terça-feira, 14 de Julho de 2009

Caritas in Veritate: resposta ao João Galamba

João, parece que é a minha vez, certo? Com algum atraso e muita pressa, nem por isso quero deixar de responder ao desafio.
No fundo, lá bem no fundo, o propósito dos posts do João Galamba é mostrar que o Papa Bento XVI, em particular a sua mais recente encíclica "Caritas in Veritate", realinhou politicamente a doutrina social da Igreja para terrenos mais esquerdistas. O Papa é agora um socialista (da variante democrática) e até um Keynesiano (na versão Sócrates). Depois dos desvios liberais - neoliberais? - da encíclica que João Paulo II dedicou aos temas da doutrina social da Igreja logo após a queda do comunismo soviético, Bento XVI corrige a deriva e regressa à verdade. Talvez tenha sido a crise económica que repôs algum esclarecimento nas mentes católicas, ou talvez seja mais uma das vias misteriosas do Espírito Santo que iluminou as inteligências. Não se sabe. Presumo que a resposta dependa das convicções de cada um. Mas não há dúvida de que a tese tem sido difundida. Pelo João e por outros.
Aparentemente, indícios desta reconversão não faltam. O Papa alerta para o escândalo moral e as ineficiências económicas criados pelo aumento das desigualdades; não se esquece do papel do Estado na vida económica e na redistribuição da riqueza; e recupera até a ideia de Paulo VI de que é necessário reforçar o auxílio aos países mais pobres numa referência meramente quantitativa (aumentar a percentagem do PIB dos países ricos destinada ao auxílio directo aos países pobres). Isso está no texto. Claro que a questão da desigualdade económica foi sempre tema das atenções da Igreja desde Leão XIII, que a invocação do Estado é fortemente mitigada pela invocação paralela do princípio da subsidariedade, e que Bento XVI acrescenta em termos inequívocos as responsabilidades internas dos países que eram pobres e continuam pobres.
O João julga que o Papa está mais perto do socialismo na variante democrática porque "as condições de possibilidade do mercado não podem ser entendidas sem uma ontologia social alternativa ao atomismo liberal". Que a Igreja sempre rejeitou o "atomismo liberal" ninguém pode ignorar. Mas neste debate mercado/Estado/sociedade civil houve uma outra mudança, e não da parte da Igreja. Foi o socialismo democrático que corrigiu os seus antigos delírios ao aceitar o mercado como instituição económica central, embora deficiente, numa estratégia de desenvolvimento. É uma inovação dos últimos 25 anos. Convém não esquecer. A Igreja já lá estava quando o socialismo democrático ainda não tinha chegado.
De resto, o que a Igreja diz sobre o mercado pode ser ofensivo para liberalismos como o de Ayn Rand, Robert Nozick, Milton Friedman, Joseph Schumpeter; mas é certamente compatível com outros liberalismos a que se tem associado o prefixo "neo". Liberalismos que nunca falaram do mercado em abstracto, desligado das "configurações culturais concretas" (cito o Papa de memória) da sociedade.
E, por outro lado, o que o Papa diz da justiça social e da solidariedade não deixa grandes sorrisos triunfantes em lábios canhotos. É que a caridade separada da verdade tende para o mero sentimentalismo; os mecanismos públicos de redistribuição de riqueza, mesmo quando auxíliam efectivamente as situações de carência, quando desligados da caridade, suprem uma necessidade para logo criar outra, no domínio espiritual. Se a Igreja critica a apologia do mercado que omite o enquadramento ético e a ontologia social que o João menciona, não é menos verdade que critica o Estado-social, e as intervenções do Estado em nome de uma ideia de sociedade justa, quando impede a Igreja de desempenhar plena e livremente o seu papel de voz no espaço público, e, sobretudo, quando esquece a necessidade de uma cultura pública de vivência de valores éticos absolutamente inegociáveis. Daí as linhas dedicadas à família, e às novas propostas de casamentos, ao aborto, à eutanásia, e também (em parte) a menção ao tema da tecnologia e da bioética. Um exemplo não relacionado directamente com a questão do mercado é dado pela referência na encíclica aos problemas ambientais. O Papa é um ambientalista? Sim, mas um ambientalista integral, que não descuida, antes coloca em primeiro lugar, a ecologia humana. E voltamos uma vez mais ao aborto, à família, etc., etc.
Notei, com agrado, as várias referências na encíclica à responsabilidade (sobre cujo tema já aqui escrevi, mas num contexto diferente), porque não há sociedade justa na caridade sem o envolvimento pessoal e espiritual nas tarefas de auxílio aos mais pobres e mais desfavorecidos. Esta parte da caridade na verdade incomoda o João. Mas não o incomoda ao ponto de fazer perceber que este detalhe que ele, o João, amputa ao resto, é a estrela e a bússola de todo o texto.
A Igreja naturalmente saudaria uma sociedade sem sofrimento, nem desigualdades. Mas, se essa sociedade para o ser tivesse de pagar o preço da total desespiritualização, ou da aceitação plena de uma concepção materialista da vida, a Igreja, ao contrário dos socialismos, recusar-se-ia a ver a nova situação como sinal de grande progresso. Porque o que importa ao Papa é o "desenvolvimento integral do homem". Pois é: integral.
Em matéria de doutrina social, já há muito que dizem que a posição da Igreja relativamente às esquerdas (democráticas) e direitas (democráticas) - de não estar entre ambas, nem com uma das duas, mas acima das duas - é demasiado cómoda e politicamente pouco interessante. Porém, como as frequentes referências de Bento XVI a S. Agostinho ajudam a perceber, a relação da Igreja com a política tem de se caracterizar por uma certa distância. O problema é que a distância não pode ser grande porque é dever da Igreja contribuir para uma sociedade que prefigure a Cidade de Deus. O equilíbrio é tramado. E a sua determinação será sempre avaliada por critérios puramente políticos. Mesmo quando isso não faz assim tanto sentido. Quando a encíclica "Centesimus Annus" foi publicada, constatei que alguns sectores liberais tentavam apropriar-se indevidamente da sua mensagem. Agora é o outro lado da opinião que investe no mesmo desígnio. Nada de novo, portanto.

