Sábado, 31 de Outubro de 2009

Afinal...

... o verdadeiro Jorge Jesus é Domingos Paciência.

Alentejo (29)

Serpa.

sporting4ever

Pressente-se que o ambiente nas bancadas do Sporting x Marítimo de amanhã será infernal. Apenas se o Sporting marcar um golo cedo e controlar o jogo poderá evitar os assobios que se têm sucedido em Alvalade jogo após jogo. Mas esta possibilidade é remota e o mais provável será o jogo decorrer como têm decorrido os anteriores. Ao contrário de muitos “sportinguistas”, sou daqueles que acham sempre que os jogadores, treinadores e directores do Sporting são os melhores. Não assobio a equipa e não chamo nomes aos jogadores. Qualquer pessoa com um mínimo de discernimento e capacidade para analisar um jogo de forma objectiva percebe que um ambiente hostil nas bancadas em nada favorece o rumo do jogo. Muito pelo contrário, apenas faz com que as coisas piorem. É fácil perceber que os “sportinguistas” que vão ao estádio, dispostos a assobiar a equipa e chamar nomes aos jogadores durante o jogo, não se distinguem assim tanto dos benfiquistas ou portistas, ou adeptos de qualquer outro clube; melhor, distinguem-se, mas pela estultícia, já que os benfiquistas e portistas ganham com o mal do Sporting e os sportinguistas apenas perdem. Este ano as coisas não estão a correr bem ao Sporting e é natural que as melhorias que todos os sportinguistas desejam não sejam suficientes para que o ano em curso resulte num sucesso estrondoso. Como qualquer outro sportinguista, fico feliz quando o Sporting ganha e desiludido quando o Sporting perde. Mas o que faz de mim um sportinguista, muito além da conquista ou não conquista dos primeiros lugares, é o imenso orgulho que sinto em ser do Sporting, de ter herdado o amor pelo Sporting, de ter a certeza que defenderei o Sporting todos os dias da minha vida. Seria muito bom que amanhã todos os sportinguistas presentes nas bancadas de Alvalade soubessem ser dignos de pertencer a este Glorioso Clube. Eu lá estarei para apoiar incondicionalmente os jogadores, treinador e directores. Viva o Sporting!


O estranho catolicismo de José Manuel Pureza, actual líder parlamentar do BE

(Clicar em cada um dos textos para ler melhor)







As massas "homófilas"

Ficamos a saber por aqui que 2 500 000 Portugueses, tomados certamente de furor "igualitário", acorreram em massa às urnas a 27 de Setembro para possibilitarem o "casamento homossexual". Toda a gente sabe que o cidadão eleitor, no momento em que traça a cruzinha no quadradinho, tem diante dos olhos, captada de um só golpe e homogeneamente aceite, toda a série de propostas do Partido escolhido. É uma posição quase tão curiosa como seria a de defender que os 1 600 000 eleitores do PSD o foram precisamente para evitar aquele arranco civilizacional. Como se as coisas fossem assim tão simples. (Provavelmente, para alguns, até o são.)

Quem é Manuel Godinho?

Os media têm repetido até à exaustão o argumento de que Manuel Godinho, empresário do sector das sucatas, é o presumível "cabecilha" de uma "teia de corrupção" que vai subindo por várias personagens Partido Socialista acima. No entanto, tenho para mim que Manuel Godinho não é "cabecilha". É, isso sim, "testa de ferro".

Sexta-feira, 30 de Outubro de 2009

Cachimbos de lá

André Collot, Perret e Collot, s.d.

Vaga de fundo

Já não se pode ouvir falar em "vaga de fundo". Eu voto no Marcelo, mas mudem de metáfora.

You never drink alone




Earth Water é o único produto no mundo com o selo do Alto-Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados. Os seus lucros revertem a favor do programa de ajuda do ACNUR, que tem como lema «a água que vale água». Com 4 cêntimos o ACNUR consegue fornecer água a um refugiado por um dia.

Em Portugal o projecto tem a colaboração da Tetra Pak, do Continente, da Central Cervejas e Bebidas, da MSTF Partners, do Grupo GCI e da Fundação Luís Figo. Não percam! Disponível nas prateleiras do supermercado mais próximo.

Referendo ao casamento gay

(O assunto é o casamento gay e Bacelar Gouveia é o autor do artigo que saiu hoje no Público, “Casamento gay: nas costas dos portugueses?”)

"Mas o que é mais extraordinário é que, tendo como principal argumento o facto do assunto não ser prioritário, o senhor Bacelar Gouveia, que acha que os deputados não têm legitimidade para cumprir o programa com o qual foram eleitos há dois meses, propõe a realização de um referendo. Ou seja, propõe que o país se mobilize todo para um tema que ele próprio acha, por causa da crise económica, secundário." Daniel Oliveira no Arrastão

Ou seja, o Daniel Oliveira, que acha o assunto prioritário, considera que o Bacelar Gouveia, que não acha o assunto prioritário, é incoerente quando propõe a mobilização do País em torno do assunto. Bem vistas as coisas, então, seguindo a mesma forma sofística de pouco alcance, o Daniel Oliveira, que acha o assunto prioritário, é contraditório quando negligencia a mobilização do País em torno dele.

Por outro lado, o Daniel Oliveira mente quando escreve que “o senhor Bacelar Gouveia, que acha que os deputados não têm legitimidade para cumprir o programa com o qual foram eleitos há dois meses….” Na verdade, no artigo do Público, Bacelar Gouveia escreve “sem obviamente questionar a legitimidade do órgão legislativo parlamentar…”, acrescentando de seguida “esta é uma das típicas decisões que numa democracia plena como a portuguesa só podem ser tomadas pelos portugueses em referendo nacional”. É evidente que o “só podem” aqui tem de ser entendido, não como uma deslegitimação do Parlamento, mas antes, e dada a natureza do assunto, como uma subalternização do Parlamento, entendido como conjunto de representantes ligados a partidos, em favor dos portugueses, cada um deles considerado na sua individualidade e posição face ao assunto.

Toda a oportunidade do argumento aparece de forma muito transparente quando Bacelar Gouveia chama a atenção para o facto de que, neste assunto e outros de natureza semelhante, os deputados têm liberdade de voto, podendo votar contra quando o seu Partido se manifesta a favor e vice-versa. Quem é que não percebe o motivo e alcance disto?

Aliás, precisamente porque o assunto não é uma prioridade, muitos eleitores votaram PS apesar do casamento gay e não por causa dele.

Prioridade ou não, o casamento gay é um assunto sério, com implicações sociais relevantes. Os apologistas do casamento gay, dentro do PS e do BE, não querem que os portugueses se pronunciem sobre o assunto porque temem que a maioria seja contrária à lei que o possibilite. O fervor com que pretendem aprovar o casamento gay “nas costas dos portugueses”, como sugere o título escolhido por Bacelar Gouveia, é directamente proporcional à suspeita que têm de que a maioria parlamentar que aparentemente lhes é favorável neste assunto não é um reflexo efectivo do pensamento da maioria dos portugueses.

"Cuspir na sopa"

Não conheço a expressão “cuspir na sopa”. Já vi, isso sim, um amigo meu, num restaurante, simular que cuspia numa das várias travessas que chegavam à mesa, como quem diz: “Este é o meu!” Oiço também falar de empregados de restaurante ou hotel que cospem nos cozinhados ou nos pratos que vão ser servidos a um cliente de que não gostam, suponho eu. Há ainda, aquele acto inteligentíssimo, de quem cospe para o alto, acabando por ser vítima do seu próprio cuspo. Depois, há o ditado, bem conhecido, “cuspir na mão que nos deu de comer”, uma denúncia da ingratidão com que uns por vezes tratam outros que foram em seu auxílio. Mas em nenhuma desta situações consigo vislumbrar uma relação com o post que escrevi em baixo. Logo, não compreendo o motivo que levou a jugular Ana Matos Pires a linkar o meu post com a afirmação: “É, é isso e cuspir na sopa.” A deselegância e falta de educação denunciada pelo acto de “cuspir na sopa” não é diferente do uso arbitrário da expressão, pelo que suspeito que a Ana Matos Pires é apenas mais uma vítima da necessidade que determina que os corpos caiam.

Em nome de quê?

Como há algum tempo me parece óbvio, Marcelo Rebelo de Sousa está candidato à liderança do PSD. Parece também claro que a vai ganhar sem grandes problemas.

Muito bem: o partido precisa de unidade. Mas unidade em nome de quê? Dele? Contra as «alas»? Pela vitória nas próximas eleições, com forte probabilidade de acontecerem antes do final da actual legislatura?

O PSD vai ter que provar aos portugueses que é necessário, e isso, hoje, está longe de ser óbvio.

Miséria

Não deixa de ser surpreendente a indigência argumentativa (quase, quase insultuosa) de apoiantes de Passos Coelho - agora, a respeito da entrevista de Rangel. É quase confrangedor ver como se entra numa espécie de delírio que nada tem que ver com o conteúdo da entrevista: as "capacidades teatrais"(!), o "caricaturar"(!), o "farisaísmo", etc. Note-se como a expressão "técnica retórica" (de resto, com um tom de displicência boçal) é usada para desqualificar Rangel. Salta aos olhos que o falante usa as palavras como adornos vazios, isto é, usa-as desconhecendo os seus significados. Ora, ouçam.

Quinta-feira, 29 de Outubro de 2009

Rangel, o ultra



Paulo Rangel foi hoje à RTP dizer que não é candidato à liderança social-democrata.

Tenho pena. A entrevista a Judite de Sousa mostra que seria uma excelente hipótese.

