Sexta-feira, 9 de Outubro de 2009

Do exagero

Costuma-se dizer que uma das melhores formas de tornar clara a deficiência de um argumento é levá-lo ao exagero. De certo modo, foi isso que intencionalmente o Nobel da Paz atribuído a Obama veio fazer. Ao exagerar a euforia à sua volta para lá dos limites comuns, obriga-se os seus fãs (note-se a diferença entre fãs e adeptos ou apoiantes) a explicitar os méritos do Presidente americano que justificam a atribuição do prémio. Uma tarefa muito difícil de se fazer com seriedade, e que levará possivelmente à moderação desta febre. Por seu lado, Obama vê a fasquia a subir mas continua sem ter como justificá-la. Curiosamente, corre, por isso, o risco de ser o principal prejudicado com este prémio.

Uma última nota. O Nobel é um prémio europeu em todos os seus sentidos. Nessa lógica, a escolha de Barack Obama é até extremamente previsível, dando sequência à euforia com que Obama tem sido recebido e (mal) compreendido no continente europeu. Talvez seja do enraizamento emocional de que a esquerda desfruta (e desfrutou) na Europa, e ainda desta nossa tendência em transformar a política numa relação amor/ódio – no fundo, talvez seja do nosso lado afrancesado. Contudo, este prémio abre uma porta à Europa política: se estar ao lado dos EUA se tornou, para os líderes europeus, mais fácil (quase desejável) desde a eleição de Obama, este Nobel insiste nesse caminho. Resta saber se a UE terá a coragem necessária para se assumir, verdadeiramente, como o parceiro que os EUA precisam (nomeadamente no Afeganistão). Trata-se de uma oportunidade de ouro para fortalecer a relação transatlântica, sabendo-se que o Pacífico está à espreita.

Sem comentários: