hedge funds] têm estado a antecipar esse tipo de estoiros a um ano ou mais, apostando que alguns países vão emergir da crise financeira em bem pior estado do que outros.

So what?

(...) Os investidores estão concentrados nos países que consideram os membros fracos da zona euro: Portugal, Itália, Irlanda, Grécia e Espanha, um grupo a que deram o nome injurioso de «Piigs».

Wall Street Journal, 10 de Dezembro

Que se lixe.

Dia a dia crescem os temores de que a Grécia ou outro país fraco possa entrar em quebra de pagamento das suas obrigações sobre a dívida soberana, forçando os países ricos da Europa a acorrer em seu auxílio ou, alternativamente, assumir o risco de um ou mais dos seus membros mais vulneráveis abandonar a zona euro, de 16 nações.

E eu com isso?

(...) Os refractários nas margens da União - Portugal, Irlanda, Itália, Grécia e Espanha (os chamados Piigs) - vão ter de fazer duras escolhas para lidar com o que parecem ser economias estagnadas, elevado desemprego e fossos orçamentais.

New York Times, 30 de Dezembro (ontem)

Que se lixe.

P.S.: Não há ninguém que explique aos idiotas dos bloguistas oficiais da situação que não há nenhuma comparação possível entre a credilidade e a vulnerabilidade financeira dos grandes da zona euro e arraia dos Piigs? Alguém lá de dentro, enfim, é capaz de haver quem possa... Quero crer.

Este ano não posto mais. Boa noite.

coisas


passos coelho é de enlouquecer.

Discos da década (7)

We Are Scientists - With Love and Squalor (2006)

Viver nas Ruínas

Ontem, na TVI24, como o Fernando já assinalou, participei num debate em que sugeri que no final de 2009 estamos a assistir ao princípio da ruína do "regime". Referia-me sobretudo à delapidação quase completa da autoridade (por contraposição a poder) das instituições políticas e sociais que até hoje asseguraram a ordem e um mínimo de civilização entre nós, à desagregação da sociedade portuguesa, e à notória insustentabilidade da estrutura financeira e económica do País. Se, diante destes problemas, o regime os converte em becos sem saída, isto é, sem soluções, então parece-me que isso significa a ruína do regime.
Os meus colegas de debate manifestaram desconforto com a minha sugestão. Repudiaram o "pessimismo" e relativizaram a gravidade da situação portuguesa. O seu argumento mais poderoso foi o de que não se vislumbra qualquer regime alternativo no horizonte nacional. O que é indubitavelmente verdade, graças à "Europa" e a outras coisas menos dignificantes. A minha resposta foi a seguinte: não é preciso haver uma alternativa de regime para este ruir. As pessoas por vezes vivem nas ruínas. Neste caso, queria dizer que os Portugueses podem estar condenados a viver nas ruínas. E como vivem as pessoas nas ruínas? Desconfortavelmente, em sofrimento, pobres, sem futuro.

Gostava


Dizem que tem futuro. Acredito. Dizem que não está na corrida. Dito por ele, acredito. Mas está à espera de quê? Se dependesse de mim, empurrava-o. Para a corrida. E, no que pudesse, ajudava-o a ganhar.

Bom ano para todos.

Cheap Trick: "I Want You To Want Me"

Quarta-feira, 30 de Dezembro de 2009

Notáveis da Década

Nobel da Literatura - 2001
V. S. Naipaul
Os livros de Naipaul revelam histórias invisíveis, esquecidas, ocultadas pelos efeitos do curso da história.

Nobel da Paz -2002
Jimmy Carter
Nunca se reformou, sempre reconsiderou a sua posição face a novos condicionalismos históricos, sempre com o intuito de evitar conflitos internacionais e promover a democracia e direitos humanos.

Nobel da Literatura - 2003
Maxwell Coetzee
Céptico, escritor matemático, prosa sem artifícios, corajosa, que não evitou polémica ao revelar a violência pos-apartheid no livro «Desgraça».

Nobel da Paz - 2004
Wangari Maathai
Maathai nasceu no Quénia onde se notabilizou na defesa do ambiente com acções tão simples como plantar árvores. Professora universitária e defensora dos mais elementares direitos humanos esteve presa diversas vezes e planta árvores desde 1976.

Nobel da Paz - 2006
Muhammad Yunus
Provou que o acesso ao crédito pode transformar muitas vidas. Antes mesmo de avançar com programas de formação, transporte, registos, papéis, uma pequena quantia de dinheiro pode fazer a diferença. O micro-crédito permitiu a criação de pequenos de negócios em todo o mundo.

Nobel da Literatura - 2006
Orhan Pamuk
A busca da alma dos seus lugares conduziu ao encontro de novos símbolos, cruzamento de culturas e descrição dos contrastes entre Oriente e Ocidente.

Nobel da Economia – 2008
Paul Krugman
Quais os efeitos práticos da globalização e das economias de escala ? Krugman procurou uma resposta.

Nobel da Economia – 2009
Elinor Ostrom
Professora dedicada ao estudo da interacção entre pessoas e recursos naturais. Primeira mulher a receber o Prémio Nobel da Economia.

O Longo Bocejo.

Num debate na TVI 24, que passava há uns minutos nas televisões de assinantes da ZON, vislumbrei o camarada Miguel Morgado, com semblante preocupado, a anunciar uma quase inevitável queda do regime político em que vivemos desde, mais ou menos, 1976. Por mim só posso dizer que ainda é cedo para pré-anunciar o fim do regime. Seja como for, e caso o Miguel tenha razão, devo confessar que nunca pensei que viver, como cidadão anónimo, a desagregação de um regime político pudesse ser uma experiência tão entediante. Aliás, é esta realidade cada vez mais entediante que me faz ter cada vez menos vontade de escrever sobre política. Por isso, e em resumo, posso anunciar que a queda anunciada do regime não passa, para já, de um longo bocejo.

O homem da nossa década


Dele podia restar para a história apenas uma nota de pé de página. Pequenina. Mas não. Ele foi o rosto do Portugal com meio milhão de desempregados (para já), do país estagnado com um crescimento tendencial apontado para o zero, do défice «acima dos 8%» (dados provisórios), da dívida dos 80 ou mais não-sei-quantos-por-cento (lá mais para o Inverno logo se vê, para já não se sabe), da corrupção desenfreada na terra do salve-se-quem-puder, do descrédito galopante das magistraturas, da permanente ingerência e controlo da informação, do beco sem saída da educação, do chico-espertismo da licenciatura ao domingo no poder, da mentira ongoing, do abandono da cultura se não servir para fazer vistaço, da postura irascível a fazer de convicção. E, claro, mais alarmante do que tudo, da reconfirmação no poder com isto tudo sabido ou intuído. Ele foi o rosto do medo nacional, da fuga à verdade, da falência da alternância, da desistência. Do impasse. Ao contrário do que sugerem os seus dedinhos, não são coisas pequeninas, não.

A Década em Presépio


Como será a próxima década?


Será o «acontecimento» da próxima década (se não formos todos pelos ares)? Para já a China já conquistou o confortável estatuto de poder dar-se ao luxo de ser uma das super-potências mundiais da violação dos direitos humanos (em matéria de execuções ultrapassa o Irão e tem a inquestionável liderança), sem incorrer em qualquer problema externo. Aos grandes, o respeitinho recomenda-se. Se é assim, quando o seu PIB se aproxima dos 40% do dos EUA, como será aos 50? E 60? E... depois? Não faz ondas ideológicas, mas joga com elas com sabedoria. O Irão é possível por várias razões, uma delas é o gráfico acima.

Note-se: o que o gráfico nos diz é que em 2010 a China se torna na segunda maior economia do mundo.

Acrescento: não vale a pena estoirar os miolos com alarmes fáceis. Estava bem vivinho e atento quando o Japão, aquela queda a pique, estava do outro lado da montanha, em plena cavalgada. Não é nada certo, segundo o própio The Economist, onde surripiei este gráfico, que com uma economia fortemente viciada em investimento e exportações - vale a pena acrescenter: com uma moeda desvalorizada que cobre o défice de produtividade -, a China não estoire também. Convém, porém, não substimar o tigre. De papel é que não é.

Discos da década (6)

Men Eater - Hellstone (2007)
[grupo português]


Acuidade do ponto de vista esquerdo

Sublinhados meus:

2010

(2:47)

- What is going to happen, Dave?

- Something wonderful.

