Sábado, 31 de Janeiro de 2009

In time

Pobre rapaz. A certo ponto da sua vida, alguém com autoridade sobre ele lhe devia ter dito ‘Não te metas nisso, pá! Não vás por aí!
Mas parece que não. Certos hábitos (que são vícios), certas leviandades, acabam, aos poucos, por se instalar em nós e passam a ser modos “naturais” de responder, de solucionar – se não nos impedirem a tempo.

Mas afinal a legalização da IVG não acabava com o aborto clandestino?

Aqui está um exemplo de como a legalização do aborto não fez desaparecer o problema do aborto clandestino, como mentirosamente era afirmado pelo SIM durante a campanha do último referendo. Será que vamos ter agora manifestações à porta do tribunal que julgar a enfermeira acusada de centenas de abortos clandestinos? Como se previa, com a aprovação da nova lei e respectiva regulamentação, o aborto tem-se banalizado, à medida que a sociedade (e cada um de nós...) vai perdendo o respeito pela vida humana. É cada vez mais usado, mesmo nas clínicas "legalizadas", como meio de planeamento familiar. Tudo isto seria ridículo se não fosse trágico e mesmo sangrento.

O Presidente da República

Presumo que, em tempos de maior tranquilidade, o PR já tivesse demitido Sócrates, ou pelo menos já teria chegado a um acordo com o PM para tratar da sua substituição e convocação de eleições antecipadas. O problema do PR é que os tempos que vivemos são tudo menos tranquilos. Com pacotes imensos de intervenção do Estado na economia, com o aumento exponencial do poder discricionário do Estado na economia e na sociedade, com orçamentos rectificativos que se sucedem, com negociações diárias com multinacionais, e numa situação de grande incerteza, será mais razoável deixar tudo nas mãos de um governo de gestão ou permitir que um governo politicamente debilitado prossiga as suas tarefas? A decisão é difícil, mas não parece haver dúvidas de que a crise económica é o factor que mais impede a demissão de Sócrates.
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Como previ há umas semanas num programa de rádio a propósito do episódio do estatuto dos Açores, Sócrates e os seus sequazes não poderiam cantar vitória durante muito tempo. Era óbvio para toda a gente que o ano de 2009 colocaria a faca e o queijo na mão de Cavaco. Só não era óbvio que o fizesse tão depressa, e que deixasse Sócrates completamente à mercê do PR.
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P.S. Uma coisa é o respeito pelo princípio da presunção da inocência; uma coisa é a reverência pela autoridade do magistério de um Primeiro-Ministro; uma coisa é o ódio a campanhas de difamação. Tudo isso é digno de respeito e próprio da conduta de um bom cidadão. Mas outra coisa bem diferente é Carlos Magno (ouvir aqui, em 30.1.2009).

Michael Steele eleito chairman do RNC

Esta é uma excelente notícia para o Partido Republicano. O antigo vice-governador do Maryland foi hoje eleito chairman do Republican National Committee. Esta eleição tem dois significados importantes para o futuro do GOP: é o primeiro afro-americano a ocupar o cargo e é da costa leste. Com esta eleição, a renovação pós George W. Bush está em marcha. Hoje começou uma nova era no Partido Republicano.

Recordo-me da grande intervenção que teve na convenção de Minneapolis. Nessa noite escrevi isto no Eleições Americanas de 2008:

Num discurso poderoso, o afro-americano fez jus aos valores da liberdade, da economia de mercado e do conservadorismo social que define o Partido, e lançou um dos motes da noite: “Drill, Baby Drill”. E foi muito aplaudido por isso. Com esta prestação, certamente terá um papel de relevo no futuro do Partido Republicano.

Não me enganei!

Momentos de Glória

O Cachimbo adere com todo o entusiasmo a esta bela iniciativa.

"Goal.com’s Campaign For Paolo Maldini To Play Against Brazil"


Forza, signor Maldini!

Sexta-feira, 30 de Janeiro de 2009

As "forças ocultas" em acção

Mais informações no Público.

"Farinha do Mesmo Saco"

Da declaração de ontem feita por José Sócrates perante, e para, os jornalistas, tirei uma conclusão definitiva. O primeiro-ministro e a presidente da Câmara Municipal de Felgueiras, Fátima Felgueiras de seu nome, são, sem tirar nem por, "farinha do mesmo saco." Visto isto, penso que não é preciso dizer mais nada sobre o estado a que chegou grande parte da classe política portuguesa, seja ela "nacional", "regional" ou "local".

Cartas na mesa

Está aqui disponível a versão integral da carta rogatória enviada pela Serious Fraud Office às Autoridades Judiciárias portuguesas. Destaco o seguinte:

«A Polícia Judiciária portuguesa declarou à Serious Fraud Office e à Polícia da Cidade de Londres que o facto de a aprovação ter sido alguma vez concedida, dada a existência da zona de protecção ambiental, levanta uma forte suspeita de corrupção no procedimento de aprovação.» (...)

«No dia 17 de Janeiro de 2002, os representantes da Smith & Pedro e da Freeport reuniram com entidades portuguesas, incluindo o então Ministro do Ambiente, José Sócrates, para discutir uma terceira apresentação para apreciação em matéria de Avaliação de Impacto Ambiental. Os participantes nesta reunião foram Sean Collidge, Gary Russell, Charles Smith, Manuel Pedro, José Sócrates e outros funcionários municipais e públicos portugueses

Perante isto, para eu conseguir afastar as angústias negras e conspirativas que constantemente me invadem o espírito, gostaria que a senhora directora do Departamento Central de Investigação e Acção Penal me explicasse a razão de não existirem arguidos ou suspeitos na investigação em curso. E porque é que um dos nomes acima referidos não está sequer a ser investigado? Obrigado.

N'importe quoi

Comparar Sócrates com Dreyfus.

O Medo e a Crise

Da gravidade desta crise já ninguém duvida. Mas não consigo deixar de pensar que uma (boa) parte dos efeitos negativos que estamos já a sofrer, incluindo aquilo que decorre de um recuo tão repentino da procura agregada, tem uma motivação psicológica importante. Por outras palavras, os efeitos desta crise são também resultado de uma reacção de pânico que investidores, produtores, Estados e consumidores partilharam e ainda partilham. Por sua vez, o medo provoca os efeitos que o alimentam e justificam. Nada disto significa que a crise não é "real"; a sua realidade demonstra-se suficientemente nas falências, no desemprego, na queda do produto e do investimento. Mas a profundidade da crise deve-se sobretudo ao medo que penetrou na consciência de toda a gente. E, como Montesquieu ensinou, o medo paralisa.
O funcionamento normal de uma economia de mercado depende da confiança. Depende da confiança, não só entre os agentes, mas também na trajectória positiva do próprio sistema económico. Quando a confiança se desvanece, isso tem um reflexo automático nos comportamentos dos agentes, de todos os agentes. Ora, nunca houve uma crise que mobilizasse tantas horas de notícias negativas, de comentários pessimistas, de cabeçalhos catastróficos; como antes não havia canais informativos a funcionar durante 24 horas, como a Internet ainda não difundia informação instantânea por todo o mundo, era também mais difícil comunicar a crise a todos os cantos da economia.
Hoje em dia, é impossível não ficar deprimido quando nos expomos aos órgãos de informação nacionais ou internacionais para escutar tantas notícias desagradáveis. E quem duvida que a experiência afecta os nossos comportamentos "económicos"?

Que setinha para o jornalista das setinhas? (2)

À semelhança de um imperador romano, os jornalistas adquiriram o mau hábito de proferir juízos com o polegar. Em mais uma das figuras tristes que este(s) jornalista(s) teima(m) em fazer, o jornal "Público" traz nas irritante caixinha das setas um elogio à Ministra da Saúde (!), com a respectiva setinha para cima, e condena à seta que aponta o sul o Presidente francês Sarkozy. Lemos a justificação de tal julgamento negativo e ficamos a perceber que foram as greves recentemente realizadas em França que justificam a negativa. Nunca passou pela cabecinha oca do dito jornalista que talvez fossem os sindicatos irresponsáveis a merecer a reprovação. Devia ser óbvio que a melhor maneira de resistir à crise não é com certeza ter o sector público em greve (sim, porque foi o sector público estatal e as empresas públicas de transporte que aderiram à greve). Mas não. É mais simpático para toda a gente se for Sarkozy o alvo da crítica. Deus nos livre de criticar sindicatos. Ou outros governantes desastrosos mas muito mais queridos da nossa fé, como, por exemplo, Zapatero, aqui ao lado, ou, no passado, o triste Prodi, em comparação com o qual Berlusconi é o sumo da competência e da visão política. Era o que mais faltava críticas dessas. E agora que Bush desapareceu de cena, é preciso rapidamente encontrar alguém que expie as nossas agruras.

A poluição

Helena Matos fez ontem na televisão (e repete-o hoje no Blasfémias) um comentário, cuja pertinência fatalmente escapou a Carlos Magno, que vale a pena sublinhar. Disse ela que o primeiro-ministro, na sua declaração ao país, se dirigiu não aos portugueses, mas aos jornalistas, e que isso é revelador do próprio estilo político que ele imprimiu ao governo, preocupado acima de tudo com a maneira como a comunicação social o refere e trata.
Vale talvez a pena acrescentar uma coisa, na linha daquilo que a Helena diz. Esse estilo de José Sócrates relaciona-se obviamente com uma espécie de dedicação total às aparências em que ele se parece deleitar. Ele é o Magalhães apresentado numa sala de aula, ou lá o que era, a criancinhas contratadas, ele é o Magalhães entregue para a fotografia e depois devolvido, ele é o jogging postiço de circunstância, ele é o relatório da OCDE que não é da OCDE, ele é (essa foi particularmente obscena) o "sucesso de Portugal" que o PSD não suportaria, ele é Sócrates quase todo.
Nisto há muito de infantilidade e de egotismo, de incapacidade em distinguir o subjectivo e o objectivo, a ficção da realidade. Daí tudo - um muito legítimo inquérito, por exemplo - se transformar em "campanha negra" e "cabala" contra a sua pessoa. A coisa ultrapassa, e de longe, o que é aceitável em política. Estraga e polui. E farta.

