Sexta-feira, 31 de Julho de 2009

Deixa lá, Obama. A malta aqui continua a idolatrar-te

O tecno-lag de alguns políticos portugueses

Derrick de Kerckhove, académico canadiano e discípulo do guru da comunicação Marshall McLuhan, referia em A Pele da Cultura que o desfasamento entre a tecnologia emergente e um público não preparado para a receber era cada vez menor. Segundo Kerckhove, os cidadãos nem sempre aderem imediatamente à tecnologia que lhes é colocada à disposição. Por exemplo, a televisão surgiu em 1928 em Nova Iorque, mas apenas após a II Guerra Mundial é que começou a ser utilizada, e apenas na década de 50 ganhou a influência que hoje lhe reconhecemos. Com o advento dos meios digitais, este tecno-lag tem sido mais reduzido, conquistando rapidamente relevância no espaço social.

Não deixa de ser estranho que certos políticos continuem a demonstrar um profundo desconhecimento destes novos meios, encarando-os como “seres estranhos” e distintos da restante sociedade. Ainda recentemente ouvimos António Costa chamar à blogosfera “submundo”, insultando milhares de pessoas que assinam o seu nome nos textos que publicam. José Sócrates, ao deslocar-se para a tão mencionada conferência de blogues, afirmou que tinha ouvido dizer que falavam mal dele nos blogues e queria confirmar se isso era verdade. A primeira informação que deviam ter transmitido ao Primeiro-ministro é que a blogosfera é apenas um reflexo da sociedade, e que esse meio não se resume apenas aos blogues mais famosos. Poderia ter falado da blogosfera política, mas nem aí estaria a ser coerente, pois existem vários próximos do seu governo. Na blogosfera existem milhares de blogues, uns mais lidos que outros, mas nem por existem alguns que representam essa “entidade” abstracta, e que mais não é do que um reflexo da nossa sociedade, com toda a sua diversidade de ideias ou áreas de interesse. Se nos dermos ao trabalho de percorrer, por exemplo, a plataforma da Sapo, encontramos blogues sobre poesia, culinária, futebol, diários pessoais, música, etc. E nem vale a pena escrever muito sobre o ridículo que foi a RTP ter-se referido aos presentes na dita conferência como os “mais importantes bloggers portugueses”. Isso deve-se apenas à ignorância daqueles que receberam a nota de imprensa do PS.

O tecno-lag que Kerkhove falava pode ser cada vez menor, na medida em que as pessoas hoje aderem quase instantaneamente às novas tecnologias que vão surgindo. Mas seria importante alguns responsáveis políticos perceberem melhor o fenómeno em questão. É que continuam muito desfasados desta nova realidade.

Também aqui.

A mudança das mentalidades

Hoje, se não me engano, vai ouvir-se muito a expressão "mudança das mentalidades": a inexorável mudança das mentalidades, a necessária mudança das mentalidades, a indispensável, a ainda não suficiente, etc. (Que não se entusiasmem os entusiastas, que amanhã será a vez de outras palavras - é assim continuamente.)
"Mudança das mentalidades" tornou-se uma palavra-passe que abre todas as portas. Uma palavra-passe pouco secreta, porque toda a gente a usa. E a única forma de a usarem abrindo todas as portas é, precisamente, fazendo-o como sonâmbulos - com os olhos abertos sem ver e não sabendo realmente o que estão a fazer. Têm sempre um grande sucesso as palavras usadas como moeda de troca de que ninguém sabe o verdadeiro valor.

Aquilo a que temos assistido nos últimos trinta anos, em relação às mulheres, nos países do Magreb, do Médio Oriente e noutros "árabes" não é também uma "mudança das mentalidades"?

Pluralismo e "realismo" de pacotilha

Eis aqui um exemplo - o autor inglês John Gray - de como o "pluralismo de valores" dá origem a um confuso "realismo" de pacotilha.

A propósito dos filósofos, da esquerda e da direita

Lembro-me de um professor notável que tive, de filosofia medieval, que na aula de abertura da cadeira anunciou que passaríamos imediatamente aos textos. Não valia a pena fazer grandes introduções à filosofia medieval, enquanto tal. O que ela tem de medieval, dizia ele, não interessa. O que ela tem de filosófico, era o que iríamos tentar abordar ao longo de um ano. E, assim, o melhor era começar.

Vem isto a propósito dos filósofos de esquerda, ou de direita...

Casamento homosexual e constituição



Está a ser noticiado em meios de comunicação social que o "casamento entre pessoas do mesmo sexo" foi chumbado pelo Tribunal Constitucional.
Não é verdade.
A história conta-se em poucas frases:

1- Em 2006 Teresa Pires e Helena Paixão tentaram contrair matrimónio junto de uma conservatória do registo civil.
2- O Srº Conservador não permitiu alegando que na lei (código civil) o casamento é um instituto para duas pessoas de sexo diferente.
3- As requerentes (Lena e Teresa) impugnaram o acto do Srº Conservador invocando a inconstitucionalidade da norma do código civil que define casamento como contrato entre duas pessoas de sexo diferente.
5- Os tribunais judiciais nas suas várias instâncias entenderam que a decisão do Srº Conservador foi correcta, e que a norma do código civil não é inconstitucional.
6- Como em sede de fiscalização de constitucionalidade o Tribunal Constitucional tem a ultima palavra, o recurso chegou ao Tribunal Constitucional que igualmente julgou pela não incontitucionalidade da norma do código civil validando assim, a título definitivo, a decisão do Srº Conservador.

Ou seja o Tribunal Constituconal apenas julgou que a norma do código civil que define o casamento como contrato entre pessoas de sexo diferente não é inconstitucional.
Não significa que venha a considerar inconstitucional o casamento entre pessoas do mesmo sexo, caso o legislador venha a redefinir o conceito de casamento por forma a permitir que pessoas do mesmo sexo possam estar abrangidas pelo conceito.


Um disparatezinho

Estas coisas não têm muita importância. Como outras que são sopradas, esta é daquelas que tem vindo a ser repetida à exaustão. Mas para que um disparatezinho não passe por verdade oficial, aqui vai. O João Galamba no blogue do Expresso diz que "a direita tende a concordar com Hobbes, que tem uma visão sombria e pessimista da existência humana e que desvaloriza a dimensão criativa do debate democrático".
Enfim,
1º desde esta coisa que o Carl Schmitt inventou, e que outros acabam a papaguear, do dito "pessimismo/optimismo antropológico" (que conduz mais à confusão do que ao esclarecimento),
.
2º até à contradição com a narrativa da história política recente que malta como o João Galamba adoptou, (por exemplo, é um dos golpes favoritos de João Cardoso Rosas)

3º passando pela completa desadequação da colagem de Hobbes à direita contemporânea - por contraposição à de outros períodos históricos, por exemplo - muita coisa haveria a dizer sobre o desastre contido nestas palavras.

Sobre o ponto 2 deixo aqui apenas uma ilustração. Se a "direita" dos últimos 20 anos corre pelo nome de "neoliberalismo", como a esquerda gosta de dizer, ou "teologia do mercado", como também se ouve por aí, isso só pode querer dizer que a direita tem uma fé cega na eficácia e bondade da "mão invisível" de Adam Smith. Ora, se há coisa em que Hobbes insistia é que não existe nada sequer de parecido com a "mão invisível". Ou, visto ao contrário: a "mão invisível" a existir não sustenta a harmonia entre os desejos humanos; bem pelo contrário, a "mão invisível" converte-se na mão bem visível que aperta as goelas do vizinho.

Quanto aos outros dois pontos, sugiro que consultem isto

e o capítulo sobre Hobbes que lá pus. Depois conversamos sobre a "direita" e Hobbes.

Atacar a língua desprezando a literatura


Leiam isto, por favor.

Quinta-feira, 30 de Julho de 2009

Alternativas armadilhadas

Num artigo de opinião no jornal i, João Cardoso Rosas determina sem margem para dúvidas que o PSD, sempre que afirma o seu lugar ideológico, o faz ou por "ignorância"[sic] ou, alternativa generosa, por "desonestidade intelectual"[sic]. A única forma de escapar a estes vícios seria assumir-se como partido de direita. João Cardoso Rosas quer, à força, que o PSD seja partido de direita. Caso contrário, já se sabe, estaremos perante um caso de "ignorância" ou de "desonestidade".
Bem, vamos a um bocadinho de História, vamos?...



Chomsky, Faurisson & Co. - Para lembrar

«O Nazismo está morto e passado, juntamente com o seu Führer. Resta hoje a verdade. Ousemos proclamá-la. A inexistência de "câmaras de gás" [em Auschwitz] é uma boa notícia para a humanidade. Boas notícias que seria errado manter escondidas por mais tempo.»

Robert Faurisson, "Le Monde", 29 de Dezembro de 1978, p. 8.

«É verdade que Faurisson é um anti-semita ou um neo-nazi? (...) Não encontro provas que suportem essa conclusão. Nem provas nos materiais que li a respeito dele, em registo público ou em correspondência privada. Tanto quanto posso determinar, ele é uma espécie de liberal relativamente apolítico.»

