Sábado, 28 de Fevereiro de 2009

Algumas ideias sobre a economia portuguesa

Este mês chegaram-me às mãos dois documentos muito interessantes sobre a economia portuguesa:, que deviam fazer corar os senhores que estão em Espinho a discutir assuntos inúteis: o Gabinete de Estudos do PSD escreveu sobre os Desafios para Portugal em 2009, e um Professor da minha Escola apresentou um documento sobre “Os Anos Recentes: Crise Conjuntural ou Crise Estrutural?”
As conclusões são claras: independentemente da crise que agora atravessamos, Portugal esteve bem e está mal.
A economia portuguesa cresceu muito e bem durante muitos anos, porque o país estava muito atrasado, a economia mundial ajudou e as prioridades políticas foram bem decididas. Era a altura de investir numa economia de mão-de-obra intensiva, de grandes investimentos na construção de infraestruturas, etc.
Ora bem, este modelo esgotou-se há já vários anos. O país já não está tão atrasado, as pessoas já têm maior nível de conhecimentos (não sei se se pode dizer que têm melhor educação), e existe oferta de mão-de-obra muito mais barata no mercado mundial. Além disso, o peso do Estado na Economia cresceu desmesuradamente, a sociedade tornou-se mais desigual e o país está endividadíssimo.
A estes problemas acresce o da crise actual, que torna mais difícil implementar as medidas que são imprescindíveis: diminuição do peso do Estado na economia, diminuição da dívida do Estado, das empresas e das pessoas, e aumento da produtividade.
As soluções para estes problemas são simples de enunciar, e difíceis de pôr em prática. Segundo o GE do PSD, é preciso reformar o Estado, para que não comande a economia, e que esteja ao serviço das iniciativas da sociedade civil; promover a inovação, a criação e desenvolvimento de novas empresas (nos sectores que ajudem a economia a crescer saudavelmente, que consigam exportar); apoiar um sistema de educação exigente, e com uma boa oferta de formação profissional; e promover a eficiência na utilização dos recursos.
Se estas ideias se puserem em prática, é possível esperar que o país melhore, que a economia esteja em melhores condições para voltar a crescer no final da crise, e que, a médio prazo, o fosso entre ricos e pobres que tem aumentado, diminua.

Montesquieu e os riscos dos nossos tempos


Hoje abre-se a porta à correcção de "todos os males". É, por isso, pertinente este conselho retirado de Montesquieu.

«Muitas vezes um legislador que quer corrigir um mal apenas toma em consideração essa correcção; os seus olhos estão abertos para esse objecto, e fechados para os inconvenientes. Assim que o mal é corrigido, só se vê a dureza do legislador; mas o vício que essa dureza produziu permanece no Estado; os espíritos são corrompidos; acostumaram-se ao despotismo.»

O Outro Sócrates

O discurso de António Costa foi de uma pobreza gritante. A começar pelo facto de, também ele, qual José Sócrates, ter vocação de Calimero. Só que a causa do seu infortúnio é mais prosaica que a de Sócrates. Chama-se Bloco de Esquerda e faz as suas travessuras na Câmara Municipal de Lisboa.

Inconspicuidade

Visto o congresso do PS pela televisão – mas quem estiver lá sabe, é claro, melhor – não parece que, contrariamente ao outro, Alegre seja conspícuo pela ausência. A ausência de uma ausência não garante, aparentemente, a presença.

Se calhar...

Francis Bacon dizia que quando queria ficar deprimido bastava-lhe ir a um museu e ver um quadro de Rothko. Para mim é mais fácil: basta-me ir à sala e ligar a televisão. Isto para dizer que ouvi o discurso de Sócrates em Espinho. Aquela coisa da “campanha negra” (incriminados: o Público – particularmente José Manuel Fernandes - e a TVI – nomeadamente Manuela Moura Guedes) começa a soar propriamente obscena. Até porque, sem má-fé nenhuma, o sentimento com que se fica é que a verdadeira visada (o que se quer pressionar) é a investigação em curso. Retórica, só? Se calhar…

Não há novidades

O congresso socialista está a decorrer conforme se esperava. Um hino em honra de Sócrates. O PS hoje é um partido sem novidades, que assenta mais na força da imagem do propriamente na força da mudança. Aquele que é o partido de poder há vários anos, quer-nos fazer acreditar que o país vai mudar se os mantivermos no poder. Nada mais surreal.

O debate de ideias por aqui não existe, e todos os oradores se têm desfeito em elogios ao líder. João Proença já cá esteve a manifestar solidariedade política e pessoal a Sócrates e até Edmundo Pedro veio cá desmentir-se, ao garantir quer “nunca ter sentido que José Sócrates tivesse medo ou metesse medo a alguém”. Os conclaves unanimistas são assim: a crítica não tem lugar.

Sexta-feira, 27 de Fevereiro de 2009

Conclave socialista

Este fim de semana vou estar colaborar na emissão especial que o 31 da Armada está a realizar directamente do congresso socialista. Pelo meio deixarei aqui as minhas impressões sobre o magnífico espectáculo de propaganda que está a ser organizado pelo PS em Espinho.

Twitter

A partir de agora já podem seguir o Cachimbo de Magritte no Twitter. Aqui.

"Paris vale bem uma missa"

Há 415 anos, o grande Henrique de Navarra era coroado rei de França.

François Gérard, Entrada de Henrique IV em Paris (1817)


Rubens, A Apoteose de Henrique IV e a Proclamação da Regência de Maria de Médicis (1621-1625)

Baltazar Garzón e a democracia espanhola


O venturoso juiz Garzón não abranda na sua luta pela democracia em Espanha. Agora, prossegue robusto no seu combate contra a corrupção do Partido Popular, perdão, da classe política. Contudo, vendo as coisas com um bocadinho de atenção, lá se acaba por perceber que o combate à corrupção é uma coisa; Garzón é outra bem diferente. Na sua senda pela purificação da democracia espanhola, Garzón não compreende que ele próprio é parte do problema.
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«En un país serio sería impensable que un juez con precedentes políticos vinculados al actual partido del Gobierno pudiera llevar un caso contra el principal partido de la oposición. Pero en España no sólo es posible, sino que se lo considera normal. Y hasta se llega a presentar como independiente a quien estuvo en Quintos de Mora conspirando con Bono, fue número dos en la candidatura del PSOE por Madrid, hizo campaña electoral junto a Ramón Jáuregui, formó parte del Grupo Parlamentario Socialista, fue compañero de escaño de Zapatero, fue secretario de Estado con Felipe González y, en los mítines en los que participó, llegó a decir que haría todo lo que estuviera en sus manos para evitar que ganara la derecha. En efecto, hizo bastante. Encabezó una manifestación contra Aznar y abrió el «caso lino» en plena campaña electoral, emprendiéndola contra el PP e implicando a sus dirigentes en fraudes no demostrados. La sentencia fue absolutoria, pero Garzón condicionó en gran medida el desarrollo de la campaña europea de 2003. Más o menos como ahora. Nuestro magistrado estrella sabe desde el primer día que en su investigación hay aforados. Pero pese a ello, no se inhibe. ¿Por qué no lo hizo al principio? Porque entonces no hubiéramos tenido el actual escándalo mediático de cacerías y filtraciones. Y nuestro juez socialista no hubiera brillado en las pantallas como le gusta.»
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P.S. Uma notinha de contextualização: nos próximos dias haverá eleições na Galiza e no País Basco.

