Quarta-feira, 31 de Dezembro de 2008

Das duas, uma

Os que por aí vão insistindo (como, ontem, um cavalheiro exaltado numa conferência de imprensa no sossego de Lisboa) em falar dum "outro Holocausto" infligido pelas forças armadas israelitas aos habitantes de Gaza e aos "Palestinianos" em geral, ou são ignorantes ou são praticantes de uma má fé dificilmente qualificável.

O que está acontecendo em Gaza é, realmente, uma miséria. Que me parece, em grande medida, "inevitável" - ainda que hesite em dizê-lo assim (as aspas não salvam tudo), com esta facilidade "verbal" (julgo saber que estas palavrinhas -dum tipo com a casa de pé e que, em princípio, tem-se a si e aos seus como seguros, isto é, vivos, nas próximas horas e amanhã- estão a anos-luz do que lá se passará e, se tentarmos ser honestos, há que reconhecer que o verbo não sangra e não dói como os corpos atingidos: o nosso e o dos outros). Não deixa de ser verdade que há algo de atroz em tudo aquilo: de facto, uma criança palestiniana não tem culpa pelo Hamas. Mas isso, precisamente isso, não deveria fazer pensar apenas os que tomam partido por Israel. Também os outros, tantas vezes aliados objectivos (senão cúmplices) do terrorismo palestiniano, deviam, por entre o clamor indignado de sofá, pensar um pouco nisso. Pensar qual o sentido do Hamas (e outros) transformarem as crianças palestinianas em alvos do Tzahal.

Ainda assim (e reconheço que este advérbio é enorme), falar aqui em "Holocausto" é, repito, ignorância ou má fé. Ignorância, se, quem diz isso, não tem conhecimento do que foi o "Holocausto" (talvez mais apropriadamente, Shoah...). As vítimas indefesas e inofensivas. As vítimas objectivamente vítimas, por terem nascido. A motivação, o planeamento, os meios, os métodos, o objectivo. O objectivo definitivo.
Contudo, o problema de muito boa gente é, na verdade, a má fé. Sabem muito bem o que foi o "Holocausto" e sabem muito bem que não é aplicável aqui. E têm plena consciência da ironia obscena que é acusar Israel disso. Mas fazem-no. Porque sacrificaram a sua honestidade às suas opções "ideológicas". Já decidiram antecipadamente que Israel, faça o que fizer, está errado ou que, pura e simplesmente, não deve existir como país. Tudo o resto são meios "retóricos" e manipuláveis, já sem qualquer densidade "moral", sujeitos ao serviço daquele "fim".

Terça-feira, 30 de Dezembro de 2008

Deve ser a isto que chamam neoliberalismo...


Quo Vadis Açores?

Que o "avanço" das autonomias, e em particular a dos Açores, vão alterar a natureza e a forma do Estado português ninguém duvide. Por isso, o novo estatuto autonómico dos Açores é apenas mais um passo em direcção, senão à independência, pelo menos à condição de estado associado da República Portuguesa.

Do lado do continente, e para já, é melhor começar a pensar em reduzir as transferências financeiras para os Açores. É que se os açorianos querem mais poder - e querem-no sem discussão política séria entre todos os portugueses -, melhor será começar a fechar a torneira do financiamento à região autónoma dos Açores. Frontalmente e com discussão entre todos os portugueses, particularmente os dos distritos do interior do território continental. Precisamos do nosso dinheiro para resolver os nossos problemas. E se os açorianos quiserem a independência, que a Constituição proíbe, que lhes seja dada à revelia da Constituição (que pelos vistos é irrelevante para grande parte dos portugueses). Digo isto porque, afinal, o arquipélago de Cabo Verde é independente há mais de trinta anos e não só não se tem dado mal com a situação, como Portugal também não.

Prémio Nobel da Ciência Política 2008

O Cachimbo de Magritte galardoa Jürgen Habermas com o Prémio Nobel da Ciência Política 2008. No próximo ano, Habermas completará 80 anos, e aguarda-se a publicação na Alemanha (e também em Portugal) de cinco volumes de obras escolhidas pelo próprio autor.
Os protestos e as manifestações de escândalo podem agora seguir para a caixa de comentários.

Nós e a Constituição (2)

Na caixa de comentários anterior, um leitor anónimo coloca a pergunta que muitos colocam: por que é que o PR não suscitou imediatamente a inconstitucionalidade do artigo assim que o viu? Por que é que houve "tanto teatro", pergunta o nosso honesto anónimo, que aparentemente gosta de coisas sérias, directas, sem "teatro"? Não estou dentro da cabeça do PR, por isso não posso responder com a certeza que o anónimo exige. Mas parece-me que as encenações e o "teatro" em política são muito importantes quando servem determinados propósitos. E que propósito foi servido pelas intervenções do PR que o nosso sóbrio anónimo identifica com "tanto teatro"? Eu diria que o PR considerou - e com razão - o assunto tão grave que quis marcar uma posição para memória futura. Cavaco Silva quis dizer algo como isto: "a minha oposição a este estatuto é política e de princípio, e não me vou esconder atrás do Tribunal Constitucional. Eu, o PR, quero ser o rosto da oposição a este atropelo da constituição. Mesmo que, no final do processo, seja forçado a promulgar o diploma".

Segunda-feira, 29 de Dezembro de 2008

Nós e a Constituição

Estou à espera dos engraçadinhos do costume que gostam de dizer que estes são "assuntos que não interessam à vida das pessoas". Ainda não apareceram. Os assuntos, entenda-se, é a constituição da República. Coisita pouca.

Domingo, 28 de Dezembro de 2008

A propósito da morte do Deep Throat

O caso Watergate é apresentado como um exemplo de jornalismo de investigação: dois jornalistas novos, com o apoio de um editor competente denunciam um conjunto de actividades que provocam a queda do presidente dos EUA, e nunca revelam qual a sua fonte. A ideia que existe é que o objectivo, tanto do jornal como da fonte, era que fosse feita justiça.
Ora bem, tudo isto é verdade, mas, a propósito da morte de Mark Felt, o Deep Throat do caso Watergate, George Friedman faz ver que a história só foi contada a meias, e que só foi possível percebê-la quando se soube que Felt era a fonte.
Felt era o terceiro da hierarquia no FBI, nos tempos de Hoover (aquele que tinha um enorme poder sobre Washington, porque conhecia os podres da cidade). E quando Hoover morreu e o seu lugar-tenente saiu do FBI, Felt pensou que o lugar seria seu. Mas Nixon nomeou L. P. Grey director, um estranho à casa, para controlar melhor o Bureau. Mas Grey não conhecia o FBI, e por isso era Felt quem mandava. O FBI continuou com as práticas de Hoover, como se constata no Watergate: a espionagem à Casa Branca durou enquanto foi preciso para deitar abaixo o Presidente.
A revelação de que Felt foi o Deep Throat mostra que o episódio lhe permitiu vingar-se do Presidente, mesmo que a sua primeira intenção fosse a justiça. Mas também mostra que, como o editor do The Washington Post sabia quem era a fonte, sabia que estava a ser manipulado. A protecção do anonimato da fonte levou a que não fossem os jornalistas a controlar o processo, no fundo, a que toda a investigação ao Watergate fosse uma manipulação. E levou a que uma notícia tão importante quanto informar que o FBI espiava a Presidência nunca fosse dada.
O problema das “fugas de informação” programadas é actualíssimo. Os governos e as empresas utilizam-nas, as agências de comunicação trabalham com elas e os jornalistas também. O que é preocupante é pensar que, para se conhecer um facto relevante, vários outros nunca venham a ser sabidos.

Sábado, 27 de Dezembro de 2008

The Mamas & The Papas

Ainda a respeito do episódio de plástico que sobressalta a pátria, ouviu-se ontem por aí um excitado criaturo duma Associação qualquer de progenitores do Porto ou arredores. (Dizem que, nos tempos que correm, começa a haver poucos progenitores - talvez, mas pais, como se vê, ainda os há menos.) Diz o homem que a coisa terá sido encomendada [sic!] e revolta-se por ter sido filmada e mostrada. Note-se que, segundo o cavalheiro, constitui problema maior ter sido mostrado do que ter acontecido. Pois é, para que há-de o público saber daquilo? Ver aquelas coisas incómodas? Ainda vão as pessoas pensar que há conflitos disciplinares nas salas de aula. O que vem perturbar o remanso da pax socratica. Agita-se o sujo lodo discretamente depositado no fundo. Como se já não bastasse o mau feitio en masse da professorada, ainda exibem aquelas porcarias para desinquietar os lares, as famílias e tal. E aquele Nogueira teve o descaramento de comentar o caso e, até (rasguem as vestes) sugeriu uma qualquer punição não exagerada. Ao que isto chegou! Estamos no PREC ou quê? queixa-se o homem assustado. As crianças já não podem brincar? Qual é o mal, se a pistola era de plástico?
Só estaríamos perante um problema se a arma fosse real. Foi apenas uma simulação, caramba. Como será, por exemplo, amanhã, simularem estrangular uma professora? Sem mãos de plástico. Que não apertarão realmente, claro. Tudo a brincar. Ou coisas piores. Mas, desde que seja a brincar, não haverá qualquer problema.
Ainda mais curioso foi o facto do tal representante se ter atrevido a dizer que, para o caso, 'uma repreensão é mais do que suficiente'. O sinal dado pelo progenitor mitómano (e também pela directora da DREN) é simples: crianças de 17/18 anos, não se preocupem, sejam energúmenos à discrição, que nós cá estamos para vos cobrir; não temam os professores e os orgãos escolares, porque nós estamos vigilantes.

