Terça-feira, 30 de Junho de 2009

O Deserto Universitário


Li algures que no ano passado um milionário suíço, Hansjörg Wyss, doou 125 milhões de dólares à Universidade de Harvard. Sim, de Harvard nos Estados Unidos. Não doou a uma Universidade europeia. Damos voltas e voltas, avançamos explicações e explicações, concebemos "políticas" e mais "políticas". Mas não se consegue escapar ao facto de que o mundo universitário europeu está a morrer. O que foi em tempos a glória da Humanidade é agora um ramalhete de escolas cinzentas, decrépitas e sem futuro. O que é que a Europa obteve em troca do sistema universitário que montou a partir dos anos 60? Alguns dirão: democratizou o acesso. Talvez. Mas nos Estados Unidos isso também foi conseguido sem sacrificar tudo o resto. E nós sacrificámos tudo o resto. Bela troca.

Proletários de todo o burgo, uni-vos

Antigamente, quando havia uma revolução, era fácil saber quem eram os bons e quem eram os maus: o Jugular e o Cinco dias explicavam tudo.
Ainda eu não tinha descoberto como se escreve ayatollah, e já o João Galamba nos ensinava a dizer liberdade em "farsi".
Ainda eu tentava ver onde é que fica o Irão no mapa, e já Carlos Vidal nos mostrava o lugar da liberdade na obra de Kiarostami.
Bons tempos.
Agora, não percebo nada. Houve aquilo nas Honduras, povo na rua, tropa na rua, um Presidente que quer ser Presidente mas a tropa não deixa, um outro Presidente que quer ser Presidente mas o povo não deixa, parece mesmo uma revolução e tal, e o que é que se passa?
Vale de Almeida acusa os vizinhos de delírio, Ramos de Almeida reage aos "pinossocráticos", Palmira e Câncio não nos guiam...
Como é que vamos saber qual o lado certo?
Camaradas, entendam-se!
Proletários de todo o burgo, uni-vos!
Não nos façam pensar que as revoluções são coisas complicadas!...

Os eleitores do Porto parecem convencidos...

A candidata fantasma Elisa Ferreira parece destinada a uma derrota histórica na cidade do Porto. Segundo uma sondagem da Católica, Rui Rio tem neste momento 54% das intenções de voto, contra 23% de Elisa Ferreira.

Os péssimos timings da Dra. Manuela


Por estes dias, o abcesso de fixação, como diria Pacheco Pereira, é a demora do PSD em apresentar o programa eleitoral. Ou, para voltar à velha narrativa, os péssimos timings da Dra. Manuela. Coisa terrível porque o país, já se sabe, está suspenso da clarificação ideológica laranja que vai chegar com o documento. Trinta anos sem podermos anunciar, lá no café, se somos liberais, conservadores ou até social-democratas: tem sido um longo exílio. Mas a Terra Prometida espera-nos. A avaliar pelas páginas do DN, vêm aí tempos de profundo debate doutrinário com o PS. Sob o patrocínio da Carolina.
É claro que os mesmos que tão ansiosamente pedem o programa para votar em consciência, e fazem bem, vão dizer no dia seguinte - sem o ler - que não lhes enche as medidas. Ao contrário dos socialistas, que o vão ler com muita atenção. Aliás, é exactamente porque os spin doctors do Rato o vão ler com muita atenção que ninguém lhe vai pôr a vista em cima antes da Agosto. Ou Setembro.
Mas descansem. A criança está a caminho. Posso noticiar, pois é público e notório, que o contributo do Instituto Sá Carneiro foi entregue este fim-de-semana na São Caetano à Lapa. Falta o do Gabinete de Estudos, que passou por algumas vicissitudes também públicas e notórias e vai exigir um esforço extra de coordenação a Sofia Galvão e a Paulo Mota Pinto. Se querem saber mais, perguntem ao camarada Pinheiro que está metido na coisa até ao pescoço.
Entretanto, continuemos a zurzir os péssimos timings da Dra. Manuela. Já foi assim com o Rangel, não foi?


Verba, non res

Lemos isto. Que palavra lamentável há que descreva esta miséria?
Merda.
É isto.

Segunda-feira, 29 de Junho de 2009

Crenças

Isto e isto, na verdade, não são mais do que variações da gritaria "socrática" do "pessimismo", do "bota-abaixismo" e de outros lamentos pela "irresponsabilidade" das oposições da pátria. Já não se trata agora daquela morna, sonsa e "burguesa" mediania, daquele seguidismo disfarçado de bom-senso a que nos habituou. Não. Começa mesmo a assomar à superfície um rancor que já não se disfarça. Desespero, provavelmente. E pode muito bem haver ali um espanto sincero: como é possível haver uma alma sequer que duvide, que critique, que se oponha ao benéfico governo do engenheiro Sócrates? Como?...
Há sempre uma certa crueldade na perturbação das crenças dos outros. É melhor deixá-lo em paz.

In Money We Trust


(Posso ser "simplista", posso?) Pois, há certas "culturas" que dão muita importância ao dinheiro, que se importam com ele. São "materialistas" e tal. (Nem é preciso ler o Max Weber.) Não gostam que se brinque com o dinheiro. Para mais, quando se trata do dinheiro dos outros. Feitios.
Noutras paragens, como se sabe, as coisas já não são bem assim.

Comentar os Outros

No seu blogue, cada vez mais aflito, Eduardo Pitta garante que quem votar no PSD em finais de Setembro, além de revelar ser "crente", o fará numa "entidade mítica." Não sei se ser "crente," mesmo em política, é essencialmente bom ou mau. O importante é que a crença não cegue. Mas o problema, no entanto, é que quem votar PS nas próximas legislativas não vota sequer numa "entidade" e, portanto, não vota em algo que seja, ao menos, "mítico". Vota ignorando a realidade deprimente e repugnante que o Governo Sócrates/PS criou e sustentou nos últimos quatro anos e meio. Esta realidade tem um nome, ou até vários. Mas como este blogue é lido por gente susceptível, abstenho-me de dizer quais são.

Os 52

Longe de mim depositar uma confiança imoderada nos praticantes da "lúgubre ciência" (a expressão, descobri há uns tempos, foi inventada por Carlyle), mas, de qualquer maneira, em relação a estes dois manifestos "de economistas" que clamam por atenção, duas coisas podem ser ditas. Primeiro, o manifesto original inclui as pessoas mais respeitáveis na matéria. Devem ter feito várias previsões erradas ao longo da vida, mas o objecto de pensamento deles presta-se a isso. É inevitável. Nada os designa particularmente ao Inferno. São só economistas. Em segundo lugar, o outro manifesto, o dos 52, inclui vária gente que não é economista. Contei 4 sociólogos - entre os quais Boaventura Sousa Santos que, além de sociólogo, desempenha o papel de sociólogo, como o empregado de café de Sartre fazia de empregado de café -, 1 politólogo, 1 psicólogo, 2 engenheiros agrários, 4 geógrafos e 3 indescritos (um "Professor Catedrático", um "Investigador" e um "Gestor"). O facto, é claro, não invalida teoricamente a pertinência do "manifesto dos 52". Mas muda sensivelmente os dados. A falível opinião profissional tende a diluir-se, neste caso, numa falibilíssima opinião política.
Contrariamente àquilo que o primeiro-ministro pensa (se necessário, produzo a citação), a economia não é uma ciência que permita que as mesmas receitas sejam utilizadas irreflectidamente em conjunturas históricas diferentes. Mas, por mais dúvidas legítimas que tenhamos em relação à competência dos "especialistas" - o que um outro Sócrates explicou muito bem -, há gente que sabe alguma coisa, e há gente que nem essa alguma coisa sabe. E quando a gente que sabe alguma coisa diz aquilo que é consonante com a intuição das pessoas comuns - isso tem um significado.

He's Back!


O novo disco do fabuloso Mazgani já está à venda: Tell the People.
Mais informações aqui, aqui e aqui.

O Aniversário da Morte de Foucault, o Irão, Richard Dawkins, e muito mais


Michel Foucault conseguiu ser um autor surpreendente. E não há dúvida de que o seu apoio entusiástico à Revolução Iraniana de 1979 (pelo menos na sua fase inicial) causou surpresa. As razões do apoio de Foucault à revolução que derrubou o Xá são várias e complexas. Mas, à primeira vista, vê-lo do lado do regresso à espiritualidade de tipo religioso contra a tendência secularizante do governo ditatorial anterior parece constituir um enigma inexplicável. Claro que o anti-Ocidentalismo de Foucault ajuda a explicar; claro que a crítica com intento subversivo das instituições caras ao europeu burguês e normalizado também ajuda a explicar. Mas a este propósito não resisto a deixar aqui uma troca de palavras entre Foucault e o seu editor Claude Mauriac, seu amigo, e que faz de intelectual laicista e republicano. Sobre a espinhosa questão da combinação de "espiritualidade e política", Mauriac avisa Foucault em 1978, "já vimos o que isso nos deu". Foucault respondeu: "E a política sem espiritualidade, meu caro Claude?"
Aonde é que a política sem espiritualidade nos trouxe?

