Quarta-feira, 30 de Setembro de 2009

Balanço de fim de dia



Dito o que havia a dizer, enquanto ardíamos com o país, aqui fica o balanço ao fim de dia.

Abstenção

Depois de um acto eleitoral, ouve-se sempre a conversa do costume sobre a abstenção, o problema que representa, como demonstra a existência de um desinteresse quase generalizado pela política, como a nossa democracia fica mais pobre e como os partidos se esforçaram para apelar ao voto mas não conseguiram mobilizar os eleitores. Sobre isso:

(1) A taxa de abstenção em Portugal é normal quando comparada com as restantes democracias onde o voto não é obrigatório. Podemos dizer que é pena que não haja mais gente a votar, mas até este argumento é duvidoso se não pressupusermos que o que é realmente pena é que não haja mais gente a interessar-se pela política e que por isso não vote. Se os que votam se interessarem um pouco pela política, já não é mau.

(2) Os partidos não querem que haja mais gente a votar. Ou melhor, é-lhes mais ou menos indiferente. A eleição dos seus deputados não depende do número de pessoas que vota; é apenas determinada a partir das escolhas de quem votou. Ou seja, só interessa a um partido incentivar os eleitores a irem votar se sentir que o eleitorado que lhe é mais favorável não está mobilizado para o fazer, e que isso lhe custará assentos no Parlamento. Pressupor que os partidos, quando apelam ao voto, o fazem por uma qualquer razão de altruísmo democrático é estar mesmo muito enganado. Por isso, aqueles que apelam aos partidos para que promovam políticas de incentivo ao voto estão a pedir-lhes, no fundo, que procurem resolver algo que para eles não é um problema. Esse tipo de debate tem de ser feito fora da lógica dos partidos.

(3) A qualidade da democracia não é determinada pela taxa de abstenção, mas sim pelo funcionamento das suas instituições. Claro que a participação eleitoral é importante e que se existir uma taxa de abstenção de dois terços isso é problemático, mas em condições normais a questão não se aplica. Aqueles que se dizem preocupados com a ‘qualidade da democracia’ que olhem mais, por exemplo, para a interferência dos partidos na Justiça, onde o problema é realmente sério.

Da série Também Gosto de Minudências

Pois é.

Que farei quando tudo arde?*

O Pedro Correia, sempre tão cioso do pluralismo do Delito de Opinião, parece estranhar que o mesmo pluralismo exista em blogues alheios. No caso do Cachimbo, então, não há nada a fazer.
Lembro-me de um post em que nos tratava por "esta malta", unindo-nos já não sei a que comum vileza, e de outro em que recenseava o Pedro Pestana Bastos entre os laranjinhas da casa.
Agora, descobriu que eu e outros "ilustres colegas" temos opiniões diferentes, imagine-se, sobre o Presidente da República.
Lamento desiludi-lo.
O país está a arder e o Pedro conta fósforos na blogosfera. Olhe que sim, olhe que sim.
*Com a devida vénia ao Sr. Francisco Sá de Miranda.

Alentejo (19)

Portagem. Marvão no cimo, Portagem cá em baixo.

Deu dó ver o Presidente a meter água

O Presidente da República não pode abrir um conflito institucional com o Governo, invocando suspeitas, indícios de tremendas irregularidades. Disse aqui, no dia em que elas foram insinuadas por fonte anónima da Presidência da República, que - sim, não é crime acalentar suspeitas, mas é de uma enorme irresponsabilidade partilhá-las com a imprensa - o Presidente não podia tolerar semelhante gesto.

O Presidente da República é o garante da estabilidade institucional. Ontem, fez o exacto contrário do que dele se espera.

Ontem, o Presidente entrou postumamente na campanha eleitorar, fazendo o contrário do que disse que não faria, por maiores pressões que lhe dirigissem. Como? Fornecendo ao Governo legítimo capital de queixa sobre um Presidente que o afronta, sem objectivas razões para o fazer. Penso que no Rato agradeceram o Jack-pot.

O que o Presidente disse e não disse

Disse que "o partido do Governo" usou a "manipulação", a "mentira" e o "ultimato" para o "colar ao PSD" e "desviar as atenções do debate eleitoral das questões que realmente preocupam os cidadãos".
Disse que só o o Chefe da Casa Civil e o Chefe da Casa Militar falam em seu nome e que "só por isso" fez a "remodelação" de Fernando Lima.
Disse ter "dúvidas" quanto à "veracidade das afirmações" contidas no email que o DN publicou apontando Lima como fonte do caso.
Disse que o sistema informático da Presidência da República tem "vulnerabilidades" e pode ser alvo de intromissão.
Não disse que Fernando Lima foi demitido.
Não disse em que consistem as suas "dúvidas" sobre a "veracidade das afirmações" do famoso email.
Não disse como desconfiou das "vulnerabilidades", quem as terá aproveitado e porque decidiu revelá-las.
Uma vez que nenhuma das suas palavras foi dita por acaso, Cavaco Silva disse muito mais do que eu esperava há algumas horas.
Foi o maior ataque a um Governo vindo de um Presidente em exercício que já vi em Portugal. E Cavaco não sai assim tão enfraquecido da guerra: a guerra ainda mal começou. Com o PS minoritário no Parlamento e obrigado a negociar até à vírgula, com o PSD ocupado na guerrilha interna e a recompor-se da derrota, com os três pequenos partidos muito próximos em dimensão eleitoral e legitimidade política, o Presidente tornou-se hoje o principal rosto da oposição.
Vai ter muitas oportunidades de o mostrar a Sócrates - enquanto o Governo durar.

Terça-feira, 29 de Setembro de 2009

O porta-voz oficioso do governo Sócrates

É ouvi-lo aqui, tão atento e profissional!

Cavaco, afinal, falou (2)

“Confesso que não consigo ver bem onde está o crime de um cidadão, mesmo que seja membro do staff da casa civil do Presidente, ter sentimentos de desconfiança ou de outra natureza em relação a atitudes de outras pessoas”.
Esta frase do Presidente tem um problema. O cidadão é membro da Casa Civil do Presidente (cargo institucional) e desconfia das atitudes de outras pessoas (ligadas ao Governo). Ou seja, quando alguém que tem um cargo institucional desconfia de alguém que está ligado ao Governo, não se trata de um cidadão a ter um mera suspeita. Não sei se é crime, mas é muito irresponsável.

Sobre o caso em si, Cavaco Silva não explicou quase nada, e limitou-se a tentar limpar a sua imagem e a apontar armas aos socialistas. Defende-se afirmando que esta é uma interpretação pessoal, o que, tratando-se de um Presidente da República, é algo que não existe. Exigia-se que Cavaco encerrasse o assunto e/ou o esclarecesse categoricamente. Não fez, verdadeiramente, nenhuma das duas coisas e é ambíguo quanto ao papel de Fernando Lima. Nas acusações que faz, muito sérias, apodrece de vez as relações institucionais com o Governo. Depois de se ouvir das varandas do Altis, no domingo, "Cavaco para a rua", o Presidente responde na mesma moeda.

Entretanto, naquilo que importa mesmo, provavelmente já não se avançará muito. Pelo menos até às eleições Presidenciais.

Um mistério embrulhado num enigma

É obra: embrulhar um mistério num enigma. Mas se calhar sou eu que não consulto bem os búzios e não percebo o que o Presidente quis dizer, mas não disse, embora quisesse que eu percebesse, que ele queria dizer, ou sente, ou...

Digamos, benevolência hermenêutica, que o Presidente quis partilhar connosco as suas angústias: terá o mail sido extorquido ao correio electrónico de Belém? Que há ali vulnerabilidades, há, soube ele hoje; que ele tenha vindo a público 17 meses depois de ter sido feito, sugere que foi manobra de campanha, logo... Quanto a Fernando Lima, ficámos a saber que só falam em nome da Presidência os chefes das Casas Civil e Militar, de modo que... E, claro, o Governo não pode exigir que membros da Casa Civil abdiquem da sua cidadania... O que tem tudo a ver com...

Perdoem-me mas...

Cavaco, afinal, falou

Cavaco falou. Ligou a dois objectivos, colar o Presidente ao PSD e afastar as atenções do debate eleitoral, duas notícias (o rumor de que estaria envolvido na formulação do programa eleitoral do PSD e o "caso das escutas"). E deixou o recado, quanto à primeira notícia, que não gostou da pressão a que foi sujeito por pessoas ligadas ao Governo, que lhe exigiam esclarecimentos, e quanto à segunda, que em nome dele apenas os chefes das Casas Civil e Militar podem falar.

Foi um discurso muito duro para com o Governo e para com o PS, que surge directamente relacionado com a primeira notícia, e indirectamente com a segunda. Cavaco esclareceu que se tratava da sua interpretação pessoal, mas mesmo assim são questões muito graves que são levantadas contra elementos do PS. Gostava de saber como é que aqueles que pediam a cabeça de Cavaco reagem à sua declaração. Um deles, Ricardo Costa, que estava em directo na SIC, ficou zangado e insistiu que o timing foi mal gerido. Mas sobre o que foi dito, nada adiantou. Acho que engoliu a seco.

O Presidente da República vai falar ao país

E o que é que Cavaco Silva nos vai dizer sobre o "caso das escutas" mais logo, às 8 da noite?
Nada.
Por estranho que pareça, concordo com esta previsão do jugular Rogério Costa Pereira. Só quem não conhece Cavaco pode acreditar que ele demite pela TV um Primeiro-Ministro saído de eleições anteontem. Em resumo, caros companheiros laranjinhas e todos os compatriotas que esperam do mais alto magistrado da nação uma luz, por pequena que seja, sobre o mais grave caso político do momento: esqueçam.
Não vai ser hoje.
Se é que vai ser algum dia.