Quinta-feira, 26 de Fevereiro de 2009

O elogio do Bom Ladrão

Quando a novela Bispo-Williamson-negações-do-Holocausto-Bento-XVI-excomunhão parece estar a terminar, apetece-me oferecer a minha colherada. Não para explicar novamente porque razão Bento XVI nunca poderia fazer depender uma excomunhão de uma ou várias afirmações muito infelizes de cariz anti-semita ou anti-americano. O Pedro Picoito já explicou e quem não percebeu, lamenta-se, mas o melhor é tentar suplementos alimentares, ou a inclusão de ácidos gordos na alimentação (parece que o salmão é bom) que beneficiem as celulazinhas cinzentas, ou a hipnose para tentar descobrir a origem do problema; pela argumentação lógica mais nada há a fazer. De qualquer forma eu desejo bom sucesso.

Queria apenas revelar-vos a minha satisfação por fazer parte de uma Igreja onde tontinhos (para ser caridosa) como o Bispo Williamson são acolhidos. Uma Igreja que é composta de tremendos pecadores e, ainda assim, que consegue fazer tanto bem em todo o mundo. Uma Igreja de pessoas que encaram como normal errarem e pecarem, até quando se esforçam por não errar e pecar, e que conseguem todavia terem a humildade de assumirem esse erro e esse pecado e não verem a imagem que têm de si próprias e do mundo estilhaçar-se. Não de pessoas que por errarem e pecarem, não tendo a capacidade de auto-crítica ou de auto-aceitação dos seus inúmeros defeitos que produzem uma ainda mais inumerável quantidade de actos errados, racionalizam os seus erros e pecados, justificam-nos como podem, convencem-se de que afinal são justos e, quantas vezes, começam a atacar a Igreja porque a Igreja tem o despautério de defender uma conduta a que não conseguem ser fiéis. A culpa passa dos pecadores para a Igreja, a cultura judaico-cristã, a tradição ocidental católica ou outro derivado. Em suma, gosto de pertencer a uma Igreja que sente culpa sem se escravizar com a culpa. A uma Igreja que não é composta por puros justiceiros, que nunca erram (porque quando erram, os valores que consideram determinado acto um erro é que estão trocados) e que do alto da sua postura moral não se cansam de catalogar os outros (mal) e apontar à vil "ICAR" todos os podres que conseguem vislumbrar (às vezes inventar). Esta característica da Igreja - que lhe é intrínseca, porque Jesus Cristo veio para salvar os pecadores - de saber conviver com o pecado e até nele ver uma oportunidade para o bem é absolutamente essencial num mundo de pessoas que cada vez mais não conseguem aceitar a sua parte venenosa (digamos assim) sem se convencerem de que o veneno afinal até é bom. (Enfim, um pecado como qualquer outro, que tem o perdão de Deus à espreita).

Eu prefiro sempre estar no meio daqueles que erram. Fujo dos que se consideram imaculados e gostam de despejar moralidades sobre outros. E faço muito bem, porque os piores males sempre vieram dos que se consideravam puros e sem necessidade de salvação - acredito eu que, na sua ilusão sobre si próprios, não tendo nunca noção da enormidade do erro e do sofrimento causado.

A "retirada" do Iraque

Barack Obama prometeu retirar do Iraque nos primeiros dezasseis meses do seu mandato. Mas esse compromisso vem do tempo em que os Estados Unidos pareciam estar atolados no Iraque. Depois disso tudo se modificou no terreno, mas Obama nunca desfez a promessa, e mesmo depois de tomar posse, manteve a intenção.

Esta semana Obama disse que pretendia retirar do Iraque em 2010, um ano antes do plano assinado entre a Administração Bush e o Iraque, mas deixando para trás 50 mil soldados como força de estabilização do país. Ora, isto não é uma retirada, mas sim a manutenção do plano Bush, que previa uma diminuição gradual de militares até o final de 2011, mas antevendo já uma possível renegociação para a extensão da presença americana após essa data. Eu apoio esta medida de Obama, que não compromete o sucesso alcançado no Iraque por David Petraeus. Mas não lhe fica bem chamar retirada: será mais uma diminuição do contingente militar.

Os liberais anti-guerra democratas não estão muito satisfeitos com este anúncio. Harry Reid, o tal que chegou a dizer que a guerra estava perdida, é um deles. Ele devia mesmo querer que os Estados Unidos perdessem no Iraque, mas agora é obrigado a apoiar os esforços do Presidente Obama. E a engolir um valente sapo, diria eu.

É cá uma diferença

Diz Filipe Paiva Cardoso no ABC do PPM:
«Mário Lino não está a gastar dinheiro público nas inaugurações, apenas a exigir às concessionárias que gastem 500 mil euros numa inauguração onde é o próprio Governo que escolhe os fornecedores.»

E, por alguma estranha e mágica razão, os "preços" das concessões não reflectem esse custo de €500,000? O estado almoçaria de graça, portanto. Gasta apenas em asfalto, subitamente mais caro, mas não em propaganda. Que bonito.

A Democracia na América (Latina)


Enquanto andámos por aqui muito entretidos a comentar o referendo de Chávez, o seu amigo e aliado político Evo Morales também não perdeu o comboio das iniciativas referendárias constitucionais. E lá fez aprovar uma nova constituição que é uma verdadeira beleza. É uma combinação de multiculturalismo em versão andina com o populismo que os brancos daquelas paragens sempre souberam cultivar, mas que os indígenas revoltados resolveram imitar com brio.

Criam-se regiões autónomas e direitos especiais para os indígenas, incluindo círculos eleitorais próprios. A forma de Estado passa a ser a plurinacional. Uma das implicações é colocar membros das várias nações no Tribunal Constitucional. Sim, os juizes do Tribunal Constitucional são eleitos directamente pelos cidadãos. Reconhecem-se constitucionalmente 36 línguas oficiais, apesar de, ao que parece, 3 delas já estarem extintas. Uma das nações reconhecidas, a Pakawara, conta a peculiar multidão de 10 pessoas. Consagra-se a "justiça comunitária", ou um sistema tradicional de resolução de conflitos que evidentemente varia consoante a nação, com o mesmo estatuto do sistema racional-legal de justiça. Já na economia vale tudo, menos o mercado e a livre-iniciativa.

Em suma, na melhor das hipóteses dentro de 10 anos haverá uma guerra civil.

(As coisas que a gente aprende com o El País.)

Os desempregados vão pagar a crise

E duplamente. Por um lado o número de pessoas no desemprego vai continuar a crescer, sendo os números de Janeiro um sinal do que está neste momento a acontecer e que vai muito para além dos encerramentos que aparecem na TV: estamos por exemplo a falar de grandes multinacionais de consumo que recebem e.mails com instruções claras de redução de força de trabalho em 25%. Por outro a rigidez (para baixo) do factor salarial e o crescimento que este teve recentemente sem qualquer suporte em produtividade vai demonstrar-se especialmente cruel. Devido às características da nossa economia, muitas das pessoas que estão neste momento a caminho do desemprego não mais voltarão a estar empregadas no sentido "clássico" do termo e que sempre conheceram, entrando no novo mundo dos contratos de curta duração e de grande rotatividade, nos quais se arrastarão penosamente até atingirem níveis mínimos de reforma.

Adicionalmente, para efeitos de alcance ou reconquista de quotas de mercado, e quando essa decisão for inevitável, a contratação de novos quadros para as empresas significará ir buscá-los a um preço tendencialmente inferior ao dos quadros actuais e ao custo que essa mesma posição teria há algum tempo atrás ainda que ocupada pela mesma pessoa. Isto irá acontecer não só por uma questão de oferta e procura (mais desemprego, mais pessoas disponíveis, menor o preço do trabalho), mas também, e porventura sobretudo, pela insustentabilidade competitiva do nosso nível salarial. E como este é rígido (para baixo), logo quem tem emprego não vai renegociar para baixo (boa parte da culpa aqui vai para os sindicatos e legislação laboral), é quem não tem emprego e vai negociar que terá de arcar com os custos acrescidos dos valores salariais não competitivos dos outros, diminuindo então o seu numa maior proporção.