Mas Rangel marcou pontos: relançou Marcelo Rebelo de Sousa para o ringue e arrasou Passos Coelho, a sua "inconsistência programática" (há um ano "hiperliberal", agora "bloco central") e a sua ânsia de chefiar o PSD a todo o custo ("num ciclo eleitoral terrível" para o partido, "a única coisa que fez foi promover a sua candidatura").

Está visto: Rangel é um perigoso ultra.

E dos que ganham eleições.

James

Notas soltas sobre o jornal "i"

Tenho comprado diariamente o i desde o primeiro número. No início, notei uma série de gralhas: palavras com uma letra ou outra errada, letras minúsculas onde deveria haver maiúsculas, listas com nomes que apareciam repetidos, apontamentos sobre um filme que se repetiam onde deveriam aparecer apontamentos sobre um filme diferente, etc. Entretanto, ou estou menos atento aos pormenores ou estes problemazitos foram resolvidos. Tenho gostado, particularmente, dos entrevistados que conseguem reunir, muito embora me pareça que assim aconteceu mais no início do que agora. Espero que voltem em força. Gosto de ler os cronistas oficiais, indígenas e estrangeiros, embora continue a pensar que os cronistas reunidos pelo Público são melhores. De qualquer modo, as páginas que mais considero no jornal, naquilo que têm de radicalmente inovador face a todos os outros jornais, são as páginas desportivas. Diferentemente dos diários desportivos ou secções de desporto dos outros jornais, a abordagem do i tem piada e alguma arte literária (concedo que a expressão não seja a melhor mas é a que agora me ocorre). Para exemplificar, deixo aqui a crónica do Pedro Candeias na edição de ontem, um frente a frente que opõe Hugo Viana a Aimar (sou sportinguista, logo insuspeito, na medida em que se trata de um texto sobre um jogador do Braga e outro do Benfica). Ultimamente tenho reparado que não há número que saia que não tenha na primeira página uma qualquer referência à homossexualidade ou uma qualquer referência a sexo ou pornografia. Mas tudo bem: homossexualidade, sexo e pornografia também têm direito a ser notícia.

Citação montesquieuana do dia

A esterilidade das terras torna os homens industriosos, sóbrios, resistentes no trabalho, corajosos, ajustados à guerra; é necessário que obtenham da terra o que ela lhes recusa. A fertilidade de um país faculta, com o desafogo, a languidez e um certo amor pela preservação da vida.

Campanha internacional pelo Tibete


O novo nobel da Paz, Barack Obama, devia empenhar-se a sério na causa da autodeterminação do Tibete, colocando o assunto na agenda da sua visita oficial à China, no próximo mês de Novembro. Para enviar uma mensagem nesse sentido ao Presidente do Estados Unidos da América vir aqui.

W. H. Auden


May it not be that, just as we have to have faith in God, God has to have faith in us and, considering the history of the human race so far, may it not be that faith is even more difficult for God than it is for us?

W. H. Auden

À atenção dos editores do jornal Público

Talvez haja apenas um pecado capital: a impaciência. Por causa da impaciência fomos expulsos dos paraíso, por causa da impaciência não podemos regressar.

Franz Kafka

À atenção dos editores do jornal Público: este aforismo, que hoje é atribuído ao grande poeta W. H. Auden, está mal atribuído. De facto, é um aforismo de Kafka.

Obama: Guerra e Paz

Fazer Minhas as Palavras dos Outros

"O que me impressionou na experiência MFL não foi a guerrilha que lhe fizeram. Essa é uma planta nativa no ambiente local. O que me impressionou foi que as críticas à forma, ao conteúdo e ao método utilizados por MFL foram francas: aquela gente não quer um chefe que diga a verdade, que não prometa leite e mel, que recuse fazer gracinhas para os media.
Por último, a ideologia. Alguém, no seu juízo perfeito , julga que uma alcateia de lobos produz ideologia? O partido terá, daqui a uns anos, um conjunto de leituras da realidades e um punhado de princípios orientadores se estudar e recolher ideias. Caso contrário continuará a ouvir. O uivo dos lobos."
FNV in Mar Salgado

Banalmente Ridículo ou Ridiculamente Banal?

Embora não me surpreenda, sinceramente não sei o que é mais ridículo. Se convidar Passos Coelho, que é, ao menos por enquanto (?), coisa nenhuma, para ir dar uma entrevista a um programa sobre "economia" na SIC-N na dupla qualidade de candidato a candidato a líder do PSD e de candidato a candidato a candidato a candidato a primeiro-ministro. Ou se é Passos Coelho dispor-se aceitar tal convite parecendo não querer ver o duplo ridículo a que se expõe. E duplo porquê? Porque ainda (?) não é nada e porque, como se viu e ouviu, não tem nada para dizer além das banalidades do género José Sócrates.

Quarta-feira, 28 de Outubro de 2009

O Ministério que já não o é

Com Augusto Santos Silva a Ministro, e agora Marcos Perestrello como seu Secretário de Estado, torna-se evidente que as ambições deste novo Governo quanto à Defesa Nacional são nulas. O Ministério da Defesa é assim relegado à irrelevância, transformado num género de prateleira dourada, onde repousam, até à próxima batalha, os bravos e leais que se sacrificaram pelo partido. O pormenor é que, apesar de tudo, (ainda) se trata de um órgão de soberania.

A ler

«O respeito pelos eleitores também se mede por coisas destas. Marcos Perestrello, o aparelhista chique do partido do governo, era há um ano vice-presidente da C.M.L, o primeiro depois de Costa. Há pouco mais de quinze dias protagonizou a candidatura do dito partido à câmara de Oeiras e foi eleito vereador. Agora é secretário de Estado da tropa.»
Questões de respeito, de João Gonçalves

Olhos bem abertos para as barbaridades de Aceh e bem fechados para as barbaridades de Portugal

Louvo a condenação de leis iníquas como aquela que em Aceh prevê a criminalização da homossexualidade ou o apedrejamento até à morte dos adúlteros. A sugestão que faço aos homossexuais e aos adúlteros da Indonésia é mudarem de país, designadamente para Portugal, onde temos uma nada iníqua lei do divórcio e nos preparamos para ter uma menos iníqua ainda lei do casamento homossexual. Já não percebo a docilidade perante leis como aquela que em Portugal possibilita que sejam interrompidas mais de 4 gravidezes por cada dia que passa. Até porque as 4 vidas que diariamente são condenadas em Portugal são as que certamente mais atenção e cuidado exigem de nós. Pior ainda, não encontro para essas 4 vidas uma solução tão benevolente como aquela que encontro para os homossexuais e adúlteros da Indonésia. Talvez a condenação da nossa lei do aborto como ainda mais bárbara e iníqua que a lei de Aceh já seja qualquer coisa.

Again


Rather than blaming things for being obscure, we should blame ourselves for being biased and prisoners of self-induced repetitiveness. One must forget many clichés in order to behold a single image. (...) Proper exegesis is an effort to understand the philosopher in terms and categories of philosophy, the poet in terms and categories of poetry, and the prophet in terms of prophecy.

Abraham Joshua Heschel

O problema do beijo

Tive um grande professor na Universidade. Chama-se João César das Neves. Não é só um grande professor de economia. É um grande professor. Ponto. Mesmo antes de ser meu professor, já eu o importunava, anos a fio, quase semanalmente com perguntas, umas mais comezinhas, do género de lhe pedir para comentar pela seiscentésima vez os 2,4% de inflação ou de aumento do consumo privado, outras menos. Era jornalista, e a profissão obrigava. E ele respondia sempre, com paciência. Aprendi imenso com ele. Além da inteligência e do saber, a ironia e a generosidade são os seus grandes dons.

Um dia, para explicar a não tão comezinha questão da relação entre o ponto de vista e o objecto visado, disse assim: «Até é possível analisar o fenómeno do beijo, ou um poema, do ponto de vista económico. O problema é que, desse ponto de vista, nada de essencial se aprende sobre o assunto.»

Assim com o ponto de vista estético sobre a Bíblia. Vem isto ainda a propósito da «brutalidade» de Richar Zimler. Aqui em baixo.

Cada tempo tem a arte que pode; e o nosso pode pouco

Vasco Pulido Valente colocou um ponto final no caso que o Pedro Picoito chamou aqui, com muita graça, o episódio do Mono Luso. Mas hoje, no i, o nosso camarada Paulo Tunhas foi mais além e despertou em mim um pensamento óbvio mas esquecido: os textos bíblicos são também muito aquilo que cada um consegue ver através deles. A Alemanha da primeira metade do século XVIII ainda teve a possibilidade de ter Bach e a “Paixão Segundo São Mateus”. Infelizmente para todos nós, matéria ainda formada por aqueles princípios ateus e pseudo-científicos que estiveram na origem de Auschwitz e do Gulag, somos uns grandessíssimos analfabetos do fenómeno religioso. Cada tempo tem a arte que pode e o nosso não consegue ir além de Saramago. Vale-nos a esperança de que a "Paixão Segundo São Mateus" será ouvida por todos os homens daqui a 100 anos e nenhum deles lerá "O Evangelho Segundo Jesus Cristo" ou "Caim".


Terça-feira, 27 de Outubro de 2009

Piadas estúpidas

A Srª (?) Gay McDougall, observadora-chefe das Nações Unidas para os direitos das minorias, iniciou um périplo de dez dias pelo Canadá (sim!), para inquirir in loco sobre alegados e persistentes abusos desses direitos. Países onde eles são escruplosamente observados, como a China, Cuba, a Líbia, a Arábia Saudita, a Rússia ou o Zimbabwe jamais mereceram semelhante cuidado.

