terça-feira, 14 de Julho de 2009

O 14 de Julho visto da Vendeia.

Para os habitantes das zonas rurais de França, os primeiros meses da revolução representaram a promessa de um mundo mais justo e de uma vida melhor. No entanto, as reformas de 1789 foram dominadas pela burguesia das grandes cidades e a revolução não resolvia os problemas da população rural. Os impostos continuavam a subir e as pessoas continuavam a passar fome. Os camponeses sentiam que a revolução nada lhes tinha trazido de bom. Em 1791, o descontentamento político aliou-se à indignação religiosa. Com o intuito de diminuir a influência da Igreja Católica sobre a população rural , o governo decretou que todos os padres deveriam jurar fidelidade à Constituição. Aqueles que se recusassem seriam expulsos das suas igrejas e proibidos de rezar a Missa. A medida foi condenada pelo Papa Pio VI e o governo revolucionário passou a ser inimigo da Igreja. Foi a gota de água, já que nas zonas rurais, a Igreja exercia um papel de assistência social essencial.
Ostentando estandartes onde se liam as palavras “Pour Dieu et le Roi” (“Por Deus e pelo Rei”), o “exército popular", somou vitórias: de março a setembro de 1793, cidades inteiras foram tomadas pela turba popular, que chegou a reunir 40 mil pessoas. No resto da França, espalhavam-se boatos sobre a contra-revolução popular, católica e realista.
Entretanto os jacobinos liderados por Robespierre instauraram uma ditadura violenta que punia sumariamente todos os acusados de deslealdade. Começava o período do terror jacobino.
Em Paris, a “navalha da República” manchou ruas e praças. Em Nantes, homens, mulheres e crianças foram afogados no rio Loire. Foi nesse clima de intolerância que o governo revolucionário decidiu enfrentar a revolta na Vendeia.“Destruam a Vendeia”, exclamou o deputado republicano Bertrand Bariére de Vieuzac. Este apelo foi levado à letra e em 1 de Agosto de 1793, o governo iniciou aquele que foi o maior extermínio da história das guerras civis com feridas que perduram na sociedade francesa até aos dias de hoje. Em setembro de 1793, o exército republicano atacou a província rebelde. A Vendeia mobilizou-se numa resistência desesperada: agora, o lema dos camponeses era “Vencer ou morrer”. No dia 17 de outubro, ao norte da cidade de Cholet, os vendeanos tentaram parar a marcha inimiga mas sem êxito. Cercados pelos regimentos republicanos, os rebeldes debandaram em massa para o rio Loire, deixando atrás de si milhares de mortos. Algumas semanas depois, os sobreviventes foram encurralados em Le Mans, do outro lado do Loire onde durante 14 horas seguidas, os dois exércitos enfrentaram-se numa das batalhas mais ferozes da guerra civil. Cerca de 10 mil vendeanos morreram – e os que conseguiram escapar foram aniquilados na vila de Savonay.
A vitória do exército republicano deu lugar ao extermínio civil liderado pelo o general Louis-Marie Turreau que levou a cabo a destruição do que restava da Vendeia. Para isso, o exército republicano foi dividido em 12 colunas (chamadas de “colunas infernais”) e encarregou-as de percorrer toda a província, incendiando casas e massacrando quem procurasse defender os seus bens. Segundo o historiador Gerard, o que acontece em 1794 já não era uma guerra, mas um projecto de extermínio total. Uma carnificina pura e simples. “Velhos, mulheres e crianças foram trucidados sem julgamento, vilas e aldeias inteiras arderam em chamas e nem mesmo os animais foram poupados". De acordo com Jean Clément-Martin, o número total de mortos, estaria entre 250 e 300 mil o que equivale a mais um terço dos habitantes da província. (texto adaptado e traduzido de José Francisco Botelho).

7 comentários:

Pedro Delgado Alves disse...

Caro Pedro,
Sem prejuízo de outros aspectos factuais e interpretativos que reputo pouco rigorosos no seu post, chamava-lhe apenas a atenção para o facto de a República ter sido proclamada em França apenas em 1792 (a 21 de Setembro para ser preciso)! Pelo meio, houve uma Assembleia Constituinte, uma Constituição Monárquica em 1791 e um governo monárquico constitucional até o cidadão Luís Capeto ter decidido iniciar uma troca de correspondência pouco patriótica com alguns dos seus familiares estrangeiros.