Noam Chomsky, "Some Elementary Comments on The Rights of Freedom of Expression", prefácio a Faurisson, Mémoire en défense, 11 de Outubro de 1980.

Noam Chomsky, o ícone ideológico de certa esquerda, e Robert Faurisson, o ícone intelectual (?) do negacionismo. Como esta gente se dá bem...

Deputado (In)dependente


Um dos direitos fundamentais dos deputados é o direito de iniciativa legislativa. Para tal não precisam do grupo parlamentar. Temos aliás bons exemplos de deputados mesmo filiados em partidos que utilizaram recentemente o direito de iniciativa legislativa, como o deputado João Cravinho relativamente a leis de combate à corrupção.
Mas pelo que se percebe deste post, não contem com o Miguel Vale da Almeida para apresentar no parlamento propostas de lei da agenda LGBT. O futuro deputado, não pretende apresentar um projecto de lei de sua iniciativa que permita o casamento homosexual sem restringir o acesso à parentalidade. Ao invés parece confortável em votar a proposta do PS que permita o casamento de pessoas do mesmo sexo mesmo criando uma nova discriminação para a os gays e as lésbicas, restringindo o acesso à parentalidade.
Mais do que um deputado LGBT na bancada do PS, será um deputado PS dentro do movimento LGBT. Não percebo é porque é que não se filia no PS, em vez de acenar com um estatuto de independência que parece abdicar.


Proud to be right (2)

"Apesar desta evidência, em Portugal a maioria das pessoas de direita continua a ter vergonha de se afirmar como tal. (...) Também ao nível do discurso corrente, a direita portuguesa tem vergonha de si mesma." João Cardoso Rosas no i de hoje

Há uns 3 ou 4 anos, na Califórnia, ia de carro com dois amigos americanos que, como eu, tendiam decisivamente para a política de Bush e do Partido Republicano. Num daqueles momento cartesianos, perguntei-lhes "Não vos acontece, por vezes, perguntarem-se se não estão demasiadamente conservadores?" Ao que um deles me respondeu "Não, por vezes tenho receio é de não ser suficientemente conservador."

Melhor resposta era impossível. Se o João Cardoso Rosas tiver alguma razão, então é nos EUA que temos de ir aprender qualquer coisa.

Proud to be right (1)

"O leitor faça a seguinte experiência: pergunte a alguns amigos se se consideram de direita ou de esquerda. Muitos darão respostas do tipo "não me situo nessa dicotomia", ou então "a dicotomia esquerda/direita está ultrapassada". Aqueles que assim responderem serão, quase infalivelmente, de direita." João Cardoso Rosas no i de hoje

Um célebre filósofo da política (1901-1985), uma vez questionado "se era liberal", no sentido americano da expressão, respondeu que "não", que não era; ao que o entrevistador retorquiu, "então é conservador". "Também não", respondeu, "o facto de eu não ser suficientemente estúpido para ser um liberal, não significa que seja suficientemente estúpido para ser um conservador".

Não é a "vergonha", mas antes o "bom senso" (já para não falar da "substância" da realidade política), que inibe qualquer pessoa inteligente a deixar-se rotular de modo absoluto por qualquer ideologia ou dicotomia esquerda-direita.

A mão direita de Sócrates


Manejando aqui.

O lugar da Banca no novel subsídio de apoio à natalidade

Na história dos 200 euros que o PS-Governo promete distribuir por todas as crianças nascidas em Portugal a partir de 2009, só não percebi se será, ou não, um negócio interessante para a banca. É claro que não substituirá os lucros que parte significativa da banca portuguesa (e internacional) irá certamente arrecadar com a realização das grandes obras públicas. Mas mesmo assim, o depósito de 200 euros, a (pelo menos) 18 anos, pode ser um interessante serviço prestado pelo PS ao sistema bancário português. Aliás, seria interessante saber se é o Estado ou se serão os cidadãos a escolher o banco (balcão incluído) em que o depósito será feito e, depois, eventualmente "reforçado" por pais com maiores ou menores "posses".

Adenda: Depois de ter escrito este texto encontrei um post de Pedro Sales no Arrastão onde também se fala, e com muita "propriedade", da relação entre os mais famosos 200 euros da política portuguesa e os benefícios que poderá trazer à banca nacional.

Cachimbos de lá

Norman Rockwell, Retrato de Norman Rockwell Pintando Soda Jerk, 1953

Não gozem com o pagode

Em jeito de comentário à proposta dos 200 euros por bebé nascido em Portugal podemos ler no website do PS:

«O PS vai compensar as famílias com 200 euros por cada bebé que nasça em Portugal, numa medida que visa atingir quatro objectivos essenciais: incentivo à conclusão do ensino obrigatório, procura de hábitos de poupança, estímulo para um novo projecto de vida na entrada na idade adulta e incentivo à natalidade, de modo a contrariar o envelhecimento da população portuguesa. João Tiago Silveira, em entrevista à TSF, adiantou que a saúde e a educação são as prioridades no programa eleitoral para estas Legislativas.»

Os políticos e estes "estrategas" que os acompanham têm de perceber que fazer do eleitorado uma cambada de acéfalos não fica bem, nem sequer é muito eficaz. O delírio inerente aos "quatro objectivos essenciais" situa esta proposta muito além de um horizonte de razoabilidade mínima, que, como se sabe, é condição necessária para haver debate.

No final dos "quatro objectivos essenciais" lá se menciona o incentivo à natalidade. Não sou eu quem vai contradizer que a natalidade em Portugal necessita de incentivos, tendo em conta a situação demográfica desesperada do País. E que esse incentivos não podem ser só financeiros também é algo mais ou menos aceite. Mas que esta coisa aqui proposta possa funcionar como incentivo à natalidade é que desafia os mais elementares poderes do entendimento humano.

A estrutura abstracta do incentivo (financeiro) é muito simples: para que este funcione realmente como um incentivo à natalidade, tem de ser dado a quem tem nas suas mãos a escolha entre ter ou não ter filhos - os potenciais progenitores, não ao filho já nascido, criado e maior de idade. Custa perceber?

Este é um daqueles casos em que, contrariamente ao que proclama o frenesim reinante, mais vale estar quieto. E calado.

Sporting 0 - 0 Twente

Os primeiros minutos de jogo denunciaram o que dele restava. Mas a coisa até parecia poder endireitar-se com o penalty e correspondente expulsão do keeper holandês. “Saiu-nos a sorte grande”, dizia eu aos meus camaradas de bancada, mais convicto do benefício de passarmos a jogar contra 10 do que de passarmos ao 1-0. Mas o Sporting de Paulo Bento já tem uma história de não aproveitar as grandes penalidades. O João Moutinho falhou e logo pudemos concluir que o marcador deveria ter sido o Matias (afinal, os prognósticos a posteriori são sempre infalíveis). A verdade é que não conseguimos criar situações evidentes de golo e o 0-0 acaba por ser um resultado justo. Registo o bom jogo do Miguel Veloso (com o Grimi magoado e o Caneira acabado, ele está condenado a jogar a defesa esquerdo durante mais algum tempo) e a excelente segunda-parte do Daniel Carriço. O Matias promete mas ainda não chegou lá. O Liedson não jogou o que sabe. O Hélder Postiga não foi grande coisa, muito embora eu considere que ele sabe rematar como poucos. O Pedro Silva foi simplesmente miserável (tão mau, tão mau, em tudo e também a centrar, que quase marcou um golo com um centro mal feito). O João Moutinho também esteve abaixo do habitual mas continua a ser o melhor jogador do Sporting (aquele penalty…). Uma excelente defesa do Rui Patrício a defender um livre perigoso na primeira parte. Em suma, um jogo mau com alguns pormenores decentes. Pior mesmo só os assobios do público no fim do jogo. Continuo sem perceber o que é que estas pessoas vão fazer ao estádio quando não estão preparadas para um mau resultado. Se querem ganhar sempre, mudem de clube, vão para o Porto. Se querem delirar que ganham sempre, mudem de clube, vão para o Benfica. Se querem ser do Sporting, apoiem a equipa, nos bons e nos maus momentos. A eliminatória decide-se já na próxima Terça-feira. Boa semana e boa sorte!

Confusão

Ao afirmar que “quando uma pessoa se apresenta assumidamente como homossexual e quer dar sangue, eu interpreto como uma provocação”, Gabriel Olim não está a falar de comportamentos de risco, está a falar da orientação sexual.

Quanto ao resto: se “a relação sexual nunca é 100% protegida” e a “experiência também nos diz que relações que em princípio eram totalmente monogâmicas não são tão monogâmicas assim”, então qualquer relação sexual é um comportamento de risco. Porque “múltiplos parceiros, relações não protegidas, fazer sexo oral e anal” não são (é um pouco triste ter de explicar isto) comportamentos exclusivos dos homossexuais masculinos.
Se fossem tiradas todas as consequências das palavras de Gabriel Olim ou reduzíamos a lista de dadores ao clube das virgens ou ao movimento de pinguins celibatários.