É bem possível que Portugal sofra da doença dos custos de Baumol. Por exemplo, mesmo com dificuldades de medição de produtividade, alguém encontra justificação para os aumentos dos funcionários públicos neste momento? Seja como for, a crise vai bater forte na classe média e média baixa, e aqueles (muitos) que estão a caminhar para o desemprego irão sofrer como ninguém a dura face do enquadramento socialista e sindical no momento em que mais precisam de factos e menos de intenções.

Escolas escolhem professores

No PÚBLICO de ontem: As 35 escolas e agrupamentos integradas no Programa dos Territórios Educativos de Intervenção prioritária (TEIP) vão já este ano poder começar a recrutar directamente os professores do quadro, revelou ao PÚBLICO o secretário de Estado da Educação, Valter Lemos. O despacho que contempla esta medida já está assinado, acrescentou. O programa TEIP abrange estabelecimentos com elevado número de alunos em risco de exclusões social e escolar que estão, por isso, a ser alvo de "medidas excepcionais para combater a insegurança, a indisciplina, o insucesso e o abandono escolares". Entre este lote irá figurar agora também a possibilidade de contratarem directamente todos os seus docentes. O que constitui uma estreia no ensino básico em Portugal.

Parece-me ser uma excelente medida. É fundamental que as escolas possam escolher os professores de acordo com as suas necessidades particulares e dos seus alunos. E não só esta ou aquela escola mas todas as escolas.

Que proposta mais ordinária

Aqui há uns anos num daqueles verões do Algarve, eu e o meu primo Eduardo (aquele gajo do 31) encontrámos numa tasca ao pé da nossa casa uma máquina de jogar futebol, das que se punham moedas e dava para jogar a dois. Ambos estoirámos uma fortuna a jogar naquela porcaria, até o Eduardo descobrir um erro na máquina que lhe permitia meter golos impossíveis de defender. Ora num belo dia, o meu primo lembrou-se de convidar um amigo para jogar contra ele e logo nos primeiros segundos meteu um dos tais golos. Resposta imediata do amigo "pá, que golo mais ordinário".
Decorei para sempre esta expressão, e uso-a para ocasiões especiais. Por exemplo, para o que a Europa está a tentar fazer com a Alemanha - obrigá-la a emitir títulos de dívida pública em conjunto com os seus "parceiros" europeus: uma proposta verdadeiramente ordinária.
Nos últimos 20 anos vários países da zona euro embarcaram numa orgia consumista - sobretudo os PIGS mas não só - permitindo o endividamento alucinante das famílias, das empresas e do Estado. Enquanto isso, os alemães, com a consistência que os caracteriza, ficaram ainda mais competitivos no espaço euro, mantiveram grandes excedentes na balança de pagamentos com o exterior e a habitual disciplina das finanças públicas. E agora que rebentou a crise, obviamente que conseguem crédito a taxas de juro mais baixas que o resto da malta da zona euro. Moral da história: aqui e ali, vários iluminados propõem a emissão de "títulos de dívida pública europeia", o que em termos práticos significa encostarmo-nos à Alemanha, pagarmos menos pelas nossas javardices e obrigá-los a eles, que não se meteram em carnavais, a pagar mais.
Uma ideia brilhante, uma espécie de conto da cigarra e da formiga com o fim ao contrário e acima de tudo uma verdadeira ordinarice. Os alemães, que pagaram ziliões pela construção europeia e pela re-unificação, engoliram Maastricht e largaram o Marco, estão cheios de vontade de embarcar em mais esta "iniciativa de solidariedade europeia".

0-5! e até Sábado

A eliminação nos oitavos era previsível mas não havia necessidade de sermos nós a passar a bola para eles marcarem golos. Abel, Caneira e Romagnoli foram apostas perdidas. Espera-se o regresso de Vukcevic, Grimi, e Daniel Carriço no jogo contra o Porto (gostava de ver o Pereirinha a jogar de início no lugar de defesa direito).

"A Degola dos Inocentes"

Na passada época, Eduardo Barroso, num programa sobre futebol na Antena 1, disse que no jogo entre Belenenses e Bayern de Munique, a disputar-se na última pré-eliminatória da taça UEFA, se iria assistir a "uma degola de inocentes" (escuso de nomear os degolados). Como se não bastasse, fez esta afirmação com aquele tom sobranceiro que caracteriza pessoas pouco sensatas. Desde então, e não sei se por acaso, o Sporting do sr. dr. Eduardo Barroso já sofreu várias goleadas às “mãos” (ou aos “pés”) de clubes como o Manchester United, o Barcelona ou o Real de Madrid, desempenhado sistematicamente o papel de “inocente” (in)útil do futebol português. Hoje, por acaso, o mesmo Sporting encaixou cinco golos marcados pela equipa bávara que iria humilhar em 2007, sem apelo nem agravo, uns pobres jogadores vestidos com camisola azul e emblema cruz de Cristo ao peito. Já o Belenenses, os da cruz de Cristo ao peito, e por mero acaso, sofreu apenas três golos marcados pelo Bayern de Munique no conjunto da eliminatória.

Moral da história: vale ou não vale a pena, no futebol, essa “escola da vida!”, cultivar a ponderação e a humildade?

Quarta-feira, 25 de Fevereiro de 2009

Um post assim

... é um pouco homofóbico, não é?

Vai uma depilação?

"The death of a child is a loss no parent should have to bear."

Ivan, um dos três filhos do líder conservador britânico, faleceu esta madrugada. Tinha graves problemas de saúde desde o seu nascimento e este desenlace trágico era esperado. Neste link do Daily Telegraph pode-se assistir a parte de uma curta e simples sessão condolências ocorrida hoje de manhã na Câmara dos Comuns. Pelo governo e pelos trabalhistas falou o primeiro-ministro Gordon Brown. Logo ele que também viu morrer a sua filha há não muito tempo (embora na morte de um filho não muito ou pouco tempo).
Como é óbvio há milhares de crianças que morrem todos os dias por esse mundo em circunstâncias que nem vale a pena recordar e que fazem de Ivan um privilegiado. É também óbvio que a morte de uma criança nos faz dizer o óbvio e o redundante. Mas não é por isso que, ao menos, deixarei de recordar uma frase que Gordon Brown fez questão de pronunciar perante os seus colegas parlamentares, e que apesar de muitas vezes repetida merece ser sempre lembrada. Nestas ou noutras circunstâncias: "The death of a child is a loss no parent should have to bear."

Um (outro) caminho para vencer a crise

A crise tem sido impiedosa para as empresas. O PIB contraiu-se 2,1% no último trimestre, as falências aumentaram 53,9% (2008) e o crédito malparado subiu 70% (2008), segundo os últimos dados do Banco de Portugal.
Apesar deste cenário negro, o PM teima em mega-projectos com interesse duvidoso (TGV e certas auto-estradas) e vai anunciando, sempre com grande mediatismo, mais e mais linhas de crédito. Mas por detrás da floresta de medidas, não se consegue vislumbrar uma estratégia clara de combate à crise. Sócrates está tão obcecado com "campanhas negras" que parece ter perdido a lucidez. Não ouve ninguém. Confunde decisão com teimosia. Deslumbra-se com as grandes empresas e investimentos, mas esquece a economia real. Vai navegando à vista, sem rumo, anunciando medidas desgarradas, sem coerência, onde o fio condutor parece ser apenas reforçar o controlo do Estado, apesar do sector público já absorver mais de metade da riqueza nacional.