"Nós é que sabemos como isto está"

Domingo, 28 de Junho de 2009

Cartazes



Sub-representação

'(...) A maioria dos portugueses são operários, agricultores, trabalhadores dos serviços, funcionários públicos, micro e pequeno-empresários, e todos eles estão sub-representados na vida política, quer enquanto tal, quer através de representantes que conheçam os seus problemas e falem a sua língua. É o problema de qualificar a acção política por "saberes" diversos, fruto da experiência, do conhecimento de vida, do estudo, para evitar o progressivo divórcio entre a realidade nacional e a representação política.'

José Pacheco Pereira, Abrupto

Cachimbos de lá


Dion Archibald, Fumadores Turcos, 2001

Os travestidos da política portuguesa

O Carlos Botelho já aqui tinha falado da tentativa de José Sócrates mostrar-se ao lado de "independentes de direita", iniciativa essa que foi publicitada pela entourage do Primeiro-ministro. Se é verdade que alguns desses nomes foram claramente utilizados por José Sócrates para se promover (como se pode constatar nesta declaração de António Carrapatoso e como o Manuel Pinheiro também garantiu aqui), também não podemos esquecer que a sociedade portuguesa há muitos anos assiste a este desfilar de "independentes", que vão oscilando entre o PS e o PSD, conforme sopram os ventos do poder. Mantêm-se na sombra, aparecendo por vezes para mostrarem ostensivamente que estão com o poder, e nunca surgindo ao lado da oposição. Nos últimos anos tivemos um grande exemplo disto: a verdadeira "mente livre" da direita portuguesa, José Miguel Júdice, que não teve problemas em juntar a sua voz ao socialista José Sócrates.

Não me digam que Dawkins não é ferozmente religioso

Dawkins sets up kids’ camp to groom atheists

Sábado, 27 de Junho de 2009

Há reuniões e reuniões

Muito boa gente à esquerda participa em encontros e fóruns da direita. Diz ao que vem e o que pensa sem ninguém ter a expectativa de lhe enfiar uma bandeira e um badge no final da reunião como cristão novo. É também por isso bom dar desconto à lista dos famosos independentes da direita, até porque vários deles estão hoje como ontem genuina e activamente do lado contrário ao de Sócrates, alguns mesmo a trabalhar e coordenar equipas com o PSD. A campanha que aí vem será longa e certamente se vai perceber quem estará activamente ao lado de quem, sem exercícios de aproveitamento abusivos como o que foi lançado hoje à imprensa.

"Os votozinhos, os votozinhos"

O que se faz pelos "votozinhos". Depois de se andar a massacrar o Ensino durante três anos. Gente séria.


(Num certo sentido, não nos deviamos admirar. Afinal, esta gente exemplar está a reger-se pelos mesmos critérios que quer impôr aos alunos, aos professores, ao ensino: o "sucesso". Todo o resto, tudo, lhe deve estar subordinado.)

Um Governo em pânico

Sim, já sei que não devemos entrar em "euforias" (como costumam dizer os que não correm esse risco), e que a abstenção foi enorme, e que o PSD ainda tem muito a fazer, e que em Setembro a Manela não terá o Rangel, etc.
Tudo isso é verdade.
Mas deixem-me só fazer uma perguntinha: alguém acredita que Sócrates teria recuado no negócio PT/TVI se não fosse o resultado das europeias?

O fim das ideologias?

No Portugal dos Pequeninos, o João Gonçalves tenta heroicamente conversar sobre Foucault. Sem grande sucesso. O João tem fama de cínico, mas às vezes mostra uma fé na natureza humana que me faz duvidar da profundidade do seu pessimismo antropológico.
Seja como for, interrogo-me sobre o curioso destino dos grandes intelectuais públicos à francesa, maîtres à penser que outrora faziam a chuva e o bom tempo. Quem pode arrogar-se hoje a influência de Sartre, de Althusser, do próprio Foucault?
Deve ser isto o fim das ideologias.
Ou então estamos todos mais sábios.

Crime sem castigo

Posso estar enganado, mas até agora não ouvi nenhum desmentido governamental à notícia do Expresso que indica estar José Sócrates informado desde o princípio do ano do negócio da compra de 30% da TVI pela PT. Se assim é, confirma-se que Sócrates mentiu quarta-feira no Parlamento quando disse nada saber sobre o assunto. Mentiu a todos os portugueses. O mais extraordinário é que tudo isto não tenha quaisquer consequências.

PPM, no ABC

Os "independentes" de direita

Sócrates quer conquistá-los. Devem ser tão, tão difíceis de conquistar...

Processa/Não Processa?

Depois desta notícia do Expresso desmentir categoricamente o que foi afirmado por José Sócrates esta semana no Parlamento, restam-lhe duas hipóteses. Ou o Primeiro-ministro processa o jornal Expresso por mais esta "campanha negra", ou não faz nada. Se a hipótese for esta última, então pode-se assumir que esta noticia é verdadeira, o que prova que mentiu descaradamente aos portugueses (mais uma vez). Aguardemos por novidades nos próximos dias...

Vale alguma coisa?

Pela primeira vez em muitos anos (que me recorde) o PSD surge à frente do PS para as eleições legislativas numa sondagem. Apesar do empate técnico, o PSD tem 35,8% contra 34,5% do PS. o BE surge com 13,1%, a CDU com 8,4% e o CDS com 4,4%.

Apesar de não deixar de ser digno de registo para o PSD, quando ainda há pouco tempo se dizia ser impossível vencer eleições legislativas, a verdade é que não podemos confiar muito nas sondagens, depois do descalabro das europeias. E a desvalorização do CDS volta a surgir nesta sondagem. Esta sondagem foi feita na semana passada, portanto anterior às trapalhadas da PT, à Fundação Mário Lino e à entrevista de Manuela Ferreira Leite. Apesar de valer muito pouco, não deixa de ser mais um sinal de esperança para o país.

Sexta-feira, 26 de Junho de 2009

Irisalva Moita (1924-2009)


Está esclarecido o silêncio sobre a morte de Irisalva Moita, datada de 13 de Junho mas só noticiada a 23. Segundo o Público de ontem, foi a própria que assim decidiu. Tão discreta na morte como na vida.
Porque Irisalva Moita não era só aquela cavaleira andante do património, algo mítica e excêntrica, que o obituário de Luís Miguel Queirós tão bem captou. Era uma investigadora rigorosa e incansável, capaz de escrever com a mesma seriedade sobre castros pré-romanos e caricaturas do Zé Povinho. Foi a Lisboa, porém, que dedicou quase toda a sua obra, dispersa por artigos, catálogos de exposições e relatórios de campanhas arqueológicas. A coordenação do Livro de Lisboa, a melhor síntese da história da cidade à conta da Expo 98, foi um marco excepcional para quem preferia o trabalho no terreno. Ainda bem: o seu olhar próximo e apaixonado iluminou todos os recantos do passado lisboeta a que deitou a mão. Pode dizer-se, sem exagero, que há uma história de Lisboa antes de Irisalva e outra depois.
Foi ela que dirigiu as escavações pioneiras do Teatro Romano, do Hospital de Todos-os-Santos e da Casa dos Bicos. Os textos sobre a devoção a Santo António ou a São Vicente, sobre a cidade pombalina ou quinhentista, sobre o abastecimento de água no tempo de D. João V ou a faiança de Rafael Bordalo Pinheiro, tornaram-se uma referência obrigatória para os especialistas. Mesmo que, aqui ou ali, tenham envelhecido um pouco.
O culto de São Vicente na capital, por exemplo, um caminho que ela abriu com Aires Nascimento e eu me limitei a seguir com outros, talvez não fosse tão régio e aristocrático como nos ensinou e todos repetimos um dia; talvez fosse, acredito-o hoje, um símbolo de resistência cultural dos moçárabes, essa minoria cristã de rito hispânico marginalizada por mouros e católicos.
Para chegar aqui, contudo, tive que ser guiado por ela. A tempo de agradecer-lhe.

O ciclotímico

Animal feroz, coração partido. Indiferente a linhas editoriais, furioso com linhas editoriais. Berros ameaçadores, sussurros ternurentos. Não está a par de nenhum negócio da PT, está a par daquele negócio da PT. Não interfere em negócios privados, interfere num negócio privado. Sim, são insultos, não, são manifestações de desconforto. Era o que faltava que o governo se deixasse influenciar pela rua, é claro que o governo deve ouvir os sinais de descontentamento. Animal feroz, coração partido.

Nave dos loucos

No i da última quarta-feira, escrevi que o bom senso não dava trabalho a São Bento. Foi o understatement do ano. Desde o debate parlamentar, o Governo parece ter-se transformado (sem ofensa) numa nave dos loucos.