Retrato das eleições enquanto referendo ao casamento gay

Eduardo Pitta e Miguel Vale de Almeida defendem nos respectivos blogues a mesma ideia: há agora no Parlamento "uma maioria clara a favor da igualdade de acesso ao casamento civil". A expressão é de Vale de Almeida, mas Pitta vai mais longe e diz que 54,4% dos portugueses - os que votaram PS, BE e PCP - seriam a favor da união civil entre homossexuais.
Compreende-se que o activismo gay veja as eleições nacionais do seu ponto de vista particular. A entrada de Miguel Vale de Almeida para as listas do PS tinha o objectivo de roubar esta bandeira ao Bloco, conquistando eleitores à esquerda, e o argumento para o convencer não foi de certeza o TGV. Mas as coisas não são assim tão simples.
Em primeiro lugar, duvido que a bancada do PCP e sobretudo a do PS tenham uma opinião única no tema, que divide os partidos tanto como a sociedade. Excepto o Bloco, claro, que em questões fracturantes funciona - em bloco. Mais do que isso, estas eleições não foram um referendo ao casamento gay, como Vale de Almeida e Pitta parecem sugerir. Até ver, as eleições servem para eleger um Governo e não uma agenda. Se tenho dúvidas quanto aos deputados, tenho ainda mais dúvidas de que todos os eleitores do PS ou do PCP sejam favoráveis ao casamento gay.
Dá muito jeito a ambos inferir da maioria de esquerda no Parlamento a maioria favorável ao casamento gay no país, mas não é muito rigoroso. Dá muito jeito porque assim não tem que se que perguntar realmente aos portugueses o que é que pensam. Não vá dar-se o caso de que a "maioria clara" na Assembleia seja, afinal, bem menos clara na República.
Adenda: Ficámos a saber, pelo menos, qual o nome que os apologistas do casamento gay lhe vão dar quando for a S. Bento: "igualdade no acesso ao casamento civil". Tal como o aborto se transformou em IVG, aí está o IACC.

Contra o destilar de ódio

Depois da derrota do PSD temos vindo a assistir a um crescente destilar de ódio contra Manuela Ferreira Leite e este PSD. Apesar dos erros cometidos, e foram muitos, o PSD não irá evoluir num sentido positivo se o caminho for esse. As pessoas que deram a cara pelo partido nestas eleições, especialmente aqueles que estiveram na linha da frente na campanha eleitoral e todos os milhares de militantes que participaram na campanha, não irão perdoar àqueles que pretenderem fazer do futuro próximo do PSD uma vingança contra o que se passou nesta campanha eleitoral. Tenho lido muitos comentários inflamados (é certo que alguns nem sequer votaram no PSD e têm um passado de ódio contra Manuela Ferreira Leite) que podem prejudicar o futuro período de reflexão que o PSD terá obrigatoriamente de fazer. Até porque recorda tudo aquilo que foi o partido nestes últimos anos, onde o debate de ideias nunca foi essencial.

Europeus e modernos

Um amigo estrangeiro a propósito das recentes eleições em Portugal e do debate público que aqui houve:
"Totalmente às avessas da orientação geral do resto da Europa".
.
A crise internacional não teve os efeitos políticos que se previu na Europa. Por enquanto, pelo menos, a Europa não virou à esquerda. Bem pelo contrário.
Portugal é a excepção. Deve ser porque somos muito europeus e modernos. E porque desmascarámos o "neoliberalismo" com muito mais arte e sabedoria do que os outros. A malta aqui é que sabe.

Os portugueses demonstraram preferir...

Começa assim o longo aproveitamento dos resultados globais para defender as mais diversas agendas. O mandato para os partidos está representado no parlamento, mas sobre o eleitor individual e as suas preferências, é sempre boa ideia relembrar a seguir a umas eleições o teorema da impossibilidade de Kenneth Arrow:

«In social choice theory, Arrow’s impossibility theorem, or Arrow’s paradox, demonstrates that no voting system can convert the ranked preferences of individuals into a community-wide ranking while also meeting a certain set of reasonable criteria with three or more discrete options to choose from.» (Wiki)

O caso é pior

O José Gomes André corrige vários pontos deste texto do Eduardo Pitta, mas a crítica é curta:

1. O Eduardo diz que Portas tem todas as condições para liderar a direita, argumento que já ouço desde a minha longínqua adolescência e que nunca sucedeu, não obstante as rimas nos discursos e as várias roupagens que testou.

2. O BE duplicou o número de deputados e esteve muito perto (0,6%) de atingir a votação do CDS. Não consegue uma maioria com o PS, mas mais de meio milhão de votos num programa como o do BE não é um facto que olimpicamente se deva ignorar.

3. "61% dos portugueses que votaram apoia o casamento entre pessoas do mesmo sexo". A soma dos partidos não é essa, mas mesmo que fosse a conclusão é literalmente indefensável. Qualquer um pode alegar que que "61%" decidiram votar nos partidos A,B,C apesar de estes defenderem X,Y,Z. O voto é uma agregação de preferências. Pode-se alegar que existe legitimidade parlamentar para avançar com essa agenda se ela estiver nos programas, mas não se pode daí concluir que cada um dos eleitores apoia todas e cada uma das medidas do partido em que votou. O número de apoiantes até pode, em tese, ser maior.

4. "Pacheco Pereira continua em parte incerta." Ontem JPP esteve quase uma hora num frente a frente na SIC Notícias com o Ministro Silva Pereira. A crítica é livre, mas não faz sentido acusar JPP de falta de frontalidade ou coragem, sobretudo vindo do Eduardo Pita que, num teste de carácter, aceitou escrever no Simplex, um blogue que deu guarida ao miserável anonimato blogosférico.

5. É citado, através das palavras do Pedro Picoito, o caso António Preto. Fui contra a sua inclusão nas listas, totalmente indefensável, mas é sempre bom relembrar a diferença de tratamento que o Eduardo dá às suspeitas sobre António Preto e às suspeitas sobre o seu tão idolatrado numero uno.

CDS pê quê?

O Pedro Pestana Bastos responde à minha pergunta provocatória com outra pergunta: e se fosse o PSD a ganhar em minoria, não estaria eu a defender uma coligação com Portas em vez de lançar suspeitas sobre o CDS?

Sim, evidentemente. Mas se o CDS fizesse uma coligação com o PSD, o risco de mudar de nome seria bastante menor...

Dois livros Sefarad

Ora aqui vão os curtos posts anunciados sobre os dois livros que integram a nova e inédita colecção Sefarad, da Editora Nova Vega.

Breve História dos Judeus em Portugal, de Jorge Martins.

O livro quer ser uma visão sinóptica da realidade judaica em Portugal, ao longo dos oito séculos pelos quais ela se prolonga, destinada a um público não especializado, «particularmente aos professores e aos estudantes, complementando ou suprindo as clamorosas omissões dos nossos programas escolares». A promessa não é cumprida, pese embora as virtudes que o livro tem, e o recomendam.

Não é cumprida, em primeiro lugar, porque praticamente se não detém na presença judaica em Portugal, ao longo de toda a Idade Média. Esse período, muito sumariamente aflorado, abarca apenas uma dezena de páginas, numa obra de 190.

E sendo de nós a mais distante, a compreensão da presença judaica no período medieval é crucial para o entendimento da tragédia que ocorre do Renascimento em diante.

A falta está longe de ser justificada pela ausência de estudos: desde os trabalhos de Henrique da Gama Barros («Judeus e Mouros em Portugal», in Revista Lusitana, volumes 34º e 35º, de 1936 e 1937, disponíveis online graças à sageza do Instituto Camões), de Maria José Pimenta Ferro Tavares (Os judeus em Portugal no século XIV, Guimarães editora, Os Judeus em Portugal no século XV, dois tomos, Universidade Nova de Lisboa e Instituto Nacional de Investigação Científica), até aos de Elias Lipiner (O Tempo dos Judeus segundo as ordenações do Reino, Nobel editora), para falar apenas de obras seminais neste domínio, porque as mais parcelares abundam, a informação não falta. Falta a sua abordagem no livro em apreço, como falta, para os demais capítulos, muito mais bem tratados, uma bibliografia, senão comentada, pelo menos recomendada, já que o público visado inclui professores e estudantes, eventualmente interessados em desenvolver conhecimentos.

É para o período pós-«expulsão» - de facto, nunca houve expulsão, mas o seu exacto contrário: a conversão forçada e o impedimento de saída do Reino -, que esta Breve História é mais interessante. É louvável a atenção que dispensa a um problema crucial da história de Portugal - a introdução e vigência dos estatutos de limpeza de sangue, que dominaram, pelo menos desde 1600 até à sua supressão por Pombal, em 25 de Maio de 1773, a vida pública e a sociedade portuguesa, bem como à narrativa da progressiva reconstituição da existência judaica pública em Portugal, até à contemporaneidade.

Por tudo isso, o livro vale pelos apontamentos de maior detalhe que traz a estes temas, impossíveis de desenvolver na obra - essa sim - de síntese da História dos Judeus Portugueses, de Carsten Wilke, das Edições 70, feita a pensar nos mesmos públicos, e plenamente sucedida, que o autor deste post teve o prazer de traduzir e colocar à disposição dos leitores.