A ALEGRIA DA UNIFORMIZAÇÃO

A Década na América

Orçamento: não há como dia atrás do outro, com uma noite pelo meio

«Sem surpresas e sem mensagem, o Presidente da República promulgou ontem a segunda alteração ao Orçamento de Estado para 2009, que prevê um aumento de quase cinco mil milhões de euros do limite de endividamento. A promulgação é vista com naturalidade pelos partidos da oposição.»

E em quanto vai ficar o défice deste ano? Não se sabe. A quanto vai montar o stock de dívida? Não se sabe. «O máximo que se sabe é que, como disse o ministro Teixeira dos Santos, o défice público deverá ser superior a 8 por cento em 2009», relata no Público de hoje o melhor jornalista português da área da macroeconomia e finanças públicas, Sérgio Anibal. Quanto superior? Não se sabe.

A coisa parece abstrusa mas não é. Com o Orçamento rectificativo, o Governo obtém - é esse o seu fim - uma autorização para se endividar, este ano, até ao limite de 15.012 milhões de euros, ou seja, cerca de 9,2% do Produto Interno Bruto. Mais coisa menos coisa, os tais mais cinco mil milhões do que estava previsto.

Mas as correcções ao orçamento aprovadas dizem respeito a) apenas ao sub-sector Estado, nada se sabendo do que se passa nos restantes sub-sectores do Sector Público Administrativo (SPA), a saber, institutos públicos, segurança social e autarquias, e b) reflectem apenas meros movimentos de caixa, nada dizendo sobre a evolução da despesa efectiva ocorrida no período, correspondento esta aos compromissos de pagamento, cumpridos ou não.

Resultado: a opacidade é total. E os deputados consentem, e o Presidente também. Um cheque em branco ao Governo. Gastem, que depois logo se vê a quanto monta efectivamente o desastre. Esconde o Governo a sua gestão financeira calamitosa de quem? Das agências de rating? Dos investidores, que vão entrar com a massa para aparar a derrapagem do Governo? Ignora o Governo que, ao contrário dos deputados, os investidores preocupam-se e sabem fazer contas (nesta situação meramente hipotéticas), ou têm quem as faça por eles, mesmo que o Governo esteja apostado em dificultá-las ao máximo, ocultando informação?

Presumo que a resposta do Governo seria: não há como um dia atrás do outro, com uma noite pelo meio.

Terça-feira, 29 de Dezembro de 2009

A década em fotografias, ainda


Noutros slideshows, como o da Reuters, esta é recolhida como uma das fotografias da década. Para ver é ali.

Legenda da Reuters - Majid Kavousifar e Hossein Kavousifar enforcados pelo cabo de uma grua em Teerão. No Irão, o homicídio, o adultério, a violação, o assalto à mão armada, a apostasia e o tráfico de drogas são puníveis com a pena de morte, de acordo com a Sharia, em vigor desde a Revolução Islâmica de 1979. Mas os governos europeus e os grupos ocidentais de direitos humanos têm vindo a criticar o Irão por um número crescente de enforcamentos, desde que as autoridades lançaram uma ofensiva contra o «comportamento imoral». O Irão é o segundo país, a seguir à China, onde se verificam mais execuções. Majid Kavousifar e o seu sobrinho Hossein Kavousifar foram enforcados por terem morto um juiz responsável pela prisão de vários reformistas dissidentes. Foto tirada em 2 de Agosto de 2007, por Morteza Nikoubazl.

E pergunta o leitor, indignado: Mas este tipo não se lembra de nada feliz para recordar? Assim de repente, não.

Jogadores que nunca venceram o prémio FIFA (6)



Enzo Scifo.

Desde que Scifo arrumou as botas, a Bélgica não voltou a calçá-las.

2009 lá fora



O acontecimento internacional do ano foi, na minha opinião, o recente referendo em que a Suíça proibiu, por uma expressiva maioria de 57% de votos, a construção de minaretes. O resultado é motivo de preocupação porque atenta contra um direito fundamental: a liberdade religiosa. Ainda para mais quando não se vê de que modo os minaretes põem em causa outros direitos fundamentais, em concretos os dos suíços não muçulmanos, única razão válida para proibir a sua construção. Que isto se passe em 2009 na Europa, e na democrática confederação helvética, tranquiliza ainda menos.
Mas a importância do referendo está para além do resultado, que apenas exprime os profundos equívocos da relação entre o Velho Continente e as suas comunidades islâmicas. Por toda a Europa, políticos, intelectuais e opinadores apressaram-se a repudiar o voto suíço, às vezes de forma contraditória. Disseram que a "islamofobia", ou a "xenofobia", ou a "intolerância", ou "o novo anti-semitismo" (sim, houve quem dissesse isto) era a expressão de uma minoria, mas esta minoria teve 57% nas urnas. Disseram que tinham sido os partidos de extrema-direita a promover o referendo, mas a extrema-direita nunca teve essa votação em eleições. Disseram que os suíços são e sempre foram um bando de miseráveis racistas (Cohn-Bendit dixit), mas todos percebemos que um referendo com a mesma pergunta nos países onde a presença do Islão é mais notória teria um resultado semelhante (incluindo a França de Cohn-Bendit) .
É fácil acusar os suíços de serem um bando de sikinheads disfarçados de fabricantes de chocolates. A suiçofobia é uma das paixões mais desulpáveis: é mesmo o último preconceito desculpável de qualquer pessoa civilizada. E, nos tempos que correm, dá aquela sensação de superioridade moral tão necessária às almas sensíveis.
Infelizmente, não explica nada.
Pelo contrário, o resultado do referendo helvético mostra que a integração do Islão na sociedade europeia é ainda um problema, talvez mesmo o problema mais sério da Europa nas próximas décadas. E a culpa não é só dos suíços que votaram a proibição dos minaretes. Os mesmos políticos, intelectuais e opinadores que os condenaram, cheios de indignação, exigem a proibição do shador na rua, no emprego e na escola. Ao que parece, proibir uma mulher de se vestir como quer é laicidade, mas proibir uma comunidade de construir como quer é intolerância. Convenhamos que baralha o pessoal.
Porque, no fundo, do que se trata é de definir uma identidade colectiva. O voto dos suíços não é uma resposta "cristã" à "invasão" muçulmana. Nenhuma sociedade da Europa pode ser hoje qualificada de "cristã". Mas não há dúvida que o referendo materializou e exprimiu o receio difuso de que a Europa esteja a "islamizar-se". A proibição dos minaretes é um conflito simbólico, mas não se trata de um conflito menor. Nem só de pão vive o homem. Pão têm os suíços e os europeus com fartura. O que o referendo vem dizer é que querem mais qualquer coisa: querem pertencer a uma comunidade, mesmo que o digam excluindo os símbolos do que lhes parece ameaçá-la. De nada serve idealizar o Islão e dizer-lhes que estão errados. A Europa precisa de reinventar o contrato social que lhe permitiu reerguer-se das ruínas do pós-guerra. Por outras palavras, precisa de recriar a sua identidade. Não lhe chega ser um Estado-providência continental e o mercado mais rico do mundo. Se chegasse, havia lugar para os minaretes. A Europa precisa de definir valores comuns. O que não é nada fácil. Mas só definindo esses valores, a Europa perderá o medo dos minaretes.

Séries da década (6)

Duas temporadas que mergulham no período mais fascinante de Roma: da República ao Império. Uma série que segue as aventuras de dois soldados, Lucius Vorenus e Titus Pullo, que se atravessam na vida de personalidades como Julio César, Marco António ou Cícero. Sem o glamour pouco consistente que Hollywood nos habituara, esta é uma das sérias mais realistas sobre Roma.

A manutenção dos tachos

A falta de vontade do PS em criar uma qualquer solução governativa na AR (seja uma coligação, um acordo parlamentar ou a simples não-hostilização dos restantes grupos parlamentares, de modo a criar condições para negociações futuras - tudo responsabilidade exclusiva do PS) e os ataques cerrados (e brejeiros) vindos do PS para o Presidente da República - alguém que num cenário de maioria relativa lhes interessaria cortejar se desejassem, de facto, governar -, renovados agora com a promulgação da suspensão da entrada em vigor do Código Contributivo, mostram, até para os distraídos, que o PS e o seu governo já desistiram dessa coisa apelativa que é o exercício dos poderes executivo e legislativo. No estado em que este PS já está, o único objectivo por agora é tentar colocar um socialista na presidência, de forma a manterem os tachos por quatro anos em vez de por dois ou dois e meio.