Quinta-feira, 29 de Janeiro de 2009

Che era a favor da pena capital

O actor Benicio del Toro encarna Che Guevara no último filme de Steven Soderbergh. Apesar de ainda não ter visto o filme, e pelo que tenho lido, facilmente chego à conclusão que entre a realidade e a obra cinematográfica, poucos serão os factos coincidentes. Aquele que foi o principal responsável por assassinatos e fuzilamentos dos primeiros tempos da revolução cubana, entre outros crimes graves, surge neste filme como aquele herói que a imaginação esquerdista construiu. Até aqui nada de novo.

Mas nos Estados Unidos, estas fraudes não costumam passar incólumes. Numa entrevista ao Washington Times, o actor Benicio del Toro, questionado sobre a imagem condescendente que o filme expressa de Che, não esteve com meias medidas: abandonou a entrevista a meio. Antes, ainda tinha dito que Che era a favor da pena capital, dando a entender que as perseguições que orquestrou eram apenas decisões judiciais, e portanto legais. Pois! Na Alemanha Nazi, os tribunais também condenaram muita gente à morte. Já para não falar dos famosos julgamentos de Moscovo. Seriam Hitler e Estaline também a favor da pena de morte para del Toro? Ou será que perseguir e assassinar por questões políticas é ligeiramente diferente de ser a favor da pena de morte?

Os liberais de Hollywood têm destes defeitos, como Soderbergh nos comprova: o activismo político só é visível na desmontagem de posições ou de políticos conservadores. No resto, fazem de conta!

Como é que se diz "campanha negra" em inglês?


"Patriotismo"

Sócrates disse ontem ao PSD, na Assembleia da República, a propósito do célebre relatório da DCOE (chamemos-lhe assim): "Os senhores não suportam o sucesso do país."
Há alguma coisa que vai mal com Sócrates, para lhe sair uma destas. Dá a sensação que se está nas tintas para o país.
Não é só ele, de resto. Na Visão (comprei a Visão a pensar que estava a comprar a Sábado), há uma informação importante. Cândida Almeida, directora do DCIAP, encontrou-se a 17 de Novembro com elementos da polícia inglesa em Haia. Quando foi confrontada com o célebre DVD, escrevem Tiago Fernandes e Ricardo Fonseca (p. 26), "torceu de imediato o nariz perante esta exposição, alegando que, à luz da lei portuguesa, aquele material nunca seria admitido no processo. Para isso, a gravação da conversa deveria ter sido autorizada por um juíz. A directora do DCIAP recusou, também, a criação de uma equipa mista, com o propósito de investigar a conduta do primeiro-ministro português. Indignada [sublinho: "Indignada"], terá mesmo afirmado que jamais admitiria a interferência de uma polícia estrangeira numa investigação a um chefe de Governo".
Ou muito me engano, ou, nos tempos que se aproximam, vamos ouvir falar muito de "patriotismo".

A ler

Vale a pena ler "Deixar obra", de Vasco Lobo Xavier (que anda em grande forma), no Mar Salgado.

Ética republicana

Em qualquer país civilizado, a pantomina do estudo-da-OCDE-que-afinal-não-era-da-OCDE (ontem, no 31 da Armada) faria rolar cabeças. A de quem encomendou o "estudo", pelo menos. A de Sócrates, se foi Sócrates. A da Ministra da Educação, se foi a Ministra. Porque a verdade, a verdadinha, por mais voltas que se dê, é que o Primeiro-Ministro usou o dinheiro dos nossos impostos para nos mentir.
Eu sei que a frase já não causa grande efeito, mas vou tentar outra vez: o Primeiro-Ministro usou o dinheiro dos nossos impostos para nos mentir.
Sou suspeito, também sei: tenho a vaga mania de não gostar de impostos. Mas acreditem que pago os meus e, portanto, tenho igualmente o direito de não gostar que o Estado os use para me aldrabar. OK, é outra mania, esta de não gostar de ser aldrabado.
Acontece que Portugal não é um país qualquer e há sérias dúvidas de que, sem o TGV, possa vir a ser civilizado. O IKEA não chega.
Este é o país em que o Banco central faz previsões económicas à medida das necessidades do Governo. Este é o país em que o Governo faz orçamentos rectificativos à medida que falham todas as previsões do Banco central. Este é o país em que o Ministério Público tem há quatro anos um processo sobre corrupção que envolve o Primeiro-Ministro, e não acontece nada. Este é o país em que o Bastonário da Ordem dos Advogados acusa uma busca do Ministério Público de "terrorismo de Estado", e fica tudo na mesma. Este é o país em que o Primeiro-Ministro insinua que os tribunais ingleses andam às ordens da oposição, e dá-nos vontade de rir. Este é o país em que o líder de uma distrital do maior partido da oposição dá sentenças sobre a investigação de um crime grave, como se fosse um jogo de futebol. Para não falar do futebol propriamente (propriamente?) dito.
Se querem discorrer sobre a crise, aí têm a crise. Dos tribunais aos partidos, não há hoje uma única instituição pública que mereça a nossa confiança. E depois queixem-se dos taxistas, do Pacheco Pereira, da distância entre eleitores e eleitos e do fim da ética republicana.
Resta saber se, para Sócrates, mentir é um hábito ou é uma política. E se ele distingue entre as duas coisas. Em qualquer dos casos, quando nos vierem outra vez com a ética republicana - já sabem qual é a resposta.

Sócrates afunda-se

Os últimos dias foram dramáticos para o primeiro-ministro. A catadupa de notícias negativas não acabam, e o lamentável episódio da propaganda da OCDE é apenas um apêndice. José Sócrates, com as trapalhadas da Independente tinha perdido o respeito das elites. Com o Freeport, desconfio que irá ser abandonado pelas massas. Admito que posso estar errado, pois mais do que uma vez os portugueses já deram vitórias eleitorais a políticos sob suspeita.

Sócrates e os clássicos


É sempre bom irmos até aos clássicos. Eles lançam luz, fazem-nos ver, compreender o contemporâneo.
O primeiro-ministro, com aquela aldrabice de dar a entender que o famoso relatório era da OCDE ['Há muitos anos, há muitas décadas que leio relatórios da OCDE sobre educação. Eu nunca vi uma avaliação com tantos elogios!' dizia ele, brandindo este relatório], sem o dizer explicitamente, para depois se poder furtar à denúncia do seu logro, com aquele punho fechado para diante e berrando 'bravo!', com ameaças de Führerzito arrasador, gabando-se sem vergonha de um documento que parece feito de encomenda para elogiar as suas opções políticas [e os "pontos fracos" das políticas são descritos como pormenores que "permanecem"(sic), porque ainda não dissolvidos pelas próprias políticas! (p. 48)], um documento assente em fontes cirurgicamente escolhidas de modo a condicionar as conclusões, com as permanentes arengas solicitamente transmitidas pela televisão do Estado, e com os trejeitos e as risotas trocistas para a cara dos deputados que hoje o interpelavam (ao lado de uma ministra da educação que mascava pastilha como um aluno malcriado), com tudo isso, Sócrates, mesmo que o não reconheça formalmente para si, está a seguir zelosamente, a aplicar um clássico.
Um clássico que, por sinal, ao contrário do "discípulo", fez um doutoramento na Universidade de Heidelberg e não uma licenciatura interessante numa universidade curiosa.
Mas ouçamos o clássico - ele, no passado, explica o presente (assenta-lhe como uma luva):


O nome do clássico?
Joseph Goebbels.


De onde vêm as certezas sobre o investimento público?

Quarta-feira, 28 de Janeiro de 2009

Ronda da noite

Esperei até agora para ver, mas parece que se confirma: o Luís M. Jorge pôs fim ao Vida Breve. Era seu leitor diário, sempre fui, mesmo quando ele, por razões conhecidas, se zangou com o Cachimbo.
O Luís tem aquele dom (raríssimo na blogosfera e agora apenas exercido pelo Filipe, pelo Casanova e por alguns happy few) de fazer ironia sem sarcasmo. Para se fazer ironia é preciso distanciamento, dizia o Pessoa, luxo que os blogues não favorecem. Uma disciplina difícil, sobretudo porque os cultores da ironia são também particularmente dotados para o sarcasmo. Ler Ruy Belo ajuda.
Vou ter saudades, lá isso vou.

Obrigado

O Sr. Vital Moreira (PCP): - Mesquinho!

O Sr. Vital Moreira (PCP): - Que vergonha, que miserável!

O Sr. Vital Moreira (PCP): - (...) Cada um tem os patrões que tem e o Sr. Deputado António Maria Pereira é um bom e fiel servidor.

O Sr. Vital Moreira (PCP): - (...) O senhor mamou nas tetas do fascismo, e agora mama nas tetas do imperialismo!

O Sr. Vital Moreira (PCP): - Que grande insulto chamarem-lhe fascista!..

O Sr. Vital Moreira (PCP): - Miserável!

O Sr. Vital Moreira (PCP): - Miserável Provocador!

O Orador (António M.P.) (PSD): - Fascista, aqui, é a bancada que está à minha frente, Sr. Presidente, porque essa é que subscreve um totalitarismo que não respeita os Direitos do Homem. Isso é que é ser fascista.