Já agora, a Constituição Civil do Clero o que previa era que houvesse um juramento de fidelidade à Nação, à Lei e ao Rei. Nada que, curiosamente, teria desagradado assim tanto aos defensores das tendências galicanistas geradas em França nos séculos anteriores, entre os quais se contam alguns Bourbons que antecederam o 16.º Luís.

Finalmente, sublinhava apenas que a tese do genocídio na Vendeia está mesmo muito longe de ser minimamente consensual na historiografia francesa e internacioal. Sem recusar o reconhecimento da brutalidade e violência atroz da repressão exercida na sequência da derrota monárquica (denunciada mesmo por contemporâneos insuspeitos de contra-revolucionários, como Babeuf), o rigor científico da esmagadora maioria evitam o malabarismo de números de vítimas e, particularmente, o uso indiscriminado do termo genocídio.

Anónimo disse...

Caro Pedro
Obrigado pelo seu comentário. Efectivamente a constituição civil do clero foi aprovada ainda antes da républica. Já corrigi esse ponto.
Quanto ao resto saliento apenas que no texto não é utilizado o termo genocídio.
De qualquer modo, se é verdade que não existe consenso nos números em que resultaram as atrocidades da Vendeia, (para uns 100 mil para outros 300 mil), a verdade é que foi a maior mortandade civil do mundo moderno ocorrida numa guerra civil do mundo ocidental.
PPB

alf disse...

Como não gostam de anónimos o comentário vai assinado. Vamos direito ao assunto: ou o senhor Pedro Pestana Bastos plagiou escandalosamente este texto ou deu-se na blogosfera, em blogue tão distinto como este, uma fantástica coincidência. Se não vejamos: Onde Pedro Pestana Bastos escreve «Para os habitantes das zonas rurais de França, os primeiros meses da revolução representaram a promessa de um mundo mais justo e de uma vida melhor», José Francisco Botelho da Revista Aventuras na História, no site http://historia.abril.com.br/guerra/vendeia-revolucao-revolucao-434168.shtml, escreve «Para os habitantes das zonas rurais, os primeiros meses da Revolução haviam representado a promessa de um mundo mais justo e de uma vida menos árdua.» Pestana Bastos continua: « as reformas de 1789 foram dominadas pela burguesia das grandes cidades e a revolução não resolvia os problemas da população rural» e Botelho diz «No entanto, as reformas de 1789 foram dominadas pela burguesia das grandes cidades – e quem mais lucrou com elas foram os proprietários e comerciantes urbanos. Bastos insiste na sua fulgurante prosa: «Os impostos continuavam a subir e as pessoas continuavam a passar fome. Os camponeses sentiam que a revolução nada lhes tinha trazido de bom.» MAs Botelho, por sua vez, tinha afirmado afirmado no seu artigo: “Os impostos continuavam a subir e as pessoas continuavam passando fome. Por isso, os camponeses sentiam que a Revolução os havia deixado de lado.” Pestana Bastos - cansado de vasculhar arquivos bolorentos, redigindo estas magníficas ideias à dolorosa luz das lâmpadas eléctricas da sua própria cabeça - continua: « Em 1791, o descontentamento político aliou-se à indignação religiosa (...) Aqueles que se recusassem seriam expulsos das suas igrejas e proibidos de rezar a Missa. A medida foi condenada pelo Papa Pio VI e o governo revolucionário passou a ser inimigo da Igreja. Foi a gota de água, já que nas zonas rurais, a Igreja exercia um papel de assistência social essencial.» Botelho, que não tem o rigor cronológio do nosso caríssimo plagiador, afirma: «Em 1790, o descontentamento político aliou-se à indignação religiosa. Com o intuito de diminuir a influência da Igreja Católica sobre a população, o governo decretou que todos os padres deveriam jurar fidelidade à Constituição da República. Aqueles que se recusassem seriam expulsos de suas paróquias e proibidos de rezar a missa. A medida foi condenada pelo papa Pio VI e o governo revolucionário passou a ser tachado de inimigo da religião.» Pedro Pestana Lopes, decide então brilhar arrancando das suas entranhas esta metáfora fulgurante: «Em Paris, a “navalha da República” manchou ruas e praças. Em Nantes, homens, mulheres e crianças foram afogados no rio Loire. Foi nesse clima de intolerância que o governo revolucionário decidiu enfrentar a revolta na Vendeia.“Destruam a Vendeia”, exclamou o deputado republicano Bertrand Bariére de Vieuzac. Este apelo foi levado à letra e em 1 de Agosto de 1793, o governo iniciou aquele que foi o maior extermínio da história das guerras civis com feridas que perduram na sociedade francesa até aos dias de hoje. Em setembro de 1793, o exército republicano atacou a província rebelde. A Vendeia mobilizou-se numa resistência desesperada: agora, o lema dos camponeses era “Vencer ou morrer”.
E Botelho, estranhamente, recebe dos céus a mesma inspiração metafórica: «Em Paris, a “navalha da República” (apelido dado à guilhotina) manchou ruas e praças com o sangue azul dos nobres. Em Nantes, homens, mulheres e crianças foram fuzilados ou afogados no rio Loire. Por todos os lados, o pau comeu. (...)“Destruam a Vendéia”, exclamou num enfurecido discurso diante da Convenção Nacional, o deputado republicano Bertrand Bariére de Vieuzac.(...) Em setembro de 1793, um novo exército republicano atacou com fúria a província rebelde. A Vendéia inteira mobilizou-se numa resistência desesperada: agora, o lema dos camponeses era “Vencer ou morrer”.