Vem aí o fim do mundo

Prevê-se agora que, a continuar assim, o aquecimento mundial até ao final do século subirá 3 graus ou mais. Iremos ter uma subida regular das águas do mar, não de centímetros mas de metros. O que fará desaparecer algumas ilhas e recuar as zonas costeiras de certos países marítimos, como o nosso. Os excessos climáticos, chuvas torrenciais, ventos ciclópicos, tsunamis, furacões, tremores de terra e, por outro lado, secas, calor excessivo, desertificação, decréscimo das florestas, sensível diminuição da biodiversidade, vão tornar-se frequentes. Não é uma perspectiva agradável para ninguém, sobretudo para as jovens gerações.

Mário Soares, em mais um artigo notável do candidato derrotado nas presidenciais de 2006.

Sempre os mesmos (blague do século?)

- Quem afundou o Titanic?
- Iceberg. Um judeu. Como sempre.*

Serge Gainsbourg (Lucien Ginzburg)

*Ahmadinejad sobre as manisfestações contra o regime: «É uma mascarada nauseabunda que os sionistas e os americanos organizaram, e para a qual compraram bilhete, ficando apenas como espectadores. A nação iraniana já viu muitas destas mascaradas.»

Como é que se diz "ständische Herrschaft"* em português?

* Designação proposta por Max Weber de uma forma de domínio patrimonialista mediante o qual o pessoal governativo e o poder administrativo se apropriam dos recursos económicos da sociedade.

Ainda a década


Outra das imagens da década, segundo a AP. Uma apoiante de Hossein Musavi. Uma mulher corajosa. Revindicando um rosto, a promessa de liberdade, de expressão, de lugar na praça pública.

Parece que o regime iraniano está em decadência. A contestação sobe de tom, radicaliza-se, como aconteceu neste último domingo sangrento (ler hoje a boa cobertura e análise no Público).

O Irão inaugurou, em 1979, a erupção da teocracia islâmica como atracção fatal. Foi saudada por gente - por vezes notável, pelo seu trabalho propriamente filosófico, como Michel Foucault (Cf. Miguel Morgado) - da esquerda, mais ou menos, quase sempre mais, radical. Não há dúvida que muitíssimos intelectuais tiveram ao longo de todo o século XX uma forte queda para o flirt com a abjecção mais sumária. Não há imbecilidade sartriana que as hostes «gauche» não aproveitem como ocasião. Chega Chavez? Viva Chavez!, e assim por diante (obviamente que, se possível, à direita as coisas foram ainda piores: tinham ideias interessantíssimas, dizia Hannah Arendt às gargalhadas). Gente acósmica, ou para utilizar um termo menos técnico, imunda, etimologias equivalentes (daí a nossa admiração por ela, Aron, ou Octavio Paz, que brilharam pela integridade moral, quaisquer que sejam os erros de avaliação política que possam ter cometido). Como será o seu luto pela morte do regime iraniano?

Esta fotografia é bela, e não faz mal que seja. O gesto da mulher também é.

Segunda-feira, 28 de Dezembro de 2009

A década


Esta fotografia foi eleita, pela Associated Press, uma das fotografias da década. Um homem cai da Torre Norte, em 11 de Setembro. Há qualquer coisa nela a que não consigo aderir, que me afasta: o seu lado artístico, as linhas, o belo efeito, o sentido da composição, quando o que se está a passar... Mas não consigo deixar, mesmo assim, de olhar para ela. Apesar de tudo dá que pensar, na sua quase abstracção. E evita o horror óbvio, saturante, paralizante. Mixed feelings. Se calhar gosto. Se quiserem ver o slideshow completo, é aqui.

Jogadores que nunca venceram o prémio FIFA (5)


Andreas Möller.

Quando rumou para a Juventus, chamaram-lhe TurboMöller, em homenagem à sua velocidade. Houve quem vaticinasse um penoso final de carreira assim que essa velocidade lhe sumisse das pernas. Mas ele não teve dificuldade em reconverter-se num atacante inteligente, grande passador e estrondoso rematador. Nervos de aço e mentalidade vencedora fizeram com que Möller fosse uma das figuras obrigatórias das últimas grandes selecções alemãs. Enquanto ele por lá andou com Matthäus e Bremen e Mathias Sammer, quem jogava com a Alemanha não tinha ilusões.

Discos da década (5)

(Cat Power, The Greatest, 2006)

Videntes e economistas

Paul Krugman

Infelizmente para todos nós, e inclusivamente para o vidente José Sócrates, Paul Krugman não vê sinais nenhuns de melhoria no horizonte da economia. Segundo o economista, «há uma chance razoavelmente elevada de a economia se contrair no segundo semestre de 2010». Qual economia? A economia. Dos EUA, é claro, a tal que, quando se constipa, provoca uma epidemia.

Sócrates (parece António Costa, mas não é, é mesmo ele) depois de «ver sinais claros»

Jogadores que nunca venceram o prémio FIFA (4)


Gheorghe Hagi. O "Maradona dos Cárpatos".

Julgo que certa vez, provavelmente nas vésperas do Campeonato do Mundo de 1994 nos Estados Unidos, Anghel Iordanescu - o seleccionador romeno - disse que a preparação da equipa para o torneio consistia fundamentalmente em "motivar o Hagi".

Gaza, um ano depois

Sderot

Há um ano começava a ofensiva do exército israelita contra o terrorismo em Gaza. Depois de um processo de intensificação dos bombardeamentos do Hamas contra as cidades israelitas fronteirças (Sderot, Akskhelon, etc.), com morteiros e rockets, que atingiu um pico em 2008, com 2500 explosões, e estava em crescendo acentuado nos meses de Novembro e Dezembro, a 27 de Dezembro as Forças de Defesa de Israel fizeram o que não podiam continuar a evitar: invadir o território inimigo e destruir o máximo de infra-estruturas ofensivas possíveis.

Eram conhecidos os perigos da guerra que não podia mais ser adiada. O Hamas não se limita a atacar indiscriminadamente alvos civis do inimigo. Usa sistematicamente escudos civis para as suas operações, fazendo de mesquitas, escolas, hospitais, etc., as suas bases. Qualquer operação de destruição dessas bases envolveria forçosamente baixas civis, provavelmente em grande número, por muitos cuidados que se tivesse, como foi o caso, com um investimento maciço no aviso prévio às populações para abandonarem os alvos do ataque. O Hamas não se limitava a saber isso: a guerra foi provocada com o objectivo óbvio de expor Israel aos perigos referidos, deslocando depois o terreno de combate para a cena mediática, onde o contra-atacante se expunha à reprovação internacional. Mas o Estado israelita não podia deixar de fazer a guerra, sob pena de abdicar da sua primeira e mais elementar função: dar garantias de protecção às suas populações. Para chegar onde pretendia, o Hamas não recuou nos meios, e usou quanto pôde a sua população como carne para canhão numa guerra de propaganda. (Arrisco-me a especular que, para o momento escolhido para lançar a ofensiva, além do facto óbvio de estarem em intensificação os ataques do Hamas, contou a circunstância de estar no horizonte, para breve - 20 de Janeiro -, a tomada de posse de Obama, um homem de quem era legítimo desconfiar, mesmo depois das efusivas declarações, em campanha, sobre a indivisibilidade de Jerusalém).

Menos de um mês depois, a 21 de Janeiro, Israel retirou, sem que se percebesse muito bem o balanço. De facto, os objectivos da ofensiva militar nunca foram claramente explicitados pelo Governo israelita, de modo que se tornava difícil avaliar o seu cumprimento, sobretudo porque, se os bombardeamentos do Hamas diminuíram, não cessaram por completo.

Além disso, estava definitivamente lançada a controvérsia mundial, com a condenação de Israel a fazer ouvir-se nos mais diversos quadrantes. 1400 mortos palestinianos depois, o Hamas parecia ter atingido os seus objectivos, e era incerto - até por falta de definição - o cumprimento dos objectivos por parte do contra-atacante.

Onde a condenação de Israel não obedecia ao padrão ideológico forte do islamismo político, a palavra-chave era: reacção desproporcionada. Portugal e o seu ministro dos Negócios Estrangeiros usaram a expressão até à náusea. Que me lembre, nunca lembrou a nenhum jornalista que ouvia a expressão condenatória perguntar a luminárias como Luís Amado o que poderia ser uma reacção proporcionada a um inimigo que ataca alvos civis por sistema e usa escudos civis por sistema. Um massacre generalizado, ao modo do Hamas?

Um ano depois, o balanço já não é tão incerto: dos 2500 bombardeamentos do pico de 2008, 2009 ficou com um registo de menos de 250. Em Israel, respira-se um ambiente de calma tensa. Sabe-se que a qualquer momento os ataques terroristas podem voltar em força. Mas a calma tensa é a normalidade do país, quando não está em guerra aberta.