Estas reacções delirantes são reveladoras e são fruto da campanha constante de achincalhamento dos professores a que este governo se tem entregue desavergonhadamente. Ora é o 'perdi os professores, mas ganhei os pais', o 'antes de um aluno abandonar a escola, já foi abandonado pelo professor', de Lurdes Rodrigues, a acusação de chantagistas(!) aos 120 000 manifestantes, ora é a insinuação (ou insulto descarado) recorrente de que os professores estão habituados a trabalhar pouco, ora o próprio Sócrates berrando irritado, por lhe terem perturbado o estendal da propaganda dos andaimes nas escolas, que 'o tempo da facilidade acabou!', quando interrogado sobre as não-colocações de docentes, etc. Tudo isto e as próprias medidas hostis deste governo misólogo concorreram para uma aceleração da erosão da autoridade natural e até do simples papel do professor na Escola.
Por outro lado, ao mesmo tempo, foi-se alimentando esta hipertrofia da pretensa legitimidade dos "pais" (independentemente de putativas competências pedagógicas ou científicas), bem para lá do aceitável, em se imiscuirem em questões que só à escola dizem respeito e que só por ela podem e devem ser competentemente tratadas. Tudo isto constitui e contribui para uma (ainda maior) degradação da Escola.
E já cansa esta solicitude rastejante de algumas associações de "pais" em relação ao governo... Pobre gente (Sócrates e equipa de Lurdes Rodrigues incluidos) que vê tudo isto como uma espécie de jogo de poderes ou de conquista de territórios: trata-se da ideia peregrina de que há que retirar "poderes" aos professores na Escola, porque eles o têm "a mais" e são um "obstáculo" às "mudanças necessárias" e outras parvoíces desse género. Perdem assim de vista aquilo para que existe a Escola.
Bem, straight shooter, if you know what I mean...

Striking back duck

Por causa disto, nas próximas horas, nos próximos dias, vamos todos ouvir a litania da "reacção desproporcionada" de Israel. Como se sabe, as reacções de Israel são sempre, sempre "desproporcionadas". Espera-se, certamente, que os Israelitas respondam com fisgas. Ou com beijinhos, talvez.
Toda a gente parece querer que Israel seja um sitting duck. Um alvo tranquilo. Ninguém parece querer lembrar-se dos ataques permanentes que o sul do país vem sofrendo há anos. As populações da zona de Sderot são constantemente bombardeadas com foguetes qassam e mísseis. São lançados para cima das casas das pessoas de qualquer maneira - o que importa é que lhes acertem. (Espreite-se este quotidiano.) Lembro-me dum caso em que houve mais cuidado com a pontaria. Foi quando os "activistas" de Gaza se lembraram de comemorar a abertura do ano escolar 2007 de Israel lançando qassam para cima de escolas primárias no primeiro dia de aulas. Os valentes rapazes do Hamas sempre a pensar no futuro.
É verdade que tem havido muito menos mortos do que hoje (que, tudo indica, não são civis desarmados), mas, que eu saiba, um "lado" não tem mais "razão" por contar com mais cadáveres nas suas fileiras - para mais quando esses cadáveres são descaradamente usados pela propaganda. Seja como for, a situação era insustentável. Quantos países a suportariam por tanto tempo? E temos exemplos históricos eloquentes da doçura proporcional com que, aqui, na Europa, se dão respostas militares... mesmo não estando em causa a sobrevivência do país...
Israel deveria, talvez, escancarar os seus postos de controlo, retirar a barreira de segurança (o "muro") e deixar matar os seus cidadãos às dúzias de cada vez - em festas de família, pizzarias, discotecas ou, simplesmente, na rua. Esperar que todos se comovessem (esperança vã, tratando-se de Israelitas, com a culpa já inscrita) e então, talvez fossem autorizados a defender-se. Mas devagar.
O que irrita é que eles insistam em não se deixar matar mansamente. Como até 1948.

Prémio Nobel da Ciência Política (4)

Depois da triste notícia da morte de Samuel Huntington deixada aqui pelo André, actualizamos a lista dos nossos candidatos ao Prémio Nobel da Ciência Política 2008:

- Robert Dahl
- Jürgen Habermas
- Harvey Mansfield
- Quentin Skinner

Registo apenas que a inclusão do nome de Huntington nesta última lista de candidatos finalistas foi muito criticada pelos nossos leitores e por alguns membros do Cachimbo (sim, tu, André). Daí eu notar com agrado algumas das passagens do texto lincado: "People all over the world studied and debated his ideas. I believe that he was clearly one of the most influential political scientists of the last 50 years." "Every one of his books had an impact." "These have all become part of our vocabulary"; "one of the giants of political science worldwide during the past half century".

Sexta-feira, 26 de Dezembro de 2008

Huntington

Chegou a conquistar o Nobel do Cachimbo?

Ausharren

Não é uma palavra muito natalícia, mas é a palavra do momento actual.

Traduzindo


Na véspera e no Dia de Natal (e hoje deve continuar a saga) lá fomos sendo massacrados nos Telejornais com a história edificante dos alunos que, em pleno decurso da aula, apontam uma pistola de plástico à cabeça de carne e osso da professora. Tudo a brincar, claro. Para ilustração dos indígenas, a coisa foi devidamente filmada pelo telemóvel de serviço. Imagino que, a esta hora, já devem ter sido convidados os "especialistas" do costume para se "pronunciarem" e "analisarem" o curioso fenómeno.
Giras, giras são as "reflexões" sobre a maravilhosa interacção já publicitadas pela famosa funcionária política Margarida Moreira, por coincidência directora regional de Educação do Norte. Lembram-se dela? Aquela zelosa directora que acarinhou a delação em forma de filho da puta do professor Charrua. Que tem uma comovente predilecção pelas tautologias reverenciais ao 'sr. primeiro-ministro de Portugal'. Que defende que os alunos 'têm direito ao sucesso' [sic] e que sugeriu, com gosto, que devessem ser purgados os professores correctores demasiado exigentes. (O que será um professor demasiado exigente?). Mas que disse desta vez a manifesta directora?
Que se tratou somente de 'uma brincadeira de mau gosto que excedeu os limites do bom senso' - 'não foi mais do que isso'. Certamente por subidas razões de justiça, a senhora esclarece a pátria que 'o grupo de alunos em causa teve, no passado, um percurso marcado pelo insucesso e abandono escolar, tendo depois sido integrado no ensino tecnológico, num curso de Desporto.' E 'garante [imagino que com as mãos juntas] que estes estudantes estão agora a ter sucesso nas aulas, tendo poucas negativas e poucos problemas disciplinares'. O que é extraordinário e muito, muito meritório, depreende-se. Mas a melhor parte vem depois: 'Não gostaria de todo que um momento de mau gosto e insensatez, que todos podemos ter tido aos 17/18 anos, acabe por marcar um percurso que já é e quero que continue a ser feito de sucesso'. Perceberam a subtileza da coisa? Para mais, avisa ela, a DREN irá acompanhar (com o tipo de zelo que já se adivinha...) o inquérito feito pela escola aos brincalhões de poucas [sic] negativas e poucos [sic] problemas disciplinares. Margarida Moreira lá saberá o que andou a fazer aos 17/18 anos - eu, que não era particularmente doce com os professores que me desagradavam, não me lembro de lhes andar a apontar armas de plástico brincando às intimidações.
Traduzindo a senhora:

Deixem-se de tretas! Trata-se de uma brincadeira inocente de crianças de 18 anos. Mas qual é o problema de, dentro da sala de aula, um conjunto de encapuzados rodearem a professora e lhe apontarem uma pistola de plástico à cabeça exigindo notas altas? Até é engraçado. E aquelas crianças estão a ter sucesso: poucas negativas e poucos problemas disciplinares - não vamos agora estragar tudo com a vossa falta de sentido de humor! Façam de conta que não se passou nada, finjam um bocadinho (mas não exagerem!) que ainda são professores e que isso é uma escola e repreendam-nos (mas sem os magoar). E não esqueçam que estou atenta ao vosso comportamento.

A reacção de Margarida Moreira a este episódio ridículo mostra bem o que vai na cabeça das criaturas que gerem a Educação. Reparem como neste caso exemplar a escola do Cerco é intimidada pelo longo braço da 5 de Outubro - que termina na mãozinha ameaçadora da responsável da DREN. Esta gente vê as escolas como autênticos caixotes de lixo. E não, não sou eu que estou a chamar lixo aos alunos. São estas "orientações" que tratam os alunos como lixo. Ao lixo não se pede responsabilidade. O lixo não se pune, porque ele não nos merece respeito. O lixo pode continuar a ser o que é, porque não merece que o ajudem a deixar de ser lixo. E as escolas devem limitar-se a conter o lixo e fazer todos os esforços para que ele não transborde. Devem ignorar o mau cheiro. E, primeiro que tudo, devem fingir, mascarar o lixo de outra coisa. Numa palavra, as escolas são industriadas em enganar os alunos.
Mas, vá, patriotas, força, continuem a massacrar os professores com a "avaliação". Isso é que importa. Pô-los a trabalhar e tal. É essa que irá mudar tudo. É ela que vai salvar a Escola.
Pois.