Por fim, falta ao livro um desenvolvimento minimamente satisfatório da vida dos judeus portugueses que se salvaram e constituíram uma diáspora fundamental na história do Judaísmo, visto que foram a «vanguarda» - a expressão é do próprio Heinrich Graetz, o fundador, no século XIX, da moderna história do povo judaico -, que abriu os judeus à modernidade e a modernidade às novas possibilidades da existência judaica. É certo que o livro se chama Breve História dos Judeus em Portugal. Não é menos certo que tal história não é compreensível sem o estabelecimento das relações que se mantiveram entre os cristãos-novos portugueses e os seus irmãos regressados ao judaísmo normativo no exílio. É certo ainda que essa ponte é dos tópicos mais precisados de investigação e estudo, mas as estradas foram abertas, por I. S. Révah, nem uma vez mencionado no livro, o que é um pouco difícil de entender, não por uma questão de cortesia, mas por uma questão de estudo do tópico em causa.

Ora é precisamente a relação entre os cristãos-novos e os seus irmãos exilados - assunto que me parece dos mais decisivos para a história por fazer -, que constitui um dos eixos mais importantes do segundo livro da colecção Sefarad,

A tormenta dos Mogadouro na Inquisição de Lisboa, da autoria de António Júlio Andrade e Maria Fernanda Guimarães.

Este, sim, com investigação original, baseada na leitura inédita de processos da Inquisição e reconstituição histórica fundamentada, é livro inovador. Constitui-se tendo por pano de fundo o protgonismo dos cristãos-novos na Restauração de 1640, as lutas entre o partido inquisitorial e o partido anti-inquisitorial onde preponderaram os Jesuítas - sim, os Jesuítas e não só a sua figura mais eminente, o Padre António Vieira - e traz dados de valor inestimável à investigação futura das relações entre os criptojudeus em Portugal e os judeus livres, designadamente de Livorno. António Rodrigues Mogadouro, um dos mais importantes (inclusive no sentido económico do termo) homens de negócio da «nação», foi garrotado e queimado em auto-da-fé, não só por «pertinaz e impenitente», mas também como fautor: «passava» judeus perseguidos para o exílio. Leiam, se quiserem compreender.

Estúpida burguesia

Este país tem meio milhão de votantes no Bloco de Esquerda. Instruídos, classe média, urbanos, cada vez mais bem distribuídos pelo país. Com esta burguesia, estúpida, como dizia o Marcelo (não o afilhado, mas o padrinho), é natural que estejamos condenados a sucessivos ciclos de desgraça.

P.S.: Estúpida, na acepção de Marcelo=incapaz de distinguir o inimigo.

O Ministro das Praxes.

Tempo de reflexão

O PSD obteve uma clara derrota. Nas próximas duas semanas não haverá grande tempo para pensar, pois há umas eleições autárquicas para ganhar. E aí, tudo aponta para que as coisas corram bastante melhor. Mas depois disso, será tempo de iniciar uma profunda reflexão interna sobre o que falhou nestes últimos quatro anos, onde o PSD teve três líderes, contestação interna e confusões sobre os seus princípios programáticos. Um partido não pode ter grande futuro quando após um líder ser eleito, imediatamente a seguir começa a contagem de espingardas para o destronar ou minar a sua liderança. Foi assim com Marques Mendes, com Luís Filipe Menezes e com Manuela Ferreira Leite. O PSD, para voltar a ser uma alternativa de governo credível, terá de deixar de ser uma quinta com vários grupinhos e tendências. Este é o tempo de uma clarificação interna dentro do PSD. Manuela Ferreira Leite foi líder do partido numa altura extremamente difícil. Só ela saberá se tem condições para continuar à frente do partido. Mas caso saia após as autárquicas, é tempo de mudar de vida.

O melhor candidato ao seu lugar será aquele que se apresentar, não como líder de facção ou de sensibilidade, não aquele que representar a ala liberal ou conservadora, mas sim o que se apresentar como capaz de dotar o PSD de uma nova alma, federar a maior parte dos militantes em seu redor, adquirir uma coerência ideológica (concordo com o Pedro quando diz que o PSD deve transformar-se, sem preconceitos, num grande partido de centro-direita) e mostrar que está pronto para ganhar as próximas eleições legislativas. Honestamente, se for para continuar a ser um partido de facções, onde a que está fora do poder prossegue em clima de guerrilha, mais vale dividir o partido e cada um ir à sua vida. O PSD não pode continuar a ser um partido de guerrilhas.

PS-ocracia

O PS esteve, nos últimos 14 anos, 11 no governo. Se cumprir esta legislatura até ao fim, somará 15 no poder em 18. São números muito importantes, que demonstram a dificuldade sentida pelo PSD em se impor após os governos de Cavaco Silva. A derrota nestas legislativas de 2009 foi, para muitos, o acto simbólico que põe um ponto final no chamado ‘cavaquismo’, pela inevitável saída de Manuela Ferreira Leite da liderança do partido, agora ou mais tarde. É indesmentível que o partido vive ainda, em muitos aspectos, sob o espectro do tal ‘cavaquismo’, mas ao contrário do que muitos já por aí andam a gritar, a saída de MFL não é o factor determinante para o futuro do PSD. Note-se que o PSD tem acumulado, nos últimos 4 anos, lideranças fracassadas, todas elas acusando a pressão interna. Nesse sentido, a saída de MFL será apenas mais uma para somar às anteriores, se feita com a mesma precipitação. E, note-se, isto não significa que não deva sair, apenas que essa saída deve ser ponderada em virtude de uma definição interna do partido, que tem de decidir, de uma vez por todas, a sua identidade política (e assumi-la). É tempo de reflectir, não de dar passos inconsequentes.

E essa reflexão passa, antes de mais, pelo que o Pedro Picoito já disse na sua enumeração dos três principais erros do PSD nestas legislativas: o partido está numa encruzilhada ideológica. Tem razão em todos os pontos que salienta, mas se os dois primeiros foram apenas erros estratégicos de campanha, o terceiro, como ele próprio indica, reflecte uma questão de fundo e crucial de esclarecer: o PSD quer ser o partido de centro-direita que o país precisa, ou quer lutar no território do PS pelo espaço do centro-esquerda? A resposta poderá ser mais complexa do que, à primeira vista, aparenta. Afinal, muitas das características de políticas de centro-direita foram repetida e publicamente recusadas pelo partido ao longo da campanha, embora reúnam apoios fortes entre as bases do partido.

A propósito disto, recordo amargamente uma declaração de Marques Mendes durante a campanha, aliás repetida no artigo de apoio ao PSD que escreveu para o jornal i. Dizia ele que o PSD não é, como muitos julgam, um partido de direita, mas sim um partido social-democrata. Desconfio que Marques Mendes não tenha razão, porque nem ele nem ninguém sabe exactamente o que é o PSD. Ele sabe o que queria que o partido fosse, assim como há quem o queira à direita. Decidam-se. E depois, sim, pense-se na liderança. O partido precisa de pensar em conjunto, não de um auto-de-fé.

Segunda-feira, 28 de Setembro de 2009

Laranja Lima

O Pedro Picoito pergunta se o CDS voltará a chamar-se PP. Percebo a provocação.
Também o Fernando Martins evidencía o seu mau sentimento em relação ao CDS ao afirmar, injustamente, que Paulo Portas, Loucã e Socrates são farinha do mesmo saco.
A pergunta que coloco aos dois é apenas uma. Se o PSD tivesse ganho as eleições com o resultado do PS diriam a mesma coisa de Paulo Portas e do CDS ou estariam a defender uma coligação com o CDS?

O país é diferente

«Regressado» com um atraso de 24 horas sobre os resultados das eleições, estou em ressaca desfasada. Não gosto mesmo do que se me antolha. Penso que o país mudou. É a primeira vez na história da democracia, que não há alternância numa fase depressiva do ciclo económico, com a curva do desemprego a subir. Coincidência - ou não, parece-me -, nunca um governo foi confirmado em semelhantes circunstâncias. Até domingo passado.

É para a esquerda socialista, de preferência radical, que o país «cresce». Terei de ver melhor os resultados. Mas que vivemos num país com medo de si, em fuga de si, parece-me evidente. Que as respostas de uma alternativa à direita não colhem, é evidente. Que o país quer genericamente mais do mesmo, é evidente. Que isso não seja possível, pouco importa.

Nasceu uma nova autoridade política.

À Espera

Na TVI24 alguém garantiu que Pedro Passos Coelho se vai candidatar à presidência do PSD. A partir desse dia prometo dar alguma folga a José Sócrates.

Farinha do Mesmo Saco




Alguém terá de pagar

Reparei que Bagão Félix, com umas contas que não são implausíveis, calculou o défice do Estado para 2009 e chegou ao astronómico número de 9%. Bagão Félix à parte, há vários sinais de que as contas públicas estão em quase perfeito colapso. E agora que a campanha eleitoral já terminou, e o circo também, espero que o confronto com a realidade não volte a ser confundido com o "pessimismo". Agora que a campanha eleitoral já terminou, será que se pode dizer aquilo que em qualquer outro país do mundo em circunstâncias parecidas com as nossas se diria de um descalabro semelhante das contas públicas, isto é, que se trata de um problema da maior gravidade, que se trata de uma calamidade?
Mas estou certo de que o Banco de Portugal, cuja precisão nestas matérias sobe até às centésimas de ponto percentual, está vigilante e se apressará a corrigir estes números catastrofistas. Também estou certo que os entusiastas das mega obra públicas não se deixarão intimidar por ninharias deste tipo. Para a frente é que é caminho. De resto, com eleições presidenciais em 2011 o mais provável é daqui até lá o circo continuar. A realidade que tire umas férias. Mas como diria o meu conterrâneo Mourinho: "alguém terá de pagar".