Sangue meu


O Presidente do Instituto Português do Sangue dá uma hoje um entrevista importante no jornal i.
Gabriel Olim demonstra de forma séria e perceptível que não há qualquer discriminação em relação aos homosexuais enquanto dadores de sangue. O que está em causa não é a orientação sexual do dador mas um eventual comportamento de risco.
Comportamentos como sejam a existência de múltiplos parceiros, relações não protegidas e sexo anal ou oral são considerados de risco e dão origem à exclusão tanto em relação a heterosexuais como em relação a homosexuais.
O problema é que os heterosexuais quando são exluídos aceitam a decisão, os homosexuais quando são excluídos dizem que é discriminação.

Hoje não por acaso lembrei-me disto

Here we stand
In a special place
What are you gonna do here?
Now we stand
In a special place
What will you do here?
What show of soul
Are we gonna get from you?
It could be deliverance
Or history under these skies
So blue
Could be something true
But if I know you
You'll bang the drum like monkeys do...

The Waterboys, Don't Bang the Drum (1985)

Onde o mundo ainda é um caso sério

Nigerian troops attack Islamist mosque, kill 100

MAIDUGURI, Nigeria – Troops shelled the compound of an Islamist sect blamed for days of violence in northern Nigeria then attacked its mosque, killing at least 100 militants in a fierce battle.
Sect leader Mohammed Yusuf escaped along with about 300 followers but his deputy was killed in Wednesday night's bombardment, according to Army commander Maj. Gen. Saleh Maina.
Militants seeking to impose Islamic Sharia law throughout this multi-religious country attacked police stations, churches, prisons and government buildings in a wave of violence that began Sunday in Borno state and quickly spread to three other states in mainly Muslim northern Nigeria.
It is not known how many scores of people have been killed, wounded and arrested. Relief official Apollus Jediel said about 1,000 people had abandoned their homes Wednesday due to the violence, joining 3,000 displaced earlier this week in the four states.
The epicenter of the violence has been the Boko Haram's headquarters in Maiduguri, capital of Borno state, which was bombarded Wednesday. Maina said his troops would fire mortar shells later Thursday to destroy what is left of the sprawling compound, which stretches over 2.5 miles (4 kilometers).

As três mentiras de Lisboa

Qualquer cidade antiga está envolta em mitos, mistérios e contradições. Lisboa ao ter séculos de História não está isenta de algumas discrepâncias. Com o tempo, a toponímia transforma-se e os seus contra-sensos, ou como direi “mentiras”, tornam-se frequentes. As três mentiras de Lisboa envolvem um tribunal, um palácio e um cemitério, espaços que na capital assumem os nomes mais impróprios. Ora para os alfacinhas o tribunal é da Boa Hora, o palácio das Necessidades e o cemitério dos Prazeres. A resposta a tão estranhas designações está na evolução da cidade e no famigerado terramoto de 1755.

Tribunal da Boa Hora
O edifício onde se encontra actualmente o tribunal foi fundado como convento em 1633, por D. Luís de Castro do Rio. O pátio era anteriormente conhecido por Pátio das Comédias.Dominicanos e Agostinianos habitaram o convento até 1755. Com a destruição parcial do mesmo e a extinção das ordens religiosas, o edifício passa a servir de sede aos bombeiros, depois à Guarda Nacional de Lisboa e mais tarde ao tribunal.

Palácio das Necessidades
Obra do “Rei Sol Português”, D. João V, o conjunto do Palácio e da Igreja de Nossa Senhora das Necessidades foi edificado entre 1743 e 1750. O nome surge por ser esse o local onde existia uma pequena ermida dedicada a Nossa Senhora das Necessidades. O espaço foi construído em honra de Nossa Senhora da Saúde, mas cedo os pescadores e navegantes passaram a chamá-la de outro modo, pedindo-lhe auxílio para a sua saúde e outras necessidades.

Cemitério dos Prazeres
Em 1833 a cidade de Lisboa sofreu um surto de cólera que tornou urgente a criação de um grande cemitério público e a proibição dos enterros em igrejas. Como no seu local existia uma grande quinta, conhecida por Quinta dos Prazeres o cemitério adopta o seu nome.

Desculpem o post sem fotos, mas depois do aviso do João Miguel Gaspar é melhor não arriscar.

Quarta-feira, 29 de Julho de 2009

Luto judaico

Tisha b'Av - 9 do mês de Av - 30 de Julho. É o dia mais sombrio do calendário judaico. A partir de hoje às 20h50 e, até amanhã, depois da noite começada, os judeus de todo o mundo, que observam o calendário religioso, estão de luto completo, recordando a destruição do Primeiro Templo, nessa data, em 586 AEC, e do Segundo Templo, nessa data, em 70 EC.

30 de Julho de 1492 foi também a data limite dada pelos Reis Católicos aos judeus espanhóis para abandonarem o "país", que fora o seu, pelo menos ao longo dos 1400 anos que antecederam essa catástrofe.

Por esses dias, dezenas de milhares de judeus atravessavam a fronteira e entravam em Portugal, tendo o mar pela frente, e, para trás, praticamente a Europa toda vedada, de onde vinham sendo metodicamente expulsos (numa vaga que a historiografia costuma fazer iniciar com a expulsão inglesa de 1290 e se foi arrastando à Alemanha, França, etc., até culminar com o decreto de expulsão espanhol, restando como terra europeia possível a Polónia e certos estados italianos).

Aqui terão entrado entre 50 e 100 mil judeus. É possível que a comunidade judaica portuguesa tenha passado a representar entre 10% a 15% da população do reino. Cinco anos depois, D. Manuel faria algo de muito mais grave do que a expulsão total dos judeus: forçá-los-ia à conversão, e proibiria, dois anos depois, sob pena de morte, qualquer tentativa de fuga. A tragédia prolongou-se por três séculos, até ao fim da Inquisição.

SIMplex: ali entre a megalomania e o provincianismo

Força Sporting!


"Gostava de ver o estádio cheio para, todos juntos, lutarmos pela vitória."

João Moutinho

Crocs & Havaianas

O jornal i tem hoje uma pequena reportagem sobre as já-não-tão-na-moda crocs, “uma espécie de sapato-sandália-sabrina em cores vibrantes”, que no ano de 2007, no pico do sucesso, eram vendidas à razão de 128 mil por dia. Os pais das crianças diziam ser a melhor invenção desde as fraldas descartáveis. Nada a obstar. O pior foi quando vi um pai dessas crianças alegremente calçado com umas crocs – vá lá que eram cinzentas e não rosa-choque ou verde-alface – ao mesmo tempo que se justificava com uma ponta de constrangimento que eram muito confortáveis. Parece que a moda despegou e as lojas da marca têm os armazéns cheios de crocs que não conseguem escoar. Dos 120 milhões de euros de lucros em 2007 passou-se para os 130 milhões de prejuízos em 2008.

Ao contrário das crocs, as havaianas são já uma invenção antiga e o seu reinado estival está para durar. Há cerca de 30 anos tinham um nome e uso diferente: chamavam-se sayonaras (era o nome que se usava em minha casa) e estavam destinadas a dar um ar da sua graça no período de praia. Agora as havaianas são usadas em qualquer lado: na praia e na cidade, de dia e de noite, na mercearia de bairro e nas discotecas. É um sinal dos tempos. Há menos de vinte anos, em Lisboa, ainda havia a possibilidade de ser vedada a entrada numa discoteca a quem calçava ténis. Há menos de dez anos, num restaurante dos EUA, ainda comentava com o meu amigo das crocs a estranheza que sentíamos ao ver ao nosso lado os americanos de calções e camiseta dos Lakers (os portugueses não se prestavam a tristes figuras como aquelas). Tudo mudou em menos de nada. Depois da surpresa que foi ver um amigo de crocs calçadas, vejo agora dois outros amigos de havainas: um a almoçar na cantina ao lado do Lux e outro a beber uma cervejola à noite na Bica.

Falo de amigos e não de amigas porque, de algum modo, no que toca ao vestuário, acho que as mulheres têm o direito a uma outra excentricidade. Não é por acaso que existe uma anedota machista que denuncia com condescendência o gosto que as mulheres sentem em andar descalças. É claro que as crocs e as havaianas não dizem "tudo" acerca destes meus três velhos e bons amigos. O facto de eles se terem rendido a elas diz mais sobre o tempo em que vivemos. O salto civilizacional a que correspondeu também o uso dos sapatos definia o Ocidente Europeu (os homens primitivos é que andavam descalços). Actualmente assiste-se ao percurso inverso. Os brasileiros exportam as havaianas e democratizam o seu uso na baixa de Lisboa como se estivéssemos no paredão das praias do Rio. A decadência que nos toca a todos (há quem lhe chame progresso) não pode deixar de se manifestar também no modo como nos apresentamos.

