Terça-feira, 30 de Setembro de 2008

A solução? Desregular

Agora que todo o sistema financeiro está perto do colapso, o regulador decide eliminar uma das regras responsáveis pelo desastre. Antes tarde do que nunca.

Da Série "Grandes Títulos"

House to Wall Street: Drop dead

Quem diz que a Justiça em Portugal não funciona?

Li aqui que Alberto João Jardim foi condenado a pagar a Edite Estrela uma indemnização de 20 mil euros. Parece que Alberto João descreveu as críticas de Edite Estrela à sua governação como uma "peixeirada". É sempre com comoção que assisto ao cumprimento da justiça. Em particular, num assunto tão grave como este. Agora já tenho uma resposta na ponta da língua para aquele meu amigo que passa a vida a dizer que em Portugal a justiça não toca nos "poderosos". Pensando bem: será que tenho?

Democracia Política

Uma maioria confortável na Câmara dos Representantes rejeitou ontem o "Plano Paulson". Em rigor, ninguém sabe muito bem se o dito Plano, caso viesse ou venha ainda, mas com outro nome, a ser posto em prática, é capaz de resolver a crise financeira norte-americana e mundial. Só se sabe que a votação da Câmara dos Representantes - tanto esta que rejeitou o plano como uma outra que o tivesse aprovado - foi uma vitória da democracia política. Viva, portanto, a democracia num momento em que os tecnocratas esclarecidos e muitos neo-keynesianos suspiram pela instauração de uma qualquer espécie de despotismo, seja ele iluminado ou não.

Segunda-feira, 29 de Setembro de 2008

Quarteto de Outono

Por que é que o início do Outono é financeiramente tão infeliz?

"Look at me, I've got a bracelet too!"

Uma evidência...

...invisível para o primeiro-ministro, para a ministra da Educação e para outros:

Domingo, 28 de Setembro de 2008

Descubra o erro

Leia esta frase: "Tendo em conta as suas confrangedoras prestações televisivas e forma como a campanha de McCain tenta a esconder Palin do escrutínio dos media, parece ser incontestável que a Governadora do Alaska é absolutamente incompetente para o cargo para que foi nomeada." Consegue descobrir o erro no argumento sem ajuda? Sobre as capacidades intelectuais do autor devemos lançar um véu de polidez. Mas se o argumento é um argumento com peso nesta campanha política, se os eleitores americanos se sentem hoje inclinados a votar num candidato político em função das suas habilidades televisivas, se identificam prestação televisiva e competência para o cargo, então temos de retirar as conclusões devidas sobre o declínio do seu sistema político.

Sábado, 27 de Setembro de 2008

Dia Mundial do Turismo


Já que é o dia do turismo, e Bernardo Trindade, o sec. estado do sector, diz que já não tem mais trabalho (o Programa do Governo para a área do turismo está concluído, ao fim de três anos e meio de legislatura”) acho que vale a pena fazer um breve balanço do que foi feito por este governo no sector.
Em primeiro lugar, as pessoas: tenho uma certa estima pelo secretário de estado, porque trabalhou em empresas privadas (Grupo BES) antes de ocupar este posto, e isso nota-se no modo como tenta ajudar os privados; mas também tenho pena dele, porque não tem poder, e isso também se nota. Quem tem o poder é o chefe do Turismo de Portugal, Luís Patrão, porque é quem tem o dinheiro. É o califa no lugar do califa.
Em segundo lugar, o que foi feito: o PENT e o TP,ip. O PENT é o plano de desenvolvimento do turismo em Portugal, uma ideia bem socialista, mas que quem trabalha no sector agradece porque ao menos explica como é que o Estado quer dirigir o sector. O Turismo de Portugal ip é um resultado visível do Simplex, que juntou uns quantos organismos num só, e que tem feito um trabalho interessante. Ganhou agora o prémio do melhor Europe's LeadingTourist Board, e ainda tem uma enorme margem de progressão.
E, por fim, a formação. Este é o aspecto mais importante do turismo em Portugal, porque o crescimento esperado para a próxima década vai criar dezenas de milhar de novos empregos nesta área (p.ex., de 5 hotéis 5* no Algarve em 2003 passaremos para 32 em 2011), e é preciso ter gente formada para os ocupar. Por um lado, a mentalidade estatista na Educação também se aplica no Turismo: o TP,ip só ficará contente quando toda a formação dada em Portugal no âmbito do turismo for feita em entidades do Estado. Por outro, vale a pena saudar a entidade que hoje foi apresentada, o Hospitality Management Institute, porque pode ser que venha a ser um bom instrumento de formação de executivos.

Breve pausa nas eleições americanas para explicar a origem do mundo (I)



Num post aí mais abaixo, discuto com Palmira Silva o que é ou deixa de ser o criacionismo. O pretexto, inevitavelmente, é Sarah Palin e as suas malfeitorias, mas a questão vai mais longe. A questão, como tentei explicar sem sucesso, gira à volta do lugar dos crentes na democracia.

Comecemos por lembrar algumas evidências sobre o criacionismo. Em sentido genérico, pode chamar-se criacionismo a qualquer doutrina que afirme que o universo foi criado por Deus. Quase todas as religiões, incluindo obviamente o Cristianismo, são criacionistas neste sentido e são compatíveis com a teoria da evolução das espécies, uma vez que nem Darwin prova a inexistência de Deus nem as religiões se opõem em geral ao estudo científico do universo. Num sentido mais restrito, dá-se o nome de criacionismo à crença na verdade literal do relato bíblico da criação em seis dias e há cerca de 6000 anos, crença hoje confinada a algumas igrejas protestantes que põem em causa o evolucionismo. Outra coisa ainda é o intelligent design (ID), uma teoria surgida na América em meios próximos do criacionismo literal e que, a partir de dados da observação científica, diz mais ou menos o seguinte: o conjunto de características físicas e químicas que, em dado momento, permitiu o aparecimento da vida na Terra é tão extraordinário e único no universo que nunca poderia explicar-se pelo acaso e, portanto, prova racionalmente a existência de uma vontade superior à natureza. (cont.)