O Mundial de Futebol de 2018

Ao que tudo indica Portugal e Espanha irão apresentar uma “candidatura conjunta” à organização do Campeonato Mundial de Futebol que se realizará em 2018. Tal como sucedeu algures em finais do século XX, há por aí um influente coro luso que apoia a realização do evento pelos dois países. O dito coro tem como maior argumento a favor das suas posições o facto de Portugal possuir já vários estádios, legados pelo “Euro 2004”, capazes de albergarem aquele evento FIFA. No entanto, em primeiro lugar, e como é fácil perceber, a organização conjunta do Mundial de 2018 nunca será tão barata como se pensa (será preciso investir muito em estádios que em 2018 terão pelo menos 14 anos e, por outro lado, construir infra-estruturas de transporte e de telecomunicações que uniformizem ainda mais o espaço ibérico – a começar pelo TGV entre o Porto, Lisboa, Madrid e, talvez, Algarve –, ou que garantam um melhor e mais seguro acesso por avião à capital portuguesa – estou a pensar na construção do novo aeroporto internacional de Lisboa).
Em segundo lugar, uma organização ibérica do evento não é mais do que um enorme erro político e desportivo. Erro desportivo porque a degradação irreversível da qualidade do futebol português tornará risível, quanto a resultados, a participação lusa num Mundial a realizar dentro de seis anos. Erro político, porque dificilmente a Espanha deixará que internacionalmente Portugal apareça numa posição que não seja a de desigualdade e, portanto, de submissão, ao mesmo tempo que tentará usar Portugal, a sua pequenez e o seu atraso, para produzir um upgrade político de regiões espanholas como a Catalunha, as duas Castelas, Valência e o País Basco.
Mas se não deixa de ser curioso que duas das dez mais endividadas economias do mundo queiram realizar um Mundial de Futebol, não queria perder esta oportunidade para deixar aqui uma proposta que embora mantendo, e até agravando, todos os handicaps financeiros e desportivos de um evento com a natureza de uma competição FIFA de primeiríssima linha, terá ao menos, política e diplomaticamente, uma dimensão profundamente útil e até (vagamente) meritória. Trata-se, nada mais, nada menos, de uma proposta de realização conjunta do Mundial de Futebol de 2018 por Portugal e por Marrocos. Seria a primeira vez que países vizinhos, mas de continentes distintos, se propunham realizar um Mundial. Por outro lado, e tratando-se de Marrocos e Portugal, certamente que este tipo de iniciativa, com o subsequente desenvolvimento e aprofundamento da cooperação bilateral, traria vantagens políticas tanto para os protagonistas como para os blocos políticos e económicos em que os dois países se integram. Quem não gostaria nada da ideia, claro está, seriam os espanhóis, que certamente tentariam boicotar na FIFA esta iniciativa. Porém, mesmo que não se concretizasse, e como dizia o outro, política e diplomaticamente a aposta estaria sempre ganha.

Ahmadinejad na TV

Os responsáveis do dito canal de televisão, aliás público, defenderam a sua iniciativa evocando um valor intocável como é, ou será, a liberdade de expressão e o facto de Ahmadinejad ser portador de uma mensagem de Natal verdadeiramente “alternativa.” Sendo certo que Ahmadinejad tem todo o direito de ser convidado para falar numa estação de televisão britânica e de aceitar tal convite, verdade também é que, para além de muitos outros considerandos, devemos ser sobretudo suficientemente lúcidos para perceber que o objectivo dos responsáveis do Channel 4 não foi defender a liberdade de expressão ou a relevância pública de uma mensagem de Natal verdadeiramente alternativa. O que os moveu foi a vontade de chocar, de provocar e, com isso, de conseguirem uma assinalável subida de audiências daquele canal de televisão, além da conquista de uma maior notoriedade interna e internacional. Quanto à evolução das audiências cabe perguntar se os britânicos farão a vontade aos responsáveis do Channel 4.

Quarta-feira, 24 de Dezembro de 2008

O melhor romance do ano


Este foi um ano particularmente bom para o romance em inglês. Atmospheric Disturbances da minha amiga Rivka Galchen é o melhor primeiro romance do ano. Sea of Poppies de Amitav Ghosh é uma bela e inesquecível história. Netherland de Joseph O´Neill é um livro quase perfeito: um controlo magistral da linguagem e da narrativa, um realismo psicológico que nos reconcilia com os poderes da literatura, uma evocação generosa dos sonhos e da tristeza com que vivemos na primeira década do milénio.

Terça-feira, 23 de Dezembro de 2008

Nascer

Enganam-se os que pensam que só nascemos uma vez.
Para quem quiser ver a vida está cheia de nascimentos.
Nascemos muitas vezes ao longo da infância
quando os olhos se abrem em espanto e alegria.
Nascemos nas viagens sem mapa que a juventude arrisca.
Nascemos na sementeira da vida adulta,
entre invernos e primaveras maturando
a misteriosa transformação que coloca na haste a flor
e dentro da flor o perfume do fruto.
Nascemos muitas vezes naquela idade
onde os trabalhos não cessam, mas reconciliam-se
com laços interiores e caminhos adiados.
Enganam-se os que pensam que só nascemos uma vez.
Nascemos quando nos descobrimos amados e capazes de amar.
Nascemos no entusiasmo do riso
e na noite de algumas lágrimas.
Nascemos na prece e no dom.
Nascemos no perdão e no confronto.
Nascemos em silêncio ou iluminados por uma palavra.
Nascemos na tarefa e na partilha.
Nascemos nos gestos ou para lá dos gestos.
Nascemos dentro de nós e no coração de Deus.
O que Jesus nos diz é: "Também tu podes nascer",
pois nós nascemos, nascemos, nascemos.

José Tolentino Mendonça

Da série "Cachimbos de Lá"


Norman Rockwell, Santa Claus Reading His Mail (1935)

A Entrevista

A entrevista de Fernando Ulrich ao Público, embora em tom bem mais circunspecto, está naquilo que diz, e até num ou noutro silêncio a propósito da compra de acções do BPI ao BCP por Isabel dos Santos ou da forma como a CGD funciona, ao nível do que Medina Carreira não se tem cansado de repetir há vários anos ou que Manuela Ferreira Leite insiste em tornar no cerne da sua mensagem política. Ou seja, Portugal está endividado até ao limite do razoável; a opção por executar inúmeras e grandes obras públicas é um erro económico e financeiro de enormes e trágicas proporções; a CGD é, entre outras coisas pouco dignas e extremamente preocupantes, gerida de acordo com os interesses políticos do Governo e do PS (Ulrich chama-lhe, a dada altura, o "saco azul do Governo", o que me fez recordar Fátima [de] Felgueiras). O presidente do BPI alerta ainda para o facto das soluções para a crise financeiras congeminadas por Gordon Brown para o Reino Unido, e seguidas quase cegamente um pouco por toda a União Europeia, estarem a criar enormes problemas à Banca. Isto, independentemente de também ser dito, aparentemente sem impressionar quem conduziu a entrevista, que o Governo está a saber gerir a crise, embora excessivamente susceptível à pressão mediática, como é o caso das ameaças feitas pelo ministro das Finanças de o aval do Estado aos bancos poder ser retirado caso estes não emprestem às empresas o capital que estas lhes reclamem para se refinanciarem.
No meio disto tudo, é óbvio que a realidade existente e pintada a traços grossos por Fernando Ulrich, só nos permite concluir duas coisas. A primeira é que a “conjuntura” não só vai piorar, como poderá tornar-se social, económica, financeira e politicamente insustentável. A segunda é que “é preciso mudar de Governo e de políticas”, por mais que esta palavra de ordem nos faça lembrar Jerónimo de Sousa ou Carvalho da Silva.

A tristeza social

Quando esta crise internacional eventualmente se levantar, há pelo menos 4 países da União Europeia que vão continuar doentes: Portugal, Itália, Grécia e Hungria. Não é surpreendente que os sintomas sejam muito semelhantes nos 4 países: um sistema político e estatal disfuncional, corrupção em praticamente todos os sentidos da palavra, energias sociais quase paralisadas, resignação, conformismo extremo e medo. Não sei se serão os homens "doentes" da Europa como poderiam dizer os comentadores do século XIX. Mas são certamente os homens "tristes" da Europa deste início de século. Cada um à sua maneira.

Bless us all

Segunda-feira, 22 de Dezembro de 2008

E porque o Keynes está na moda

«The long run is a misleading guide to current affairs. In the long run we are all dead. Economists set themselves too easy, too useless a task if in tempestuous seasons they can only tell us that when the storm is past the ocean is flat again.»

John M. Keynes, A Tract on Monetary Reform (1923)

Domingo, 21 de Dezembro de 2008

Os Loucos Anos 80 (75)

"Mysteries of Love", Julee Cruise, 1986

(O vídeo inexistente é melhor do que as alternativas disponíveis; estas fariam com que se prestasse mais atenção ao filme - "Blue Velvet" - do que à música)

Sábado, 20 de Dezembro de 2008

Feliz Natal (ou Bom Solstício de Inverno)

Nos próximos dias vou andar por aqui. Até 2009, senhoras e senhores.
(Barra de S. Martinho do Porto, vista de Salir. Via Abrupto.)

Sexta-feira, 19 de Dezembro de 2008

Da Série Frases Que Marcaram 2008 II

«For a man who was once remarkably hard to decipher, Alan Greenspan is now as clear as an empty Lehman Brothers office

Steve Goldstein

Da Série Frases Que Marcaram 2008

«Those of us who have looked to the self-interest of lending institutions to protect shareholder's equity (myself especially) are in a state of shocked disbelief».

Alan Greenspan

Quarta-feira, 17 de Dezembro de 2008

Santana Lopes e a CML (Dezembro de 2009)

As coisas são como são, mas não deixa de ser deprimente que a candidatura de Pedro Santana Lopes à presidência da Câmara Municipal de Lisboa, confirmada ontem, tenha tudo que ver com batalhas políticas no seio do PSD e com as legislativas de 2009 e nada com a forma de governar a capital portuguesa.

