Segunda-feira, 30 de Novembro de 2009

Manda a verdade


Que se mostre: a verdadeira fotografia, sem enquadramento e trabalho gráfico, é esta. Claro, fumando.

Eles comem tudo Eles comem tudo Eles comem tudo E não deixam nada



Confesso que não perdi muito tempo a ler a notícia, mas uma vista-de-olhos na diagonal foi suficiente para perceber que a confusão já começou. A notícia é capa no i e com direito a editorial e tudo. O Sporting tem uma gamebox duo de promoção destinada a casais, homem & mulher, solteiros ou casados, com o propósito de atrair mais mulheres ao Estádio de Alvalade. A ideia é simpática e até poderia surtir efeito não fora a queixa de que o Sporting é agora sujeito de estar a discriminar os “casais” homossexuais. Miguel Pacheco abre assim o seu editorial de hoje: “Correm tempos estranhos em Alvalade. À falta de mais mulheres nas bancadas, os leões puseram à venda um produto estranho.” É caso para dizer que estranhos são os tempos que correm fora de Alvalade. Basta uma pessoa pensar meia vez para perceber que a extensão da promoção a “casais” homossexuais dita o fim da campanha: juntamente com alguns amigos, compro anualmente uma gamebox para assistir aos jogos do Sporting; no dia em que a gamebox de promoção, destinada a casais, passar a contemplar pessoas do mesmo sexo, eu e os meus amigos deixaremos de pagar "x" euros por cada gamebox individual e passaremos a pagar "x-y" euros por metade de cada gamebox duo. Assim, o que poderia ser uma boa ideia para atrair mulheres ao Estádio de Alvalade, deixa de fazer qualquer sentido comercial. O Sporting deixa cair a promoção e ponto final no assunto. É claro que Miguel Vale de Almeida ilumina a coisa a uma outra luz: "É ilegal e absolutamente inaceitável. Só posso entender isso como pura maldade." Os itálicos são meus e servem para nos alertar do que nos espera muito em breve.

Curiosas indignações com o desrespeito pelo segredo de justiça

Na pré-campanha para as legislativas de Setembro, José Sócrates foi entrevistado por Judite de Sousa na RTP. No final da entrevista, o entrevistado foi confrontado com as notícias que (oh tão convenientemente) tinham saído nos jornais nas semanas anteriores 'informando' que o caso Freeport estava prestes a ser fechado sem qualquer acusação ou sequer suspeita ao PM. Deixemos de lado, por agora, o facto mais relevante das notícias: serem falsas (o caso Freeport ainda não foi encerrado e aparentemente ainda demorará a ser arquivado ou produzir acusações), quiçá uma 'encomenda', para usarmos as palavras de um jornal amigo; estas notícias, se verdadeiras, seriam resultado de fugas de informação do MP e de quebras do segredo de justiça.
Muito curiosamente, tendo em conta as indignações actuais e a pretensão do PS de agravar penas para a infracção do segredo de justiça, o PM, naquela situação, não esbracejou contra estas supostas fugas nem se indignou com jornalistas ou magistrados. Não, o PM respondeu à pergunta de Judite de Sousa como se considerasse normalíssimo saber-se na comunicação social os resultados de uma investigação criminal antes de esta terminar. De facto, há que ser selectivo com as indignações.

O problema

«Verdade que discutir Armando Vara enquanto a bancarrota se aproxima raia a loucura. Só que no estado a que as coisas chegaram, nada se resolverá com Sócrates. A realidade é esta
.
É assim que termina o artigo de Vasco Pulido Valente no Público de ontem. Porém, parece-me que VPV não pega no problema pelos cornos. Sugere que uma coisa é a investigação a Armando Vara, e outra bem diferente é a bancarrota que se anuncia. VPV parece não perceber que Vara e a bancarrota são duas faces ou dois aspectos (entre outros) do mesmo problema. Com ou sem Sócrates.

Confiança

Nunca se ouviram tantas exortações à "confiança" como no último ano: é a "confiança" na economia, é a "confiança" na justiça, é a "confiança" nas instituições, é a "confiança" em nós mesmos, é a "confiança" no País. É um verdadeiro arraial de confiança.
Eu não tenho nada a opor, desde que se acrescente a pergunta indispensável: a confiança deve estar limitada apenas ao que é confiável? Ou também devemos confiar no inconfiável?

Arendt


A imagem parece-me particularmente... bela. Hannah Arendt, sem estar a fumar. Até por isso é rara. Aqui fica. Para os admiradores, como eu, na proximidade de mais um aniversário.

Citação montesquieuana do dia

«Os costumes de um povo escravo são uma parte da sua servidão; os de um povo livre são uma parte da sua liberdade.»

A ver

Pacheco Pereira sobre um certo "blogue", o prémio que o i recebeu e a reportagem da SÁBADO sobre o governo, as empresas semi-públicas e a publicidade nos jornais.



Da série "Tshirts políticas"

Domingo, 29 de Novembro de 2009

Nºs, nºs, nºs

Números, números, números. 57% dos suíços, inesperadamente, votaram favoravelmente o banimento à construção de minaretes. Israel prepara-se para trocar 980 terroristas por Gilad Shalit. E o Irão anuncia 10 novas centrais de enriquecimento de urânio. Para um domingo que deveria ter sido calmo, foi obra.

Os loucos anos 80 (102)



A vida vai torta
Jamais se endireita
O azar persegue
Enconde-se à espreita

Nunca dei um passo
Que fosse o correcto
Eu nunca fiz nada
Que batesse certo
(...)

Circo de Feras, Xutos e Pontapés (1987)

Hannah Arendt e a sua «fé»

Dedico este post ao meu grande amigo Rabino Eliezer Shai di Martino


Hannah Arendt, fumando

Vou tentar falar de Hannah Arendt e da sua «fé», que eu creio ser quintessencialmente judaica, mais, muito mais do que provavelmente ela sabia (desculpem-me a imodéstia).

Que seja do meu conhecimento, há apenas uma ocorrência, nos escritos de Hannah Arendt, sobre o problema. Está na correspondência que ela manteve com Karl Jaspers, a mais vasta das suas correspondências, durando de 1926 a 1969.

Em 15 de Fevereiro de 1951, Karl Jaspers envia-lhe de Basileia uma carta agradecendo-lhe efusivamente o envio de um exemplar das Origens do Totalitarismo.

Querida Hannah!

O seu livro acaba de chegar. Mesmo antes de o ler - e estou ansioso por fazê-lo - quero agradecer-lhe imediatamente e dizer-lhe que o livro chegou e está nas minhas mãos. (...)

Li apenas a introdução: brilhante, parece-me - nunca vi a situação e a tarefa do nosso tempo apresentadas com tal clareza, simplicidade e vivacidade.

E o capítulo final, que já conhecia parcialmente. Maravilhoso na sua exigência - que é simultaneamente justa e necessária. Mas como conseguiremos que ela seja aceite por todos? Será necessário mais do que fazê-la, para que seja cumprida.

Não ficou Jahweh demasiado de fora do campo de visão?

Hannah Arendt responde-lhe em 4 de Março do mesmo ano.

Lieber Verehrtester-

(...) A sua questão «Não ficou Jahweh demasiado de fora do campo de visão?» tem estado no meu espírito desde há semanas, sem que eu seja capaz de chegar a uma resposta para ela. Não mais do que fui capaz de encontrar uma, para a minha própria exigência inclusa no capítulo final. Ao nível pessoal, faço o meu caminho pela vida com uma espécie (infantil? porque inquestionável) de confiança em Deus (por oposição à fé, que pensa sempre que sabe e, portanto, tem de se debater com dúvidas e paradoxos). Não é possível fazer muito mais, com isso, é claro, do que ser feliz. (...)

E é Jaspers quem remata este pequeno diálogo sobre a «fé», uma semana depois.

Querida Hannah! Que alegria, a sua carta de 4 de Março. (...)

A sua confiança «infantil» em Deus, não é isso filosofia? Num certo ponto, somos crianças: de outra forma não conseguiríamos viver - e agradecemos que toda a reflexão, que não conhece limites para si própria, regresse sempre, em última instância, a um impulso não intelectual, do qual toda a verdade, basicamente, procede. (...)


É claro que a felicidade primordial de que fala Arendt, e Jaspers comenta tão bem, não se prestava a posteriores paráfrases, e esta conversa ficou onde tinha de ficar: por aqui.

Na sua aparente simplicidade, há algo de extremamente significativo, para o propósito deste post, que é dito por Hannah Arendt, distinguindo entre Fé e Confiança.

