Há cerca de quatro horas e meia iniciou-se em Valência, no estádio Mestalla, a final da taça do rei em futebol. Pouco depois da entrada no estádio os reis de Espanha, D. Juan Carlos e Da. Sofia, entoou-se o hino espanhol já com as equipas perfiladas no relvado. Os "aficcionados" do Atlético de Bilbau e do Barcelona que enchiam Mestalla receberam os reis e o hino com apupos e assobiadelas ensurdecedoras. O que é fez a TVE que transmitia em directo o jogo? Passou rapidamente a emissão para o "exterior", uma vez que os protestos estavam anunciados. Depois, no intervalo do jogo, emitiu, em diferido, o hino de Espanha, mas fê-lo em versão censurada onde não se ouviam os gritos, os assobios e os insultos com que grande parte do público cobria de ridículo o hino e a família real.As conclusões a retirar de tudo isto são pelo menos três. Em primeiro lugar, dois dos maiores símbolos de do Estado espanhol foram humilhados e desrespeitados por dezenas de milhar de bascos e de catalães como não se via há muitos anos. Em segundo lugar, vale a pena perguntar para que serve e até onde poderá ir o esforço ridículo de Zapatero, já com meia década de Governo, para apaziguar nacionalismos que não querem nem podem ser apaziguados. Em terceiro lugar, a televisão do "Estado central" não se importa de fazer, como e quando tiver que ser, o papel de idiota útil ao serviço de um Governo e de um modelo de Estado e de sociedade que conhecem a maior crise política e económica desde a transição democrática.
P.S.: Notícias, som e/ou vídeo aqui, aqui e aqui.
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14 comentários:
E falta uma conclusão. A veemência com que os castelhanos exaltam Espanha é a mesma com que censuram os separatismos o que por si só diz muito sobre a autenticidade dessa percepção de união. Aquela glorificação de Espanha em que os castelhanos são pródigos tem uma grande dose de voluntarismo para outra bem menor de constatação.
E a TVE encarregou-se de o demonstrar ao trazer para a Madrid de 2009, um bocadinho do que ela era antes de 1975.
A pouco e pouco lá nos vamos chegando a 34...
História muito edificante e gira.
Pergunto: que modelo alternativo é que o Fernando Martins propõe (se é que propõe algum) ao modelo apaziguador de Zapatero, o qual, todos o reconhecemos, falha?
Luís Lavoura
A separação sem dramas tal como os Checos e os Eslovacos?
lucklucky
Caro Luís Lavoura,
Não tenho nem tenho que ter solução para a questão nacional espanhola. Se tivesse nacionalizava-me espanhol e candidatava-me ao cargo. Mas uma coisa eu sei, e o Luís Lavoura também sabe. Zapatero prometeu o céu com as suas políticas de apaziguamento dos nacionalismos, mas desgraçadamente as soluções de Zapatero falharam e a Espanha caminha a passos largos para o inferno. Não ver isto é não ver nada! Se me permite, está claro.
Caro Diogo,
Quanto ao nacionalismo espanhol/castelhano teríamos que ficar aqui a conversar durante muito tempo. De qualquer modo, talvez valha a pena recordar que muitos espanhóis - certamente uma boa maioria de espanhóis - reconhece e orgulha-se de ter uma dupla identidade nacional: a espanhola e a outra. Nesse sentido, são tanto vítimas como agentes do nacionalismo castelhano/espanhol.
Fernando,
Bem te vi hoje ao longe:)
Vi esta mensagem no Facebook do director do Público:
Jose Manuel Fernandes O caso do hino gravado na final da Taça do Rei: CORRECTED - Spain TV sports chief sacked after anthem booed
Apaziguar os nacionalismos é cortar os grossos financiamentos às autonomias que só servem para dar tachos e replicar cargos que já existem. As autonomias não servem para desenvolver as regiões mas apenas para chantagear o Estado e sustentar incompetência e corrupção. Chega-se ao ridículo de haver proteccionismo dentro da Espanha. Basta ver a situação dramática que vive a Andaluzia, governada desde sempre pelo PSOE (Chaves fugiu para Madrid), com 30% de desempregados.