Ricardo Reis e Miguel Frasquilho (2)

Há pouco publiquei este post também no Jamais. Entretanto, apareceu por lá um comentador que manifestou a sua preferência pela opinião de Ricardo Reis (ainda sobre isto) sobre a de Miguel Frasquilho porque o primeiro é "Professor de uma Universidade Norte-Americana" e o Miguel não passa de um mero "deputado do PSD".
Devo dizer que presumo que o comentador esteja acompanhado por muita e muita gente. Encontro este argumento todos os dias a propósito de muitíssimos problemas e assuntos. Devo ainda dizer que conheço o Miguel Frasquilho, a sua carreira na banca, na Universidade, na política, e a título de declaração de interesses, considero-o um amigo. Mas, enfim, o comentário aqui visado obedece à reverência pequenina que os Portugueses têm pela autoridade - noutros tempos pela política, hoje pela intelectual. É uma reacção normal à fraqueza e ao desamparo. O mais curioso (e já o disse no Jamais, num comentário ao tal comentário) é que nas Universidades americanas, nos departamentos aqui tão elogiados e que pelos vistos conferem autoridade a quem por lá passa, o argumento de autoridade é automaticamente rejeitado, por ser aquilo que é.
A parolice e o paroquialismo portugueses ajudam a explicar por que é que isto é tão difícil de compreender para as almas lusas. Mas teríamos de ir mais longe para percebermos por que é que a esquerda em geral (e agora não me refiro ao comentador citado) se deixa seduzir tão facilmente pela autoridade (do) intelectual, e pelo argumento de autoridade no debate intelectual. Historicamente, isto é um facto. Já nos nossos dias talvez se diga que esta é uma generalização absurda, que exorbita o exemplo de casos isolados. Talvez. Mas são muitos casos isolados para quem se reclama de uma postura anti-autoritária. Deve haver por aí uma explicação.

"Quero ser espanhol" (dizem eles)

(a bandeira que alguns portugueses gostariam de ver hasteada por todo o Portugal)
Uns estão dispostos a morrer e são capazes de matar inocentes para deixarem de ser espanhóis e outros, em Portugal, querem ser espanhóis, quando uma das nossas maiores riquezas é precisamente a nossa independência.
Apesar de gostar muito de Espanha, é algo que me escapa e custa-me imaginar a Vanessa Fernandes como campeã espanhola, bem como o nosso Nelson Évora, a nossa Telma Monteiro, o nosso Ronaldo e nosso Figo como espanhóis (mesmo que joguem em Espanha). O fim das selecções. A eventual vinda de refinarias e estações de tratamento de resíduos da indústria espanhola. As anedotas que os espanhóis contam sobre a Extremadura (uma espécie de “Alentejo” das anedotas) a rumarem para a região autónoma portuguesa. O ter de fazer ainda mais Km para ir tratar de papeladas a Madrid, na capital.
Isto são exemplos secundários.
E os nossos heróis de Aljubarrota a serem vistos como perigosos separatistas?
E o português como segunda língua na escola?
E mais e mais e mais….
Enfim, o que é que se passa na cabeça desses nossos concidadãos portugueses?
“Tu tranquilo” (está aqui a dizer-me a Pilar)

O divórcio dá cabo da saúde

É o que resulta de um estudo da Escola de Saúde Pública John Hopkins aqui.

O que não impede que alguns casamentos sejam um inferno.

A resposta de Miguel Frasquilho ao estudo de Ricardo Reis

«Guterres foi o campeão da engorda do monstro»

«Os piores momentos: Existem dois grandes períodos, nos últimos 23 anos, em que as despesas de funcionamento cresceram mais. O primeiro é de 1990 a 1992 e é uma consequência da implementação do novo sistema retributivo na função pública: os salários subiram, mas os trabalhadores não. O segundo, de 1996 a 2002, relaciona-se com o número de funcionários públicos que entraram para o sector. Esta fase coincide com os mandatos de Guterres. Durante estes seis anos foram admitidos 2,256 funcionários públicos por ano.»
«Crescimento Médio: em termos reais, isto é, descontando a inflação, nos vários períodos políticos, cheguei à conclusão que o campeão da engorda do "Monstro" foi António Guterres. Em seguida vêm os dez anos do Professor Cavaco Silva. Depois a actual legislatura, do primeiro--ministro José Sócrates e, por último, o período de 2002 a 2004, que pode ser considerado o melhor momento da despesa do Estado. Ora, isto é precisamente o contrário do que o estudo do Dr. Ricardo Reis sustenta.»

No jornal i

Terça-feira, 28 de Julho de 2009

Declara-se aberta a silly season

Boaventura Sousa Santos está na Sic Notícias, e explica-nos que temos uma cultura burocrática, uma fraca cultura judiciária, uma fraca cultura de cidadania, e, claro, porque precisamos de um novo paradigma para qualquer coisa.

O Cachimbo no Jamais

Aproveito para colocar aqui alguns posts publicados no Jamais por membros do Cachimbo:


Contundente e objectivo, por Pedro Picoito
Portal de Portugal, por Paulo Marcelo
Mas não é a isto que se costuma chamar populismo?, por Maria João Marques
O novo oportunista, por Carlos Botelho
As listas para a AR por mim.

Costa vs.Santana Lopes: uma análise

Falta ainda muito tempo para as eleições autárquicas, mas isso não impediu que António Costa e Santana Lopes abrissem as hostilidades, num debate acesso e sobretudo concentrado nas questões financeiras da Câmara Municipal de Lisboa (CML). Aliás, as trocas de acusações começaram antes do debate de hoje, na SIC, através da produção de vídeos de campanha que apresentam os números. Sem surpresa, estes não são consensuais. Não foi, por isso, de estranhar que este fosse o tema dominante do debate. O debate foi bastante intenso, mas nem sempre esclarecedor. Havendo vencedor, teria de ser Santana Lopes.

(1) Contas da Câmara. Quem gastou mais e quem gastou pior? Quem aumentou o passivo da CML? Estas são as questões centrais do tema. A forma como estas questões foram discutidas é quase caricata: entre papéis e dossiers bem gordos, a troca de números não ajudou a esclarecer as dúvidas. Santana Lopes justifica a diferença de números entre a sua gestão e a de António Costa com a nova possibilidade de ‘empréstimos’ da banca, que não entram nos números que o socialista apresentou. António Costa insiste nos documentos que lê em voz alta. A discussão é muito tensa entre os candidatos, mas pouco clara para quem assiste.

(2) Comunicação. Santana Lopes é um animal político da comunicação, e vence normalmente os debates em que participa. Hoje não foi diferente. António Costa foi, em determinados momentos, arrasado por Santana Lopes. Por isso, e com muito tempo ainda pela frente, não será preocupação para Santana Lopes a desvantagem de 9 pontos que a mais recente sondagem da Intercampus avança, pois com mais debates e mais campanha, o poder de comunicação de Santana Lopes poderá abalar a candidatura de António Costa.

(3) Apoios independentes. É um facto que António Costa tem o seu ‘pescoço político’ em jogo com esta candidatura à CML, se realmente ambicionar o lugar de Secretário-Geral do PS. Por isso, juntou à sua candidatura o apoio de alguns independentes, o que essencialmente demonstrou a sua capacidade de dialogar à esquerda. A acreditar nas sondagens, estes independentes trouxeram votos para António Costa, que parece ter a candidatura mais forte. Santana Lopes, por seu lado, e apesar da coligação que lidera, parece estar a concorrer sozinho, mas aproveitou o debate para criticar ferozmente José Sá Fernandes, aquele que “anda a plantar girassóis e quer apanhar berbigão no Cais do Sodré”.

(4) Campanhas negativas. Uma das características do diálogo entre Santana Lopes e António Costa tem sido o ataque ao adversário, construindo ‘campanhas negras’. É presumível que o candidato que optar por oferecer propostas sólidas, em vez de ataques, seja recompensado. Neste ponto, Santana Lopes terá mais trabalho, pois a sua imagem política está popularmente conotada negativamente, e por isso precisa, mais que António Costa, de apresentar um projecto sólido para Lisboa.

(5) Trabalho deixado. Ao mesmo tempo, Santana Lopes, que levou adiante a obra do túnel do Marquês de Pombal, apesar das pesadas críticas de que foi alvo, deixou trabalho feito. António Costa tem no seu currículo uma mancha negra: o caso dos contentores em Alcântara; e pouco mais.

(6) Trânsito. António Costa apresenta a proposta que tem vindo a construir com a EMEL. Santana Lopes responde com críticas à via rodoviária na terceira travessia sobre o Tejo, que de acordo com o social-democrata só consegue trazer ainda mais carros para o centro da cidade. Santana Lopes apresenta ainda a proposta de estacionamento em altura, para salvar a Baixa de Lisboa.

(7) Reabilitação da cidade. António Costa falou da reabilitação do parque escolar, projecto para o futuro, e foi abalroado por uma longa lista de trabalho que Santana Lopes deixou nos bairros desfavorecidos. Foi um tiro no pé de António Costa. A obra do Terreiro do Paço foi também um problema para António Costa, até porque é uma obra que a Câmara de Lisboa passou a uma outra entidade (a Frente Tejo), e pela qual não é capaz de responder adequadamente.