A negociata da PT

José Sócrates não tinha outra opção. Depois das vozes de repúdio que se ouviram na sociedade portuguesa, o governo anunciou que iria vetar a compra de 30 por cento da Media Capital por parte da PT. Curioso foi o motivo que Sócrates utilizou para este veto: "não haja a mínima suspeita" de que a operação "se destina e qualquer alteração da linha editorial". José Sócrates deveria ter dito que não se justifica que o Estado aumente a sua posição em meios de comunicação social, tal como defendia em 2004. E não por motivos de defesa da imagem do seu governo. Será que é para isso que serve a posição do Estado na PT? Para defender os caprichos políticos do governo?

Também não deixará de ser curioso ler as reacções daqueles que ainda ontem "berravam" por ai que este era um negócio privado, e que o governo nada tinha a ver com ele. Se o era exclusivamente privado, qual a razão para o governo o vetar? Continuo a pensar que eles pensam que as pessoas são parvas, e que podem fazer tudo o que lhes apetece...

Esta história mostrou que o Estado deve-se livrar rapidamente desta Golden Share, e deixar o mercado funcionar livremente. Não faz sentido manter este poder numa empresa privada, que nunca o será totalmente enquanto esta situação se mantiver.

Premonições...

Simplicidade e autenticidade no discurso político

Estou fora de Portugal. Só hoje vi a entrevista de Manuela Ferreira Leite à SIC. Já muito se escreveu sobre o tema, inclusive aqui no Cachimbo. Quero apenas acrescentar o seguinte. Chamou-me a atenção o modo autêntico como a líder do PSD respondeu às perguntas que lhe são colocadas. Talvez sem a mesma fluência e rapidez de outros líderes políticos. Mas nota-se um esforço real por ouvir as perguntas e por responder (mesmo) às questões. Não apenas "meter a cassete" do partido ou dar resposta típica do politiquês dominante. Ao contrário do que alguns diziam, há poucos meses atrás, considero MFL uma boa comunicadora política. Consegue mesmo simplificar alguns temas e tornar as mensagens acessíveis a grande parte da população, que não domina a linguagem económica ou política. Estou a lembrar-me, por exemplo, das respostas sobre o défice ou sobre os impostos. Essa é uma grande vantagem para chegar à grande maioria dos portugueses que -nunca devemos esquecer- não lê jornais, muito menos blogues e não vê a SIC Notícias. Penso que estes factores já se fizeram sentir nas eleições europeias e podem ser capitalizados pelo PSD nas legislativas. Em tempos de crise. E sobretudo quando do outro lado está alguém que não tem a autenticidade como uma das suas principais características.

Quinta-feira, 25 de Junho de 2009

Tunhas e Tocqueville

É ler aqui o texto do nosso camarada Paulo Tunhas.

Nota: Não fosse o ABC do PPM, e o Cachimbo teria passado ao lado do acontecimento. Ouviste, Paulo Tunhas?

Relembrar José Sócrates

Num debate promovido pelo grupo parlamentar socialista sobre concentração dos media, José Sócrates explicou que o projecto visa "proibir" que o Estado "directa ou indirectamente" detenha participações em meios de comunicação social, exceptuando-se esta regra ás empresas que compõem o chamado "serviço público" (RTP, RDP e Lusa).

"Fomos aprendendo muito ao longo do tempo" e "nunca nos passou pela cabeça que a PT pudesse ser uma empresa tão instrumentalizável", disse o líder socialista para justificar o facto de ter sido num Governo do PS (o segundo liderado por António Guterres) que a PT comprou a Lusomundo. Nessa altura - acrescentou ainda - "fazia sentido que empresas ligadas à distribuição tivessem também conteúdos".

Esta era a posição de José Sócrates em 2004. A isto chamo falta de decência na vida pública.

Batatas?

O presidente da Associação Comercial do Porto mostra-se incomodado com as declarações recentes de Cavaco Silva a respeito da possível compra dos 30% da Media Capital pela Portugal Telecom: 'Acho mal que o Presidente da República se manifeste sobre estas questões empresariais.' Parece que é 'excessivo e desadequado' que se faça uma 'conotação política' de 'um negócio louvável por parte da PT'.
Imagino que o primeiro-ministro também achará "louvável" o tal negócio - presumo que por razões diferentes das de Rui Moreira. Mas o que este parece esquecer é que não estamos aqui perante uma mera, simples, inócua, "questão empresarial" - é, portanto, escusado vir com este lamento pela ameaça à liberdade da iniciativa empresarial ou coisa que o valha. Não se trata aqui de um indiferente negócio de batatas. E nem é preciso fazer uma "conotação política" - um negócio destes, com os seus intervenientes e implicações, já é político até à medula.

O Que É Que a TVI Tem Que Nós Não Temos?

Confesso que me sinto profundamente desiludido e humilhado pelo facto da PT ainda não ter feito qualquer oferta pelo capital do "Cachimbo de Magritte". Afinal, o que é que a TVI tem que nós não temos?

O ataque à política de verdade

O artigo de João Cardoso Rosas, que o i publica hoje, é mais um ataque sem sucesso à “política de verdade” de Manuela Ferreira Leite. Há uma diferença enorme entre um discurso que diz “Nós estamos na posse da verdade” e um discurso que diz “Nós consideramos que a verdade é um bem que tem sido desvalorizado e é imperativo que a política o recupere”. É um pouco como a definição de filósofo, um homem que não é sábio porque detém a verdade, mas antes porque reconhece que deve perseverar na sua busca. A entrevista de Manuela Ferreira Leite na SIC não tem nada a ver com a “posse da verdade”, a “totalidade da verdade”, a “verdade absoluta” e o “monopólio da verdade” que João Cardoso Rosas repete ad nauseam (para usar uma expressão que lhe é grata) no artigo que assina. Depois, como o próprio indica, “em democracia existe sempre um conceito e o seu contrário.” E na conjuntura política actual, o conceito é a “política de verdade” de Manuela Ferreira Leite e o seu contrário é a “política do espectáculo” de Sócrates. Quando João Cardoso Rosas, com o propósito de ilustrar a ameaça da “política de verdade” de Manuela Ferreira Leite, faz uma alusão aos dois totalitarismos modernos, limita-se a mostrar que, também ele, favorece o “espectáculo” em detrimento da “verdade”. É claro que, depois do mal feito, o professor de teoria política tem de dar um passo atrás e dizer: “Trata-se de dois casos extremos e não equiparáveis ao do PSD de Ferreira Leite, como é óbvio”. Sim, é óbvio. Mas a mensagem fica. Tal como ficou a série infinita de sessões de propaganda do PS a apresentar medidas que os portugueses puderam assistir pela TV mas que em lado nenhum foram implementadas. Quando o cartaz da "política de verdade" de Manuela Ferreira Leite saiu à rua, os especialistas em marketing político consideraram-no deprimente. Com a vitória do PSD nas Europeias, os amigos do PS e um ou outro inimigo "interno" apressam-se a tentar descredibilizar o slogan. Suspeito que os portugueses estão cada vez mais convencidos que é mesmo uma "política de verdade" que o País precisa a partir de Outubro.

A mentira da verdade de João Cardoso Rosas

«Há que dizer duas coisas sobre o papel da verdade num regime democrático. A primeira tem a ver com a verdade em sentido empírico, ou factual. Esta é extremamente importante. Mas não é sério atribuir-se a si mesmo a totalidade da verdade e ao adversário a totalidade das mentiras. Qualquer generalização deste tipo é inaceitável. Quando se detecta alguma mentira factual no adversário é necessário expô-la e prová-la, caso a caso. Em segundo lugar, a democracia não é um regime consentâneo com a ideia de uma verdade absoluta em sentido político-normativo. Em democracia admite-se o pluralismo, e com ele a ideia de que nenhum partido detém a totalidade da verdade política.» João Cardoso Rosas, hoje no i
Na sua crónica de hoje, João Cardoso Rosas refere-se ao PSD e ao seu slogan ‘política de verdade’ de modo a construir a sua argumentação sobre os perigos de um partido achar-se o portador de toda a Verdade numa democracia liberal e plural (ver excerto acima). Ora Cardoso Rosas comete aqui um erro importante de interpretação: ‘política de verdade’ não significa 'a política da Verdade’. Dito de outra forma, o slogan do PSD pretende essencialmente insistir na seriedade com que se faz política no PSD, e não reivindicar qualquer tipo de monopólio da Verdade na política. Mais ainda, o problema de ‘monopólio’ nem se coloca, não dando o slogan do PSD a entender que seria o único partido em Portugal a ser sério na política.
João Cardoso Rosas optou por uma interpretação um pouco primária e duvidosa, provavelmente porque esta favorecia a construção do seu argumento. Não acredito que João Cardoso Rosas, sendo um dos grandes académicos da teoria política em Portugal, não se apercebesse da falácia do seu argumento, de tão evidente que é, pelo que deduzo que terá sido voluntário. O que só por si já nos diz muito. Esperemos que ele tenha caído na tentação de conseguir uma crónica sonante, e que nada disto tenha a ver com agendas políticas.