À redução dramática da intensidade do bombardeamento, não é alheia a destruição dos meios para o fazer, por parte das Forças de Defesa de Israel, durante a ofensiva no ano passado e, assim, é mais fácil agora ver objectivos razoáveis cumpridos. Em particular, foram seriamente afectados quilómetros de túneis que, pela zona fronteiriça de Rafah, serviam de rota de trânsito para o armamento do Hamas.

Acresce que o Egipto reforçou as medidas de controle da fronteira, sendo a principal preocupação dos terroristas palestinianos, neste momento, as obras da uma barreira metálica subterrânea - isso mesmo -, que o governo de Hosni Mubarak está a construir, para impedir a reabertura dos túneis e das ligações.

Rafah

O cerco ao Hamas aperta-se. O que não impediu que ontem 3000 activistas do movimento saíssem à rua, gritando: «Fomos nós que ganhámos, somos nós os vencedores!». Loucura? Ou a referência é ao relatório Goldestone e suas sequelas, inquestionável vitória do Hamas, como os líderes do movimento proclamam eufóricos?

Domingo, 27 de Dezembro de 2009

Hattie McDaniel - Gone With the Wind

Hattie McDaniel ganhou o Óscar de melhor actriz secundária pela sua participação em Gone With the Wind (1939). Em baixo coloco as imagens da entrega do prémio a Hattie McDaniel e do curto discurso de agradecimento à "Academia" que proferiu diante dos seus concidadãos. Note-se a ausência da "questão" racial nas palavras proferidas por uma actriz que conseguiu, com trabalho e talento, um desempenho magistral em que deu corpo, voz e alma a uma personagem inesquecível.

Bombas, vida, liberdade, etc.


Não é forçoso que falemos apenas daquilo que presumimos saber um pouco, porque estudámos. Sobretudo se não botarmos sentenças. Vem isto a propósito deste pequeno post, sobre segurança nos aeroportos, assunto de que só tenho a experiência comum de qualquer viajante.

Por muito estranho que possa parecer, mas se virem bem não há nada de estranho nisso, nunca me sinto tão seguro, quando viajo de avião, como quando viajo para Israel na El Al. Porque será que o país e, presumo, a companhia aérea mais apetecida pelo terrorismo mundial é calmamente reconhecida como a mais imune a atentados, como o prova o seu histórico (sim, claro, também os houve, mas parece que se levou a sério a adopção de medidas que impedissem a sua repetição)?

Chega-se a Madrid, e depois de uma longa viagem até ao ponto extremo onde está a manga do avião da El Al, apresentamo-nos ao guiché de embarque. Vem uma entrevista muito sui generis. O que vai lá fazer, se já lá foi, quanto tempo vai lá estar, se tem lá amigos, onde vai ficar, etc., etc.

A impressão imediata, desde a primeira vez que passei pelo interrogatório, é a de que quem me está a interrogar se está literalmente a marimbar para o que eu digo. E porque carga de água é que a substância das minhas respostas podia ter qualquer interesse em termos de segurança?

Em contrapartida, tem-se a impressão de que se está a ser observado até ao mais ínfimo detalhe. O melhor é deixarmo-nos ir na onda. Não temo nada, e tenho a vaga sensação de que a verdadeira fronteira, entre a segurança e a insegurança, se está a passar naquele momento. Agradeço. Depois, é o reconhecimento pessoal da bagagem de porão (aconselho, pois, os possíveis viajantes para Israel a nunca aceitarem voos com 1h30 de intervalo em Madrid, ou por onde forem, porque se arriscam a ficar em terra, tal a necessária morosidade dos procedimentos).

Em mais nenhuma companhia, das que voam para Tel Aviv, as coisas se passam assim. Os seus procedimentos de segurança têm sido criticados com os mais diversos argumentos.

Sugere-me um amigo que reputo saber destas coisas, que está a ficar claro que as normas de segurança vigentes estão a começar a falhar. Diz ele que temos estado concentrados nos meios usados pelos terroristas, em vez de nos concentrarmos nos executores dos atentados. Presumo que seja essa a filosofia da companhia mais segura do mundo, embora disso nada saiba, excepto o que relatei em cima.

Fiquei a pensar no assunto, e ficaram aqui lavradas as minhas ruminações de leigo. Costumo dormir descansado, nas cinco horas que em Madrid me separam de Tel Aviv. Ignoro até que ponto a experiência e os métodos da El Al são generalizadamente aplicáveis. De uma coisa estou certo: se fôssemos por aí, teríamos os estrepitosos gritadores do costume indignadíssimos com mais um atentado às liberdades, à democracia, etc. Com a paranóia securitária, como diz aquela gente.

O pequeno detalhe de a mais elementar das nossas liberdades, a de podermos deslocar-nos sem pôr em risco a vida, estar sob ameaça não os comoverá. Mas isso já nós sabemos.

Uma visão simplista


Na edição de Natal da revista Visão, questiona-se se Jesus Cristo é de esquerda ou de direita. A pergunta é absurda, como é evidente. Mas nem por isso este tipo de simplificações históricas deixa de ser comum. Há quem veja em Cristo um idealista, precursor do comunismo, assim como existe em alguns círculos conservadores a crença de que o comunismo nasce, em parte, da obra de Platão. Esta forma de os compreender é reveladora da nossa profunda incapacidade em ler o passado e, mais ainda, torna evidente a nossa ignorância quanto ao presente. Identificar comunismo na obra de Platão (ou na vida de Cristo) denuncia uma tripla ignorância: sobre a obra de Platão (ou sobre a vida de Cristo), sobre o comunismo, e sobre a História. Mais que tudo, trata-se um recurso simplista, sinal do quanto é fácil esquecermo-nos da História. E, finalmente, um sintoma dos malefícios de um fraco modelo de Educação.

Serão OVNIs?


«Há agora sinais claros de que estamos a retomar lentamente um caminho de recuperação», disse José Sócrates.

Quanto a gente séria e coisas sérias, com referência à bela entrevista a Tolentino Mendonça que o Paulo Marcelo aqui linkou em baixo, destaco, e o critério é apenas porque vem a propósito, sendo a entrevista toda ela de leitura recomendada, a última pergunta e resposta:

O país também vive dias assim, de "hesitação e descrédito". Portugal aflige-o?

Olho-o com esperança e procuro contagiar outros. Temos de perder o medo.

Tolentino Mendonça

Não deixem de ler a entrevista de Tolentino Mendonça, publicada ontem no jornal i. Para além da erudição que se percebe nas suas respostas a Maria João Avillez - mesmo as citações são oportunas e naturais -, o que mais me impressiona é a simplicidade com que fala do seu caminho em busca de Deus. Sem cair em beatices ou pieguices deslocadas, o padre e poeta Tolentino Mendonça consegue trazer o fenómeno religioso com naturalidade para o espaço público e para o mundo da cultura, de onde tem andado estranhamente afastado.

Loucas Coincidências

Em Itália, ou em Itália e no Vaticano, no espaço de dez dias dois "loucos" atiraram-se sobre o primeiro-ministro Berlusconi e o papa Bento XVI. Vistas bem as coisas fiquei com a ideia de que se tratam de poucos "loucos" para tanta coincidência.

Sábado, 26 de Dezembro de 2009

Iluminismo iemenita



Para os que não conseguem seguir, ouvindo, em inglês, a refutação do Darwinismo proposta por Abd Al-Majid Al-Zindan, o teólogo iemenita deste vídeo, eu reproduzo aqui o passo mais original do argumento.

Deus nos ajude! Os nossos antepassados não eram macacos. Os antepassados deles podem ter sido macacos, mas os nossos eram seres humanos. (...) Não podemos excluir a possibilidade de Darwin ter tido sentimentos (sic) psicológicos escondidos. Darwin sentia-se ultrajado tal como os judeus, a quem foi dito: «Vocês são irmãos de macacos e porcos.» Alá transformou os israelitas que se rebelaram contra ele em macacos e porcos,* e isso converteu-se numa maldição usada contra eles. Talvez Darwin estivesse preocupado e quisesse dizer às pessoas: «Vocês são todos macacos e porcos, e não apenas nós.» Portanto, podemos ver que esta teoria não está baseada em sólidos fundamentos, e não tem prova suficiente.

Certo? Aprendam. E peço aos meus amigos defensores entusiastas do diálogo de civilizações, como verdadeira resposta a todos os problemas do mundo, o favorzinho, se não for pedir muito, de serem realmente pluralistas e não ventríloquos, de dialogarem com todos, sobretudo com o mainstream, e não apenas com os «nossos». Ok? Vá, façam um esforçozinho e saiam por um dia da nossa paróquia. Mexam-se cosmopolitas!