O 'infectado' como inimigo público

A euforia à volta da gripe suína tem dominado telejornais e imprensa, tomando de assalto o trono das preocupações dos portugueses, que todos os dias actualizam o número de ‘infectados’. Não sou dado a euforias, e como tal vejo maiores razões de preocupação na euforia do que na gripe propriamente dita.

Por isso, a minha questão prende-se com a linguagem, e com a entrada de uma nova terminologia: a do ‘infectado’. Vive-se debaixo do medo de se ser infectado, e os conselhos saídos do Ministério da Saúde têm promovido uma oposição entre ‘nós’ e os ‘infectados’, com os quais devemos ter os maiores cuidados. Esta terminologia estabelece, assim, uma distinção política, entre a sociedade e o seu inimigo público. Esta distinção é política e está enraizada na nossa história: entre outros, no Império Romano (civilização vs. barbárie), durante as Guerras Religiosas (fiel vs. infiel), na Alemanha de Hitler (ariano vs. judeu), e até mesmo, diria Giorgio Agamben, hoje em dia na nossa relação com os terroristas (pela suspensão dos seus direitos).

Referirmo-nos a uma distinção tão fundamental quanto à relação nós/‘infectados’ parece absurdo e descabido. E hoje ainda o é. Contudo, perante um caso real de emergência para a saúde pública, deixaria de o ser, e tornar-se-ia aceitável (ou pelo menos tolerável) que os ‘infectados’ fossem alvos de ‘medidas’ excepcionais para evitar a propagação da infecção (que poderiam passar pela suspensão de direitos), para assim proteger a restante população.

A terminologia hoje utilizada identifica o ‘infectado’ como um ‘inimigo público’. Aparentemente normal e até inocente, este tipo de linguagem não deixa de subentender uma tendência da política que, perante um caso mais grave, teria igualmente graves consequências sociais e políticas. Da mesma forma que a linguagem é o primeiro alvo dos totalitarismos, deve ser uma das primeiras preocupações das democracias liberais.

E agora um post sobre a blogconf


Tenho lido vários comentários sobre a blogconf com Sócrates mas ainda não percebi quantos foram os participantes que, perante tal farsa, abandonaram o local quando perceberam o que se estava a passar.
Na verdade se a blogconf afinal não foi transmitida contrariamente ao previsto e se o Engº José Socrates não respondia às perguntas que eram feitas não sei o que lá se foi fazer.
Só mesmo para conhecer o Carlos Santos.

Da cela para debaixo da ponte

Polícia de Miami Beach
O “justicialismo” excessivo pode chegar a resultados absurdos: os pedófilos de Miami, em liberdade condicional, não podem sair do Estado nem podem viver a menos de 750 metros de lugares onde se concentram crianças (como parques públicos ou centros comerciais). Por isso, só conseguem viver debaixo de uma ponte de 8 vias de trânsito. Actualmente estão lá 70. Notícia aqui.

O Discurso de Despedida da Governadora do Alasca, Sarah Palin (26-7-2009)



Tertúlia de cachimbos no sótão

Segunda-feira, 27 de Julho de 2009

Até parece complicado...

Foi anunciada como uma iniciativa que pretendia ter grande impacto na blogosfera: José Sócrates em directo na rede, à conversa com 20 bloggers de vários quadrantes. A iniciativa, do género da realizada na campanha de Paulo Rangel em Maio, até poderia ter tido sucesso, pois os interessados poderiam assistir a esta tertúlia sem filtros. Mas problemas técnicos, ainda não explicados, impediram que essa transmissão se efectuasse em directo. A ironia é que o grande partido tecnológico não tenha conseguido realizar uma emissão destas sem falhas...

Citação montesquieuana do dia

«É da maneira de pensar dos homens que se faça mais caso da coragem do que da timidez; da actividade do que da prudência; da força do que dos conselhos.»

Porta grande



Por sugestão da nossa leitora Helena Matos fomos consultar no youtube uma das mais famosas faenas de José Tomás. Já conhecíamos a fama de tal dia mas são sabíamos que estava disponível no youtube.

Foi em 2008 em Barcelona em que José Tomás indultou o toiro Edílico.

Aparelho de Estado

está no ar o novo blogue do Expresso.

Putting out feelers

Há muitas maneiras de fazer convites, não há?...

Falta de transparência

Um estudo da Associação dos Operadores de Telecomunicações aponta para que dois terços das compras do Estado em telecomunicações, em 2007 e 2009, foram efectuadas sem concurso público. Isto quer dizer que dos 300 milhões de euros que o Estado gastou nestes serviços, apenas 100 milhões foram a concurso. Como seria de esperar, nos serviços que foram comprados em concurso público, houve reduções superiores a 50 por cento do custo dos outros serviços por ajuste directo.
Isto é mais um sintoma que não há transparência na Administração Pública, prejudicando gravemente os interesses dos contribuintes. Segundo este estudo, os 200 milhões gastos sem concurso público poderiam ter sido reduzidos a metade. Quem é que lucra com este tipo de negócios?

Domingo, 26 de Julho de 2009

Cavaco em Salzburgo

O Presidente, por Salzburgo, tem mostrado um entusiasmo às vezes quase pueril pelas coisas que vai vendo, que lhe vão mostrando. Chega a haver uma alegria despretensiosa - por isso, desarmante. Quase desajeitado. O que não deixa de ser simpático. E é o melhor antídoto para o cinismo que olha de soslaio.

Está confirmada a cegueira de Maria de Lurdes Rodrigues

"Partilho com Sócrates a visão sobre a Educação", diz aqui, numa entrevista reveladora: não há ali nenhum pensamento sobre a Escola - somente a desinteressante sucessão das monomanias preconceituosas do costume.

Com responsáveis destes, a Escola em Portugal está assim.

A semana de Hilary Clinton

Terça-feira, 21 de Julho: afirma que, se o Irão se nuclearizar, os EUA apoiarão os países da região com uma escudo defensivo que os tornará imunes às veleidades agressivas do regime dos ayatollahs. [Hilary já congemina o day-after...]

Domingo, 26 de Julho: pede paciência aos israelitas, vá lá, uma chance à diplomacia...

A paciência é infinita?

Reliable?

O senhor da foto acima é aquele que nos apresentou um relatório como sendo da OCDE (lembram-se?) que, afinal, não o era. É aquele que, numa entrevista, metia os pés pelas mãos a explicar curvas e contracurvas de uma licenciatura. É aquele que ofereceu Magalhães a crianças só para as câmaras - apenas estas se desviaram, os portáteis foram arrancados aos miúdos. É aquele que nos garantia a pés juntos nada saber dos avanços da PT para a compra de 30% da Media Capital.
É aquele que agora nos assegura convictamente que não, nunca foi feito nenhum convite a Joana Amaral Dias para integrar as listas do PS.

Diz que é uma espécie de Milk português...


Acho sempre interessente quando partidos políticos convidam personalidades independentes para as suas listas. É o caso do convite do PS ao Antropólogo Miguel Vale de Almeida. Mas o Miguel Vale de Almeida não é só um candidato a deputado independente que será eleito pelas lista do PS, mas também um dos mais conhecidos actividas da ILGA - Intervenção lésbica, gay, bisexual e transgénero, organização que em Portugal tem defendido o acesso à parentalidade pelos pares homosexuais.

Como é sabido o Bloco de Esquerda, partido que tradicionalmente tem lutado pelo acesso dos gays e das lésbicas a vários direitos, apresentou na última legislatura uma proposta de lei no Parlamento que redefinia o conceito de casamento permitindo o seu acesso a duas pessoas do mesmo sexo, não restringindo o acesso de pares homosexuais à parentalidade via adopção. O PS votou contra a proposta mas já apresentou publicamente disponibilidade para apresentar uma proposta na próxima legislatura que preveja o acesso ao casamento por parte de pessoas do mesmo sexo, mas que crie uma nova discriminação para os homosexuais, ao proibir a adopção por "casais" compostos por pessoas do mesmo sexo que se casem.

Sabendo que qualquer deputado tem o direito de apresentar projectos de lei para serem apreciados e votados pelos seus pares a questão que coloco ao Miguel Vale de Almeida é simples:
É sua intenção, como deputado independente, elaborar e apresentar à AR um projecto de lei que permita aos gays e às lésbicas o acesso ao casamento civil sem criar uma discriminação que se consusbtancie na proibição do acesso à adopção?

A questão é pertinente porque mesmo sendo deputado independente, o Miguel Vale de Almeida será eleito nas listas de um partido que já anunciou a sua disponibilidade para apresentar um projecto de lei que irá redefinir o casamento civil, por forma a permitir que o mesmo seja contraído por duas pessoas do mesmo sexo mas restringindo a essas uniões o acesso à adopção.

