Terça-feira, 31 de Março de 2009

Finalmente um nome

As pressões sobre as investigações do caso Freeport já têm um nome: José Lopes da Mota. E admito que não fiquei surpreendido. Segundo o Público, “os procuradores que investigam o caso Freeport explicaram ontem ao procurador-geral da República, Pinto Monteiro, que as pressões para arquivarem o processo partiram do procurador-geral adjunto Lopes da Mota, que preside actualmente ao Eurojust, e que foi secretário de Estado da Justiça no consulado de António Guterres”.

Há uns tempos, o Público (este artigo é fundamental para perceber as várias relações que se estabelecem nesta investigação) também noticiava que “Lopes da Mota chegou a ser um dos nomes falados para substituir o PGR, mas na altura foram tornadas públicas suspeitas de que teria fornecido a Fátima Felgueiras uma cópia da denúncia anónima sobre o "saco azul" socialista. O inquérito aberto pelo procurador-geral Souto de Moura foi arquivado por falta de qualquer tipo de provas nesse sentido. Na década de 80, tinha sido procurador em Felgueiras.”


Este é um caso que terá de ser completamente esclarecido, sob pena de colocar em cheque a credibilidade da justiça portuguesa. Mais um!


O deserto, segundo Maurice Jarre (1924 - 2009)

LOL

A Maria João Pires, via Jugular, anuncia alegremente o "novíssimo grupo" do Facebook, unido em torno da legalização do casamento gay em Portugal. Lê-se na rubrica Positions: "It is supported by 4 of the 6 parties in Parliament so don't turn this into a 'referendum issue'." É de rir, é de rir...

Sobre a "campanha negra"

"O que os nossos ouvidos escutaram na sexta-feira à noite na TVI não é nada que os nossos olhos não tivessem já lido nos jornais há várias semanas, mas ouvir aquelas declarações da boca de Charles Smith tem uma vantagem preciosa: a de tornar claríssimo que o caso Freeport não pode ser reduzido a uma mera campanha conspirativa, e que aquilo que está em causa - por muito que custe a José Sócrates e aos seus fiéis ministros - seria notícia de primeira página em qualquer lugar do mundo. "

João Miguel Tavares, DN

Eleições 2009

Já podem ler comentários às três eleições que nos esperam em 2009 no blogue Eleições 2009, iniciativa do Público que contará, aqui da casa, com colaborações do Nuno Gouveia, do Pedro Pestana Bastos e minha.

A próxima geração que pague a conta, sff



O Governo, sempre tão rápido a responder às criticas do PSD, nada disse sobre este cenário negro, mas realista. E continua a lançar obras faraónicas. Só hoje foram mais 1.928 milhões de euros, num concurso público para a construção da terceira travessia ferroviária do Tejo, para passagem futura do TGV Lisboa-Madrid. Eu percebo que nem o eng. Sócrates, nem o ministro Lino, nem nenhum dos actuais ministros, pense que ainda vai estar no governo em 2014. Pelo andar das coisas, nem sequer em 2010. Mas acontece que todos nós cidadãos, sobretudo a minha geração, ainda vamos andar por cá em 2014, a trabalhar no duro, a educar os nossos filhos, a pagar impostos, e a tentar que o país não se afunde. Ou será que declaramos a falência de Portugal e emigramos todos no TGV para Madrid? Se não queremos que isso aconteça, temos de conseguir parar rapidamente a fúria gastadora do ministro Lino, antes que os encargos futuros se tornem mesmo insuportáveis.

Monstros e trópicos

O monstro austríaco já tem companhia. O homólogo colombiano de Joseph Fritzl chama-se Arcebio Alvarez e, durante vinte anos, terá violado a filha adoptiva, a aliterada Alba Alvarez. Neste drama tropical não há caves sinistras, classe média anémica e romances de Thomas Bernhard para justificar o comportamento de um homem. Nem sequer há pornografia onde os puritanos possam ver uma manifestação do mal. Há apenas o rústico Arcebio que não pode aspirar à grandeza literária de um Florentino Ariza a passear-se pelo corpo da menina America Vicuña. Eis o bom selvagem no esplendor da sua inocência anterior ao pecado original, à televisão e às metrópoles cinzentas e anónimas do Ocidente. O convincente e calafriante Monstro de Amstetten deu lugar ao folclórico, quase anedótico, Monstro de Mariquita. Fritzl cabe perfeitamente no fato de verdugo pós-nazi. Arcebio não serve sequer para aberração de feira tropical. Fritzl é demasiado próximo da nossa sofisticação tecnológica: caves e códigos. Assusta-nos. Arcebio, sob o nosso olhar condescendente, ainda está a sair da caverna lamacenta da pré-história. Diverte-nos. Não esperem batalhões mediáticos em Mariquita.

Conferência sobre Nuno Álvares Pereira

Na próxima Quinta-feira, dia 2 de abril, pelas 21h30, o Padre João Seabra e este vosso criado vão dar uma conferência sobre Nuno Álvares Pereira, o seu tempo e a sua recente canonização. Será no Palácio da Independência de Lisboa, ao Rossio, entre o Teatro Nacional e a Igreja de S. Domingos, a convite do Centro Cultural Pedro Hispano.
Quem era Nuno Álvares, uma das figuras mais lendárias do passado nacional? De que modo se inscreve a sua biografia na história? Que dizem sobre ele os contemporâneos? E os autores dos séculos XIX e XX, tão marcados ideologicamente? E a Igreja, não estará a dar mais um sinal de desfasamento com o mundo moderno elevando aos altares um herói medieval que dedicou grande parte da vida a fazer a guerra?
Tentaremos responder a estas e a outras perguntas. Talvez comece a fazê-lo aqui no Cachimbo, à medida que for dando os últimos retoques à palestra.
A entrada é livre. (Até para espanhóis.)

Segunda-feira, 30 de Março de 2009

Nasce uma estrela?

Desde miúdo que tenho o desejo de ver um português no top ten do ranking ATP. Será que finalmente Portugal vai ter um tenista na alta roda? Hoje, ao ver um pouco do jogo de Frederico Gil contra Rafael Nadal, fiquei com a nítida sensação que o jovem português pode subir muito mais no ranking ATP. Actualmente é o número 74, mas depois da prestação do torneio de Miami, irá subir mais uns degraus. Estou certo que no Estoril Open, com o apoio do público, Gil poderá fazer mais um brilharete.

O Procurador dos procuradores?

Espero sinceramente que o Procurador-Geral da República esclareça muito bem tudo isto, no comunicado que prometeu para amanhã. Toda a situação e estas afirmações do presidente do Sindicato dos Magistrados do Ministério Público ("estão a ser feitas pressões sobre os investigadores do caso Freeport para arquivarem o processo") são demasiado graves para a nossa Democracia e para o Estado de Direito, para persistirem silêncios institucionais. Ou será que o PGR só esclarece e emite comunicados quando dá jeito ao poder Executivo? Se a situação não se esclarecer rapidamente será mesmo necessária a intervenção do Presidente da República, enquanto primeiro Magistrado da Nação. Mas será tudo isto mais uma campanha negra? Se é campanha, não sei, mas lá que cheira mal, cheira.

É já amanhã


(Clicar para ver melhor.)

Famílias

Via Insurgente, fico a saber que Luís Filipe Menezes lamenta que "nós [o PSD] não nos estejamos a comportar como uma família".
Estou de acordo. Estou mesmo compungidamente de acordo. O triste espectáculo do nosso querido partido, em que cada um puxa para seu lado e todos criticam todos, parte-me o coração. Até parece que estamos em partilhas.
Mas este compungido acordo leva-nos à questão de definir o que seja uma família. Deduzo que o Dr. Menezes tenha de família uma noção idílica, judaico-cristã, de grande solar em que há paz e amor à volta da mesa onde todos os irmãos partilham a ceia de Natal sob o olhar benevolente do patriarca. Ou da matriarca. Pode ser matriarca, não pode?
Respeitando eu todas as famílias, atrevo-me a sugerir ao Dr. Menezes, em nome da tolerância, que seja um pouco mais aberto aos modelos familiares alternativos gerados pela modernidade. No nosso querido partido não queremos essas coisas ultraconservadoras da família-para-a-procriação, pois não? Nem essas coisas alienantes da família-ninho-de-amor, pois não?
Beijinhos, Dr. Menezes, e até ao Natal.

Educação sexual e liberdade


O relatório final do Grupo de Trabalho de Educação Sexual, coordenado pelo Professor Daniel Sampaio, que está na base do projecto de lei do Partido Socialista, recentemente aprovado no Parlamento, apresenta dois objectivos distintos (ou duas ordens de razão) para justificar o estabelecimento de um regime de educação sexual nas escolas. Um primeiro objectivo é a prevenção de possíveis consequências não desejadas dos comportamentos sexuais, como a gravidez na adolescência e as doenças sexualmente transmissíveis. Um segundo objectivo é a promoção de valores associados à sexualidade, como o compromisso nas relações afectivas e a maternidade e paternidade responsáveis.