O PSD apresentou um pacote de vinte medidas para combater a crise. Ao contrário das medidas avulsas do Governo, há uma estratégia clara e coerente nestas propostas: colocar as PME's no centro da política económica. Sem montagem mediática, Manuela Ferreira Leite explicou em Setúbal as suas propostas. Numa lógica de small is beautiful, evidenciou o papel crucial das PME no combate ao desemprego (mais de 2 milhões de postos de trabalho) e no aumento das exportações. Mostrou que as linhas de crédito do Governo não chegam ao terreno, e que a prioridade deve ser o pagamento das dívidas do Estado às empresas (que atravessam graves problemas de tesouraria), que devem ter uma "conta corrente" com o Estado. Reiterou a urgência de alterar o regime do IVA, extinguir o PEC e reduzir os encargos com a Segurança Social para reduzir os custos fixos do trabalho. Defendeu que deve ser garantida a participação das PME nos contratos públicos, um tratamento fiscal (IRC) mais favorável para os jovens empresários e uma orientação clara à CGD para financiar as PME exportadoras.
Pela reacção do Governo não parece que estas propostas venham a ser acolhidas. O executivo continua a mascarar as suas fraquezas com a crise internacional e a ignorar a componente nacional da crise. Apesar da dívida externa galopante (100% do PIB quando era 64% em 2004), e do estrangulamento financeiro das empresas, persiste em grandes projectos que não melhoram a competitividade e têm reflexos negativos no crédito disponível. Com Sócrates caminhanhamos para um pântano bem pior do que aquele a que nos conduziu a dupla Guterres-Pina Moura.
(versão integral deste texto na edição de hoje do Díário Económico)

Sobre o "Perú" de Ontem

Terça-feira, 24 de Fevereiro de 2009

Cachimbos de lá


Pietro Longhi, O Rinoceronte (c. 1751)

A silly season é quando um homem quiser

Festejos aqui e também aqui.

E ainda só estamos em Fevereiro...

Uma pequena nota sobre o aumento dos funcionários públicos

A julgar pela literatura económica dedicada ao estudo da Grande Depressão, se há algo que não se deve fazer é, no actual contexto, contribuir para a rigidez dos salários nominais. Um dos factores que nos anos 30 mais contribuiu para os profundos desequilíbrios no mercado de trabalho (nos EUA, em França, na Holanda, por exemplo) foi precisamente a rigidez dos salários nominais num contexto de recuo da procura agregada, queda da produtividade e de deflação. Foi assim que estranhamente os salários reais atingiram valores incomportáveis, o que criou uma massa infindável de desempregados. 
Em Portugal, o nosso governo escolheu a actual conjuntura para aumentar os funcionários públicos num montante que foi calculado tendo em conta taxas de inflação e um comportamento do mercado de trabalho que entretanto todos concordam já não serem viáveis. Falta de oportunidade é dizer pouco. É verdade que os funcionários públicos não tinham aumentos há vários anos consecutivos, mas a conjuntura é o que é. E depois de o Ministro das Finanças no Parlamento acenar com artigos de jornal assinados por Paul Krugman como demonstração de autoridade, pergunto-me como é que se vai desviar da acusação de precipitação ou de eleitoralismo. Eu cá sempre tenho uns artigos científicos de Ben Bernanke e de Christina Romer para acenar ao sr. Ministro...

O momento de Bobby Jindal

Barack Obama vai hoje fazer o seu primeiro discurso do estado da União. A resposta republicana será da responsabilidade de Bobby Jindal. Uma oportunidade para o governador da Luisiana emergir como figura nacional do GOP.

A luta por 2012 já começou, e apesar de expectante, Jindal tem dados passos seguros no sentido de ganhar destaque no partido. A recusa em aceitar fundos do plano de estímulo de Obama foi um acto meramente político, que lhe terá oferecido legitimidade para esta noite criticar a resposta económica da Administração à crise.

Ainda é cedo para Jindal se decidir, até porque tem apenas 37 anos e pode esperar por 2016, caso Obama chegue a 2011 com elevada popularidade. Mas é cada vez mais uma esperança para o futuro do GOP.

Adenda:
Este discurso de Obama perante as duas câmaras do congresso não se chama State of the Union Adress. Essa designação será apenas atribuída ao discurso do próximo ano.

Segunda-feira, 23 de Fevereiro de 2009

Publicidade Institucional


Estão abertas as candidaturas para os novos programas de licenciatura no European College of Liberal Arts em Berlim. Os alunos podem prosseguir os seus estudos em "Arte e Estética", "Ética e Teoria Política" ou "Literatura e Retórica". Ver aqui e a brochura completa aqui.

Segundo as informações da instituição, estão previstas "bolsas integrais de propinas e despesas para a maioria dos alunos admitidos". Como se isso não bastasse, os alunos admitidos terão o privilégio de estudar com um dos maiores professores portugueses da actualidade, e que, não por coincidência, é um ex-Cachimbador.

Da série "A concorrência faz melhor"

A justiça portuguesa no seu melhor

Um empresário português tentou corromper um vereador da autarquia lisboeta. Num negócio que envolvia milhões, a justiça portuguesa aplicou uma multa de cinco mil euros como pena para a corrupção activa em acto lícito. Nem quero saber da argumentação para esta decisão. Alguém pode negar que a justiça portuguesa protege os corruptos deste país?

A Fenomenologia do Nada

Nas últimas directas do PSD, escrevi um artigo no DN em que apontava a falta de densidade de Passos Coelho como uma das razões para votar em Manuela Ferreira Leite. Não é fácil definir esta densidade, mas nota-se logo quando falta. E notava-se.
Infelizmente, o tempo só veio confirmar aquela impressão. Basta ler a entrevista de ontem à Pública para nos darmos conta de um esforço tão audível por construir a personagem que soa a oco. Eis alguém que começou a ter aulas de canto aos 30 anos, por brincadeira, mas ainda pensou em carreiras na ópera. Ou que, apesar de se ver médico toda a vida, só concorreu a Medicina em Lisboa porque era aqui que se fazia política (um caso agudo de vocação localizada, digamos assim).
A esta soma de acontecimentos equívocos, uma jornalista atribuiu há tempos "a densidade da Montanha Mágica". Paulo Moura não vai tão longe, mas proporciona-nos um "momento violinos de Chopin", belo e involuntário como todos os violinos de Chopin, quando Passos Coelho conta ter lido Sartre e a Fenomenologia do Ser muito antes de Kafka. Muito antes, certamente. É que não existe nenhuma obra de Sartre com esse nome, recorda Pacheco Pereira. Existem coisas parecidas de Hegel, de Husserl, do próprio Sartre (O Ser e o Nada, com um subtítulo onde aparece a tal fenomenologia), mas nenhuma delas será uma leitura de Verão para adolescentes.
Não que a falha seja grave. Há muita gente que nunca leu O Ser e o Nada, nem mesmo antes de Kafka. Eu, por exemplo. A diferença é que não dou entrevistas sobre livros que não existem, sobretudo se não os li. Aprendi com Sartre, acho eu, que a existência precede a essência, e talvez o contrário. O que me poupa lapsos freudianos, embora de Freud só tenha lido o Totem e Tabu (ou seria A Montanha e a Magia?).
Em Passos Coelho, poucos lapsos serão mais freudianos do que trocar O Ser e o Nada por uma inexistente Fenomenologia do Ser.

Os Loucos Anos 80 (87)

"Driver 8", R.E.M. (1985)


(Dedicada ao Bruno Amaral)

And the winner is

Não sei o que dirá Hollywood, mas o Oscar da "melhor cobertura de evento cultural" do ano vai para o Bruno pela prestação abaixo. E sem efeitos especiais...