Das duas uma ou o Miguel Vale de Almeida vai trair o partido que permitiu a sua eleição, votando contra o projecto de lei PS que cria uma nova discriminação para a os gays e as lésbicas, restringindo o acesso à parentalidade, ou vai trair a ILGA se se resignar e votar a favor de um projecto que cria uma nova discriminação ao não permitir a todos os casados o acesso à parentalidade via adopção.

Inocente condenado a prisão perpétua

Amilton foi condenado, no Reino Unido, a prisão perpétua, pela morte da namorada. Foi libertado, quase dois anos mais tarde, depois do tribunal ter declarado a sua inocência por falta de provas. «Agora é uma vida nova, é um novo começo», disse Amilton, acrescentando que vai pedir uma indemnização. Aqui.

PALAVRAS A RETER ATÉ AO DIA 27 DE SETEMBRO

"O mandato que o PS recebeu – para fazer o que devia ser feito – redundou, afinal, num exercício frívolo e quase unipessoal destinado a apontar cada um dos portugueses como um inimigo potencial, uma corporação. Em vez de governar para as pessoas, Sócrates e os seus dedicaram-se a governar contra as pessoas. Em vez de “reformar”, esse jargão sem conteúdo útil a não ser o da propaganda analfabeta, o PS limitou-se a limpar algum pó e, no essencial, a estragar a mobília."

Sábado, 25 de Julho de 2009

Da utilidade da história

Uma rejeição radical da forma mais consensual de relativismo, a do historicismo, professada por um grande historiador:

«Se a história não serve para tomarmos partido no presente, podemos perguntar-nos para que é que serve.»

Pierre Vidal-Naquet

O seu a seu dono

Pedro Picoito em grande forma, ao propor aqui uma nova semântica para uma palavra que, se não me engano, vai marcar o verão político na blogosfera:

Os loucos anos 80 (97)



Gravado em 1985, por 45 monstros da música pop norte-americana, com o objetivo de recolher dinheiro para combater a fome na África. Há coisas que só eram possíveis na década de 80. Já agora, vale a pena dizer que a campanha rendeu cerca de 55 milhões de dólares.

Sexta-feira, 24 de Julho de 2009

Manuel Alegre: uma oportunidade política


Manuel Alegre despediu-se ontem da Assembleia da República com pompa e circunstância, o que é justo para quem nela se sentou durante 34 anos. Mas que ninguém tenha a ingenuidade de ver nesta despedida uma reforma. Não o é. Trata-se antes de um ‘até breve’, e provavelmente do início de um novo ciclo político para Manuel Alegre. A questão mais evidente é a ambição de Alegre em tornar-se Presidente da República, e de assim se preparar para concorrer contra Cavaco Silva, numa luta eleitoral que reuniria os candidatos unânimes da esquerda e da direita. Bem, até aqui nada de novo, sobretudo depois de Manuel Alegre ter conseguido o 2º lugar nas últimas presidenciais, contra Mário Soares e o PS.

O ponto-chave, menos evidente, está na ambição de Alegre em liderar uma nova esquerda portuguesa, o que de certo modo já começou a fazer quando se opôs sucessivamente à actual liderança do PS, e quando criou um movimento (com estatuto legal de partido) sugestivamente intitulado ‘Nova Esquerda’. O que sairá deste movimento é ainda um mistério, mas uma coisa é certa: Alegre tem sido frequentemente elogiado por Louçã e por outras figuras do BE, e é o único capaz de cativar independentes normalmente vinculados ao PS (e até militantes). Assim, não é ilusório pensar que, faça o que fizer com a sua ‘Nova Esquerda’, Alegre conseguirá facilmente concentrar apoios de várias esquerdas, sob o pretexto da ‘emergência da direita’.

Assumindo-se como um partido, a ‘Nova Esquerda’ de Manuel Alegre só terá a perder, pois contribuirá para uma ainda maior cisão à esquerda. Enquanto movimento, Alegre tem tudo a ganhar, e conseguiria ser o ponto de ligação entre os partidos à esquerda, i.e. um mar onde todos fossem desaguar. Isso tem duas vantagens: (1) fortalece a sua candidatura à presidência; (2) possibilita acordos pontuais entre o PS e o BE, através dele, um género de intermediário todo-poderoso.

Esse é o futuro que Manuel Alegre ambiciona, um no qual ele possa servir de ponte entre PS e BE, tornando-se por isso um actor fundamental, sem o qual o diálogo é praticamente impossível. Uma jogada de mestre, portanto, de alguém que conhece muito bem os bastidores da política nacional.

"No hay billetes"


Este verão é em cheio para os amantes do toureio a pé e da magia de José Tomás. Depois do São João em Badajoz, o matador estará de novo às nossas portas nos primeiros dias de Agosto.
Para os que vivem ou passam férias a norte José Tomás irá participar na Feria de Pontevedra dia 1 de Agosto sábado.
Para os que estão no Algarve dia 3 de Agosto podem dar um salto a Huelva às Colombinas.

Músicas de genéricos (35)







Trainspotting 1996

À cautela não vou colocar uma imagem neste “post”

Saiu recentemente (02.07.2009) um acórdão do Tribunal da Relação de Lisboa que é capaz de interessar a toda a blogosfera e arredores.
Os factos e o pedido estão resumidos nesta transcrição: «…desde Novembro de 2005 e, pelo menos, durante dois meses, as rés difundiram nos respectivos sítios da internet as três fotografias referidas, sem autorização do seu autor e sem terem pago direitos autorais…entende como justo, pela utilização que foi feita das suas três fotografias, o montante de € 2.000,00, para cada uma das rés.»
Podem ler o acórdão aqui.

As sondagens lixo



Recordo-me que em 2001 na sexta feira anterior ao domingo das eleições autárquicas, o Expresso publicou uma sondagem que dava a vitória ao PS de João Soares em relação ao PSD de Santana Lopes por 10% de diferença. Passadas 48 horas Santana Lopes ganhou as eleições em Lisboa. O Expresso na edição seguinte portou-se como jornal de referência a anunciou a rescisão do contrato com a empresa de sondagens que lhe prestava os serviços.
Passaram oito anos e o panorama piorou. Por má fé ou incompetência a verdade é que o serviço prestado pelas empresas de sondagens aos seus clientes é de fraca qualidade podendo essa má qualidade ser medida pelas grandes disparidades entre as previsões das empresas e os resultados nas urnas. Todavia não conheço um único meio de comunicação social que tenha reagido perante o seu fornecedor, face ao péssimo serviço prestado. Aliás na própria noite eleitoral, e mesmo perante a falência completa das sondagens assistimos a jornalistas a solicitarem reacções a dirigentes políticos a novas sondagens para as eleições legislativas que, nesse mesmo dia, davam a vitória ao PS com 10% de vantagem sobre o PSD.
Como tudo na vida a qualidade não melhora se os clientes não forem exigentes. A verdade é que, contrariamente ao que o Expresso fez em 2001, os media continuam a recorrer aos mesmos fornecedores aparentado resignação em relação ao serviços que é prestado e que passam aos seus leitores.
Ontem assistimos a mais uma pérola das sondagens. A Intercampos efectuou um estudo sobre a intenção de voto para as autárquicas de Lisboa e foram estes os resultados:
PS - 46.4%
PSD /CDS - 37.8
BE - 8.0 %
CDU - 7.8%
Qualquer leitor minimamente informado que perca dois minutos a fazer uma conta chega à conclusão que a soma dos quatro partidos e coligações que aparecem referenciados é exactamente de 100%. Ou seja a Intercampus faz um estudo para a televisão líder de audiências em que nenhum dos seus 647 entrevistados respondeu que votaria em branco, nulo ou em qualquer outro partido. É obra...
Sucede que em mais de vintes eleições a soma de votos brancos, nulos e em pequenos partidos nunca foi inferior a 5% é um dado técnico que nenhum responsável de sondagens pode ignorar. Aliás esse número tem vindo a aumentar a nas últimas eleições europeias a soma de votos brancos, nulos e em outros partidos ultrapassou os 10%. Mas a Intercampus prevê que sejam 0,0%
Poderá um estudo como este ser considerado sério ?

Provedor de...?

Para além da questionável lisura laboral do processo (e não é claro que não houvesse alternativa...), há que fazer uma perguntinha simples: e agora como ficam a Linha Verde Recados da Criança e a Linha do Cidadão Idoso?...

Conveniente confusão

Há quem pretenda não saber que as mesmas(?) palavras ditas por pessoas diferentes têm significações e consequências políticas diferentes. Ainda mais claramente: o que importa não é a aparente identidade entre dois exemplos da expressão mágica "maioria absoluta": o que importa, o que faz a diferença, é quem a diz. Há quem a diga com um propósito e há quem a diga com outro, há quem a enuncie com uma estratégia para o exterior e há quem a diga inscrito numa táctica para o interior...
As mesmas palavras ditas por pessoas diferentes não são já as mesmas palavras.