De facto, fé é o termo pelo qual é quase sempre traduzido o vocábulo hebraico emunah. Mas de uma forma que não capta o essencial da espiritualidade judaica, nele contido. Por vezes, porém, a imperfeição da tradução é de tal modo patente, que coloca problemas insolúveis, optando-se então forçosamente por outros termos, que justamente sugerem uma aproximação semântica ao termo emunah, mais fiel. Como na primeira oração que qualquer judeu religioso faz, logo ao acordar:

Modê ani lefanekha
Melekh khai vêkaiam,
shêkhêzarta bi nismati
bekhemlá
rabá emunatekhá.

Que traduzo,

Dou graças perante ti,
Rei vivo e eterno,
Por me teres restituído a alma,
Com compaixão.
Grande é a Tua...

Fé? Obviamente que não! A Tua - aqui, em inglês, o tradutor costuma optar por Trustworthiness: Fiabilidade. Não encontro melhor termo para traduzir emunatekhá.

É dessa confiança matinal em Deus que Hannah Arendt fala, no curto texto que ocorre na troca de correspondência com Jaspers.

Mas certamente que tudo ficará mais claro para o leitor, se seguir, aqui, Menachem Kellner (é mesmo provável que nada do que digo seja compreensível, se a leitura não for feita...), no seu belo ensaio sobre a Fé Bíblica, tal como é compreendida pelo Judaísmo, a atmosfera espiritual em que, afinal, respirava Hannah Arendt, talvez, repito, mais do que ela soubesse - o seu era um meio familiar bastante secularizado -, mas que tão eloquentemente articulou, na sua resposta a Jaspers.

Sábado, 28 de Novembro de 2009

Hannah Arendt, pequena homenagem antes de 4 de Dezembro

Hannah Arendt, a grande, a imensa filósofa (o corrector de texto não reconhece esta palavra, e ela própria não se reconhecia, e com boas razões para o fazer, nessa categoria profissional), morreu em 4 de Dezembro de 1975. Dentro de dias estaremos a celebrá-la, em mais uma data aniversária.

O que acho absolutamente espantoso neste pequeno vídeo, em que Susan Neiman fala de Hannah Arendt e de um tópico fundamental, talvez o tópico fundamental do seu - de Hannah Arendt - pensamento - o problema do mal -, é o ele conseguir fazê-lo de um modo tão claro e conciso.

Mas há mais, e é importante dizê-lo, até mesmo porque, com frequência, isso não foi notado pelo exército de estudiosos da obra da filósofa.

E nesse mais quero sublinhar o horizonte teológico - judaico - do pensamento de Arendt, horizonte relativamente ao qual o seu pensar manteve uma permanente ligação em tensão, sem nunca dele descolar verdadeiramente.

Que o mundo seja um lugar bom para os homens viverem (é assim que Deus avalia a sua criação), e não o exílio heideggeriano da inautenticidade, eis o que a radica nesse horizonte e converte o problema do mal no desafio supremo da actividade pensante. Tudo é extremamente complexo no seu pensamento. Mas creio não me enganar, se disser, com Susan Neiman, que todo o esforço da filósofa foi o de tentar compreender como é que pode surgir, florescer, o mal, até atingir a figura inaudita da Shoah, sem que a bondade ontológica do mundo seja susceptível de impugnação, e sem que a realidade do mal seja simplesmente rasurada (superada), com recurso aos números de prestidigitação da dialéctica hegeliana (ou qualquer outra).

Mas ouçamos, por um minuto, Susan Neiman.


Como de costume, não chega

A resposta do líder palestiniano Mahmud Abbas à moratória anunciada por Benjamin Netanyahu à construção de colonatos foi a que se esperava, aqui. Depois de a ter exigido como condição para o recomeço das negociações de paz, a inesperada resposta positiva de Israel foi considerada insuficiente. Nada, absolutamente nada de novo daquele lado.

Como nota com cristalina clareza o editorial do Jerusalem Post, a resposta de Abbas é lógica e consistente com a tradição. Abbas, mesmo que quisesse, não pode corresponder. Nem sequer fingir que o faz, com eleições à porta. Porque, como é óbvio, não são os colonatos na margem ocidental do Jordão o pomo da discórdia.

Ao contrário do que querem as boas almas, muitas vezes cheias de boa vontade, a questão não é, nunca foi, tão-pouco uma questão de partilha de territórios, mas a da existência de Israel. E, uma vez mais, mesmo que Abbas quisesse condescender, não poderia fazê-lo. Entrar em negociações supõe aceitar o princípio de um compromisso durável entre as partes. Ora, é a existência de uma das partes que não pode ser aceite. E, na actual, conjuntura, nem a brincar.

Inglês Técnico


«A throwaway prepaid cellphone, typically used by dealers. Used until the minutes are up, then thrown away so they cannot be tapped

Revisão artística sugerida aqui em baixo:

Gotta use them burners, nigga.

Joseph de Maistre

Tanto os liberais, como a esquerda em geral, sempre viram Joseph de Maistre como um monstro assustador, de capa negra e dentes podres, que queria voltar a impor o jugo terrível da Inquisição e endoutrinar as criancinhas com a aliança entre o Trono e o Altar. Ora eu sempre o achei divertido. Um exemplo: Maistre, numa nota de rodapé de uma das suas obras mais famosas, confessa a sua ignorância sobre a origem da lenda de que as terríveis violências e crueldades da conquista espanhola das Américas ocorreram por instigação dos padres. Termina a dita nota de rodapé mencionando que a única pista que tem para este enigma foi-lhe dada por um amigo espanhol, que lhe disse: "Julgo que é uma historieta desse imbecil do Garcilasso* (sic)"
.
*(referência a Garcilaso de la Vega - não o poeta, mas "El Inca" - que publicou a narrativa mais célebre desse período da história da expansão espanhola).

Dubai - A Vertigem


Foto surripiada de Il Foglio.

António Barreto e o estado do País (2)

Que conclusão se impõe tirar? E isto para não lhe perguntar que caminho pisar...

Se não houvesse a Europa e se ainda houvesse Forças Armadas, já teríamos tido golpes de Estado. Estamos à beira de iniciar um percurso para a irrelevância, talvez o desaparecimento, a pobreza certamente. Duas coisas são necessárias para evitar isso. Por um lado, a consciência clara das dificuldades, a noção do endividamento e a certeza de que este caminho está errado. Por outro, a opinião pública consciente. Os poderes só receiam uma coisa: a opinião dos homens livres.

Poderemos estar à beira de uma crise institucional?
Com a justiça que temos, sim! Com a cultura dominante nos partidos, sim!

Hoje no i.

António Barreto e o estado do País

Prefere chamar-lhe "dependência"?

Prefiro, acho que é mais grave. Em Portugal quase toda a gente depende do Estado, do governo, das instituições públicas oficiais, dos superiores, dos empregadores. Não há verdadeiros focos de independência. Depende-se de muita coisa: do alvará, de ter autorização, de ser aceite, da boa palavrinha do bom secretário de Estado que diz ao bom banqueiro que arranje uns bons dinheirinhos para fazer o investimento. A dependência é enorme. Não é asfixia, uma vez mais, é dependência. As pessoas têm receio pelo seu emprego, pelo seu trabalho, pelo trabalho da família. Conheço algumas que até têm receio de falar...
.

O Estado de Direito

Andei a percorrer os blogues do costume e não encontrei nenhuma referência a esta notícia. Será que os paladinos do Estado de Direito andam distraídos? Ou não ficaram indignados com a possibilidade de suspeitos terem sido avisados que estavam a ser escutados?

Charles Taylor em Português - e um brinde para os leitores do Cachimbo


Saíu a tradução portuguesa da Ética da Autenticidade de Charles Taylor (pelas Edições 70). O excelente trabalho de tradução ficou a cargo do meu amigo Luís Loia. E, para além disso, o volume conta ainda com quatro pequenos ensaios sobre a filosofia política de Taylor da autoria do Luís, e de outros três autores, entre os quais se conta o nosso ex-Cachimbo Hugo Chelo e grande companheiro dos copos de cevada.
Como se isso não bastasse, e porque o Natal se aproxima, fica aqui a introdução do volume escrita pelo Luís Loia.

Os 30 anos da Aliança Democrática





























Foi há exactamente 30 anos com esta "Mensagem aos Portugueses" que a Aliança Democrática se apresentou a Portugal num projecto que convocou muitas boas vontades e mobilizou meio país para o primeiro projecto não socialista do pós 25 de Abril.
São desse tempo as minhas primeiras memórias políticas. A manifestação da Alameda que fui com os meus pais e os meus avós. Um eléctrico com os cartazes de Freitas do Amaral, Sá Carneiro e Ribeiro Teles que apanhei em Belém, as caravanas por Lisboa num Dyane aberto.
Tinha apenas 9 anos e, sem saber bem o que era, senti a mobilização e a alegria que alastrava na minha família e em muitos amigos dos meus pais que se reuniam em nossa casa.
Trinta anos é tempo de reflexão.