Como Gay McDougall é mais conhecida pelo seu activismo na defesa e promoção da Conferência de Durban I, pergunta o UN Watch se o caso não terá nada a ver com o facto recente de o Canadá ter sido o primeiro dos dez países ocidentais a mandar à m. a Conferência de Durban II. Pois.

Alá é grande e Gorjão é o seu profeta

É uma calúnia.
Não precisam de ser virgens.

Richard Zimler e a brutalidade

Richard Zimler escreve hoje no Público um extenso artigo sobre a irrelevância de responder aos comentários analfabetos de Saramago sobre o «Antigo Testamento», dedicando-lhe mais de uma dezena de longos parágrafos, contrapondo a esse analfabetismo a sua visão sobre o assunto. Não os vou reproduzir aqui, porque o essencial deles se resume assim: o «Antigo Testemento» é poesia (ou ficção, como «qualquer romance ou outra forma narrativa...»), e Saramago é incapaz de compreender que a um romance, ou a um poema, se acede de múltiplas maneiras. É incapaz de compreender, no fundo, um poema ou um romance, que, diz-nos Zimler, tem como um dos seus principais nós exegéticos a «brutalidade de Deus e da humanidade».

Estamos de acordo quanto ao primarismo de Saramago. Saramago não consegue aceder à Bíblia, nem mesmo de um ponto de vista estético.

Acontece que a Bíblia, acredite ou não Zimler, não é uma obra de arte. Atribuir-lhe esse estatuto é fazer violência ao texto, e não creio que essa violência seja, no fundo, essencialmente diferente da que lhe faz Saramago. A «brutalidade» de que fala, no fundo, é o sinal claro de que é o ponto de vista estético que domina o olhar de Zimler sobre a Bíblia, e a distorção que um tal ponto de vista implica fica manifesta.

Acontece que a Torah, para nos atermos apenas aos cinco livros de Moisés, é, como quer dizer literalmente o seu nome hebraico, «Instrução». Instrução ética, em primeiro lugar, e não arte. É, para o dizer de outra maneira, um assunto sério.

Não é preciso lembrar a Richard Zimler o lugar central que o decálogo desempenha nesses livros - Eu sou o Senhor teu Deus; Não adorarás outros deuses além de mim; Não usarás o nome de Deus em vão; Recordarás o Shabbat para o santificar; Honrararás o teu pai e a tua mãe; Não assassinarás; Não cometerás adultério; Não roubarás; Não prestarás falso testemunho contra o teu próximo; Não cobiçarás nada que seja do teu vizinho.

Acontece que à Torah - e por extensão à totalidade da Bíblia - não se acede tão-pouco de um ponto de vista estritamente ético, sem incorrer na distorção que envolve necessariamente a desadequação entre o ponto de vista e o objecto visado. De facto, filosoficamente falando, é impossível sustentar o sistema ético da Bíblia, sem o reconhecimento da autoridade soberana.

Acontece que o Primeiro Mandamento do decálogo tem a estranha forma sintática: Eu sou o Senhor teu Deus. Acontece, pois, que à Torah, se se quiser evitar fazer-lhe violência, não se acede sem pelo menos perscrutar o que possa ser o ponto de vista religioso. Não estou a dizer que tenha de se ser religioso para se tentar compreender a Torah, ou a totalidade da Bíblia. Eu não preciso de ser ateu para tentar compreender um ateu e fazer jus ao que ele diz, sem distorcer o que ele diz.

Mas se me recusar, por princípio, a aceitar ler um texto nos termos em que ele se me propõe, então estou a cometer uma brutalidade.

Patriotismo: Cosa è?

Em tempos, Maquiavel escreveu numa carta: "amo mais a minha pátria do que a minha própria alma". Durante muito tempo este passo foi usado como uma invocação do mais sublime patriotismo. Mas na verdade a compreensão desta frase sugere a ponderação do estatuto da pátria e do estatuto da alma. Só depois dessa ponderação se pode conferir a dose de patriotismo que aí está envolvida. E só depois dessa ponderação poderemos situar o amor pela pátria, em primeiro lugar, na hierarquia dos amores que o homem nutre, e, em segundo lugar, no horizonte abrangente do seu destino.
Patriotismos há muitos. Desde o sentimentalismo irracional que une os afectos à comunidade de origem - o sangue, a raça, a história das origens, muitas vezes imaginárias - até ao hiper-racionalismo do patriotismo constitucional, tudo responde pelo mesmo nome de patriotismo. Mas sempre se pode dizer o seguinte. O patriotismo é uma forma de amor, mas não de um amor qualquer. O seu modelo na experiência comum das homens é o amor filial que se sente pelo pai (ou talvez para ser mais rigoroso, e apesar da palavra, pela mãe). Aos olhos deste amor, os nossos patrícios são, portanto, nossos irmãos. Estão bem mais próximos de nós, e ligados a nós, do que o estrangeiro.
A inquietação do Pedro é com a Pátria que está subjugada por cleptocratas. Essa é talvez a dificuldade menor do patriota. Quantos filhos andam por esse mundo desgostosos com os seus pais (ou mães), alguns dos quais deixam pura e simplesmente de lhes falar, renegando-os? Haverá quem o faça com ligeireza e violando as obrigações naturais mais elementares - conheço alguns casos. Noutras ocasiões é mais difícil decidir. Mas, entre os que renegam, há quem mesmo nessas ocasiões mais complexas não consiga extinguir inteiramente a mágoa e a dor - conheço alguns casos. Quem renega a pátria, mas não consegue extinguir o seu sofrimento por ela continuar sangrar, é um patriota também. Apesar de viver lá longe. Apesar de abanar a cabeça reprovadoramente sempre que lhe falam nas suas desgraças e pecados.

O Fôlego de Pacheco Pereira

Pacheco Pereira foi convertido no "whipping boy" da democracia portuguesa deste final de 2009. O homem nem sempre tem razão, como é evidente, mas cheira-me muitíssimo a esturro quando vejo quem tem o whip na mão. No texto lincado, Pacheco Pereira volta a pôr o dedo na ferida. O que num País pequeno, pobre, estranhamente absorvido em si mesmo, causa um ardor desconfortável.
Uma última nota: a dada altura no texto Pacheco Pereira diz: "E, ao fim de dez em onze comentadores e jornalistas na SICN ou na TSF ou na RTPN a dizerem o mesmo, quem é que se atreve a duvidar?". Registo com agrado que Pacheco Pereira não incluiu a TVI24 na matilha.

Leitura recomendada

A Direita que a Esquerda quer, por Rui Albuquerque

Segunda-feira, 26 de Outubro de 2009

O resultado

Cá está o resultado de vinte e sete de Setembro.

This is what you want, this is what you're gonna get...

Comentário Político


Quem é que convidou o Javier Bardem para o Governo?

Leitura cretina

Há muitos modos de ler um texto. Inclusive um texto quase forçosamente simples, como um post. Muito comum é o de ignorar completamente o que ele diz, se o que ele diz não encaixa no que eu já sei, e reagir, não ao que ele diz, mas ao que eu «sei» que o seu autor quer dizer, ou quer omitir. É a elasticidade mental da pedra.

George Lemaître


O autor da teoria do Big Bang, a explicação científica hoje mais aceite sobre a origem do universo, foi um padre belga: George Lemaître.
No ano internacional da astronomia, o Centro Cultural Pedro Hispano convidou o seu principal biógrafo, Dominique Lambert, a fazer uma conferência sobre este tema em Lisboa.
É amanhã, 27 de Outubro, às 18h30, no anfiteatro A2 da Universidade Católica Portuguesa. A entrada é livre.

Da série "A concorrência faz melhor"

Com tanta rotunda pelo país fora, como é que ainda ninguém levantou uma estátua a este homem?

Ainda algumas reacções etc.

2. As minhas reflexões sobre o PSD estão feridas de incoerência e ilegitimidade, segundo o Paulo Gorjão. De incoerência porque não as fiz em tempo próprio, embora em sede própria, e de ilegitimidade porque apontei o dedo a quem as fez a Manuela Ferreira Leite, sendo eu próprio "um crítico feroz" de Luís Filipe Menezes. O que me dá o privilégio de uma descrição colorida: "Às segundas, quartas e sextas foi um institucionalista. Às terças, quintas e sábados, o institucionalista deu lugar a alguém que mandava a sede própria às urtigas".
Há aqui, como direi?, alguma incoerência. Se eu não critiquei o PSD no "espaço público" (elástico conceito...), então não mandei "a sede própria às urtigas", pois não? Surpreende-me que alguém tão dado à análise florentina esqueça muito convenientemente as circunstâncias. Quando cumpri o dever cívico de criticar Luís Filipe Menezes, nem eu estava no Instituto Sá Carneiro nem o PSD estava em campanha. Reunidas as duas condições, fico fora do campeonato do eu bem avisei que. Primeiro, porque não avisei nem tinha que avisar. Não faço fretes ao PS. Segundo, porque mais importante do que ter razão era apoiar uma candidatura que, apesar dos seus erros, seria sempre melhor para o país do que Sócrates. Como, de resto, foi sem dúvida melhor para o PSD do que Santana Lopes ou Passos Coelho.
Não me arrependo de uma única linha que tenha escrito em defesa de Manuela Ferreira Leite. E se hoje lhe aponto erros é porque chegou o "tempo certo" de corrigir os erros. (Já agora, o modo como Passos Coelho foi excluído das listas de deputados foi um erro. Um erro que lamento ter calado. Devíamos ter-lhe proposto um lugar dificilmente elegível em Lisboa - e obrigá-lo a fazer campanha ou a recusar a malandrice. Ai, a falta de jeito da Manela e do Pacheco...)
Diz o Paulo Gorjão que tento passar "pelo meio dos pingos da chuva". Como se eu, um "ultra", pudesse sacudir a água do capote! (Faço notar, de passagem, que as metáforas climatéricas são muito mais giras do que as futebolísticas.) Sucede é que não confundo o futuro do partido com o meu particular messias, ao contrário dos passoscoelhistas. E ao contrário do Paulo Gorjão, que já confessou no "espaço público" - basta ir aos arquivos e tal - votar Sócrates ao Domingo e Passos Coelho à segunda. Escapa-me a "coerência" do percurso. A não ser, claro, que Passos Coelho seja mesmo um Sócrates de segunda.
3. Cá pelo nosso Cachimbo, a Maria João e o Fernando Martins asseguram-me que o programa do PSD tinha muito por onde se distinguir do PS. Bem sei. Li o programa, o que talvez não possam dizer muitos dos que o criticaram ou que criticaram a demora em fazê-lo. A questão não é essa. A questão é que, em campanha, o programa foi completamente subalternizado pelos temas em que Manuela Ferreira Leite apostou tudo: "política de verdade", asfixia democrática e TGV. A aposta correu mal. A "verdade" foi à vida com António Preto e Helena Lopes da Costa, a asfixia democrática foi esvaziada pelos elogios a Jardim e pela demissão de Lima, o TGV não chega para fazer uma campanha eleitoral.
4. E já que estamos em maré de admitir erros, reconheço que me enganei sobre o Pedro Marques Lopes. Minhas senhoras e meus senhores, ele fez mesmo um link para o Cachimbo. Nunca pensei que descesse tão baixo.
5. O Vasco Campilho queixa-se de que não lhe percebo as metáforas. Os passoscoelhistas sempre puxaram um bocadinho ao calimero, mas eis uma nova espécie: o calimero lírico.
6. Gostaria de comentar outras reacções mais interessantes, algumas nas caixas de comentários aqui da casa, só que este post já vai longo. Fica para depois (espero).