O ambicioso, o anjinho e o incendiário

Não pode haver um partido ou um movimento que redefina a esquerda em Portugal sem um sólido programa político. E há que encontrá-lo nos escombros não só da falência do comunismo soviético, mas também do liberalismo de Ronald Reagan e de Margaret Thatcher, bem como ainda da social-democracia que se enamorou do primado do mercado e esqueceu as pessoas como centro da sua acção programática.
São José Almeida PÚBLICO 17 Dezembro p. 6

Façam um fim-de-semana de debates em sistema semiaberto, com uma parte de convites e outra de inscrições voluntárias. Criem uma estrutura na Internet, ainda antes do evento, para receber inscrições e para divulgar as sugestões concretas que saíram dos debates já realizados (...) Perguntem. As pessoas vos dirão o que pensam.
Rui Tavares PÚBLICO 17 Dezembro Última págima

Portugal também não deve ficar indiferente. Com as desigualdades sociais sempre a crescer, o aumento do desemprego que previsivelmente vai subir imenso, em 2009, a impunidade dos banqueiros delinquentes, o bloqueio na Justiça, e em especial, do Ministério Público e das polícias, estão a criar um clima de desconfiança - e de revolta - que não augura nada de bom. Oiçam-se as pessoas na rua, tome-se o pulso do que se passa nas universidades, nos bairros populares, nos transportes públicos, no pequeno comércio, nas fábricas e empresas que ameaçam falir, por toda a parte do País, e compreender-se-á que estamos perante um ingrediente que tem demasiadas componentes prestes a explodir.

Uma modesta pergunta

O que é que diz Passos Coelho da candidatura de Santana Lopes?

Terça-feira, 16 de Dezembro de 2008

O homem que fez e não disse

O homem que foi por duas vezes um Primeiro-Ministro incompetente (e ainda assim teve uma terceira oportunidade de aceder às altas magistraturas da nação) pede que se limpe a Europa dos políticos de quem ele não gosta. O homem que governou o País quando tivemos reduções catastróficas do poder de compra, crises cambiais, escassez de produtos nas prateleiras dos supermercados, fome, desemprego galopante e inflação, ensina os governantes actuais a "mudar de paradigma". O homem que enviou a polícia de intervenção desmobilizar as greves na Setenave horroriza-se com a acção da polícia grega. O homem que se bateu pela democracia representativa e constitucional apela à acção de rua e à revolta das massas. É assim em Portugal. Até os nossos estadistas de Panteão nos mostram com o seu exemplo que tudo está em decadência.

A moral da história do sapato

Lemos na primeira página do DN de hoje que o jornalista que atirou o sapato a Bush é herói em Bagdade (a primeira página do PÚBLICO é mais comedida: Dois sapatos contra Bush. Muntadar é culpado ou herói?). Parece que o atirador está detido, ainda em lugar desconhecido, mas que já conta com 200 advogados dispostos para o defender: "Este herói deve ter um processo justo", garantiu o advogado Al Duleimi, enquanto milhares de iraquianos saíram à rua em várias cidades do país para "louvar" o gesto do jovem e lembrar a Bush que "saiu do Iraque com uma sapatada na cabeça". O que o DN não diz - e deveria dizer - é que o jornalista teria sido um herói - um verdadeiro herói - se tivesse antes atirado um sapato a Saddam no tempo em que o tirano ainda era dono e senhor do Iraque. Entretanto, lemos no PÚBLICO que o executivo de Maliki pediu à televisão Al-Baghdadyia, uma estação iraquiana com sede no Cairo, que se desculpasse. Mas esta respondeu apelando ao Governo que libertasse o seu repórter, uma medida "em linha com a democracia e liberdade de expressão que as autoridades americanas prometeram ao povo iraquiano". Bem bom. Alguns anos atrás, com o tirano Saddam a governar, o jornalista Muntadar al-Zaidi já estaria mutilado ou morto. Que o alvo do atirador do sapato seja a mesma pessoa que tornou o Iraque um país muito melhor é apenas mais uma daquelas ironias que a história não deixará de evidenciar. Obrigado G. W. Bush.

(O Miguel Morgado alertou-me agora para o facto de a mesma interpretação do episódio ter sido avançada ontem pelo Nuno Gouveia, no blog Atlântico. Ainda que uma verdade não passe a ser menos verdadeira porque repetida muitas vezes, fica aqui a devida referência.)

Segunda-feira, 15 de Dezembro de 2008

Andaram a brincar com isto

A propósito do esquema de Ponzi de Madoff, o Paulo Mascarenhas salienta a presença de Spielberg entre os clientes destroçados. A mim o que me assusta é a presença do Banco Santander e o respectivo montante das perdas.

Domingo, 14 de Dezembro de 2008

Perguntas tardias sobre a esquerda em Portugal

No Telejornal da RTP2, com uma certa tristeza na voz, o politólogo André Freire lamenta que o PS português seja o partido socialista mais "à direita" da Europa e que não tenha as portas abertas ao "diálogo" com as "esquerdas". Cada um tem as convicções políticas que tem. Mas nem por isso deixamos de poder fazer perguntas. E a primeira questão seria: a maioria absoluta de que o PS goza actualmente é causa ou efeito desses dois tristes factos? Ou são coisas independentes? Presumo que cada um responda consoante as suas convicções...

A juventude na luta por um mundo melhor

Um gajo que não se bata por um "mundo melhor" é feito daquele "lenho retorcido" de que falava Kant. Pelo menos, é assim no mundo da Catarina Furtado e do Manuel Alegre.
Então e o gajo que em cada instante que dedica à construção desse tal "mundo melhor" (e que ele jura visionar à noite entre duas cervejas) vai destruindo o que este mundo ainda tem de bom? Esse gajo é o quê? Qual é o problema dele? O que é que esse gajo merece?

O Benfica, as “Receitas” e a Taça de Portugal.


Depois da pobre exibição e da derrota ontem do Benfica frente ao Leixões no Estádio do Mar, percebe-se melhor a razão pela qual as "águias" reclamavam bem mais do que os 60 mil euros oferecidos pela transmissão em directo na TV, e em canal aberto, do encontro dos oitavos de final da Taça de Portugal. Algo lhes dizia que aquele seria o seu último jogo e a sua derradeira possibilidade de fazerem uma receita apreciável na prova em questão.

Sábado, 13 de Dezembro de 2008

O raposismo, doença infantil do não sei quê

O ridículo, assim parece, é infinito. E pode sempre surpreender-nos. Como aqui. Imagino que não serei eu o tal esquerdista radical (ainda que, perante a revolução epistemológica do raposismo, já não esteja seguro de o não ser...) – devo então ser o reaço-salazarista. Nunca tinha reparado que o era. Assim são os grandes textos: contribuem para o nosso auto-conhecimento. Lembro-me do Lichtenberg (que não sei se será esquerdista ou salazarista – no fundo, a mesma coisa, ensina-nos o raposismo): Um livro é um espelho, quando um macaco olha para lá, decerto que não poderá ver um apóstolo [E213]. Eu não sei que imagem terá sido devolvida ao Raposo quando leu os meus dois posts carregados de ódio, mas eu, por mim, leio o dele e sinto-me logo vestido de verde, cantando e rindo / que o sonho é lindo etc. (Vêem? Cá estou eu a 'acusar o toque'. Se protesto por ele me chamar reaço-salazarista, é porque efectivamente o sou. Tal é a lisura raposista.)
Parece que me devia sentir envergonhado por ter havido uma coincidência de perspectiva sobre o post do Raposo entre mim e a João Pires, ou o Lutz, ou o Costa Pereira, ou o Luis Rainha. Mas não sinto. Que estranho, não é? O H. Raposo deve chamar a isto um Pacto de Não-Agressão. Juntos, esmagaremos o raposismo. SUV(R) [Soldados Unidos Venceremos (o Raposo)]. Eu, essa gente pestífera e quase toda a blogosfera. “Até” o camarada Picoito (comuna ou reaça?), parece-me, não discordou realmente do meu post carregado de ódio.
Bem, esta minha raiva já vai longa e já me dói o ombro de estar aqui a disparar o lança-ódios ao Raposo.
Rematando: o Henrique Raposo tem uma espécie de necessidade infantil de se afirmar por meio de sentenças que gosta de imaginar chocantes (e muitas vezes são-no). Sentenciosamente, diz coisas superficiais, impreparadas e muito sonantes. Os outros indignam-se ou protestam. E ele, por isso mesmo, sente que existe. Tem garantido o seu lugar de Galileu acossado pela bispalhada - como é óbvio, irritada com as Verdades que ele teima em lavrar em mármore.
Termino sem lhe enviar daqui um beijo e sem lhe chamar amor, porque, como devem calcular, na minha condição de reaça, sou um homófobo furioso.

Uma boa descrição do sopeiral

Há no PSD um núcleo de patriotas indefectíveis disposto a fazer tudo para impedir que o partido leve a melhor nas eleições. Basta ouvi-los na televisão ou na rádio durante alguns segundos, ou lê-los nos jornais ao longo de escassas linhas. É uma gente com alma de criada de servir que só sabe dizer mal da patroa nas lojas da vizinhança. Aposta muito mais venenosamente na desagregação da imagem de Manuela Ferreira Leite e do PSD do que o próprio PS. Está desesperada e disposta a tudo. Todas as semanas se manifesta, sob os pretextos mais idiotas e nas formulações mais ranhosas e rasteiras. E todas as semanas dispõe de larga cobertura de uma comunicação social tão prazenteira a anunciar as suas leituras, quanto superficial e leviana a passar à margem do que é realmente importante ou a analisar o fundo das questões.
(...)
A poucos meses dos actos eleitorais, essas criaturas só pretendem a criação de um vazio em que possam, se levarem a melhor, tomar conta da elaboração das listas de candidatos. Isto já é evidente, mas vai sê-lo cada vez mais na agitação fervilhante das próximas semanas.