Sexta-feira, 27 de Novembro de 2009

Não basta ter mais cartões que o Stringer Bell


Gotta use them disposable, nigga.

Estou muito surpreendida

Passei o dia inteiro sem ouvir das hostes socialistas um único vitupério (mesmo que pequenino ou pouco veemente) por estas fugas de informação e por este desrespeito pelo segredo de justiça. Parece que só as fugas de informação para os media são motivo para exibição de almas indignadas.

A Fascinante Descoberta do Estado de Direito

Cada dia se conhecem melhor os pilares do "Estado de Direito" que existe em Portugal. Vai-se conhecendo melhor a matéria de que são feitos e o seu estado de conservação. E a julgar pelo que se ouve da boca de alguns dos oráculos do regime, constata-se que os pilares do "Estado de Direito" são como os porcos no conto de Orwell: são todos iguais (ou, neste caso, igualmente importantes), mas uns são mais iguais do que os outros.

Os Pais da Europa

O Parlamento Europeu em Portugal teve hoje a amabilidade de me oferecer o Dicionário de Termos Europeus (publicado pela Aletheia), com contributos de académicos, eurodeputados portugueses e funcionários das instituições europeias. Fui imediatamente verificar a entrada "Pais Fundadores [da Europa]" (da autoria de Miguel Seabra). Para além das tradicionais remissões para as entradas "Konrad Adenauer", "Robert Schuman", "Jean Monnet", "Alcide De Gasperi" e "Paul-Henri Spaak", foram incluídos na lista Aristóteles, Tomás de Aquino, Dante, Kant, Victor Hugo "e tantos outros".
Bem, pode ser que nos "tantos outros" esteja incluído um dos grandes "pais" da Europa - o homem que até inventou a expressão "União Europeia": Castel de Saint-Pierre. Mas se o Kant mereceu destaque, com mais razão Saint-Pierre deveria ter tido direito a nomeação.

Mensagem aos Portugueses

É urgente criar um novo poder político democrático, capaz de pôr termos à crise de identidade e desorientação em que o país vive.
Portugal precisa de um poder político estável, com efectiva capacidade inovadora e reformadora, e susceptível de gerar um largo consenso nacional. As transformações sociais requeridas pela modernização do País e pela sua preparação para o desafio europeu impõem o aparecimento de uma nova maioria política. Só através dela será possível responder aos apelos de progresso, de liberdades e justiça social, de dignidade humana e solidariedade, de descentralização e competência, que percorrem e animam a sociedade portuguesa. Só através dela será também possível criar um novo sistema político e económico, assente no Estado de Direito, na liberdade e criatividade das pessoas e das comunidades, e na defesa dos mais desprotegidos.
Portugal não deve continuar por mais tempo sem um autêntico Governo, à mercê de arranjos partidários efémeros ou de ministérios transitórios, em que o País não acredita e a Assembleia da Républica não apoia. A existência de de uma gloriosa nação não pode tornar-se uma sucessão de crises políticas, sociais e económicas, uma permanente guerra de todos contra todos.
Portugal pede liberdade trabalho e progresso.

Conferência com Cachimbo

O Miguel Morgado, o Francisco Pinto Balsemão e o José Manuel Fernandes são os oradores da próxima conferência do Instituto Francisco Sá Carneiro a ter lugar já no próximo dia 2 de Dezembro, quarta-feira, no Hotel Tivoli às 21:00h. O tema é “PSD 35 Anos: Novos Tempos, Novos Desafios, Novas Ideias” e a entrada é livre, podendo também ser acompanhada em directo na net no site do IFSC.

Strokes

Citação montesquieuana do dia

«A polidez lisonjeia os vícios dos outros, e a civilidade impede-nos de exibir os nossos.»

Oposição derrota o governo

Hoje viveu-se no Parlamento o primeiro momento que demonstrou que o PS já não detém o poder absoluto em Portugal. O adiamento da entrada em vigor do novo código contributivo e o possível fim do PEC são boas notícias para os portugueses. Esta é a nova realidade governativa, e que parece apanhar de surpresa o governo, que contava prosseguir com a sua agenda sem levar em conta o novo estado da Assembleia da República. O governo de José Sócrates para ter sucesso terá de ter capacidade negocial na Assembleia da República para aprovar as suas propostas e o seu modelo de governação. Esse é o resultado da vontade dos portugueses manifesta nas últimas eleições legislativas. Que o PS tenha aprendido a lição.

Já saíu a Monocle deste mês

Comprei hoje a minha, a coisa promete, alguns dos conteúdos aqui.

Natureza, essa coisa insignificante



"O pombo"


"O lobo"

Checks and balances

Este Governo tem uma relação tensa com poderes que não consegue dominar. Tem sido assim com a comunicação social - recordo aqui os ataques à TVI e aos jornais Público e Sol - e agora com o poder judicial, acusado pelo ministro Vieira da Silva de “pura espionagem política”. É conhecido o desconforto socialista, que vem já desde o processo Casa-Pia, perante a independência dos procuradores do Ministério Público.
Lendo o comunicado dos juízes portugueses, que transcrevo abaixo, vendo a nossa democracia vacilar numa crise política e ética sem precedentes (pelo menos desde os tempos revolucionários), recordo que os mecanismos de vigilância do poder político são essenciais numa sociedade democrática. A existência de tribunais independentes e prestigiados, e de uma imprensa livre e atenta são fundamentais para conseguirmos ultrapassar esta crise, aumentando a qualidade e a transparência na nossa vida pública. Como dizia Montesquieu "só o poder limita o poder".

Da série "vale a pena ler"

Editorial da Direcção Nacional da Associação Sindical dos Juízes Portugueses sobre a discussão pública sobre o caso "Face Oculta":

«4. Repudia veementemente as insinuações e falsas acusações de responsáveis políticos, nomeadamente membros de órgãos de soberania, que visam apenas descredibilizar a actuação das autoridades judiciárias. Todos os que desempenham cargos públicos de responsabilidade têm um especial dever de respeito pelos princípios da separação de poderes e de acatamento das decisões dos Tribunais, não devendo contribuir com desinformação que coloca publicamente em causa a autoridade do Estado. (...)
10. Proclama que é uma exigência da sociedade serem asseguradas aos juízes e aos procuradores do processo "Face Oculta" todas as condições de tranquilidade e segurança, para desenvolverem o seu trabalho com qualidade e cumprirem a sua função com imparcialidade e liberdade de consciência, pois só se fará Justiça se os crimes eventualmente cometidos forem completamente investigados, os seus autores punidos e os inocentes inequivocamente ilibados.
11. Afirma e declara que qualquer tentativa de constrangimento ou condicionamento da actuação dos juízes do processo, fora dos mecanismos próprios de fiscalização pela via do recurso, constituirá uma ofensa intolerável aos princípios da independência e separação de poderes, que levará a ASJP e os juízes a encontrarem as respostas adequadas.»

Quinta-feira, 26 de Novembro de 2009

Quadratura do Círculo

A ver, hoje, às 23, Quadratura do Círculo, na SIC-N. Espero não vos estar a induzir em erro, com base na expectativa que me foi suscitada em relação ao interesse especial do programa de hoje.

Coisas do espírito, ou talvez não

Este meu post, Opressão intelectual (2), foi interpretado pelo Lutz como um reflexo da minha “estreiteza de espírito” e “fanatismo religioso” (na caixa de comentários, ainda, “fundamentalismo religioso”). Deixo de lado a questão do “fanatismo” ou “fundamentalismo”, pois, nos tempos que correm, qualquer referência à religião, e sublinho o qualquer, não deixará de ser sempre interpretada como uma forma de fanatismo e fundamentalismo (inclusivamente, por estranho que possa parecer, quando nem sequer há qualquer referência explícita à religião, como é o caso do meu post em análise.) Mas confesso que fiquei intrigado com a questão da “estreiteza de espírito”. Curiosamente, segundo a minha interpretação do modo como vamos vivendo e pensando as coisas, a “proibição de perguntar” que eu explicitamente critico neste meu outro post, Opressão intelectual, a ausência da questão da natureza ou de Deus, não é senão um sintoma da “estreiteza de espírito” que agora, paradoxalmente, me é atribuída. Afinal de contas, pergunto eu: De que “espírito” se fala quando se fala de “estreiteza de espírito”? Que “espírito” é este? Que antropologia está subjacente a este “espírito”? Assim, de repente, sou tentado a pensar que o “espírito” de que me acusam ser “estreito” não é exactamente o “espírito”. Ele é antes é uma coisa qualquer, sem significado preciso, que resulta de uma certa “estreiteza de espírito” no modo como se pensa a palavra “espírito”. Nada de novo, portanto.