Tertúlia Amor Vs Paixão

Com a presença de João Villalobos e João Gomes de Almeida. A moderação é de Ana Anes.


E que tal, se, por uma vez, falássemos, a propósito, de sucesso na economia global?

O livro estará disponível via amazon.com a partir de 4 de Novembro.

Reza assim, a descrição do produto na página da Amazon:

START-UP NATION aborda a questão trilionária: como é que Israel - um país com 7,1 milhões de habitantes, apenas 60 anos de existência, rodeado de inimigos, em permanente estado de guerra desde a sua fundação, sem recursos naturais - produz mais «start-ups» do que países maiores e em paz, como o Japão, a China, a Índia, a Coreia, o Canadá e o Reino Unido? Com a habilidade de especialistas em política externa, Senor e Singer examinam as lições a retirar de uma cultura da advsersidade - que despromove as hierarquias e estimula a informalidade -, todas apoiadas por políticas governamentais centradas na inovação. Num mundo em que economias tão diversas com a Irlanda, Singapura e o Dubai tentam recriar o «efeito Israel», há lições de empreendedorismo que são dignas de nota. (...) Nunca foi tanto altura de olhar para esta nação notável e flexível para obter algumas sugestões surpreendentes e impressivas.

O Jerusalem Post, por seu turno, fornece o seguinte trecho do livro:

É agora sobejamente conhecido no mundo «tech» aque as companhias e os investidores globais estão a abrir caminho para Israel. De facto, mesmo em 2008 - um ano de turbulência económica global - os investimentos em projectos de risco per capita em Israel foram 2,5 mais elevados do que nos EUA, 30 vezes mais elevados do que na Europa, 80 vezes mais elevados do que na China, e 350 vezes mais elevados do que na Índia (com um total de 3.850 start-ups, uma por cada 1844 israelitas).

Talvez já seja menos conhecido o facto de que a economia e as políticas governamentais israelitas cultivam um empreendedorismo único através do seu serviço militar obrigatório, da sua abordagem inovadora em relação à imigração, e da sua desproporcionada despesa em investigação e desenvolvimento (Israel é líder mundial na percentagem de despesa nacional afectada a I&D). Menos conhecido ainda é o facto de a campanha concertada do mundo árabe para isolar o país ter sido, também, um importante ingrediente do sucesso. Os efeitos económicos desse isolamento podem ser encontrados em lugares como La Paz, na Bolívia. (...).

Depois falamos.

Citação montesquieuana do dia

Os povos nos impérios da Ásia são governados pelo bastão; os povos tártaros, por longos chicotes. O espírito da Europa foi sempre contrário a estes costumes: e, em todos os tempos, aquilo a que os povos da Ásia chamaram punição, os povos da Europa chamaram ultraje.

Newt Gingrich?


Newt Gingrich é um político com formidáveis qualidades políticas. Foi o responsável pela vitória esmagadora do Partido Republicano em 1994. Hoje admitiu que pode concorrer às presidenciais em 2012. Nesse ano terá 69 anos, e essa será a sua última oportunidade. Acredito que a sua decisão irá ser influenciada em grande parte pelos resultados das midterms do próximo ano. Seria um excelente sinal ter um candidato como Gingrich.

Prioridades e o casamento homossexual

O Vasco Barreto explicita aqui três argumentos em defesa da ideia de que o casamento gay é uma questão prioritária. Mas, parece-me, confunde o essencial: prioritário para quem, para o Governo ou para o país? É que, como é evidente, as prioridades de um e de outro podem não coincidir, e quando assim for, devem prevalecer as do país. Ora, o Vasco, ao querer justificar o casamento homossexual como prioritário, explica a prioridade para o PS mas falha em demonstrar de que modo isso é prioritário para o país.

O primeiro argumento que utiliza – o facto de haver maioria no Parlamento (PS+BE+PCP) e não sabermos por quanto tempo esta Legislatura se aguentará – justifica, de facto, que a questão seja prioritária para o Governo, que quer passar a lei enquanto pode. Mas, a facilidade em reunir consensos não torna as questões prioritárias, pelo que o argumento só se aplica por razões de conveniência política: o PS pretende reunir apoios à esquerda desde o início do seu novo mandato, e esvaziar parte da agenda do BE. Aqui, a prioridade é para o Governo, e é determinada pelas circunstâncias, i.e. pela janela de oportunidade política para legalizar o casamento homossexual. Por outro lado, o seu segundo argumento – uma consideração de prioridade desenhada a partir do número de interessados e/ou da gravidade da questão – é um argumento frágil, e que o próprio Vasco reconhece que não ser convincente. Isto, pela simples razão de que o casamento gay, independentemente dos interessados (homossexuais e aqueles que partilham a causa), terá menos interessados e menor gravidade que o desemprego, a precária situação económica do país, o risco da falência do Estado Social, ou o crescimento da pobreza no país, para citar somente alguns exemplos. Quanto muito, este argumento do Vasco faria sentido teórico quanto à gravidade, na lógica da violação dos direitos dos homossexuais pelo não reconhecimento da sua igualdade. Mas na prática, não passaria de retórica.

O terceiro argumento do Vasco, que ele considera irrefutável, é o mais interessante. Defende ele que as “discussões que se arrastam e cujo principal recurso consumido é a atenção que absorvem são, por definição, prioritárias”. Certo. Mas isto envolve pelo menos três pontos da maior importância sobre os quais importa reflectir.

(1) Aqui, o Vasco utiliza ‘prioritário’ para explicar que deve ser resolvido com urgência. Ora isso nada nos diz sobre como as coisas são resolvidas. É verdade que o Vasco faz a ressalva de que rejeitaria decisões sumárias, mas é um facto que este argumento as legitima. O perigo do argumento é que coloca em quem governa a liberdade de decidir se aplica a decisão sumariamente ou não, sendo que ambas seriam legais e legítimas.
(2) Desvaloriza-se a discussão. Na lógica do argumento, ela de nada serve senão para absorver a atenção, uma vez que em nada interfere com a decisão política. É tempo perdido. Mas se realmente assim fosse, não valeria a pena discutir todas as questões estruturantes, cujo debate é por definição longo, a partir do momento em que exista no Parlamento uma maioria nítida para um dos lados. Assim, a participação política da sociedade civil é posta do lado da irrelevância. Note-se que as questões estruturantes demoram mais tempo a serem discutidas, mas que é essa discussão que legitima a decisão política. Se o casamento homossexual tivesse sido legalizado no início do primeiro Governo de Sócrates, por exemplo, seria razoável de presumir que não teria a aceitação que terá agora, tendo em conta que o debate público serviu para derrubar preconceitos e quebrar os maus argumentos que alimentavam a discussão em ambos os lados.
(3) Este é um argumento ‘progressista’. As questões prioritárias devem ser resolvidas, mas para o Vasco existe apenas uma forma de as resolver. Na questão em causa, esta só será resolvida quando for legalizada; enquanto não o for, ficará sempre por resolver. O mesmo sintoma se identifica no exemplo, que o Vasco refere, da intervenção involuntária da gravidez: o “não” no primeiro referendo não resolveu a questão, apenas o “sim” ao segundo o fez. O Vasco tenta legitimar esta perspectiva pelo facto de hoje o debate sobre questões como a intervenção voluntária da gravidez não ter o mesmo vigor de antes (ou ser inexistente em alguns casos). Mas isso sucede por razões óbvias, que nada têm a ver com as questões em si: (a) a discussão já não influencia a decisão, pelo que se torna menos interessante para a opinião pública e tem menos espaço na agenda; (b) é mais difícil anular uma lei que propor uma lei nova, facto que leva a que, uma vez aprovadas as leis, as discussões sobre as mesmas tendam a morrer.