Jamais

Ensino: escolha da escola, inclusão e qualidade

Fragmentos do artigo de Francisco Vieira e Sousa publicado ontem no PÚBLICO

De há alguns anos a esta parte, o Fórum para a Liberdade de Educação tem vindo a propor aos portugueses uma reforma no nosso sistema de ensino, de modo a que um dos seus princípios organizativos passe a ser a possibilidade de escolha da escola por parte dos pais e encarregados de educação. (...) A escolha da escola, porém, choca com o falso argumento que tem prevalecido no debate público em Portugal, segundo o qual a possibilidade de escolha esfumaria de vez o ideal da escola inclusiva, cristalizando em definitivo a existência de escolas de primeira e escolas de segunda, com uma evidente diferenciação da qualidade do ensino ministrado em cada uma e a correspondente desigualdade de oportunidades. (...) Felizmente, do outro lado do Atlântico, onde os dados estatísticos são recolhidos sistematicamente e disponibilizados à comunidade científica e ao público em geral, chega-nos um estudo que vem clarificar o problema e enterrar um dos principais preconceitos que têm inquinado a reforma da educação em Portugal. Em Anti-Lemons: School Reputation and Educational Quality, MacLeod e Urquiola mostram que a introdução da possibilidade de escolha da escola aumenta de forma inequívoca o desempenho das escolas e os resultados dos alunos. Mas, e há um "mas" muito importante, para que estes efeitos se verifiquem, as escolas não podem seleccionar os alunos, designadamente com base em critérios de aptidão (Working Paper 15112, NBER Working Paper Series, National Bureau of Economic Research, Cambridge, June 2009). (...) Ora, a primeira escolha é a que o Fórum propõe e a segunda escolha é a que actualmente vigora no nosso país. De facto, o resultado prático da política de zonamento em vigor será o de exacerbar o fenómeno de selecção e estratificação que pretendia impedir. Na ausência de regras claras e transparentes de escolha da escola, que abranjam todas as famílias e, em particular, as famílias de grupos social, económica e culturalmente mais desfavorecidos, são as escolas mais desejáveis que acabam por seleccionar os alunos que mais lhes convêm, ora porque fazem vista grossa sobre os expedientes utilizados por muitas famílias com o intuito de ultrapassar o zonamento, ora porque - a coberto do manto opaco de pretensa igualdade que cobre o sistema - agem deliberadamente no sentido de dificultar a matrícula de alunos considerados indesejáveis. Pelo contrário, a proposta que o Fórum para a Liberdade de Educação tem vindo a desenvolver contempla a possibilidade de a escolha da escola ser exercida no âmbito de um "serviço público de educação", constituído por escolas estatais e privadas em condições de concorrência saudável, devidamente regulada pelo Ministério da Educação. Para o efeito, as propinas, pagas pelo Estado, seriam idênticas para todas as escolas do "serviço público de educação", estabelecidas em função de critérios iguais para todos, com garantia a cada aluno de frequência de uma escola da sua área de residência, sem prejuízo de poder optar por qualquer outra escola. Caso o número de candidatos fosse superior às vagas, vigoraria um sistema de sorteio, não podendo ser as escolas a escolher os alunos (salvo por razões vocacionais, tais como de índole artística, musical, etc.). Com a aproximação das eleições legislativas, importa que os partidos olhem para este e outros estudos e elaborem programas eleitorais que ultrapassem a retórica política e o preconceito e, com base em dados consistentes, apontem soluções válidas para a mudança do paradigma em que assenta o sistema de ensino português.

Hard Times


Poucos homens ajudaram a construir a memória comum da sociedade que nasceu com a Revolução Industrial como Charles Dickens. Com Dickens supomos uma sociedade essencialmente escura: escura de fuligem, escura da sombra das chaminés, escura de sentimentos, escura de generosidade, escura de justiça. Supomos uma sociedade da quantificação, em que o modelo contabilístico do deve e do haver, a par do imperativo do lucro, criam novos ritmos psicológicos e sociais. Criam um novo regime disciplinar. Com a quantificação reduz-se a vida humana ao seu elemento mais prosaico, e se esvaziam os actos, os pensamentos e as instituições dos seus aspectos especificamente humanos. “Factos, Factos”, diz uma das personagens que encarna o novo espírito da época. E o espírito da época é ditado por uma ideologia que combina o utilitarismo mais primário com o darwinismo social mais implacável. Não há lugar para o que salta e existe para além dos “factos, factos”. O mundo prossegue os seus caminhos à cadência de uma monótona linha de produção.
E depois há o sofrimento. O sofrimento de todos os que são varridos pela quantificação e pela lógica impiedosa dos novos valores. São os naturalmente mais vulneráveis que pagam. São as crianças cuja espontaneidade encontra feroz resistência no mundo criado pela ideologia dos economicismos, como hoje se diz, que pagam. Num mundo criado à imagem e semelhança da fábrica não há lugar para o coração. Trata-se de um mundo que já não pode ser uma casa acolhedora para o homem. Por tudo isto, percebe-se por que é que Dickens nunca teve falta de admiradores, embora muito poucos tenham a sua eloquência e ainda menos a sua alma.
Publicado ontem no i

Quinta-feira, 23 de Julho de 2009

Silly sentence

'Ainda está para nascer um primeiro-ministro que tenha feito melhor no deficit!'
(A personagem em causa, auto-irritando-se, aqui.) Aquela exclamação deliciosa tem um problema. E o problema não é a presunção, porque esta poderia muito bem ser inteligente. O problema está no facto de Sócrates não ser capaz de articular a sua própria presunção. É uma frase que resulta absurda (apetece dizer: talvez ainda esteja para nascer um primeiro-ministro que venha a dizer uma frase tão idiota.)
A frase é absurda, porque pretende estabelecer uma regra, mas, na verdade, limita-se a constatar uma evidência. É claro que nunca nascerá um primeiro-ministro que "tenha feito no deficit" o que este já fez. Pois se foi este que fez o que está feito, mais ninguém o fará. Também eu poderia dizer: 'ainda está para nascer um blogger que tenha escrito "silly sentence" como título deste post'. Esse blogger nem pode nascer (uma vez que o título já foi posto por mim), nem precisaria de nascer para vir aqui pôr o título - ele já cá está!
O que Sócrates deveria ter dito seria 'ainda está... que venha a fazer melhor no deficit.' A frase não resultaria absurda, mas seria pouco honesta. Porque nela não se diz que esse primeiro-ministro nascituro teria também de ter uma maioria absoluta domesticada no parlamento, um presidente da República colaborante como nunca houve, encontrar já trabalho feito nesse sentido pelo governo Barroso, não ter uma espada de Dâmocles da União Europeia pendente sobre a cabeça, ter grande parte da comunicação social apoiante por acção ou omissão, ter uma opinião pública dócil e alimentada pelo discurso governamental do ressentimento e da inveja social, etc. Quando se repetiriam todas essas condições?...

Entrevista a Louçã, na RTP

Começou hoje, com Francisco Louçã, a primeira ronda de entrevistas da RTP aos líderes partidários. E começou da melhor forma: com o líder de um partido que poderá ser decisivo nas decisões pós-eleitorais. O BE enfrenta agora um novo desafio na sua vida, e a pergunta é se o Bloco estará disposto a ‘sujar as mãos’, admitindo governar, ou se preferirá manter-se no pedestal da moralidade de quem critica.

(1) Governação. O ponto mais importante é saber como se apresenta o BE relativamente à possibilidade de coligações para a formação de um governo. Louçã insiste em falar de uma maioria de esquerda, de uma nova esquerda (curiosamente o nome do movimento de Manuel Alegre), e assume a ambição de governar e de ser maioritário. Mas não considera o PS, senão para acordos pontuais de políticas de esquerda. Assim, o objectivo do BE é sobretudo desafiar o PS e o PSD, mostrando que sozinhos não podem governar. Ou seja, o BE mantém-se um partido de crítica, contra “o conservadorismo e o situacionismo”.
Esta posição de Louçã é essencialmente uma não-resposta: uma nova esquerda não sairá de um acto eleitoral, e qualquer coligação ou acordo terá de surgir através de partidos, e não através de independentes. Esse combate aos dois partidos do centro permanece ambíguo. Na verdade, Louçã quererá manter esta retórica para legitimar qualquer aproximação posterior (mesmo que pontual) com o PS. É que o que está em causa é perder parte do seu eleitorado.

(2) Demagogia. A linguagem de Louçã, pesadamente ideológica, poderá ser um obstáculo para o PS, se os socialistas pretenderem fazer uma coligação ou acordos pontuais. O líder do BE é aliás extremamente crítico ao PS, que avalia como um partido que governa longe da esquerda. Juntando isto ao ponto acima, Louçã e o BE demonstram implicitamente o seu objectivo de cativar o eleitorado mais à esquerda no PS. Nada de novo, portanto.