Os loucos anos 80 (101)


A velhinha RTP estreou a série Os Jovens Heróis de Shaolin logo no início da década. Os saltos acrobáticos e os efeitos especiais (de qualidade muito duvidosa...) aplicados às artes marciais, marcaram toda uma geração. O tema de abertura, cantado num chinês indecifrável, tornou-se um ícone musico-televisivo da década, que fez mais pelo encontro de culturas do que dez congressos sobre tolerância e multiculturalismo. Um verdadeiro clássico.

Lógica de esquerda

A ideologia - e quero neste caso dizer com esta palavra aqueles encadeados de ideias que se ligam por operações de lógica e se fecham sobre si, hermeticamente impermeáveis a qualquer sinal de realidade - tem coisas sinistras, deste jaez. Recep Tayyip Erdogan, primeiro-ministro da Turquia, acha que:


1) Nenhum muçulmano comete genocídios;
2) Omar al-Bashir, o líder sudanês, é muçulmano,

Logo:
3) Não há, nem houve, pois não pode haver, nenhum genocídio em Darfur.

Vejamos se funciona:

1) A esquerda é boa, quer dizer, é moral;
2) Lula é de esquerda,

Logo:
3) Não há, pois não pode haver, nada de especialmente imoral no apoio de Lula da Silva e do Brasil a que preside a Ahmadinejad e ao Irão dos ayatollahs.

Funciona.

Mas Ahmadinejad não denuncia o Holocausto como uma mentira sionista e propõe-se ele fazer o que Hitler não fez?

Não. Ahmadinejad talvez não seja de esquerda. Mas a esquerda - Lula, Morales, Chavez, - gosta dele. Soares gosta de Chavez e Rui Tavares gosta de Lula. Logo, como a esquerda é boa, quer dizer, é moral, Ahmadinejad não pode ser levado a sério quando fala de genocídio em Israel.

E não é que funciona mesmo?

O esbirro passeia por Brasília o seu esplendor (aumentado)


Lula, a darling de tanta esquerda, recebeu Ahmadinejad em Brasília, passando a integrar, com Evo Morales e Hugo Chavez, o trio de apoio latino-americano ao ditador iraniano. Não foi um mero gesto de simpatia sem consequências. Lula defendeu, na presença do esbirro, o «direito» do Irão «à energia nuclear», ou seja, o direito do esbirro a reunir os meios para fazer o que projecta: limpar Israel do mapa, um segundo holocausto. E calam-se, agora? Ou não há ali nenhum problema?

P.S.: Na troca de afabilidades, o Irão ofereceu ao Brasil apoio na reforma do Conselho de Segurança das Nações Unidades, onde se contempla um seu lugar entre os membros permanentes. Poder-se-ia dizer, comparando com a diplomacia portuguesa, que entrou também em ciclo de permanente lambebotismo ao que de pior há no mundo muçulamano: ao menos no Brasil é em grande. Portugal de Sócrates e Luís Habib anda apenas a ver se compra um ticket para uma passagem pelo Conselho, no lugar dos rotativos. Mete dó. Mas assim vai o desconcerto das nações.

Opressão intelectual (2)

Quando o Pedro Picoito, no Prós & Contras, depois de esclarecer que apenas uma percentagem mínima de homossexuais decide casar, fez a pergunta retórica ao Miguel Vale de Almeida acerca da sua intenção de casar ou não casar, estava somente a salientar uma evidência: os defensores do casamento homossexual não querem saber do casamento para nada e estão apenas a instrumentalizar este instituto para avançar a sua agenda identitária. O facto não é novo.

Já ninguém estranha que as mesmíssimas pessoas que tudo fizeram, ao longo dos últimos anos, para fragilizar o casamento, mediante, por exemplo, a instituição das uniões de facto e a facilitação do processo de divórcio, apareçam agora, curiosamente, a considerar o casamento como um bem precioso. Pelo contrário, os críticos do casamento homossexual estão agora a fazer o que sempre fizeram: defender o casamento, estável e duradouro, como o instituto nuclear de regulação familiar e social.

Dizer, como dizem os seus defensores, que o casamento homossexual em nada interfere com o casamento e vida familiar dos outros, é uma mentira descarada. O casamento homossexual tem implicações sociais relevantes, e uma delas, como se pode verificar através do vídeo que deixo em baixo, é a educação escolar das crianças.

Também não é por mero acaso que as mesmíssimas pessoas que tudo fizeram e fazem para fragilizar o casamento, estejam na linha da frente da obrigatoriedade da educação sexual nas escolas. Não se trata apenas de extravagâncias de sexólogos, como a célebre Marta Crawford, a opinar que “os miúdos da 4ª classe deviam brincar com preservativos”, mas antes, e acima de tudo, da prossecução de uma agenda fracturante com o propósito único de virar de pernas para o ar a moral familiar prevalecente no nosso ambiente cultural (há quem lhe dê o nome de moral cristã, outros de moral burguesa, outros lhe darão outro nome qualquer).

Como não é por acaso que as mesmíssimas pessoas que defendem a obrigatoriedade da educação sexual nas escolas, públicas ou privadas com contrato de associação com o Estado, estejam na linha da frente contra a liberdade de educação, a autonomia do projecto educativo escolar e a escolha da escola por parte das famílias. Claramente, a ideia é obrigar todas as crianças, naturalmente indefesas e permeáveis à autoridade dos professores, a crescer numa atmosfera condizente com a agenda fracturante que uns poucos vanguardistas pretendem impor a todos os outros.

Em suma: há uma estratégia concertada, desenvolvida em várias frentes, no sentido de transformar a sociedade portuguesa. Usa-se as crianças independentemente da vontade dos pais. Usa-se o Parlamento independentemente da vontade do povo. Não seria pior se todas as pessoas de boa vontade – e são imensas aquelas que, independentemente da sua cor partidária e profissão religiosa, reconhecem a bondade da moral familiar que tem prevalecido no nosso ambiente cultural – estivessem atentas às pequenas mudanças que, aqui e ali, sempre sob a capa das melhores intenções, têm alterado, em muito pouco tempo, mas de modo muito evidente, a teia de relações pessoais e familiares que a maioria dos portugueses ainda preza.

Petição Plataforma Cidadania e Casamento


Podia ser o jornal do capitalismo,

Mas está reduzido a um triste espectáculo de Pravda do regime, a juntar a uma colecção cada vez maior.

Quarta-feira, 25 de Novembro de 2009

A hipocrisia da estupefacção

O deputado socialista Ricardo Rodrigues afirmou hoje que ficou “estupefacto” com a manutenção de Fernando Lima na Presidência da República. Mas o mesmo deputado foi uma das caras da “defesa” da manutenção de Lopes da Mota no Eurojust, mesmo depois de lhe terem aberto um processo disciplinar devido às suas interferências no caso Freeport. E será que alguém se recorda de o ouvir a pedir a demissão do gestor público José Penedos, militante socialista que hoje foi obrigado pelo poder judicial a afastar-se da REN? E o que será que este deputado pensa dos vários casos de suspeição que envolvem alguns dos seus dirigentes partidários? Será que também ficou estupefacto com a manutenção dos mesmos nos cargos? Se este deputado tivesse algum pudor, tinha-se abstido de comentar esta notícia de Fernando Lima. É que eu saiba, não é suspeito de ter cometido crime algum, ou será que foi apanhado em alguma escuta, e o magistrado desse processo considerou que estava a cometer um crime de atentado contra o Estado de Direito. Se fosse esse o caso, talvez entendesse a sua estupefacção.

Querem mesmo a paz? Ou é como de costume?

Por acaso estou curioso em relação à cobertura dos media relativamente a esta notícia.

Já não não estou tanto relativamente aos líderes palestinianos, a braços com eleições convocadas por Mahmud Abbas, para Janeiro. Presumo que qualquer passo no sentido de corresponder lhes seria fatal.

E, afinal, o congelamento de construção nos colonatos era a condição sina qua non para o reinício das negociações de paz, segundo o próprio Mahmud Abbas. Era mesmo?

Obrigado, 31

25 de Novembro; a liberdade também se desaprende

Há 34 anos, contra o Partido Comunista e o resto da esquerda radical, Portugal decidiu-se pela democracia. Há 34 anos, o país esteve a um milímetro de uma guerra civil, e o desastre foi evitado. Há 34 anos, e não há 35, a natureza do regime, do regime em que vivemos, definiu-se. Mário Soares sabia, então, de que lado estava. Eu hoje não sei onde ele está, ou não quero aceitar que não está onde estava, porque o respeito que não consigo deixar de lhe ter pelo que fez para que Portugal evitasse o pesadelo comunista leva sempre a melhor sobre o meu espanto face às suas posições mais recentes, como é a simpatia que nutre por gente tão abjecta como Hugo Chavez.