Para terminar, um último ponto pessoal: nada tenho contra o casamento homossexual, mas não consigo conceber esta questão como uma prioridade para o país. Que o seja para o Governo, entendo-o, enquanto estratégia política de ‘governar à esquerda’. Por isso, não posso deixar de considerar que, ao definir estas prioridades, o Governo está a pensar mais em si do que no país. E com isso, independentemente da questão, não posso concordar.

Domingo, 25 de Outubro de 2009

Donna Summer: "Hot Stuff" e "Bad Girls"

Os anos pesam a todos, a começar pelo autor do post.

K.


An Fortschritt glauben heisst nicht glauben, dass ein Fortschritt schon geschehen ist. Das wäre kein Glauben.

Acreditar no progresso não significa acreditar que já houve progresso. Isso não seria acreditar.

Coisas realmente importantes

Tiago Moreira Ramalho

Tu es Petrus

Em 2008 o Papa publicou um Motu proprio que "liberaliza" a chamada "Missa Tridentida" em todo o mundo, esclarecendo que tal liturgia constitui, não um rito diferente, mas uma forma "extraordinária" do mesmo rito latino. Com o Motu Proprio o Papa abriu porta à reintegração de cerca de 500 padres seguidores de Monsenhor Lefevbre. Já em 2009 o Papa levantou a excomunhão decretada aos quatro Bispos sagrados por Lefebvre em 1988, e actualmente decorrem debates doutrinais entre a Fraternidade Sacerdotal S Pio X e Roma com vista assegurar que os "tradicionalistas" aceitam o Magistério de todos os Papas e os ensinamentos do Concílio Vaticano II. Espera-se que em 2010 estejam reunidas as condições para uma regularização canónica da Fraternidade de S Pio X.
Na semana passada foi anunciada a publicação de uma "constituição apostólica" que irá regular a reunificação da tradição Anglicana à Igreja Católica, constituindo o maior passo de superação da divisão anglicana dos últimos cinco séculos. Os livros litúrgicos serão revistas à luz do catolicismo mas preservando a tradição litúrgica anglicana. Os Padres anglicanos serão recebidos na Igreja e o celibato não será condição para o acesso ao sacerdócio no âmbito da prelatura pessoal que será instituída para receber os anglicanos .
Decididamente os braços abertos de Bento XVI surpreendem o mundo.

Alentejo (28)

Portel. Uma velhota sorridente.

O corredor

O nosso primeiro-ministro reincidente lá foi hoje mostrar-se a correr. Nas terras de Isaltino. Que não deve ter resistido a mostrar-se também. Two of a kind. Toda aquela uniformização em azul, toda aquela "alegria"-para-ser-vista, todo aquele culto da "boa forma" física na modalidade da carneirada higienizada faz lembrar (vá, irritem-se) aquelas iniciativas igualmente apalhaçadas na Alemanha dos anos 30: Kraft durch Freude, a Força pela Alegria. (Lá, rebanhos geométricos de palhaços em castanho, cá rebanhos sorridentes de palhaços em azul.)
Mas o que é engraçado é ver-se precisamente aquele que é o protagonista da coisa a garantir-nos a sapatilhas juntas que não está ali para falar de política. Deve achar que somos todos parvos.
Se não está ali a falar política, está a fazer o quê? A correr, não?...

Dois Estados?

«Dois-Estados» é, senão outra coisa, pelo menos uma muito deficiente designação para uma desejável e viável solução do conflito que opõe israelitas e árabes no Médio Oriente.

A questão é: que dois Estados? Um Estado judaico e um Estado palestiniano? Ninguém do lado palestiniano - Fatah ou Hamas - defende tal solução.

O Presidente Mahmud Abbas, da Autoridade Palestiniana, sob o domínio da Fatah, subscreve, de facto, a solução de «Dois-Estados», quer dizer, um Estado palestiniano e um Estado de quem o apanhar.

Ao mesmo tempo, advoga o exercício do direito de retorno - a Israel - dos cinco milhões de «refugiados» palestinianos (nove décimos dos quais são, de facto, árabes descendentes dos refugiados da guerra de 1948, não tendo nunca sido recebidos e integrados nos Estados árabes onde vivem). Ou seja, defende um Estado palestiniano já, e mais outro, a mais ou menos curto prazo. De resto, é coerente com a sua carta programática inalterada desde os anos 60, que fixa como objectivo a destruição de Israel, apesar das negociações de paz dos anos 90, e de declarações de princípio contrárias a essa carta, de 1998, de alguns notáveis da OLP.

O Hamas, ao menos, não joga na ambiguidade e na língua-de-pau: o objetivo de evacuar Israel do mapa, em nome do Islão é, desde 1988, proclamado da mesma maneira, sem tergiversasões.

«Dois-Estados» é, pois, uma expressão que não designa nada de politicamente substancial, capaz sequer de estabelecer os termos para o início de uma negociação, tendo em vista o compromisso - e obviamente que não há solução para o conflito sem compromisso.

O problema dos «Dois-Estados» é que a própria expressão é susceptível de significados absolutamente incompatíveis: «Dois-Estados», como os propostos pela Fatah, designam o fim de Israel; «Dois-Estados», como os que propõe Israel, designam qualquer coisa que nunca foi aceite por qualquer liderança política palestiniana - o reconhecimento do seu direito à existência, do direito à existência de um Estado judaico.

A Nuvem e as Formigas

Publicado no i

Referir a nacionalidade de alguns escritores, como é o caso do italiano Italo Calvino, é um mero acto de competência geográfica ou de zelo patriótico. As obras que lhe granjearam admiração universal provêm de um outro lugar de coordenadas imprecisas, que por comodidade poderemos designar por Literatura, nomeadamente da sub-região do Fantástico. O poder criativo de Calvino, refreado pelo rigor matemático da linguagem, nunca resvala para o devaneio. As Cidades Invisíveis são o exemplo maior dessa arte em que uma imaginação prolífica se alia a uma prosa geométrica. O estilo do autor impõe-se sem esforço aos códigos dos géneros literários.

O mesmo acontece nos dois contos que constituem este livro: A Nuvem de Smog e A Formiga Argentina. Embora tenham sido escritos numa época (1958 e 1952, respectivamente) em que o neo-realismo ainda era a corrente dominante e mesmo que possam ser classificados de “realistas”, afastam-se de qualquer cartilha literária. O primeiro é a história de um jornalista que decide aceitar o lugar de redactor num pequeno jornal. Obedecendo a um desejo de apagamento (“não suporto chamar a atenção”; “queria sentir-me alguém de passagem”), muda-se para um quarto acanhado na nova cidade. Nesse sentido, a perpétua nuvem de smog que envolve a cidade e os seus habitantes deveria ser uma ajuda. No entanto, a visita da namorada, uma mulher bela e optimista lembra-o da possibilidade de uma vida diferente do beco cinzento e empoeirado que escolheu. O segundo conto passa-se num ambiente rural. Um jovem casal com um filho aluga uma casa. A esperança de aí encontrarem a tranquilidade que amenize as dificuldades quotidianas rapidamente se desvanece. Os terrenos em volta da casa estão infestados de formigas nada preocupadas em proporcionar sossego aos habitantes. Quando procuram saber como é que os vizinhos evitam as formigas, percebem que, mais do que uma ameaça, os insectos são parte integrante do seu modo de vida.

Tal como são apresentados nesta edição, os contos foram publicados em 1965, embora já estivessem incluídos no Livro Quarto da colectânea dos Racconti, de 1958. O autor considerava que estes contos estavam ligados por uma “afinidade estrutural e moral”. As ressonâncias são óbvias e o cruzamento de ambos permite uma leitura mais rica. O retrato de ambientes distintos (uma cidade industrial e uma aldeia) e a natureza oposta das “ameaças” (o smog e as formigas) esvaziam a dimensão neo-realista. A angústia não é classista, nem é um mal exclusivo dos centros urbanos e do progresso. Porém, é selectiva: ataca aqueles que não se adaptam. O casal e o jornalista partilham as dores da inadaptação a um novo meio. Aquilo que é um incómodo para eles é, para os adaptados, um factor de coesão social e até de cumplicidade conjugal. As semelhanças entre ambos os finais, em que os protagonistas se distanciam dos problemas e contemplam paisagens despoluídas e desinfestadas, elucidam-nos quanto ao sentido metafórico que Calvino atribui ao smog e às formigas: o da rotina que nos envolve, como a nuvem de smog, e que entra pelas nossas casas sem pedir licença, como as formigas.

Sábado, 24 de Outubro de 2009

O PS não é o País ou a Campanha Eleitoral já começou

Depois de duas semanas de péssimas notícias para a economia nacional - défice do Estado descontrolado, endividamento externo a estender-se para além da calamidade (apesar da recessão), desemprego sem tecto à vista - este Governo, que todos os "analistas" (com muitas, muitas aspas) apontaram como "forte" na Economia, já escolheu as suas prioridades: o casamento gay, como nota o Carlos Botelho.
Estranho? Nada disso. Este Governo vai estar em campanha eleitoral todos os dias da sua vida. Para começar, trata-se de reconquistar o terreno perdido para o Bloco. O casamento "gay" é uma medida "sem custos" que dá um cheiro de "modernidade" ao governo e exibe "valores de esquerda". Tudo o que o PS precisa. Mas ao contrário do que alguns pensam o PS não é o País.

A respeito da "polémica"

O que é, realmente, ler?...
Ler (para mais, o que vale a pena ser lido) não é sempre interpretar?

Como se , por exemplo, a expressão 'perna da cadeira'?...

Termópilas

Sim, provavelmente também "preferiria" Atenas a Esparta. Mas... os Espartanos, com tudo o que eram (lembram-se dos Hilotas?), às vezes, davam muito jeito. Muito jeito mesmo.