Pouca terra


Agora que parece que a decisão sobre o TGV Lisboa - Madrid foi suspensa até Outubro talvez haja tempo para se responder as algumas questões:

1- Sabendo que Madrid fica a uma latitude a norte de Coimbra porque é que o TGV Lisboa Madrid desce até Evora que fica na latitude de Setúbal ?
2- Se a latitude de Madrid fica a mais de 200 km a norte da latitude de Lisboa porque é que os primeiros 30 Kilometros de linha são em direcção ao sul ?
3- Se de Lisboa a Madrid por estrada são 600 Km porque é que a linha de TGV vai ter 670 Kilometros?
4- Se tanto Lisboa como Madrid ficam a norte do Tejo porque é que é necessário construir uma ponte ferroviária para passar o Tejo em Lisboa ?
5- Se é suposto os comboios na nova linha andarem a 350 Km por hora porque é que são anunciadas viagens entre Lisboa e Madrid de 2.50 ?

Quarta-feira, 24 de Junho de 2009

O problema TVI

Talvez agora se perceba melhor a razão do governo ter feito questão em não se livrar da Golden Share da PT. Alguém acredita que a Administração da PT tivesse avançado para a compra de 30 por cento da Media Capital sem abordar o assunto com o governo? José Sócrates anda mesmo a brincar com os portugueses...

Uma relação turbulenta com a verdade, parte mil e vinte e três

Manuela Ferreira Leite foi magistral, hoje, na entrevista à SICN com a Ana Lourenço, a desmascarar as, que eufemismo empregar?, as ligeiras deslealdades à verdade que por sua culpa, sua grande culpa o nosso inimitável PM comete. Como é óbvio, o detentor de uma golden share na PT não pode não saber dos negócios em que a PT se pretende envolver. Ninguém, mesmo com boa vontade, acredita no que disse o PM. Como é óbvio, o nosso PM não pode estar a concretizar todas as medidas de assistência social para minorar os efeitos da crise: o dinheiro não consta do orçamento, não vem das organizações que distribuirão as várias linhas de 'assistência', logo vem não se sabe de onde que é o mesmo que dizer que não vem de lado nenhum.

Uma relação turbulenta com a verdade, parte mil e vinte e dois

O nosso PM - o tal da relação turbulenta com a verdade - dizia hoje no Parlamento, perante os deputados, que o ex-presidente do ICN, arguido no caso Freeport, havia apresentado a demissão ao Ministro da Agricultura e que este a aceitara. Nos corredores, à mesma hora, perante os jornalistas, o Ministro da Agricultura himself dizia que não estava tomada nenhuma decisão, só depois da reunião que teria com o senhor demissionário, e que nem sabia das razões do pedido de demissão, que tinha estado fora. Minutos depois de contar a sua experiência em nome próprio e após saber da versão apresentada pelo PM, lá veio o infeliz Jaime Silva corrigir a sua versão (sobre si próprio) dos factos aos jornalistas.

É isto que temos a governar-nos.

Entrevista a Manuela Ferreira Leite: notas soltas

(1) MFL fez bem em desmistificar a questão da governabilidade sem maioria absoluta, e em recusar fazer cenários pós-eleitorais, até porque estes são óbvios: não há possibilidade de coligação à esquerda do PSD. O problema de governação com maioria relativa é um falso problema, e se existir possibilidade de coligação com o CDS-PP, esta certamente acontecerá.

(2) É fundamental que o PSD passe a mensagem de que é a única alternativa ao PS, e que assim consiga capturar o voto dos insatisfeitos que votam ao centro. MFL fê-lo hoje, mas insistiu pouco. É um facto incontestável que o PSD é o único partido na oposição capaz de vencer as eleições, e por isso o único que conseguiria, independentemente dos cenários pós-eleitorais, retirar José Sócrates do poder. Para conseguir cativar o eleitorado do centro, MFL terá de insistir mais neste ponto.

(3) O reforço da credibilidade do partido, missão que MFL assumiu quando venceu as eleições internas do partido, está conseguido. As eleições comprovaram-no. Agora, era importante que MFL consolidasse essa mensagem, sabendo lidar com os problemáticos Passos Coelho e Menezes. Conseguiu-o na entrevista, e por isso também sai por cima nesta questão, menorizando os comentários dos dois problemáticos como um obstáculo à credibilidade interna do PSD.

(4) Mostrou-se competente economicamente, como aliás lhe é reconhecido como área forte. Poderá ser um trunfo para o debate sobre os grandes investimentos, e para o debate sobre as políticas de combate à crise. Rebateu bem a ideia de que as grandes obras são parte da solução para a crise, e insistiu em políticas imediatas para as PME. Vencendo no domínio da competência económica, só não venceu no domínio da retórica: a mensagem socialista é uma visão maniqueísta entre progresso (PS) / um país parado (PSD), e MFL não a soube combater com a devida força. Se pretender vencer o debate económico, e mostrar-se a mais competente nessa área, terá de vencer a ideia vigente de que grandes investimentos são sinónimo de progresso.

(5) Aquilo que no início aparecia como um slogan infeliz – ‘política de verdade’ – mostra-se hoje como uma mensagem sólida, perfeitamente adequada ao renovado PSD e à sua líder. MFL assumiu uma atitude de só se comprometer com aquilo que poderá realizar efectivamente se assumir o poder. Num momento de crise, a seriedade na abordagem da política poderá ser um factor mais favorável do que inicialmente interpretado na opinião pública. Na entrevista, foi inteligente o reforçar da ideia de seriedade política, quando na semana passada José Sócrates trouxe à televisão um exercício de estilo. A distinção entre os dois é cada vez mais evidente a olho nu.

(6) Boa resposta à questão actual da compra da PT a parte da MediaCapital. Respondeu economicamente, salientando o precedente da compra ruinosa de Guterres, e chamando à atenção aos valores demasiado elevados desta proposta de compra. Ou seja, com isto diz-nos que não é prática anormal o PS meter o dedo nos media. E acusou Sócrates de mentir, quando diz que de nada sabe sobre a questão. O facto de ser tratar da TVI fortalece a dúvida. Por isso, enquanto cidadã, MFL está preocupada.

(7) Uma outra bandeira eleitoral do PS consiste em acusar o PSD a propósito das questões sociais. MFL respondeu pouco a este ponto. Ou seja, respondeu bem, mas depois não deu continuidade ao assunto. Por isso não esteve tão bem: criticar algumas falsas políticas do governo não chega. É importante acabar com a dúvida que o PS quer impor no eleitorado, de que a direita quer destruir o Estado de Providência. Numa época de crise, se o PSD não contestar veemente esta ideia, a mensagem do PS pode resultar.

(8) É difícil de encontrar neste PSD, por enquanto, algo de substantivo, que ofereça algo mais do que apenas o retirar de José Sócrates do trono. Ainda é cedo para falarmos de programas eleitorais, mas o PSD terá de trabalhar neste mês de Julho, pois derrotar Sócrates não pode ser um projecto político. Neste momento, para além da seriedade e competência económica, a imagem que o PSD projecta resume-se ao combate a José Sócrates. E isso é muito pouco.

Corrente

O Delito de Opinião distinguiu-nos simpaticamente com mais um prémio, que muito agradecemos. Manda a corrente que passemos a distinção aos blogues da nossa preferência. Para não monopolizar isto, passo a bola ao Mar Salgado e sugiro aos restantes fumadores que completem o que falta.

Da série "A concorrência faz melhor"

A loira do PSD.

E a loira do Cachimbo

O i dá hoje um certo destaque aqui ao nosso cantinho, à conta das declarações do Paulo Marcelo sobre as listas do PSD.
Devo confessar que fiquei ofendido. O camarada Marcelo fartou-se de mandar recados, muita táctica, muita intriga, muito maquiavelismo, mas depois, contrariando o nosso programa de "Política de Verdade", não teve a política de verdade de apontar o dedo à loira do Cachimbo.
Pois bem. Em nome da verdade, da humildade, da unidade e de outras coisas acabadas em ade, vou dizer tudo: a loira do Cachimbo sou eu.
Vejam lá se não há semelhanças:





O Botelho também dava uma bela loira, mas não tem fotos na net.