(Assembleia da República, Diário das Sessões de 29/3/1980)

«(...) desencadearam, por parte da bancada do PCP, um clamor de insultos contra mim, numa desesperada tentativa para me obrigar a calar. "Fascista", "racista", "miserável", "vai ter com os teus patrões", etc. foram alguns dos impropérios com que Vital Moreira e os seus comparsas totalitários me mimosearam no hemiciclo.
(...)
De novo a bancada comunista, sob a batuta de Vital Moreira, se ergeu aos berros e insultos
(...)
Cristo ensinou que quando se é esbofeteado num lado da face, se deve oferecer a outra face (...) Só que Cristo nunca foi deputado em 1980, em Portugal, e nunca teve por isso o inefável privilégio de estar no Parlamento enfrentando os insultos de Vital Moreira e do seu grupo de totalitários.»

(António Maria Pereira, O Pensamento de Sá Carneiro em Política Externa, 1981.)

Percebem?

Percebem por que é que os portugueses cada vez menos confiam nos políticos, nos partidos, nas instituições? É começar por aqui.
Aos poucos, com o aprofundar da crise económica, com o descrédito gradual da reputação de instituições centrais da democracia portuguesa, é o regime que vai sendo posto em causa. É bom que a economia mundial, e a europeia em particular, recuperem depressa. Porque isto por aqui, entregue à sua própria dinâmica, não vai longe. Ou melhor, vai para lugares muito pouco recomendáveis.

Leitura Nova

A Torre do Tombo colocou online todos os forais da Leitura Nova de D. Manuel. Só faltam os do Algarve.
Projecto interessantíssimo porque a Leitura Nova, como sabem os nossos ilustres leitores, é a revisão dos forais medievais efectuada pelo Venturoso nas primeiras décadas do século XVI. Por outras palavras, é nada mais nada menos que o maior assalto aos privilégios judiciais, fiscais e administrativos dos concelhos na história de Portugal. Esvaziar as comunidades políticas intermédias e homogeneizar a sociedade foi o caminho da maioria dos Estados modernos para centralizar o poder. Tocqueville descreveu o processo em França, mostrando que a Revolução apenas concluiu o que o Antigo Regime começou. Por cá, a uniformização dos forais acompanhou a dos pesos e medidas, a das crenças e etnias (expulsão de mouros e judeus), a das consciências (pedido da Inquisição ao Papa) e a das leis (Ordenações manuelinas).
A nobreza já estava domesticada pela corte e pelo funcionalismo régio "d`aquém e d`além-mar", tentando um derradeiro acto de rebeldia na conspiração contra D. João II - que o Princípe Perfeito esmagou impiedosamente. A Igreja, atemorizada pelas notícias de monges alemães e reis ingleses em dissídio com Roma, rezava pelo sucesso das armas nacionais urbi et orbi. E as ordens militares, os maiores proprietários do Centro e do Sul do país, acabaram por ficar também nas mãos do soberano com o próprio D. Manuel, Mestre de Cristo, e com D. João III, Mestre de Avis e de Santiago em 1551. Pela primeira vez, os bens da Coroa cobriam mais de metade do território.
Assim se fez a pátria. Podem ver um pouco da história aqui: http://ttonline.dgarq.gov.pt/

Mother Love

Código de Trabalho: uma oportunidade perdida


O Parlamento aprovou finalmente o novo Código de Trabalho. Apesar de alguns avanços positivos (licença parental, banco de horas, adaptabilidade de horários, simplificação de procedimentos, etc.) o resultado final é medíocre, muito aquém das expectativas. A lei permanece complexa, burocrática e dirigista.
O novo código persiste em dois erros essenciais. O primeiro é basear-se num único modelo de relação laboral -o trabalho subordinado para toda a vida- que já não é dominante. Como tantas vezes acontece, a vida foi mais rápida do que a lei. Existem hoje múltiplas formas de exercício profissional. Já não há carreiras para a vida, nem empregos 100% seguros, nem mesmo para os funcionários públicos. Não faz sentido, por isso, que a lei admita apenas um padrão único de contrato, conferindo-lhe uma protecção quase absoluta.
O segundo erro é focar-se apenas nas empresas de grande dimensão, quando o tecido económico nacional é constituído, em larga maioria (98%), por micro e pequenas empresas. Certas exigências legais tornam-se demasiado pesadas e burocráticas para estas empresas, sobretudo num contexto de crise.
Quando a lei é ultrapassada pela realidade o incumprimento generaliza-se. Os recibos verdes, tantas vezes falsos, tornaram-se banais em Portugal, mesmo dentro do próprio Estado. São já mais de 450 mil, segundo os sindicatos, formando um mercado laboral paralelo, onde a informalidade conduz muitas vezes à negação de direitos.
Na noite escura dos outsourcings não há licenças de maternidade, nem férias pagas, subsídio de natal, ou direito à formação profissional. Os descontos para a Segurança Social (quando existem) são suportados pelo prestador, que tem ainda de pagar o IRS como qualquer outro trabalhador. Não parece que a situação vá melhorar. Quando a lei está desajustada de pouco servem as multas ou as "presunções ilidíveis" da existência de contrato de trabalho, que aumentam o trabalho, sim, mas só nos tribunais.
Mas o mais grave desta pseudo-reforma é o falhanço em promover uma cultura de mérito e de oportunidades nas empresas. Os absentistas e os incompetentes podem dormir descansados: se não fizerem uma falta grave tudo ficará na mesma. A não ser, claro, que a empresa vá à falência, ou faça um despedimento colectivo, penalizando indiferenciadamente todos os trabalhadores, o que se tornou tristemente banal com o agudizar da crise.(...)
[Versão integral no Diário Económico de hoje]

Terça-feira, 27 de Janeiro de 2009

A OCDE é outra coisa

Seguindo o exemplo do Governo, encomendei um estudo à OCDE. Fi-lo hoje de manhã e (a OCDE é lixada) acabou de me chegar quentinho às mãos agora mesmo. Vinha assinado (com uma cruz) pela senhora da tabacaria do lado e pelo senhor de bigodes do Restaurante Romaria que me costuma vender frangos assados. Tratava-se de saber (i) se a correspondência entre a cadelinha Fidèle (do segundo andar esquerdo) e a cadelinha Medji (terceiro direito) cumpre as normas do recente acordo ortográfico, e se (ii) a Lua é de facto fabricada em Hamburgo por um artífice coxo, e é de má qualidade. A OCDE garantiu-me a pés juntos que não há correspondência nenhuma entre a Fidèle e a Medji e que a Lua não é fabricada em Hamburgo, sendo, ainda por cima, a sua qualidade excelente. Era já, de resto, a opinião da senhora da tabacaria e do senhor de bigodes do restaurante Romaria. Eu também pensava assim, mas agora estou mais sossegado. Com a OCDE é outra coisa.

Keynes sobre a "Prioridade ao Emprego" e o "Investimento Público" dos socialistas

Sobre o emprego como prioridade política:

«We are more likely to succeed in maintaining employment if we do not make this our sole or even our first aim»

Sobre o investimento público:

«Organized public works, at home and abroad, may be the right cure for a chronic tendency to a deficiency of effective demand. But they are not capable of sufficiently rapid organisation (and above all cannot be reversed or undone at a later date), to be the most serviceable instrument for the prevention of the trade cycle

Aliás, sobre a lógica de protecção do emprego que os socialistas têm defendido, Keynes preferia a lógica que tem sido proposta pelo PSD de redução da "taxa social única":

«I doubt if much is to be hoped for to offset unforeseen short-period fluctuations in investment by stimulating short-period changes in consumption. But I see very great attractions and practical advantage in Mr Meade's proposal for varying social security contributions according to the state of employment

Os socialistas, que exaltam um certo "keynesianismo" e não propriamente Keynes, deveriam no entanto manter alguma calma quando citam Keynes durante a Grande Depressão, e não pregar até ao absurdo um ou outro documento subscrito por Keynes à data, sobretudo porque Keynes sobreviveu e avaliou vários dos erros cometidos durante essa época. Sobre a Grande Depressão é sem dúvida interessante perceber o que Keynes disse à data, mas do ponto de vista da aprendizagem sobre políticas de resposta é mais importante o que Keynes escreveu depois. E suponho que disso os socialistas não vão gostar, quer económica quer politicamente. Se há algo que Keynes não gostaria seria de ver as decisões de investimento público tomadas isoladamente por Sócrates, Lino & Cª. Keynes defendia que este tipo decisões, deixadas a um partido político, seriam entregues a ignorantes:

«too much will allways be decided by those who do not know at all what they are talking about»

A solução para este problema, como para outras áreas da esfera pública, seria a "entrega" a comissões semi-independentes e orgãos de administração:

«Semi-independent corporations and organs of administration to which duties of government, new and old, will be entrusted - without, however, imparing the democratic principle or the ultimate sovereignity of Parlmient»

Olhar para o que os socialistas estão a fazer e citar Keynes só é plausível se esse Keynes for não o John Maynard, mas um outro qualquer personagem de ficção. E todos sabemos a relação recente dos socialistas com a ficção.

Da série "Cachimbos de lá"

George Groz, Rua de Nova Iorque (1932)

Sócrates

Não tenho certamente nada contra José Sócrates. Grande parte do que ele faz de eventualmente reprovável é (com uma ingenuidade excessiva, admito) importado de lá fora (regimentação da vida individual, etc.), ou, quando não o é (aquela mania das obras públicas), segue a ortodoxia de uma seita que ele absorveu, como podia ter absorvido uma outra ortodoxia qualquer, se lhe fosse mais útil. Sem lhe supor um ódio vesgo à pátria, acho, como muita gente, que Manuela Ferreira Leite seria muito melhor primeira-ministra do que ele. Mas isso não traz consigo qualquer detestação.