ISTO EXIGE NO MÍNIMO UM PEDIDO DE DESCULPAS EM POST OU ENTÂO DUAS VOLTAS EM PELOTA À ROTUNDA DO MARQUÊS

Anónimo disse...

Caro Alf

Não se preocupe.

O texto e esse mesmo. A ideia era mesmo divulgar e a linha e a mesma do Botelho. O objectivo do post foi mesmo essa adaptação do texto do Botelho e a sua traducao do brasileiro. (aqui e ali tive e limar umas arestas) Mas não se preocupe que o Botelho e pessoa amiga e gosta destas coisas.

PPB

(desculpe os e sem assento mas estou a escrever de um teclado estragado)

Anónimo disse...

Então porque não o assumiu seu biltre? Agora o plágio é mesmo para ser plágio? Se era para divulgar devia ter citado (como fazem os companheiros de blogue) em vez de se apropriar do que é alheio! Este nem historiador de wikipedia é! Vigarista! Talvez os colegas de blogue se devessem pronunciar sobre esta fraude.

Jorge Rocha

alf disse...

Agora o post ficou mais composto com essa pequena referência no final. Eu sei que é um costume bizarrro, esta coisa de citar as fontes, uma preocupação ridícula, mas mesmo assim, não deixa de ser higiénico.Quanto ao objectivo do post, o senhor lá saberá. Contudo, julgo que, se era esse o objectivo, podia ter colocado a referência logo de início. Quanto a traduzir do brasileiro, é sempre com bondade que assisto a tal erudição. Em qualquer dos casos,já calculávamos que o senhor não percebia nada de história. Agora, mesmo com referência, ficamos apenas a saber que tem um amigo, chamado Botelho, que também não prima pelos seus conhecimentos do período revolucionário, e que o senhor plagia escandalosamente, procurando depois disfarçar, sem elegância, nem humor. Como deve calcular eu não estou preocupado, o senhor é que devia estar.

grato pela atenção

Anónimo disse...

Alf
Estive uns dias fora de férias e sem acesso á net pelo que só agora lhe posso responder.
O texto do post resulta de uma adaptação, de um texto de José Francisco Botelho e o propósito foi apresentar um lado menos bom do 14 de Julho de ou das suas consequências. A Revolução Francesa teve uma importância enorme para o mundo mas nem tudo foram coisas boas, aliás como sucede por regra nas grandes revoluções que também apresentam páginas negras. A referência que está no final do post foi inserida no texto que preparei. Ou quando fiz copy/paste para o blogger ou quando o editei o texto, a última frase do post não foi editada. Aliás editei o texto duas ou três vezes para corrigir ortografia e traduções e não sei se terá sido numa dessas edições que se apagou sem querer a referência.
Não é desculpa mas efectivamente publiquei o post um bocado à pressa.
Só reparei nesse lapso quando vi o seu comentário mas como já estava em viagem só pela meia noite tive acesso ao blogger e corrigi a situação.
Foi um lapso grave que merece reparo e pedido de desculpas.
O quero deixar claro é que não tive qualquer intenção de publicar um texto que é uma clara adaptação de um texto sem efectuar tal referência.
PPB