Ideologia a galope: o caso de Rui Tavares

Na crónica de hoje no PÚBLICO, Rui Tavares prossegue o seu caminho de enrolar argumentos, de atirar uma pedrinha e dizer que assim não vale, e de ver na crise económica a sua grande oportunidade. Começa por pôr em causa a proficiência e competência profissional dos signatários do manifesto contra os grandes investimentos públicos. Com toda a inocência de um cordeirinho, Tavares não encontra neste grupo de signatários ninguém que tenha adivinhado a chegada da crise, ninguém que tenha anunciado a necessidade imperiosa de reviver a experiência socialista. Tudo defeitos capitais. Os seus fracassos profissionais têm de os colocar no seu devido lugar.
Mas esperem. Não é esta a conclusão que Tavares tira. Ele acaba por dizer: "Como é evidente (!!!), o terem fracassado na crise não lhes tira razão sobre as infra-estruturas. Mas significa que devemos recusar os equívocos deste manifesto." Então, para quê o espalhafatoso preâmbulo? Apesar de tudo, o objectivo inicial foi bem servido: a pureza democrática permanece imaculada, enquanto o atirador-furtivo tranquilamente arruma a sua ferramenta.
O seu segundo truque é reciclar a retórica do desafio ao "pensamento único". Pode-se resumir o que está implícito do seguinte modo: em democracia, nenhum grupo tem poder de unilateralmente determinar o curso do País; mais do que isso, em democracia temos de resistir à forma de pensar hegemónica - que, por alguma razão, é a económico-tecnocrática - que falsamente apresenta um caminho único a tomar; mais, a rendição a esta hegemonia é equvalente a trair a democracia, o regime que faz da escolha e da vontade geral o único critério da bondade das alternativas aceites. Assim, o manifesto dos 28 economistas, e a reputação do documento, são apenas manifestações desta hegemonia opressiva e obsoleta. E, como tal, o documento deve ser rejeitado.
Talvez alguém ainda pudesse ripostar: E a apreciação racional dos argumentos avançados? E a necessidade de examinar as tais restrições orçamentais (externas e internas) que não são de esquerda, nem de direita; ou a viabilidade económica dos projectos em causa? São coisas comezinhas, bem sei, e que são capazes de dar muito trabalho, e de obrigar a rever preconceitos, ou até, miséria das misérias, reduzir o leque das escolhas "políticas". Mas, pensando melhor, quem é que nestes dias quer saber da realidade? Quem tem a "vontade", constrói a "realidade", não é assim?

O lugar dela

A honestidade não está nem num lado, nem no outro. Nem do nosso, nem do deles. A honestidade está simplesmente no seu próprio lugar. Como aqui.

A Data das eleições (II)


Tal como previ aqui, o Governo irá marcar as eleições autárquicas para dia 11 de Outubro, evitando a possibilidade das legislativas terem lugar depois das autárquicas. Mas se o Governo pode impedir que autárquicas se realizem antes das legislativas é o PR quem terá a ultima palavra no que se refere a uma eventual simultaneidade de actos eleitorais.

A decisão do PR é susceptível de poder influenciar os resultados, e a posição de cada partido é determinada, naturalmente, pelas eventuais consequências da simultaneidade de datas.

O PS não espera uma grande noite eleitoral autárquica pelo que teme que o poder autárquico laranja contagie marginalmente a votação nas legislativas. Já o PSD, até pelas coligações que consegue assegurar com o CDS em muitas das grandes cidades, está em condições de obter um bom resultado autárquico e marginalmente a sua força autárquica pode contagiar o voto nas legislativas. O PCP mesmo que possa ser beneficiado marginalmente nas legislativas, pode correlativamente ter mais dificuldades em manter algumas Câmaras, sendo que comparativamente o PCP prefere manter o seu poder autárquico a alguns, eventuais, deputados adicionais. Já o BE, não obstante o seu sucesso europeu, não tem ainda condições de concorrer em muitas dezenas de municipios podendo ser prejudicado por isso. Finalmente o CDS é o partido que corre mais riscos. O facto do CDS se apresentar a 40% do eleitorado coligado com o PSD, dificulta o posicionamento político do CDS e o seu contraste com o bloco central e designamente com o PSD.

E o que decidirá Cavaco?

O facto de apenas o PSD defender o mesmo dia para ambos os actos eleitorais deveria relevar para a decisão do PR.
Estou no entanto convencido que mesmo contra a posição de 4 dos 5 partidos, o PR vai marcar as eleições para o mesmo dia. Cavaco Silva utilizará um argumentário conhecido (poupa-se tempo, dinheiro, e combate-se a abstenção). Todavia a mensagem política que passa é uma colagem do PR ao PSD. O PR sabe que objectivamente a sua decisão tem uma leitura política de benefício ao PSD e conforma-se com a ideia. Quer ajudar o PSD e ganhar as eleições.

Terça-feira, 23 de Junho de 2009

Moralidade

Um homem tinha dois filhos. O mais novo disse ao pai: Pai, dá-me a parte dos bens que me corresponde. E o pai repartiu os bens entre os dois. Poucos dias depois o filho mais novo, juntando tudo, adivinhando má borrasca para os rebanhos e terras do pai, partiu para uma terra longínqua e por lá andou, esbanjando tudo o que tinha de seu, que o pai lhe tinha dado, vivendo dissolutamente, em más companhias que tinham por gosto dizer mal de seu pai, mofar das suas cãs e prever a sua próxima perdição. Ele mesmo não defendia seu pai dos inimigos azedos de inveja: chegava a dizer, de maneira que todos ouvissem, que só triplicando a produção de suas terras, tinha seu pai direito a mantê-las. Ora, tendo gasto tudo, houve grande fome nesse país e ele começou a passar privações. Então foi servir a um dos habitantes daquela terra, o qual o mandou para os seus campos guardar porcos. Bem desejava ele encher o estômago com a vianda que os porcos alacremente mascavam e com as trufas que zelosamente fuçavam, mas ninguém lhas dava. Para mais, bem via que seu pai, afinal, tinha arrostado com o temporal e mantido e prosperado em suas vinhas e seus pomares e os seus rebanhos, para júbilo dos que lhe tinham permanecido fiéis, começavam a medrar. Caindo em si, disse: Quantos jornaleiros de meu pai têm pão em abundância e eu aqui, na companhia de imunda bicharada, morro de fome! Levantar-me-ei e irei ter com meu pai, e dir-lhe-ei: Pai, pequei contra o Céu e contra ti, pus-me ao lado de teus inimigos, dos de dentro e dos de fora de tua Casa, usei de palavras bífidas para, fingindo socorrer-te, te procurar perder, já não sou digno de ser chamado teu filho, trata-me como um dos teus jornaleiros. E, levantando-se, com as vitualhas de sua Casa em mente, foi ter com o pai. Rondava a Casa, como quem, sonsamente, não quer a coisa, mas, avistando o pai, lançou-se-lhe ao pescoço, cobrindo-o de beijos e, bem alto para que todos ouvissem, ia dizendo que sempre confiou nas sábias orientações paternas, que sempre soube das qualidades do outro irmão e que, nem pelos cabelos negros das filhas de Jerusalém, nunca duvidou do sucesso de sua Casa, do crescimento dos rebanhos, do vinho a jorrar dos tonéis e dos pomares vergados de frutífero peso.
O pai disse então aos seus servos: Trazei depressa pez e penas e cobri-o completamente; dai-lhe um tabefe e um chuto nos fundilhos que nós, nesta Casa, somos simples, mas não somos asnos.

... ou será ao contrário?

João, desculpa lá esta que é cruel, mas a tua resposta ao Miguel Botelho Moniz reflecte muito bem todas as tuas confusões relativamente ao que chamas "mercado", "neoliberalismo" e outras coisas mais ou menos equivalentes. Acusas os "insurgentes" de padecerem de uma doença ideológica e de "acreditarem" no "mercado". Tu também acreditas: não no "mercado", mas na varinha de condão que políticos mais ou menos inconscientes dizem possuir.
Mas na tua posta houve um momento de fraqueza bastante esclarecedor. Dizes que o MBM acredita na "destructive creation". Nesta coisa que não sei o que é garanto-te que o MBM não acredita (e nem sequer o conheço). É que se querias fazer uma referência à expressão de Schumpeter ela diz exactamente o contrário, como não podia deixar de ser: "creative destruction" - expressão que muito provavelmente Schumpeter foi buscar a Nietzsche. Um engano é um engano, mas neste caso veio à superfície aquilo que me apetece chamar um "preconceito": o de que o mercado produz, não bens, não riqueza, mas antes caos e destruição. Ora, esse "preconceito", meu caro, é tão-só "preconceito" ou até crendice. Pode ser útil aqui e ali para tocar a rebate as tropas da igualdade, da compaixão e da solidariedade social, mas não passa de crendice.

Confianças Socialistas


Depois de ler isto, tenho vontade de ser Primeiro-Ministro e proclamar a "confiança" depois de preparar dois ou três decretos: tira dali, proíbe aqui, suprime acolá. Talvez o melhor fosse mesmo declarar um estado de "economia de guerra". Assim, seria certinho como a lei da gravidade que a "confiança" regressaria aos magotes aos corações dos portugueses, e o Estado voltaria a ser a nossa primeira e última esperança. A luta de classes também desperdiçaria o seu último suspiro, facto recorrente em "economias de guerra", como qualquer historiadorzeco pode confirmar. Com ela morreriam asfixiados todos os "preconceitos de classe". Teria um bom pretexto para (ex-)terminar toda a forma de iniciativa privada sempre que existisse "oferta pública" e exaltar a "provisão pública". Ninguém levaria a mal se eu gritasse uma ou outra fórmula totalitária, como a que o João Rodrigues não se envergonha de inventar, a saber, que esta mesma "provisão pública" é o "principal pilar de uma sociedade decente". Todos compreenderiam que objectivos tão esplêndidos, que este novo mundo habitado por um novo homem, justificaria tudo, ou quase tudo. Justificaria uma "economia de guerra". E talvez até justificasse uma guerra. A liberdade e o resto ficariam para mais tarde. Não tenho, porém, a certeza de que poderíamos chamar "confiança" ao que restasse.