9 comentários:

Stran disse...

Honestamente a coisa pior que posso ver é a Igreja misturada com a politica, quer seja de direita quer seja de esquerda!

Pedro Picoito disse...

nada de novo, realmente. muito bom.

K2ou3 disse...

Xi Patrão.
Esta porra vai acabar mal.
Com que então. Sexa Papa,quer dar lições?

K2ou3 disse...

E nGambas á mesa.

Anónimo disse...

Ver a esquerda a procurar encontrar no Papa e na Igreja Católica um aliado é um bocadinho patético.
A esquerda, nomeadamente a da variante dia socialista democrática, tem parecido, nos últimos 20 anos, um pêndulo. Mudam de ideias e valores à medida do ar do tempo. Se os deixam, ainda vão querer celebrar missa.
Mas atenção, porque eles gostam de uma igreja "self-service". Só querem comer do que gostam. Porque do resto fogem como o diabo da cruz. Salvo seja. Ou literalmente?

Pedro disse...

Miguel,

o seu post é perfeitamente despropositado e totalmente impróprio de um blog.

Você parece que leu a Encíclica e, o que é pior, pensou sobre o que estava lá escrito e procurou enquadrar devidamente as ideias do Papa.

Faz favor de, no futuro, se comportar como um verdadeiro bloguista e cagar de alto a sua opinião sobre algo vagamente parecido com o que o jornalista da página de religião do Público bitatou sobre o que alguma teóloga alemã contrapôs ao que julgou que o Papa disse.

Parece impossível...

Jorge disse...

Miguel, parabéns pelo post.

Paulo Marcelo disse...

Excelente texto Miguel.

Margarida disse...

Olá!

Existem algumas coisas que nao compreendemos facilmente ou à primeira...

Com alguma calma e reflexão talvez pudesses compreender que esta é uma mensagem de Vida e de respeito entre os povos!

quer seja de esquerda, direita, acima, abaixo hehee

Força!

beijo
Margarida