É claro que aquela vozinha didáctica (com o seu quê de ameaçador) que usa quando aparece na televisão, provocando urticária, me faz imediatamente tirar o som. É claro que o português que ele usa e que os jornais transcrevem (“bota-abaixismo”, etc.) é abaixo de cão. É claro que ele mistura incompreensivelmente subjectividade e objectividade como se a distinção entre ambas as atitudes nunca lhe tivesse passado pela cabeça (agora deu-lhe para proclamar as vantagens políticas do “optimismo” e a catástrofe intrínseca do “pessimismo”). Isso e muitas outras coisas, sem dúvida. Mas desgostar disto não é exactamente um juízo político: é só não gostar do estilo.

Agora é verdade que a série de trapalhadas que os media publicitam em torno da sua pessoa (“Independente”, “Magalhães”, etc. - agora o "Freeport") traça um perfil um bocado inquietante. Dá, para falar simplesmente, a sensação que ele faz tudo para se desenrascar. Episódio após episódio – e sem necessidade de “prova” – gera-se uma suspeita que cresce. Tanto mais que a resposta à suspeita – resposta dele e dos seus ocasionais delegados - tende para o evasivo. Eu não votaria nele nas próximas eleições, certamente. Mas palpita-me que muita gente que o iria fazer não o vai fazer. E não: não é culpa dos media. Os media têm-no tratado com uma brandura desconhecida em países democráticos. A culpa – culpa política – é dele. Só dele.

A propaganda socrática II

O Carlos Nunes Lopes está a desenvolver um trabalho notável de desmontagem da propaganda utilizada no alegado estudo da "OCDE" sobre o ensino básico em Portugal. Por exemplo, constata-se que os parceiros locais ouvidos foram todos socialistas (mais a inevitável Câmara Municipal de Gondomar). A acompanhar no 31 da Armada.

Ler

"Coisas que não compreendo", por Vasco Lobo Xavier, no Mar Salgado. Eu também acho esquisito.

Propaganda Vital

Se bem que quando o lemos já sabemos ao que vamos, de vez em quando vale a pena parar e medir bem o sentido das suas palavras. Vem isto a propósito do artigo de Vital Moreira, publicado hoje no PÚBLICO, onde o discurso inaugural de Obama aparece transvestido de propaganda vital.

O mote é dado logo no início: “O notável discurso inaugural do novo presidente não desiludiu, antes pelo contrário, deliberadamente ancorado nas grandes tradições progressistas norte-americanas.” Dois erros: em primeiro lugar, o discurso de Obama não é notável, como foi amplamente difundido nos dias que se seguiram à cerimónia; em segundo lugar, o discurso está ancorado nas grandes tradições norte-americanas mas de modo algum as tradições em que o discurso está ancorado são progressistas. Aliás, conhecendo nós como conhecemos o laicismo radical que condiciona o pensamento de Vital Moreira, tendo em consideração as inúmeras referências às Escrituras e a Deus no discurso de Obama (que até geraram alguma celeuma no domínio da esquerda), parece-me a mim claro que nem o próprio Vital Moreira acredita nas coisas que escreve no artigo de hoje.

Longe de uma análise objectiva do discurso de Obama, estamos face a um instrumento político e ideológico que visa condicionar e direccionar o pensamento da opinião pública. Por exemplo, qualquer pessoa atenta à política americana sabe que o neoliberalismo e o neoconservadorismo não andaram propriamente de mãos dadas durante a Administração Bush; pelo contrário, muitas das críticas a Bush foram feitas a partir da ala liberal do Partido Republicano, concretamente a denúncia do peso excessivo que o Governo Federal tinha na política americana. Que Vital Moreira qualifique o discurso de Obama como tratando-se de um “corte radical com o discurso neoliberal e neoconservador” de Bush, não pode deixar de ser interpretado como o efeito da vontade, tão ao jeito do anti-americanismo europeu, de colar a Bush os dois fantasmas que determinaram o pensamento da opinião pública nos últimos anos.

Para quem ainda não esteja convencido, ou pense que estou a exagerar, atente agora nesta outra afirmação de Vital Moreira: “Obama disse claramente que, embora não existindo alternativa ao mercado como instrumento de criação de riqueza, ele tende porém a sair dos eixos, na falta de um ‘olhar vigilante’”. A verdade é que – e a verdade ainda deve contar para alguma coisa – Obama disse algo que, não sendo completamente diferente do que escreveu Vital Moreira, soa e é completamente diferente. Vejamos: “O poder do mercado para criar riqueza e expandir a liberdade is unmatched.” Aqui o is unmatched não significa apenas a inexistência de alternativa. O is unmatched poderia ser usado para designar, por exemplo, o facto de na história do basketball americano não haver um jogador equiparável a Michael Jordan. Isto é, Obama não se limitou a dizer que não existe alternativa ao mercado como instrumento de criação de riqueza; Obama disse que o mercado tem o poder único de criar riqueza e de – note-se bem – ser um promotor inigualável na promoção da liberdade (liberdade esta, agora sim, indubitavelmente ancorada na tal tradição americana que Vital Moreira erroneamente qualifica de progressista, quando todos sabemos bem que o progressismo de Vital Moreira significa estatismo e não mercado ou liberdade).

A mesma má fé na análise aparece na referência à segurança e ao terrorismo. Onde Obama escreve explicitamente “A nossa nação está em guerra com a uma extensa rede de violência e ódio”, Vital Moreira reduz a situação descrita a uma mera “luta contra o terrorismo” (como se Obama tivesse usado a palavra struggle e não a palavra war).(*)

Curiosa é ainda a aproximação forçada que Vital Moreira tenta fazer entre a América de Obama e a Europa: “Não é temerário antecipar que os Estados Unidos venham também a ficar menos distantes do ‘modelo social europeu’, embora nas suas versões menos exigentes”. O problema aqui, devidamente discutido ao longo dos últimos anos, é que a Europa pode muito bem continuar a ser exigente no domínio social enquanto a América continuar a ser exigente no domínio da segurança. O facto de Vital Moreira encarar a ameaça terrorista como uma mera luta é sintomático da incapacidade europeia para pagar a guerra. Vital Moreira bem pode louvar a vontade de Obama em não sacrificar os valores da América para garantir a sua segurança desde que os contribuintes americanos continuem a sacrificar os seus impostos para garantir a segurança deles - e nossa!

O artigo de Vital Moreira tem como título O regresso da ‘boa América’ e chega a escrever no artigo que “a ‘boa América’ está de regresso ao palco internacional.” Mas esta América de que fala Vital Moreira não é a América. É uma outra coisa qualquer muito próxima da Europa. Porém, se a América fosse essa outra coisa mais próxima da Europa, a América não seria a América e Vital Moreira teria poucas razões para lhe dar a importância que dá hoje.

(*) Ao ler esta passagem do artigo de Vital Moreira, não pude deixar de me lembrar do deputado Pedro Nuno Santos, amigo da JS, que dizia repetidamente na Assembleia da República, a propósito do casamento gay, que estava empenhado num “combate”. É assim que anda o discurso político hoje em dia: eleva-se o casamento gay ao estatuto de “combate” e reduz-se o estatuto da “guerra contra o terrorismo” a uma mera “luta”. É o que acontece quando uma grande civilização está doente.

Hoje, lembrei-me disto

Mezzogiorno.

«Acabei de ver o filme "Gomorra", de Matteo Garrone. A páginas tantas, o aprendiz de um mafioso que fazia fortuna com o despejo ilegal de resíduos industriais perigosos desiste da sua carreira. Para surpresa do mafioso, o aprendiz diz que não quer mais fazer aquele trabalho, alegando que ele é, enquanto homem, "diferente". Ao que o mestre responde meio em tom professoral, meio em tom defensivo: "Fica sabendo que foram pessoas como eu que puseram este país de merda na Europa".
Esta resposta soou-me à formulação mais directa do síndroma mediterrânico, dessa maleita inefável que afasta o sul da "Europa". A "Europa" é o lugar da ordem, da civilização, da regularidade e, até, de uma certa pureza. O sul não lhe pertence por direito. Melhor, o sul não lhe pertence "por natureza". Só lá chega por vielas estreitas, sinuosas e escuras. Que só o sul conhece.»

Segunda-feira, 26 de Janeiro de 2009

"Foi um gosto trabalhar consigo"

Foi assim que José Sócrates se referiu hoje a Maria de Lurdes Rodrigues, na sessão de apresentação de um estudo da OCDE a Educação em Portugal. Fiquei confuso. Mas não faltam ainda quase nove meses para o fim de legislatura? Será que José Sócrates tem outras intenções?

Revivendo o passado

Os que fazem e os que só se opõem. Aqueles os bons e estes os maus. Tão martelados nós estamos pelas arengas do nosso engenheiro, que até parece que é o passado que repete o presente. E neste mundo simples, o Fazismo vai passando.

Da série "Se Maomé não vai à montanha, a montanha vai a Maomé"


Bruno Vieira Amaral, na sua muito recomendável cabana.