Da série "ele há coisas"


Alguém me pode explicar porque é que Diogo Infante, segundo o jornal Expresso, vai receber um salário mensal de 7200 euros, enquanto director artístico do Teatro Nacional D. Maria II, bem superior ao ordenado dos actuais ministros e até do próprio Primeiro-Ministro?
Parece que o despacho de nomeação esteve parado nas Finanças durante algum tempo, mas lá acabou por ser aprovado. Este texto não pretende resvalar para a demagogia. Sim, eu sei, provavelmente o problema não está em Diogo Infante, nem no ordenado do responsável por uma instituição respeitável como um teatro nacional, mas sim na miséria hipócrita dos salários dos políticos em Portugal. A começar nas câmaras municipais, passando pelos deputados e a acabar no governo. E depois queixamo-nos que o Jorge Coelho vá trabalhar para a Mota-Engil. E do caso «freeport». E da falta de qualidade de alguns políticos. E das suspeitas de corrupção generalizada.

That's all folks

Está feito. Agradeço a todos os fiéis leitores que me acompanharam nesta longa jornada. Aos meus colegas de blog peço um dia de produção intensa para escorraçarem os 500 posts que escrevi. Vamos dormir e chorar a derrota de Mickey Rourke.

Melhor Filme

Slumdog Millionaire. 8 estatuetas. No palco estão umas 50 pessoas para receber o prémio, o agregado familiar médio de Bombaim.

melhor filme
melhor realizador
melhor canção
melhor banda sonora
melhor montagem
melhor montagem sonora
melhor fotografia
melhor argumento adaptado

Estugarda 87

É assim que me sinto. Veloso atira para defesa de van Breukelen. Taça para o PSV. A vida não faz sentido. O mundo festeja o nosso desespero. E, para piorar tudo, daqui a nada tenho de ir trabalhar. Oh, se ao menos Deus me enviasse um sinal e destruísse aquele edifício.

Sim, senhor, tem graça

Tem muita piada. Esta é que era a supresa? Um cão morre e ninguém honra o dono? E vão entregar a um gajo de esquerda que faz de maricas? Hollywood já não é o que era. Ainda por cima, a Fernanda Câncio escreveu-lhe o discurso.

Vá lá

O chihuahua de Mickey Rourke morreu esta semana. Não lhe dêem outro desgosto ou ele faz o Orquídea Selvagem 5. E, meninas, com a cara naquele estado não vai ser tão divertido.

La Winslet

Fala em shampoo bottles, Peter Jackson, acena à família, as câmaras mostram o marido Mendes. Isto é bonito.

Eu não disse?

Óscar para Kate Winslet.

Melhor actriz

Querem surpresas? Anne Hathaway vai levar o careca.

Realizador

Surpresa! Sid Ganis, presidente da Academia, não vai falar. Reese Witherspoon apresenta o Óscar para melhor realizador. Pode ir para qualquer um, desde que não se chame Ron Howard. And the oscar goes to...Danny Boyle.

In memoriam

Charlton Heston, Bernie Mac, Roy Scheider, a carreira de Nicole Kidman, entre outros.

Liam Neeson e Freida Pinto

Apresentam o Óscar para melhor filme estrangeiro. Neeson é apelido de origem portuguesa. O prémio vai para o Japão. Surpresa! Surpresa! Surpresa! É o grito em Queluz de Baixo. O realizador japonês declara guerra aos EUA. O público ri-se. Ninguém se apercebe. Acabam os 45 segundos.

Melhor canção

E vão 6 Óscares para Slumdog. Peter Gabriel foi castigado pela sua soberba. Fez-se justiça.

Dá-lhe, Hugh!

"A movie without music is like an airplane without fuel". E um avião atacado por pássaros é como um filme com Meg Ryan, o que deve querer dizer alguma coisa, mas a estas horas eu já não garanto nada. Banda sonora original para Slumdog. Caramba, parece que isto não vai dar em surpresa.

Jerry Lewis


Eddie Murphy entrega o prémio Jean Hersholt a Jerry Lewis. From one Nutty professor to another.

Montagem

Chris Dickens recebe mais uma estatueta para o filme que cheira a...não me lembro, perguntem ao crítico do Público.

Efeitos sonoros

É aqui que se separam os bloggers convictos dos bloggers fraquinhos. Estou quase a adormecer mas tenho uma missão. São aqueles prémios que testam a nossa resistência. Slumdog arrecada mais um na categoria de montagem sonora. O Óscar de efeitos sonoros vai para Dark Knight.

Nada

Neste momento não está a acontecer nada...esperem, apareceu o Will Smith. O prémio é o de efeitos visuais. Benjamin Button 3 - Slumdog 2. Mas os de Slumdog são mais importantes.

Groundbreaking

Pela primeira vez alguém equilibra uma estatueta no queixo. Uma cerimónia original.

Documentário

Michael Moore não está nomeado e isso é sempre bom. Prémio para Man on Wire. Who cares?

Heath Ledger

Devia ter ganho pelo cowboy Ennis del Mar, talvez a melhor representação de um actor na última década. Mas também está bem. Os comentadores da TVI lamentam que não seja uma surpresa.

Josh Brolin

É casado com Diane Lane. Retirem-lhe a nomeação.

Melhor actor secundário

This is the moment we've all been waiting for.

The musical is back

Grita Hugh Jackman. Coreografia de Baz Luhrmann. Cortaram o raciocínio do comentador da TVI. Sócrates está metido nisto.

Beyoncé

Temos um número musical a reviver os grandes filmes do género, My Fair Lady, Grease, Moulin Rouge, Evita, High School Musical, etc.

Comentários

O comentador diz que será trágico para a carreira de Kate Winslet se ela não ganhar o Oscar. Percebem agora porque é que Heath Ledger vai ganhar?

Melhor curta-metragem

Oscar para um alemão. Filme sobre o holocausto. O comentador da TVI menciona o Festróia. Business as usual.

Mamma Mia!

"James Bond and the chick from Doubt." Para cantar ao som de Take a chance on me. Grande momento de James Franco e Seth Rogen. Autoria: o guru da nova comédia, Judd Apatow.

Jessica Biel

Jessica Biel está a dizer coisas extremamente interessantes.

Melhor Fotografia II

Anthony Dod Mantle, Slumdog Millionaire - parecia que íamos ter surpresa, depois já não, o que significa que se calhar a vitória de Slumdog será uma surpresa. Espero que tenhamos surpresas e que Meryl Streep ganhe o Óscar para melhor actor.

Phoenix

Ben Stiller doing a Joaquin Phoenix doing a Cat Stevens.

Melhor fotografia

A velha história dos unsung heroes do cinema. Natalie Portman e Ben Stiller a gozar com Joaquin Phoenix.

Desactualizado

Dois adolescentes apresentam os melhores momentos românticos de 2008. É de prever que apareça a capa da revista em que Manuel Luís Goucha assumiu a cumplicidade com o seu amigo. Sugiro que mostrem as fotos de Nereida Gallardo no iate de Cristiano Ronaldo.

Sempre a aviar

Finalmente alguém percebeu que alguns prémios têm de ser despachados com a máxima eficácia, rapidez e limpeza. Melhor caracterização para Benjamin Button.

Prémio Edith Head

The Duchess leva o Oscar para melhor guarda-roupa e o sr. Michael O'Connor parece o Steve Carell.

Prémios técnicos

Direcção artística para Benjamin Button: será que vamos ter surpresa? O prémio foi entregue por James Bond e Carrie Bradshaw - com sapatos Manolo Blahnik.

Balanço

Até agora ainda não parei de escrever. Já esgotei as reservas de cafeína e ainda faltam quase todos os prémios.

Arigatô

Prémio de melhor curta-metragem de animação para o senhor Zank-iu.

JB e JA

Esqueci-me de dizer que os apresentadores foram Jack Black e Jennifer Anniston. Brad Pitt e Angelina Jolie estão nomeados. Tinham de compensar a rapariga.

Melhor filme de animação

Meryl Streep não estava nomeada para este. Ganha Wall-e.

Argumento adaptado

Para Simon Beaufoy, Slumdog Millionaire. O senhor diz que nunca esperou receber um prémio destes, nunca esperou ir ao Pólo Sul e, ao contrário do vencedor anterior, nunca esperou concorrer a Miss Mundo.