* Sura 5:60 e 7:166 - Corão (Nota minha).

Quais sinais de recuperação?

José Sócrates afirmou ontem, na sua mensagem de Natal, que «há agora sinais claros de que estamos a retomar lentamente um caminho de recuperação». Estranho, eu não tinha dado por nada. Não se importa de dizer a que "sinais claros" de recuperação se refere, senhor Primeiro-Ministro?
É que a campanha eleitoral já acabou, não vale a pena enganar as pessoas.

Sexta-feira, 25 de Dezembro de 2009

Séries da década (5)

Mini-série de 7 episódios sobre o período revolucionário americano. Tendo como pano de fundo a vida do 2º presidente americano, podemos acompanhar o rumo da história desde o massacre de Boston até à morte de John Adams. Excelentes actuações de Paul Giamatti e Laura Linney. Uma série obrigatória.

Nunca, nunca, nunca cedam!



Não tenho medo porque confio n'Ele. Ouçam-no, sff.

É Natal, é Natal, etc. e tal

Ontem à noite, quando se preparava para celebrar a Missa na basílica de São Pedro, o Papa foi atacado por uma mulher que o fez cair. Sem consequências, felizmente.

Talvez por isso, o Daniel Oliveira, que há uma semana acusava os contentinhos da violência contra Berlusconi de traírem a esquerda, permite-se uma graça: foi uma rasteira de Deus.

Ou seja, a violência pode ou não ser objecto de piadas segundo o seu objecto. Se atinge um político, não pode. Se atinge o Papa, pode - e torna-se gira, transgressora, modernaça. Verdadeiramente de esquerda.

Claro que estou a fazer uma tempestade num copo de água benta.

Grave era o Papa ter sido atingido por uma réplica da basílica de São Pedro e partir dois dentes e o nariz. Isso sim. O resto é Deus, se existe, a brincar com a gente. A imitar o Daniel Oliveira, digamos.

Quinta-feira, 24 de Dezembro de 2009

Jogadores que nunca venceram o prémio FIFA (3)


Brian e Michael Laudrup.
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O segundo é mais famoso do que o primeiro. Mas quem pode dizer que sozinho ganhou um campeonato da Europa com uma equipa repescada à última da hora, quando a Jugoslávia decidiu deixar de ser um país?

Mitsuko Uchida

Sem comentários. Be happy.

P.S.: O corte no fim merecia cadeia, mas, mesmo assim, vejam e ouçam.



E, agora, até ao fim, mas mesmo assim sem todas as palmas.

Feliz Natal

Alemanha: o peso da história

O Público trazia anteontem um artigo sobre o julgamento de John Demjanjuk, ao que parece um guarda do campo de concentração polaco de Sobibor que depois da II Guerra Mundial emigrou para a América e foi daí extraditado para a Alemanha. "O último grande julgamento de um crime nazi", como lhe chama o jornal parafraseando a Time, começou há cerca de um mês em Munique (lembro-me bem: foi notícia de abertura dos telejornais alemães durante três dias) e levanta problemas que vão muito para além do direito, em concreto a delicadíssima questão da culpa do pessoal subalterno dos campos de extermínio. Estes homens que estavam no fim da cadeia de comando, que não conceberam a "solução final" mas a executaram, que se limitaram a cumprir ordens sem as questionar, devem ou não ser levados a tribunal por cumplicidade com o Holocausto? E até quando? Ao contrário do que por vezes se entende, a tese da "banalidade do mal" de Hannah Arendt não é um atestado de irresponsabilidade dos pequenos Eichmanns nem um convite à prescrição dos crimes contra a Humanidade. A questão é, pois, ética - e das mais sérias.

Demjanjuk parece hoje um velho doente, sentado numa cadeira de rodas e sem consciência do que lhe está a acontecer. (Parece - porque todos nos lembramos da encenação da própria debilidade que, há não muito tempo, permitiu a Pinochet escapar a um processo semelhante.) Além de ser o primeiro estrangeiro acusado de crimes cujo reconhecimento se tornou um elemento definidor da identidade nacional germânica do pós-guerra, como disse o historiador Norbert Frei, e de já ter sido julgado, condenado, preso e posteriormente ilibado de idêntica acusação, mas relativa a Treblinka, por um tribunal israelita. [Adenda: esta informação foi completada nos comentários pelo Pedro Panarra, o nosso homem na Germânia.]

Enganar-nos-íamos, no entanto, se víssemos apenas no seu penoso fim de vida a longa vingança justiceira - sobre um carrasco menor - de um país com um irredimível peso na consciência. O que está em causa é a relação da Alemanha com a memória. A reunificação, notava a Spiegel no número comemorativo dos 60 anos do fim da II Guerra Mundial, em 2005, mudou profundamente o modo como os alemães olham para o passado. Pela primeira vez desde os anos 30, a queda do Muro recordou-lhes que também são vítimas e não apenas verdugos.

O julgamento de Demjanjuk foi entretanto suspenso. Será retomado a 12 de Janeiro. Embora correndo o risco de se tornar um circo mediático, a sentença final será muito mais do que o veredicto sobre a culpa ou a inocência de um homem: será a imagem de um povo no espelho da história.

Santo Natal


História de Portugal


Um livro de que gostava que falássemos. E que António Barreto lê, aqui, como cidadão inteligente e culto que é. Era muito importante que a conversa continuasse, para ver se nos deixamos de frivoleiras. Pelo menos em part-time.

A máfia da blogosfera

«Alguém deveria travar Paulo Pinto Mascarenhas, antes que cause ainda mais danos a si próprio e àqueles para quem trabalha.»
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Um aviso ou uma ameaça? É assim que começa mais uma das pérolas do blogue de apoio ao governo. Mas, como o Miguel do Insurgente recorda, esta é uma tirada que soa a intimidação mafiosa. Tudo em nome da liberdade, da igualdade, dos direitos das minorias e do TGV, claro.

Quarta-feira, 23 de Dezembro de 2009

Pensem nisto


Daqueles últimos dez anos do quadro, oito, vá lá, 7,5, foram anos socialistas. Não se vê ali, mas o naufrágio foi preparado pelos cinco que antecederam, com Guterres e o seu deboche despesista, quando o país sofria um choque monetário expansionista, com as taxas de juro em queda acentuada.

Dos últimos quinze anos na rota para o zero de crescimento (verdade que a coisa vinha de trás, o problema é que não se atalhou), só dois, vá lá, 2,5, não foram anos socialistas. Foram os anos do primeiro emigrante da nova era, Durão, Barroso como quis que passassem a chamar-lhe lá fora, logo que aterrou em Bruxelas. Foram anos em que Durão se limitou a preparar o salto, que acabou por dar, entregando o Governo ao perturbado Santana Lopes, que transformou durante seis meses o país num circo (a experiência não terá sido alheia à desconfiança com que o eleitorado passou a olhar para o PSD, e quem sou eu, militante, malgré tout, para lhe retirar razão, sobretudo quando o partido, como vai sendo costume, optou por tentar «federar» facções, sem sombra de êxito, diga-se, como quer agora de novo Marcelo, passando uma esponja no sucedido, e fazer de conta que se estava de volta, a seguir às eleições em que Santana foi varrido, aos dias do business as usual).

Como vai ser a nova década? Abaixo de zero? O Estado que temos não aguenta, precisa de tributar rendimentos que não serão gerados por esta economia, para se manter, e as reformas na segurança social, de Sócrates, mesmo que louváveis, são meramente paliativas, face à dimensão do problema do financiamento público, que é, entenda-se isto de uma vez por todas, o problema do modo como temos as nossas vidas organizadas. Vai continuar a endividar-se? Não vai, porque não vai poder. Vai, pois, ser como, a nova década?

O país vai ter de mudar de vida. À força? Obviamente, pela força das coisas. Mas como? Com quem à frente? O PSD está à altura das responsabilidades? Ou vai continuar a «federar» facções?

Boas festas, e pensem nisto.

Discos da década (4)


The National - Boxer (2007)


Jogadores que nunca venceram o prémio FIFA (2)

Fernando Redondo.

Houve mais algum "trinco" como ele?

O eterno Badiou

O inefável filósofo Alain Badiou e o seu pensamento de extrema-esquerda está reduzido à reductio ad Hitlerum. Nada mais. "Fascismo nunca mais" é todo um programa, não é assim? E já agora: "contra a realidade, marchar, marchar".
Sarkozy é Pétain. De Gaulle é Hitler (ou vice-versa, pouco importa). A que acresce a inevitável desqualificação moral do adversário (Badiou teve uma boa escola); o apelo à destruição cega da "ordem vigente"; a assumpção do papel de porta-voz dos desfavorecidos que ele conhece melhor do que ninguém, incluindo eles próprios; a mesma cegueira política de sempre; a mesma soberba moral de sempre; o mesmo ódio de sempre; o mesmo ressentimento de sempre.
É ver aqui, neste debate com Alain Finkielkraut.

