Segunda-feira, 7 de Setembro de 2009

Portas vs. Jerónimo: análise

Ponto prévio. O debate de hoje foi um debate pouco relevante para obter ganhos eleitorais, servindo essencialmente para os candidatos falarem com os seus eleitores. Assim, o interesse do debate de hoje prendia-se no observar das clivagens ideológicas que separam os dois intervenientes, e da forma como cada um as assume.

Empresas e trabalhadores. Jerónimo de Sousa (JS) usou da retórica do costume, da defesa dos direitos dos trabalhadores e da produção nacional. Insistiu no trabalho feito na Assembleia da República, com propostas para a reformulação dos subsídios de desemprego. Paulo Portas (PP) desenvolveu um discurso muito estruturado nas referências ao desemprego, em ataque ao Governo. Quanto aos salários, PP mostrou-se igualmente bem preparado, apresentando propostas para promover a produtividade das empresas. PP identificou o seu inimigo: Sócrates. Esteve bem na apresentação das ideias do seu partido, como os estímulos para as empresas para a contratação sem termo.

Papel do Estado na Economia. PP assume que o Estado deve ter um papel na Economia, nomeadamente neste período de crise. Mas chama a atenção para a carga fiscal de que sofrem as empresas portuguesas. É importante garantir uma política fiscal que favoreça mais as PMEs, que seguram economicamente o país. Jerónimo defende que há propostas idênticas entre os dois partidos, como baixar o IVA, mas fala de uma política económica mais justa (distribuição dos rendimentos, baixa de IRC para as pequenas empresas). Paulo Portas, finalmente, refere a importância da responsabilidade ética - por exemplo, Estado deve pagar juros quando se atrasa nos pagamentos.

Como pagar a Segurança Social? JS diz que há dinheiro mas que está mal distribuído. E depois atacou as políticas do Governo, um pouco arbitrariamente, fugindo à questão. Volta à carga com o ataque às petrolíferas, defendendo a sua nacionalização. "Eu não sou tecnocrata" diz Portas. A questão do desemprego não pode ser vista pelo dinheiro, deve servir para ajudar as pessoas, argumenta o popular. O debate desviou e regressa à questão das nacionalizações. "Quem fica muito feliz com as nacionalizações são o PS e o PSD, que vão para lá colocar gestores", diz Portas. Jerónimo 'protege-se' com a Constituição, e tenta demonstrar que a nacionalização permitiria baixar os preços. PP responde, claro, com a EDP, que tendo sido pública sempre praticou preços altos. É preciso concorrência, e melhor supervisão "actuante, incómoda, dolorosa se necessário". PP diz que a economia de mercado não morreu, ao contrário do que a esquerda radical acredita.

Saúde. PP defende que é preciso contratualizar com as misericórdias, o que permitiria diminuir as listas de espera, por exemplo, para as operações às cataratas a quase nada. Diminuiria para um terço em outras especialidades. É preciso maximizar as nossas capacidades: não é retirar Estado, é dar-lhe mais eficácia. JS considera que o neoliberalismo tem responsabilidades no actual estado do nosso Serviço Nacional de Saúde. JS ataca o Governo com base no encerramento de maternidades. Uma resposta mais fraca, ideológica, mas sem propostas concretas. PP interroga JS: "com base em que dogma ideológico devem as pessoas ficar em listas de espera?". A resposta não satisfez.

Agricultura. O discurso do PCP é o mesmo dos últimos 30 anos? Pela resposta de JS, a única diferença é estarmos hoje na UE. Diferença importante, claro, mas que JS não conseguiu desenvolver para o quadro da política interna. PP vê na agricultura um tema em que CDS e PCP foram os únicos a chamar a atenção. PP vai mais longe, e qualifica Jaime Silva como o pior Ministro da Agricultura de que há memória: "pior que a chuva, pior que o seco, só o [Jaime] Silva". Este ataque a Jaime Silva foi acordo comum entre os dois candidatos.

Como combater o voto útil. JS vê arrogância nos partidos do centro por bipolarizarem o debate e as possibilidades de voto. E afirma que espera uma confirmação dos resultados eleitorais do PCP nas europeias. PP chama a atenção que, hoje, PSD e PS já têm menos de dois terços dos votos, e espera igualmente que o CDS suba nas legislativas. Para PP, votar no CDS é garantir que as PMEs e muitas outras questões de urgência nacional ficam no centro da agenda.


Em balanço, o debate foi bom (talvez o melhor), na medida em que permitiu a ambos esclarecer algumas das suas propostas, oportunidade melhor aproveitada por Paulo Portas. O líder do CDS esteve muito seguro e defendeu muito bem as ideias do seu partido. Mostrou-se muito melhor preparado que Jerónimo de Sousa, e aproveitou todas as oportunidades para atacar o Governo do PS e o próprio José Sócrates.

Jerónimo manteve um discurso ideologicamente marcado, e nem sempre soube aproveitar os temas para expor as propostas do PCP. Esteve por vezes hesitante (é sabido que o seu forte não é a oratória), mas conseguiu passar a mensagem. Realça-se a sua utilização de uma linguagem 'popular', com expressões várias como 'jogatana' e 'bife do lombo', que visam uma parte específica do eleitorado. Importante também o distanciamento que Jerónimo vincou em relação ao PS.

Pelo seu maior à vontade, e pela sua evidente melhor preparação, Paulo Portas esteve melhor no geral, e venceu o debate. Contudo, vencer este debate significa pouco, na medida em que não disputam o mesmo eleitorado. Jerónimo de Sousa esteve melhor do que nos debates anteriores, por isso o debate também favoreceu a sua imagem.

3 comentários:

Anónimo disse...

"Bife do Lombo" era uma propaganda ignóbil daquele momento astral em que Cuba deu, pela primeira vez, carne de vaca ao povo.

Fala um lavrador! disse...

Só uma pequena correcção: "pior que a chuva, pior que a seca, só o Silva".
Isto é com toda a certeza uma frase muito repetida entre os membros do já há muito extinto MAMA: Movimento de Aproximação ao Ministro da Agricultura. O MAMA falhou porque do outro lado havia uma sempre constante aversão aos lavradores, pois claro.

Votar 2009 disse...

Paulo Portas so quer um tacho e caldos de galinha, preocupa-se com a segurança mas quando foi ministro a unica coisa que fez foi comprar submarinos