Aqui fica, para recordarmos. Cunhal jogava em casa. E Soares, Soares acreditava na liberdade. «Olhe que não» foi a 6 de Novembro. A única coisa saudável que se respirava naquela atmosfera era o fumo do tabaco.

Corrupção

A corrupção passou para a primeira linha de combate do PSD, noticia o jornal Público, hoje. A ver, a seguir e, para já, a aplaudir.

Aumento de impostos?

A propósito de mais um orçamento rectificativo, o Primeiro-Ministro declarou ontem que não haverá qualquer subida de impostos até ao final da legislatura. Pois seria bom. Mas, assim de repente, lembrei-me do novo Código dos Regimes Contributivos da Segurança Social, com entrada em vigor no próximo dia 1 de Janeiro. Este diploma vem alargar muito a base de incidência contributiva (artigo 46.º, n.º 2) dos descontos para a Segurança Social, tanto de trabalhadores dependentes (contrato de trabalho) como independentes (prestadores de serviços, designados genericamente por "recibos verdes"). Ou seja, o nosso salário líquido será menor nos próximos anos e vamos pagar mais ao Estado todos os meses. Outros exemplos podiam ser dados de como o "monstro" público se consegue alimentar. Em qualquer caso, o nosso grande problema é político: já ninguém leva a sério o que diz José Sócrates.

Terça-feira, 24 de Novembro de 2009

Responsabilidade política, dizia Vital

Na linha do que aqui escrevi, concordo com o texto do Pedro Lomba, hoje no Público, sobre a incoerência do actual deputado europeu Vital Moreira ao defender uma avaliação exclusivamente "jurídica" do actual Primeiro-Ministro José Sócrates, nas suas conversas com Armando Vara, arguido do caso "face oculta", quando em 2002 defendia uma responsabilização "política" do então Ministro da Defesa Paulo Portas, no caso da Universidade Moderna.

Porque razão não podemos responsabilizar politicamente José Sócrates, por factos relevantes de que há conhecimento público? É óbvio que, mesmo que José Sócrates não tenha praticado nenhum crime (o que é provável, concordo), os cidadãos têm o direito de avaliar politicamente o que disse o actual Primeiro-Ministro a um ex-ministro socialista sobre como influenciar certos meios de comunicação social. Bem sei que Vital Moreira nos tem habituado a mudar muitas vezes de opinião ao longo da vida, mas não vale a pena exagerar.

História Económica Mundial (últimos 40 anos): Declínio (de uns) e Ascensão (de outros)

E agora, Europa?

Gráfico surripiado daqui.

Narcose

As pessoas mais bem-aventuradas, quando começam a morrer a grande velocidade, desencadeiam em si um processo que, se a memória não me falha (não sou médico), dá pelo nome de narcose. Perdem progressivamente consciência do que se passa à sua volta e apagam-se com um sorriso nos lábios. Morte santa, dizia o meu pai.

Lendo hoje o editorial do Pedro Guerreiro, no Jornal de Negócios, percebe-se melhor o que estou a dizer.

Assim vai o meu país.

P.S.: O PSD tem alguma culpa. A evacuação do problema orçamental do discurso político também se lhe fica parcialmente a dever. É certo. O «défice» e a dívida não dão votos. Mas o «défice» e a dívida não são o défice e a dívida: são apenas as contas de um país que deixou de ser possível. E a narcose em que entrámos não nos altera o fado. Como compreendo os meus amigos, que suspiram por um grande estoiro antes do fim, em vez deste sorriso narcótico, na esperança de que, mesmo antes do fim e depois do estoiro, ao menos então seja possível fazer alguma coisa para evitar o fim.

O crepúsculo dos ídolos

Desta vez, as previsões do Banco de Portugal não chegaram ao rigor olímpico de 2005, altura em que o sr. governador tinha suficiente confiança para ir até às casas centesimais. São outros tempos. Mas seja como for o sr. governador lá foi dizendo que a situação das contas públicas não se recomenda, e que é preciso subir impostos, etc., etc. O que mais me surpreende é saber que, afinal de contas, este défice é um problema económico também, quando toda a gente jurava que não, que só o estímulo à economia era importante, e quem pusesse isso em causa era ou ignorante, ou saudosista de Salazar.
Agora, percebo finalmente que essa coisa do "multiplicador keynesiano" tem de ser conjugada com o estado das finanças públicas em geral - assim como o do endividamento externo; que omitir essa parte do problema é capaz de não ser conveniente, a menos que se queira destruir de vez a economia portuguesa. Percebo finalmente porque aprendi com o sr. governador. Gostaria de ter percebido há mais tempo, quando estas matérias deveriam ter sido discutidas com menos ruído de fundo da propaganda, da contra-propaganda, dos assessores e das equipas de marketing. Não foi possível; eu compreendo.
Mas ainda me falta compreender o seguinte: se este é o actual estado de coisas, onde é que fica o TGV como grande instrumento do desenvolvimento nacional? E as auto-estradas mais preciosas do que a água no deserto? E todas aquelas grandes obras públicas que os oráculos do costume nos atiraram à cara como um prodígio da ciência "keynesiana" que só a tacanhez de espírito nos impedia de adorar? Que destino para esses ídolos que se levantaram no Verão de 2009?

Da série "a frase do dia"

«Impartiality is a pompous name for indifference, which is an elegant name for ignorance.» G.K. Chesterton

Segunda-feira, 23 de Novembro de 2009

Parece que é mas não é

É hilariante, mas não é uma notícia do Inimigo Público. É mesmo do Público. E se ele faz escola de humor em Portugal, ainda vamos... rir?

SNL não viaja de avião

Antes da descolagem do avião, lá estão as hospedeiras a ensinar o bê-à-bá da sobrevivência: simulam a queda das máscaras de oxigénio, “puxa-se assim, coloca-se na boca, estica-se assado”, “no caso de termos crianças ou outras pessoas ao nosso cuidado, primeiro colocamos a máscara em nós próprios e só depois cuidamos dos outros …” Como pelas bandas do Saturday Night Live não se viaja de avião, têm a pretensão de querer salvar a América de 2012 da Sarah Palin sem cuidarem de salvar a América de Obama hoje. O que vale é que os americanos não são o Saturday Nigh Live e em 2009 já não vão nas patranhas de 2008.

ai Jesus que lá fui eu

Indo eu, indo eu,

Encontrei o meu amor,
ai Jesus que lá fui eu,
Encontrei o meu amor,
ai Jesus que lá fui eu,

Ora zuz, truz, truz,
ora zas, traz, traz,
Ora zuz, truz, truz,
ora zas, traz, traz,
ora chega, chega, chega,
ora arreda lá p'ra trás,
ora chega, chega, chega,
ora arreda lá p'ra trás.

Cassete "pimba"

Tens toda a razão, Alexandre. No lado A da cassete passam as malhas da "crise internacional", com o discurso da desculpabilização quando os indicadores económicos são maus. No lado B passam as malhas da "competência", com o discurso do bom governo socialista quando os indicadores são melhores. O título da cassete é bem conhecido: A vergonha não mora aqui. O subtítulo nem tanto: Música só para os ouvidos dos totós. Por estranho que possa parecer, o que não falta por aí são totós. A cassete tem vendido imenso desde o dia do lançamento no Natal de 2008.

Estado de Direito?

"Cada dia se aperta mais o cerco", Helena Matos

"Os senhores que se seguem", Helena Matos

Memoshoá - Associação Memória e Ensino do Holocausto

Uma bela iniciativa de Esther Mucznik, Ricardo Presumido, Paula Leal Presumido e Marta Torres. Um site a seguir por todos os que se interessam, com interesse especial para os professores da escolas portuguesas. Parabéns!

Roça Bombaim


[Ilha de São Tomé, Novembro de 2009 - clique para ampliar]

A crise assenta-lhes tão bem

É difícil ter paciência para ouvir repetidamente a mesma cassette. Não há dia que não leiamos/ouçamos um ministro, um secretário de Estado ou um dos comentadores de serviço a explicar-nos como as nossas actuais dificuldades se devem à crise internacional, desde o endividamento recorde à ineficácia das políticas de incentivo. Na TSF, no programa que mantém com o PML, Pedro Adão e Silva explicou-nos que o erro do anterior governo foi ter elaborado um orçamento de Estado demasiado optimista, com isso legitimando a ideia, errada segundo ele, de que o Governo é de algum modo responsável pela nossa crise. Este fim-de-semana, foi a vez de Fernando Medina, secretário de Estado adjunto da Indústria, nos explicar que a fraca execução do QREN se deveu à crise internacional. Tenho a certeza que sim, que quase não há esforço ou competência nestes Governos PS que esta crise não derrote. É somente quando as coisas ‘melhoram’ que o devemos aos nossos governantes. E os erros, se os houve, deveram-se unicamente ao excesso de optimismo dos nossos ministros.