Hierarquia das preferências

O Pedro Picoito diz quase tudo neste seu post excepto um ponto muito importante: as preferências do eleitorado. E destas é importante passar por cima da barragem do chamado "não conseguir passar a mensagem". Parece-me claro que muitas das mensagens de Manuela Ferreira Leite passaram, desde as PMEs à asfixia, do endividamento à questão dos grandes investimentos públicos passando pela necessidade de mudanças tranquilas nas políticas sociais, das diferenças entre o artificialismo de Sócrates e a transparência devida no discurso político. Tal como toda a gente percebeu a diferença de perfil entre Manuela Ferreira Leite e o Sócrates das licenciaturas, OCDE's, etc. O problema é que o eleitorado não valorizou estas diferenças. Podemos alegar que é sempre possível contratar um brasileiro melhor para empacotar a coisa e eleger um salesman em vez de um estadista, na esperança entusiasta nas capacidades da campanha. Como se pode alegar que algumas escolhas de MFL não vincaram estas diferenças, como a famosa questão António Preto. O argumentário é longo, mas houve algumas opções claras sobre a mesa e houve uma hierarquia de preferências da maioria que nos foi desfavorável. Numa escolha aparentemente sem custos não me parece que só se mude se o produto for muito melhor e não apenas melhor, a não ser que Sócrates gere habituação. Mesmo com os problemas que o Pedro aponta (e com os quais concordo), com as divisões internas no partido e com a imprensa a não fazer um trabalho propriamente exemplar, no final do dia o eleitorado avaliou a coisa e 36,5% preferiu o que tinha.

Não exageremos

A votação do CDS foi boa, ainda bem que ficou à frente do BE e da CDU e, sendo má, é melhor uma coligação PS-CDS do que essa personagem de filme de terror que seria uma coligação PS-BE (ou PS-CDU). Vale a pena, no entanto, não exagerar. O resultado do CDS não alterou substancialmente, ao contrário do que se vai lendo por aí, a política socialista dos últimos anos e também não, não foi o agente da mudança. O PS continua governo, certo? Lamenta-se, mas esse papel e essa capacidade continuam exclusivos do PSD.

Bolsa de apostas

Quem será o próximo Ministro da Cultura? Aposto em Jorge Couto, o actual director da Biblioteca Nacional. Aceitam-se outros palpites na caixa de comentários.

Alentejo (18)

Arraiolos. Entrada das muralhas ao entardecer.

E agora, PSD?

Espero, para o bem do País, que o PSD não ceda à tentação de interpretar o resultado eleitoral com os olhos postos nas deficiências de comunicação de Manuela Ferreira Leite e na excelente forma política de Paulo Portas; que abra os olhos e se prepare para assumir sem dramatismos uma retórica política liberal na economia e conservadora nos costumes. Os 21 deputados do CDS eleitos são muito bem vindos para minorar os estragos esperados, mas é claro que não chegam para mudar o rumo de um País estranhamente paralisado à esquerda. Portugal precisa de um PSD atento às mudanças no mundo, conhecedor da literatura política recente, com um pensamento descomplexado e a coragem de se apresentar como partido de direita.

A tentação do CDS

Ao CDS, que pode agora estar tentado a coligar-se com o PS, convém repetir a frase com que, conta-se, Santo Inácio de Loyola convenceu São Francisco Xavier a entrar na Companhia de Jesus: "o que vale ganhares o mundo se perderes a alma?".
E se manter a alma não for incentivo suficiente, talvez pensarem que a recompensa seria voltarem aos seis ou sete por cento nas próximas eleições.

Cachimbos de lá


Ray Caesar, Vendedora de sonhos, s.d.

Outra pergunta

O excelente resultado do CDS é atribuível, sem dúvida, ao desempenho de Paulo Portas em campanha. Ou seja, são votos que se devem mais a Portas do que ao partido, assim como as maiorias absolutas do PSD são inseparáveis de Cavaco. O CDS é um partido cada vez mais unipessoal.
E quando Portas se for embora, o CDS aguenta-se ou passará por tudo o que o PSD passou no pós-cavaquismo?

Um problema do regime


Ontem à noite muitos se congratularam pela importância acrescida que estas eleições devolveram ao Parlamento. E, claro, lá veio a ladaínha do costume: uma "vitória" da democracia, "boas notícias" para a democracia, "revitalização" da democracia.
Não gosto de ser desmancha-prazeres, mas parece-me que se confundiu actividade parlamentar genuína com mais comunicação e negociação entre as direcções dos partidos políticos. Não é a mesma coisa. E já agora: com fenómenos como o desprezo completo dos Portugueses pelos seus partidos políticos, aqui assinalado, tenho enormes dúvidas de que os tempos que vamos viver irão renovar o prestígio do Parlamento, dos partidos ou de qualquer outra instituição. A crise de confiança que vivemos não vai lá com operações de marketing e slogans baratos. Porque se a confiança teve boas razões para se dissipar, continua a não ter boas razões para voltar.

Dúvida de Português

O que será uma... trangi... versão?... Trangiversões?...
Talvez se encontre a solução nalguma Fenomenologia da Língua.

Momento Lúdico

Love, peace and harmony?
Love, peace and harmony?
Oh, very nice
Very nice
Very nice
Very nice...
But maybe in the next world.

The Smiths, "Death of a Disco Dancer" (Strangeways, Here we Come)

Uma pergunta

O CDS vai voltar a chamar-se PP?

É impressão minha...

...ou Passos Coelho ainda não disse nada? Terá medo de parecer demasiado ansioso?

Claro que podemos sempre pensar...

..que, se tivéssemos sido candidatos ,o resultado seria outro, não é?

Aqui ao lado

O meu balanço da débâcle. (Ah, quase que dá vontade de perder só para usar esta palavra: débâcle...)

Breves apontamentos sobre o resultado

1- O PS ganhou mas perdeu mais de meio milhão de votos.
2- O CDS teve o melhor resultado dos últimos 26 anos e volta a ser a terceira força de Portugal.
3- A soma dos votos do Bloco Central foi de 65% mas este resultado é o pior resultado dos últimos 24 anos (em 2002, a soma foi de 78% e em 2005 de 73%)
4- PSD e CDS têm mais votos e mais deputados do que o PS.
5- O BE subiu mas não consegue assegurar uma maioria com o PS.
6- A CDU aguenta o resultado mas não assegura sozinha uma maioria com o PS e passa a ser o quinto partido.
7- A relação entre PSD e CDS passou de 1 para 5 em 2002, de 1 para 4 em 2005 para 1 para 3 em 2009.

Sócrates e o Futuro

Sócrates avança para formar governo sem ponderar coligações estáveis. Negociará votação a votação, e apenas quando lhe for conveniente. A gestão da situação política terá como único horizonte as eleições presidenciais. Em posição de maioria relativa, o candidato socialista às presidenciais será apresentado como a única alternativa à instabilidade crónica. Cavaco é derrotado. Sócrates demite-se logo a seguir. O Parlamento é dissolvido pela nova Presidência socialista. Sócrates recandidata-se a Primeiro-Ministro e pede a maioria absoluta.
Faz sentido. Mas aonde é que fica o País no meio disto tudo? Algures numas linhas do programa eleitoral que se dignarem fazer; algures entre a apologia da esquerda moderna e a gestão do poder.

O PSD e o País

Resultados do PSD em três distritos cruciais:

- Lisboa: 23,64% (2005) 25,12% (2009)
- Porto: 27,81% (2005) 29,14% (2009)
- Setúbal: 16,05% (2005) 16,39% (2009)

Com resultados destes, será sempre impossível ganhar eleições legislativas.

Domingo, 27 de Setembro de 2009

Pode ter sido muita coisa, mas não foi uma vitória da decência

José Sócrates, no seu discurso de vitória, fala de uma extraordinária vitória, e da vontade manifestada pelos portugueses para que o PS continue a governar Portugal. Optou por um discurso sóbrio, um pouco morno, em que relembrou a confiança e determinação que vive no PS. Tudo normal, tudo correcto. Contudo, há dois pontos que referiu que me parecem de enorme importância.

(1) José Sócrates falou da campanha positiva do PS e identificou os resultados eleitorais como a vitória da ‘decência’ na Política. Peço desculpa se estou a ser desmancha-prazeres, mas não vi decência nenhuma na campanha. Aliás, e já o escrevi antes, considero que não se pode aceitar que um Primeiro-Ministro recorra a insinuações sobre o regime de Salazar para qualificar o seu adversário. Fê-lo em artigo ao Jornal de Notícias, e permitiu que essas insinuações continuassem ao longo da campanha do PS, pela boca de Junqueiro, Santos Silva, e Cª. Julgo que, independentemente das preferências políticas e partidárias, este é um ponto sobre os quais todos concordamos.

(2) Já na recta final do seu discurso, Sócrates falou no seu ‘investimento para a qualidade da democracia’ através do apoio que dará aos candidatos socialistas nas próximas eleições autárquicas. Lamento, mas trabalhar para a ‘qualidade da democracia’ não é sinónimo de trabalhar para vencer eleições, e muito menos se produz ‘qualidade na democracia’ através dos ganhos eleitorais dos partidos. Mas percebo a confusão: Sócrates acha que aquilo que é bom para ele é bom para a democracia. Infelizmente para José Sócrates, a ‘qualidade da democracia’ mede-se pelo desempenho das suas instituições. Aí, o comportamento do PS tem deixado muito a desejar.

Os passos-coelhistas já salivam

O Carlos Abreu Amorim pede, odiosamente, a cabeça de Manuela Ferreira Leite. Ninguém está surpreendido, afinal CAA está a pedi-la há muitos meses. Sempre me intrigaram aqueles que torcem pela derrota e que, ao primeiro sinal, clamam de imediato por sangue.