(3) Economia. Louçã reiterou inúmeras vezes os números do desemprego, nomeadamente nos jovens, e promove o reforço de políticas sociais para o milhão (não será exagero?) de reformados com rendimentos abaixo de 400€. Finalmente, identifica o PS e o PSD com o “horror económico”. É verdade que é, em parte, este discurso que tem levado o BE à posição de 3º partido nacional, mas não é um discurso que possa coexistir com as pretensões de um lugar no governo. Mas há uma maior moderação no discurso económico de Louçã, que apesar de tudo não recuperou a retórica das nacionalizações e a ‘dos ricos que paguem a crise’. Poderá ser um sinal da aproximação do BE à governação.

(4) Ruptura com a UE e a NATO. De acordo com Louçã, “o governo promoveu o assassinato de pessoas, numa lógica de política colonial”. Ignorância e demagogia, numa só frase. É sobretudo reveladora de uma retórica eleitoral. Afirmar ainda que as armas militares são inúteis, após defender a saída da NATO, é incoerente. De longe, este é o ponto fraco de Louçã, que apenas deve apelar àqueles tipos de rastas junto ao miradouro de Sta. Catarina. E talvez a Saramago, mas esse já está na concorrência.

Um tiro pela culatra?

É muito provável que a nova abordagem de Obama ao conflito israelo-árabe, que parece ter como único objectivo captar a simpatia das opiniões públicas da região - com a exclusão de Israel, como é óbvio, sociedade muito pluralista, onde a rejeição total de Obama é agora praticamente consensual, tendo atraído a si muitos anteriores enstusiastas -, é muito provável, dizia eu, que o resultado venha a ser um tiro saído pela culatra.

Se Obama não entendeu que o perigo iraniano é sentido como a maior ameaça presente, quer por Israel, quer pela maior parte dos Estados seus vizinhos, Obama não entendeu nada. Arrisca-se a captar a simpatia dos sectores mais radicais das opiniões públicas visadas, e a perder a confiança de importantes governos na zona. Exemplo: Egipto.

Para que conste, Binyamin Netanyahu e Shimon Peres estiveram hoje juntos numa recepção na residência do embaixador do Egipto em Israel, onde o mínimo que se pode dizer é que as palavras trocadas foram... calorosamente amistosas. Netanyahu louvou o espírito (obviamente que não a letra!) da inicitiava árabe de paz de 2002, afirmando que «apreciamos os esforços dos Estados árabes» empenhados na sua promoção, e que, se tais «propostas não forem um documento final, podem criar uma atmosfera, na qual uma paz abrangente poderá ser alcançada». O resto foram elogios a Hosni Mubarak. A seguir com atenção.

Cartaz, 1976

Cartaz de 1976. 33 anos depois, a mensagem permanece actual.

A menoridade das ideologias face à realidade política concreta

João Cardoso Rosas publicou um primeiro artigo na semana passada. Paulo Tunhas respondeu ontem. JCR respondeu hoje a PT. Pelo meio, uma ou outra pessoa também escreveu sobre o assunto. A discussão tem sido interessante e parece-me evidente que de um e de outro lado são apresentados argumentos razoáveis. Mas parece-me também evidente que a discussão está condenada ao fracasso se não tiver em consideração duas ou três coisas. Por um lado, o liberalismo, como qualquer outra ideologia, não é um dado da natureza, uma coisa substancial, passível de ser enclausurada numa definição capaz de resistir à mudança do tempo. O significado do liberalismo não pode deixar de ser posto à prova em confronto com a realidade concreta em que se inscreve. Por outro lado, a discussão fica sujeita a complicações adicionais quando os termos incluídos na definição proposta são, também eles, construções ideológicas de significado relativo, como acontece com a esquerda e a direita. Mais uma vez, a análise não dispensa o confronto com a realidade concreta. Finalmente, é preciso ainda ter em consideração que as dimensões do homem são de tal modo diversas que dificilmente uma pessoa pode ter uma disposição ideológica única face a todas as situações concretas da vida política. O fervor ideológico pode ser de tal modo irracional, que não é raro uma pessoa violar aquilo que a sua própria inteligência lhe diz apenas porque quer ser fiel ao enquadramento ideológico que julga ser o seu. De qualquer modo, é possível que eu esteja a ser demasiado exigente. A honestidade de JCR faz com que ele apresente a sua tese, não como uma tentativa de analisar a realidade política, mas antes como uma tentativa de fazer com que a arma retórica liberal mude das mãos da direita para as mãos da esquerda. Por um lado, JCR pretende esvaziar o argumento segundo o qual foi graças ao liberalismo de direita que o totalitarismo de esquerda foi anulado. Sinceramente, não me parece que este desiderato possa ser bem sucedido no confronto com a história recente do século XX, pelo menos enquanto a memória de Ronald Reagan permanecer viva. Por outro lado, JCR esforça-se por denunciar a possibilidade do liberalismo de direita não ser outra coisa senão uma máscara politicamente útil para ocultar o seu conservadorismo essencial. Este argumento já me parece ser mais razoável. Mas apenas parcialmente. O facto de liberais e conservadores poderem caminhar lado a lado, numa frente comum, não significa que o façam pela mesma ordem de razões. Por outro lado, e é neste ponto que eu penso que a tese de JCR está condenada ao insucesso, não vejo como pode a esquerda reivindicar o exclusivo do liberalismo, quando a realidade concreta revela precisamente o seu contrário. Pense-se, por exemplo, no domínio da educação, onde não me choca nada que haja um casamento de conveniência entre o liberalismo e o conservadorismo. As políticas públicas de educação como a escolha da escola pelas famílias, a autonomia da escola face ao Estado, as parcerias público-privadas, entre outras, são medidas reformistas caracteristicamente liberais que servem muito bem os propósitos políticos conservadores. Mas longe de se tratar de um fenómeno novo, este casamento é apenas mais um episódio em que liberais e conservadores fazem a aliança perfeita contra os excessos igualitários da esquerda. E se quisermos ser mesmo honestos, não é muito difícil chegarmos à conclusão que apenas o estado absolutamente decadente a que chegou a educação no nosso País obriga alguma esquerda moderada a incluir nos seus programas de política educativa algumas reformas de índole liberal e contrárias a uma disposição estatista e massificadora da educação. Não é a primeira vez nem será a última que o confronto com a realidade concreta obriga a uma revisão dos nossos pressupostos ideológicos.

Sobre o optimismo de Rui Ramos

Gostava de partilhar a jovialidade do Rui Ramos. Infelizmente habituei-me à regra: pior tem sido sempre possível. O fundo é quase sempre uma miragem.

Numa frase

"Acho a situação tão má que até estou optimista."

Rui Ramos sobre o estado do País

Numa frase

"O partido não apresentará no seu programa uma única linha que não seja para cumprir."

Paulo Mota Pinto sobre o programa eleitoral do PSD

Movimentações na blogosfera política


Mais novidades amanhã, aqui no Cachimbo, ou em outro blogue perto de si.

250 rabis dizem a Obama...

Largue Jerusalém, Sr. Presidente!
A ler em http://www.israelnationalnews.com/News/News.aspx/132506

Ainda o Leitor


Permitam-me que regresse ao filme O Leitor, criteriosamente aqui analisado pelo Nuno Lobo, aquando a estreia. O meu interesse é outro, mais voltado para o trabalho de composição dos seus actores. Para quem não teve a oportunidade de ver o filme no grande ecrã pode agora aproveitar a edição em DVD.

O guião tem as suas fragilidades, abordando o problema da culpa alemã perante o holocausto. No entanto, quem esteja cansado do tema desengane-se. O filme vale pela interpretação de Kate Winslet que viu nele mais do que uma história sobre os efeitos do nazismo. Winslet encontrou no enredo uma protagonista analfabeta que aparentemente está disposta a tudo para evitar que descubram o seu segredo e através de um apurado processo de interiorização construiu uma personagem total, dominadora tal como o regime que lhe deu origem. A actriz desaparece em Hanna Schmitz, uma personagem que lhe “rouba” a voz, o andar, o olhar. Um excelente exemplo de composição.

O filme tem a chancela de produção da Weinstein Company com uma direcção de arte rigorosa, clássica. As personagens assumem o espaço central, um legado dos seus produtores Sydney Pollack e Anthony Minghella. Resulta da adaptação para cinema do romance do alemão Bernhard Schlink. Escrito em 1995, recebeu vários prémios e encantou muitos leitores.

A leitura do livro permite uma análise mais aprofundada da personagem. Porque uma imagem vale mais do que mil palavras, a procura de quem é Hanna torna-se mais intrigante nas descrições de Schlink, algo que no filme se suspeita, logo nos primeiros planos de Hanna.

Em Portugal, para marcar a estreia do DVD, a Lusomundo teve a feliz ideia de exibir o filme, simultaneamente, em 48 estabelecimentos prisionais do país.

O Instituto Francisco Sá Carneiro

Qualquer pessoa que se interesse por política não pode deixar de ficar impressionada com a qualidade do trabalho do Instituto Francisco Sá Carneiro. Pelos temas e projectos que lançou, pela reflexão estruturada que os debates têm sedimentado e pela abrangência nos contributos que tem procurado reunir.

É, sem duvida, do melhor que a Direita tem feito nos últimos anos.