Milk

Oscar para Dustin Lance Black. Esta é a altura em que os comentadores dizem: "será que vamos ter uma surpresa?". O argumentista fala do seu passado mórmon e do seu presente gay. Fala de casamento. Sócrates está metido nisto.

Steve Martin e...

...Sarah Palin apresentam: melhor argumento original.

Penelope

Falou qualquer coisa sobre "ádbentchóres" e Alcobendas. Muchissimas gracias. Isto é para agradar às audiências latinas.

and the oscar goes to...

...Penelope Cruz.

Actriz secundária

Vem aí o prémio para o qual são nomeadas todas as actrizes que trabalham com Woody Allen. E, apesar de serem cinco anteriores vencedoras a entregar o prémio, nenhuma das de Woody está ali. Mas está Eva Marie Saint. E isso é bom.

Oh, Nixon!

Hugh Frost Jackman a declarar-se a Anne Nixon Hathaway. Já ninguém se lembra de Billy Crystal.

Down under

Hugh Jackman a fazer piadinhas sobre a terra dos cangurus. E a cantar.

Brangelina

A Reuters noticia que a cerimónia terá início com um atraso de 45 minutos, tempo suficiente para o casal Jolie-Pitt adoptar os miúdos de "Slumdog Millionaire".

Outra

Anne Hathaway está magérrima.

Nixon

É a 2ª vez que um actor é nomeado por desempenhar o papel de Richard Nixon. Josh Brolin, que está nomeado para melhor actor secundário, foi George W. Bush no cinema. Barack Obama vai ser o protagonista do biopic de Denzel Washington.

Mr Apu's Family




Ups!

Kate Winslet está magérrima.

Weird!


"Those spanish beds"

Agradecendo o comentário de um leitor, deixo a opinião de Mr. Allen sobre o assunto:

Derrotados

Kate Winslet e Roger Deakins (director de fotografia) são especialistas no sorriso por-favor-não-me-filmem-agora-neste-momento-tão-doloroso. É a sexta nomeação de Winslet e a oitava de Deakins. Nunca ganharam.

Os produtores

O prémio mais importante (melhor filme) é o último a ser atribuído. Normalmente, é a altura em que sobem ao palco 3 ou 4 senhores que ninguém conhece. São os produtores. É a vingança dos nerds.

Domingo, 22 de Fevereiro de 2009

Filmes conservadores

Team America foi escolhido como um dos melhores filmes "conservadores" de sempre. E o Triunfo da Vontade é um libelo anti-nazi.
Continuo à espera de ver imagens do Kodak Theater mas fui hipnotizado pelo cabelo do Rui Santos.

O leitor

Ainda bem que Sócrates não viu O Leitor, caso contrário estaríamos a discutir a legalização das uniões entre adolescentes e balzaquianas analfabetas.

Começou o espectáculo

"O futebol é uma modalidade colectiva" - Rui Santos

Milk

Ficará para a história como o único candidato aos Óscares recomendado simultaneamente pelos críticos do Público e por José Sócrates.

Emissão especial


Se não adormecer entretanto, estarei aqui a acompanhar a cerimónia da Academia. A coisa promete: os dois principais candidatos a vencer o Oscar de melhor actor secundário e de melhor actor são, respectivamente, um morto e um ressuscitado; Meryl Streep está nomeada pela 89ª vez - quando tiver 80 anos, em vez de um Oscar, entregam-lhe uma nomeação honorária; Kate Winslet está tão gorda que vai levar um vestido de dois estilistas; Peter Gabriel recusou-se a fazer uma actuação de um minuto, o que se compreende visto que o homem é do tempo em que os vídeoclips tinham intervalo; Robert Downey Jr. pode tornar-se o terceiro negro a ganhar um Oscar para melhor actor secundário; Hugh Jackman é o apresentador e "the sexiest man alive"; Benjamin Button é o único dos 5 nomeados para melhor filme a ter ultrapassado a barreira dos 100 milhões de dólares nos EUA - não vai ganhar.

Reivindicarmen



É conhecido o facto de a brasileira mais famosa de todos os tempos ter nascido em Marco de Canaveses. Os primeiros patrões artísticos de Carmen Miranda (Maria do Carmo Miranda da Cunha) não estavam interessados em divulgar tão obscuras raízes. Temiam que a sambista se transformasse, na imaginação dos devotos ouvintes, na cantadeira pronta a chorar fados e outras desgraças lusitanas. Mal chegou aos EUA, Carmen teve direito a uns retoques biográficos. Nascera em Portugal, sim, mas em Lisboa. O pai foi promovido de barbeiro a caixeiro-viajante e, depois, a exportador de fruta (deve haver uma lógica nesta hierarquia). E, para que o exotismo não fosse tomado por indecência latina, garantiam que Carmen tinha sido educada num convento. Enquanto os agentes dedicavam o tempo a esta melhoria retroactiva da biografia, Carmen fazia o mesmo, mas em palco e para o futuro. No Brasil, o mito de Carmen carioca de gema persistiu. Sejamos sinceros: o mito era apropriado, desejável e verosímil. O verdadeiro local de nascimento era um acidente geográfico a implorar por uma lenda benigna que o corrigisse. Imprima-se a lenda. Carmen não só era tão brasileira como o morro do Pão de Açúcar como era a mais brasileira das brasileiras. E é aqui que a baiana roda a saia. Mais do que ninguém, foi a própria Carmen quem contribuiu para fixar a imagem ideal do Brasil (e, particularmente, da mulher brasileira): exótica, extrovertida, em estado de alegria permanente. Num processo de sinédoque cultural, a nação brasileira herdou as qualidades de Carmen. A "pequena notável" alargou o conceito de "ser brasileiro" de tal forma que ainda hoje é difícil pensar na mulher que existia para lá do ícone. A biografia de Carmen, da autoria de Ruy Castro (sempre notável na escrita), é a demonstração dessa fusão entre a mulher e o símbolo. Por muitas que tenham sido as peripécias da sua vida, e Ruy Castro tem esse dom de nos transportar para uma época recorrendo a pequenos episódios e detalhes, Carmen será sempre a baiana de balangandãs e eterna cesta de frutas na cabeça.

O museu assassinado

"Um edifício histórico abandonado ao deus-dará, sem estima nem sensibilidade, foi o que o Estado do meu país fez ao museu onde se guardava a melhor colecção portuguesa de arte popular. Este conteúdo existe, no entanto, está hoje encafuado nas reservas do Museu de Etnologia para que ninguém o possa ver. Tudo isto aconteceu quando, em 2006, a então ministra da Cultura de triste memória proferiu a lapidar frase "os museus nascem, vivem e morrem", assassinando assim o Museu de Arte Popular."

Catarina Portas, "O museu assasinado" (no Público de hoje).