O agora e o futuro

O CDS-PP está a lutar com o BE pelo 3º lugar na Assembleia da República, e parece o melhor colocado para o vencer. Se assim acontecer, Paulo Portas terá aqui uma enorme vitória, que aliás não tira o brilho do espectacular resultado do BE (que mais que duplicou o número dos seus deputados na AR). Inesperadamente, o mais emocionante nesta noite eleitoral é a luta pelo ‘bronze’. Fique em 3º ou não, Paulo Portas já ganhou. O pragmatismo com que fez campanha, a forma sólida e consistente como apresentou e defendeu as suas ideias, até mesmo as mais difíceis de assumir num país que só pensa à esquerda, e a forma como se distanciou da campanha do PSD estarão certamente na base deste resultado.

O resultado do CDS-PP deve ser lido com muita atenção pelo PSD. Muito eleitorado da direita preferiu votar nos populares em vez de nos sociais-democratas, resultado de uma estratégia eleitoral do PSD em procurar votos ao centro, e afastar-se da direita. Faz sentido. Mas essa estratégia falhou: os eleitores da direita afastaram-se para o CDS e os eleitores do centro não optaram significativamente pelo PSD.

O PSD tentou ganhar as eleições no terreno do PS, mas não soube cativar o eleitorado do centro-esquerda, que desconfia naturalmente do PSD. Os socialistas, ao colar o PSD à direita conservadora, destruíram a estratégia do PSD em lutar ao centro. Fica a lição para o PSD que, no futuro, terá de enfrentar a já muito referida questão da liderança, e principalmente a questão da sua identidade política.

Wishful speaking

Por que será que há tantos "comentadores", "analistas" e jornalistas que partem já do princípio, que parecem exigir que Manuela Ferreira Leite se demita após as autárquicas?
(Saiu-lhes furada a expectativa da noite.)

Obviamente não se demita

Lendo blogues e ouvindo comentários avulsos nas televisões (todos do costume), uma coisa é óbvia. Manuela Ferreira Leite não pode nem deve demitir-se. Representa e lidera uma nova forma de fazer política. Essa nova forma de estar na política triunfou nas eleições europeias e perdeu nas legislativas, Mas ainda tem um longo e árduo caminho a percorrer para que, num país como Portugal, possa e deva um dia chegar a ser poder.

Uma Dúvida

Se for empossado, durante quanto tempo conseguirá Sócrates ser primeiro-ministro nesta nova legislatura?

PS ao ataque

"A luta continua, Cavaco para a rua" grita-se das varandas do hotel Altis. Vai começar o ataque à Presidência.

PSD em Setúbal

Um partido que pretende vencer eleições não pode ficar, num dos maiores distritos do país, em ou lugar, atrás do PS e CDU, e com os mesmos deputados eleitos que o Bloco de Esquerda.

A intoxicação resultou

Vitória e Derrota

O PS venceu as eleições garantindo os seus objectivos políticos. O Bloco e o PCP vêem uma derrota na perda da maioria absoluta. Mas, para todos os efeitos, e tendo em conta as circunstâncias, o resultado do PS é uma enorme vitória.
Pelo contrário, a derrota do PSD não tem paliativos nem atenuantes.
Em 2004, quando George W. Bush e o Partido Republicano esmagaram os Democratas em toda a linha, ouvi um comentador com simpatias democratas dizer: "Bem, o que há a dizer quando o partido do governo vence desta maneira num contexto em que a economia está parada, o desemprego a crescer e uma guerra que é um beco sem saída? Que o Partido Democrata não fez o que lhe cabia..."
Aqui em Portugal a oportunidade estava do lado da oposição. Uns aproveitaram-na (de certo modo); outros não.

Neoliberalismo?

Segundo as projecções, é possível que a esquerda venha a recolher 65% dos votos. Não é preciso dizer que esta esquerda inclui a extrema-esquerda que aparentemente somará pelo menos mais de 16%. Veremos se daqui por uns anos, nas próximas eleições legislativas, ouviremos as queixas do costume sobre o neoliberalismo. Aposto que, se o desespero for grande, a culpa continuará do lado neoliberal. Pelo que ouço na televisão das primeiras intervenções do Bloco de Esquerda e do PCP, já começaram a reensaiar o argumento. Infelizmente, suspeito que o PS fará exactamente o mesmo. Como aconteceu em 2009, de resto.

Discursos da noite: Vieira da Silva

Podia ter-se ficado pelas palavras de circunstância - "o povo foi chamado a escolher; o povo escolheu"; os parabéns pela liberdade com que decorreram as eleições, etc., etc. Mas Vieira da Silva não resistiu e lá disse que a vitória do PS era a vitória contra o "pessimismo" e contra as campanhas em que não se discutiram as questões que interessam ao País. Bem sei que a luta política exige muita coisa, mas não é preciso gozarem-me na cara.

As Eleições de Hoje: Um Primeiro Comentário.

Se as projecções se confirmarem e o PS ganhar as eleições, parece-me evidente que Portugal, entre outras coisas, se transformou numa grande Felgueiras. Ou será Gondomar? Ou Oeiras? Ou, sobretudo, numa pequena e ridícula Itália.

Um espanhol num comentário a uma notícia no ABC de hoje

De bandeja


Convido-vos a virem até aqui ao lado esquerdo ler este texto. Se o conseguirem ler todo (tarefa quase literalmente espinhosa, tal o palavreado: 'desta forma, extirpa-se a própria dialéctica no seu movimento perpétuo e prefere-se a cristalização monolítica e propagandística' ou 'o poder é multidimensional e [o Bloco] proclama a sua presença em todas as lutas contra as multiformes garras da dominação'), verão que parece servido numa bandeja ao engenheiro Sócrates - imagino os "teóricos" Lello e Santos Silva deliciados com aquela prosa. Digam lá que não poderia ter sido (mal) redigido por algum membro da Juventude "Socrática", aflito por mostrar serviço não só contra a "direita salazarenta", mas também "malhando" com volúpia na "esquerda arcaica"!

Todo o texto ressuma um muito mal disfarçado desprezo pelos trabalhadores (não tenhamos medo das palavras) - note-se que as "opressões" da moda (as "fracturâncias", que adornam, descartáveis, a propaganda "socrática") são apresentadas praticamente como a "opressão" por excelência, enquanto que as preocupações pela "opressão do trabalho" (que é real, como sabe quem não viva na lua ou nas sucursais do Largo do Rato) são descritas como um confinamento político, uma redução.
Esse desprezo pelo "mundo do trabalho" não existe, por óbvias razões históricas e ideológicas, na "mundividência" do PCP. Mas também não existe na "mundividência" e na prática do "centro-direita" e "centro-esquerda" (representados pelo PSD). Podiamos pensar na génese não-casual das três setas do Partido. Por outro lado, por razões históricas e sociológicas, pela sua proximidade e integração no tecido vivo das pequenas e médias empresas, pela presença conspícua de militantes do Partido em estruturas sindicais da função pública, o PSD tem considerável capacidade de percepção e de intervenção no próprio terreno do "trabalho". (De certo modo, com todas as suas diferenças programaticamente intransponíveis, o PSD e o PCP acabam por ser os Partidos mais próximos do "povo".)

O texto de João Teixeira Lopes não deixa de reflectir aquilo que o Bloco de Esquerda é: um aglomerado ideologicamente gelatinoso, apressado em dar sinais ao Partido Sócrates2009 que pode ser um parceiro de confiança, que os une o "combate" às formas de opressão mais "modernas", etc. Como? Atacando pelas costas o seu "irmão" ideológico, o PCP, usando os mesmos argumentos que Sócrates tem arremessado contra o "arcaísmo" dos Comunistas para poder sobressair como o representante da "esquerda moderna".

O Bloco de Esquerda é, à esquerda, como o é o CDS à direita, o melhor seguro de vida do engenheiro Sócrates.

[Também aqui.]

Sábado, 26 de Setembro de 2009

Benjamin Netanyahu na ONU - um discurso ler, absolutamente

A ler, aqui, aqui em inglês, ou aqui em galego.

Nova Vega lança Sefarad

Apenas para dar uma boa notícia: a Editora Nova Vega acaba de lançar dois títulos que inauguram uma nova colecção - Sefarad. Trata-se de A tormenta dos Mogadouro na Inquisição de Lisboa, de António Júlio Andrade e Maria Fernanda Guimarães, e de Breve História dos Judeus em Portugal, de Jorge Martins. Em altura mais propícia, falarei de ambos.

Este post serve apenas para saudar a inciativa. Em Portugal, o panorama dos estudos judaicos, pese embora os sinais de vida que conheceram desde a década de 90, é ainda desolador, se o compararmos com o altíssimo nível que atingiram em Espanha, ou mesmo no Brasil, sendo este o único país do mundo de língua portuguesa onde é possível fazer um doutoramento neste campo disciplinar, e para falar de dois países aos quais a nossa história judaica está profundamente ligada.

O panorama editorial refelecte isso. A colecção Sefarad pode vir a ser um poderoso estímulo ao conhecimento de uma parte da história de Portugal literalmente denegada, pela promessa que contém de edição de títulos que contribuam para inverter a situação.

Recomendação musical

JUNIUS, The Martyrdom of a Catastrophist (2009, Make my Day Records).
post-rock. site | myspace

Dia de reflexão


René Magritte, A Reprodução Interdita (Retrato de Edward James), 1937

Blogopalpite

PS - 35% a 37%(90 a 100 deputados)
PSD - 31% a 33%(75 a 85 deputados)
CDS - 8 a 10% (15 a 19 deputados)
BE - 8 a 10% (16 a 20 deputados
CDU - 7 a 9% (12 a 16 deputados)

Outra do Tocqueville, três semanas depois do fim de um tal de telejornal travestido

"Em matéria de imprensa, não há meio termo entre a servidão e a licença. Para recolher os bens inestimáveis que traz a liberdade de imprensa, há que submeter-se aos males inevitáveis que ela faz nascer. Querer ter uns sem os outros é entregar-se a uma das ilusões que embalam muitas vezes as nações convlescentes quando, fatigadas de lutas e esgotadas de esforços, procuram os meios de fazer coexistir ao mesmo tempo, no mesmo lugar, opiniões inimigas e princípios contrários."
Da Democracia na América, 2ª parte, Cap. III (1840)

Supertramp: "Better Days"

Supertramp

"Crime of the Century"... aqui.