Da série "vale a pena ler"

Texto de José Eduardo Martins sobre a Conferência de Copenhaga, as alterações climáticas, bem como a atitude/medidas que Portugal deve tomar relativamente a este problema. Ver no sítio do Instituto Sá Carneiro.

À venda


O excelente editorial de Pedro Guerreiro, no excelente jornal em que se tornou o Jornal de Negócios, hoje, sobre Isabel dos Santos, a mais rica e poderosa mulher em Portugal, parece que não tem nada a ver com o excelente artigo de Ricardo Reis, que o Paulo Marcelo aqui lincou, e deu origem ao meu enervamento aqui em baixo. Mas tem.

A bancarrota de Portugal tem tudo a ver com o facto de a economia portuguesa ter parado de crescer há dez anos. Tem a ver, porque o desquilíbrio financeiro do Estado impossível em que vivemos se tornou num dos mais poderosos factores da atrofia do crescimento, e tem tudo a ver porque a atrofia do crescimento torna particularmente dolorosa qualquer política de reequilíbrio financeiro - é um infernal ciclo vicioso.

Além disso, a atrofia do crescimento leva a que as nossas empresas, em geral sobreendividadas, como o Estado e as famílias, em grande parte em consequência das desastrosas políticas fiscais expansionistas dos socialistas, quando as taxas de juro caíram a pique à aproximação do euro, precisem, para sobreviver, de se capitalizar.

O dinheiro angolano aí está, para tomar conta dos activos das empresas incapazes de gerar rendimentos que as sustentem. Assim como assim, se o destino de Portugal é vender-se, que o dinheiro que o compra seja angolano, nada a obstar, não fora o facto de Angola pertencer à nata da máfia corrupta do planeta. Parece que só Alexanre Soares dos Santos acha o detalhe relevante.



Salve-se quem puder

Estupidez obstinada

Como me recuso a acreditar que Sócrates e os que o acompanham na política económica sejam menos patriotas do que eu, ou você, ou os meus vizinhos, só consigo explicar - enfim, tenho enormes dificuldades, mas tento - a sua governação, no momento em que vozes dos quadrantes políticos mais díspares imaginam, calculam, medem, avisam, escrevem, uivam sobre a crescente ameaça de bancarrota em Portugal - agradeço ao Paulo Marcelo o link para o excelente artido de Ricardo Reis sobre o assunto, em linguagem extremamente pedagógica - só consigo explicar, dizia, de uma maneira: estupidez obstinada, inconsciênca cultivada. Não tem nada a ver com o carácter, que, por outras manifestações, não se recomenda também. É mesmo estupidez. No que Portugal não inauguraria nada na história: quantos desastres se deveram àquilo que, posteriormente, se percebe como absoluta incompetência de quem governava, então, as nações que naufragaram.

Vale a pena continuar a dizer alguma coisa sobre o assunto, sobre a bancarrota à vista? Não, certamente que não, não vai alterar nada. Se pudesse, não estávamos desde meados dos anos 90 a preparar metodicamente o desastre. Mas escrever um post, muitas vezes, é mesmo isso: coçar a ferida em público. Não sara, mas não se consegue evitar.

Como se diz "cobrador do fraque" em inglês?


A bancarrota na Grécia e em Portugal, por Ricardo Reis, no jornal i.

O nosso "natal"...

...tal como é por dentro e tal como é por fora.

Da incivilidade pueril II

O resto do debate parlamentar de ontem veio confirmar isto. O modo como Sócrates depois “respondeu” a Portas, a Jerónimo de Sousa, a Heloísa Apolónia e a Louçã (envolvendo este último com o presidente da República numa piadinha de muito mau gosto) é revelador do problema.
Não se trata de vivacidade parlamentar (bem sabemos que um parlamento não é nem deve ser um seminário universitário). Trata-se de arrogância agressiva e má-criação. O primeiro-ministro estabelece sempre, por sua iniciativa, uma relação patológica com os seus adversários políticos no confronto público que tem com eles. Não é possível separar Sócrates dessa relação. Na verdade, ele é, em grande medida, constituido por ela.

Inevitavelmente, a arrogância malcriada do homem alastra pelo ambiente político e impregna-o. Por agora, ainda é difícil avaliar os estragos na linguagem política que a personagem vai deixar atrás de si. Demorará o seu tempo repará-los. Aos que acham não haver nada de grave nisto, conviria lembrarem-se que, na política, a linguagem não é um mero adereço ou adorno. Nem sequer é apenas um meio. É na linguagem e pela linguagem que se vão estabelecendo relações de força, de poder, crenças, expectativas, operações na própria “realidade”, etc. Pense-se, por exemplo, no efeito corrosivo que tem o uso repetido da mentira ou da dissimulação. A linguagem política nunca é só linguagem.

Séries da década (4)

Nunca um serial killer terá suscitado tanta adoração no mundo da televisão. A trama é excelente, mas para isso muito contribuirá a interpretação de Michael C. Hall no papel do assassino Dexter Morgan. Já vai na quarta temporada, e a qualidade tem vindo sempre a subir.

Jogadores que nunca venceram o prémio FIFA (1)

David Ginola.

Quando Figo e Zidane estavam no topo, Pelé disse que este era o melhor jogador do mundo da época (se bem que os julgamentos de Pelé...).

Terça-feira, 22 de Dezembro de 2009

Chet Baker, aos 80



A 23 de Dezembro, faria 80. Escolher uma homenagem não foi fácil. Foi tudo tão perfeito. Felizmente pode continuar a ouvir-se para sempre. Aqui ficam as folhas de outono.

Ok. Mais uma. Tenderly.

Segundo Sócrates...

... é este, aqui por cima, o rosto do "debate político democrático em Portugal."



Duplicidade de Critérios

Tivesse uma vaga de calor na Europa provocado, no espaço de uma semana, cerca de 90 mortos, o que é milhares de "ambientalistas" e "jornalistas" comprometidos não andariam por aí a arengar culpando o homem pelas terríveis maldades que estariam a liquidar ambientalmente o planeta. Porém, como é o frio que mata várias dezenas de habitantes da Europa (e já agora dos EUA), as "questões" ambientais não são sequer tocadas. Obviamente, quando as coisas são assim só me resta praticar o bem-dito cepticismo.

Patriarca de Lisboa nega pacto com Sócrates

Mais pormenores aqui.

Da incivilidade pueril

Espero que as televisões mostrem logo à noite a careta que José Sócrates macaqueou, perante todo o parlamento, durante a intervenção indignada da deputada Ferreira Leite, troçando dela, repetindo com olhos arregalados e em momice grotesca um 'nunca!', depois de ela ter garantido que nunca lhe responderia ali às suas perguntas despropositadas. É bom conhecer-se o quilate da personagem política que nos governa.
É triste, mas este episódio mostra como Sócrates, em funções políticas públicas, prefere comportar-se como um garoto ordinário. Temos um primeiro-ministro lumpen.

Quem é quem

Depois do primeiro-ministro nos vir (mais uma vez...) com as suas tiradas tipicamente reaccionárias, chamando ‘ataques pessoais’ e ‘maledicência’ ao que não é mais do que a sã crítica política (o que revela a personagem pequenita que ele é), lá teve “a velha”, a “conservadora”, a “mesquinha”, etc, de lhe lembrar o que é que se espera dele ali, num debate de um parlamento democrático: responder às inquirições críticas das oposições.

Achtung!

O mesmo Francisco Assis anuncia-nos (sem o saber, previne-nos) que José Sócrates vai, agora, 'exprimir o seu pensamento'. Sim, é verdade, ele disse mesmo 'pensamento'.
Espera-se o pior.

A verdade sai, muitas vezes, da boca dos néscios e das crianças

Acabo de ouvir Francisco Assis, no parlamento, exclamar que 'as propostas do governo vão de encontro aos problemas dos Portugueses!'
Sim, ele disse 'vão de encontro'.

Foto do ano, a mulher do ano, o esbirro do ano, o problema do ano, o gesto corajoso do ano (correcção)

Infelizmente, é photoshop, como alerta um comentador aqui na caixa dos comentários. E eu que gostava tanto do gesto...

