
Parece-me oportuno deixar aqui a última parte de um texto que publiquei há uns tempos na revista Nova Cidadania. Intitula-se "Deuses e Homens" e debruça-se sobre o livro de Mark Lilla, The Stilborn God (publicado em 2007 nos Estados Unidos).
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(...) The Stillborn God narra a história do destino da teologia política no Ocidente. O momento fundamental dessa história, que transformou para sempre o mundo Ocidental e o demarcou do resto do globo, é baptizado por Lilla com a denominação “A Grande Separação”. A expressão é reminiscente de uma outra narrativa histórica de Karl Polanyi – “A Grande Transformação”. Mas a escolha de Lilla é acertada: reflecte um dos aspectos ou uma das “separações” que levou Adam Ferguson no século XVIII a referir-se à modernidade europeia como a “era das separações”. Ferguson propôs que a divisão do trabalho, ou o movimento constante de especialização dos homens, revelava o que havia de mais essencial na sociedade moderna. Por seu lado, Lilla aponta para a separação entre teologia política e filosofia política como a mais fundamental de todas as separações que configuraram a história particular do Ocidente moderno.
Para Lilla, o herói destacado dessa narrativa foi Thomas Hobbes, o grande filósofo inglês neo-epicurista do século XVII. Entre outras coisas, Hobbes (assim como um dos seus maiores discípulos, Espinosa) recuperou e politizou a explicação epicurista da religiosidade do homem. Avançou que a incerteza do futuro, e sobretudo o medo (em particular, o medo da morte) paralisava o homem e forçava-o a olhar para cima. Assim, a “superstição” acabava por revelar a sua base efectiva: a ignorância. O medo e a ignorância, ou o medo que decorre da ignorância impelia o homem a criar os seus próprios deuses, os quais, ao invés de lhe trazerem o consolo e a segurança que deseja, tornavam-se eles mesmos agentes do terror. Por isso é que Hobbes pôde apresentar a religião como o “medo dos poderes invisíveis”.
Segundo Lilla, a filosofia política propriamente dita, corporizada em Hobbes, encontrou finalmente a única forma de escapar aos caminhos tortuosos das várias teologias políticas que germinaram no terreno do Cristianismo. A filosofia política deixou de procurar o fundamento da autoridade, da justiça, da paz, enfim, da vida humana individual e colectiva, no nexo divino que entrelaçava Deus, o mundo e o homem, e, para usar a expressão de Lilla, preferiu “mudar de assunto”. Isto é, preferiu falar do mundo, de Deus e do homem exclusivamente do ponto de vista do próprio homem. Como disse em tempos Joseph de Maistre, foi o princípio dos tempos da “teofobia”. O fundamento da religiosidade era agora analisado como produto de uma relação entre o indivíduo temeroso e um mundo que lhe é hostil, e já não como sintoma das sementes do divino que lhe foram depositadas na alma pelo seu Criador. Diga-se de passagem que esta opção de perspectiva de análise converte a religião num puro objecto das psicologias, quando não dos psicologismos, caricaturando-a primeiro, e desnaturando-a depois. Mas, ao mesmo tempo, os pioneiros da “Grande Separação” também vislumbravam na “superstição” uma forma perniciosa de “governar multidões”. A religião convertia-se, assim, em factor primeiro de infelicidade pública, isto é, convertia-se em causa primordial dos vários despotismos, da servidão e principalmente do conflito perpétuo.
O alcance da revolução operada por Hobbes é, ainda hoje, difícil de medir e compreender. Isso é tanto mais verdadeiro se percebermos, com Lilla, que a revolução de Hobbes não se consumou na instituição do terrível Leviatã ou na instauração de uma religião civil, mas antes percorreu um caminho liberalizante sob a orientação de homens como Espinosa, Locke, Montesquieu, Hume ou Jefferson. Na narrativa de Lilla, e com bastante plausibilidade, Hobbes, ao “mudar de assunto”, abriu o caminho para a sociedade “secularizada”.
Porém, o recurso à imagem de alguém que muda de assunto não deixa de ser problemático pela razão simples de que “mudar de assunto” não é o mesmo que responder capazmente e passar ao assunto seguinte. Se o maior revés da teologia política no Ocidente consistiu no facto de os seus adversários terem resolvido “mudar de assunto”, então não podemos obviar as consequências filosóficas dessa decisão. As reivindicações da fé são convites à sabedoria, a uma sabedoria que transcende a sabedoria meramente humana, e que decorre do facto de Deus se revelar ao homem. Como diz a tradição cristã, a fé é a porta para a compreensão. Como a filosofia e a teologia constituem duas propostas alternativas de caminho para a sabedoria, antes de se poder “mudar de assunto”, a pretensão de verdade da teologia ou da fé tem de ser refutada, ou pelo menos confrontada. Caso contrário, “mudar de assunto” não é mais do que “desconversar”. Ora, aos olhos da própria filosofia, desconversar não é conduta admissível. Em certa medida, é até confissão de derrota. E, de facto, a filosofia política moderna de Hobbes (e de Espinosa) compreendeu que precisava de proceder a uma crítica da religião e das fontes da revelação. Compreendeu que só depois de consumada essa crítica é que poderia verdadeiramente “mudar de assunto”. Ora, a ser assim, tal obrigar-nos-ia a verificar se a sua tarefa crítica foi bem sucedida ou não. Antes dessa verificação não podemos chegar a uma apreciação ponderada dos putativos méritos da sociedade “secularizada”. Até lá, vivemos no escuro. E as trevas são o contrário das luzes.