Sexta-feira, 25 de Setembro de 2009

Sócrates na TVI Magalhães

Há pouco mais de uma hora, José Sócrates deu, em directo, uma entrevista ao telejornal da TVI a partir do local onde se realizará o comício de encerramento da campanha eleitoral do PS. Deu-a ao telejornal e à estação de televisão que, recorde-se, há um par de semanas qualquer bom socialista vilipendiava.
Hoje, com o panorama jornalístico absolutamente "homogéneo", Sócrates pode e pôde dizer o que quis e como quis, também na TVI, pensando certamente que é tão boa esta liberdade de expressão e este jornalismo amorfo e que, ao menos para já, no que respeita ao silenciamento do jornalismo livre, não se cansa de acumular vitórias.
P.S.: Se, o diabo seja cego, surdo e mudo, o PS ganhar as eleições, aposto que a primeira grande entrevista de José Sócrates será dada à TVI, nos estúdios em Queluz.

Juntos exactamente com quem?

Que a campanha socialista descola da realidade sem problemas de consciência na proporção já todos percebemos. Poucas frases são mais demonstrativas do fenómeno do que o "juntos conseguimos" ao lado de mais uma fotografia de Sócrates. O problema é que o candidato socialista é um caso crónico do fenómeno oposto, que resulta na incapacidade de agregar à sua volta entendimentos de compromisso fora da sua teia tradicional de interesses. Tentativas de construção de algo com Sócrates resultam mais cedo ou mais tarde em fracasso, foi assim com diversas classes profissionais ou com partidos políticos. Sócrates é incapaz daquilo que os americanos chamam "reach across the aisle", a sua vocação é de controlo, não de entendimento e partilha. Por isso alarga o poder do partido ao estado e à administração pública e a quem com eles se relaciona. Onde não existe ligação, Sócrates vê como oportunidade o potencial de intervenção e optará sempre pelo cenário que alargue a sua capacidade de intervenção directa, como a miserável passagem de Armando Vara & Cª para o BCP mostrou entre tantos outros casos ao longo da legislatura. Como estratégia de controlo a palavra retaliação passou a ser comum como referência a São Bento logo desde as primeiras semanas de governo, passado algum tempo estava já na ofensiva alargando os seus instrumentos de poder directos e que ele, sozinho, tal como ambiciona, controla.

Para o ano há mais

Terminada esta campanha, resta-me dizer(-me): «Deixa estar; há coisas piores na vida. E, com sorte, no próximo ano será melhor.»

Mais duas achas para a fogueira. E que fogueira

Pelos vistos, Cavaco não afastou completamente Lima de Belém e fonte próxima da Presidência insistiu ao Expresso que há razões de "substância" para suspeitar de escutas.
Já perceberam ou querem um desenho?

Ressaca da campanha eleitoral

Achei piada ler ontem em três lugares diferentes (*) a denúncia, mais ou menos revoltada, do facto de haver quem ande a querer tomar os portugueses por parvos. É claro que o ónus assenta perfeitamente nos políticos e jornalistas, mas os portugueses não estão isentos de culpa. Se os políticos ocultam os verdadeiros problemas do País, cabe aos portugueses obrigá-los a discutir o que realmente importa; se os jornalistas revelam maior apetite por um discurso rasteiro, cabe aos portugueses desmascará-los e obrigá-los a elevar o discurso. Os blogues teriam um papel fundamental neste capítulo. Infelizmente não o souberam cumprir. E de mim falo. Descontente com o clima de opinião vulgar desta campanha, preferi refugiar-me no silêncio em vez de tentar contribuir para elevar o debate. Os partidos redigiram e publicaram os seus programas eleitorais; o meu dever, como português interessado pelos assuntos políticos, seria o de questionar os partidos sobre as suas propostas. Apesar de ter gravado todos os programas eleitorais em PDF, não li nenhum deles… na totalidade. Há um sector da governação pelo qual estou especialmente interessado, pelo que li os programas eleitorais de todos os partidos a esse respeito; mas apesar de ter chegado a algumas conclusões, não escrevi o que pensava de cada um deles, o que considerava bem ou mal, a razão que me leva a votar neste partido e não naquele. É escusado dizer que não me passa pela cabeça que eu seria capaz de sozinho elevar substancialmente a qualidade do debate político, mas é igualmente escusado dizer que todos os portugueses juntos não foram capazes de o fazer. Se eu e outros tivéssemos discutido seriamente um sector da governação, outros tantos tivessem discutidos outro sector, e por aí fora, acredito que o debate teria sido bem melhor e que algumas pessoas, pelo menos aquelas que têm paciência para nos ler, poderiam entrar no debate e contribuir para a sua qualidade. Do mesmo modo que à mulher de César não basta ser séria, não basta aos portugueses não serem parvos; têm de o demonstrar, especialmente quando o País mais precisa.

(*) Um post no Jugular, outro aqui no Cachimbo e ainda um comentário a outro post no Cachimbo.

teste, teste, um dois, um dois

O próximo domingo será um teste à capacidade dos portugueses de confronto com a realidade. Mas também uma prova à confiança na sua própria capacidade transformadora para a criação de um futuro melhor do que aquele que se antevê.

Ler texto completo de João Villalobos


Sabemos que vivemos num país de merda

... quando a avaliação de desempenho de um juiz está dependente da aprovação de um partido político.

Quadro de Magritte roubado



Acabo de ler no i que o quadro "Olympia" de René Magritte foi roubado. Esta pintura surrelista datada de 1948 encontrava-se no Museu de Bruxelas. O quadro terá sido inspirado na imagem da mulher do pintor. Mais um assalto a um museu, realizado em pleno dia, por dois homens, um deles armado.

Voto útil


Quem ler o meu último post pode ficar com a sensação que o mesmo representa um apelo ao voto útil no CDS, especialmente dirigido aos eleitores do PSD. Não defendo o voto útil e o post procura apenas contribuir que eleitores do CDS não se deixem cair na tentação de um voto que, afinal, de útil não tem nada.
Os eleitores do PSD, que gostam do PSD da sua liderança e do seu programa devem votar no PSD e os eleitores do CDS devem votar no CDS.
Um dos problemas da democracia em Portugal é ainda a ideia de que só se governa com estabilidade e eficiência em soluções "unipartidárias". Portugal é ainda uma "democracia maioritária" enquanto a generalidade das democracias europeias são "democracias consociativas", onde os governos resultam de soluções coligatórias pré ou pós eleitorais. Estudos comparados efectuados inclusive em Portugal por André Freire, Manuel Meirinho e Diogo Moreira, indicam que não existem diferenças relevantes nas performances macroeconómicas nas soluções "maioritárias" quando comparadas com as soluções "consociativas", mas já são detectadas diferenças significativas ao nível do grau de participação dos cidadãos, e de satisfação dos eleitores em relação ao funcionamento da democracia em favor das "democracias consociativas". Aliás nós que gostamos tanto de pegar das "melhores practicas europeias" devemos considerar que dos 27 Estados da UE, 23 governos são sustentados por coligações pré ou pós eleitorais ou por acordos de incidência parlamentar. Em Portugal e muito por culpa da cultura do voto útil que asfixia a democracia ainda insistimos em soluções unipartidárias.

É hoje, no Coliseu

Empate técnico


O Pedro Magalhães elaborou um quadro de grande utilidade que nos indica as evoluções das intenções partidárias das últimas semanas.
Mesmo com todas as reservas que tenho em relação à fiabilidade dos resultados das sondagens, designadamente numa dificuldade sistemática em aferir a votação do CDS, a verdade é que a proximidade dos seus valores indiciam que, provavelmente, o PS ganhará as eleições.
Todavia se o empate técnico entre PS e PSD acabou, estamos agora perante um outro empate técnico entre CDU, CDS e BE.
Se atendermos às médias das últimas quatro sondagens, o CDS estará a dois pontos do BE e a CDU estará a menos de um ponto do CDS.
Num cenário em que não existirá maioria absoluta é essencial que os dois partidos à direita do PS ocupem a segunda e terceira força no parlamento. Não para fazerem acordos com José Sócrates mas para protagonizarem a construção de um projecto alternativo à esquerda que tire Portugal desta vil tristeza. Independentemente do resultado de Domingo "nunca baixamos os braços" e o futuro começa a ser construído dia 28.