Escola de Salamanca

O André Azevedo Alves e o José Manuel Moreira acabam de publicar The Salamanca School, da série "Major Conservative and Libertarian Thinkers". Muitos parabéns aos dois.

Confesso que tenho muitas reservas em associar os dominicanos e jesuítas dos séculos XVI e XVII (e mais ainda se falamos de Tomás de Aquino) aos movimentos liberais ou proto-liberais. É verdade que em particular Suárez dá um enorme contributo, por exemplo, para a ideia de direitos subjectivos naturais, ou para elevar o estatuto do consentimento popular na edificaçáo do Estado. Mas ainda assim... E, sinceramente, nunca percebi bem aquela tirada de Lord Acton de que Tomás de Aquino seria o primeiro Whig da história.
No entanto, é preciso dizer, em primeiro lugar, que ainda não li o livro. Apenas tento adivinhar o sentido da obra tendo em conta a (indubitável) inspiração hayekiana. Em segundo lugar, e a julgar pela sinopse, este livro concentra-se nos aspectos mais directamente ligados ao pensamento económico dos autores em causa. O que torna irrelevante aquilo que acabei de dizer.

O Prémio

Há praticamente um ano, quando Cristiano Ronaldo venceu o prémio FIFA de melhor jogador do ano, disse aqui que fora ganho mesmo a tempo, já que por essa altura Messi era, na minha opinião, o melhor futebolista em acção. Lembro-me que despertei a ira de alguns dos nossos leitores que sobretudo alegaram que Ronaldo é um jogador "mais completo" do que o pequenino Messi. E não há dúvida de que a quantidade de recursos de Ronaldo deslumbra qualquer Florentino Perez: o homem é um rematador de excelência, um cabeceador-voador, um sprinter, pode jogar apenas como ponta-de-lança, etc., etc. Mas também se pode apontar que Messi tem recursos que Ronaldo não tem: Messi é um verdadeiro jogador de equipa - por isso é que o estilo de jogo do Barcelona, em que todos tocam na bola, serve Messi tão bem e vice-versa - e, na minha opinião, Messi é um passador muito superior a Ronaldo.
Contudo, o meu ponto nesse post era concretizar uma intuição que todos têm. O jogo moderno é tão exigente que se torna muito difícil para os jogadores conseguirem manter o seu nível performativo razoavelmente constante. Um pequeno descuido, e lá vão anos de preparação. Basta pensar no que aconteceu a Ronaldinho, que, embora aos poucos vá recuperando alguns dos seus dotes, mostrou a todos como um jogador ainda jovem pode perder irremediavelmente as suas qualidades.

Agora que Messi foi galardoado com o prémio FIFA de melhor jogador do ano fico com a sensação que também o prémio deste ano foi ganho mesmo a tempo. Note-se que a atribuição do prémio foi inteiramente justa. Os sucessos individuais de Messi e os colectivos do Barcelona não deixaram margem para qualquer outra escolha. Porém, a forma de Ronaldo está a subir sem ambiguidades, ao passo que Messi parece estar a decaír no seu jogo, vítima talvez do cansaço inevitável de uma grande acumulação de jogos. Não é de espantar pois que Ronaldo venha a ter um grande primeiro semestre de 2010, o que seria uma boa notícia para a Selecção Nacional.

Também aqui há um ano mencionei dois jogadores sensacionais que nunca venceram o Prémio FIFA de jogador do ano (na altura foram Giggs e Seedorf). Este ano deixo aqui mais três. Todos defesas, só para chatear.




Carter pede perdão por ter «estigmatizado» Israel


Jimmy Carter, ex-presidente dos Estados Unidos, dedicado nos últimos anos a difamar Israel, designadamente no livro que exibe na foto, pediu perdão aos judeus pela «estigmatização» daquele país, para a qual reconheceu ter contribuído.

«Como já o fiz em Rosh Hashana [começo do Ano Novo Judaico e começo dos dez dias que levam a Yom Kippur, dias de reflexão sobre os pecados cometidos e de pedido de perdão aos ofendidos] e em Yom Kippur, mas que é apropriado fazer em qualquer altura do ano, ofereço um Al Het [pedido de perdão] por quaisquer palavras ou actos meus que possam... ter contribuído para estigmatizar Israel.»

«Temos de reconhecer as realizações de Israel em circunstâncias difíceis, mesmo quando nos esforçamos de um modo positivo por ajudar Israel a continuar a melhorar as suas relações com as populações árabes, mas não podemos permitir que as críticas para a melhoria estigmatizem o país», disse. Bem.

Areia para os olhos

Na quinta-feira, no encerramento das jornadas parlamentares do PS, José Sócrates afirmou que a regionalização é uma reforma “indispensável e urgente”. Defendeu depois o modelo concreto de cinco regiões administrativas.
Confesso-me pasmado com esta prioridade do primeiro-ministro.
Na minha ingenuidade, pensava que as reformas "indispensáveis e urgentes" eram, sei lá, combater a crise económica e o desemprego, credibilizar a Justiça. Ou mesmo (ainda se lembram?), reformar a Administração Pública ou combater a corrupção.
Mas nada disso é agora importante. Para Sócrates urgente mesmo é regionalizar o país. Por coincidência ou não, nesse mesmo dia de manhã, o Conselho de Ministros aprovava o casamento entre pessoas do mesmo sexo.
Não percebo estas prioridades numa altura de grave crise económica e orçamental. Repare-se que a criação de regiões implica mais despesa com, pelo menos, cinco novas estruturas político-administrativas: cargos dirigentes, pessoal administrativo, mordomias, etc.
Tal como não entendo a pressa em aprovar o casamento homossexual (a primeira proposta de Lei desta legislatura, juntamente com o orçamento rectificativo). Como lembrou o Presidente da República, Portugal tem uma das mais baixas taxas de natalidade da Europa. Mas em vez de apostar em políticas de apoio à família (para facilitar, por exemplo, a compatibilização trabalho-família nos casais jovens), o PS quer alterar profundamente a noção de casamento, depois de no ano passado ter aprovado uma lei do divórcio que torna mais simples acabar um casamento do que um arrendamento ou um contrato de trabalho.
Mas há uma explicação para esta agenda fracturante: uma estratégia deliberada para desviar as atenções. Enquanto se discutem estes temas ‘sexy' não se fala de temas bem mais aborrecidos como o défice, a dívida pública, ou o "bota-baixismo" do desemprego.
A (quase) bancarrota da Grécia devia fazer-nos reagir. Mas até agora não temos qualquer estratégia ou plano. Pelo contrário, o Governo adiou a discussão do novo orçamento para 2010. Continuamos sem saber como vamos reduzir o défice (8,5%), já em 2010, como recomendou a Comissão Europeia. Reduzimos os salários como fez a Irlanda? Adiamos os investimentos públicos não produtivos (TGV, auto-estradas) como defende o PSD? Ou aumentamos uma vez mais os impostos?
Em vez de enfrentar a realidade, o Governo está mais preocupado em lançar areia para os nossos olhos. E pelos vistos, em atacar o Presidente da República, como se viu este fim-de-semana. O último que feche a porta.

Segunda-feira, 21 de Dezembro de 2009

Cachimbos de lá

Juan Gris, Livros, cachimbo e copos, 1915.