Escolinhas

A transformação da escola num espaço lúdico de (des)aprendizagem não é um fenómeno isolado. As empresas seguem o mesmo caminho. Os locais de trabalho cada vez mais se parecem com locais de lazer. É uma espécie de hipnose: os trabalhadores são induzidos a produzir porque se convencem que aquilo não é trabalho. Nada no trabalho pode lembrar trabalho, começando pela designação do trabalhador, agora colaborador. Os chefes também estão em vias de extinção, substituídos pelo mais moderno e humano "responsável". As ordens foram à vida e só devem sobreviver em zonas de protecção especial, como o Exército e o Futebol Clube do Porto. Agora pede-se aos colaboradores que, se não for muito incómodo, executem (atenção que é uma palavra pesada e dá direito a recusa do colaborador) a tarefa para a qual estão a ser pagos. Isto para não ferir susceptibilidades, porque os responsáveis não podem mandar, têm de sugerir. Num futuro próximo, as "indicações" serão transmitidas por telepatia. A fraca produtividade tem sempre uma desculpa: o responsável não vai com a minha cara, tiraram-nos a internet, não há café de borla, não temos direito a massagens. Para evitar amuos, a empresa organiza jantares e passeios, seminários e sessões de coaching, que os colaboradores desdenham sempre que se realizam fora dos horários de... aquilo. O conceito é, mutatis mutandis, o mesmo que se aplica às escolas com o sucesso reconhecido. As crianças não podem ser contrariadas. E nada melhor para contrariar uma criança do que lhe impor deveres ou TPC (ainda se chamam assim ou já são "sugestões de algumas actividades que poderão realizar em casa se vos apetecer"?). Trabalhar e aprender são coisas que, lamento informar, dão trabalho. O prazer e a satisfação devem ser a recompensa e não as condições. Não explicar isto às crianças é tratá-las de uma forma infantil e irresponsável. Mas não se pode esperar mais de uma sociedade infantilizada.

Resistir à tentação

Manuela Ferreira Leite não comenta o "caso Freeport".
Faz bem.
A tentação de cavalgar a onda da suspeita é grande, mas o PSD deve resistir. Sócrates tem direito à presunção de inocência, como toda a gente, e o partido não tem o hábito de acusar alguém de ânimo leve. Essa é a escola do Independente, do Bloco de Esquerda e dos justiceiros de café, não é a nossa. Quando o próprio Primeiro-Ministro põe em causa a independência do poder judicial, insinuando perseguições políticas à conta das próximas eleições, quando começam a avolumar-se as nuvens sobre o trabalho da Judiciária e dos tribunais, que teriam o processo parado há quatro anos, quando até se sugere que a investigação da polícia inglesa obedece ao calendário da aldeia (oh God!...), o PSD só pode dar um sinal de confiança nas instituições.
Eis o que se espera de quem quer governar o país, sobretudo agora que o Governo anda de cabeça perdida.
Eis o que se espera de Manuela Ferreira Leite, que não é Menezes nem Santana.
O que está em jogo é demasiado importante para ceder a maquiavelismos de bolso.
Adenda: Depois de ter escrito este post, vi que Bruno Pires, no Corta-Fitas, usa um título semelhante para um post anterior (A última tentação de MFL). Fica o link.

Existe um nome

Ler absolutamente o editorial de José Manuel Fernandes no Público, em particular a passagem relativa a uma frase inteiramente obscena de um artigo recente de Frei Bento Domingues: "Israel já fez o suficiente para mostrar que, mesmo com o fariseu Madoff na cadeia, os EUA devem continuar com fé em Israel, mesmo depois de todos os crimes contra a humanidade". José Manuel Fernandes alerta, com todas as precauções de cordialidade, para o mundo de pensamento que aquele "mesmo com o fariseu Madoff" revela. Um mundo pura e simplesmente execrável. Para o qual existe um nome.

Domingo, 25 de Janeiro de 2009

Um Obituário de Stella Piteira Santos

José Pacheco Pereira in Abrupto.

O triunfo da vontade

[Este post deverá ser lido aos gritos e esbracejando freneticamente, ao mesmo tempo que se põe um facies zangado sem paciência nenhuma para os que não pensarem assim - ou melhor, para os que pensarem de todo; discretamente, deverá dar-se uma certa inflexão choramingosa à voz, que sugira um esforço bem-intencionado, mas incompreendido e sabotado pelos malandros da oposição.]

'Meine Kameraden, não se combate a crise com pessimismo! E muito menos com bota-abaixismo!! E com o negativismo que quer dizer mal de tudo!! Eu nunca vi o pessimismo criar um único posto de trabalho. Como também nunca vi o comportamento negativo de quem diz mal de tudo e de todos criar um único posto de trabalho no nosso país! Os postos de trabalho criam-se desta forma!! Esqueçam a sensatez, a razoabilidade! Deixem-se de teorias! As teorias não criam postos de trabalho! Não se combate a crise não fazendo nada! Estou farto dessa gente anti-patriótica que se atreve a criticar-me! Nunca vi uma crítica criar postos de trabalho! Kameraden, nós somos dos que fazem – não dos que pensam e só falam em dívidas! Nunca vi o pensamento criar postos de trabalho! Nunca vi a ponderação criar postos de trabalho! Não somos da esquerda do passado – que não avaliava! Não somos da direita arcaica – essa que não fractura nada! A esquerda não cria postos de trabalho! E nunca vi a direita criar postos de trabalho! Nunca vi os professores criarem postos de Arbeit!! Nós somos modernos! Nós temos o Magalhães, Kameraden! Eu é que mando!! Eu é que sei!! Não me contrariem! Eu quero o TGV e auto-estradas! Eu quero, eu quero, pá!! Esqueçam a razão, sintam a vontade!! Nós, do Socialismo Popular, Nacional e patriótico não ponderamos – nós fazemos, fazemos e fazemos! Viva o fazismo – abaixo o pessimismo!! É a alegria que dá força! Kraft durch Freude!'

[Ah quanto gostaria o nosso engenheiro de encontrar a sua Leni...]

Levar a sério

Graças ao Filipe Nunes Vicente, no Mar Salgado, fiquei a saber que Elisa Ferreira se candidata simultaneamente à Câmara do Porto e ao Parlamento Europeu. Ela espera que a levem a sério? Ela, pelo menos, não se leva.

Incapacidade

Anabela Mota Ribeiro: Pintar de branco era um estilo?

Ângelo de Sousa: Era uma incapacidade. Fiz uns bonecos sem cabelo. A minha mãe: "Fizeste mais um quadro? Por que é que nunca lhes pões cabelo? Por que é que são sempre carecas?" Fiquei lixado. Porra, não sei como é que hei-de pintar o cabelo. Os meus alunos diriam assim: é assim, é a minha mensagem. Eu disse: eu não sei pintar cabelos.

[Entrevista hoje na Pública: imperdível.]

A barbárie do multiculturalismo

Um leitor do Abrupto informa:

"Saviez-vous qu'une association musulmane ('Unir' à l'Université Paris XIII) remet en cause le droit d'un professeur 'de culture occidentale' de juger le travail d'un étudiant musulman? (Source l'Express)"
.
O problema não é haver uma associação muçulmana com estas pretensões. Há associações lunáticas em toda a parte, de todas as cores e feitios. O estado de decadência da europa atesta-se, sim, pelo número e influência das pessoas que não pertencem à dita associação, nem são muçulmanas, e que subscrevem a razoabilidade da reivindicação. Porque elas existem.

Esperar para ver

Como irá ser descrito, apresentado, embrulhado, pela comunicação social o que Rui machete disse na entrevista à TSF a respeito da desejável (segundo ele) colaboração de Passos Coelho com Manuela Ferreira Leite?
Ir-se-á dizer que Ferreira Leite deve "dar ouvidos" a Passos Coelho, que este deve ser "acolhido" pela liderança? Ou, em alternativa, dirão que é Passos Coelho quem se deve aproximar da direcção ('unir à volta das ideias' programáticas), quem deve 'colaborar activamente'?
Ainda que haja alguma ambiguidade na formulação de Rui Machete, quem quiser perceber, perceberá que ele se inclina mais para a "aproximação activa" de Passos Coelho do que do seu "acolhimento" por parte da liderança.
Agora é esperar para ver como é que os media vão apresentar a coisa. Desconfio que irão sublinhar, ou mesmo eleger (são pouco dados a subtilezas) a perspectiva menos exacta. The show must go on.

Sábado, 24 de Janeiro de 2009

Os imparáveis

Eles somam e seguem. Até onde poderão chegar sem centrais de qualidade?

A prostituta de Mensa

Paula Lee, nome que promete acrobacias de ginasta olímpica, é a call-girl mais solicitada do país. A informação consta de uma reportagem publicada hoje na revista Única. Como é que o jornalista terá confirmado o facto é um mistério. Tentativa e erro? Instituto Nacional de Estatística? Haverá um sindicato que disponibiliza esse tipo de informação? A dúvida permanecerá e não serei eu a desfazê-la. Por uma questão de princípios, não conheço os prazeres do sexo pago. E mesmo que a menina Lee me convencesse a abdicar dos meus sólidos princípios, não seria tão fácil aliviar-me dos 500 euros/hora que ela cobra aos seus frequentadores. Sucede que a menina Lee atrai muitos intelectuais. É fama que lê Henry Miller. Caros intelectuais, ler Opus Pistorum não prova o génio de Lee; no sector em que ela exerce actividade chama-se a isso formação profissional. Tragam-me uma prostituta que leia Crítica da Razão Pura para matar o tempo e eu juro que peço um empréstimo à Caixa Geral de Depósitos. Outro dos méritos da menina Lee é que, apesar de criada numa família evangélica, ia à missa. Foi assim que descobriu que um dos seus clientes era padre. Quando li isto, fiquei petrificado e ainda não estou completamente refeito do choque. Quem diria que no país profundo há padres intelectuais e a ganhar tão bem?
A menina Lee é uma mulher extraordinária que também lê um escritor colombiano de nome García Marquez. Nunca ouvi falar. Alguém terá a bondade de me dizer o nome do seu último romance? Agradecido.