A pátria já pode respirar de alívio

Let´s go roman catholic, shall we?



É certo que o anglicanismo se tem transformado nos últimos anos numa religião algo exótica, onde até cabe a defesa pelo infeliz Rowan Williams do uso da sharia (ou partes de, como se fosse possível) nas comunidades muçulmanas residentes na Grã-Bretanha. É certo que o high-anglicanism, que ambicionava a reunificação da Igreja Anglicana com Roma, sempre coexistiu com outra facção mais nacionalista e com mais afinidades com luteranos e calvinistas. É certo que a Igreja Católica deve acolher todos os que a procuram. É certo que é sempre um bom e alegre momento para a Igreja quando dezenas de milhares (é o número estimado) de cristãos reconhece que se sente bem na Igreja Católica.


Contudo a conversão dos anglicanos tem travo agri-doce. Não deixa de incomodar que a conversão seja causada pela discordância da ordenação de mulheres - aceite na Igreja Anglicana - que não é, nem pode ser, dogma de fé nem, muito menos, o centro da fé segundo os católicos. Nem é, sequer, assunto encerrado na Igreja Católica. (Já a impossibilidade de casamento para os padres diocesanos católicos se torna mais indefensável -ainda que continue mais defensável do que a impossibilidade de ordenação das mulheres - com a inclusão de tantos clérigos casados, juntando-se a ocasionais convertidos do anglicanismo ou ex-ortodoxos que não têm causado escândalo nem melindre nas suas várias tarefas temporais ou espirituais).

Poderá Ser Feliz Uma Experiência "Socrática" do PSD?

Parece-me evidente que aqueles que querem Pedro Passos Coelho à frente do PSD pensam, também, nas vantagens políticas e eleitorais que o maior partido da oposição obterá se passar a ter um líder parecido com Sócrates. Estão aliás convencidos de que um PSD com Passos Coelho candidato a primeiro-ministro teria sido suficiente para obter uma vitória nas eleições de Setembro último. Talvez tenham razão. No entanto, seria bom que se recordassem que depois da humilhante derrota nas eleições legislativas de 1985, com Almeida Santos candidato a primeiro-ministro, o PS decidiu escolher o seu Cavaco Silva para secretário-geral. Chamava-se Vítor Constâncio e era, entre outras coisas, economista e, tal como o então primeiro-ministro, uma espécie de anti-político. Ora se bem nos lembramos, o resultado da experiência "cavaquista" do PS foi tudo menos brilhante. Pergunto por isso se poderá ser mais feliz a experiência "socrática" do PSD.

M.U.N.

Toda a gente parece tão satisfeita com o “novo” governo, os “novos” ministros. Com uma sindicalista no Trabalho, uma escritora-ex-professora na Educação e uma pianista na Cultura, estamos no melhor dos mundos. Mas os crentes da epopeia "reformista" a haver, orfãos da "determinação" "socrática", parecem decepcionados: assim, não se afrontam as "corporações", lamentam-se eles de beicinho estendido.
Calma. Esperemos pelo programa do governo. Então se verá se a diferença está nos bonecos.
Seja como for, todo este assentimento prazenteiro com a "novidade", com a "inteligência", a "habilidade", a "solução equilibrada" de Sócrates é já o começo da síndroma da MUN: a Mariquice da União Nacional. Ou muito me engano ou, nos tempos que aí vêm, já não ouviremos a lamúria "dos que fazem" e "dos que só dizem mal"; passaremos ao registo chantagista "dos que querem fazer" (os bons) e "dos que não deixam fazer" (os maus).

Mais uma reacção ao que o Pedro Picoito escreveu no i

Tenho concordado com quase tudo o que o Pedro escreve, no i ou aqui no Cachimbo, sobre o PSD; há, no entanto, um ponto que não concordo: a semelhança entre PS e PSD. As propostas do PSD nas últimas eleições foram pouco ambiciosas no que toca a libertar os indivíduos, as famílias e as empresas do Estado, e não aproveitou o excelente trabalho que se fez no IFSC; contudo teve uma proposta substancialmente diferente da que ofereceu o PS. Davam-se os primeiros passos na Saúde e na Educação para uma maior liberdade de escolha ou um melhor aproveitamento das estruturas existentes públicas mas também privadas; as políticas para as PME´s reduziam o custo do factor trabalho e, sem subsídios, facilitavam a tesouraria das empresas; o tom de todo o programa era de ênfase na iniciativa privada e individual e de fim do 'dirigismo estatista'. O programa do PS, pelo seu lado, esteve perto de diabolizar o sector privado nas várias as áreas e todos os problemas são resolvidos pela acção estatal e, sobretudo, com subsídios e prestações do Estado - programa de governo socializante que, sem surpresa, resultou num governo muito à esquerda do primeiro governo Sócrates, que se pretendia mais pragmático que ideológico.
Desta vez parece-me que não se pode culpar a falta de diferenciação entre os dois partidos pelos resultados do PSD.

Cachimbos de lá

Norman Rockwell, O debate interminável, s.d.

Sexta-feira, 23 de Outubro de 2009

A doce alternativa

O Socratezinho melado do PSD lá saiu da sede do Partido, pestanejando os seus requebros para conforto alternativo da Pátria. Vai ter muito que pestanejar.

Ainda algumas reacções ao que escrevi anteontem no i

1. O resumo que o Francisco Mendes da Silva faz da história do PSD está incompleto. O PSD é mais do que os dez anos de solidão do cavaquismo (e espero que agora não me venha dizer que o Garcia Marquéz tem uma notória ausência de frases com mamas e sopas de peixe). O que ele nos descreve é o grémio novo-rico que o Independente legou à posteridade, não o PSD de carne e osso, sucessor da ala liberal de Sá Carneiro, o único espaço político em que, antes do 25 de Abril, se pensava a democracia portuguesa fora do marxismo. Recordo que, à data, Adriano Moreira era ministro do Estado Novo. O PSD "civilizou" o regime, fez a revisão constitucional de 82, extinguiu o Conselho da Revolução, enfrentou a sombra cesarista de Eanes, retirou empresas e serviços ao monopólio público, abriu universidades e televisões à iniciativa privada, politizou e representou a classe média, pensou sempre primeiro na sociedade do que no Estado.
Há aqui muita ideologia por onde escolher. Reduzir o PSD a um partido "pragmático" e sem "qualquer ilusão ideológica" é o sonho estratégico do CDS pós-cavaquista, ansioso por converter-se em consciência intelectual da direita. Um sonho com um problema: não corresponde à realidade (costuma acontecer aos sonhos). Um mau sonho, além do mais. Um PSD fraco desequilibra o sistema partidário porque o CDS não tem força, por si só, para fazer frente à esquerda.
Seria interessante, de resto, ver melhor a ideologia do CDS. Além dos subsídios à lavoura e da esterilização dos ciganos, o partido de Portas tem hoje um projecto para o país? O que é que pensa do Tratado de Lisboa? E do casamento gay? E da reforma da justiça?
Concordo que o PSD está a pagar o sucesso eleitoral de Cavaco. Tornou-se uma máquina de poder ao serviço de interesses diversos, nem sempre louváveis, o que faz de qualquer discussão programática uma quase impossibilidade. Mas este é o momento ideal para lançar o debate que o Francisco, com manifesto exagero, diz nunca ter existido. Vamos ter dois anos sem eleições, excepto as directas - o forum por excelência do debate interno. Não há nada a perder. Ninguém deve silenciar diferenças em nome da unidade porque o regresso ao poder está longe. Pelo contrário, esperam-nos em breve batalhas políticas que exigem ideias claras: a regionalização, a revisão constitucional, a eutanásia.
O PSD deve discutir tudo isto abertamente, profundamente, violentamente se necessário. Até o Francisco ficaria surpreendido com os resultados. É bem possível que o PSD se parta ao meio, mas prefiro partir por divergências inconciliáveis a partir por convergências inconciliáveis.

Piano stairs - The fun theory

[Enviado de Londres por e-mail pela Josephine Campos e Souza]

Poder e representação

Numa fase em que dentro do PSD se anda a pedir por uma discussão séria, que permita repensar as direcções políticas do partido, tenho a sensação de que os critérios dessa discussão estão, logo de origem, enviesados. Luís Filipe Menezes, por exemplo, num artigo publicado ontem no Público e insuportável devido ao uso repetido de pontos de exclamação, pedia que o PSD de 2009 fosse esquecido, por ser “anti-Estado social, anti-ousadia económica e timorato nas questões de costumes e valores”. Ora, tirando o facto de ninguém (nem o próprio Menezes) saber explicar objectivamente o que significa ser-se ousado economicamente, e timorato quanto aos valores e costumes, é falso que o PSD tenha ido às legislativas com um programa eleitoral contra o Estado Social. Ou seja, parte da ‘reflexão’ está a ser feita com argumentos fracos, senão inteiramente falsos, cujos objectivos são (apenas) apoiar este ou aquele. É, por si, uma prática que inviabiliza qualquer tipo de discussão.

Claro que isso não é forçosamente um problema para alguns, nomeadamente aqueles que julgam serem os próximos a assumir as rédeas do partido. A “fuga para a frente” e a ausência de discussão favorece-os, mas não ao partido. Como em tudo, a imprudência tem custos e permite que mais facilmente se cometam erros. E o maior erro parece-me ser o facto da discussão (a pouca que existe) estar a ser guiada com base em votos e não em políticas. A pergunta que o PSD tem de se colocar não é “como conseguir mais votos”, mas sim “como representar melhor os valores e as políticas em que acredita”. A primeira, de objectivos imediatos, pode levar a uma vitória eleitoral mas conduz certamente a uma descaracterização política. A segunda permite a consolidação política do partido, e progressivamente que mais cidadãos se revejam nas suas propostas.