Não é difícil perceber porque é que os dois objectivos assumem características muito diferentes. Em relação ao primeiro, as consequências não desejadas dos comportamentos sexuais são facilmente quantificáveis e a necessidade da sua prevenção é objecto de um consenso generalizado. Pelo contrário, no que se refere ao segundo, em que falamos de valores associados à sexualidade, há uma significativa ausência de consenso. Estas diferenças fazem com que a educação sexual facilmente se incline para a ordem da prevenção e o seu êxito, ou fracasso, seja medido pela redução, ou não redução, das consequências não desejadas dos comportamentos sexuais. Este efeito é perverso na medida em que não é nada evidente que a redução das consequências não desejadas dos comportamentos sexuais resulte necessariamente da adopção de uma vida sexual orientada por valores.

Qualquer pessoa atenta ao debate que nos últimos anos tem caracterizado a política nacional verifica que os portugueses têm concepções diferentes acerca do significado da vida, da família e da sexualidade. Aliás, longe de se tratar de uma divergência especificamente portuguesa, trata-se de um problema central nas sociedades de tradição democrática e liberal, para o qual a única resposta política aceitável passa por permitir que cada pessoa, ou grupo mais ou menos alargado de pessoas, possa prosseguir a sua vida de acordo com as concepções que privilegia.

No caso concreto da relação entre o poder e a educação em Portugal, a exigência de neutralidade política está patente no preceito constitucional que impede o Estado de programar a educação segundo quaisquer directrizes filosóficas, estéticas, políticas, ideológicas ou religiosas (art. 43º, nº 2). Neste sentido, o estabelecimento de um regime de educação sexual nas escolas só é legítimo num contexto de liberdade efectiva e respeito pela Declaração Universal dos Direitos do Homem, onde é explicitamente proclamada a primazia dos pais na escolha do género de educação a dar aos filhos (art. 26º).

Infelizmente, tanto o relatório final do Grupo de Trabalho de Educação Sexual, como o projecto de lei do Partido Socialista, procedem a uma inversão insustentável da hierarquia educativa, nomeadamente quando se atrevem a dizer que o êxito da educação sexual nas escolas exige a opinião, colaboração e participação dos pais dos alunos. Sob a capa do respeito pela vontade dos pais, esta disposição é insustentável pela razão simples de que não compete aos pais colaborar com as escolas para o êxito de uma educação sexual definida pelo Estado mas antes compete ao Estado colaborar com as escolas para o êxito da educação sexual que os pais escolheram para os seus filhos.

Fica claro que o único regime de educação sexual que pode ser estabelecido nas escolas, no respeito pela neutralidade exigida ao Estado no domínio da educação e pela primazia dos pais na escolha do género de educação a dar aos filhos, tem de ser antecipado por um sistema educativo em que as escolas tenham uma ampla autonomia educativa e os pais tenham garantida a liberdade de escolher a escola que manifestamente apresenta o projecto educativo - inclusivamente, no que diz respeito aos assuntos da sexualidade - que melhor se adequa ao género de educação que privilegiam para cada um dos seus filhos. Só um sistema assim constituído garante a todas as pessoas que o estabelecimento de um regime de educação sexual nas escolas não constitua uma instrumentalização do Estado para veicular uma política e moral sexual particular, que pode até ter o acolhimento de muitos portugueses mas que é absolutamente contrária às concepções do homem, da sociedade e do mundo de tantos outros.

Nota final

No próximo dia 14 de Abril haverá uma audição parlamentar, promovida pela Comissão Parlamentar de Educação e Ciência, com vista a apreciar na especialidade o projecto de lei do PS (assim como o do PCP). Vale a pena questionar nesse dia qual a razão que levou o PS a adoptar, no que diz respeito aos conteúdos curriculares da educação sexual, um articulado legal que em tudo repete o que está escrito no relatório final do Grupo de Trabalho de Educação Sexual, excepto o art. 4º, nº 3, al. g, onde se lê que a educação sexual deve promover o “Conhecimento das taxas e tendências das interrupções voluntárias de gravidez e respectivo significado”, quando se lê no relatório final “Conhecer as taxas e tendências das interrupções voluntárias de gravidez, suas sequelas e respectivo significado” (Relatório Final, 1.3.7, p. 23, itálicos meus).

Que o PS está empenhado em instrumentalizar a escola (o lugar por excelência onde todas as crianças estão obrigatoriamente reunidas) para promover uma agenda moral particular (que está em choque directo com a moral de tantos e tantos portugueses), é algo que facilmente se conclui através da consulta do projecto de lei; que o faça com o recurso à artimanha (e ao arrepio das indicações do grupo científico constituído para avaliar os contornos da educação sexual nas escolas), é revelador de como a ambição do PS em transformar a mentalidade dos portugueses não tem limites, mesmos que para isso seja sacrificada a transparência prometida pelo regime democrático e liberal ainda recentemente conquistado pelos portugueses.

Novidades da blogosfera

O Geração de 60 "contratou" o João Pereira Coutinho e Miguel Esteves Cardoso.

Rankings

Top Young Economists. Lido na diagonal parece-me que metemos lá 4 (3 em 10 years or less, 1 em 5 years or less), com destaque para o Ricardo Reis em segundo lugar. (via Greg Mankiw)

Pinho: a propaganda de rosto humano

Num "périplo de quatro dias por mais de 15 fábricas" andou o ministro Manuel Pinho, conta-nos o Diário de Notícias, sempre generoso com o governo. Vale a pena registar algumas frases do ministro:
Bem se vê que o ministro fala das pessoas (as tais que "estão aflitas" e que ele usa como figurantes da sua propaganda) com um paternalismo insultuoso, mas, apesar do seu discurso tipicamente reaccionário contra as "teorias" (o velho rancor de quem não pensa nada) e contra as "atitudes rezingonas" (uma outra versão dos "insultos" de Sócrates e que não são mais do que oposição pura e simples), ele sabe muito bem que está ali em acções de propaganda, está ali a fazer política - e da partidária. Se não, vejam-se os seus apartes tão reveladores:
-Em Paços de Ferreira, com um Pedro Pinto autarca do PSD, entusiasmadíssimo com o ministro, ele considera que a fábrica da Ikea é "uma espinha cravada no coração do PSD". Reflecte: "A oposição, quanto mais fala em PME [Pequenas e Médias Empresas] mais me ajuda";
Deste modo quase repugnante, Pinho reve-se como uma espécie de proprietário eleitoral "daquela gente". Aliás, proprietário tout court, porque, no mundo ideal da sua cabeça, nem seriam precisas eleições. "Aquela gente" adora-o, pertence-lhe como criaturas menores que querem apenas ser salvas por ele e não querem nada com "teorias", com sindicalistas e, presume-se, com aquela senhora "rezingona" da oposição.

Domingo, 29 de Março de 2009

Parabéns a Jorge Sampaio?


Também acho que Jorge Sampaio merece os parabéns (atrasados, já sei) "pela distinção que recebeu do Conselho da Europa pelo trabalho realizado em prol do entendimento entre os povos" ou por qualquer coisa desse género. A minha dúvida é a seguinte: e o que merece Sampaio pelos 10 anos em que presidiu ao desabamento do País?
Enfim, Sampaio sempre terá a atenuante tipicamente portuguesa: somos sempre muito bons a tomar conta dos bicudos assuntos internacionais (ver Guterres, Freitas do Amaral, Durão Barroso). O pior é quando toca a tomar conta aqui da província. Aí é que a coisa se complica. Mas mesmo assim a malta prefere dizer, como os jogadores de futebol, que "estamos todos de parabéns".

Serviço Público


The Getaway passou ontem, na RTP2. Tem Steve McQueen em estado de graça, Ali MacGraw em estado de beleza e vários momentos, como o tiroteio no hotel, que só podiam ter sido filmados por Sam Peckinpah.

Mais ERC e o tal canal

Não duvido da existência de um poder excessivo e arbitrário da ERC, o qual combati enquanto desempenhava funções ligadas a esta área, e que resultou de uma lei aprovada logo em 2005 na ressaca do "Casa Pia" (com votos a favor do PS, PSD e CDS é sempre bom lembrar). É em parte por causa daquela cóboiada mediática ocorrida em 2002/03 que a agenda socialista para os media é tão dura. O trauma foi profundo.
Por isso mesmo também não duvido que a ERC tenha competências para pôr e dispôr no concurso do quinto canal. Se a ERC é ou não um instrumento deste Governo eu acho que não, mas acredito que entre qualquer almoço ou telefonema se tenha cozido um entendimento para evitar um mal maior (o lançamento do tal canal). Mas isto não é necessariamente manipulação.
Resta saber então porque não deve haver um quinto canal. Alguns leitores do Cachimbo propõem uma posição liberal (corajosa nestes dias), onde o mercado - neste caso as audiências - decide quem deveria sobreviver. Ora acontece que televisão não é um mercado qualquer.