O programa do PSD

Já tinha escrito sobre este tema. Anda por aí muita boa gente, incluindo militantes do PSD, a exigir que Manuela Ferreira Leite apresente o programa para próximas legislativas. Honestamente não percebo esta pressa. Quando ainda nenhum partido político português o fez, pretendem que o PSD apresente rapidamente o seu projecto político. O timing definido aponta para o mês de Julho, o que me parece bastante razoável. Haverá muito tempo para o explicar aos portugueses, e confrontá-lo com o do Partido Socialista.

Estas expectativas que estão a ser criadas, fomentadas em parte por aqueles que em tempos exigiram à líder do PSD que apresentasse o candidato do PSD às Europeias, até podem ser positivas. Mas denota alguma apreensão pelo que aí vem, que poderá marcar uma ruptura com o que se tem passado em Portugal desde 1995. É pelo menos isso que a sociedade portuguesa necessita neste momento: uma alternativa ao modelo de desenvolvimento (falhado) do Partido Socialista.

Biotech is Godzilla (the comeback)


A revista Sábado desta semana faz uma reportagem sobre o consumo de substâncias com o intuito de melhorar o rendimento, nomeadamente no caso dos jovens estudantes. É importante referir que esta é uma prática crescente, e não somente nos meios universitários: nos EUA, por exemplo, esta questão já foi abordada, também relativamente aos trabalhadores das grandes empresas. Drogas ilegais à parte, o uso de Ritalin, fármaco para crianças hiperactivas que tem o efeito inverso nos indivíduos normais, é um dos mais procurados, porque junta a eficácia aos pouquíssimos efeitos secundários. Aqueles que recorrem a drogas ilegais normalmente fazem-no por desconhecimento ou por dificuldade de acesso (receita médica) a substâncias legais. Debater a utilização destes fármacos é importante, e consiste em abrir a discussão sobre algumas das vantagens e desvantagens da biotecnologia.

A primeira reacção ao artigo da revista Sábado é a de que estes consumos são errados e que constituem um risco para a saúde de quem as pratica. Mas tenhamos os pressupostos na mesa: a utilização destas substâncias hoje indica-nos que existe quem sinta a necessidade de as consumir, e a biotecnologia evoluirá de modo a que os efeitos secundários desapareçam, nas doses correctas. Pessoalmente, não vejo que o consumo de substâncias legais para aumentar a produtividade seja um problema per se. Aliás, se não existirem riscos para a saúde, parece-me até uma mais-valia para a nossa qualidade de vida. Dois exemplos.

(1) Não precisar de dormir, ou precisar de dormir muito pouco, poderá ser muito vantajoso para um pai ou uma mãe que, por razões profissionais, tem pouco tempo disponível para estar com a sua família, principalmente com os seus filhos. Assim, precisando de menos horas para descansar, terá maiores possibilidades para gerir o seu tempo, tal como estar com os seus filhos, e depois trabalhar, em vez de dormir.

(2) Não existe qualquer tipo de injustiça ou concorrência desleal no consumo destas substâncias vis-a-vis aqueles que não as consomem. A partir do momento em que são legais, e que estão acessíveis a todos, só utiliza quem quiser. Além de que este tipo de biotecnologia não interfere com os talentos, skills, ou capacidades para a execução das tarefas. Apenas dá mais tempo para as fazer. Por isso, um arquitecto que consuma não terá forçosamente um projecto melhor conseguido, o seu talento e as suas competências na área manter-se-ão as mesmas, passando apenas a ter mais tempo de trabalho.

A importância de debater estas questões é enorme, e muitas vezes desconsiderada. Não está em causa unicamente a escolha individual, mas os efeitos na sociedade se o consumo se massifica. Uma sociedade na qual estas substâncias estão liberalizadas é uma sociedade que terá de adoptar regras diferentes das actuais. E é aqui que os problemas poderão vir a aparecer. Por exemplo, o sucesso profissional de um trabalhador numa empresa poderá passar a depender do consumo, se uma empresa optar por contratar menos gente mas dar o dobro de trabalho a cada um dos seus empregados. Ou seja, se deixarmos a tecnologia entrar na nossa vida sem compreendermos os seus limites, ficaremos sempre menos protegidos contra os seus efeitos perversos, e também menos capazes de usufruir das suas vantagens.

Irisalva Moita

Acabo de saber, literalmente por acaso (pelos classificados do Público), que morreu no passado dia 13 Irisalva Moita, grande arqueóloga, museóloga e historiadora de Lisboa. A notícia, tão brutal como simples, obrigou-me a reler a meia dúzia de palavras do modesto anúncio. Fiz alguns telefonemas para amigos e a surpresa é geral, sobretudo tendo em conta a data da morte. Espero ter em breve mais pormenores. Entretanto, se alguém me puder dar outras informações, agradeço.

Um pedido

Por acaso, tinha decidido não dizer uma só palavra sobre esta história do conflito entre o i e Pacheco Pereira, porque me parece que ela diz unicamente respeito ao jornal e a Pacheco Pereira, e nisso não me apetece meter o bedelho. Mas como vi, aqui e ali, referido o nome do Paulo Pinto Mascarenhas, de quem sou amigo, tenho vontade de aconselhar as pessoas a não aproveitarem a querela para vingançazinhas e coisas assim. Sobretudo a propósito de uma frase de alguém que me faz lembrar (as comparações andam na moda) um personagem de um livro de Astérix que li em miúdo, Tulius Detritus.

Das 'loiras falsas'

Luis Filipe Menezes qualificou Pacheco Pereira de ‘a loira do PSD’, numa referência cinematográfica ao filme La Dolce Vita, de Fellini, e a polémica instalou-se. Mas há algo de muito suspeito nesta sua tirada. Chamem-me preconceituoso se quiserem, mas não acredito que Menezes fosse espontaneamente capaz de um comentário tão sofisticado e elegante no decorrer de uma entrevista, o que me leva a crer que esta metáfora vinha preparada, que foi rabiscada de véspera e reescrita mil vezes até soar na perfeição. Assim, compreende-se a declaração de Menezes como parte de uma estratégia muito bem delineada: atacou inteligentemente alguém que sabia que iria reagir, e teve ainda a sorte de fazer manchete de jornal, conseguindo um impacto maior do que previra.

Mas que objectivo nesta estratégia? É que Menezes está na sombra a tempo demais. O ano eleitoral não lhe tem sido favorável, e afastou-o das luzes da política nacional. Na verdade, o que Menezes gostaria é de ser a tal ‘loira do PSD’. Por isso, acendeu uma polémica com um inimigo antigo, que para além disso ocupa um espaço que ele inveja. Contudo, a política não funciona como o cinema, e para se tornar numa ‘bela loira’, Menezes precisa de mais do que um fait-divers, o que trocado por miúdos significa que nunca passará de uma ‘loira falsa com madeixas’. O que diz muito sobre o carácter de Menezes. O resto é conversa e muita falta de bom senso.

Pacheco Pereira, o i e os outros.

Há uns quantos dias o jornal i achou por bem escolher como manchete uma "boca", para não dizer um insulto, a Pacheco Pereira. É verdade que a "boca", ou o insulto, era de Luís Filipe Menezes, e tinha-lhe saído espontaneamente (?) durante uma entrevista dada a Ana Sá Lopes. Pacheco Pereira, natural e frontalmente, reagiu. A partir daqui muitos têm sido aqueles que consideram ilegítima a reacção de Pacheco Pereira e natural a manchete do i. Por mim, devo dizer que, e no estado em que as coisas estão, é mais natural a manchete do i e os aplausos que directa ou indirectamente recebeu, do que a reacção de Pacheco Pereira. É por isso que raramente compro jornais, e nunca o i (excepção feita ao 1.º número) e leio e ouço sempre que posso Pacheco Pereira.
P.S.: Confesso porém uma fraqueza. Ainda leio alguns daqueles que, hipocritamente, criticam Pacheco Pereira por se ter mostrado indignado com a manchete do i.