São perguntas diferentes, que expõem uma nuance que parece esquecida: o fim de um partido não é o poder, mas a representação política. Enquanto esta nuance não for imposta no debate, o PSD continuará sem rumo próprio, à mercê do líder do momento.

O novo Governo

Ontem e hoje já ouvi as reações dos partidos à esquerda e à direita em relação ao novo Governo. Ouvi também comentadores e analistas. As Confederações e os Sindicatos. As Ordens e as Associações. Mas até agora não ouvi ninguém a dizer aquilo que me parece evidente.
Este é um mau Governo e é o Governo mais à esquerda desde o tempo de Maria de Lurdes Pintasilgo. Há Ministros bons e Ministros novos, só que os novos não são bons e os bons não são novos.
Decididamente este não é um Governo para quatro anos.

Alentejo (27)

Montemor-o-Novo. Castelo (II).

Um compromisso aceitável

Manuela Ferreira Leite anunciou ontem que irá marcar eleições directas após a discussão do Orçamento de Estado. Seguindo esse calendário, teremos eleições em Fevereiro/Março para a liderança do PSD. Percebo que não tenha avançado em iniciar já o ciclo eleitoral, que teria de concretizar-se em Dezembro. Com as eleições em Fevereiro/Março, nenhum dos potenciais candidatos poderá dizer que não teve tempo para preparar a sua candidatura, nem sequer queixar-se que tudo foi feito à pressa. Haverá tempo para discutir as ideias, os projectos e as lideranças. Um processo às claras, como há muito o PSD não assistia.

O que se pede aos potenciais candidatos é que avancem, sem receios nem tácticas. Admiro muito Marcelo Rebelo de Sousa, mas pedir um concilio de notáveis para definir o futuro do PSD não é uma proposta séria. Em democracia, devem ser os militantes a decidir o seu futuro. Um projecto de unidade é importante, até para suster este processo de balcanização do PSD. Mas essa unidade não poderá ser construída de forma artificial, nos gabinetes e longe dos militantes.

In Nomine Dei

Em Rio de Moinhos, havia um bruxo. Católico, asseguram os vizinhos, mas bruxo. Vivia, como se espera de um bruxo, sem água, sem luz e sem telefone, mas com um irmão, supõe-se que menos bruxo mas não menos católico. Não cobrava pelas bruxarias, mas a gratidão dos pacientes não o deixava à míngua de euros. Um dos quartos do casebre estava atravancado de santinhos, cúmplices cristãos das mezinhas e das rezas pouco canónicas mas, jura uma vizinha, sempre feitas “em nome de Deus”, não fosse a ortodoxia de algum padre querer condená-lo à excomunhão. Ainda segundo os vizinhos, a fama do bruxo de Rio de Moinhos (em matérias do oculto devemos ter o cuidado de não mencionar concelhos, sob pena de destruirmos o mistério a golpes de precisão geográfica e rigor municipal) chegava até Setúbal, facto que positivamente me intrigou. Talvez os habitantes de Rio de Moinhos tenham Setúbal como o ponto mais meridional do país, uma espécie de Cabo das Tormentas para além do qual não se atrevem sequer os sucessos dos mais admirados bruxos nortenhos. Mas se a fama do bruxo chegou a Setúbal - acreditemos na palavra daquelas gentes - chegou muito longe. Em jeito de comparação, atentemos nas votações do PSD naquela região, que confirmam que a fama que ali chega do maior partido da oposição é escassa e mesmo essa não é boa. Sucede que o bruxo morreu, um destino banal até para a população não bruxa. Alguém o assassinou: e aqui o caso passa do banal para o policial, permanecendo esotérico desde o início. O sincretismo do bruxo católico, a sua fama que só por acaso não se espalhou Portugal abaixo até terras dos mouros e o seu fim violento lembram-nos que o país profundo precisa de romancistas que nele mergulhem. Entretanto, mais por curiosidade mórbida do que por fruição literária, vamos lendo o Correio da Manhã.

Precisão Científica

"Tão errado é levar a Bíblia à letra, aceitando o que lá está, como levar a Bíblia à letra, recusando o que lá está."
Carlos Fiolhais, no Público de hoje

A noiva judia de Rembrandt


Já vi este quadro maravilhoso tantas vezes que perdi a conta, e não me canso de voltar a vê-lo. Vê-lo, vê-lo, como se pudesse esperar que ele me respondesse a tudo o que me ocorre perguntar-lhe. Ou vê-lo só mesmo para descansar a alma.

Primeiro que tudo - sem isso este quadro não me atrairia como a luz -, porque é uma obra-prima. Não sei se o amor conjugal foi alguma vez tratado de uma maneira tão bela, tão profunda, na arte ocidental. Julgo que sei: não foi. E, depois, porque me diz imenso, por tudo o que simboliza na história.

Tendo sido pintado por volta de 1666 ou 1667, só em 1825 passou a ser conhecido pelo nome hoje consagrado - A noiva judia. Discutiu-se bastante sobre quem ele representa, se o nome é bem aplicado, e até isso tem que se lhe diga, tem mesmo muito que se lhe diga, mas já lá irei.

Que eu saiba, não há hoje dúvidas de que o quadro representa um judeu e uma judia, acabados de se casar, ou em vias de o fazer. Rembrandt viveu muitos anos em Jodenbreestaat, Grande Rua Judaica, a principal artéria do bairro judaico de Amesterdão. Era amigo dos seus vizinhos, pintou-os e pintou para eles, muitos deles prósperos amantes das belas-artes. Com eles muito aprendeu sobre a exegese judaica, e de outra forma não é possível explicar determinados elementos «narrativos» que figuram em alguns dos seus quadros dedicados a temas da história bíblica. Gravou o rosto de Menasseh ben Israel, nascido Manuel Dias Soeiro, em 1604, na Madeira, e de outra forma não conheceríamos hoje tão bem os traços do mais influente rabino do século XVII.

É bastante provável que o noivo deste quadro seja Miguel de Barrios, alias Daniel Ha-Levi de Barrios, um dos mais célebres poetas de Amesterdão, nascido em Montilla, Andaluzia, c. 1625, filho do português Simon de Barrios. Ela, a noiva, será a segunda mulher de Miguel, D. Abigail de Pina, filha de um rabino proveniente de Marrocos.

O que primeiro intriga n'A noiva judia é a ausência de qualquer marca identitária de cariz religioso. E, porém, sobre a pública identidade religiosa dos noivos, a serem quem se julga que foram, não há quaisquer dúvidas. Rembrandt - e logo Rembrandt... - foi o primeiro pintor ocidental a abdicar totalmente de quaisquer «atributos» religiosos na figuração dos «seus» judeus. Seguramente porque os judeus da Comunidade Portuguesa de Amesterdão eram para ele uma presença de tal modo integrada no seu quotidiano e de tal modo exteriormente indiferenciada do resto da população que figurá-los de outro modo seria trair a realidade. Nisso, os judeus portugueses eram únicos por esse tempo.

Depois, não sei bem como dizer o quanto este quadro me emociona. Tudo na atitude dos noivos é uma espécie de calma plena. Eles não olham para nós. Com os rostos a três quartos, a direcção dos seus olhares cruza-se e fixa-se algures, num lugar que não sabemos decifrar. E não nos pertence saber qual é. A situação é simulatneamente de extrema intimidade e apresentação. Como no dia do casamento.

O braço esquerdo do noivo envolve delicadamente a noiva, protegendo-a. O braço direito pousa sobre o peito da amada, inesperadamente, num quadro onde tudo é pudor, e ela agradece o gesto, pousando a sua mão esquerda sobre a dele. A mão direita da noiva está sobre o seu regaço, envolvendo uma jóia, parece-me, que pende de um colar posto à cintura. O absolutamente fabuloso nesta figuração do amor conjugal é a forma como Rembrandt nela representa explicitamente tudo o que esse amor promete, inclusive a iminência da posse nupcial - «e serão uma só carne» (Gen. 2:24) -, sem que haja nessa representação traço da perda de graça que viria a acompanhar, mais tarde, toda a sugestão de sensualidade: na pintura, na fotografia ou no cinema.

Que sejam judeus, e portugueses, os habitantes desta encenação sublime de Rembrandt, é algo que também me toca, claro.


O novo governo Sócrates

Uma médica na Saúde, uma professora na Educação, uma artista na Cultura, um malhador na Defesa. Faz sentido. Só não percebo o administrador de um hospital na Agricultura.
(Pensando melhor...)

Pesadelo

Dois rostos politicamente (muito) fortes do novo Governo.

Abaixo de Cão

Se, como muita gente dentro e fora do PSD deseja, Pedro Passos Coelho for eleito presidente do maior partido da oposição, Portugal voltará a ter um ambiente politicamente sinistro. Dos cinco líderes dos maiores partidos portugueses um é comunista e quatro são/serão populistas.

Quinta-feira, 22 de Outubro de 2009

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Augusto Santos Silva será o novo Ministro da Defesa, substituindo Severiano Teixeira. Troca-se um académico da área da Defesa por alguém que, indiscutivelmente, não tem qualquer competência para o cargo, nem apetência para a área. Ficou claro que José Sócrates quis recompensar Santos Silva com um cargo de soberania, e lamenta-se que a escolha para um cargo de tamanha importância institucional seja feita com base em critérios onde contam mais o poder e o prestígio que as responsabilidades inerentes às funções a desempenhar. A vassalagem compensa.