O Mistério da Fé (2)

Obama Invite Draws Notre Dame Alumni Outcry
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Notre Dame's decision to invite President Barack Obama to deliver this year's commencement address is a "telling event," says the president of a group of alumni who are protesting the move.
William Dempsey is the president of Project Sycamore, a Web site founded three years ago by alumni concerned about the state of the university's Catholic identity.
In comments to ZENIT, Dempsey affirmed that the university's "Catholic identity has been severely weakened, and this episode brings all of that to the fore."
More than 700 Notre Dame alumni have signed a petition launched today by Project Sycamore protests the university's decision to invite Obama, a known advocate for abortion rights, to speak at its commencement ceremony and give him an honorary degree.
...
The petition of Project Sycamore notes Obama's "unwavering and notorious support of the pro-abortion agenda," and said Notre Dame has "inexplicably decided to honor him."
In a letter sent on behalf of the project to Father John Jenkins, president of Notre Dame, the group expressed their "astonished dismay at, and deep disappointment."
"President Obama's statements and executive and legislative actions identify him as unremittingly hostile to the moral claims of the unborn and accordingly to a central teaching of the Catholic Church," the letter explained. "By virtue of his position, he is now the nation's leading champion of virtually unrestricted abortion rights."
"No matter any disclaimers by the University or what President Obama says," the note added, "the ineradicable facts that will stamp this occasion are the University's decision to inscribe in the University roll of honorees the name of the most pro-abortion President in the nation's history and its choice of him as the person to speak to the 2009 graduates about the values they should hold dear."
...
Zenit.org (25.03.2009)

Cachimbos de lá


Norman Rockwell, O avô e o boneco de neve (1919)

Se

A já famosa vaia a Sócrates no CCB representa um novo patamar de contestação ao Governo. E, portanto, um passo atrás na miragem da maioria absoluta. O público que vai a Belém assistir à estreia de uma ópera contemporânea não é exactamente composto por irredutíveis sindicalistas do Barreiro, ou fazendeiros proto-reaccionários do Oeste, ou empedernidos professores de Trás-os-Montes. Quantos dos impacientes que estavam ontem à noite no Grande Auditório não terão votado PS há quatro anos? E quantos votarão PS nos próximos meses?
Sócrates bem pode anunciar medidas, projectos e magalhães, ganhar congressos por números albaneses, acusar as corporações de egoísmo e as oposições de bota-abaixismo, culpar o mundo pela crise e a Dra. Manuela pelo aquecimento global...
O que fica para a história é este facto singelo: em finais de Março de 2009, o Primeiro-Ministro de Portugal não pode sair à rua sem ser assobiado.
Se não é o princípio do fim, quer-me parecer que é o fim do princípio.

Sábado, 28 de Março de 2009

Escrever direito por linhas direitas



Que o caso Freeport tem um óbvio interesse jornalístico e a RTP está a minimizá-lo, ninguém duvida. O que é complicado é o seu tratamento político, em especial para o PSD.

Enquanto os tribunais não lançarem alguma luz sobre o pântano, um acto de decência judicial que começa a tornar-se uma necessidade de sobrevivência do regime, Manuela Ferreira Leite não pode ir muito mais longe do que foi hoje. O PSD, um partido de poder, não pode dar-se ao luxo de substituir os tribunais pelos telejornais. E, sobretudo, não pode cair na tentação de procurar atalhos para São Bento que passem por Alcochete.

Declarações histriónicas como as de Alberto João Jardim, a gritar que se isto fosse em Inglaterra já o Primeiro-Ministro se teria demitido, só servem para tornar ainda mais insuportável o ambiente de suspeita das instituições em que vivemos. Até porque Jardim não é propriamente um modelo de ética política.

Pág. 161, frase 5

O Paulo Tunhas engatou-me na cadeia da bibliotice. Engatado, não me posso desatrelar:
Sie erhalten auf diese Weise denselben göttlichen Boden zu ihrer Grundlage, den die Welt hat.
Da Humanistische Seelenforschung, do Karl Kerényi, que vou lendo agora.
Como o camarada Picoito já aqui deixou o desafio aos cachimbos restantes, vingo-me na vizinhança: estão desafiados a Laurindinha, o Jansenista, o João Galamba, o Carlos Vidal e o Filipe Nunes Vicente.

Uma questão de números ou de outra coisa diferente?

Falam na TV das manifestações "contra a globalização" que se realizaram na Europa. Em Berlim, disse a jornalista, a manifestação contou com a presença de 10 000 pessoas. Não percebo, então, por que é que isso chega a ser notícia. Deve ser porque tudo o que soa a "alter-globalização" é notícia. Ou porque os militantes destes movimentos são especialistas não só em criar desacatos, mas em chamar a atenção desse rebanho tilitante chamado comunicação social. Exagero? No pequeno e pouco populoso Portugal, a CGTP consegue reunir 10 000 pessoas para um almoço-convívio com o nosso czar sindical. De 2 em 2 meses temos 100 000 pessoas na Avenida da Liberdade. É assim que me querem convencer da "explosão social" na Alemanha?

Teimosia Viável ou um País de Bárbaros?

Dizia-me um amigo das andanças académicas que estava preocupado com a incapacidade crescente manifestada pelos académicos portugueses de aceitar críticas ao seu trabalho. Repare-se que estou a falar do meio académico, em que a crítica dos pares desempenha um papel insubstituível na progressão do trabalho científico. E a queixa deste meu amigo pode ser verificada todos os dias, em todas as esferas de actividade. Somos um País de gente medrosa, insegura, freneticamente ciosa do risível quintal que vai assegurando, e em guerra com um conjunto infindável de ameaças que os outros suscitam. No fundo, isto é também um reflexo do País que fomos construindo nos últimos anos. Um País literalmente de bárbaros, isto é, de pessoas incapazes de manter uma conversação racional.

A excomunhão pendente

Vai por aí algum alvoroço por um bispo - o de Viseu - ter publicado isto. O bispo, estranhamente, defende a "obrigação moral" da pessoa infectada "se prevenir e não provocar a doença" noutrem e, para isso, não prescindindo de relação sexual, será "aconselhável" ou mesmo "eticamente obrigatório" o uso de preservativo. Os media montam o espanto circense do costume com o "atrevimento" do bispo e o próprio titular, ajudando à festa, já veio dizer (numa curiosa contradição com o seu texto) que "não receia polémicas".
Esperam-se hordas de Católicos enfurecidos invadindo Viseu e reclamando a lapidação sumária do bispo. A Santa Sé, por esta hora, espumará em raiva doutrinal.
É que, como toda a gente sabe, Bento XVI defende que um doente infectado deve contagiar alegremente os seus parceiros.
Tempos divertidos, estes.

País de terceiro-mundo?

A notícia que o First Couple foi vaiado pela plateia do CCB não me surpreende. Qualquer pessoa teria feito o mesmo se fosse obrigada a esperar meia hora pela chegada de suas excelências. Mas fico admirado pelo CCB não ter iniciado a ópera apenas porque o PM não tinha chegado. Não poderemos considerar isto uma subserviência excessiva ao PM? Será que as coisas têm de ser feitas à medida de sua excelência? Isto teria alguma lógica num país de terceiro mundo, agora em Portugal…

Sexta-feira, 27 de Março de 2009

A Velha República

Foi hoje publicado o plano das comemorações do Centenário da República. Ali se exibe com vaidade um orçamento de 10 Milhões de Euros, grotescamente abastado para tempos de crise e de desemprego. Vê-se bem que a disciplina orçamental que reivindica moderação nos prémios e nos aumentos salariais não se aplica aos capatazes da ideologia.
De resto, a grandeza da efeméride tem reflexo no tipo de festejo que suscita: a instauração da 1ª República, o pior regime para Portugal destes últimos cem anos - não ignorando o demérito daquele que o antecedeu e já ponderando, apesar de tudo, o tempo de Sócrates - suscita apenas subvenções públicas, apoios estatais e mobiliza os suspeitos do costume. Todas as iniciativas são centralizadas e não têm nada de espontaneidade popular (ao contrário do que, por exemplo, sucede com as comemorações do 25 de Abril).
Aprender com os erros do passado, nada. Desenvolver uma pedagogia diante da irresponsabilidade e cegueira de alguns dos seus mais importantes protagonistas, nada. Apontar a reconciliação e a mobilização de todos para a afirmação de uma renovada identidade nacional, nada. Nada quanto a estudar o que levou ao aparecimento e à aspiração do Estado Novo e ao facto da recente República (em menos de 16 anos) ter ficado tão rapidamente velha, saturada e nociva.
O primeiro objectivo das comemorações é, pois, «evocar a República e o republicanismo, divulgando os seus ideais cívicos, as suas principais realizações e os seus grandes protagonistas». Não há uma leitura objectiva e factual da história, uma preocupação de compreensão do movimento republicano, integrando-o na Revolução Francesa e nos grandes movimentos ideológicos que massacraram o século XX (nomeadamente comunista, nacional-socialista e fascita). Apenas a divulgação do mito que, pelos vistos, continua a alimentar alguns, teimosamente ignorantes e cegamente confiantes na ideia criada à força da vontade do progresso que tanto nos fez regredir.
O problema não é novo. O doente não sabe o seu remédio, muito menos quando não reconhece a doença. Por isso, lá vamos nós embarcar em mais esta excentricidade que antes de começar já cheira a mofo, sabe mal e não contribuirá em nada para a renovação, cada vez mais urgente, do regime republicano.

New blog on the block

Na bloga, nada se perde e tudo se transforma.
O Rui Castro voltou com o Blogue de Direita, patrocinado pela Sábado e na companhia do João Gonçalves, do João Miranda e do João Vacas.
Espero que o pessoal de fora também possa entrar na guerra.