End of film

O sempre-em-pé

Pedro Passos Coelho é, com o devido respeito, uma espécie de sempre-em-pé do PSD. Durante a campanha das europeias, exigiu a maioria para o PSD. Agora (acabei de ouvir na televisão) deu-lhe para, a seguir a Ferreira Leite se ter recusado a pedir a maioria absoluta nas legislativas, vir logo dizer que ele a exigiria. É verdade que há qualquer coisa de irritante nos sempre-em-pé: é que agem por uma espécie de compulsão natural e não por qualquer convicção. Está-lhes na natureza, é algo de que não se podem livrar. Mas este sempre-em-pé até pode servir de amuleto a Ferreira Leite. Pediu a maioria nas europeias, ela deu-lhe um piparote, e o PSD teve-a. Voltou, regido pelas leis da física, à sua posição vertical, ela dar-lhe-á outro piparote – e quem sabe? De qualquer maneira, mesmo que a coisa improbabilíssima não aconteça, resta o prazer dos piparotes. Visto de fora, pelo menos, é divertido. Eu acho graça.

A sedução do Fazismo

Doze anos de Ciência

Estas maravilhas ajudam a explicar o estado de quase indigência "científica" em que, todos os anos, desembocam no Ensino Secundário milhares de rapazes e raparigas.
É de esperar o pior, quando a escolaridade obrigatória for esticada até ao 12ºAno...

Recordar o método "Vital"

Será que depois de Nuno Cardoso ter sido condenado a três anos de prisão com pena suspensa, a candidata Elisa Ferreira vai pronunciar-se? Ela nada tem a ver com isso, como é óbvio, mas quando Vital "roubalheira" Moreira tentou associar o PSD ao caso BPN, que me recorde não ouvi da candidata "só vou dar o nome e volto" nada sobre a barbaridade pronunciada por Vital. E essa tinha sido uma boa altura para condenar os excessos do seu cabeça de lista. Se ela concordava com esse tipo de métodos, poderia agora tecer algumas considerações sobre o antigo autarca socialista...

Segunda-feira, 22 de Junho de 2009

A caminho da Ciência

Dezenas de milhar de alunos do 9º Ano fizeram hoje o exame de Matemática [este e podem espreitar os critérios de correcção aqui]. No mesmo dia em que o senhor primeiro-ministro entreteve esta cerimónia.
Lá esteve ele com aquele seu entusiasmo ensaiado e aquela sinceridade treinada que quase diariamente derrama sobre nós. Falou-nos de Ciência, da importância que ela tem para si, da sua preocupação esforçada pela Ciência para Portugal. Independentemente do conteúdo facial da cerimónia (objectivos, estratégia e resultados de parceria com universidade norte-americana), o que sobressai nela, o que Sócrates quer que sobressaia dela (e lá estavam as televisões para isso), é o seu empenho político na formação científica em Portugal, na "produção" de investigadores - é isso que importa aqui. O conteúdo daquela cerimónia (pouco mais que propaganda pura) é político.
Comparemos então a alardeada paixão "socrática" pela Ciência com passagens de um documento sério de gente, esta sim, que sabe do que fala: o parecer da Sociedade Portuguesa de Matemática a respeito do exame de hoje (sublinhados meus):

"(...) O nível geral da prova é de novo demasiado elementar. O exame destina-se a alunos no final da escolaridade obrigatória. Após nove anos de ensino de matemática exigir-se-ia um maior grau de dificuldade.
(...)
Em quase todas as perguntas, os conceitos são testados com exemplos demasiado elementares. Os cálculos são todos muito simples, a equação do segundo grau é trivial, para mais sendo fornecida a fórmula resolvente, e os exemplos de geometria são demasiado directos.
Não há problema algum em introduzir num exame perguntas de anos anteriores ou de grau de dificuldade baixo. O que é prejudicial é que um número exagerado de perguntas corresponda a tópicos que deveriam estar sabidos anos antes e que todas ou quase todas as perguntas tenham um grau de dificuldade muito baixo.
Grande parte da matéria essencial do 9.º ano de escolaridade não foi coberta por esta prova. (...)
Tanto professores como alunos que se empenharam durante estes anos lectivos sentem-se desacompanhados e desapoiados com esta prova. O que exames deste tipo transmitem é a ideia de que não vale a pena estudar mais do que as partes triviais das matérias. Tanto os jovens que prosseguem os seus estudos no Secundário como os que terminam aqui a sua escolaridade não podem concluir estar bem preparados pelo facto de conseguirem um resultado satisfatório neste exame.
Pode pensar-se que provas elementares têm a vantagem de ajudar a perceber que as questões matemáticas não são intransponíveis. Mas estabelecer patamares demasiado baixos, em vez de incentivar a mais estudo e mais conhecimento, acaba por prejudicar todos — tanto os melhores, que se sentem desincentivados, como os menos treinados, que sentem menos necessidade de trabalhar para aumentar o seu domínio das matérias. Em suma, uma prova demasiado elementar como esta não serve o progresso do ensino. Pelo contrário, cria precedentes difíceis de contrariar."

É assim que se pretende criar as condições para um efectivo "desenvolvimento científico"? É assim que se estimula a formação científica?...

A RTP e Rui Rio...*

Quem segue Rui Rio no Twitter não tem deixado de reparar nas críticas que o actual presidente da Câmara do Porto tem efectuado à cobertura realizada pela RTP. A verdade é que na última semana assistimos a dois exemplos de um grave alheamento da televisão estatal a iniciativas da cidade do Porto: a inauguração do Sea Life Center e a apresentação pública do novo projecto de remodelação do Palácio de Cristal, um dos edifícios mais emblemáticos da cidade. Enquanto as estações privadas fizeram o seu trabalho, tendo coberto os eventos, a RTP optou por ficar em casa. Isto apenas para referir duas cerimónias mediáticas que a RTP simplesmente ignorou recentemente. Segundo li no JN, a televisão pública apenas cobriu este ano duas iniciativas da edilidade portuense. Se formos comparar com a cobertura realizada em Lisboa pela RTP, que é liderada pelo socialista António Costa, estou certo que os números serão brutalmente diferentes.
Para cúmulo desta parcialidade que a RTP tem dedicado a Rui Rio, adivinhe-se quem é que escolheram para comentar o trágico desaparecimento do militante histórico do Partido Socialista, Carlos Candal? Nada menos que a independente Elisa Ferreira, que por acaso é candidata à Câmara Municipal do Porto, e que tem tido uma inusitada atenção por parte da estação pública. É para isto que existe uma televisão do estado? Para proteger os interesses do partido de governo?
A pergunta que se deve fazer é: qual a razão da RTP estar a ignorar por completo as iniciativas da Câmara Municipal do Porto em pleno ano eleitoral, isto para não falar das acções de campanha de Rio Rio, que também têm passado completamente ao lado da televisão? Numa estação paga por todos os portugueses, a isenção e imparcialidade é uma exigência absoluta. Será que a RTP irá assumir a posição anglo-saxónica de declarar o seu apoio a uma candidatura? Não que precisem, mas pelo menos seria mais honesto…

*Seguindo o conselho do Paulo Tunhas.

Ler

"A RTP e Rui Rio...", de Nuno Gouveia, no 31 da Armada (e espero que em breve aqui). É elucidativo.

Fazer pela vida

A gente tem que levar isto com algum humor, ou ainda acaba a usar o método Martins-Candal para sonsos. E aqui no Cachimbo temos pouca paciência para sonsos. Então é assim: durante meses a fio, Manuela Ferreira Leite não sabia comunicar, cometia gaffes, tinha má imagem, não passava em televisão, fugia das pessoas, quando não fugia ainda era pior, as arruadas eram um desastre, as entrevistas eram uma calamidade, os discursos eram um castigo de Sísifo, os outdoors pareciam anúncios de uma funerária, era deprimente, era velha, era cinzenta, não sabia falar, não se sabia vestir, não sabia os rudimentos da política moderna que só as agências de comunicação podem ensinar. Cheguei a ler frases de gosto duvidoso sobre os seus óculos escuros. E o Primeiro-Ministro, antes de ter caído no caldeirão da humildade, chegou a dizer que ela não tinha jeito para a política.
Vale a pena lembrar estes factos embaraçosos porque as eleições provocaram mudanças tão notáveis que o Dr. Jekill e o Sr. Hyde são agora exemplos de impassibilidade marmórea.
Hoje foi a vez de Luís Paixão Martins, eminência parda (ou parva?) do regime e um dos responsáveis pela estratégia de comunicação do PS nos últimos tempos, vir dizer, em entrevista ao i, que afinal Manuela Ferreira Leite tem "um excelente marketing".
Excuse me? (Aposto que o Dr. Paixão Martins ia gostar deste excuse me porque os marqueteiros dizem tudo em inglês.) Estamos a falar da mesma Manuela?
Ah, claro, o mérito não é só dela: é de Agostinho Branquinho, que lhe dirige a campanha e congeminou o rebranding. (Note-se a variante subtil da narrativa "o mérito não é dela, mas do Rangel". By the way, e estou certo que o Dr. Paixão Martins apreciaria este by the way, o citado Agostinho Branquinho é o mesmo que pôs em causa a competência da jornalista Fernanda Câncio para apresentar um programa de televisão devido a um "relacionamento" com o Primeiro-Ministro? Um génio do rebranding, não há dúvida.)
Eu sei que a vida está difícil e a perspectiva de perder o emprego obriga a certas coisas, mas não podiam disfarçar um bocadinho?