Os Outros Guantánamos

Parece ter sido recebido com aplauso generoso e sincero, tanto em Portugal como no estrangeiro, a disponibilidade manifestada pelo Governo de Lisboa para acolher prisioneiros de Guantánamo que não tenham sido acusados (de terrorismo) e não possam regressar aos seus países (presumindo que todos os têm). A atitude das autoridades portuguesas, se for sincera, e apesar dos riscos que pressupõe (políticos, diplomáticos, de segurança interna, entre outros), merece também o meu aplauso. Ainda assim, desafio as autoridades portuguesas, e as autoridades de outros países ou os dirigentes de organizações não governamentais (ONG’s) que elogiaram a intenção lusa, a lançarem uma campanha internacional disponibilizando-se para acolherem presos que se encontrem em situações idênticas às de Guantánamo noutros países quando e onde, manifestamente, não são respeitados os direitos humanos. Na Arábia Saudita, na Síria, passando pela China, Coreia do Norte, Rússia, Iraque ou Paquistão, as possibilidades de intervir, assim haja vontade, são ilimitadas, ainda que com custos políticos muito elevados. É claro que esta minha ideia cai caso se chegue rapidamente à conclusão que para o Governo português, outros Governos ou ONG's, existam violações dos direitos humanos... e violações dos direitos humanos.

Sexta-feira, 12 de Dezembro de 2008

A democracia, a liberdade, a igualdade... e o resto

O nosso País das maravilhas. Vejam aqui.

Encontro de Leitura: Ortodoxia


De Vale de Almeida a Laurinda Alves

Devo andar muito distraído.
Há dias, não percebi por que razão Miguel Vale de Almeida, a pretexto de uma ferroada no Movimento Esperança Portugal (ao qual nada me liga), referiu lateralmente o meu "cinismo" sobre o casamento gay. Dizia o ilustre antropólogo que eu teria em comum com o novo partido uma rejeição da ideologia que era "ideologia ao quadrado", já que por trás do aparente "opróbrio da ideologia" haveria "projectos" e "narcisismos" inconfessáveis. "Esta ideia vende", garantia. E eu acreditei, não sem algum temor de íntimos opróbrios e narcisismos, até aí ignotos, que a psicanálise valedealmeidiana tão cruamente me revelava.
Hoje fez-se-me luz, ao saber que Laurinda Alves é a cabeça de lista do MEP às eleições europeias.
E fez-se-me luz porque associei de imediato, e até sem psicanálise, três factos singelos.
1º: o Bloco de Esquerda, partido de Miguel Vale de Almeida, elegeu apenas um deputado nas europeias de 2004.
2º: as últimas eleições presidenciais (Manuel Alegre) e autárquicas (Carmona, Sá Fernandes e Helena Roseta) mostraram que há muitos eleitores descontentes com os partidos tradicionais e receptivos a um discurso crítico do sistema (o tal "opróbrio da ideologia" que "vende").
3) Laurinda Alves foi um dos rostos da plataforma do "não" ao aborto, movimento independente dos partidos que teve 40% no referendo, o que lhe permite colher simpatias tanto à direita, entre os católicos, como à esquerda, entre o voto de protesto.
Traduzindo por miúdos, a simples deslocação de uns milhares de votos para Laurinda Alves pode ser um golpe fatal no deputado do Bloco. Está explicada a desconstrução do antropólogo e o que este vosso criado, pobre crente na encarnação do Verbo, faz no meio dela.
Devo confessar que isto não me deixa menos nervoso do que Miguel Vale de Almeida. Em 2004, a coligação PSD-CDS elegeu 9 deputados para Estrasburgo (7 do PSD, 2 do CDS). O Parlamento Europeu é hoje um dos palcos onde se travam as "guerras culturais" ou "fracturantes" que podem determinar o voto conservador. Basta lembrar o tristíssimo episódio de Rocco Butiglione e as reacções que se seguiram. O que significa, portanto, que ou a direita portuguesa acautela bem o flanco católico ou, daqui a alguns meses, talvez não seja o Prof. Vale de Almeida o único a queixar-se do "opróbrio da ideologia"...

Messiaen na casa da Música



A propósito do centenário do compositor Olivier Messiaen, a Casa da Música do Porto promove amanhã, às 16h, um debate sobre "Fé e criação artística" entre Paulo Tunhas (esse mesmo), o poeta Fernando Echevarria, o compositor Luís Cardoso e o musicólogo Carlos Pontes Leça, que além de meu amigo (título tão antigo quão pouco respeitável) é consultor da Fundação Gulbenkian.

O tema é de peso, o painel também.

Aberto a crentes, não crentes e melómanos.

Todos perdem

Governo e professores já foram longe de mais para qualquer recuo e as razões expostas migraram para o domínio da ficção. A ministra vive no seu mundo, que imagina perfeito, com uma lei justa, professores que cumprem, escolas que funcionam. Os professores vivem noutro, onde a amargura e a revolta se confundem, onde as burocracias da avaliação são ignoradas, onde as escolas desafiam o ministério e rejeitam as suas imposições. Estes dois mundos, paralelos e ambos insatisfeitos, coabitam numa mesma realidade: o sistema de ensino português. E este, com mais um ano a dilacerar-se em inutilidades, não consegue beneficiar de forma alguma aqueles para quem existe, os alunos.

Nuno Pacheco PÚBLICO 12 Dezembro 2008

Fiasco?

Fiasco, André?
Seja.
Mas deixo-te uma pergunta: preferias viver em Portugal em 24 de Abril de 1974 ou em 24 de Abril de 1984?
(A bem do exercício de abstracção, não podes responder que preferias não viver em Portugal. É uma alternativa inexistente para 10 milhões de portugueses.)

O fiasco

"There was a clear growth trend in the Portuguese economy up to the early 1970s. By then, Portugal had attained the level of the world average and was above half of the EEC average. Ever since 1974, Portugal has kept this relative level, fluctuating around it." Nicholas Crafts and Gianni Toniolo, Economic Growth in Europe Since 1945.

Quinta-feira, 11 de Dezembro de 2008

O Regresso da Política

Com a Grécia a ferro e fogo, o que indicia claramente uma situação de pré-guerra civil motivada por protestos de uma violência absurda protagonizada por jovens de extrema-esquerda organizados totalmente à margem da lei, na Galiza, mais propriamente na Universidade de Santiago de Compostela, uma dúzia de alunos galegos, nacionalistas de esquerda e marxistas, tentaram impedir que Núñez Feijoo, líder do PP galego, proferisse uma conferência na Faculdade de Ciências Políticas (link com vídeo do Youtube). Nem na Grécia nem na Galiza, nada disto é novo. No entanto, e na actual “conjuntura”, só se pode concluir que vai bem e recomenda-se a extrema-esquerda por essa Europa. A extrema-direita, pelo contrário, anda tímida e receosa. Porém, quando ambas vierem para a rua estaremos finalmente de regresso à Europa das décadas de 1920 e 1930 e ver-se-á que o actual grande problema das democracias não é económico mas sim político e ideológico.

"Em termos relativos" II

Acrescento apenas o seguinte ao que o Miguel diz aqui por baixo.
Não tenho dúvidas de que é possível alcançar um rápido desenvolvimento económico sem liberdade política. A China actual, o Portugal marcelista ou a Alemanha nazi provam-no. Mas isto é só parte da verdade. Em todos estes casos, por crescimento económico entende-se industrialização. Ora, uma industrialização acelerada exige sempre investimentos que, nos regimes não democráticos, só o Estado ou as oligarquias protegidas pelo Estado estão em condições de realizar. Chama-se a isso por vezes capitalismo de Estado, mas não é de modo algum sinónimo de iniciativa privada, nem de empreendedorismo, nem de mercado, nem sequer de liberdade económica porque funciona sem as regras de uma sociedade aberta (concorrência, transparência, risco, meritocracia, igualdade de oportunidades, etc.).
Que um liberal, para criticar o tão vilipendiado "socialismo" da classe política que fez a democracia portuguesa, acabe por exaltar os progressos económicos da ditadura anterior é de uma ironia trágica.
Por outro lado, em todos estes casos o crescimento económico é notável porque parte do atraso próprio de sociedades quase inteiramente rurais (Portugal e China) ou cuja economia tinha sido destruída pela guerra (Alemanha). Um tal atraso é também fruto de opções políticas, por vezes muito conscientes, dos mesmos regimes não democráticos. Não se pode atribuir a essas ditaduras a superação de um atraso pelo qual são historicamente responsáveis para depois acusar a democracia portuguesa de um abstracto "socialismo" que terá impedido o nosso desenvolvimento.
Eis o que está em causa. Dizer que "a geração que tomou o poder após 1976 é responsável pelo actual atraso do país", sendo essa a geração que nos deu a democracia, é atribuir à democracia o actual atraso do país. Não vejo outra maneira de dar nome às coisas. Podemos discordar politicamente de Cunhal, Soares, Sá Carneiro ou Freitas (acontece a muito boa gente). Podemos até exigir que eles sejam devidamente enterrados pelos respectivos partidos em nome da renovação ideológica e do liberalismo. Mas misturá-los a todos não passa de um belo serviço ao socialismo de que se quer livrar a pátria.