Vamos ao que interessa ou o Grand Slam da Irlanda



A Irlanda venceu o Torneio das Seis Nações no Sábado passado, com uma vitória sobre o País de Gales por 17-15 que deu também aos irlandeses o primeiro Grand Slam (a vitória sobre todas as outras equipas) desde 1948. A jogar em Cardiff, e depois de uma derrota expressiva com a França, os galeses tinham de ganhar por 13 pontos para triunfar no torneio, mas foi sempre a Irlanda a controlar as operações. Graças a um inteligentíssimo jogo ao pé e a uma sólida defesa, criou enormes dificuldades ao adversário, que nunca conseguiu libertar-se do colete de forças e do peso da responsabilidade. A jovem equipa galesa foi uma sombra de si própria, sem uma uma única jogada à mão digna desse nome. Até o mago Shane Williams, que já sabíamos não ser tão bom a defender como atacar, esteve mal - tanto a defender como a atacar.
O embate, muito intenso mas também muito táctico, foi decidido nos primeiros cinco minutos da segunda parte, com dois ensaios de rompante dos verdes, e nos cinco minutos finais, com um duelo de pontapés capaz de obrigar o mais fervoroso abstémio a esgotar o stock de bebidas brancas para lá da Mancha. A cinco minutos do fim, Stephen Jones (autor de todos os pontos galeses) arrancou um drop que pôs o resultado em 15-14. O Millennium Stadium quase vinha abaixo: a conquista do torneio era já uma miragem, mas pelo menos os locais batiam os vencedores - por um ponto que fosse. Só que a Irlanda não veio abaixo e, dois minutos depois, o abertura O`Gara (melhor marcador de sempre do Seis Nações depois desta jornada, by the way) respondeu com outro pontapé de ressalto. 17-15 e os do trevo na frente. No ultimíssimo minuto, Stephen Jones dispôs de uma derradeira oportunidade de virar o marcador com um pontapé de cinquenta metros. De certeza que nunca se rezou tanto a São Patrício como nos breves momentos, aparentemente eternos, em que o nº 10 galês colocou suavemente a oval sobre o relvado, recuou três passos, olhou o longínquo H e iniciou o curto galope para chutar a bola que levava consigo o destino histórico de Cymru. De certeza, porque Jones falhou. Honra aos vencidos. Glória aos vencedores.
Pois é da glória, da gloriosa glória, que se trata. Em 1948, ainda o Muro de Berlim estava a ser construído, Nascimento Rodrigues não era Provedor de Justiça e até o senhor meu Pai era um infante de meses. Uma glória tão gloriosa que nunca acreditei na Irlanda. Longe de mim insinuar que o senhor meu Pai é culpado de desacertos próprios, mas as minhas esperanças, como sabem, iam todas para Gales, vencedor do torneio e do Grand Slam no ano passado. A razão era simples: o influentíssimo O`Driscoll e os seus três-quartos pareciam-me demasiado velhos e os avançados, pelo contrário, pareciam-me demasiado novos.
Pois bem: falhei redondamente. Não só os homens da frente superaram todas as expectativas (vide o segunda linha Paul O`Connel e o número 8 Jamie Heaslip, a revelação do torneio), como O`Driscoll foi eleito, com toda a justiça, o melhor jogador do Seis Nações de 2009, graças à inquebrantável liderança da equipa, a uma capacidade defensiva de tirar o fôlego e aos quatro ensaios que decidiram jogos. O homem até se deu ao luxo de marcar o drop que arrumou os ingleses... O que é que se pode pedir mais a um O`qualquer coisa?
Aos 30 anos, talvez não lhe falte muito para dar o lugar a outros. A única dúvida em todos os pubs onde a Guiness corre livre e feliz é se ele se tornou, no último Sábado, o melhor três-quartos irlandês de sempre ou se esse título continua a pertencer ao lendário Mike Gibson, o senhor que vêem lá em cima, à esquerda, envergando as cores dos British Lions. A dúvida é um pouco académica, como todas as dúvidas que surgem onde a Guiness corre livre e feliz. Gibson, hoje um pacato advogado de Belfast, jogou durante dezasseis anos pela Irlanda, quando o rugby era ainda um jogo de cavalheiros, e marcou nove ensaios em 69 partidas com a camisola verde (um record para a altura). O`Driscoll é um atleta profissional que, em dez anos, marcou 36 ensaios (o centro com mais ensaios de sempre em jogos entre selecções) e fez 93 jogos de trevo ao peito. Além de... enfim... ter ganho um Grand Slam.
Não sejamos injustos com o grande Mike Gibson, porém. A verdade é que a estrela do Ulster fez parte da equipa que podia ter conquistado "o outro" Grand Slam do rugby esmeralda. Em 1972, depois de vencer fora a França e a Inglaterra, os irlandeses esperavam ganhar, em Dublin, à Escócia e ao País de Gales. Mas, para seu desespero e devido à escalada de violência que se seguiu ao dramático Bloody Sunday, estas equipas recusaram pura e simplesmente pôr o pé na ilha, invocando razões de segurança. Foi a única vez que o centenário torneio, então das Cinco Nações, terminou incompleto.
A Irlanda teve no Sábado a sua doce vingança. Ou talvez não tão doce. Porque é uma amarga ironia da história que, no ano em que o rugby irlandês vive a sua finest hour, a violência sectária tenha regressado com os atentados do IRA. Recorde-se que o rugby é o único desporto em que as duas Irlandas, a "católica" do Sul e a "protestante" do Norte, jogam sob a mesma bandeira. Mike Gibson, um filho de Belfast, e Brian O´Driscoll, um filho de Dublin, são bem o símbolo dessa outra glória do rugby irlandês, maior do que todos os grand slams que São Patrício lhe possa dar.

Será isto racismo?

Lula da Silva diz que crise foi provocada por "gente branca de olhos azuis"

Fosse esta frase pronunciada por outro político, como por exemplo por Sílvio Berlusconi, e certamente teríamos o queixume daquelas brigadas insuportáveis do politicamente correcto. Como foi Lula da Silva, no passa nada. A indignação é selectiva. Certas barbaridades apenas são criticáveis quando proferidas por certos políticos. O que diz muito da sinceridade desse sentimento.

Mário Soares, a mediocridade e a grandeza


Há alguns dias, o dr. Mário Soares queixou-se da "mediocridade" dos actuais líderes europeus. Suponho que haverá muita gente que concorde. Mas não podemos evitar um certo desconforto assim que tomamos em consideração o padrão de grandeza que o dr. Mário Soares implicitamente utiliza. Foi talvez esse padrão de grandeza que o aproximou de François Mitterrand e de Bettino Craxi.

Ora Mitterrand foi um corrupto e um adúltero; colaborou com Vichy durante a juventude; quando chegou a Presidente da República meteu mãos à obra para arrasar o País que deveria governar, e quase conseguiu destruir a França em 10 meses com a sua famigerada experiência socialista; alimentou a Frente Nacional de Le Pen para minar a direita moderada; hesitou no apoio a Gorbachev quando o estalinismo deu o seu último suspiro e durante alguns dias o removeu do poder; opôs-se à reunificação da Alemanha; não se cansou de coleccionar amigos entre déspotas muito pouco recomendáveis no Terceiro Mundo. É preciso continuar? E Craxi? Vale a pena dizer alguma coisa sobre esse exemplo do grande e nobre estadista?

A mediocridade anda por aí, é um facto. Mas a Europa sobreviverá mais facilmente a essa mediocridade do que a tanta "grandeza".

Eu também sou um "malhador" - ainda a ERC

Francisco, já leste isto?

ERC e Pára o 5º Canal (2), no ABC do PPM

«Luís Gonçalves da Silva e Rui Assis Ferreira, os dois membros do Conselho Regulador da Entidade Reguladora para a Comunicação Social que decidiram votar contra o chumbo das propostas para o quinto canal, não reconheceram capacidade à entidade para avaliar os projectos da Telecinco e da Zon nesta fase do concurso.

A notícia surge através da declaração de voto a que a agência Lusa teve acesso, onde Gonçalves da Silva refere não existirem, neste momento, “fundamentos suficientes que justifiquem a exclusão dos concorrentes”. Mais. “O Conselho Regulador não está juridicamente e tecnicamente habilitado, neste momento concursal, para fazer uma análise do mérito das propostas”. Assis Ferreira, segundo a Lusa, declarou no documento que “impunha-se possibilitar, no interesse do princípio do favor do concurso, uma análise de mérito dos projectos concorrentes”.»


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A herança

O peso da dívida pública passou em quatro anos, de menos de 60% do PIB para cerca de 95% do PIB.
Esta é, sem dúvida, a herança de um governo PS que não soube ou não quis cortar despesa pública.
A campanha eleitoral, se for séria, terá como um dos pontos centrais a dívida pública, e o modo como cada um dos partidos se propõe encarar esta herança. O desafio e a responsabilidade da direita, e sobretudo do CDS, será propor um modelo sustentável de Estado e de desenvolvimento, que previna as futuras gerações de serem obrigadas a repudiar esta herança e a saírem de Portugal.

Afinal a cor da pele conta muito


«Em encontro com o primeiro-ministro britânico Gordon Brown, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou, nesta quinta-feira, que as decisões políticas neste momento de crise são mais importantes que as econômicas. "Ele (Gordon Brown), outros líderes mundiais e eu sabemos que o momento exige decisões políticas profundas mais fortes que decisões econômicas que viermos a tomar", afirmou. Lula reforçou que a crise financeira internacional foi causada e fomentada por "gente branca, e de olhos azuis", numa referência a especuladores estrangeiros, de países do primeiro mundo.

Ao ser questionado por um jornalista se sua afirmação não teria um viés ideológico, Lula destacou: “Como eu não conheço nenhum banqueiro negro ou índio [...] eu só posso dizer que não é possível que esta parte da Humanidade, que é a mais vítima do mundo pague por uma crise. Isto não é possível”, completou.»