Cachimbos de lá

Adriaen Brouwer, Os Fumadores, 1630.

Barbas mais longas que o Marx

É o que estes dois argumentos do João Galamba e do João Pinto e Castro têm. O João Galamba fala acerca um baixíssimo nível de investimento público, coisa inexistente neste nosso Portugal contemporâneo, com níveis de investimento quer público quer privado a variar entre o muito acima e o aproximadamente na média da UE (mais recentemente), sem que isso resolvesse o nosso problema de competitividade e convergência. Se a questão de hoje fosse necessidade imediata de investimento, e as preocupações as que o João cita, o estado puxava do argumento da urgência (já que o da decência não comove) e começava a aprovar país fora obras e projectos que ainda hoje inacreditavelmente chumba ou não executa, desde os de regeneração urbana [Câmaras] ou modernização administrativa até à agricultura [ex:QREN]. Mas mesmo do lado do investimento público, os pequenos investimentos de proximidade são instrumentos mais eficazes na resposta de curto prazo, na medida em que se organizam mais rapidamente, incorporam mais valor local e respondem a diversas necessidades identificadas pelas comunidades, o que encaixaria nas preocupações do João. Como é que as mesmas preocupações se resolvem com os grandes investimentos mais ou menos estratégicos e de longo prazo é algo que me ultrapassa. Como me ultrapassa o ponto do João Pinto e Castro, desde logo porque até o Keynes percebeu à data o problema da lógica de decisão na condução do investimento público, sugerindo precisamente órgãos semi-independentes como contra peso à partidarização excessiva da decisão. Aliás existem hoje precisamente na Inglaterra excelentes exemplos de como estas questões de investimento público devem ser institucionalmente tratadas quer ao nível do parlamento quer ao nível dos ministérios. O processo que nós temos cá é, definindo-o com rigor científico, uma bandalheira latina.

Domingo, 21 de Junho de 2009

Sophia

O dossier que o Público hoje dedica a Sophia de Mello Breyner é de leitura obrigatória para os fiéis (entre os quais me incluo). Algumas das histórias eram mais ou menos conhecidas, outras são tão deliciosas como inéditas. Por exemplo, aquela em que o realizador João César Monteiro, enquanto fazia um filme sobre ela, se atira à água para distrair os seus filhos - um deles Miguel Sousa Tavares - e quase morre afogado. Tinha-se esquecido de que não sabia nadar.
Há mais, muito mais. Vale a pena ler.
Antes que nos esqueçamos do essencial, também nós.

Campanhas negras

Um dos ensinamentos das eleições europeias, já notado pelo Nuno Gouveia algures, é que as campanhas negativas não rendem muito no velho continente, ao contrário do que se passa na América.
O caso mais óbvio é o de Berlusconi, que viu o seu partido triunfar confortavelmente em Itália - apesar de envolvido em escândalos que impediriam Sarah Pallin de ganhar uma junta de freguesia. O sermão de Saramago não convenceu ninguém.
Como não convenceu a colagem do PSD à "roubalheira" do BPN, por cá tentada pelo "Professor Doutor de Coimbra meu Deus" Vital Moreira. As agências de comunicação que Sócrates foi buscar à terra do Tio Sam não repararam no facto patente, embora a vários títulos lamentável, de "Coimbra meu Deus" não ser o Utah.
Curiosamente, a última grande campanha negativa a que o país assistiu veio de Santana Lopes, outro político inclinado ao marketing, contra o próprio Sócrates, nas legislativas de 2005. Devem lembrar-se: os "colos" e tal.
Os resultados são conhecidos. Ou talvez não. Por ironia da história, agora foi o PS a querer dar uma de ética protestante e espírito do capitalismo.
Os moralistas nunca aprendem.
Nem com os pecados dos outros.

Exercício de Aquecimento


Publicado no i

Sempre que aparece um escritor latino-americano a tendência é saber se é filho de Borges ou de García Marquez. Recorrendo à feliz formulação de José Eduardo Agualusa, trata-se de saber se o autor vem da biblioteca ou da bananeira. Se o símbolo heráldico é o tigre mental de Borges ou o papagaio festivo do realismo mágico. Estes eucaliptos literários confinaram a possibilidade de se discutir a literatura latino-americana aos limites das respectivas obras, como se antes deles nada houvesse e como se depois deles nada de novo pudesse surgir.

O chileno Roberto Bolaño (1953-2003) não escapou ao processo de filiação e, após testes de ADN, confirmou-se: Bolaño era da família literária de Borges. Em Estrela Distante, publicado em 1996, há referências explícitas a Borges e, ainda mais frequentes, alusões ao que designamos de universo borgesiano: mapas, duplos, xadrez, filologia, conjecturas e bibliografias falsas. Mas a família de Bolaño é mais alargada e nela cabem Cortázar, Perec, Calvino e o grupo OuLiPo. Aos exercícios de erudição (na mesma página fala-se de Nicanor Parra, Sylvia Plath e Elizabeth Bishop) junta-se o aspecto lúdico, pós-moderno, que se equilibra entre a paródia e o absurdo (no que lembra Gómez de la Serna).

A acção do livro inicia-se nas vésperas do golpe que derrubou Allende e acompanha um grupo de jovens estudantes e poetas. Desse grupo fazem parte o narrador e um autodidacta, Alberto Ruiz-Tagle, um corpo estranho de pragmatismo num meio de entusiasmados com a literatura e com a política. Após o golpe de Pinochet, a repressão atinge os membros do grupo. Alguns desaparecem, outros são presos e o enigmático Ruiz-Tagle reaparece como Carlos Wieder, um piloto da Força Aérea chilena, que escreve poemas e versículos bíblicos nos céus de Santiago. Wieder é também o responsável pela morte de alguns dos antigos companheiros. Na última parte, já nos anos 90, o livro adquire contornos de policial em que um detective é pago para encontrar Wieder. Desta forma, Bolaño junta “alta” e “baixa” cultura, o erudito e o popular. Ruiz-Tagle/Wieder é o elemento central do livro. Como é sugerido desde o início, com a comparação entre a sua casa e a casa dos vizinhos satânicos do filme A Semente do Diabo, Wieder é uma encarnação do Mal, uma espécie de anti-consciência negra do regime de Pinochet. É um sádico para quem a arte é meramente funcional e utilitária. A sua poesia megalómana na forma e pobre no conteúdo seria a emanação artística e involuntária da essência da ditadura, uma espécie de braço artístico do regime.

Estrela Distante pode ser visto como uma ponte de passagem entre o Bolaño poeta e da narrativa curta para o romancista atípico que alcançou a consagração com Os Detectives Selvagens e com o póstumo, ainda por publicar em Portugal, 2666. É este papel de transição que desculpa o excesso de digressões eruditas e lúdicas que parecem ter sido escritas mais para ajudar o escritor a suportar os rigores do ofício do que para acrescentar valor à narrativa. Estrela Distante vale como exercício de aquecimento para os romances que se seguiram.

O Irão amanhã?




As fotos desta série foram retiradas daqui, daqui, daqui, daqui, daqui, daqui e daqui.

O Irão hoje II



O Irão hoje I







O Irão ontem




Byrds: "Turn! Turn! Turn! (To Everything There Is a Season...)"

O manifesto

As reacções ao manifesto dos 28 economistas revelam o desespero do Partido Socialista, e também daquela esquerda que vê no investimento público a qualquer preço a salvação do país. Uns dedicaram-se a acusar os subscritores de apego ao poder, ao verem nisto uma manobra de se aproximarem às teses defendidas por Manuela Ferreira Leite desde que chegou a líder do PSD. Nesta tese ilusória, acredita-se que estes economistas vêem que o PSD pode chegar ao poder, e desta forma procuram ganhar os bons créditos de um possível futuro governo. Só por pura imaginação se pode imaginar que homens como Henrique Neto, Silva Lopes, Medina Carreira ou Augusto Mateus (já para não falar em muitos outros) se envolveriam numa iniciativa destas apenas por desejo de proximidade com o poder. Além que acusar os subscritores, muitos deles da área do Partido Socialista, de estarem a fazer um frete a Manuela Ferreira Leite, é puramente ridículo. Outros têm tentado retirar credibilidade aos nomes apresentados, por terem sido ministros de outros governos, muitos deles do Partido Socialista. As críticas têm-se centrado na crítica aos subscritores, e não à sua posição propriamente dita.Talvez porque não conseguem colocar em causa a competência dos subscritores.

É óbvio que este manifesto nasceu da convicção que estes economistas têm que avançar neste momento, de grave crise económica e com o endividamento externo a atingir números assustadores, para a construção de o novo aeroporto de Lisboa, para o TGV ou para a 3ª auto-estrada Porto-Lisboa seria catastrófico para o país. Depois desta tomada pública, restam poucas pessoas fora da área socrática a defender estas construções no imediato. Isto, claro, exceptuando as empresas do sector de construção civil, por motivos óbvios.