Quarta-feira, 10 de Dezembro de 2008

Liberdade, Mobilidade Social e Crescimento Económico

Na discussão que se travou aqui em baixo sobre o crescimento económico e a liberdade, o André mencionou, e bem, a relação simbiótica entre o primeiro e a segunda. Depois, reparei que se introduziu, de modo confuso, o tema da desigualdade. É preciso sublinhar que o crescimento económico expande a liberdade de agir, é certo: mas é preciso acrescentar além disso que, sem crescimento económico, não há mobilidade social. Igualdade e mobilidade social não são a mesma coisa, sem dúvida. Mas, de uma forma imprescindível, o crescimento económico serve a mobilidade social que, bem vistas as coisas, corresponde às intuições de equidade social da maioria dos cidadãos numa democracia saudável. O que destrói o sentido de justiça numa sociedade democrática não é tanto as diferenças entre os cidadãos, mas a impermeabilidade das classes ou dos estratos que definem essas diferenças. Ora sem crescimento económico as fronteiras das ditas classes tornam-se cada vez mais apertadas. É por essa razão que a democracia enquanto regime político sofre tanto com a estagnação económica. Quando a estagnação económica anula a mobilidade social, fica por cumprir uma das maiores promessas da democracia. E, ao contrário dos políticos, os regimes que não cumprem as suas promessas vêem-se rapidamente em apuros.

Farinha do mesmo saco

Mário Nogueira, coordenador da Fenprof, declarou: "Se o Ministério da Educação quiser guerra, vai ter guerra". Caberá perguntar que estranha guerra é esta em que os dois adversários vivem à conta do mesmo orçamento, são funcionários do mesmo ministério e mostram a sua força não vencendo-se um ao outro mas sim ameaçando criar uma situação que impede um terceiro elemento, os alunos, de ter um ano lectivo um bocadinho digno desse nome.

Helena Matos PÚBLICO 9 Dezembro 2008

Autofagia política

À pergunta "Porque tem Portugal mais intenção de voto à esquerda em toda a Europa Ocidental?", Rui Taveres responde "Porque Portugal é o pais com mais desigualdades em toda a Europa Ocidental" (PÚBLICO 10 de Dezembro 2008). A resposta não é descabida. De qualquer modo, Portugal é desde há muito um país desigual e isso não impediu as maiorias da Aliança Democrática de Sá Carneiro e do PSD de Cavaco Silva. Mais ainda, depois dos governo do PS de Guterres e do actual PS de Sócrates, os portugueses têm boas razões para pensar que as desigualdades não se curam com políticas de esquerda. O problema da direita portuguesa actual é a liderança. Paulo Portas é um líder competente mas dificilmente consegue mobilizar os que ainda não estão mobilizados; a promessa da conquista do espaço à direita no PSD não foi cumprida. Por seu lado, o PSD demora a acertar o passo desde que Durão Barroso assumiu a presidência da Comissão Europeia. O Rui Tavares alerta para o facto da subida da esquerda não ser um mero episódio mas eu continuo convencido que o problema da direita portuguesa ainda radica naquele fatídico ano de 2004 em que o Primeiro-Ministro abandonou o país e nas consequências imediatas dessa decisão, concretamente as sucessivas lideranças que se lhe seguiram, até hoje.

Bem observado

Os professores portugueses não se cansam de nos surpreender. Há uns meses, descobrimos que já não estão à altura de impedir um aluno de usar o telemóvel durante a aula. Nas últimas semanas, porém, ei-los na rua a provar que ainda chegam para fazer recuar um governo. A questão é inevitável: que pensar de um sistema de ensino onde os professores têm aparentemente mais força para submeter um ministério do que para manter a disciplina nas salas de aula? Que talvez não sirva para aquilo que deveria servir, mas que serve certamente para outras coisas. Entre o telemóvel de Março e a greve de Dezembro, o actual sistema de ensino deu-se a conhecer em todo o seu esplendor. Os alunos não respeitam os professores porque sabem que, numa escola que se quer "inclusiva" a todo o custo, nada de sério lhes pode acontecer, por pior que seja o seu comportamento. Os professores, pelo seu lado, não respeitam o ministério porque percebem que o objectivo da actual equipa governamental não é transformar o sistema, mas apenas obter mais com o mesmo - e que portanto lhes basta não preencher as fichas, para tudo parar. O presente regime de ensino faz a fraqueza subir pelo sistema acima: os alunos têm a força que falta aos professores, e os professores a força que falta ao ministério.

Rui Ramos PÚBLICO 10 Dezembro 2008

Terça-feira, 9 de Dezembro de 2008

Parabéns Sporting

6 jogos, 4 vitórias, 2 derrotas (com o Barça de Xavi e Messi), uma equipa com muitos portugueses, a maioria ainda novos e formados em Alvalade. O Sporting de Paulo Bento conseguiu, pela primeira vez na história do clube, passar aos oitavos-de-final da Liga dos Campeões. Infelizmente, como a memória é muitas vezes curta, os sportinguistas não deixarão de fazer ao actual treinador o mesmo que fizeram a José Peseiro no ano em que o Sporting jogou um futebol maravilhoso, ficou em 2º lugar no campeonato e jogou a final da Taça UEFA. Mas enquanto esse dia não chega, aproveito para tranquilamente dar os parabéns à equipa e a Paulo Bento por me darem mais um motivo para acrescentar ao grande orgulho que tenho em ser sportinguista.

Sra. f, importa-se de esclarecer?

A sua discordância é com o quê: Com a assistência religiosa nos hospitais? Com o facto de a maioria dos portugueses que professam uma religião serem católicos? Com o poder que a Igreja Católica ainda tem para defender os direitos dos seus crentes? Com o respeito - sincero ou dissimulado - que os políticos portugueses devem à Igreja Católica? Com a permeabilidade do sacrossanto princípio secular da laicidade do Estado? Deixe-se lá dessas coisas e tenha a delicadeza de deixar os doentes receber o apoio espiritual que querem, pois não é só do corpinho que vive e padece o homem.

Da série "A concorrência faz melhor"

Imagem, do Filipe Nunes Vicente que-está-obviamente-à-espera-de-um-lugar-de-deputado-nas-listas-da-dra-manuela-para-se-deitar-à-sombra-de-uma-acácia.

"Em termos relativos"























Até me custa dizer isto, cruzes canhoto, mas há uma coisa em que o Daniel Oliveira tem razão: os que atacam o "socialismo" do PSD e de Sá Carneiro, acrescentando que não vivemos num regime realmente livre, ou que o 25 de Novembro não nos trouxe a liberdade coisíssima nenhuma, ou que não há verdadeira alternativa ao pensamento estatista em Portugal, padecem de uma absoluta "falta de memória histórica".

Só isso explica que uma pessoa inteligente como o Carlos Guimarães Pinto cometa deslizes do género "A geração que tomou o poder após 1976 é responsável pelo actual atraso do país. Estamos hoje pior, em termos relativos, do que em 1976."

Aconselho que se informe sobre o que era o país em 1976 antes de escrever estas relatividades.

António Alçada Baptista (1927-2008)



Morreu António Alçada Baptista. O seu nome está profundamente ligado a uma época da história portuguesa, o marcelismo, e a um grupo de pessoas, os chamados católicos progresistas, que tentaram mudar ao mesmo tempo a Igreja e o regime. Joana Lopes recorda que as aventuras gémeas da Moraes e da revista O Tempo e o Modo faziam parte dessa frente comum. Basta ver os autores editados (e muitas vezes traduzidos) por Alçada Baptista: ao lado de alguns dos maiores vultos da cultura católica do século XX - Chesterton, Guardini, Gilson, Teilhard de Chardin-, surgem outros distantes de tal universo como Freud, Lenine, Marcuse, Henri Lefebvre, Georges Bataille ou Edgar Morin. E ao lado do inevitável olhar sobre a descolonização, o desenvolvimento e o Terceiro Mundo, surgem os debates então candentes sobre cristianismo e marxismo, Humanae Vitae e contracepção, Vaticano II e femininismo.
Esta abertura, só possível porque vinda da "oposição consentida" que era o progressismo católico, foi um dos mais reais contributos para a formação democrática dos que fizeram o 25 de Abril. Poucos se lembrarão, mas a Moraes editou pela primeira vez em Portugal clássicos do pensamento político do pós-guerra como Hannah Arendt, Jacques Maritain ou Emmanuel Mounier, cujo personalismo tanto influenciou ideologicamente a Ala Liberal e o PPD.
Na tentativa de contribuir para uma terceira via entre a insustentável situação e a oposição comunista, a Moraes e O Tempo e o Modo deram a conhecer ao país uma geração inteira dos seus melhores ensaístas nas mais diversas áreas da cultura, de Adérito Sedas Nunes a Manuel Antunes, de Alfredo de Sousa a João Bénard da Costa, de Hélder Macedo a Vasco Pulido Valente. O conjunto de autores publicados pelo Círculo de Poesia da Moraes, então, é verdadeiramente glorioso: Sophia, Sena, O`Neill, Nemésio, Ruy Belo, Ramos Rosa, Pedro Tamen, José Gomes Ferreira, Joaquim Manuel Magalhães, João Miguel Fernandes Jorge... Dir-se-ia que estão lá todos, ou quase, os que não queriam dever favores ao PCP.
Talvez a arte de juntar pessoas e fazer livros seja o maior legado de António Alçada Baptista, um legado de que, sem o conhecer pessoalmente, ainda fui beneficiário muitos anos depois. Nada mais justo do que evocá-lo por isso.

Sendo assim, está bem

Tive sempre alguma dificuldade em perceber porque razão a esquerda está convencida que Obama é um "intelectual". Nunca o ouvi dizer ou li alguma coisa escrita por ele que denunciasse um conhecimento particularmente elevado acerca da filosofia política, da literatura ou das artes. Mas hoje fiquei esclarecido. Ao contrário de Nixon, Reagan e Bush, três presidentes americanos intelectualmente deficientes, o intelectualismo de Obama é de tal modo evidente que "in his White House even the Marine General speaks French". Apetece dizer de Obama o mesmo que o Henrique Raposo disse de Sarkozy: um presidente espistemologicamente preparado!

"...and it´s all part of the ideology that..."