Os Loucos Anos 80 (95)

Violent Femmes, "Add it up" (porque já não há saco para a alegria juvenil de "Blister in the Sun"), 1982

Quinta-feira, 26 de Março de 2009

Agora na TV

Fala uma criatura que cumpre à vírgula as instruções que recebe de cima. Sem deslizar nem hesitar. A contradição grosseira é preferível à revisão da opinião oficial. E assim testemunha a perfeita e acabada inconsciência do grupo que nos governa. Este País promete.

Nova Ordem Mundial

"Chinese vessels never used to bully the US Navy as they did the USNS Impeccable in March. North Korea had never before ripped up its agreement with the south or offered the calculated challenge as publicly pre-announcing the date of an illegal ballistic missile test. Not since Jimmy Carter has the world seen Russia laugh at Washington as it did over the recent request to swap eastern European missile defence for co-operation in Iran, or the cheap ($2.1bn) Russian buyout of America’s base in Kyrghizstan (forcing vital Nato supplies for Afghanistan overland through Russia and Iran, and giving Putin and the mullahs huge leverage). And even worse than the tragic Vietnam that Obama is digging in Afghanistan is the fact that, in two years, Iran will probably have a nuclear weapon. This would be one of the greatest foreign policy disasters in American history." Vale a pena ler o artigo todo.

"O Papa tem razão"


Dama de Ferro

«(...) A política da «dama de ferro», como foi chamada, conseguiu reduzir para metade esse buraco (4,2%) em 2003. Mas a linha não teve continuidade. O Governo saiu em Julho de 2004 e no fim do ano o défice externo já subira para 6,1%. Desde que Sócrates está no poder tem flutuado entre os 8% e os 10%. A única pessoa que nos últimos 15 anos enfrentou este grave problema foi Manuela Ferreira Leite. Ela é o rosto da austeridade, dureza, solidez. Assim nas próximas eleições, para lá da escolha entre partidos, há uma questão psicológica nacional interessante. Será curioso ver a escolha que os portugueses farão, porque indica o caminho que querem seguir na crise.»

Dama de Ferro, por João César das Neves aqui.

Quarta-feira, 25 de Março de 2009

Do fim do quinto canal generalista

Miguel, é um pouco mais complicado que isso. A introdução de um quinto canal generalista em Portugal só iria fragilizar ainda mais os nossos grupos de media que já estão num lindo estado: A Impresa (SIC) está na enésima reestruturação desde 2000 e teve outra vez prejuízos no ano transacto e a Media Capital (TVI) tem a casa mãe (os espanhóis da Prisa) à rasca com a dívida. Entretanto, o mercado publicitário, depois de ter crescido em termos reais 0% nos últimos 9 anos, este ano vai ter crescimento negativo. Uma democracia saudável precisa de grupos de media prósperos, assegurando assim a sua independência face ao poder político. Um 5º canal só iria piorar as coisas. O Ministro Santos Silva sabia isso do início e tenho a certeza que se deliciava com esta perspectiva. Por isso teimou até ao último segundo. A crise tornou inevitável este mini-teatro da ERC: considerar que nenhum candidato "reunia condições" para ganhar o concurso do 5º canal, quando obviamente que o que se passou foi uma decisão política de cancelar de vez esta ideia peregrina (calculo que tenham havido pressões fortíssimas dos grupos, à boleia da referida crise).

Agora a parte mais interessante: Esta malta da Telecinco, onde está envolvido o inevitável Rangel, terá por trás "investidores angolanos". Ouvi isto de lados diferentes e não me surpreende. São precisos umas boas dezenas de milhões para arrancar com um canal generalista. Não tendo nada contra os angolanos, preocupa-me porém a ideia de outsiders fazerem dumping nos preços dos anúncios para ganharem share à força e rebentarem com a SIC e a TVI. Para isso já basta a RTP.

Lá vou eu promover deslocalizações

Carlos, lês de mais no meu post. Eu apenas lembrava a hipocrisia que é bajularmos as empresas estrangeiras que querem investir em Portugal, aproveitando os salários mais baixos que se pagam em Portugal do que nos países de origem dessas empresas; termos, na realidade, apoiado bastante este aproveitamento da tal "mão-de-obra barata" e vilipendiarmos as empresas quando estas querem aproveitar a mão-de-obra ainda mais barata de outros países. E, sobretudo, fazermos referências xenófobas (a autoria não está isenta do critério que se aplica a líderes de direita, como o Vasco Campilho muito bem iluminou; eu também não aceito esta impunidade que a esquerda se pretende auto-conceder) a povos que, tal como nós, procuram enriquecer. Sinceramente, antes de uma questão económica, é uma questão moral: não diabolizarmos os outros por fazerem aquilo que nós consideramos bom para nós.

Mas, respondendo-te, claro que a UEM não é perfeita. Recordo-me de aulas na Católica em que precisamente um dos arquitectos desta UEM esperançadamente falava das harmonizações fiscais, de preços, de salários que a UEM mais cedo ou mais tarde traria. Quanto ao tarde não sabemos, mas cedo é evidente que não trouxe. No entanto o ponto também não é o da livre circulação de pessoas, algo que claro que na UE será sempre mais complicado do que nos EUA. Eu não entendo é porque razão há-de Portugal persistir em manter empregos que sobrevivem devido a ordenados baixos quando actualmente há uma grande abundância de países com mão-de-obra mais barata. Nós já não podemos competir nesse segmento. O que um liberal defende é que não haja grandes entraves a que esses postos de trabalho terminem por aqui e que não haja grandes entraves a que novas empresas que não dependam tanto de custos laborais baixos se estabeleçam. Sim, isso significa ter aumentos de desemprego e sim, representa que se tem que dar protecção no desemprego aos desempregados. Os custos desta situação não são com certeza maiores do que os custos de manter empresas inviáveis e postos de trabalho artificiais. Que é o que temos feito nas últimas décadas, com o bom resultado que vivemos: desde 2000 que ou estamos em recessão ou estagnados. Veja-se por exemplo o que sucedeu em Espanha, que depois de um grande desemprego obteve crescimentos invejáveis. Por cá, empobrecemos alegremente. E continuamos a insistir na receita que deu estes notáveis resultados. Brilhante.

(Quanto à Índia, realidade de que conheço alguma coisa por motivo profissionais, espanta-me sempre que alguém diga "ah, mas lá há muita intervenção estatal, aquilo não é nenhum paraíso liberal", como se algum liberal apontasse a Índia ou a China como as economias mais livres do mundo. O que é verdade é que há uma grande flexibilidade do mercado de trabalho nos casos chinês e indiano, há a cultura do espírito empreendedor, particularmente na China, e logo que a regulação estatal deixou de asfixiar a economia os dois países aproveitaram para, dentro dos graus de liberdade económica adquirida, produzir e enriquecer.)

Não entendi, pela tua argumentação, por que razão é o investimento público necessário. Porque a mobilidade de factores não é perfeita?! Quando o Estado já gasta metade do que produzimos? Sem avaliação da qualidade do investimento público? Concluindo, o que acho mesmo estranho é, não tendo o BE de apresentar desculpas aos eslovacos, dever o PSD apresentar desculpas ao BE por divergências políticas.

Os deputados, o Parlamento, o Governo e o Regime.

Foi uma autêntica vergonha para a instituição parlamentar a audição de hoje à ministra da Educação na Comissão de Educação e Ciência. E digo isto porque os deputados não só aceitaram que fossem os secretários de Estado do ministério chefiado por Maria de Lurdes Rodrigues a responder à grande maioria das perguntas, como quando pediram, os deputados, que fosse a ministra a fazê-lo, acabaram por ser alvo de ironia gratuita, quando não do sarcasmo, de Jorge Pedreira (vi-o e ouvi-o na TV). Ora respondendo o governo e os seus ministros perante o parlamento, porque razão aceitaram os deputados que fossem os secretários de estado a responder às perguntas? O que é que impedia, objectivamente, a ministra de responder às perguntas dos deputados? Que se saiba, absolutamente nada! Vai mal portanto o regime por ter ministros e outros membros do Governo que não respeitam o parlamento e os deputados. Mas vai mal, sobretudo, por tanto o parlamento como os deputados não se darem ao respeito, a começar pelo deputado António José Seguro que presidiu aos trabalhos.

Abaixo o investimento estrangeiro

Por uma questão de coerência - sim, eu sei, é pedir muito, mas faz parte do meu credo não perder a esperança na espécie humana - o BE devia exigir que todas as empresas que no século passado fecharam portas na Alemanha ou em França para abrirem fábricas em Portugal fossem coercivamente encerradas pelos seus trabalhadores escandalizados com as deslocalizações de que foram alvo. Também devia incentivar os trabalhadores portugueses a boicotarem qualquer nova empresa estrangeira que queira oferecer alguns postos de trabalho a portugueses: esses senhores que vão pagar salários a canadianos, alemães, britânicos, que os trabalhadores portugueses não têm que aceitar empregos apenas por que há malvados capitalistas que querem diminuir os custos com o pessoal pagando os ordenados mais baixos que os portugueses auferem. Em suma, e por uma questão de coerência, deveria apresentar uma lei à Assembleia da República ilegalizando o investimento estrangeiro em Portugal. Não se podem aceitar deslocalizações, ponto, mesmo quando beneficiam os trabalhadores portugueses.