Um salmo, já agora

Primeiro verso de um Salmo. Dedicado a Saramago. Salmo 14.

לַמְנַצֵּחַ, לְדָוִד. אָמַר נָבָל בְּלִבּוֹ, אֵין אֱלֹהִים

Para o líder. Para David. Diz o louco no seu coração: não há Deus.

O Japão e a "Década Perdida": Investimento Público

“The construction state [in Japan] is in some respects akin to the military-industrial complex in Cold War America (or the Soviet Union), sucking in the country’s wealth, consuming it inefficiently, growing like a cancer and bequeathing both fiscal crisis and environmental devastation.”
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-- Gavan McCormack, The Emptiness of Japanese Affluence.

O PSD é o único partido político onde ainda existe política.

Ler os Clássicos:

«A política propriamente dita.

Eu juro que não percebo: o PSD dá mostras de uma extenuante vida política - fibra, incerteza e drama - e o País, amansado por cinco anos de paroquialismo rosa, anda por aí a rir pelos cantos, verberando a triste sorte da São Caetano à Lapa. O PSD é um buraco, uma tenda, um caos desfeito em cacos. Durão é mole, trémulo, perdido ou fraco. Santana é firme, desvairado, temperamental, oportunista nato. Por amor de Deus: no PSD faz-se, coisa raríssima, política sem ser para o retrato. E política no sentido mais nobre, mais elevado e mais clássico. No PSD discute-se, como sempre se discutiu, o velho problema do poder. Sem maneiras, sem peneiras, sem penachos. Como conquistar o poder, pensa Santana. E como o conservar, pensa Durão. Tão simples, tão heróico e, por isso mesmo, tão estranho. Habituados à demagogia, à suavidade e à falácia, esquecemos como as coisas são. Ou, pelo menos, como as coisas deveriam ser. Leiam Mário e Sila na República Romana. E depois, com os devidos acertos, olhem cá para dentro. Parem. Escutem. E pasmem. Não se trata, como no PS, de gerir iniquidades, substituir nulidades e prometer leviandades. Nem se confunde com o PP, o casebre triste de uma vida triste, pobre e apagada. Uma vida à imagem dos fatos: cinzenta e listada.

Pelo contrário: no PSD a liderança é importante. O cerco a Durão não é imaginário: ele existe e já corre pela estrada. Santana deseja, tão prosaicamente, o poder - e, note-se, não tem vergonha em afirmá-lo. Não deseja mudar o País, a Europa, o Mundo e a Humanidade. Não há vigarices, promessas, compromissos, pactos ou palavras. Santana quer o partido, ponto final. E parte para a conquista dele. As três mil assinaturas, ao contrário do que se diz, são um acto de coragem, de megalomania e de brutalidade. Mais: Santana quer a liderança porque, atenção ao termo, sentiu um desafio. Eu repito: um desafio - que delicioso anacronismo romântico! Ou, então, na versão mais mística (que eu prefiro) ,porque ouviu a vontade subterrânea, e anónima, e telúrica das massas. A chamar por ele. Santana, Santana. Já agora, e se me permitem: a chamar por ele em noites de insónia e tempestade. Será verdade? Será mentira? Será loucura? E isso interessa a alguém?

Interessa: a Durão. Ao pobre dr. Durão, a mais genuína figura trágica. Um homem só, ferido e encurralado. À entrada para o Conselho Nacional, ouviu-se a pergunta da imprensa: «o senhor pensa demitir-se?» Pausa. Glacial pausa. Genial pausa. Prolongada pausa. E do fundo, do fundo do poço, um sorriso esboçado. Durão a voltar à tona da água, meio-vivo, meio-morto, meio-nada. Em directo, o milagre da morte e da ressurreição. Perfeito. Ou quase. Diga lá, dr. Durão:

- Eu gostaria de agradecer à minha mãezinha por este prémio, e o diabo a quatro.

Bravo, dr. Durão. Houvesse pelo meio uma cena de soco, uma amante ladina, um caso vulgar de paternidade - e o País, este manso e pobre País, estaria redimido e resgatado.

Os militantes do PSD não devem desesperar. Se o partido não regressa rapidamente a São Bento, mostra, pelo menos, que a política não é uma lide para sopeirinhas e outras donas de casa. É uma actividade onde há luta, estratégia, ambição e muito drama. Aqueles que riem do PSD não percebem o essencial: o PSD é o único partido político onde ainda existe política. A boa e velha política. Aquela que diverte e comove, surpreende e inflama.»

João Pereira Coutinho, Janeiro de 2000

Facção ou Messianismo

Integram uma facção ou um movimento messiânico todo o conjunto de pessoas que apoia um candidato independentemente dos méritos das alternativas que possam surgir. A facção serve sobretudo como conceito para os militantes, o messianismo para os apoiantes.

Argumentos de Circunstância


«Grandes lições de vida. Alguém podia recordar a Marcelo Rebelo de Sousa que além de não se voltar a um lugar onde se foi feliz, sobretudo não se costuma regressar a um lugar onde se foi infeliz.»

De tão expedito conselho, pode-se depreender que o Henrique esteve na primeira linha a recordar estas palavras, no seu partido, a Paulo Portas aquando da sua recandidatura? Só para perceber se é mesmo para levar a sério ou apenas uma frase oca de circunstância.

Liberdade de expressão: oca ou maciça?

Na sua crónica no i, João Rosas conclui com este parágrafo:

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"Embora simpatize mais com a primeira interpretação do que com a segunda, creio que estamos condenados a oscilar entre as duas. A primeira corresponde ao valor que atribuímos à liberdade de opinião em si mesma, a segunda à necessidade de a conciliar com a manutenção da paz. O pior que nos poderia acontecer seria mesmo a eliminação de qualquer destas duas interpretações."
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Mesmo com espírito de boa-vontade não percebo bem o que isto queira dizer. Percebo que, por um lado, a "primeira interpretação" da liberdade de expressão afirme o direito de tudo dizer sem qualificações. Por outro lado, "a segunda interpretação" defende a contenção desse direito por ter em conta a "necessidade de o conciliar com a manutenção da paz" - considerações de estabilidade, portanto. Mas a última frase é tão taxativa - "o pior que nos poderia acontecer" - que dificilmente pode ser aceitável.
Teria sido suficiente pensar numa terceira "interpretação", por sinal bem velhinha, para pôr em causa a validade de uma das outras duas. Teria sido suficiente olhar para a "interpretação" da liberdade de expressão (ou, para todos os efeitos, de qualquer outra liberdade) que se recusa a separar a liberdade da responsabilidade, que obriga - no sentido literal da palavra, gerar obrigação - ambas a caminharem juntas.
É o problema destes dualismos de artigo de jornal: soam sempre a ocos.

900 anos depois... Quem foi Afonso Henriques?

De acordo com o historiador Armando Almeida Fernandes, D. Afonso Henriques nasceu em Agosto de 1109, se fosse vivo completava 900 anos. Para lembrar o percurso e personalidade do primeiro rei português o Teatro Nacional D. Maria II, em co-produção com o Bando, apresenta de 14 de Outubro a 17 de Dezembro a peça "Afonso Henriques".

Com encenação de João Brites o enredo é baseado num poema épico de tradição oral e em crónicas da Idade Média que reproduzem a imagem de Afonso Henriques à época. O espectáculo incentiva o espírito crítica do espectador e foi distinguido pela Associação Portuguesa de Críticos de Teatro. Uma peça a não perder.

Sobre a real importância das coisas, o ponto de vista judaico

Porque me parece justo o comentário de J.M. a um post que aqui escrevi, transcrevo-o na íntegra.

Vi há pouco as declarações de um representante da comunidade judaica sobre este Saramago-show. Notáveis. Isto, mais ou menos.«Quando somos um povo perseguido ao longo dos anos e morto em massa, por acreditarmos nesse Livro, e perseguidos por pessoas que conheciam bem melhor a Bíblia que José Saramago, as declarações que fez são para nós irrelevantes.» Notável. Elevado. J.M.

O representante é o Rabino Eliezer Shai di Martino, Rabino da Sinagoga de Lisboa, Sharé Tikvá (As Portas da Esperança). As declarações foram feitas ao jornal noticioso da TVI.

Ainda o senhor-que-escreve-umas-coisas-Saramago

1. Leio opiniões como esta de Carlos Barbosa de Oliveira e pasmo. O eurodeputado David tem um desejo: que Saramago renuncie à nacionalidade portuguesa, como o visado um dia ameaçou (e não concretizou, lá percebendo que os portugueses não ficariam de coração destroçado; afinal a maioria dos portugueses não lê livros e, dentro dos que lêem, geralmente prefere-se quem escreva bem). O que faz o eurodeputado David em prol do seu desejo? Transmite-o à comunicação social. Comparar expressar uma opinião ou um desejo (nenhum contendo qualquer sugestão de desconforto físico para o improvável Nobel) sobre Saramago com a fúria muçulmana contra as caricaturas de Maomé - com honorável curriculum contendo manifestações violentas, embaixadas atacadas e até morte de religiosos católicos - ou a reacção iraniana ao livro de Rushdie - que tem uma fatwa a persegui-lo - é algo de verdadeiramente extraordinário. Tão extraordinário que não pode ser a sério.
2. Não sei bem por que razão, leio em vários lados que Saramago tem o direito de dizer os disparates que disse sobre Deus, as religiões e a Bíblia. Pois claro que tem e não li ninguém defender que Saramago devia ser amordaçado. Se este escrupuloso respeito pelo direito de Saramago de proferir disparates tem incomodado quem talvez desejasse reacções mais islâmicas, lamenta-se, mas a vida de vez em quando dá-nos desilusões destas.