Já não há dúvidas que a crise internacional foi a melhor coisa que aconteceu ao PS desde que Santana Lopes assumiu o cargo de 1º Ministro.

Domingo, 22 de Novembro de 2009

Luto


Eis uma causa com que estou, de alma e coração.

A dormir

Também por aqui se vê como a campanha e as eleições de 27 de Setembro ocorreram em regime de sonambulismo.

Asfixia democrática na primeira pessoa

José António Saraiva faz acusações muito graves, numa entrevista ao Correio da Manhã, relatando casos concretos de coacção financeira e política, por parte do Governo, sobre órgãos de comunicação social. Aquilo que muitos desconfiávamos foi agora afirmado, preto no branco, na primeira pessoa, pelo director de um jornal que foi vítima de pressões.

«José António Saraiva – Recebemos dois telefonemas, por parte de pessoas próximas do primeiro-ministro, dizendo que se não publicássemos notícias sobre o Freeport os nossos problemas se resolviam.
– Que problemas?
– Estávamos em ruptura de tesouraria, e o BCP, que era nosso sócio, já tinha dito que não metia lá mais um tostão. Estávamos em risco de não pagar ordenados. Mas dissemos que não, e publicámos as notícias do Freeport. Efectivamente uma linha de crédito que tínhamos no BCP foi interrompida.
(...)
Na altura quem tinha o dossiê do ‘Sol’ era o Armando Vara, e nós tínhamos a noção de que ele estava em contacto com o primeiro-ministro. Portanto, eram ordens directas.
– Do primeiro-ministro?
Não temos dúvida. Aliás, neste processo ‘Face Oculta’ deve haver conversas entre alguns dos nossos sócios, designadamente entre Joaquim Coimbra e Armando Vara.
– Houve então uma tentativa de ataque à liberdade de imprensa?
Houve uma tentativa óbvia de estrangulamento financeiro. Repare--se que a Controlinveste tem uma grande dívida do BCP, e portanto aí o controlo é fácil. À TVI sabemos o que aconteceu e ao ‘Diário Económico’ quando foi comprado pela Ongoing – houve uma mudança de orientação. Há de facto uma estratégia do Governo no sentido de condicionar a informação. Já não é especulação, é puramente objectiva. E no processo ‘Face Oculta’, tanto quanto sabemos, as conversas entre o engº Sócrates e Vara são bastante elucidativas sobre disso.»

[versão integral da entrevista aqui]
**
Vamos agora percebendo melhor porque razão José Sócrates não quer esclarecer o teor das conversas, alegadamente "privadas", que manteve com o seu amigo e administrador do BCP, Armando Vara. E as razões pelas quais os magistrados envolvidos no processo "face oculta", autorizaram a transcrição das escutas e consideraram haver indícios de crime contra o Estado de Direito, por parte do Primeiro-Ministro, mandando extrair certidões para abertura de novos processos de investigação.

Perante a gravidade destas revelações, gostava de perguntar duas coisas: primeira, porque é que estes factos não foram relatados antes das eleições legislativas? Segunda, o que anda a fazer a ERC no meio disto tudo?

Embondeiro junto ao mar de S.Tomé

[Ilha de S.Tomé, 1 de Novembro 2009 - clique para ampliar]


Uma lenda africana conta que o embondeiro, por ter inveja das outras árvores, foi castigado e posto de cabeça para baixo, com a copa enterrada e as raízes para cima. Quando se vê um embondeiro fossilizado compreendemos a lenda. Ainda para mais as suas flores, que só aparecem uma vez por ano, têm um cheiro péssimo, como se tivessem saído do interior da terra.
Até o Principezinho andava preocupado: «no planeta do principezinho havia sementes terríveis... eram sementes de embondeiro. O solo do planeta estava infestado delas. E se se der conta de algum embondeiro só demasiado tarde, nunca mais ninguém se vê livre dele. Invade o planeta todo.” (in O Principezinho, Saint-Exupéry).

Sábado, 21 de Novembro de 2009

Depois das frivoleiras dos estetas & outros patetas, falemos a sério sobre Caim e Abel

Depois das frivoleiras de escritores de várias proveniências sobre Caim, Abel, a violência e a Bíblia, a propósito de umas coisas escritas por um escritor que por aí anda, vale a pena ler o que sobre o assunto tem a dizer Sir Jonathan Sacks, Grande Rabino da União das Congragações Hebraicas da Commonwealth Britânica, no seu mais recente livro, acabado de publicar, Covenant & Conversation, a weekly reading of the Jewish Bible. Porque deixar ao cuidado de ateus as despesas da conversa sobre Deus e a religião? E se pudermos ler um dos mais brilhantes comentadores judaicos da Bíblia da actualidade, melhor ainda. Bom proveito.

*
Violência em nome de Deus

A violência de inspiração religiosa regressou para assombrar o mundo. A captura e o assassinato de reféns, os bombardeamentos suicidas e os massacres como a carnificina de crianças em Beslan (em Setembro de 2004) tornaram-se no rosto do terror da nossa era. Muito se disse já sobre armas de destruição em massa. E, porém, o que se passou em Beslan foi conseguido com algo tão pouco sofisticado como espingardas e explosivos. As atrocidades do 11 de Setembro foram cometidas com facas e aviões, que não são, normalmente, sequer considerados armas. Estamos sempre a olhar na direcção errada: para os meios e não para os motivos. A maior arma de destruição em massa é o coração do homem.

As palavras mais eloquentes sobre o nosso tempo são as que se encontram no final da parashá* com que abre a Torá. Depois de ter criado um universo de ordem, Deus vê os seres humanos, a mais preciosa das suas criações, reduzi-lo ao caos. Diz a Torá: «Deus arrependeu-se de ter feito o homem na Terra, e isso magoou-o no mais fundo do seu coração» (6:5-6). Esta é a refutação inapelável dos que pretendem que, ao assassinar inocentes, agem em nome de Deus.

A ligação entre religião e violência é estabelecida no início da história bíblica da humanidade. Os dois primeiros filhos do homem, Caim e Abel, fazem ofertas. A de Abel é aceite, a de Caim não. O primeiro gesto registado de um acto de adoração conduz ao primeiro assassinato, ao primeiro fratricídio. A religião, sugere a Torá, é tudo menos algo de seguro. No seu melhor, eleva os seres humanos, tornando-os «pouco menos do que anjos» (Salmos 8:5). No seu pior, leva-os a tornarem-se na forma de vida mais destrutiva da Terra.

Qual é a relação entre a religião e a violência? Houve três teorias maiores nos últimos cem anos (...).

O relato da Torá é simultaneamente mais simples e mais profundo. Ao lermos a história de Caim e Abel, perguntamo-nos: porque aceitou Deus a oferta de Abel e não e a de Caim? Não foi esse preciso acto, a preferência de uma das ofertas em detrimento da outra, a causa primeira da violência?

A razão por que Deus rejeitou a oferta de Caim torna-se clara nas palavras que se seguem imediatamente: «Caim irou-se e ficou deprimido» (Génesis 4:5). Imaginemos o seguinte: alguém oferece a alguém alguma coisa. Educadamente, o destinatário da oferta recusa-a. Como reagir? Há duas possibilidades. Podemos perguntar-nos: «Em que é que errei?», ou podemos ficar zangados com o pretendido destinatário. Se respondermos da primeira forma, significa que estávamos genuinamente a tentar agradar à outra pessoa. Pela segunda, torna-se retrospectivamente claro que a nossa preocupação não era com o outro, mas connosco. Estávamos a tentar afirmar o nosso domínio, colocando o outro em dívida: é a chamada «relação de dádiva». (...).

E era isso que os sacrifícios significavam no mundo antigo: tentativas de apaziguar, aplacar, ou subornar os deuses, dessa forma coagindo-os ou manipulando-os a realizarem a vontade dos ofertantes – ou para o envio de chuva, ou para a vitória numa batalha, ou para a restauração de passadas glórias imperiais. É isso o exacto oposto do que a Torá vê como fé verdadeira: humildade face a Deus, respeito pela integridade da criação e reverência pela vida humana – a única coisa que traz a imagem de Deus.

