Ponto prévio. O debate de hoje foi um debate pouco relevante para obter ganhos eleitorais, servindo essencialmente para os candidatos falarem com os seus eleitores. Assim, o interesse do debate de hoje prendia-se no observar das clivagens ideológicas que separam os dois intervenientes, e da forma como cada um as assume.
Empresas e trabalhadores. Jerónimo de Sousa (JS) usou da retórica do costume, da defesa dos direitos dos trabalhadores e da produção nacional. Insistiu no trabalho feito na Assembleia da República, com propostas para a reformulação dos subsídios de desemprego. Paulo Portas (PP) desenvolveu um discurso muito estruturado nas referências ao desemprego, em ataque ao Governo. Quanto aos salários, PP mostrou-se igualmente bem preparado, apresentando propostas para promover a produtividade das empresas. PP identificou o seu inimigo: Sócrates. Esteve bem na apresentação das ideias do seu partido, como os estímulos para as empresas para a contratação sem termo.
Papel do Estado na Economia. PP assume que o Estado deve ter um papel na Economia, nomeadamente neste período de crise. Mas chama a atenção para a carga fiscal de que sofrem as empresas portuguesas. É importante garantir uma política fiscal que favoreça mais as PMEs, que seguram economicamente o país. Jerónimo defende que há propostas idênticas entre os dois partidos, como baixar o IVA, mas fala de uma política económica mais justa (distribuição dos rendimentos, baixa de IRC para as pequenas empresas). Paulo Portas, finalmente, refere a importância da responsabilidade ética - por exemplo, Estado deve pagar juros quando se atrasa nos pagamentos.
Como pagar a Segurança Social? JS diz que há dinheiro mas que está mal distribuído. E depois atacou as políticas do Governo, um pouco arbitrariamente, fugindo à questão. Volta à carga com o ataque às petrolíferas, defendendo a sua nacionalização. "Eu não sou tecnocrata" diz Portas. A questão do desemprego não pode ser vista pelo dinheiro, deve servir para ajudar as pessoas, argumenta o popular. O debate desviou e regressa à questão das nacionalizações. "Quem fica muito feliz com as nacionalizações são o PS e o PSD, que vão para lá colocar gestores", diz Portas. Jerónimo 'protege-se' com a Constituição, e tenta demonstrar que a nacionalização permitiria baixar os preços. PP responde, claro, com a EDP, que tendo sido pública sempre praticou preços altos. É preciso concorrência, e melhor supervisão "actuante, incómoda, dolorosa se necessário". PP diz que a economia de mercado não morreu, ao contrário do que a esquerda radical acredita.
Saúde. PP defende que é preciso contratualizar com as misericórdias, o que permitiria diminuir as listas de espera, por exemplo, para as operações às cataratas a quase nada. Diminuiria para um terço em outras especialidades. É preciso maximizar as nossas capacidades: não é retirar Estado, é dar-lhe mais eficácia. JS considera que o neoliberalismo tem responsabilidades no actual estado do nosso Serviço Nacional de Saúde. JS ataca o Governo com base no encerramento de maternidades. Uma resposta mais fraca, ideológica, mas sem propostas concretas. PP interroga JS: "com base em que dogma ideológico devem as pessoas ficar em listas de espera?". A resposta não satisfez.
Agricultura. O discurso do PCP é o mesmo dos últimos 30 anos? Pela resposta de JS, a única diferença é estarmos hoje na UE. Diferença importante, claro, mas que JS não conseguiu desenvolver para o quadro da política interna. PP vê na agricultura um tema em que CDS e PCP foram os únicos a chamar a atenção. PP vai mais longe, e qualifica Jaime Silva como o pior Ministro da Agricultura de que há memória: "pior que a chuva, pior que o seco, só o [Jaime] Silva". Este ataque a Jaime Silva foi acordo comum entre os dois candidatos.
Como combater o voto útil. JS vê arrogância nos partidos do centro por bipolarizarem o debate e as possibilidades de voto. E afirma que espera uma confirmação dos resultados eleitorais do PCP nas europeias. PP chama a atenção que, hoje, PSD e PS já têm menos de dois terços dos votos, e espera igualmente que o CDS suba nas legislativas. Para PP, votar no CDS é garantir que as PMEs e muitas outras questões de urgência nacional ficam no centro da agenda.
Em balanço, o debate foi bom (talvez o melhor), na medida em que permitiu a ambos esclarecer algumas das suas propostas, oportunidade melhor aproveitada por Paulo Portas. O líder do CDS esteve muito seguro e defendeu muito bem as ideias do seu partido. Mostrou-se muito melhor preparado que Jerónimo de Sousa, e aproveitou todas as oportunidades para atacar o Governo do PS e o próprio José Sócrates.
Jerónimo manteve um discurso ideologicamente marcado, e nem sempre soube aproveitar os temas para expor as propostas do PCP. Esteve por vezes hesitante (é sabido que o seu forte não é a oratória), mas conseguiu passar a mensagem. Realça-se a sua utilização de uma linguagem 'popular', com expressões várias como 'jogatana' e 'bife do lombo', que visam uma parte específica do eleitorado. Importante também o distanciamento que Jerónimo vincou em relação ao PS.
Pelo seu maior à vontade, e pela sua evidente melhor preparação, Paulo Portas esteve melhor no geral, e venceu o debate. Contudo, vencer este debate significa pouco, na medida em que não disputam o mesmo eleitorado. Jerónimo de Sousa esteve melhor do que nos debates anteriores, por isso o debate também favoreceu a sua imagem.


3 comentários:
"Bife do Lombo" era uma propaganda ignóbil daquele momento astral em que Cuba deu, pela primeira vez, carne de vaca ao povo.
Só uma pequena correcção: "pior que a chuva, pior que a seca, só o Silva".
Isto é com toda a certeza uma frase muito repetida entre os membros do já há muito extinto MAMA: Movimento de Aproximação ao Ministro da Agricultura. O MAMA falhou porque do outro lado havia uma sempre constante aversão aos lavradores, pois claro.
Paulo Portas so quer um tacho e caldos de galinha, preocupa-se com a segurança mas quando foi ministro a unica coisa que fez foi comprar submarinos
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