A conferência de imprensa de Sócrates

O primeiro-ministro negou qualquer acusação de corrupção, e confirmou aquilo que já tinha afirmado ontem: apenas participou directamente no processo durante uma reunião que manteve com os promotores do projecto, a pedido da Câmara Municipal de Alcochete. E desmentiu os restantes factos que têm sido difundidos pela imprensa. Como se esperava, desvinculou-se de qualquer ilegalidade que tenha sido cometida pelos seus familiares envolvidos no processo.

Sócrates esteve bem ao realizar esta conferência de imprensa. Apenas a parte onde voltou a acusar de oportunismo político a comunicação social pela divulgação das notícias soou a mero tacticismo, e sem fundamento. Não tivessem sido os ingleses a desencadear as novas investigações. O problema para Sócrates é que a partir de agora, se forem divulgados episódios que contrariem a veracidade das suas afirmações, não lhe restará outro caminho senão a demissão. Num caso desta gravidade, um político não pode ser apanhado a mentir!

Outra questão que deve ser analisada é a actuação das autoridades judiciais portuguesas. Se em 2005 já havia indícios de ilícitos criminais, qual a razão de nada terem feito? Foi preciso esperar pelos ingleses para avançar nas investigações? Houve alguma razão especial para suspender as averiguações?

PS: Paulo Pinto Mascarenhas regressou aos blogues. Uma excelente notícia!

Liberdades

O deputado holandês de extrema-direita Geert Wilders vai ser julgado "por incitar ao ódio e à discriminação, com base em comentários seus feitos em vários media acerca dos muçulmanos e das suas convicções” e por “insultar os crentes muçulmanos ao comparar o Islão e o Nazismo”. Recentemente, Wilders afirmou que os ataques terroristas em Mumbai são a prova de que não existe um Islão moderado. Defende que o Corão seja proibido, comparando-o a Mein Kampf. Acredito que estas ideias ofendam os muçulmanos e que a grande maioria se sinta injustiçada com as absurdas simplificações em que assentam. Eu próprio, que não sou muçulmano, cheguei à conclusão que Wilders é um idiota montado no cavalo do “politicamente incorrecto”. É isto suficiente para levá-lo a julgamento? Não deveria ser. A decisão de o levar a julgamento é mais um sintoma da auto-censura que o Ocidente se tem imposto sempre que fala sobre o Islão. Uma auto-censura que não nasce de uma preocupação genuína com a sensibilidade muçulmana mas do medo da reacção dos extremistas islâmicos. A liberdade de expressão dá assim lugar à liberdade de não “incendiar” os ânimos muçulmanos.

Este artigo do Guardian sobre o caso Rushdie explica como tudo mudou nos últimos 20 anos:
Who would dare to write a book like The Satanic Verses nowadays? And if some brave or reckless author did dare, who would publish it? The signs in both cases are that no such writer or publisher is likely to appear, and for two reasons. The first and most obvious is fear.”

As comparações são inevitáveis

Licenciamento do outlet de Alcochete põe primeiro-ministro em xeque

Na edição de hoje, o "Sol" revela pela primeira vez que o ministro de Guterres referido numa conversa entre Charles Smith e um administrador do Freeport é José Sócrates. Nessa conversa, gravada pelo administrador com recurso a uma câmara oculta, Smith diz que gastou avultadas quantias em “pagamentos corruptos”, de acordo com o que ficou combinado numa reunião com Sócrates. Este vídeo fará parte do processo de investigação que corre no Reino Unido, onde estará igualmente um e-mail enviado para o Freeport a pedir uma recompensa pelo desbloqueamento do licenciamento.

Por onde andam os indignados que pediam a cabeça de Dias Loureiro nestes momentos em que tanta falta sinto deles?

Por Jorge A., no Despertar da Mente

Sexta-feira, 23 de Janeiro de 2009

A vitória dos eunucos presos

Lá se perdeu mais uma oportunidade de devolver à Escola alguma da dignidade que o governo misólogo insiste em lhe arrancar, açulando sempre contra ela as pulsões mais desprezíveis que por aí se vão revolvendo e medrando.
O senhor da imagem, o ministro chamado, decerto por ironia dos deuses, dos Assuntos Parlamentares, antes da votação, visivelmente aflito, lá bradou umas coisas inviesadamente ameaçadoras e manifestamente ridículas: que a derrota do projecto do CDS seria a vitória da "agenda reformista do governo" [esta tirada deixa-se passar, que é apenas uma inanidade propagandística] e dos homens livres que não se deixam 'chantagear' [sic], que não estão na 'Câmara Corporativa' [sic] a defender interesses das corporações, que estão antes na Assembleia da República a defender os interesses dos Portugueses ou coisa que o valha. Ficamos assim a saber que os 113 deputados de todos os partidos representados e que votaram o projecto favoravelmente não passam de uma espécie de procuradores "fascistas" das Corporações - para se ter ideia do requinte do insulto a meio(?) parlamento, note-se que o contraste não é feito sequer com a Assembleia Nacional... E isto vindo do cavalheiro que há dias se carpia por aquela imagem que Manuela Ferreira Leite deu do engenheiro Sócrates como "coveiro da pátria" - um contraste delicioso com a aura de "salvador da pátria" que o homem tem visível gosto em assumir.

Se quisermos comparar as palavrinhas do ministro com o que aconteceu hoje no parlamento, teremos que ser cruéis. É que a realidade foi precisamente o inverso do que ele disse. "Homens livres." Não. Nem homens, nem livres. (Ocorre-me uma adivinha que Platão inclui na República.) Vimos ali o oposto disso: eunucos presos.
É claro que nem todos os que rejeitaram o projecto de suspensão da "avaliação" cabem nesta classificação: houve decerto muitos que a recusaram convictamente - o que só diz da maravilhosa diversidade da fauna humana e todas as formas de vida são merecedoras do nosso respeito, mesmo as desprovidas de olhos.
Mas, porquê eunucos e presos? perguntará o leitor sensível.
O eunuco é, por definição, um prisioneiro. Para além de um certo tipo de liberdade que lhe está definitivamente vedada, ele está ainda preso a uma função. Ele é o guarda que impede, com brio e zelo, que os outros fruam daquilo mesmo de que ele não pode fruir. Deve tirar um certo prazer disso, o eunuco. (Enfim, cada um tira prazer daquilo de que é capaz.) Ora, muitos dos deputados do PS que, obedientemente, votaram a rejeição da proposta do CDS, não são livres. Estão presos ao receio de não virem a ser incluídos nas listas PS das futuras eleições legislativas. Esse é um medo muito humano. (Ninguém disse que os eunucos não são humanos.) O eunuco também não sabe fazer mais nada para lá daquilo que já faz. Por isso, se desobedecer ao capataz, que virá a ser dele, desgraçado?
E o que é que o eunuco ali guarda zelosamente, sempre com um sorriso atento e mole para o chefe? O que é que o eunuco ali veda aos outros que ele não é capaz de saborear e experimentar? Precisamente, a liberdade.

O eunuco, com a sua moleza amarelada e com a sua aflição corporativa (esta sim) em causa própria, foi hoje instrumental para a continuação do sufocar da Escola - que é, nunca o esqueçamos, o meio da emancipação dos outros: coisa que o eunuco nunca atingiu.

O Homem Invisível

Quando por aí se discute a rebaldaria em que este País andou durante os últimos 12 anos, tem-se dificuldade em nomear um dos grandes responsáveis pelas trapalhadas que os Portugueses têm vindo a pagar e que vão continuar a pagar caro. O nome que prima pela ausência é o do Presidente da República desse período glorioso da nossa democracia, Jorge Sampaio. Quanto mais se revisitam esses anos, mais se percebe que ele foi o homem errado no cargo errado. É uma lição para todos os que acham que a nulidade, a irrelevância, a vacuidade, a vontade de ser um "gajo porreiro", progressista, aberto, com quem os cantores e as apresentadoras de concursos gostam de trocar dois dedos de conversa, pode ascender a uma alta magistratura da Nação sem consequências. Mas a julgar pela popularidade de Manuel Alegre parece que muitos não querem aprender a lição.

Por esta é que eu não esperava

Antigo preso de Guantanamo volta a juntar-se à Al Qaeda.

Os loucos anos 80 (81)



Há exactamente 25 anos foi lançado o Macintosh. O resto é história. Obrigado e aguenta-te Steve.

Tu quoque, John?

Pelo Luís Rainha, fico a saber que nem todos os presidentes americanos juraram sobra a Bíblia na tomada de posse. John Quincy Adams, em 1825, jurou sobre a Constituição. Era um cristão tão fervoroso que considerava a Bíblia demasiado sagrada para adornar uma cerimónia civil.
Já não se pode confiar em ninguém.

Os loucos anos 80 (80)

Na corrente

Caro Miguel, aqui vai o meu elo da corrente. Optei pela versão francófona (muito embora também haja uma ou outra canção em língua inglesa). Penso que não estou a mentir se referir que foi ele quem disse que a fealdade é superior à beleza, já que a segunda é meramente transitória e a primeira é eterna. O homem era feio mas as mulheres que o acompanharam eram lindas.