Prémio Pessoa 2009

A atribuição do Prémio Pessoa de 2009 a D. Manuel Clemente foi uma surpresa. Não porque o Bispo do Porto não o mereça pela sua obra (recomendo Portugal e os Portugueses como primeira leitura) e pelo seu empenho em aproximar a Igreja e o mundo da cultura, mas porque tem tido recentemente algumas intervenções públicas pouco consensuais. D. Manuel Clemente não é um bispo de salão. Secundou a proposta de referendo ao casamento entre pessoas do mesmo sexo e criticou a versão hagiográfica do centenário da República que vamos comemorar no próximo ano.
Ora o prémio Pessoa costuma ser entregue a figuras cuja cotação está acima de polémica, apesar de todas as idiossincrasias, e daí vem o seu prestígio. De José Mattoso a António Damásio, de Menez a Herberto Hélder, de Souto de Moura a Maria João Pires, de João Lobo Antunes a Gomes Canotilho, de José Cardoso Pires a Emanuel Nunes, de Vasco Graça Moura a Irene Pimentel, de Cláudio Torres a Bénard da Costa, a lista dos galardoados aproxima-se de um cânone da cultura portuguesa no pós-25 de Abril. Que um membro do episcopado católico, e não dos menos afirmativos, o receba agora, tem por certo algum significado.
Sem me atrever a grandes hermenêuticas, sugiro que se leia a nota oficial que acompanhou a escolha do júri. Parece-me curiosa, sobretudo, a caracterização do novo prémio Pessoa como uma "referência ética" para a sociedade portuguesa. Mais do que um reconhecimento da autoridade da Igreja em matéria tão delicada, estas palavras reflectem os tempos que vivemos.
O júri, onde pontificam conhecidos laicos como Mário Soares, exprimiu de algum modo o sentimento generalizado de que a democracia não pode sobreviver sem "referências éticas". Um tema bem tocquevilliano - sendo Tocqueville, por acaso ou talvez não, um dos autores a que Manuel Clemente recorre para definir o papel da igrejas no regime democrático. É pouco frequente ver um bispo fazê-lo. (Em Portugal, aliás, é pouco frequente ver alguém, seja crente ou incréu, citar Tocqueville, mas é ainda menos frequente ver citar Tocqueville ao lado de João Paulo II.) Num momento em que a lista de escândalos envolvendo nomes cimeiros da política, da justiça, da banca, da comunicação social torna os portugueses cada vez mais desconfiados das instituições, o prémio Pessoa é uma chamada de atenção para a qualidade moral da nossa vida pública. Ou para a falta de.
Gostaria de pensar que se trata também de um reconhecimento da reflexão sobre a identidade nacional que este bispo tem desenvolvido nos últimos anos, com destaque para a história religiosa contemporânea a que dedicou a notável colectânea de artigos Igreja e Sociedade Portuguesa do Liberalismo à República. Reconhecimento, pois, da importância do fenómeno religioso na vida colectiva. Uma mensagem interessante, quando tanto se discute o lugar da religião nas sociedades europeias.

A semanada

Uma coisa é certa: esta Ministra da Cultura, ao contrário do seu antecessor, tem o sentido do marketing. Desde que tomou posse, todas as semanas anuncia uma medida de encher o olho ou uma nomeação mediática. Sucessivamente, eis que já nos deu a notícia da reabertura do Museu de Arte Popular, a promessa de um pólo portuense da Cinemateca, a nomeação de Maria João Seixas e a garantia (corrigida pela Ministra da Educação, mas célebre por um quarto de hora) de que o acordo ortográfico avança no ano que vem.
Há dias, Andreia Galvão foi apresentada como a nova directora do Museu de Arte Popular. As suas declarações imediatas não me tranquilizaram (temo o pior: quer fazer "um museu para o século XXI"...), mas sempre é melhor do que o abandono completo dos últimos tempos.
Entretanto, faltam os dossiers mais difíceis: Foz Côa, Museu dos Coches, Opart, S. Carlos. Ou muito me engano, ou lá para Janeiro haverá novidades.
Uma por semana.

Leitura recomendada


Dava imenso jeito, era um sossego para a alma, que todos os conflitos fossem susceptíveis de uma abordagem do género: A contra B, logo um deles está certo e - por isso - o outro não. Dava imenso jeito, era uma dispensa de aflições em tratando-se de julgar, de ajuizar, coisa a que só podemos furtar-nos abdicando da nossa responsabilidade moral. A estaria sempre certo, e B errado, ou vice-versa - aconteça o que acontecer. Seria tão fácil! E daria a confortável ilusão, sempre que levantássemos o dedo acusador, de estarmos a fazer o que devemos!

E é assim, levianamente, ou sabe-se lá com que envergonhados impulsos, que, na esmagadora maioria dos casos, é abordado o conflito que opõe Israel aos seus inimigos. A verdade é desgraçadamente mais espinhosa. No território de Israel, queiram ou não os seus milhões de juízes, muitos mais do que os indivíduos que compõem as nações em conflito, estão em jogo dois direitos, duas razões - e uma única verdade, que, ou considera ambas, ou é simplesmente uma retinta mentira. Há dilemas, e o caso de Israel é apenas a sua mais eloquente ilustração nos nossos dias.

Como se constituiu e como evoluiu historicamente o combate político que resulta do dilema que opõe Israel aos árabes da Palestina? De outra forma: como se foi constituindo e evoluindo, de um lado e do outro do conflito, o discurso, o projecto para dar forma política à Palestina pós-mandatária?

É esse o tema do mais recente livro do mais conhecido dos historiadores israelitas contemporâneos, Benny Morris, durante muitos anos identificado com a nova geração de historiadores do país, que pôs em causa, designadamente através dos seus estudos sobre a formação do problema dos refugiados, a narrativa até então prevalecente no campo sionista.

O livro - One State, Two States - Resolving the Israel/Palestine Conflict - compõe-se de duas partes de valor muito desigual.

A primeira é obra, do mais elevado nível, de um grande historiador. O seu núcleo é o detalhado capítulo sobre a História das Soluções Um Estado e Dois Estados, versando sobre como da defesa de uma delas se passou à defesa da outra, no campo sionista, tendo essa passagem por data-charneira o momento em que David ben-Gurion aceitou o mapa da Comissão Peel, em 1937, propondo a primeira partição do território; e de como, no campo palestiniano, jamais se evoluiu da posição primeira, a que advoga, desde os anos 20, um único Estado, mesmo quando, por razões de aceitabilidade internacional, se quer fazer querer que se enveredou pela aceitação de Dois Estados como solução para o conflito, como foi o caso nos Acordos de Oslo (1993).

Em particular, a descrição das negociações de Camp David, em 2000 (terminadas em 2001, com um rotundo segundo «não» de Arafat, em Janeiro, já a segunda intifada alastrava), sob os auspícios de Bill Clinton, quando Ehud Barak, então primeiro-ministro de Israel, fez (ou aceitou, quando Clinton ensaiou uma tentativa extrema de salvar as negociações, alargando o âmbito das concessões aos palestinianos) as propostas mais generosas da história das sucessivas, e sempre falhadas, tentativas de solução para o conflito nos termos do modelo de Dois Estados, em particular, dizia, esta é, que seja do meu conhecimento, a narrativa mais minuciosa sobre o assunto, até ao momento.

E, na óptica de Benny Morris, a ilustração suprema da duplicidade que tem sido a marca de água de toda a história da visão palestiniana, revelador por excelência de quão radicalmente entranhada está - «nas fibras mais profundas do seu ser» - a recusa da ideia de Dois Estados. «Atrevo-me a dizer que, na hipótese altamente improvável de que Israel e a Autoridade Palestiniana cheguem, nos próximos anos, a assinar um acordo moldado sobre o esquema de Dois Estados, tal acordo será rapidamente desfeito», conclui, em nota sombria, o historiador.

Perspectiva que, por muito desesperada que pareça, não deixa de ser reforçada por declarações recentes de altos líderes palestinianos, para consumo interno, como esta de Muhammad Dahlan, ex-chefe de uma das forças policiais secretas sob o domínio da Fatah, em Março deste ano - que Benny Morris não chega a citar: «Pela milésima vez, quero reafirmar que não pedimos ao Hamas que reconheça o direito à existência de Israel. Pelo contrário, pedimos-lhe que não o faça, pois a Fatah nunca reconheceu o direito de Israel a existir.»

A segunda – e curta - parte do livro é obra do cidadão Benny Morris. À pergunta: Where to?, uma vez que a perspectiva de solução para o conflito num Estado é inviável – «ajudem-nos a divorciar!», pedem até as vozes mais liberais, como a de Amos Oz, em Israel – e a perspectiva de Dois Estados é irrecebíbel pela parte palestiniana – Benny Morris não se limita a demonstrar que assim tem sido, mas aventura também explicações para o porquê de assim ter de ser -, responde o cidadão com a ideia de que a solução passa por devolver os territórios da margem ocidental e de Gaza à Jordânia, que se reformaria numa muito pouco explicada confederação ou federação Jordano-Palestiniana, capaz, designadamente, de absorver os refugiados que os campos da Síria, do Líbano e da própria Jordânia têm reproduzido ao longo de décadas (há o pequeno e incómodo detalhe, não elaborado, de a Jordânia hashemita achar que, palestinianos, já tem que chegue e sobre).

Como já sugeri, a segunda parte é incomparavelmente de menor valia, num livro, que, em tudo o mais, se recomenda vivamente a quem se interessa pelo assunto, para efeitos mais interessantes do que acusar... a sua imensa ignorância e falta de responsabilidade no uso da faculdade de julgar.

P.S.: O livro deveria ser de leitura obrigatória para quem tem responsabilidades internacionais, e Obama e os seus assessores talvez se arriscassem a fazer e a dizer menos asneiras se o lessem. Não peço ao senhor ministro dos Negócios Estrangeiros, Luís Amado, que o leia, porque ele não tem responsabilidades, embora não perca uma oportunidade, sempre que ela aparece, de nos envergonhar.