Quarta-feira, 14 de Outubro de 2009

Algumas evidências

"Em matéria de eleições, sempre houve que distinguir entre legitimidade e razão. Não pode discutir-se a legitimidade dos resultados das legislativas. Já não é assim com a apreciação da razão que assista a quem votou neste ou naquele sentido. Se assim não fosse, não poderia discutir-se o resultado da eleição de Adolf Hitler em 1932 e as suas macabras consequências.
(...)
O resultado das legislativas não se limita a traduzir a profunda estupidez com que o eleitorado nacional se comportou. Levará o País aceleradamente na pior das sendas.
O Presidente da República não tem, nem pode ter, a mínima confiança na personalidade que vai ser forçado a indigitar para primeiro-ministro e, por identidade de razão, no seu Governo. Isto nunca poderá dar bom resultado.
Outra evidência é a de José Sócrates nem sequer precisar de se preocupar com o recrutamento de novos ministros. Se ganhou as eleições com a inqualificável porcaria do Governo a que presidiu durante quatro anos - e era impossível ter governado pior -, bem pode continuar a esperar que em próximas eleições as coisas se passem de igual modo, pelo que mais lhe vale não mexer na equipa vencedora…
Sócrates não só é de uma incompetência clamorosa e verbosa, como é absolutamente incapaz de qualquer espécie de boa governação. Contaminará todos os membros da sua equipa que porventura tenham a veleidade de alterar o presente estado de coisas e de tirar o País do buraco sem remédio em que os socialistas o meteram. Se não contaminar, tratará de os pôr na rua ao fim de dois ou três meses, como aconteceu com Campos e Cunha.
(...)
Por tudo isso, é essencial que Manuela Ferreira Leite cumpra o seu mandato até ao fim. Para já, no ensejo da discussão do Orçamento do Estado, só ela estará em condições de traduzir politicamente e tecnicamente na Assembleia da República as objecções de fundo que o projecto de Orçamento não deixará de suscitar. Terão necessariamente de ser do seu comando e da sua responsabilidade, como chefe do maior partido de oposição, as reacções ao documento e a demonstração dos seus erros ou dos seus vícios ocultos. E, last but not least, a preparação das bases de uma continuidade consequente do PSD na oposição. É preciso acabar depressa com o próximo Governo!"

Vasco Graça Moura, no Diário de Notícias de hoje.



[Acrescentaria, porventura sem necessidade, a ressalva da inconveniência da queda do futuro governo, caso ela fosse usada como um pretexto para eleições antecipadas que beneficiariam a "socrática" personagem calimerizada.]

7 comentários:

Nuno Palha disse...

Usar a distinção entre legitimidade e razão para sobranceiramente manifestar um desprezo pela democracia e por quem pensa de forma diferente é do melhor.

A única conclusão que tiro é que comprar jornais para ler opiniões de luminárias como o Vasco Graça Moura não vale mesmo o dinheiro.

Viva a blogosfera.

Anónimo disse...

Não surpreende é a tese dominante do Pacheco-Pereirismo. Curiosamente abandonou, por pouco tempo a doutrina da conflitualidade e do governo forte. A referida figura já o aplicou a Santana e a Menezes.Há, de facto, desprezo pela legitimidade democrática. Houve eleições, mas como o resultado não agrada, melhor seria dissolver até que se tenha o resultado certo.

DarkAngel disse...

Acho que o artigo deste senhor demonstra completamente aquilo que falta na politica em Portugal. Em muitos dos países da União Europeia, geralmente, a oposição para além de fazer oposição procura vias democráticas para se encontrar com o partido em governo e faz um esforço para conseguir manter o equilibrio do governo e das assembleias. Em Portugal a oposição que "destruir" o governo e dps desfazer tudo, tipo "delet" e "reset".

Como é que querem que se consiga fazer alguma coisa assim???

Raoul de Joinville disse...

Vasco Graça Moura não é um quadro... É uma moldura suplente...

jaa disse...

Caro DarkAngel: nos tais países, o governo também procura formas de se aproximar da oposição e talvez não tenha passado quatro anos e meio em demonstrações de arrogância. Mais importante: o PS faz há cerca de um ano campanha à esquerda e tem um programa baseado no peso e acção do Estado; PSD e CDS acham, legitimamente, que as políticas socialistas são suicidárias; ergo, o PS que se entenda com o BE e com o PC.

Carlos Botelho disse...

É um belo artigo que tem algo de texto de blog. Não acham?...

Anónimo disse...

Carlos Botelho, ficamos a saber pela leitura deste artigo que Campos e Cunha era um bom ministro e que a política cultural da união europeia é boa. Estranho. Uma revelação. Campos e Cunha era o desgraçado que gozava com os reformados ao acumular a pensão do Banco de Portugal com o salário de ministro.VGM também deve acumular e bem podia prescindir de uma.


BB