Uma banda? Não, um cantor dos idos de 60 e 70: Serge Gainsbourg



1 - Homem ou mulher? “Sorry, angel”
2 - Descreve-te: “Aux armes et caetera”
3 - O que pensam de mim? “Indifférente”
4 - Como descreves o teu último relacionamento? “Je suis venu te dire que je m'en vais”
5 - Descreve o estado actual da tua relação: “La décadanse"
6 - Onde querias estar agora? “Sea, sex and sun”
7 - O que pensas do amor? “Laissez-moi tranquille”
8 - Como é a tua vida? “Ces petits riens”
9 - O que pedirias se pudesses ter só um desejo? “Initials B.B.”
10 - Escreve uma frase sábia: “Dieu fumeur de havanes”

Quanto à «batata quente», lanço-a para o campo do «inimigo», concretamente para o João Galamba, a Ana Matos Pires e a Palmira Silva do Jugular – um piscar-de-olho com contornos obamianos…

Agarrem-me se não eu escrevo uma carta

A campanha dos autocarros ateus continua a dar que falar. Parece que em Génova, onde chegou esta semana, o Cardeal Angelo Bagnasco, arcebispo da cidade, exerceu umas pressões contra a iniciativa. Vai daí, o Daniel Oliveira, sempre na vanguarda do progresso e da razão, noticiou-as com um pequeno truque. Primeiro, disse que a campanha tinha sido suspensa pelos protestos dos muçulmanos. Choveram os comentários da malta que não gosta de mouros. Depois, contou a verdade e gozou o prato.
Foi giro.
Se a gente vai à notícia, porém, não por desconfiança de que o Daniel Oliveira exagere, o que ele nunca faria tratando-se da Santa Madre Igreja, mas para saber pormenores da fatwa episcopal - o que lê?
Que o Cardeal excomungou os malandros dos anúncios?
Que convocou uma cruzada para os aniquilar?
Que lamentou já não ter a Inquisição e a fogueirinha?
Não: que escreveu uma carta manifestando o seu desagrado. Exactamente o que o Arrastão faz todos os dias.
Acresce que um condutor de autocarros terá dito que jamais conduziria viatura tão ateia. É a primeira greve da história por razões de consciência, o que devia dizer alguma coisa ao Daniel Oliveira, alguém que sabe apreciar uma boa greve.
Mas não. Ele conclui que a intolerância ocidental, ou cristã, ou o que seja, é igual à intolerância islâmica. Sem entrar em subtilezas culturais, que lhe interessam tanto como ao Menino Jesus, faço notar que, se assim fosse, Sua Eminência não se limitaria a escrever uma carta: escreveria uma condenação à morte, a deixar no destinatário com uma punhalada no peito. E o condutor não se limitaria a recusar o diabólico transporte público: enchia-o de de explosivos, subia lá para cima e ia contra a sede da empresa de publicidade, clamando "Deus é grande e Bagnasco o seu profeta!" (o que, por acaso, não soa lá muito bem).
Se o Daniel Oliveira não acredita, e nada o obriga a ter mais fé em mim do que em D. José Policarpo, pode fazer a prova experimental. Por exemplo, guiando um dos autocarros do ateísmo até qualquer ponto entre Marrocos e a Indonésia. Um grande autocarrro verde com os dizeres "A boa notícia é que Alá não existe. A má é que as setenta virgens também não." Ou, melhor ainda, "Provavelmente Alá não existe. Agora não te preocupes e deixa a tua mulher sair de casa." De caminho, pode fazer campanha pelo casamento gay.
Seria ainda mais giro.
A carta do Cardeal foi infeliz, claro. Muito infeliz. Infelizmente, os cardeais não têm o dom da infalibilidade. Graças à campanha, nunca se falou tanto de Deus como agora. O Arcebispo de Bolonha devia ir a um daqueles workshops do Bloco em guerrilha urbana, e depois fazia uma campanha alternativa a denunciar o ateísmo. Imaginem os autocarros bolonheses com os seguintes versículos, entre anjinhos rechonchudos: "A má notícia é que Nietszche morreu. A boa é que não vai ressuscitar." Ou então: "Provavelmente Marx era um barbas com mau feitio. Agora esquece e sê um capitalista selvagem."
Isso, sim, era mesmo giro.

Da série "Cachimbos de lá"



El-Halil Abdel Haziz, Meditação (s.d.)

Quinta-feira, 22 de Janeiro de 2009

Quantas vidas tem Sócrates?

A Caroline Kennedy desistiu da sua pretensão ao lugar no Senado ocupado por Hillary Clinton, dizem os rumores e o NY Times, devido a problemas fiscais e com um empregado doméstico, que terão reaparecido durante esse bom costume americano, o vetting dos candidatos (aparentemente dos candidatos a tudo, até às associações de pais). Isto, claro, nos Estados Unidos. Por cá temos um Primeiro-Ministro que ninguém percebe muito bem se é o suspeito (da polícia inglesa, esclareça-se, que em Portugal ninguém é suspeito de nada no caso Freeport, como se percebe pela inacção do DIAP e da Polícia Judiciária quando não a mando dos britânicos) de ter recebido as tais luvas que - dizem os rumores e o Público e o Sol - terão pago a um ministro do Governo de Guterres os promotores do Freeport. E toda a gente continua placidamente como se isto fosse uma situação normal e não fossem necessários esclarecimentos além das palavras propagandísticas vazias do próprio PM; como se esta suspeição pudesse pairar sobre um PM em exercício; provavelmente o PS continuará a liderar nas intenções de votos na próxima sondagem, porque afinal uma suspeição de corrupção é coisa pouca. Nem me devia surpreender: Sócrates já ultrapassou o caso da sua licenciatura - muito estranha nos procedimentos para todos os que tenham frequentado um curso superior - e os dos seus inesquecíveis projectos arquitectónicos pelas Beiras - revestido de igual estranheza para quem já comprou os serviços de um arquitecto e pôs à apreciação de uma câmara municipal um projecto de arquitectura.

Mas claro os americanos são uns tontos porque votaram duas vezes em George W. Bush. Ai o quanto teriam a aprender com os portugueses para escolherem bem os seus líderes.

Será ignorância?

A devoção religiosa em relação a Barack Obama tem produzido enormes disparates. Acabei de ouvir António Costa dizer que a nova Administração irá fazer regredir os Estados Unidos ao tempo em que respeitando os direitos humanos, conseguiram derrotar o comunismo e o fascismo. Será que ele incluí o bombardeamento de Dresden durante o mandato de Roosevelt? Ou as bombas de Napalm no Vietname na era de Johnson?

Eu não discuto as acções dos anteriores presidentes, até concordando com boa parte delas. Mas é de uma ingenuidade gritante tecer estas considerações sobre o carácter benigno dos anteriores presidentes, e maléfico de George W. Bush. Assusta-me este simplismo com que analisam a acção americana nos últimos oito anos.

Arrastado na Corrente

Nunca respondo a estas correntes blogosféricas, mas abro uma excepção para o Miguel. Por isso, Miguel, aqui vai: à tua, e aos nossos anos na Escola Comercial.

Uma banda? New Order


1 - Homem ou mulher? "Thieves Like Us"
2 - Descreve-te: "Touched by the Hand of God"
3 - O que pensam de mim? "Weirdo"
4 - Como descreves o teu último relacionamento? "Bizarre Love Triangle"
5 - Descreve o estado actual da tua relação: "The Perfect Kiss"
6 - Onde querias estar agora? "Paradise"
7 - O que pensas do amor? "Shellshock"
8 - Como é a tua vida? "Everything's Gone Green"
9 - O que pedirias se pudesses ter só um desejo? "True Faith"
10 - Escreve uma frase sábia: "Every Little Counts"

Como me meti nisto, tenho de passar a batata quente a mais alguém. São estes os nomeados: André Azevedo Alves e os nossos Manuel Pinheiro e Nuno Lobo. Desculpem lá qualquer coisinha.

Nunca! Ainda que...

Ao contrário do que possa parecer, o título deste post não é uma descrição de Pedro Passos Coelho. É uma descrição da entrevista de Paulo Portas à RTP no que respeita ao comportamento do seu partido na eventualidade de um governo PS minoritário.
Sim, Portas foi peremptório na recusa de uma futura coligação com Sócrates. Pudemos assistir àquela veemência exterior que lhe é tão própria. Mas repararam como ele deslizou por entre as palavras que se iam atropelando naquela pressa das entrevistas televisivas e não respondeu à pergunta da possibilidade de acordos de incidência parlamentar?...

Há partidos que garantem a pés juntos não serem muletas nem bengalas. Claro. Podem sempre ser outras coisas. Queijos, por exemplo.
E tanto se podem vender apenas fatias episódicas (para episódios de aperto), como todo o queijo de uma só vez - a que Sócrates pode sempre recorrer em caso de carência de proteína (para a rigidez do governo) e cálcio (para uma sempre saudável apoptose dalguma célula "socialista" do executivo).

Entrevista com Paulo Portas

Depois da entrevista com Paulo Portas que terminou há pouco, retiro a mesma impressão que já tinha. É um sintoma do lastimoso estado político e cultural a que o País chegou que este homem valha 3 ou 5% nas sondagens, quando a extrema-esquerda combinada sobe aos 20%. Portas falou bem sobre política fiscal, falou bem sobre investimento público e falou bem sobre educação. Nos tempos que correm, isso já é bastante. Não é certamente por sua causa que a Assembleia da República desliza sem dignidade para a irrelevância ou o sistema partidário para o absurdo.

Geminações artificiais

Vi agora no telejornal que Lisboa, por proposta do Bloco de Esquerda e abstenção de, pelo menos, o PS e o PSD - como não tomar nota? -, foi geminada com Gaza. Claro que a decisão não teve nada de político - oh, claro que não!

Não me passa pela cabeça pedir daqui a Rui Rio que gemine o Porto com Ashkelon. Mas pergunto-me qual o efeito que tal decisão produziria. Não em Ashkelon, bem entendido. Nos media cá da terra.
A cobardia política, o hábito de conviver com chantagens sortidas, o medo - sobretudo o medo - de ficar mal visto, e, pelo caminho, o sentimento burguês que Israel é uma chatice, são coisas muito potentes, de facto.
PS: notou em baixo um comentador que ninguém votou contra.

O complexo político-mediático

Como não temos indústria nem forças armadas, não existe "complexo militar-industrial". Mas o que temos não é melhor. Vejam o comentário certeiro (e que deveria ser evidente) de Miguel Botelho Moniz, no Insurgente, à capa do Diário Económico que anuncia "Portugal paga crédito mais caro por causa de agência de ‘rating’".