Sábado, 21 de Fevereiro de 2009

O caminho da servidão



O Parlamento aprovou anteontem a obrigatoriedade de uma disciplina de educação sexual no ensino público. Não vou discutir aqui os pormenores da coisa - os anos, os conteúdos, o programa, a carga horária, os professores. É o princípio que contesto. E o princípio é este: o Estado sabe melhor do que nós o que é melhor para os nossos filhos. O mesmo Estado que não consegue ensinar-lhes gramática e aritmética quer agora ensinar-lhes que 1+1 é igual a 3, às vezes, e que tu e eu tendem a conjugar-se na terceira pessoa. Porque o que está em causa é apenas a multiplicação da espécie ou, no jargão dos engenheiros das almas da 5 de Outubro, a prevenção. Por outras palavras, ópio do povo para quem acredita que a educação sexual pode prevenir comportamentos de risco. Talvez, se for mais educação do que sexual. Mas duvido que os engenheiros vão por aí. Uma educação sexual "neutra", técnica, fora do contexto familiar, é como ensinar a conduzir desmontando o motor de um carro: ficamos a saber como funciona, mas não para que serve e onde nos leva.
Não nos iludamos. Isto é mais um round do longo combate pelo aborto livre e, de caminho, pelo domínio da intimidade dos contribuintes. Dá algum jeito ter lido Foucault. E Tocqueville: nas curvas da história, o crescimento do poder do Estado fez-se sempre pelo esvaziamento das comunidades intermédias. A educação sexual é um direito e um dever das famílias. Não me surpreende que os profetas dos amanhãs cantantes queiram fazer o Homem novo ignorando os seus paizinhos. O que me surpreende é que a direita portuguesa alinhe no maior ataque à sociedade civil desde a renacionalização da banca.
Perguntam-nos os profetas de que é que temos medo. Respondendo por mim, de nada. À conta de dois empregos, posso confiar os meus filhos a um colégio privado onde nunca lhes dirão que a mãe e o pai desrespeitam a Constituição porque ignoram as delícias do mènage à trois. (Nos meus filhos é que não tocais, ó engenheiros. E, se tentardes, prometo-vos as delícias da sodomia com um ferro em brasa. Em nome das sexualidades alternativas. ) Apenas lamento que os portugueses tenham perdido mais uma parte da sua liberdade, e não das menores, em troca da utopia higiénica que passa hoje por progresso. O caminho da servidão chegou à nossa cama. Ou à dos nossos filhos.

31 da Armada

Até fazia lembrar o Orçamento de Estado

«A ERC, com base num parecer da Universidade Nova de Lisboa, diz que os objectivos a que a Telecinco se propõe atingir são “irrealistas”» JN

Durante o dia os socialistas queixam-se da falta de investimento, da pouca criação de emprego. Durante a noite parece que afinal estamos a viver tempos de investimento muito criterioso.

Lá lá - lá lá lá - lá lá


Calmíssimo durante toda a semana, só agora, à medida que a hora do derby se aproxima, começo a desenvolver alguma ansiedade. Com Rui Patrício lesionado, a baliza será defendida por Tiago; com Adrien e Miguel Veloso também lesionados, o 6 deverá ser ocupado por Rochemback (uma alternativa possível, mas pouco provável, seria ter Romagnoli a 10 e João Moutinho recuar para para 6). Na defesa, os jogadores das faixas laterais não garantem nada de muito bom; os centrais também não estão na sua melhor forma, com Polga incerto e Daniel Carriço ainda a dar os primeiros passos nestas andanças. Actualmente, o sector mais interessante da equipa é mesmo o ataque, com Vukcevic e Izmailov nas alas e Postiga e Liedson em frente à baliza (Derlei e Djaló estarão no banco, prontos a entrar... e marcar). Curiosa inversão: o Sporting de Paulo Bento sempre teve mais qualidade a defender do que a atacar e hoje parece oferecer mais garantias no ataque do que na defesa. A sete pontos do Porto (que ganhou ontem mais um jogo), deixo de acreditar na vitória do campeonato se o Sporting perder ou mesmo empatar o jogo. Entretanto, com o jogo no Porto na próxima jornada, não daria jeito nenhum que o Moutinho ou o Postiga fossem com um amarelo e o consequente castigo para casa. Em suma, estarei em Alvalade com uma expectativa de vitória moderada – paradoxalmente, talvez o melhor sinal de que vamos ganhar mais um jogo aos lampiões!

As companhias de Sócrates

José Sócrates convidou Hugo Chávez para o Congresso do PS

Este convite tem a sua lógica: a governação de Sócrates está cada vez mais próxima daquilo que tem sido feito na Venezuela. Portanto, nada a apontar!

EX ORE PARVVLORVM VERITAS II

Continuando isto, vamos então a uma homenagem cantante ao senhor primeiro-ministro?...

'Andar mascarado, / rir às gargalhadas, / lançar serpentinas, / fazer palhaçadas'

E não se esqueçam de rir das piadas do senhor primeiro-ministro - mas sempre de modo conspícuo, claro. Riam, patriotas, riam - lembrem-se que o 'pessimismo não cria postos de trabalho' e tal.

Cachimbos de lá

Max Beckmann, A Tentação (1937)

Da série "O Som e a Fúria"

"I know how easy a topic it is to dwell on the faults of departed greatness. By a revolution in the state, the fawning sycophant of yesterday is converted into the austere critic of the present hour. But steady independent minds, when they have an object of so serious a concern to mankind as government under their contemplation, will disdain to assume the part of satirists and declaimers. They will judge of human institutions as they do of human characters. They will sort out the good from the evil, which is mixed in mortal institutions as it is in mortal men."

Edmund Burke, Reflections on the Revolution in France (1790)

Sexta-feira, 20 de Fevereiro de 2009

Número 5 da revista Medievalista


Já está disponível o número 5 da Medievalista, a revista online do Instituto de Estudos Medievais da Universidade Nova de Lisboa. Graças a uma equipa editorial muito dinâmica, e com muitos amigos meus (se me permitem a declaração de interesses), a Medievalista continua a sair com uma regularidade invulgar. Só quem está metido no pobre meio académico lusitano sabe como é difícil fazer uma revista de história medieval por cá. Esta, além dos contributos de Alan Guerreau, José Mattoso, Iria Gonçalves e Luís Filipe Oliveira, entre outros, traz também uma evocação de Bronislaw Geremek, um historiador que era também um homem de acção, por Jorge Almeida Fernandes.

Medo e ridículo

Não me lembro de Portugal, passado o período “revolucionário”, ter vivido tão controlado, tão manietado, tão inerme e tão desprezado como hoje. Tão com o rabo entre as pernas. Só a odisseia do Magalhães, desde a sua apresentação a criancinhas de fancaria até ao grotesco episódio do carnaval de Torres Vedras, passando pela cimeira ibero-americana, basta para um retrato perfeito do país em que neste momento vivemos. Não é preciso ter lido La Boétie para nos darmos conta da monstruosa multiplicação de tiranos, tiraninhos e tiranetes que se verifica por aí e da facilidade da servidão voluntária. Basta olhar à volta e ver como, ajudado pela situação económica, o medo das pessoas dizerem o que pensam cresceu de forma exponencial. E como cresceu igualmente uma sinistra e grosseira insensibilidade ao ridículo por parte de quem nos pastoreia, do “Allgarve” às “campanhas negras”. O medo (do despedimento, de tudo) e a insensibilidade ao ridículo andam de mãos dadas e fortalecem-se reciprocamente. O medo inibe, a insensibilidade ao ridículo agride. Quanto maior a inibição, maior a agressão. O episódio do carnaval de Torres Vedras é apenas um detalhe numa história que já vai longa. E algo me diz que coisas mais fantásticas estão para vir.

Os loucos anos 80 (86)

We don't need no sexual education We dont need no thought control

Pink Floyd The Wall 1979 1982

Sobre o 'malhador'

Está tudo dito sobre a concepção da democracia de Santos Silva quando o ministro dos Assuntos Parlamentares e dirigente socialista considera as suas declarações em sede partidária como "minudências" e exige um pedido de desculpas à televisão pública por as ter citado. Quem deve um pedido de desculpas - ao país e à democracia portuguesa - é o senhor que gosta de "malhar" a torto e a direito.

Paulo Pinto Mascarenhas, no ABC do PPM

O Ministro desaparecido em combate

A desastrosa política de património do actual Governo continua a gerar polémica. Depois do encerramento do Museu de Arte Popular para ceder um espaço histórico ao Museu Mar da Língua, agora o Ministério da Cultura quer deslocar o Museu de Arqueologia dos Jerónimos para a Cordoaria, sob protestos da comunidade científica, da Associação de Amigos do museu (que promete a "resistência civil") e do seu director Luís Raposo. A ideia, velha de meio século, foi já desaconselhada por vários estudos: para a Cordoaria receber o espólio do MNA em condições, seria preciso fazer obras quase tão caras como construir um edifício de raiz. E o dinheiro, como se sabe, foi todo para o novo Museu dos Coches, outra urgentíssima necessidade da pátria.