Acabar com estas duplicações permitiria ao orçamento um alívio de 30%.
Zapatero "é pouco inteligente"
Não tenho dúvidas de que a maioria dos espanhóis partilha essa espécie de dupla identidade: com o país e com a respectiva comunidade. Mas isso não retira o que afirmei. Há, na concepção da Espanha una veiculada pelos meios de comunicação de Madrid, grandes doses de voluntarismo. A necessidade de exaltar essa ideia, ou, como neste caso, de censurar os seus críticos, denota, desde logo, convicções ténues quanto à cristalização daquela.
E arrisco dizer o seguinte: os espanhois mais fervorosos pela integração da Catalunha e do País Vasco têm, dos catalães e dos vascos, uma má imagem. Imagino que conheça o carácter, diria, visceral, dos nossos vizinhos e que torna comum referências como "putos catalanes" ou "putos vascos" por parte de quem não os concebe fora de Espanha. Ou seja, de uma forma geral, não gostam deles mas não lhes admitem que questionem a pertença. Como alguém dizia há algum tempo a propósito da posição espanhola sobre a questão do Kosovo, dá impressão que Espanha é uma união unilateral.
A Espanha é uma imposição unilateral? Não me parece. A Constituição foi referendada e amplamente apoiada. Finalmente, pormenor muito importante, a Espanha é uma democracia.
A concepção castelhanocêntrica mudou completamente depois do franquismo, atribuiu-se autonomia administrativa e praticamente converteu-se a Catalunha e o País Vasco em estados federais. Duvido que na hora da verdade optassem mesmo por ser independentes; há mas é uma espécie de vingança pelos anos de Franco, em situações, por exemplo, em que falar o castelhano é quase proibido. O que me espanta são os tais "desejos independentistas" de alguns, que não se verificavam na II república, e que agora, com mais autonomia de sempre desde o tempo dos Fueros, vÊm à tona.
Teria também a sua piada separá-los de Castela com base antigos estados: ficariam os catalães na dependÊncia de Aragão e os bascos teriam a sua capital em Pamplona.
No meio disto tudo, só tenho pena que o Athletic tenha perdido.
"Finalmente, pormenor muito importante, a Espanha é uma democracia."
E o Reino Unido não o é, também?
Caro Fernando Martins, eu disse "dá impressão que é uma uniao unilateral", ou seja, "parece que é uma união unilateral" e não "é uma imposição unilateral". Disse-o, aliás, na sequência do que tinha afirmado anteriormente.
Faça-me a justiça de me reconhecer capacidades mentais, pelo menos, similares às suas, porque efectivamente, não é preciso ser muito expedito para constatar que Espanha é um estado caucionado pela maioria e democrático. Não pus isso em causa. Aliás, no meu segundo comentário, comecei por dar razão ao Fernando.
Eu referi-me, e repito, à necessidade de exaltação da ideia de Espanha que, a meu ver, decorre mais dum desejo dos castelhanos - cujo ideal é o da Espanha como uma Castela alargada e não o da Espanha regional - do que duma convicção profunda (de outra forma, ignoravam o assunto e ecusavam-se a tristes figuras como esta da TVE).
E num segundo momento, disse que esse fantasma da desintegração dissimulado por uma retórica vigorosa pela unidade do país é fruto, em grande medida, das suspeitas que geram nos castelhanos as tensões pouco amigáveis que mantêm com os vascos e aos catalães. Como lhe digo, não gostam deles, retratam-nos pessimamente (são uns "jetas", como se ouve em Madrid ou na Andaluzia), mas nem assim admitem que eles possam ser outra coisa que não seus concidadãos.
Caro Diogo,
Como imaginará, não pretendia ofendê-lo.
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