As pressões socialistas

“O PÚBLICO também apurou que as relações entre o "Sol" e um dos seus principais accionistas, o grupo BCP, se têm vindo a alterar desde que os socialistas Santos Teixeira e Armando Vara foram eleitos para a administração do banco fundado por Jardim Gonçalves. Foram canceladas campanhas publicitárias e retirados patrocínios já negociados, o que contribuiu para tornar mais difícil a situação da empresa.”


Uma democracia necessita de uma imprensa livre e independente, até para actuar perante os excessos do poder. Como temos vindo a perceber, esta não é a concepção do Primeiro-ministro. O SOL tem vindo a publicar notícias sobre um caso de corrupção na construção do Freeport de Alcochete, que envolve um ministro de António Guterres. Curiosamente, e ao mesmo tempo, surgiram noticias que o jornal estaria com dificuldades financeiras devido a interferências externas, sabemos nós de onde. Não gosto de falar no passado, mas imagino o que seria escrito se isto tivesse acontecido no governo anterior.

Por outro lado, o SOL demonstra que não se cala perante as pressões, e numa notícia publicada há minutos, informa que a polícia judiciária fez hoje buscas na casa e nas empresas de Júlio Carvalho Monteiro, tio materno de José Sócrates, bem como no escritório de Vasco Vieira de Almeida. Este caso ameaça tomar proporções sérias para o governo socialista, mas a generalidade dos media portugueses parece não ligar muito ao tema. Esperemos por mais novidades.

Debalde

O programa de troca de seringas nas prisões foi um sucesso, apenas ensombrado pelo facto de nenhum recluso a ele ter aderido. Há ideias cuja excelência é comprovada pelo desinteresse do público ao qual se destinam. Em 2009, os presos homossexuais terão direito a visitas íntimas. Concordo com o princípio. Um preso, tal como qualquer outro cidadão, não deve ser discriminado em função da sua orientação sexual. No meio de ideias tão louváveis e progressistas, a flor de civilização que é o balde higiénico subsiste com uma teimosia medieval. Ao contrário das visitas íntimas, a indignidade do balde é mesmo só para alguns. Só que neste caso não se pode falar em discriminação. É só azar.

Guantanamo

Nasci e cresci na identificação com o chamado ”mundo livre”. Liderado pelos EUA, o mundo livre opunha-se ao «mal» que tinha nome e estava bem identificado: o comunismo e o eixo de influência soviético.
Recusámos uma visão colectivista da sociedade e da economia, onde vivia a perseguição política e faltavam os direitos e o reconhecimento individual.
Afirmámos, por oposição, os valores que eram «nossos». Se a liberdade era a tocha de um mundo liderado pelos EUA, promovemos igualmente o respeito pelos direitos humanos e o fortalecimento das organizações internacionais dedicadas à paz, ao desenvolvimento e à democracia.
Era uma visão provavelmente simplista, mas estruturadora.
O tempo trouxe-nos uma imagem diferente do “nosso mundo”. Os Estados Unidos da América tornaram-se, em grande parte por culpa própria, alvo de críticas de cedência a interesses obscuros, falta de respeito pelo direito internacional, desconsideração pela dignidade humana mais básica. E, com o oportunismo dos adversários do mundo livre, Guantanamo foi elevado a um símbolo da hipocrisia, da contradição e do desrespeito humano. Infelizmente com razão.
A decisão de Obama para hoje anunciada não só devolve aos presos o Direito e a dignidade de que são merecedores, mas devolve também ao mundo o lugar que os EUA nele devem ocupar.

Gesta Lusa

O Mundial de futebol é o novo desígnio nacional. Os argumentos são os mesmos sempre que o país se lança em mais uma empreitada imortal: o retorno económico (mas dificilmente quantificável), a imagem de Portugal no mundo (é aqui que alguém nos pergunta se sabemos quanto custa uma página de publicidade na Time) e a auto-estima dos portugueses. Benefícios que oscilam entre o invisível e o psicológico (sugiro que a pátria prescinda do Dr. Madaíl e contrate Eduardo Lourenço).

Se o objectivo é ajudar o sector da construção civil – o único que beneficia claramente destes eventos - é indiferente construir estádios de 30 mil lugares no Algarve, asfaltar o mar da Palha ou erguer bancadas ao longo da A1. Os estrangeiros não estão nada preocupados com a imagem de Portugal e nós, como em tudo o resto, devíamos imitá-los. Quanto à auto-estima, é bom lembrar que o Mundial é só daqui a 9 anos, dura apenas um mês e ainda vamos ter de partilhá-lo com Espanha. O melhor será arranjar um plano alternativo que garanta, se não a nossa felicidade, ao menos a nossa sobrevivência.

E podem ler isto, especialmente o parágrafo sobre o "espectáculo de multidões".

Um nariz contemporâneo

Ontem, o dia correu muito bem em leituras: um artigo muito sábio sobre a importância da gastrosofia em Fourier, o mais delirante dos utopistas; o “Diário de um Louco” de Gogol (há séculos que não me ria tanto); e, para acabar em beleza, o excerto (lido no Abrupto) de uma introdução, por Anabela Mota Ribeiro, a uma entrevista de Pedro Passos Coelho ao “Jornal de Negócios”, de um cómico impagável (vão ver ao Abrupto, que vale a pena).

De resto – e continuando com Gogol –, Pedro Passos Coelho cada vez se parece mais com o célebre nariz do outro conto. Misteriosamente autonomizado do corpo, passeia-se por aí de caleche em trajos de alto dignatário, ostentando uma individualidade que nada antes fazia supor – e fala, fala muito, com propósitos de conselheiro áulico ("um tom levemente pomposo", de quem "usa palavras de livros antigos e pesados", como escreve a inimiga jurada que o entrevistou), em todo o lugar. Fatalmente – e tão misteriosamente como de lá se evadiu – retornará ao corpo de onde partiu, para ocupar a sua função natural. Mas enquanto não, é ouvi-lo.

No “Diário de um louco”, o louco em questão descobre a razão porque não podemos ver os nossos próprios narizes: é porque estão todos na lua. Atendendo ao exemplo de Pedro Passos Coelho, cuja vida aparentemente se segue “como se segue um romance com a espessura da Montanha Mágica” (tomem lá!), antes estivessem. Mas o “solipsismo dos verões transmontanos”, a que tão poeticamente se refere Anabela Mota Ribeiro, já é um princípio. Não é a lua, nem sequer Davos (onde Ângelo Correia e Marco António Costa seriam presumivelmente os Naphtas e Settembrinis deste novo Castorp), mas é um princípio. O solipsismo, neste caso, é um bom princípio. Teoricamente, obriga ao silêncio.

A importância de Abraham Lincoln

O primeiro presidente do Partido Republicano foi um político extraordinário. Alguém que nasceu num berço de palha do Kentucky, no inicio do século XIX, e chegou a Presidente dos Estados Unidos, só poderia ter sido um homem brilhante.

Mas Lincoln foi um homem do seu tempo. E ao contrário do que os mais desatentos podem pensar, o 16º POTUS não era propriamente anti-esclavagista, mas antes defensor da contenção da escravatura nos estados do Sul. Lincoln não foi um dos fundadores do Partido Republicano precisamente por discordar do radicalismo anti-esclavagista que esteve na génese da sua criação. Apenas se comprometeu com os republicanos em 1856, ano em que apoiou John Frémont à presidência, que viria a ser derrotado por James Buchanan, unanimemente considerado um dos piores presidentes da história. Nas eleições de 1860 Lincoln não prometeu o fim da escravatura, mas sim respeitar a soberania dos estados do sul. Mas pretendia evitar que os novos territórios do Oeste fossem transformados estados esclavagistas.

Abraham Lincoln era um moderado, e nunca desejou o confronto com o Sul. Apesar de considerar a escravatura moralmente errada, teve sempre o cuidado com as suas palavras, para não ferir susceptibilidades no Sul. Apenas depois da secessão, ainda antes da sua tomada de posse, Lincoln percebeu que teria de entrar em guerra para manter a União. Mesmo nos primeiros meses da guerra civil, Lincoln nunca defendeu abertamente a abolição da escravatura, pois alguns estados esclavagistas mantiveram-se do lado da União, como o Delaware, Missouri, Kentucky e Maryland. Para não perder o apoio destes estados, Lincoln tentou negociar a emancipação compensada com os membros no Congresso destes estados, mas apenas acabaria por aplicar este método ao District of Columbia.

A genialidade de Lincoln revelou-se ao manter a União, e ao mesmo tempo, terminar com a escravatura em todo o território. Um radical anti-esclavagista não teria alcançado, tão rapidamente, estas conquistas. Teria perdido todos os defensores do esclavagismo para os confederados, algo que não sucedeu. Por outro lado, os estados anteriormente referidos teriam, provavelmente, alinhado com o Sul. Depois porque na década de 60, não havia ainda um consenso na sociedade americana sobre o fim da escravatura. A maior parte do establisment político americano não era abolicionista.

Mas Lincoln criou as condições para poder emancipar os escravos em 1862. A sua libertação foi também uma forma de pressionar os confederados, originando a fuga de milhares deles, e que mais tarde viriam a combater com o uniforme da União.

Lincoln salvou a União e aboliu a escravatura, e isso deve ser recordado. Mas foi através da moderação e do compromisso que conheceu o sucesso. Sem nunca ceder perante os adversários, mesmo forçado a levar o seu país para a guerra. Nos tempos de hoje é importante recordar a lição de Lincoln. Para se conquistar a liberdade, por vezes é necessário combater por esse ideal.