Não há forma de ver a diferença pelo exterior. Pode haver duas ofertas – a de Caim e Abel – que se parecem. São ambas actos de adoração, superficialmente os mesmos, e porém há, entre eles, toda a diferença do mundo. Uma é um acto de auto-apagamento na presença do Criador. A outra é um gesto nietzscheano de vontade de poder. Como distinguir? Pela presença da ira, quando as coisas não correm como se queria.

A história de Caim e Abel é o mais profundo comentário que conheço à relação entre religião e violência. A violência é a tentativa de impor a própria vontade pela força. Há apenas duas formas de viver com a culpa que isto envolve: ou como Nietzsche, pela negação de Deus, ou, como Caim, dizendo-nos a nós próprios que estamos a fazer a vontade de Deus. Ambas acabam em tragédia. A única alternativa – a alternativa da Torá – é ver a vida humana como sagrada. É a última, e única, esperança da humanidade.

* A Torá, os cinco livros de Moisés, está dividida em 52 duas porções – parashá (plural parashot) –, cada uma delas correspondente à leitura semanal nos serviços religiosos judaicos.



Rabino Jonathan Sacks

A conversa das nossas vidas





Publicado no i



Quarenta anos depois da publicação de Conversa n’A Catedral, o magistral romance de Mario Vargas Llosa, a pergunta que surge logo na primeira página ainda ecoa como senha do desencanto: “Em que altura se tinha fodido o Peru?” É o Abre-te, Sésamo que dá acesso à autópsia de uma sociedade sob o jugo da ditadura. Uma nação falhada é um cadáver gigantesco composto por milhares de fracassos individuais, de ricos e de pobres, de intelectuais e de camponeses, de brancos, de negros e de mestiços. E há sempre os vermes para os quais o corpo putrefacto é um festim.

Apesar de retratar uma ditadura, Conversa n’A Catedral não se insere no género latino-americano de romance de ditadores. Aqui, o ditador (o General Odría que governou o Peru entre 1948 e 1956) é uma sombra tutelar, uma ausência omnipresente. Odría é a emanação provisória do regime e dos interesses que o sustentam: “Bom, enquanto conseguirem mantê-los satisfeitos, eles apoiarão o regime. Depois arranjam outro general e põem-nos fora. Não tem sido sempre assim no Peru?” Vargas Llosa desvia-se do tema do exercício solitário do poder absoluto e centra-se na descrição da ditadura enquanto sistema. O fundamental é a descrição dos mecanismos de controlo e repressão, dos bastidores onde se unem as pontas soltas dos interesses, das encenações em que o poder se celebra. Um ambiente propício ao cínico, pragmático e maquiavélico Cayo Bermúdez, cérebro e Cerbero do regime, eminência parda que rapidamente se transforma na peça essencial do jogo do poder. Enquanto Bermúdez, homem endurecido pela miséria e pelo orgulho, nunca teve ilusões, Santiago Zavala, outro dos personagens centrais do romance, perdeu-as antes de chegar aos 30 anos. Menino bem, filho de um dos apoiantes e cúmplices do regime, Zavalita renuncia aos privilégios de classe e à protecção da família para também ele falhar, apenas com o parco consolo de o fazer pelos próprios meios. É Zavalita que, anos mais tarde, conversa n’A Catedral, uma tasca de Lima, com o negro Ambrosio, ex-motorista do pai e de Cayo Bermúdez. Juntos, tentam perceber o que os levou até ali. Essa longa conversa, que atravessa todo o romance, é a trave mestra da assombrosa obra de engenharia narrativa que é Conversa n’A Catedral. Ao leitor é exigida uma participação atenta na construção do enredo e da complexa teia com dezenas de personagens, constantes saltos temporais e diálogos que se cruzam numa dinâmica caleidoscópica.

A cidade de Lima, mortiça e suja, surge como sinédoque da sociedade peruana: dos bairros finos aos bairros de lata, dos palácios do poder às tascas esconsas, dos clubes reservados às casas de má fama, tudo sob a mesma cacimba mole que leva Zavalita a concluir que, como tudo o resto, “até a chuva estava fodida neste país; se ao menos chovesse a cântaros”. E a pergunta inicial fica sem resposta. O que separa a descoberta do amor da desilusão conjugal, os ideais revolucionários da resignação política, o curso de Direito de um trabalho medíocre, as virtudes públicas dos vícios privados, um país próspero de uma nação miserável, não é um único momento isolado. É a vida. Triste. Cinzenta. Fodida.

Da oposição responsável. Ou pouco oposição e pouco responsável.

Uma daquelas coisas que me provocam arrepios de medo é ouvir dizer, por quem o determina, que o PSD vai fazer 'oposição responsável'. Porque esta oposição responsável não se esgota em não propor moções de censura ao governo minoritário ou em não provocar eleições antecipadas. Não. Sabe-se lá porquê, 'oposição responsável', no léxico do PSD, costuma ser sinónimo de muleta (mais frequente que ocasional) do PS na AR, mesmo quando o PS aprova legislação mal feita ou contrária ao programa eleitoral do PSD. Exemplos? A peculiar 'reforma da Justiça' apoiada por Marques Mendes e, nesta semana, a recusa da suspensão do modelo de avaliação dos professores que o PSD tanto reclamou antes das eleições.

Um dos problemas do PSD, parece-me, é precisamente não saber fazer oposição. O PSD não deve fazer cair governos do PS - e a responsabilidade deve ficar-se por aí. Não tem de viabilizar legislação que contrarie as suas bandeiras, beneficiando o PS, que não só apresenta trabalho feito como ainda se entretém (e eficazmente) a apontar as contradições do PSD. Não tem de viabilizar orçamentos que contrariam as suas políticas ou que aumentem impostos (qualquer imposto). O PSD não tem que dar vitórias legislativas ao PS, ponto. Acordos só quando o PS cede ao PSD (e, se não ceder, fica para outro dia) ou em política externa, onde geralmente existem consensos.

O PS quer legislar? Negoceie com o CDS, alienando assim os seus simpatizantes mais à esquerda (com o bónus, para o PSD, de tirar o allure de alternativa ao CDS); ou com o PCP ou o BE, desgostando os apoiantes mais centristas.

Ser oposição responsável e benéfica para o país é promover o fim deste inverno socialista que se instalou em 95. E, como Manuela Ferreira Leite disse muito acertadamente durante a campanha eleitoral, muita legislação não é o que o país precisa por agora. Continuem pelo caminho do pedido de esclarecimentos políticos ao PM sobre as suas conversas com Armando Vara e da muito boa intervenção de MFL versando o segundo orçamento rectificativo de 2009 e procurem lá, sff, um dicionário com uma mais eficiente entrada para 'responsável'.

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Insensatez

«Uma lei sensata mandaria selar imediatamente a gravação e, se por acaso existissem indícios de alguma actividade criminosa do primeiro-ministro, determinaria que ele respondesse pelo que fizera (ou deixara fazer) no fim do seu mandato.»
-- Vasco Pulido Valente, "Público", 21.11.2009
.
Ficamos a saber que, para Vasco Pulido Valente, a Constituição americana (cf. art. II, sec. 4), por exemplo, é uma lei insensata.

Ler

"Surpresas...", Nuno Branco.

"A verdade a que temos direito", Paulo Pinto Mascarenhas.

"Uma tristeza", João Gonçalves.

"Novos áugures", Carlos Loureiro.

O nosso lugar

O meu corpo é o lugar de outros corpos possíveis. É tudo.
O casamento é outra história.

Sexta-feira, 20 de Novembro de 2009

Zita Seabra vs Filomena Mónica

Há cerca de três anos duas figuras públicas escreveram livros autobiográficos. Com o fim-de-semana à porta e em tempos de representatividade no Parlamento proponho uma reflexão sobre a vida sócio-política do país, através da leitura comparada de dois livros: «Foi Assim» de Zita Seabra e «Bilhete de Identidade» de Filomena Mónica.

Zita Seabra, procura repor factos, no seu livro «Foi Assim», obra em que retrata o seu percurso pessoal no PCP. Tem especial interesse o relato dos acontecimentos do verão de 1975, movimentações por diversas vezes ocultadas, tidas pelo partido como secretas. Nascida no Porto e ligada a acontecimentos políticos portugueses, Zita Seabra revela as prioridades e dificuldades da clandestinidade. Fez parte do processo de transição à democracia e esteve no «teatro das operações», do bloco comunista, na antiga URSS e na Guiné-Bissau.

Filomena Mónica, com o intuito de contrariar a fragilidade da memória, divulgou no seu livro «Bilhete de Identidade» parte da sua vida pessoal onde sobressaem inúmeros aspectos da vida social portuguesa. A vida lisboeta, a sociedade fechada do Estado Novo, a organização social da cidade são ilustradas nas páginas do seu livro. A autora manteve-se à margem da política e optou pela investigação no campo da sociologia/história. Em Inglaterra descreve a comunidade académica e questiona-se sobre a realidade portuguesa.