Claro que o BE, se os seus dirigentes tivessem um pingo de pudor, deveria também pedir desculpa a todos os eslovacos.

A preguiça de certos comentadores

Certos comentadores da nossa praça limitam-se a fazer oposição à oposição, a maior parte das vezes sem grande capacidade de argumentação. Carlos Abreu Amorim é um deles. Num dos seus artigos de crítica fácil que normalmente nos brinda sobre Manuela Ferreira Leite, insurge-se desta forma:

"Sobressaltou-me o lugar onde Ferreira Leite falou: na Curia [corrigido], na Universidade de Verão da JSD. É que estamos em Março, a três meses da estação estival! Portanto, o seu calendário está adiantado ou, temo bem, fatalmente atrasado."

Se o prezado cronista fizesse o trabalho de casa teria reparado que a intervenção da líder do PSD tinha sido feita na Universidade Europa, iniciativa promovida pela JSD e pelo Grupo de eurodeputados do PSD.

Aí está uma boa notícia

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Correio da Manhã (24.03.2009)
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Não sei quem é que tem razão neste conflito. Parafraseando um dos nossos queridos governantes, a única coisa que me importa é que se "malhe" na ERC.

O Humanismo não é um Humanismo


A propósito do lançamento desta colectânea de ensaios de Milan Kundera, Un rencontre, Alain Finkielkraut escreveu esta recensão no Nouvel Observateur. Uma das coisas mais interessantes que daí ressalta é esta remissão de Kundera para uma das suas mais surpreendentes origens literárias: "Jeune homme, dans Une rencontre, j'essayais de m'orienter dans le monde en train de descendre vers l'abîme d'une dictature dont la réalité concrète n'était prévue, voulue, imaginée par personne, surtout pas par ceux qui avaient désiré et acclamé son arrivée: le seul livre qui a été capable de me dire quelque chose de lucide sur ce monde inconnu a été Les dieux ont soif.

Para compreender todas as vielas obscuras do totalitarismo estalinista, Kundera encontrou o guia mais fiável na obra de Anatole France que apresenta a sua narrativa na cidade de Paris durante os anos do governo da Convenção, do Comité de Salvação Pública, de Robespierre e de Saint-Just, dos tribunais revolucionários, do Terror, do jacobinismo. Em Les dieux ont soif dir-se-ia que a sombra de Rousseau projecta-se sobre todos os passos das personagens - os amantes absorvem a "nova" sensibilidade, por exemplo. Mas é preciso acrescentar que esta sombra é a de um Rousseau especificamente interpretado pelo jacobinismo de Robespierre, o que apesar de tudo convém não esquecer. O mais importante, porém, é o reafirmar desta conclusão: que a crítica do totalitarismo implica uma crítica da Revolução francesa e do fenómeno revolucionário enquanto tal.

Sempre lhes podem perguntar

Em Portugal, pior do que a triste agonia económica dos últimos quinze anos só mesmo a incapacidade para sair dela. Um dos discursos que cava ainda mais fundo esta vala é aquele que tenta recompensar tudo aquilo que fizemos de errado nestes últimos anos através da comparação com as assimetrias de relativo curto prazo na absorção da actual crise internacional. Exemplo: estão a ver a Irlanda? Previsões a três anos com recessão (-3% ou -4%), desemprego (11.3%) mais do que duplicou desde 2008, défice orçamental previsto alí a bater nos 12% para 2009/2010, etc's ? Muito bem, de acordo com uma certa corrente opinativa ainda bem que nos mantivemos pobrezinhos todos estes longos anos, já viram o que nos pouparam? Uma grande crise. Antes não nos tivessem poupado, se as coisas acontecerem como estão "previstas" (podem correr pior, mas também melhor), a nossa performance económica recente é bem mais dramática do que a actual crise irlandesa colocada em perspectiva ao longo dos vários anos. Só nestes aninhos mais colados a nós, a Irlanda crescia 5 vezes mais, alargando a série é de olhar para o lado, afinal não é devagarinho que se tem um PIB per capita entre 2 a 3 vezes maior que o nosso segundo as metodologias que usarem.

Tudo isto para dizer duas coisas, uma que o nosso passado recente não é recomendável excepto como memória do que não se faz. Outra que a crise na Irlanda em perspectiva com Portugal faz, até ver, lembrar aquela velha anedota "proletária" ao "patrão": Troco o meu salário pelo seu aumento. Perguntem aos irlandeses se querem a nossa economia em troca da sua crise.

Os convertidos da política

Nunca mais esqueci uma lição que aprendi nos tempos da Universidade. Discutia-se os nomes dos possíveis candidatos a reitor, e um dos ventilados gerava grandes anti-corpos nos estudantes, dado o seu sórdido passado em relação à comunidade estudantil. Recordo-me que todos os estudantes membros da Assembleia da Universidade repudiavam o seu nome, e invocavam “pragas” contra a sua possível candidatura. Posteriormente, esse professor foi mesmo candidato a reitor, e muitos dos que o abjuravam, apoiaram-no contra o candidato que viria a ganhar as eleições. Soube mais tarde que para serem convencidos a mudar de campo, houve promessas e jogadas menos claras. Desde então desconfio daqueles que rapidamente mudam de posição, especialmente durante períodos eleitorais.

Não tenho nada contra independentes, e nem considero, como Jorge Coelho, que são muito imprevisíveis. Antes pelo contrário. Muitos deles são completamente previsíveis. Mas a independência partidária não deveria significar indigência ideológica. Como acontece em muitos que não tem filiação partidária, mas em que o seu “engajamento” político depende da circunstância.

Este ano, e porque vamos ter três actos eleitorais, vamos assistir a várias movimentações neste sentido. Recordo-me, por exemplo, de certo comentador político que nos últimos anos gastou energias a aproximar-se do PS, mas acabou por aceitar um convite para entrar numa lista de um outro partido para o Parlamento Europeu. Nada a apontar neste caso, até porque ficou dentro da sua área ideológica, apesar de ter de combater nestas eleições quem andou a elogiar nos últimos anos.

Mas o prato forte do ano será a aproximação de “jovens” quadros da sociedade civil ao Partido Socialista. O poder continua afrodisíaco, e segundo as sondagens, o PS vai manter-se no poleiro. Por isso, estes “independentes”, sem grandes convicções políticas, mas inebriados pelo poder, e até porque nunca se sabe se surgem convites para o aparelho de estado ou para alguma lista, irão aproximar-se do PS. Por convicção? Haverá alguns, certamente. Mas não os da espécie a que me refiro. A oportunidade faz a convicção ideológica do momento.

Vários serão os que andaram anos a criticar José Sócrates, em privado ou em público, e agora emergirão como os grandes defensores do governo. Mas como esta conversão não poderá ser radical, primeiro irão aparecer a zurzir na oposição, especialmente no PSD. Há que explicar a sua aparente mudança. Afinal de contas, o PSD não convence, as suas propostas políticas estão erradas, e o PS é que está no caminho certo. Aliás, seguindo a cartilha Socrática, invocar outra resposta à crise só pode advir do espírito “bota-abaixista” e da crítica falaciosa da oposição, que de forma surpreendente, defende um caminho alternativo para o país.

A hipocrisia política destes independentes é o que mais me confunde. E me preocupa. Porque se o PSD estivesse próximo do poder, estariam a bater à sua porta. Pode ser que os portugueses lhes reservem uma surpresa este ano. A incompetência governativa é por demais evidente.

Terça-feira, 24 de Março de 2009

Mai nada

Decididamente este é um país de brandos costumes. Bernie Ecclestone resolveu assim as ameaças da Renault e da McLaren (declarações ao The Times):

«Flavio said, "we're not going to put our cars on the plane, we're not going to Melbourne". He - Flavio - started it, aided and abetted by Ron Dennis.
(...)
I picked up the phone to our people that handle all the freight to ask them to cancel the aeroplanes. They were saying, "all the Fota-schmota are not going - nobody's going to go."
(...)
So I said what I'd better do is cancel the aircraft obviously. It costs a fortune to charter those things and almost as much to cancel them.
(...)
If they come in here with a gun and hold it to my head, they had better be sure they can fucking pull the trigger. And they should make sure it's got bullets in it because, if they miss, they better look out

Os carrinhos da Renault e da McLaren foram direitinhos para o avião e correrão em Melbourne.

O Anúncio da Antena 1 nas Palavras do Bloco de Esquerda

Anúncio da Antena 1 alternativo

A chegar ao péssimo

Um amigo fez-me ler e eu li. E perguntei-me o que raio passou pela cabeça de Eduardo Pitta. Eu sei, ou julgo perceber, que ele simpatiza com os nossos actuais pastores, o que, podendo-se discordar, não é certamente um crime. Agora que, num post que se chama curiosamente “Pruridos”, lhe dê para comparar o episódio dos célebres cartoons de Maomé no jornal dinamarquês e o protesto relativo à propaganda televisiva do governo contra as manifestações – é outra coisa. O mais grave não é a falácia do argumento. O mais grave é que, aparentemente, ele não se deu conta da banalização do gesto islamista que o que escreveu revela, do nivelamento do que não é nivelável. Isso é que é mesmo mau. Mau a chegar ao péssimo.

Será isto uma promessa ou objectivo?

