Segunda-feira, 21 de Dezembro de 2009

Leitura recomendada


Dava imenso jeito, era um sossego para a alma, que todos os conflitos fossem susceptíveis de uma abordagem do género: A contra B, logo um deles está certo e - por isso - o outro não. Dava imenso jeito, era uma dispensa de aflições em tratando-se de julgar, de ajuizar, coisa a que só podemos furtar-nos abdicando da nossa responsabilidade moral. A estaria sempre certo, e B errado, ou vice-versa - aconteça o que acontecer. Seria tão fácil! E daria a confortável ilusão, sempre que levantássemos o dedo acusador, de estarmos a fazer o que devemos!

E é assim, levianamente, ou sabe-se lá com que envergonhados impulsos, que, na esmagadora maioria dos casos, é abordado o conflito que opõe Israel aos seus inimigos. A verdade é desgraçadamente mais espinhosa. No território de Israel, queiram ou não os seus milhões de juízes, muitos mais do que os indivíduos que compõem as nações em conflito, estão em jogo dois direitos, duas razões - e uma única verdade, que, ou considera ambas, ou é simplesmente uma retinta mentira. Há dilemas, e o caso de Israel é apenas a sua mais eloquente ilustração nos nossos dias.

Como se constituiu e como evoluiu historicamente o combate político que resulta do dilema que opõe Israel aos árabes da Palestina? De outra forma: como se foi constituindo e evoluindo, de um lado e do outro do conflito, o discurso, o projecto para dar forma política à Palestina pós-mandatária?

É esse o tema do mais recente livro do mais conhecido dos historiadores israelitas contemporâneos, Benny Morris, durante muitos anos identificado com a nova geração de historiadores do país, que pôs em causa, designadamente através dos seus estudos sobre a formação do problema dos refugiados, a narrativa até então prevalecente no campo sionista.

O livro - One State, Two States - Resolving the Israel/Palestine Conflict - compõe-se de duas partes de valor muito desigual.

A primeira é obra, do mais elevado nível, de um grande historiador. O seu núcleo é o detalhado capítulo sobre a História das Soluções Um Estado e Dois Estados, versando sobre como da defesa de uma delas se passou à defesa da outra, no campo sionista, tendo essa passagem por data-charneira o momento em que David ben-Gurion aceitou o mapa da Comissão Peel, em 1937, propondo a primeira partição do território; e de como, no campo palestiniano, jamais se evoluiu da posição primeira, a que advoga, desde os anos 20, um único Estado, mesmo quando, por razões de aceitabilidade internacional, se quer fazer querer que se enveredou pela aceitação de Dois Estados como solução para o conflito, como foi o caso nos Acordos de Oslo (1993).

Em particular, a descrição das negociações de Camp David, em 2000 (terminadas em 2001, com um rotundo segundo «não» de Arafat, em Janeiro, já a segunda intifada alastrava), sob os auspícios de Bill Clinton, quando Ehud Barak, então primeiro-ministro de Israel, fez (ou aceitou, quando Clinton ensaiou uma tentativa extrema de salvar as negociações, alargando o âmbito das concessões aos palestinianos) as propostas mais generosas da história das sucessivas, e sempre falhadas, tentativas de solução para o conflito nos termos do modelo de Dois Estados, em particular, dizia, esta é, que seja do meu conhecimento, a narrativa mais minuciosa sobre o assunto, até ao momento.

E, na óptica de Benny Morris, a ilustração suprema da duplicidade que tem sido a marca de água de toda a história da visão palestiniana, revelador por excelência de quão radicalmente entranhada está - «nas fibras mais profundas do seu ser» - a recusa da ideia de Dois Estados. «Atrevo-me a dizer que, na hipótese altamente improvável de que Israel e a Autoridade Palestiniana cheguem, nos próximos anos, a assinar um acordo moldado sobre o esquema de Dois Estados, tal acordo será rapidamente desfeito», conclui, em nota sombria, o historiador.