Ensaio sobre a cegueira do Orçamento


Em Novembro do ano passado perguntava aqui no Cachimbo: Será que uma cegueira repentina pode estar a afectar o governo português? Em caso afirmativo, qual a origem desta “superfície leitosa” que impede o governo de ver a realidade dos números?

Escrevi nessa altura que o Governo estava a sobrestimar as receitas fiscais para 2009. E que a causa dessa "cegueira" era o eleitoralismo, uma vez que haveria três actos eleitorais durante o ano de 2009. Podem ler-se os textos aqui, aqui e aqui. Passado um ano, veio a confirmar-se aquilo que eu e outros comentadores escrevemos sobre Orçamento de Estado para 2009. O buraco orçamental de 8% está agora à vista de todos e será mesmo necessário mais um orçamento rectificativo. Neste caso é triste ter razão. É triste porque seremos todos nós a pagar pela incompetência (ou mesmo má-fé) do Primeiro-Ministro e do Ministro das Finanças. Espero enganar-me, mas algo me diz que este Governo vai deixar a situação orçamental portuguesa ainda pior do que aquela que foi o resultado do último governo de António Guterres, sendo na altura Pina Moura Ministro das Finanças.

Cachimbo no feminino

Citação montesquieuana do dia

«Toda a nação preguiçosa é grave; pois aqueles que não trabalham consideram-se como soberanos dos que trabalham

Cravo e ferradura

Carácter

«(...) Mas agora não é possível, agora perdi qualquer receio nessa matéria*: porque há de facto um problema de carácter do Primeiro Ministro José Sócrates de que ele próprio é o autor e é o réu confesso.»

António Lobo Xavier, há uns minutos atrás na Quadratura do Círculo.

*[Pacheco Pereira: "eu já perdi há algum tempo"]

Quinta-feira, 19 de Novembro de 2009

Um país anestesiado

Os escândalos e as revelações embaraçosas para o Primeiro-ministro vão se sucedendo, e já ninguém estranha. Hoje foi a vez da revista Sábado noticiar uma denúncia do director do SOL que um amigo de Sócrates teria oferecido ajuda ao jornal caso não publicassem uma notícia embaraçosa (sobre o Freeport). E ainda a forma como o Estado retirou publicidade de órgãos de comunicação social incómodos para a dar aos "amigos". A credibilidade deste Primeiro-ministro anda pelas ruas da amargura e ninguém parece muito incomodado com isso. Há gente que só se preocupa com o Estado de Direito, e outros que dedicam o seu tempo a descredibilizar estas notícias embaraçosas para o governo. E o que está a fazer a oposição perante isto? E o Presidente da República? Não seria tempo de agirem e salvar o pouco que resta da credibilidade do país?

Jugular a tolerância

O Jugular, como prova do apreço que tem aqui pela casa, organizou uma boda para o Cachimbo.
Da minha parte já tenho o presentinho.

Quando a credibilidade está feita em cacos

Vamos para o segundo orçamento rectificativo para 2009, sendo o terceiro orçamento para 2009 da responsabilidade de Teixeira dos Santos, o senhor que não só não sabia, em Outubro do ano passado e um mês depois da falência do Lehman Brothers, que se avizinhavam tempos turbulentos, como também não sabia, até 27 de Setembro, que o défice orçamental de 2009 seria (muito) superior a 5,9% (o nível estabelecido no 1º rectificativo). Ou o senhor que chama a orçamentos rectificativos "orçamento suplementar" (primeira vez) e "orçamento redistributivo" (agora). Ou, em alternativa, o senhor que nos tem mentido no último ano.
Nota: Fico satisfeita por ver que a comunicação social, que da primeira vez obedientemente chamou o orçamento rectificativo de "suplementar", chama agora os orçamentos pelos nomes.
Errata: o primeiro orçamento rectificativo previa um défice de 3,9%. Os 5,9% foram uma revisão para cima da percentagem do défice feita a meio do ano.

Bósnia (6 - fim)


Lições de Democracia

Ouvi há pouco no Rádio Clube Português o Miguel Pinheiro, director da revista "Sábado", denunciar mais uma das muitas coincidências que caracterizam a vida pública aqui na ditosa Pátria. Ao que parece, o investimento publicitário das quatro grandes empresas semi-públicas - EDP, PT, GALP e CGD - nos jornais tem obedecido a padrões engraçados: o "Público" e o "Sol" viram as suas receitas publicitárias provindas destas quatro grandes empresas cair a pique, ao passo que o abençoado "DN" registou uma quase equivalente subida. Como o Miguel Pinheiro sublinhou, não foram as audiências dos respectivos órgãos de comunicação que justificaram estas transferências de investimento em publicidade. Claro que a resposta oficial das empresas foi não responder pelos números, e balbuciar que elas não se "regem por critérios políticos, blá, blá, blá, blá".
Depois ainda há quem nos diga que "não aceita lições de democracia de ninguém" e festeje comovido as evocações da liberdade. Ora, para quem tiver, como diz o vigilante Lacão, "humildade democrática", aqui há muitas "lições de democracia" a aprender. E percebem agora por que é que essa converseta sobre o Estado de Direito num país como Portugal tem muito que se lhe diga?
.
P.S.: Parece que o Bloco de Esquerda já pediu esclarecimentos ao Governo sobre este assunto. Eu pergunto: e os outros partidos estão a dormir?

Crónica de um Referendo anunciado.

O Tiago Moreira Ramalho, de forma pertinente, chama a atenção de que em Portugal um Referendo pode ser convocado através de uma iniciativa popular prevista na Lei do Referendo. É um processo exigente, uma vez que são necessárias 75.000 assinaturas, mas para quem entende que este assunto é de sociedade então que a sociedade responda mobilizando-se sem ter de depender de iniciativas partidárias.
Mas o que o Tiago não sabe, e eu anuncío, é que esse processo de recolha de assinaturas vai ter inicio já na próxima semana por todo o país.
Mas será que se os subscritores conseguirem reunir as 75.000 assinaturas exigidas para um referendo de iniciativa popular está legalmente garantida a realização do referendo?
Teoricamente não. Nos termos da lei do referendo o projecto de iniciativa popular subscrito por 75.000 portugueses terá de ser debatido em plenário no Parlamento mas em rigor, ao contrário do que sucede em outros países, em Portugal os deputados e os partidos podem impedir a realização de um referendo mesmo se for desencadeado por iniciativa popular.
Naturalmente que não é uma decisão fácil para qualquer Parlamento abortar um processo de iniciativa popular previsto na lei com requisitos muito exigentes, sobretudo mum período da história democrática em que se fala na necessidade de maior participação cívica dos cidadãos. De qualquer modo, do ponto de vista político a questão será sempre muito delicada. Dou um exemplo, se na bancada do PSD é expectável que vários deputados possam votar a favor do projecto de casamento de pessoas do mesmo sexo, já não é crível que votem por forma a abortar a iniciativa da sociedade civil.
Em termos de previsão política o que se vai passar será mais ou menos o seguinte:
1- Na próxima semana terá inicio a recolha de assinaturas por todo o país por forma a serem reunidas 75.000 assinaturas de portugueses a exigirem a realização de um referendo de iniciativa popular.
2- O PS vai acelarar o processo, e apresentar rapidamente a sua proposta por forma a não dar tempo à sociedade civil reunir as 75.000 assinaturas exigidas na lei.
3- Em Dezembro o PS apresenta a sua proposta e agenda potestivamente o debate da mesma.
4- A proposta é aprovada à pressa e é remetida para Belém já no início de 2010
5- Entretanto a sociedade civil consegue reunir 75.000 assinaturas e desencadeia um processo de referendo de iniciativa popular, dando entrada no Parlamento do processo.
6- O PR perante iniciativa popular veta o diploma e reenvia o mesmo ao Parlamento para reapreciação, solicitando em mensagem dirigida ao Parlamento um maior debate na sociedade portuguesa.
7- Chega a hora da verdade. O Parlamento perante o veto do PR e o referendo de iniciativa popular terá de optar em respeitar a iniciativa popular e suspender o processo, ou por ignorar a iniciativa popular e o veto presidencial. Se do ponto de vista jurídico a decisão é do Parlamento quem vai decidir o que o PS fará é José Socrates.
Mesmo que José Socrates dê indicações para abortar no Parlamento o processo de referendo de iniciativa popular, naturalmente que a sociedade civil saberá tirar as consequências e, mais tarde, com outra maioria parlamentar, certamente que submeterá de novo a questão ao Parlamento.
Hoje a questão já não é se vai ou não haver referendo mas sim quando é que vai ocorrer o referendo.