Sócrates garante que haverá 40 mil estágios profissionais em 2009

Recomendações

O Henrique Raposo e o Rui Ramos estão de regresso à blogosfera, com o Clube das Repúblicas Mortas (Via Insurgente).

Consulta aos Cidadãos Europeus é um projecto de debate e discussão promovido por 40 organizações europeias independentes.

Cachimbos de lá

Marc Chagall, Manilov (ilustração de As Almas Mortas, de Gogol), 1927

A responsabilidade é sempre dos outros?

Nos primeiros tempos deste governo (lembram-se?), todos problemas se deviam ao anterior governo do PSD. Recordo os discursos inflamados do eng. Sócrates, no Parlamento, apontando o dedo e lançando culpas para a bancada social-democrata. No último ano, porém, o discurso oficial foi mudando. Primeiro negava-se a crise. Depois o Primeiro-Ministro repetia que, apesar da crise, estávamos menos mal que os outros países. Agora, nas últimas semanas, com a crua realidade da crise económica e social a varrer o país, a tese governamental é que as razões da crise devem ser encontradas lá por fora. Primeiro, na crise financeira, e agora na crise económica internacional.
Foi também esta, um vez mais, a justificação governamental para os números do desemprego conhecidos ontem. O número de desempregados disparou 17,7% em Fevereiro, face ao mesmo mês de 2008. Foi o aumento mais elevado desde Dezembro de 2003. Temos agora 469.299 desempregados inscritos nos Centros Emprego, mais 70.720 do que em Fevereiro de 2008.
Mas, apesar desta socrática tese, as causas da crise económica nacional não são apenas externas. Há causas bem nacionais. Problemas estruturais profundos, como aqui se evidencia, relacionados com o nosso tecido económico produtivo, falta de produtividade, endividamento externo, etc. Estas causas vêm de trás, mas têm-se acentuado nos últimos catorze anos, como nestes gráficos se pode verificar. É também hoje cada vez mais evidente que a estratégia e as políticas deste Governo, bem como as "reformas" que afirma ter feito, têm-se revelado ineficazes para resolver as verdadeiras causas do atraso económico português.
Vale a pena aqui lembrar que houve uma maioria absoluta, em Portugal, durante os últimos quatro anos. E estabilidade. E um Presidente cooperante. E que o Partido Socialista esteve no poder durante onze, dos últimos catorze anos. Por tudo isto, o Governo e o Primeiro-Ministro não podem simplesmente lavar as mãos na água suja da crise internacional. O desemprego e a crise têm um rosto bem português: é socialista e chama-se José Sócrates.

Segunda-feira, 23 de Março de 2009

Um debate a não perder.















É já dia 24 de Março pelas 21.30 no CREU - Centro de Reflexão e Encontro Universitário que o Rui Marques do Movimento Esperança Portugal e o Filipe Anacoreta Correia, do Movimento Alternativa e Responsabilidade, vão debatar o tema "partidos políticos - criar ou reciclar".
Um debate a não perder.

Da lógica e outras "não identidades sociais"

Já depois de escrever isto, li isto: Miguel Vale de Almeida, à falta de melhores razões, compara agora quem se opõe ao casamenyo gay (adivinhem...) a nazis (adivinharam).
É dos livros: quando faltam os argumentos, sobra o insulto. Já nem digo nada sobre o seu ataque à malvada "lógica", contra a qual se fazem as mudanças políticas e as conquistas de direitos que verdadeiramente interessam (resta saber a quem). Em nome de uma qualquer verdade mística e absoluta a que os activistas LGBT têm especial acesso, suponho.
Pensava eu que a luta pelos direitos civis dos negros na América ou na África do Sul se baseasse na lógica, aparentemente dispensável, da igualdade entre os seres humanos. Afinal, não é bem assim: segundo Miguel Vale da Almeida, a igualdade racial só se justifica porque, contra toda a lógica, é uma etapa na longa marcha rumo ao casamento gay.
Confesso-me um pouco surpreendido. Que outros e outras percam a cabeça (ou a lógica...) ao debater estas coisas - já estamos à espera, faz parte das regras e até tem uma certa graça. Que o Miguel Vale de Almeida caia no mesmo, eis um péssimo contributo para o debate. A não ser, claro, que queira impor a sua opinião sem a chatice de ter que discutir a opinião contrária.
Como faziam aqueles senhores nos anos 30... ai, como é que eles se chamavam?...
Uma pequena nota final. Diz Miguel Vale de Almeida que os polígamos são uma "não identidade social". Por mim, estou convencido. Só falta convencer os milhões de muçulmanos que vivem na Europa.

Da série "sem comentários"


Sete anos

Juan Carlos Lecompte esteve sete anos sem mulher. Quer dizer, sem a legítima mulher, uma tal de Ingrid Betancourt. Sete anos esperou por ela, não sabendo nós se a espera foi imaculada. A crença de Lecompte na urbanidade de Ingrid leva-nos a crer que não: "En el caso de que hubiera sido verdad, ella habría sido muy europea, seguramente me habría dicho que no se puede estar siete años sin una mujer". Europeia, certamente, mas um homem não deve menosprezar os efeitos de sete anos de selva numa mulher. Ainda que não tenha apelado publicamente à compreensão europeia do marido, Ingrid também não terá passado os sete anos de cativeiro sem homem. Quando libertada, Ingrid foi mais do que europeia para o marido. Foi nórdica até dizer defunta. Mal se falaram. Lecompte, que tatuara uma imagem de Ingrid no braço, terá pensado que a mulher que voltava da selva não era a mesma que nela desaparecera. E não era. Era outra. Pronta a divorciar-se. À europeia.

Fait Divers (ou não)

Depois da graçola falhada sobre a sua performance no bowling ser digna de uns jogos Paraolímpicos, Obama repete a dose no "60 minutos" de ontem, ao ponto do entrevistador (Steve Kroft) lhe perguntar:

1. "Are you punch-drunk?"

2. “You're sitting here. And you're — you are laughing. You are laughing about some of these problems. Are people going to look at this and say, ‘I mean, he's sitting there just making jokes about money — ’ How do you deal with — I mean: explain...

Resposta: “No, no. There's gotta be a little gallows humor to get you through the day,” Obama says, with a laugh.
Sei bem da relativa importância deste tipo de episódios, mas ainda há uns meses eles apareciam nos media e bloga portuguesa quando os intérpretes eram Bush, McCain ou Palin e, por alguma estranha razão, deixaram de aparecer. Entretanto o serviço público do Cachimbo vai metendo aqui alguns, para o caso de terem saudades.

Domingo, 22 de Março de 2009

Epically Bad Idea

«As Congress pushes through the ludicrous bill which taxes bonuses at 90% at any firm taking TARP money, I can’t help but wonder if congress is thinking. Are lawmakers getting some grim satisfaction out of finally sticking it to those overpaid New York fat cats? Or do they know what an epically bad idea this is, but must represent their constituents’ populist rage?(...) The idea is much closer to dangerous than dumb.(...)

Bankers in the City are calling the bill the “The Foreign Bank Relief Act”, because it may effectively kill the only businesses generating profits for American banks—client rather than balance sheet driven activity.»
(Link)

O "Neoliberalismo" no Público

O Público traz hoje uma reportagem intitulada "O mundo virou à esquerda", presumivelmente uma resposta à pergunta inscrita na 1ª página do jornal "O mundo está a virar à esquerda?". Mas o mais curioso aparece na introdução ao texto da dita reportagem assinada por Teresa de Sousa. Diz assim: "O resto do mundo observa de longe, aliviado e distante, o intenso debate ideológico [na América] que marca o fim da era neoliberal no Ocidente". Ora eu também tenho umas perguntinhas para a jornalista: explique-me lá o que foi a "era neoliberal no Ocidente"? O que é o "neoliberalismo" em que nós vivemos no Ocidente nos últimos 10(?) ou 20(?) anos? Devo confiar nas rigorosas definições do Doutor Boaventura? Ou é outra coisa completamente diferente?

Porquê ler o "Primeiro Tratado" de Locke?