É possível que o MNA, instalado nos Jerónimos desde a sua fundação por Leite de Vasconcelos, necessite de mais e melhor espaço. Não defendo que fique na Praça do Império apenas por inércia ou tradição, mas lamento esta fúria inovadora do PS só para dar a impressão que alguma coisa está a mudar nos museus portugueses, quando todos sabemos o triste estado financeiro e material em que se encontram.

Entretanto, o ministro Pinto Ribeiro nada diz. Talvez porque a decisão não passe por ele. É o que depreendo da entrevista que deu há tempos ao Público, em que declarava não ter opinião sobre a política museológica do Governo porque só lhe caberia executá-la. Os museus são para este ministro o que o CCB da Colecção Berardo foi para Isabel Pires de Lima: um enterro em que faz figura de corpo presente.

Olha quem são eles!!

Foto colocada num comentário

Tipo de gente

"Ele [Jorge Sampaio] não percebeu o tipo de gente a que deu posse"

Miguel Sousa Tavares sobre o então Primeiro Ministro Santana Lopes. As voltas que o mundo dá.

Nos duzentos anos de Darwin


Quando celebramos duzentos anos do nascimento de Charles Darwin, deparei-me com este excelente texto de Cormac Murphy-O'Connor, Arcebispo de Westminster, no The Times sobre evolucionismo, liberdade, ciência e religião. «Darwin's theory does not take away the reality of that freedom and the moral responsibility it gives us. It also teaches us a certain humility before the wonderful complexity and process that life is. (...) Science is a friend rather than an enemy of faith. The theory of evolution explains how, but not why, we are here

Nem sei que título hei-de arranjar para isto...

Trata-se disto.
Note-se que a decisão atropelada pela tristemente famosa Directora Regional de Educação do Norte, Margarida Moreira, foi tomada por um Conselho Pedagógico do Agrupamento de Escolas - repito, Conselho Pedagógico: apenas o orgão efectivamente mais competente para ajuizar das actividades a levar a cabo por uma escola. Mas o que é isso para uma comissária política?
Como não podia deixar de ser, a Confap, sempre solícita na sabotagem do que ainda vai restando de uma Escola digna desse nome, fez a sua aparição com um comunicadozinho inacreditável: esta coisa.
Delicioso, não é? A mentira caluniosa (na verdade, foram canceladas apenas dez "actividades" e não "todas"), a acusação miserável da "utilização" [sic] de alunos na "luta política" (uma acusação tipicamente reaccionária), a chantagem das "graves carências económicas e sociais", todo o tom intrometido e acintoso. Mas o mais revelador é o uso da palavra 'motim' para qualificar a posição sensata do Conselho Pedagógico. Aquela palavrinha diz tudo sobre a perspectiva das criaturas. Perspectiva que vem sendo alimentada e acarinhada pelo governo misólogo de Sócrates... Os professores, simplesmente, amotinaram-se, isto é, rebelaram-se contra os seus senhores.
E que dizer da carta enviada pela Direcção Regional para a escola? Podem lê-la - tarefa que se me afigura difícil, por estar redigida numa sintaxe remotamente portuguesa. Mas o esforço interpretativo (ainda que mórbido) vale a pena. Está aqui.
Que tal? O tom ameaçador parece apoiar-se numa espécie de divertida "fundamentação" teórica, segundo a qual a "actividade" do desfile de carnaval será indispensável para a "socialização" [sic] dos alunos. Se repararmos que as "actividades" festivas no interior da escola não foram canceladas, logo percebemos muito bem quais são as verdadeiras motivações da vertigem persecutória da sra. directora...
Deixo para o fim o aspecto mais extraordinário de toda esta coisa e que mostra muito bem o lindo estado a que se chegou na nossa Escola, graças às opções e discurso de Sócrates e ministra: todo este rosnar abusivo dos "pais", articulado com o casse-tête de Margarida Moreira e com o presidente da câmara, decerto babadamente desbarretado na ânsia de agradar ao Chefe de Lisboa, tudo isso se refere à resposta inevitável (porque efectivamente preocupada com a escola e os alunos) e razoável de uma escola que tem de se haver, para lá do que seria legítimo, com a incontinência legislativa do ministério da educação. Quer dizer, esta gente que se arrepela pelo cancelamento daquelas poucas "actividades" não vê, ou finge não ver, que a suspensão visa precisamente salvaguardar a sanidade de uma escola.
Para ser ainda mais claro: é o Conselho Pedagógico e não os "pais", nem a senhora directora regional, que sabe quais as "actividades" a fazer ou a cancelar. A certeza do tal Eduardo Bastos de que 'vai mesmo haver desfile' (com a promiscuidade ilegítima que isso pressupõe à revelia da escola) é o sinal da perversão a que se chegou.
Só mais uma coisinha: as "actividades" que aquela gente lamenta e impõe tão furiosamente são... extra-curriculares. (Para além de cairem fora do horário dos professores.)

Estes "conflitos" absurdos têm a função política de ir envenenando o público com vista a criar uma opinião-lumpen, que rosnará ressentida e desconfiada de tudo aquilo que cheirar a oposição às medidas sempre benfazejas do governo.
A propaganda conflitual deste governo vai alimentando o que há de pior em nós.

Quinta-feira, 19 de Fevereiro de 2009

Será isto normal em democracia?

Ministério Público proíbe sátira ao Magalhães no Carnaval de Torres Vedras

Educação sexual estatal? Não, obrigado (2)

Não sou, por princípio, contra a inclusão da problemática da sexualidade nas escolas. A sexualidade é importante e deve ser devidamente enquadrada na vida dos nossos filhos de acordo com a sua idade e maturidade. Mas seria uma ingenuidade pensar-se que a sexualidade é uma expressão humana neutra e independente dos valores que orientam a nossa vida.

Conforme sublinhei em post anterior, o projecto de lei do PS sobre a educação sexual exclui as escolas privadas. Tal facto, porém, não significa que as escolas privadas não possam adoptar nos seus currículos a educação sexual; significa, simplesmente, que os pais que livremente matriculam os filhos nesta ou naquela escola privada, que contempla esta ou aquela educação sexual, estão em perfeita sintonia com o projecto educativo da escola que escolheram.

Esta liberdade e sintonia não existe quando os pais dos alunos que matriculam os filhos nas escolas estatais – e muitos apenas o fazem porque não têm recursos económicos suficientes para fazer de outro modo – são confrontados com uma educação sexual pensada ao arrepio dos valores que privilegiam. Este problema poderia ser facilmente resolvido mediante algumas condições: se as escolas estatais tivessem um projecto educativo próprio; se as escolas estatais tivessem autonomia curricular; se as escolas estatais pudessem contratar os seus professores; se os pais pudessem escolher para os filhos a escola estatal da sua preferência. Se assim fosse, as escolas poderiam decidir sobre a educação que oferecem, inclusivamente a educação sexual; haveria uma comunhão entre o projecto escolar de cada escola e os professores; os pais teriam os filhos nas escolas que apresentam o projecto educativo mais adequado para os filhos. Numa palavra, as escolas auxiliariam verdadeiramente os pais na educação dos filhos.

Infelizmente, este ainda não é o sistema educativo que temos em Portugal. Face ao sistema educativo actual, o projecto de lei do PS sobre a educação sexual consiste numa instrumentalização ideológica da escola com vista a veicular uma visão particular da sexualidade que ofende o direito e liberdade fundamentais dos pais a educarem os filhos.