O nosso caso


Sócrates sempre procurou subtrair-se àquele que devia ser o seu papel num debate político democraticamente saudável. Sim, de duas em duas semanas lá estava no parlamento, mas isso tem um significado somente aparente, porque o uso que o primeiro-ministro sempre fez dessa modalidade transformou-a numa forma democrática vazia – ou, mais exactamente, com um conteúdo contraditório.
Ao longo destes funestos quatro anos, a actividade normal, sublinhe-se normal, das oposições (partidárias ou não) numa democracia, isto é, a observação qualificada, a apreciação crítica, o escrutínio das opções do governo, a sua recusa terminante, foi sempre descrita por Sócrates como “maledicência” ou “ataques pessoais”. Se o primeiro-ministro não o fizesse conscientemente, julgaríamos estar perante uma personagem ainda civicamente tosca que soltava os seus primeiros vagidos para a vida política da comunidade. Mas não. Sócrates sabe muito bem o que faz. Esse seu modo patológico de se subtrair ao confronto político é, precisamente, uma opção política. Ao virar as costas às críticas dos adversários e refugiar-se na choradeira esganiçada do “ataque pessoal”, está a fazer política. Ao mesmo tempo que vai acusando os outros de “salazarismo” ou “estalinismo”, coloca-se naquele plano aparentemente apolítico sempre do agrado das criaturas autoritárias. Ele faz de si aquela imagem do líder “determinado” e providencial que quer “fazer”, mas tem de arrostar com a “maledicência” dos outros, aqueles que “não fazem”, que “só dizem mal”.
Neste modo imaturo de proceder, se vê como Sócrates é de uma indigência política pré-ateniense. Naquela sua cabeça, não há lugar para a crítica. Existem apenas duas alternativas: ou a concordância com o seu governo ou a “maledicência”. Tudo se passa como se Sócrates não esperasse nunca a apreciação de cidadãos, mas sim a passividade de súbditos. Este nosso primeiro-ministro é, no fim de contas, um reaccionário profundo. É, assim, uma medida de higiene política arredá-lo no próximo dia 27.


[Também aqui.]

Quinta-feira, 24 de Setembro de 2009

Avishai Cohen, a reinterpretação pop da tradição religiosa



Esta canção de Avishai Cohen, aqui na sua faceta mais pop, tem por base uma oração que todos os judeus fazem quando chegam a casa, sexta-feira, depois do primeiro serviço religioso à entrada do Shabbat.

Deixo aqui a minha transliteração para caracteres latinos e a minha tradução do hebraico, de Shalom Alechem: que a paz esteja convosco.


Nota: o "ch" tem uma pronúncia gutural, um pouco mais acentuada do que em Bach, em alemão.

Shalom alechem,
Mal’achê hashalom,
Boachem leshalom,
Mal’ache hashalom,
Barechuni leshalom,
Mal’achê elion,
Betsetchem leshalom,
Mal’ache hashalom.

A paz esteja convosco,
Anjos da paz,
Vinde em paz,
Anjos da paz,
Abençoai-me com a paz,
Anjos do altíssimo,
Ide em paz,
Anjos da paz.

Uma história muito instrutiva

Aqui.

O que pensar das sondagens de hoje


Resposta ao João Galamba, com "sérias" dúvidas de ainda irmos a tempo

O João Galamba acusa-me de "tentar manter viva a suspeita das escutas ao presidente" através de uma "atabalhoada, desesperada e pouco séria estratégia de contenção de danos" . Que danos sejam esses, escapa-me totalmente, mas confesso estar preocupado com os efeitos da campanha socialista em várias pessoas até agora imunes à simplexificação em curso. Será de ler todos os dias o Carlos Santos? Ou a central de informação abrantina?
Sim, talvez a minha "estratégia" seja atabalhoada, uma vez que é minha. Não, talvez não seja, uma vez que o João Galamba se sente obrigado a chamar-lhe coisas.
Desesperada não é, certamente, porque não espero menos das eleições do que milhões de portugueses: se o PSD ganhar, livro-me de Sócrates; se o PS ganhar, livro-me do país. Em qualquer dos casos, a esperança é grande.
Estarei a ser pouco sério? Bem, o João já chamou coisas piores a outros. Vejo que estamos a avançar Portugal. O que não avança Portugal é fingir que nada se passou. Não sabemos tudo, mas o que sabemos aconselha a "manter viva a suspeita" até sabermos tudo. Um dos principais assessores do Presidente da República queixa-se de ser vigiado pelo Governo: chega para "seriedade" do tema? Enfim, trata-se apenas do normal funcionamento das instituições democráticas, da confiança entre órgãos de soberania, das liberdades e garantias, da separação de poderes, do Estado de direito, etc. Questões de somenos.
Em nome da salvação da pátria, há que derrotar Sócrates no Domingo. E para ver se temos de volta o João Galamba com quem, em tempos não muito distantes, se podia manter uma conversa. Séria.

O Papa em Fátima


O Papa Bento XVI vai visitar Portugal em Maio de 2010.
Uma óptima notícia para todos os católicos.

SMS

Paulo Portas

A falta de vergonha da esquerda

Dificilmente poderíamos encontrar melhor ilustração para o que o Miguel Morgado escreveu aqui em baixo do que o artigo publicado hoje no i pela pena de João Cardoso Rosas. Resumindo o argumento: a direita está inundada de fanáticos morais, sempre prontos a diabolizar a esquerda, e a esquerda é habitada por amigos do conhecimento, sempre dispostos a revelar as deficiências intelectuais da direita. Daria para rir se o assunto não fosse sério. Num período eleitoral em que (1) o Sócrates português abriu a campanha a acusar Manuela Ferreira Leite de considerar o casamento uma instituição que tem nos filhos a sua razão de ser, (2) o PS acaba a campanha com invocações ao salazarismo para caracterizar o PSD, e (3) pelo meio ainda tivemos a oportunidade de ouvir a não sei bem se bloquista se socialista Joana Amaral Dias comparar o slogan Política de Verdade com um qualquer manifesto Nacional Socialista, já só faltava mesmo ler João Cardoso Rosas escrever que a direita se alimenta na moral e a esquerda no intelecto. É evidente que nem o anátema que é colocado em Manuela Ferreira Leite, por defender o que foi defendido em todos os tempos e que só há meia dúzia de anos começou a ser posto em causa, nem o atestado de menoridade democrática que é passado aos portugueses com a ameaça do salazarismo, nem a boçalidade histórica da comparação da Política de Verdade com a ideologia Nacional Socialista, consegue sobreviver ao exame de uma inteligência mediana. Pelo contrário, qualquer pessoa percebe que há aqui apenas a tentativa grosseira por parte da esquerda de situar a direita no lado dos maus e reservar para ela o lado dos bons, independentemente do que os factos possam provar. Qualquer pessoa excepto João Cardoso Rosas, claro, que insiste que “a esquerda baseia a sua acção numa leitura teórica e sociológica que identifica blá blá blá”.

Sócrates, o Ditador, por António Barreto

Sobre ditadores e coisas parecidas, o mais acertado que li nos últimos tempos vem da pena de António Barreto. Chama-se Sócrates, O Ditador, precisamente, e vale a pena recordar. Foi suscitado, o retrato, pela saída de António Costa para a Câmara de Lisboa. Não é treta de campanha. A reler, e relembrar:

A saída de António Costa para a Câmara de Lisboa pode ser interpretada de muitas maneiras. Mas, se as intenções podem ser interessantes, os resultados é que contam.

Entre estes, está o facto de o candidato à Autarquia se ter afastado do Governo e do Partido, o que deixa Sócrates praticamente sozinho à frente de um e de outro. Único senhor a bordo tem um mestre e uma inspiração. Com Guterres, o primeiro-ministro aprendeu a ambição pessoal, mas, contra ele, percebeu que a indecisão pode ser fatal.

A ponto de, com zelo, se exceder: prefere decidir mal, mas rapidamente, do que adiar para estudar. Em Cavaco, colheu o desdém pelo seu partido. Com os dois e com a sua própria intuição autoritária, compreendeu que se pode governar sem políticos.

Onde estão os políticos socialistas? Aqueles que conhecemos, cujas ideias pesaram alguma coisa e que são responsáveis pelo seu passado? Uns saneados, outros afastados. Uns reformaram-se da política, outros foram encostados. Uns foram promovidos ao céu, outros mudaram de profissão. Uns foram viajar, outros ganhar dinheiro. Uns desapareceram sem deixar vestígios, outros estão empregados nas empresas que dependem do Governo. Manuel Alegre resiste, mas já não conta.

Medeiros Ferreira ensina e escreve. Jaime Gama preside sem poderes. João Cravinho emigrou. Jorge Coelho está a milhas de distância e vai dizendo, sem convicção, que o socialismo ainda existe. António Vitorino, eterno desejado, exerce a sua profissão.

Almeida Santos justifica tudo. Freitas do Amaral reformou-se. Alberto Martins apagou-se. Mário Soares ocupa-se da globalização. Carlos César limitou-se definitivamente aos Açores. João Soares espera. Helena Roseta foi à sua vida independente. Os grandes autarcas do partido estão reduzidos à insignificância. O Grupo Parlamentar parece um jardim-escola sedado. Os sindicalistas quase não existem. O actual pensamento dos socialistas resume-se a uma lengalenga pragmática, justificativa e repetitiva sobre a inevitabilidade do governo e da luta contra o défice. O ideário contemporâneo dos socialistas portugueses é mais silencioso do que a meditação budista. Ainda por cima, Sócrates percebeu depressa que nunca o sentimento público esteve, como hoje, tão adverso e tão farto da política e dos políticos. Sem hesitar, apanhou a onda.

Desengane-se quem pensa que as gafes dos ministros incomodam Sócrates. Não mais do que picadas de mosquito. As gafes entretêm a opinião, mobilizam a imprensa, distraem a oposição e ocupam o Parlamento. Mas nada de essencial está em causa. Os disparates de Manuel Pinho fazem rir toda a gente. As tontarias e a prestidigitação estatística de Mário Lino são pura diversão. E não se pense que a irrelevância da maior parte dos ministros, que nada têm a dizer para além dos seus assuntos técnicos, perturba o primeiro-ministro. É assim que ele os quer, como se fossem directores-gerais. Só o problema da Universidade Independente e dos seus diplomas o incomodou realmente. Mas tratava-se, politicamente, de questão menor. Percebeu que as suas fragilidades podiam ser expostas e que nem tudo estava sob controlo. Mas nada de semelhante se repetirá.