O André Azevedo Alves, a quem agradeço as palavras amáveis, acaba por se solidarizar com o André Abrantes Amaral por este só ter paciência para o "Segundo Tratado" de Locke. É que, diz o André Azevedo Alves, o "Primeiro Tratado" é menos "estimulante" do que o "Segundo". Que o "Primeiro Tratado" é mais maçudo, julgo que ninguém duvida. Mas nem por isso é menos imprescindível. Em jeito de resposta, deixo aqui alguns excertos da introdução que escrevi para a edição que também preparei de John Locke, Dois Tratados do Governo Civil (Edições 70, 2006). Não incluo tudo o que está escrito nessa introdução como justificação da pertinência de ler o "Primeiro Tratado" nos nossos dias. Isso é que poderia tornar-se talvez muito maçador.
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(...) O Primeiro Tratado é ainda leitura obrigatória para quem quer compreender o liberalismo europeu. Em certo sentido, conhecer o patriarcalismo significa conhecer uma das grandes alternativas àquilo a que simplificadamente podemos designar por liberalismo. Acompanhar a crítica de Locke a Filmer permite analisar com maior profundidade as origens intelectuais do liberalismo hoje reinante. Para estudar as origens do liberalismo é preciso estudar os seus inimigos. Seria exagerado dizer que o liberalismo se formou por oposição a um (ou mais) adversários, mas não há como negar que o reconhecimento do inimigo permitiu ao liberalismo compreender-se melhor a si mesmo. No pensamento de Locke parece haver apenas duas grandes alternativas à teoria política da liberdade natural: o patriarcalismo e a força bruta exercida na conquista. Locke permite-nos perceber que a teoria política liberal se estruturou na consciência de que tinha rivais, de que havia alternativas muito sérias à sua proposta de organização da vida política e moral. Desconhecer essas alternativas pode acarretar o desconhecimento das nossas origens intelectuais e, com isso, fragilizamos os fundamentos teóricos da ordem política que nos rege. Permite-nos também conhecer melhor a nossa própria ordem política, pois o patriarcalismo, assim como qualquer outra alternativa política fundamental, fornece-nos uma perspectiva de análise que transcende o horizonte definido pelo nosso regime político. Aquilo que floresce de mais excelente nas nossas democracias liberais, as suas virtudes, assim como as suas fraquezas, são difíceis de apreender se tivermos presente no nosso espírito apenas a possibilidade liberal e democrática. Elas tornam-se muito mais transparentes quando colocamos outras alternativas. Somente quando estamos perante uma pluralidade de alternativas é que muitos fenómenos, sentimentos, crenças, comportamentos, ou instituições, se revelam como o que verdadeiramente são. Essa possibilidade de escapar (nem que seja parcialmente) ao horizonte do mundo que nos é familiar é preciosa, na medida em que fornece um ponto de vista que clarifica muitos dos elementos que tendemos a tomar como inexoráveis ou simplesmente correlativos à condição humana. (...)
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(...) Locke dedica todo o primeiro livro de Dois Tratados do Governo Civil ao desmantelamento da teoria de Filmer. Mas Locke não pretende apenas destruir as bases das monarquias que se reivindicavam de direito divino. Não há dúvida de que Locke pretende refutar definitivamente o direito divino dos reis; esse é o seu objecto mais visível. Mas ao longo do chamado Primeiro Tratado subjaz um outro esforço que pode ser descrito nos seguintes termos. Filmer e o patriarcalismo pressupõem certas relações: das Sagradas Escrituras com a filosofia política; do dogma com a razão prática; do filho com o pai; da família com o Estado, do homem com a natureza ou com a Criação de Deus. Locke tenta alterar a essência de todas essas relações. Porém, o nosso autor sabe muito bem que não se trata apenas de alterar essas relações, como se o conteúdo particular dessas relações fosse independente e subsistisse por si só. Locke sabe que, num intervalo de variabilidade real, mas limitada, o conteúdo dessas relações depende de uma outra relação em tudo mais crucial: a do homem com Deus, ou, de uma outra perspectiva, da política com a religião.
Um dos objectivos primordiais do Primeiro Tratado é não só ridicularizar a exegese de Filmer, mas principalmente instituir uma nova relação entre a política e o texto bíblico. (...)
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Quem quiser conhecer todas as razões que justificam a leitura do "Primeiro Tratado" de Locke, e com as devidas notas de rodapé, etc., ou quem quiser ler o texto completo desta introdução, terá de comprar o livro. Ou então passar por aqui.

Sábado, 21 de Março de 2009

"A Show of Legs in Paris"


Posição de fraqueza

Admito que fiquei estupefacto com a mensagem de Barack Obama ao regime iraniano. Os Estados Unidos, em conjunto com a Europa, passaram os últimos dois anos a pressionar o Irão no sentido deste abandonar as suas pretensões nucleares. E agiram sempre numa posição de força. O regime dos Ayatollahs pretende ser uma potência nuclear, e o mundo não o pode permitir. Será que a equipa de Obama pensa que é com estas atitudes ingénuas, e de uma fraqueza quase inacreditável, que conseguirá deter o Irão? A resposta de Ali Khamenei foi a esperada: desprezo pelo Grande Satã.

A inexperiência e inocência de Obama começam a vir ao de cima. Que pode ter consequências nefastas para o mundo.

Deuses e Homens


Parece-me oportuno deixar aqui a última parte de um texto que publiquei há uns tempos na revista Nova Cidadania. Intitula-se "Deuses e Homens" e debruça-se sobre o livro de Mark Lilla, The Stilborn God (publicado em 2007 nos Estados Unidos).
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(...) The Stillborn God narra a história do destino da teologia política no Ocidente. O momento fundamental dessa história, que transformou para sempre o mundo Ocidental e o demarcou do resto do globo, é baptizado por Lilla com a denominação “A Grande Separação”. A expressão é reminiscente de uma outra narrativa histórica de Karl Polanyi – “A Grande Transformação”. Mas a escolha de Lilla é acertada: reflecte um dos aspectos ou uma das “separações” que levou Adam Ferguson no século XVIII a referir-se à modernidade europeia como a “era das separações”. Ferguson propôs que a divisão do trabalho, ou o movimento constante de especialização dos homens, revelava o que havia de mais essencial na sociedade moderna. Por seu lado, Lilla aponta para a separação entre teologia política e filosofia política como a mais fundamental de todas as separações que configuraram a história particular do Ocidente moderno.
Para Lilla, o herói destacado dessa narrativa foi Thomas Hobbes, o grande filósofo inglês neo-epicurista do século XVII. Entre outras coisas, Hobbes (assim como um dos seus maiores discípulos, Espinosa) recuperou e politizou a explicação epicurista da religiosidade do homem. Avançou que a incerteza do futuro, e sobretudo o medo (em particular, o medo da morte) paralisava o homem e forçava-o a olhar para cima. Assim, a “superstição” acabava por revelar a sua base efectiva: a ignorância. O medo e a ignorância, ou o medo que decorre da ignorância impelia o homem a criar os seus próprios deuses, os quais, ao invés de lhe trazerem o consolo e a segurança que deseja, tornavam-se eles mesmos agentes do terror. Por isso é que Hobbes pôde apresentar a religião como o “medo dos poderes invisíveis”.
Segundo Lilla, a filosofia política propriamente dita, corporizada em Hobbes, encontrou finalmente a única forma de escapar aos caminhos tortuosos das várias teologias políticas que germinaram no terreno do Cristianismo. A filosofia política deixou de procurar o fundamento da autoridade, da justiça, da paz, enfim, da vida humana individual e colectiva, no nexo divino que entrelaçava Deus, o mundo e o homem, e, para usar a expressão de Lilla, preferiu “mudar de assunto”. Isto é, preferiu falar do mundo, de Deus e do homem exclusivamente do ponto de vista do próprio homem. Como disse em tempos Joseph de Maistre, foi o princípio dos tempos da “teofobia”. O fundamento da religiosidade era agora analisado como produto de uma relação entre o indivíduo temeroso e um mundo que lhe é hostil, e já não como sintoma das sementes do divino que lhe foram depositadas na alma pelo seu Criador. Diga-se de passagem que esta opção de perspectiva de análise converte a religião num puro objecto das psicologias, quando não dos psicologismos, caricaturando-a primeiro, e desnaturando-a depois. Mas, ao mesmo tempo, os pioneiros da “Grande Separação” também vislumbravam na “superstição” uma forma perniciosa de “governar multidões”. A religião convertia-se, assim, em factor primeiro de infelicidade pública, isto é, convertia-se em causa primordial dos vários despotismos, da servidão e principalmente do conflito perpétuo.
O alcance da revolução operada por Hobbes é, ainda hoje, difícil de medir e compreender. Isso é tanto mais verdadeiro se percebermos, com Lilla, que a revolução de Hobbes não se consumou na instituição do terrível Leviatã ou na instauração de uma religião civil, mas antes percorreu um caminho liberalizante sob a orientação de homens como Espinosa, Locke, Montesquieu, Hume ou Jefferson. Na narrativa de Lilla, e com bastante plausibilidade, Hobbes, ao “mudar de assunto”, abriu o caminho para a sociedade “secularizada”.

Porém, o recurso à imagem de alguém que muda de assunto não deixa de ser problemático pela razão simples de que “mudar de assunto” não é o mesmo que responder capazmente e passar ao assunto seguinte. Se o maior revés da teologia política no Ocidente consistiu no facto de os seus adversários terem resolvido “mudar de assunto”, então não podemos obviar as consequências filosóficas dessa decisão. As reivindicações da fé são convites à sabedoria, a uma sabedoria que transcende a sabedoria meramente humana, e que decorre do facto de Deus se revelar ao homem. Como diz a tradição cristã, a fé é a porta para a compreensão. Como a filosofia e a teologia constituem duas propostas alternativas de caminho para a sabedoria, antes de se poder “mudar de assunto”, a pretensão de verdade da teologia ou da fé tem de ser refutada, ou pelo menos confrontada. Caso contrário, “mudar de assunto” não é mais do que “desconversar”. Ora, aos olhos da própria filosofia, desconversar não é conduta admissível. Em certa medida, é até confissão de derrota. E, de facto, a filosofia política moderna de Hobbes (e de Espinosa) compreendeu que precisava de proceder a uma crítica da religião e das fontes da revelação. Compreendeu que só depois de consumada essa crítica é que poderia verdadeiramente “mudar de assunto”. Ora, a ser assim, tal obrigar-nos-ia a verificar se a sua tarefa crítica foi bem sucedida ou não. Antes dessa verificação não podemos chegar a uma apreciação ponderada dos putativos méritos da sociedade “secularizada”. Até lá, vivemos no escuro. E as trevas são o contrário das luzes.