Os loucos anos 80 (74)

Talvez motivados pelo pudor, virtude em desuso mas aparentemente não esquecida no Cachimbo, talvez apenas por uma questão de bom gosto, sempre a ter em conta quando se trata de música, o Pai Fundador e outros Colaboradores desta excelente série têm esquecido que parte importante dos loucos anos 80 foram vividos ali para os lados do Estoril, no 2(001)...

...Rain dos ingleses Cult, 1985



...Sweet child o'mine dos americanos Guns 'n' Roses, 1987



...e Sleeping my day away dos dinamarqueses D.A.D, 1989

Segunda-feira, 8 de Dezembro de 2008

Esquerdalhada

Ensina-se a Verdade nestes três posts dificilmente qualificáveis (e indiferentes ao espaço e ao tempo, essas minudências). De facto, sempre desconfiei desse Sá Carneiro. E percebo agora toda aquela sanha do PCP. Era o combate contra o rival. O combate contra o desviacionista burguês social-democratizante. Social-democratizante. Pff.

Domingo, 7 de Dezembro de 2008

"O regular funcionamento das instituições democráticas"

Ora, bolas! O Jorge Sampaio estragou tudo: 'Não pode a chamada legitimidade dos sectores impedir a legitimidade democrática. (...) Portanto, a prevalecer alguma coisa, tem de ser a legitimidade política resultante do voto.'
Como diria um revolucionário sul-americano, mierda! A gente aqui, na chamada legitimidade dos sectores, afanosamente a conspirar contra a não-chamada legitimidade democrática e fomos descobertos! Logo agora que o Nogueira, o Dias da Silva, o Chagas e o Guinote tinham já começado a distribuir armas pelos 120 000 professores... E contava-se ainda com a cumplicidade não-democrática ilegítima do BE, do PC, dos Verdes, do PSD e do CDS... E eu próprio, mais sonso, que tenho vindo a estudar o The Day of the Jackal, pensando melancolicamente no engenheiro Sócrates e deitando o olho para aqui...
Enfim, tanto esforço conspirativo contra a legitimidade política resultante do voto para nada...
Também, para quê suspender a tal "avaliação"? Querem os tanques nas ruas ou quê?

Re: Decência e Indignação

Caro Paulo, se o teu propósito é comentar o meu post, então sinceramente não te compreendo. Não fiz qualquer alusão às intenções ocultas de ninguém. Critiquei o post do Emídio Fernando e critiquei o post do Afonso Azevedo Neves. Não mencionei as putativas intenções ocultas nem de um, nem do outro. Num e noutro o que me desgostou foi constatar um certo estado de espírito, que de resto grassa pelo País, de indiferença, cinismo e resignação. E sobretudo de ridicularização de um esforço de um líder político em manifestar uma reacção que, num País decente, deveria ser espontânea: a da indignação. Afinal, foi este o País que delirou quando um ex-Presidente da República lhe disse que tinha o "direito à indignação" a propósito, se bem me recordo, de um aumento das portagens na Ponte 25 de Abril, e que tinha como consequência, se bem me lembro, o refrescar da legitimidade da desobediência civil naquelas circunstâncias. Enfim, é como se estivéssemos a assistir a uma transvalorização dos valores estruturantes do regime, sem, no entanto, estarmos conscientes de que essa transvalorização indica a morte próxima desse mesmo regime.
E, já que falamos de Mário Soares, deixa-me dizer o seguinte: há uns tempos, Vasco Pulido Valente disse na TVI que Mário Soares "não era a Bíblia". Eis o que se pode chamar sensatez. Mas a sensatez obriga a acrescentar: pois, mas ele, VPV, também não é. Se é verdade que o argumento de VPV é mais sofisticado do que o de Emídio Fernando, nem por isso vale como argumento de autoridade. É que, não obstante os deputados serem extensões do Partido em cujas listas foram eleitos, eles são também representantes do povo português. Quem considera que esta proposição é totalmente irrelevante, é bom que proponha a mudança radical do sistema político como um todo. De outro modo, a política portuguesa não é mais do que uma gigantesca fraude. Por outras palavras, quem considera que esta proposição - i.e., os deputados da Assembleia da República são representantes do povo português, e, por isso, têm obrigações perante o povo português - é totalmente irrelevante, e, ao observar comportamentos indevidos, se limita a encolher os ombros, tem de tirar as devidas consequências da sua posição. E perceber que a coerência obriga à indignação. É por estas e por outras que vou desconfiando do zelo democrático de muitos dos nossos democratas. E é por estas e por outras que o meu estômago sofre quando ouve por aí as denúncias da hipocrisia reinante, que, evidentemente, mora sempre ao lado.

Decência e Indignação

Não, este post não é "excelente" por uma simples razão. Não que as coisas na Assembleia da República não se passem "assim" como o Emídio Fernando as descreve, mas antes porque a sua conclusão é duvidosa. Emídio Fernando descreve a indignação de Manuela Ferreira Leite como uma reacção ingénua e, em última análise, ignorante. A pergunta que eu faço é a seguinte: se a maioria dos cidadãos portugueses (parto desse princípio) se indignou perante esta atitude dos seus deputados, e se o padrão de comportamento dos políticos (e dos comentadores) resume-se ao cinismo e à resignação, quem é que representa os milhares de portugueses que justamente se indignaram com todo este episódio? A indignação de Manuela Ferreira Leite é justificadíssima e vem em boa hora. Porque também não há pachorra para o contraste entre, por um lado, a aceitação comovida de todos os moralismos de dedinho em riste que defendem a "causa da humanidade" e, por outro, as tentativas honestas de repor alguma decência neste País.

Sábado, 6 de Dezembro de 2008

Citação montesquieuana do dia

"De todos os governos despóticos, nenhum é mais opressivo para si mesmo do que aquele em que o príncipe se declara proprietário de todas as terras e o herdeiro de todos os seus súbditos."

Aviso do camarada Botelho ao companheiro Picoito por causa da moral

Não, Pedro, o Henrique Raposo não toca em 'ponto essencial' nenhum. Muito do que dizes na tua carta faz sentido. O problema é que o Henrique Raposo não diz nada disso. Queria dizê-lo? Lendo e relendo o seu post não encontro indícios desse sentido traseiro. Eu comento o que ele lá escreveu, não um qualquer 'pano de fundo' - que não está lá.
Se o Raposo fosse o Picoito, ele teria, sim, escrito um texto com o 'ponto essencial' e sem aquela facilidade insultuosa. Mas o Raposo não é o Picoito nem o Picoito é o Raposo - por isso escrevem textos diferentes. Muito diferentes.
A tua carta deixa o meu post incólume. Porque, na verdade, não falas do que falo, nem falas do que o Henrique Raposo fala. Num sentido, o meu post está todo no primeiro parágrafo. (Limitei-me a desenrolá-lo depois.) O que importa são as expressões que o blogger do Atlântico escolheu para escrever. É completamente indiferente que ele tivesse esta ou aquela intenção "semântica" por detrás, este ou aquele 'pano de fundo'. Aquelas expressões que ele escolheu usar valem por si mesmas. Não há "contexto" ou sub-sentido que as salve.
Ele não denuncia nenhuma perversão ideológica. O que ele diz está antes de todas as perversões ou presunções morais de uma ideologia. O que ele diz pode aplicar-se a qualquer um. Até a si próprio. Porque ele, pura e simplesmente, troçando do sofrimento de outros, ataca-os com a própria memória do sofrimento. É uma deficiência moral.

Sexta-feira, 5 de Dezembro de 2008

Quid pro quo

Os deputados do PSD, que hoje se prestaram a esta linda figura, nas próximas Legislativas também vão concorrer nas listas do PS?...

Chicotada compulsiva

Há uma corrente opinativa, sobretudo de bancada, segundo a qual o presidente desejado para o PSD é sempre um qualquer menos aquele que efectivamente lá está. Às vezes consegue-se concretizar o nome da temporária alternativa, às vezes nem isso e refere-se um "há gente" capaz de melhor. As coisas são o que são e são o que têm sido, e não vale a pena maçar as pessoas com citações dos romanos para perceber o quão longe vai esta tradição, a memória recente dos comentários sobre Cavaco, Barroso ou Marques Mendes chega para a fotografia e faz lembrar aqueles excêntricos presidentes de clubes que despedem recorrentemente os treinadores a cada meia dúzia de jornadas. Pouco importam as experiências recentes e importa ainda menos a avaliação do trabalho que se está a realizar, com objectivos de resultados que não encaixam em quadros temporais imediatistas traçados nas mentes particulares de vários opinadores de chicote em riste. A propósito disto, mas não só, vale a pena ver a última Quadratura do Círculo

Correio Expresso: a ministra, os professores e a opinião pública

O Expresso traz amanhã uma sondagem segundo a qual a maioria dos portugueses acha que Maria de Lurdes Rodrigues tem condições para continuar a ser Ministra da Educação. Ela também acha, ou não diria - como disse há dias, aparentemente com razão - que perdeu os professores, mas ganhou a opinião pública.
Eu não acho nada. Só faço uma pergunta: depois das manifestações gigantescas e das greves monumentais, a Ministra vai trabalhar com a opinião pública ou com os professores?

