Quinta-feira, 22 de Outubro de 2009

Ainda o senhor-que-escreve-umas-coisas-Saramago

1. Leio opiniões como esta de Carlos Barbosa de Oliveira e pasmo. O eurodeputado David tem um desejo: que Saramago renuncie à nacionalidade portuguesa, como o visado um dia ameaçou (e não concretizou, lá percebendo que os portugueses não ficariam de coração destroçado; afinal a maioria dos portugueses não lê livros e, dentro dos que lêem, geralmente prefere-se quem escreva bem). O que faz o eurodeputado David em prol do seu desejo? Transmite-o à comunicação social. Comparar expressar uma opinião ou um desejo (nenhum contendo qualquer sugestão de desconforto físico para o improvável Nobel) sobre Saramago com a fúria muçulmana contra as caricaturas de Maomé - com honorável curriculum contendo manifestações violentas, embaixadas atacadas e até morte de religiosos católicos - ou a reacção iraniana ao livro de Rushdie - que tem uma fatwa a persegui-lo - é algo de verdadeiramente extraordinário. Tão extraordinário que não pode ser a sério.
2. Não sei bem por que razão, leio em vários lados que Saramago tem o direito de dizer os disparates que disse sobre Deus, as religiões e a Bíblia. Pois claro que tem e não li ninguém defender que Saramago devia ser amordaçado. Se este escrupuloso respeito pelo direito de Saramago de proferir disparates tem incomodado quem talvez desejasse reacções mais islâmicas, lamenta-se, mas a vida de vez em quando dá-nos desilusões destas.

7 comentários:

Anónimo disse...

É de facto uma pena que a suposta agenda secreta da "esquerda" intelectual não alcance os seus objectivos.
Eu, por mim, agradeço toda a divulgação que tem sido dada a Saramago...um pobre escritor, um desprezível politico e cidadão suspeito. ´
Nada católico, comunista ou sequer militante do que quer que seja... fico cada vez mais intransigente face às uticárias dos cachimbos. Tanto relevo dão a um opinion Maker carcaça (quer queiram quer não) nos fazem perguntar afinal de quem é agenda secreta.
Borrifando-me muito mais em Saramago do que na Igreja... pós modernista falhado como sou.... congratulo Saramago por ter chamado a vossa atenção. Não por ter escrito o que quer que seja (não li nem falo tensões disso).

Liberdade de expressão.... mantenham-na! A esquerda agradece!

Cumprimentos do Sexta-feira...que isto de estar na ilha rende.

bjs


Robin

Raoul de Joinville disse...

Será Mário David laico?...

Compreenderá a necessidade do Estado caracterizado pela laicidade, ou também se acomodava com um Estado pró-religioso, para não ir mais longe?...

Nuno Palha disse...

As declarações de Mário David são vergonhosas, no seguimento do seu antecessor do "respeitinho" chamado Sousa Lara (este um verdadeiro censor na democracia). Era o que faltava um deputado sugerir a qualquer português que renuncie à sua nacionalidade porque expressou uma opinião que fere as suas convicções. Ainda para mais um dos deputados que supostamente está a tentar defender Portugal da "asfixia democrática".
Mas Mário David vai ainda mais longe e refere no seu blogue:

"Se a outorga do Prémio Nobel o deslumbrou, não lhe confere a autoridade para vilipendiar povos e confissões religiosas, valores que certamente desconhece mas que definem as pessoas de bom carácter."

Não aceito que um reprentante eleito me venha dizer que eu não tenho bom carácter por não possuir valores religiosos.

Saramago criticou uma obra ainda que de forma grosseira. Não insultou directamente ninguém ainda que muitos se possam sentir ofendidos com as suas ideias. Entretanto, meia blogosfera já o insultou ou ofendeu e directamente. Inclusivé neste blogue com uma caricatura de um estalinista num banho e sangue.Mas pior, Mário David ofende-o a ele e insulta directamente um grupo de portugueses que ele também representa: os agnóstico e os ateus.

De facto a única istituição que se comporta melhor é a própria estrutura da Igreja.

De resto é fanatismo anti-religisoso contra fanatismo religioso.

Anónimo disse...
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Raoul de Joinville disse...

Eis o suficiente para definir o contemporâneo «taliban» português:

"Se a outorga do Prémio Nobel o deslumbrou, não lhe confere a autoridade para vilipendiar povos e confissões religiosas, valores que certamente desconhece mas que definem as pessoas de bom carácter."

Mário David obra num erro que aparentemente o transcende, porque provavelmente nem nem sabe do existir de tal erro: aquele de tomar o valor do subjectivo como equivalente do valor objectivo.

Mário David padece, em júbilo, do estatuto de «vítima» que os credos religiosos tão a jeito predispoem. E «vítima» sensível da crítica à sua cúpula psicológica, cooptada no cultural «merchandising» teológico-religioso, e tomada como sagrada e divinizada.

Ora, Mário David, deveria saber que mesmo os «absolutos imaginários» encerrados em tão convenientes cúpulas psicológicas, não permitem a confortável opção deles fazer derivar definições e paradigmas de carácteres estimáveis aceites fora desse âmbito dogmático do absoluto imaginário. Logo, o estimável Mário David não pode senão vitimizar-se ante a crítica exterior ao seu «mundo mágico». É uma crítica que ele lastima em espasmos não surgir moldada pelo respeito ao sagrado, nem submetida a outras trivialidades prioritárias em tais matrizes «meta reais».

Mário David confunde crer com conhecer, e mais perigosamente com querer...

Maria João Marques disse...

Nuno Palha, Mário David foi infeliz? E então? Saramago também e tanto um como outro o podem fazer ao abrigo da liberdade de expressão e podem, ao abrigo da mesma liberdade, serem por isso criticados. Como é óbvio, David não esteve pior que Saramago; David exprimiu os seus desejos e Saramago deu uma opinião sobre algo de que não percebe nada (a Bíblia), ou seja, acrescentou ignorância à simples opinião.

O ponto do post, no entanto, era insurgir-me contra as comparações do comportamento de David às reacções islâmicas face às caricaturas ou ao Versículos Satânicos, que são um perfeito disparate e só contribuem para minimizar estas últimas.

Nuno Palha disse...

Não, o senhor David insultou "directamente" Saramago e ofendeu as pessoas ateias e agnósticas. Saramago opinou com ignorância sobre uma obra escrita e assim, ofendeu indirectamente crenças e não pessoas. Crenças e pessoas são coisas diferentes. Saramago não disse, como o sr David, que os não crentes não têm bom carácter. Mais, o senhor David representa os "Portugueses", como político eleito que é. O Saramago não representa ninguém a não ser ele próprio. Por isto tudo, o sr David foi mil vezes mais infeliz que o Saramago.

Meço tudo numa escala de "infelicidade" porque ambos têm todo o direiro legal de dizerem o que disseram, e ainda bem.