O estilo de Sócrates consolida-se. Autoritário. Crispado. Despótico. Irritado. Enervado.

Detesta ser contrariado. Não admite perguntas que não estavam previstas. Pretende saber, sobre as pessoas, o que há para saber. Deseja ter tudo quanto vive sob controlo.

Tem os seus sermões preparados todos os dias. Só ele faz política, ajudado por uma máquina poderosa de recolha de informações, de manipulação da imprensa, de propaganda e de encenação. O verdadeiro Sócrates está presente nos novos bilhetes de identidade, nas tentativas de Augusto Santos Silva de tutelar a imprensa livre, na teimosia descabelada de Mário Lino, na concentração das polícias sob seu mando e no processo que o Ministério da Educação abriu contra um funcionário que se exprimiu em privado. O estilo de Sócrates está vivo, por inteiro, no ambiente que se vive, feito já de medo e apreensão. A austeridade administrativa e orçamental ameaça a tranquilidade de cidadãos que sentem que a sua liberdade de expressão pode ser onerosa. A imprensa sabe o que tem de pagar para aceder à informação. As empresas conhecem as iras do Governo e fazem as contas ao que têm de fazer para ter acesso aos fundos e às autorizações.

Sem partido que o incomode, sem ministros politicamente competentes e sem oposição à altura, Sócrates trata de si. Rodeado de adjuntos dispostos a tudo e com a benevolência de alguns interesses económicos, Sócrates governa. Com uma maioria dócil, uma oposição desorientada e um rol de secretários de Estado zelosos, ocupa eficientemente, como nunca nas últimas décadas, a Administração Pública e os cargos dirigentes do Estado. Nomeia e saneia a bel-prazer. Há quem diga que o vamos ter durante mais uns anos. É possível. Mas não é boa notícia. É sinal da impotência da oposição. De incompetência da sociedade. De fraqueza das organizações. E da falta de carinho dos portugueses pela liberdade.

Direita trabalhista

Importante texto do Pedro Lomba sobre sinais de emergência de uma direita trabalhista.
De leitura altamente recomendada.

Os socialistas e o fantasma do Salazar

Em campanha eleitoral é costume recorrer a argumentos de ataque ao adversário. Não há mal nenhum nisso. Mas o PS optou por invocar o fantasma do salazarismo no ataque a Manuela Ferreira Leite. Os arautos socialistas da democracia precisam de saber que o seu comportamento é, sem qualquer exagero, anti-democrático, e que, por isso, precisam de umas liçõezinhas de democracia.
Ao acenar com o espectro do papão da política portuguesa - pois é esse sobretudo o papel que Salazar desempenha no nosso empobrecido discurso político - o PS trata os portugueses como criancinhas que se recusam a comer a sopa. Amedrontam os portugueses com mentiras. Ao infatilizar o eleitorado, o PS atenta directamente contra o espírito democrático na medida em que a democracia é o regime que precisamente retira todas as consequências da recusa de tratar os cidadãos de uma mesma comunidade política como crianças ou como retardados. O discurso do PS é tipicamente "paternalista" - e, nessa medida, tresanda a Antigo Regime. Não pode, portanto, ter lugar num espaço público livre e democrático.
Em segundo lugar, anatemizar um adversário - já que é esse o sentido de, em Portugal, apelidar alguém de "salazarista", "salazarento" ou outra treta qualquer desse tipo - é evidentemente desqualificá-lo. Ora desqualificar um adversário deste modo, através da mentira consciente e da associação histórico-política arbitrária, significa recusar-lhe um estatuto paritário, isto é, significa não aceitar a sua essencial igualdade como interlocutor no espaço público. Não custa muito perceber que essa é uma violação gritante do espírito democrático.
Os democratas que por aí andam a desfilar à espera que se lhes reconheça uma qualquer aura de democraticidade fariam melhor em procurar um espelho. Sempre evitavam o ridículo. E o povo português tem de lhes dizer de uma vez por todas que não admite que o tomem por parvo.

Quarta-feira, 23 de Setembro de 2009

Humor negro

No Directo ao Assunto, na RTPn, Adelino Faria pergunta a Joana Amaral Dias (que comparou o PSD ao partido nacional-socialista alemão) se faz sentido o PS continuar a fazer comparações entre o PSD e o regime do Estado Novo.

Avishai Cohen, música



Um dos mais talentosos músicos israelitas da actualidade, na minha opinião. Aqui num concerto Blue Note. Uma boa noite.

"Direito Natural e História" de Leo Strauss no Brasil


Neste comentário de Nivaldo Cordeiro, uma certa edição de "Direito Natural e História" é invocada num debate muito importante e que tão cedo não terminará.

Talvez corem, talvez não

Hoje, quando Ahmadinejad subir ao pódio das Nações Unidas para discursar (?), Lawrence Cannon, ministro dos Negócios Estangeiros do Canadá, com toda a delegação que leva consigo, abandonará a sala. Porquê? Porque considera «vergonhosas» as suas «explosões» sobre Israel e o Holocausto.

Recomenda-se a Sócrates e Amado que olhem para o lado. Se tiverem um pouco que seja de vergonha, talvez corem.

O novo BE


Este cartaz é o primeiro em que o BE se pretende apresentar como partido de governação. Os antigos cartazes de protesto da "ovelha negra" e da "minoria absoluta" foram arrumados e mesmo Loucã já não espuma quando pronuncia a palavra rrricos.
Graficamente a metamorfose não resultou e o conjunto de dirigentes do BE mais parece uma promoção dos bonecos do programa contra-informação.

Portugal obsceno até ao fim com o pirómano

Portugal, este Portugal em que não me reconheço, o Portugal como o entendem Sócrates e Amado, mas não Manuel Maria Carilho e Manuel Alegre, por exemplo, perseverou no apoio à candidatura do egípicio Faruk Hosni a director-geral da Unesco, do egípicio ministro da Cultura que se propôs queimar os livros hebraicos existentes nas bibliotecas do seu país, do egípcio que, como adido cultural em Roma, em 1985, ajudou, e disso se ufanou, a fuga dos sequestradores do Achille Lauro.

Este Portugal, que Portugal não merece, perseverou, mas perdeu. Contra ele, ganhou a búlgara Irina Bukova. Contra ele, ganhou a decência, o mínimo de decência e dignidade, a decência obrigatória sem a qual fazer política se transforma forçosamente numa coisa obscena.

Sócrates e Amado levam no curriculo a prova de que, para eles, vale tudo, em política. Inclusive vender a alma ao Diabo por um putativo lugar rotativo no Conselho de Segurança da ONU.

Pódio do nosso empobrecimento

Segundo o Forum Económico Mundial, os três factores portugueses que recebem as indesejadas medalhas são as restrições da regulamentação laboral, a ineficiência da burocracia administrativa e as regulamentações fiscais. Tudo factores internos nossos. Juntos correspondem a mais de metade do bolo dos problemas, bem longe de outros com presença mais mediática e partidária como a infindável questão das infraestruturas (transporte e outras).

Não há crise internacional que explique isto. Há apenas a evidência: anos a fio de socialismo, 4 anos e meio de maioria absoluta de Sócrates e nem o que depende exclusivamente de nós foi feito.

Peep-show institucional


O ano eleitoral tem sido acompanhado de um número recorde de casos políticos, com particular intensidade nas semanas que antecedem os actos eleitorais, como é esta. Muitos dos que comentam e fazem análise política insistem em interpretar esses casos à luz das campanhas eleitorais, ou seja em função actualidade política. E claro, passados uns dias, são rápidos em reconhecer que o caso 'foi esquecido', que durou pouco, e na certeza de que amanhã haverá outro, tentam antecipá-lo.

Há algo de muito errado nesta leitura dos 'casos'. Não compete aos cidadãos, aos comentadores, e aos partidos relembrar insistentemente os 'casos'. É natural que alguns deles se sirvam para preencher discursos durante as campanhas, mas relembre-se o óbvio: os 'casos' não são brincadeiras eleitorais, são problemas institucionais e por vezes até casos de polícia. A verdadeira questão é os 'casos' serem esquecidos (ou negligenciados) por quem de autoridade se deve debruçar sobre eles. E é a partir deste ponto que devemos reflectir sobre o desempenho das nossas instituições.

Temos uma Justiça incapaz de agir em tempo útil; temos uma Polícia impossibilitada de investigar livremente; temos entidades duvidosas que deviam regular (mas não regulam); temos observatórios duvidosos que não observar (mas deviam observar). Temos, no fundo, instituições deficientes, preenchidas pelas gentes dos partidos, e que em vez de servirem o país favorecem os seus interesses.

A separação de poderes e o papel das instituições na vigilância do exercício do poder político são conceitos basilares de uma república. Nunca na história recente da nossa se falou tanto da importância do que é elementar, o que não deixa de ser um legado negro da governação de José Sócrates. Costuma ser muito mau sinal quando se tem de relembrar o óbvio.

Terça-feira, 22 de Setembro de 2009

Biotech (2)

Em artigo publicado hoje no jornal britânico "The Sun", o cientista norte-americano de 61 anos, que no passado foi capaz de prever o surgimento de novas tecnologias, explica que o ritmo acelerado com que avança o nosso conhecimento sobre o funcionamento dos genes e das ciências dos computadores, potenciam o surgimento de nanotecnologias capazes de substituir órgãos vitais.

Segundo a "Lei do Retorno Acelerado" (Law of Accelerating Returns , em inglês), assim designa Kurzweil a sua teoria, "daqui a 20 anos, aproximadamente, será possível reprogramar os nossos corpos parando e revertendo o envelhecimento. Então, a nanotecnologia permitir-nos-á ser eternos".