Carta ao camarada Botelho sobre a esquerda


Camarada Botelho
Muito bem, mas o Henrique Raposo toca num ponto essencial. Se é verdade que há uma direita que resume o seu pensamento ao anticomunismo, metendo no mesmo saco uma ideologia perversa e o que essa ideologia designa por "conquistas dos trabalhadores", também há uma esquerda que troca ainda o sentido mínimo da realidade pela idealização do passado antifascista. Esta memória ao mesmo tempo utilitária e idealizada, da qual a esquerda se considera guardiã exclusiva, fundamenta a superioridade moral que gosta de brandir (Bernardino Soares no último Congresso do PCP, mas igualmente a eterna retórica de denúncia de Soares, Alegre ou Louçã). No fundo, todos eles se julgam com direito a governar a pátria sem o incómodo de respeitar a moral burguesa, permitindo-se a dissonância cognitiva de transigir aqui e além com a ética republicana enquanto pregam a liberdade, a igualdade e a fraternidade.
Não falo apenas de Baptista Bastos, que ilustra a coisa até à caricatura. Os exemplos são muitos e vão dos grupúsculos de extrema-esquerda, fora do sistema, ao PS bem instalado na democracia. Lembremos as mentiras de campanha sobre Sarah Palin ou os dislates sobre a "pulsão autoritária" de Manuela Ferreira Leite, que tanto animaram gente pouco honesta e alguma direita distraída.
Este trono moral dá à esquerda uma real vantagem política. Nunca tem que responder pelos erros ou crimes cometidos porque age sempre em nome das melhore intenções. Pelo contrário, a direita tem que fazer prova constante do seu amor à humanidade. É fácil ser de esquerda em Portugal. Basta invocar os pobrezinhos (dos quais é proprietária em regime de monopólio), agitar a bandeira da última causa fracturante (desde que isso não faça perder eleições) e gritar muito, muito, muito contra o fascismo (mesmo que o fascismo esteja morto e enterrado).
Não está em causa o respeito que devemos aos resistentes à ditadura. O que está em causa é se lhes devemos algo mais. Eu entendo que não. E parece-me que foi isso o que quis dizer o Henrique.
Até amanhã, camarada.
Adenda: Obviamente, nada do que escrevi significa que, para mim, a pertença à direita seja uma garantia de moralidade ou que todos os esquerdistas sejam gente vil e desonesta. Conheço muita gente séria de esquerda e muito sacana de direita. Aliás, o que mais conheço são sacanas de direita.

Coisas que não se devem dizer


O Henrique Raposo, aqui, a respeito dum artigo do Baptista Bastos, escreve: 'Não sei, nem quero saber, se Baptista-Bastos foi preso pela PIDE.'
Pois, devia querer saber. É que a PIDE não era propriamente o Grémio Literário. Os hóspedes dos calabouços da PIDE não passavam uns serões agradáveis com os anfitriões a discutir amenamente filosofia política. Escrever aquilo não é equivalente a dizer: 'Não sei, nem quero saber, se Baptista Bastos jantou na Trindade' ou 'Não sei, nem quero saber, se Baptista Bastos viajou até Paris'.
Independentemente da justeza possível do pretexto do Henrique Raposo (a história das casas da CML), seja o Baptista Bastos quem for e seja ele como for, aquelas coisas não se dizem. Eu também não sei se o Baptista Bastos foi ou não preso por aquela admirável corporação - para o caso é irrelevante. O que importa aqui é que, para começar, o título do post do Henrique Raposo é insultuoso. E, tendo em conta o tipo de polícia que era a PIDE e o que ela fazia, escrever 'a PIDE é o nirvana desta esquerda mumificada', é, desculpem, indecente. Mesmo sendo verdade que alguém use isso como uma "condecoração" (há decerto quem o faça), tal não justifica a falta de respeito por essa pessoa. E, deixem-me que vos diga, aquele que mostre qualquer coisa como um "orgulho" em ter passado (literalmente) pelas mãos daqueles agentes é merecedor, não de desprezo ou de mofa, mas de respeito. Mesmo que essa vítima (é a palavra) se integre numa orientação política também potencialmente torcionária. Porque, mesmo esse, não deixa de ser alguém que, um dia, foi vítima de um regime iníquo que prendia ilegalmente, roubava e torturava - por "delito de opinião". Ou acham que a PIDE era a PSP? E não venham com comparações quantitativas entre as vítimas daquela nossa polícia e as da Gestapo. (Um mal "menor" não é menos mal por ser posto ao lado de um "maior".)
Não é possível discordar-se de certas práticas opressivas e, ao mesmo tempo, usar essas mesmas práticas e a sua memória nas vítimas como arma de arremesso contra as mesmas vítimas.
Para evitar excitações, convém deixar claro que seria igualmente impróprio fazer as mesmas observações a propósito dos que sofreram às mãos da Stasi ou do NKVD.

Quinta-feira, 4 de Dezembro de 2008

O Lobo das Estepes (10)

Independência e solidão

No Prefácio ao livro, o sofrimento do lobo das estepes é descrito como não sendo devedor de um “defeito da sua natureza” mas antes da “profusão de talentos e poderes que nele não haviam sido harmonizados”. Se a frase dissesse que o sofrimento do lobo das estepes não é devedor de um defeito da sua natureza mas antes da ausência de harmonia dessa mesma natureza, poderíamos pensar que o sofrimento dele é motivado, acima de tudo, por circunstâncias sociais e históricas (p. ex., já o observei antes, por uma educação que teria essencialmente apostado em quebrar a vontade da criança e aniquilar a sua personalidade); mas Hermann Hesse fala antes de uma profusão de talentos e poderes, e isto significa que a qualquer influência que a sociedade e história exerçam sobre o lobo das estepes não pode ser dissociada da sua natureza superior.

Neste ponto concreto, penso ser oportuno trazer à nossa memória as palavras de Sócrates na República de Platão (491d-492a). Diz o filósofo que o mal é, de algum modo, mais oposto ao que é bom do que ao que não é bom. Neste sentido, um homem com uma natureza superior resulta num homem pior quando sujeito a uma má educação do que um homem com uma natureza medíocre; ou seja, as almas mais bem dotadas, se confrontadas com uma educação má, tornam-se extremamente perversas, ao passo que as almas débeis nunca serão causa de grandes bens nem de grandes males (a não ser, Sócrates acrescenta, que se dê o caso de um deus qualquer vir em seu socorro).

Talvez se possa pensar que uma natureza medíocre será sempre mais permeável ao meio social e histórico envolvente. Mas esse não é, definitivamente, o caso do lobo das estepes. Lemos no Tratado que o lobo das estepes é irredutível ao dinheiro, à vida fácil, aos poderosos, ao suborno, ou mesmo a qualquer conformidade a uma vida mediana e medíocre - uma alma independente que encontra o refúgio natural na solidão.

Sofrimento, infelicidade, suicídio, independência, solidão... todas estas características são constitutivas do lobo das estepes. Veremos nos próximos dois posts como cada uma delas adquire um sentido pleno sob o horizonte do confronto do lobo das estepes com o mundo burguês.

As passagens analisadas correspondem à p. 16 do Prefácio e às pp. 52 e 57 do Tratado, Difel, 3ª ed.

Próximo post: O mundo burguês – primeira parte

4 de Dezembro

O IFSC disponibiliza no seu site a totalidade dos 7 volumes da obra digitalizada de Sá Carneiro, cobrindo a sua actividade política desde 1969 até 1980. Na data do seu trágico falecimento, não me ocorre melhor forma de o homenagear que esta do IFSC de disponibilizar a todos a sua obra.

Caterina Antonacci

Quarta-feira, 3 de Dezembro de 2008

Da série "A concorrência faz melhor" (com adenda)

Papel de embrulho, de Helena Matos. Um dos melhores retratos da política cultural de Sócrates que tenho lido.
Já agora, e para se perceber quem paga e como funciona o tal centro de arte africana em Lisboa, vale a pena ler isto e isto, do sempre recomendável Augusto M. Seabra.
Adenda: A tradição socrática de apadrinhar projectos museológicos mediáticos e frágeis, como o "pólo" do Hermitage ou o Museu Mar da Língua, vem de Isabel Pires de Lima. O seu sucessor, António Pinto Ribeiro, teve o bom senso de deixar cair esses elefantes brancos, decisões, lembra Augusto Seabra, que só lhe ficam bem. É a principal razão que me leva a julgá-lo mais positivamente do que outros críticos do Governo, quase sempre draconianos para com o Ministro da Cultura. Mas é de notar que o nome de Pinto Ribeiro não se viu nas notícias sobre o africa.cont. Terá sido o processo conduzido apenas pelo Ministério dos Negócios Estrangeiros? O Governo não quis associar Pinto Ribeiro a esta iniciativa "estratégica" porque ele discordaria da ideia? Ou voltámos ao tempo em que o Primeiro-Ministro chamava a si a política cultural e desautorizava em público o titular da Cultura, como aconteceu no folhetim Berardo-CCB?

Não me lixes pá II

Ó meus amigos comentadores...



Então dizeis que "Ne me quitte pas" não é uma canção de amor, mas de fraqueza?


Então dizeis que o homem é obsessivo e aquela interpretação capaz de ressuscitar um morto patológica?


Então dizeis que os imorredoiros versos "l`ombre de ton ombre/ l`ombre de ta main/ l`ombre de ton chien" são afinal abjectos?



Ides perdoar-me, mas sois uns bárbaros sem coração.



Pois não sabeis que todas as cartas de amor são ridículas, mas mais ridículo é nunca ter escrito cartas de amor?


Pois não sabeis que o amor é uma obsessão tão doentia que chega à loucura de querer partilhar a vida inteira com um ser mortal?


Pois não sabeis que o amor é a suma fraqueza de vos entregardes totalmente nas mãos de alguém tão fraco como vós?


E se uma melodia arrastada a três tempos por uma bela voz de baixo, à qual se acrescenta um poema cheio de aliterações sobre tudo isto na língua de Racine, não é, segundo os vossos altos critérios genológicos, uma canção de amor, então, pergunto eu, perplexo e suspenso sobre o abismo da dúvida, da fúria e da mais justa indignação, que raio é para vós, porra, que raio é realmente para vós, ó tribunal dos exigentes - uma canção de amor?