Perspectiva que, por muito desesperada que pareça, não deixa de ser reforçada por declarações recentes de altos líderes palestinianos, para consumo interno, como esta de Muhammad Dahlan, ex-chefe de uma das forças policiais secretas sob o domínio da Fatah, em Março deste ano - que Benny Morris não chega a citar: «Pela milésima vez, quero reafirmar que não pedimos ao Hamas que reconheça o direito à existência de Israel. Pelo contrário, pedimos-lhe que não o faça, pois a Fatah nunca reconheceu o direito de Israel a existir.»

A segunda – e curta - parte do livro é obra do cidadão Benny Morris. À pergunta: Where to?, uma vez que a perspectiva de solução para o conflito num Estado é inviável – «ajudem-nos a divorciar!», pedem até as vozes mais liberais, como a de Amos Oz, em Israel – e a perspectiva de Dois Estados é irrecebíbel pela parte palestiniana – Benny Morris não se limita a demonstrar que assim tem sido, mas aventura também explicações para o porquê de assim ter de ser -, responde o cidadão com a ideia de que a solução passa por devolver os territórios da margem ocidental e de Gaza à Jordânia, que se reformaria numa muito pouco explicada confederação ou federação Jordano-Palestiniana, capaz, designadamente, de absorver os refugiados que os campos da Síria, do Líbano e da própria Jordânia têm reproduzido ao longo de décadas (há o pequeno e incómodo detalhe, não elaborado, de a Jordânia hashemita achar que, palestinianos, já tem que chegue e sobre).

Como já sugeri, a segunda parte é incomparavelmente de menor valia, num livro, que, em tudo o mais, se recomenda vivamente a quem se interessa pelo assunto, para efeitos mais interessantes do que acusar... a sua imensa ignorância e falta de responsabilidade no uso da faculdade de julgar.

P.S.: O livro deveria ser de leitura obrigatória para quem tem responsabilidades internacionais, e Obama e os seus assessores talvez se arriscassem a fazer e a dizer menos asneiras se o lessem. Não peço ao senhor ministro dos Negócios Estrangeiros, Luís Amado, que o leia, porque ele não tem responsabilidades, embora não perca uma oportunidade, sempre que ela aparece, de nos envergonhar.

4 comentários:

tric disse...

"Dava imenso jeito, era um sossego para a alma, que todos os conflitos fossem susceptíveis de uma abordagem do género: A contra B, logo um deles está certo e - por isso - o outro não. Dava imenso jeito, era uma dispensa de aflições em tratando-se de julgar, de ajuizar, coisa a que só podemos furtar-nos abdicando da nossa responsabilidade moral. A estaria sempre certo, e B errado, ou vice-versa - aconteça o que acontecer. Seria tão fácil! E daria a confortável ilusão, sempre que levantássemos o dedo acusador, de estarmos a fazer o que devemos! "

mas para você Israel não esta sempre certo e os outros sempre errados!!?? pelo menos é essa a percepção que fico dos seus posts...ha qualquer coisa de logica, que não bate certo

Anónimo disse...

Eu bem digo que por cá não nos faltam talibans.

Jorge Costa disse...

Ao senhor de cima: obrigado por ter lido o primeiro parágrafo. Se conseguir, tente ler os restantes. E já agora sem preconceitos e ideias formadas sobre o que eu penso, ou não.

Anónimo disse...

"a Jordânia hashemita achar que, palestinianos, já tem que chegue e sobre"

Eu diria que um problema central de toda a Palestina bíblica (a qual inclui a parte habitável da Jordânia) é já ter gente que chega e sobra, tendo em conta os seus escassos recursos naturais. Tem árabes a mais e judeus a mais. Tanto uns como os outros fariam bem em sair de lá. Ou, pelo menos, de moderar as suas disparatadas taxas de reprodução.

Quanto a a Jordânia ter palestinianos a mais, eu lembraria que os palestinianos se contam entre os povos árabes mais cultos e com um nível de educação mais elevado. Certamente que não fariam mal àao restante da população jordana, a qual lhes é muito inferior nesses aspetos.

É claro que a Jordânia não deseja pessoas causadoras de problemas. Mas os plaestinianos só são causadores de problemas na medida em que se sintam desintegrados e/ou espoliados da terra que pertenceu aos seus antepassados. Há montes de palestinianos em países árabes, hoje em dia, que já não se sentem assim, e que não causam problemas nenhuns (inclusivé, a rainha jordana é palestiniana).

Luís Lavoura