Paul Newman

Uma pausa na rodagem do Exodus [1960]

Ruy Belo por Mexia

Gostei da crónica do Pedro Mexia sobre Ruy Belo, no Público de hoje (parcialmente disponível aqui). Mexia faz de Belo uma leitura visceral, pessoal, íntima, como muitos católicos da geração anterior que se incluem a si mesmos entre os "vencidos do catolicismo", na expressão do poeta que João Bénard popularizou, querendo nomear todos aqueles que, nos difíceis anos 60 e 70, se afastaram da Igreja sem perder a fé.
Não tem uma opinião distanciada, nem quer ter, nem é talvez possível tê-la sobre esta poesia tão confessional. O próprio Mexia nos diz que se reconhece "na sensação de vencidos do catolicismo", o que é raro na nossa geração - em que todos os católicos são vencidos. "Católico como ele, vivi um confronto semelhante, embora tão diferente, já não com a cultura oficial católica mas com o catolicismo feito resquício de um universo que acabou, ridicularizado na praça pública, vinte séculos de ideias sobre a graça, o perdão e a substância do tempo afunilados na mercearia dos costumes sexuais."
Apesar dos pesares, vale a pena voltar a Ruy Belo porque os "vinte séculos de ideias sobre a graça" talvez tenham algo a dizer ao nosso "tempo detergente".

Da Série "Eu Sei Quem Tu És"

"So has Fr. Sirico mixed libertarian heresy about human freedom into his Christian view of morality and law? I’ll leave that for him to reflect on. But it isn’t difficult to imagine how a person can be so committed to free markets and minimal government that he erroneously discerns an antitax message in Catholic moral theology, and thereby engages in the error biblical scholars call “eisegesis,” reading into someone else’s position what you want to find there."
(P.S. Leste isto, Chelo?)

O melhor resumo

"Before I get spun, I'd say: small, Pyrrhic victory for McCain. McCain wanted to make Obama seem naive and inexperienced. He did about 40% of that. Obama wanted to make McCain seem dangerously ambitious, bellicose and hotheaded. He did 0% of that. But a) the foreign policy stuff came after a long period on the economy, where McCain seemed a bit frenetic and Obama had the upper hand; and b) Obama didn't seem non-credible, which may be enough to carry him through given all the other advantages he has." Aqui.

He says, “We're going to wipe Israel off the face of the Earth,” and we say, “No, you're not?”

O outro momento do debate. Quanto às sondagens: irrelevantes. Não interessa quem as pessoas pensam que ganhou o debate. Interessa em quem tencionam votar em Novembro. Ganhar um debate significa ganhar com o debate.

Se isto não é uma gaffe?



Ver o fim do video. Resta saber até que ponto a maior gaffe da campanha até agora penetrará o silêncio imposto pelos media. É claro que a hostilidade entre a campanha de McCain e a imprensa foi um erro possivelmente fatal. Os media de referência são mais poderosos do que há quatro ou oito anos. E McCain levou o conflito muito mais longe e mais a sério do que Bush.

Obama perde debate?

Primeira impressão

Muito claro porque McCain pensa que não se deve votar Obama. Não creio que Obama tenha conseguido explicar porque não se deve votar McCain. Pelo contrário, a sua preocupação foi insistir na coincidência de opiniões entre os dois. Não quero chamar imediatemente a isto um erro, mas é uma estratégia que me deixa perplexo. Mais comentários em breve.

Novas sondagens estaduais

Não é o desastre para McCain. Um mau resultado na Virginia, que na minha opinião é um estado que McCain tem de ganhar. Mas o resto continua estável, contra todas as previsões. Se me dissessem há duas semanas que McCain sobreviveria a um colapso em Wall Street, decerto não acreditaria. Isto revela uma resistência a Obama que não pode deixar de preocupar a sua campanha. Afinal, a situação nos mercados financeiros só pode melhorar.

30 minutos antes do debate McCain-Obama

São raros os posts que me ajudam a olhar a realidade política com maior transparência. Miguel Morgado escreveu um post assim. Concluiu que o grande mérito de McCain foi o de ter conseguido transformar, aos olhos dos americanos, uma crise de natureza financeira numa crise com implicações no plano da segurança nacional. Se Obama podia surgir alguns dias atrás como o candidato mais indicado para atenuar os efeitos de uma crise radicada na Administração Bush, neste preciso momento em que escrevo, McCain surge aos olhos dos americanos como o candidato mais habilitado a assumir o posto de "comandante-em chefe" que os Estados Unidos necessitam.

Sexta-feira, 26 de Setembro de 2008

Psicanálise política

Este blogue, que descobri pelas piores razões, ilustra bem uma particular tendência cujas origens e mecânica me interessa explorar. Seja colocada uma questão, um problema, o primeiro momento, na confusão, consiste em olhar para os nomes: quem escreve, quem recomenda, em que revista ou organização. A análise do conteúdo nunca chega. É uma forma de pensamento mágico.

Um debate antigo

Steven Hayward diz algo importante: "Palin's ascent revives issues and arguments about self-government that raged at the time of the American founding and before. Indeed, the basic problems of the few and the many, and the sources of wisdom and virtue in politics, stretch back to antiquity."

Um incansável apoiante de José Sócrates

É um homem que não gosta de sala... salamaqueques[sic] e que, seriamente, receia bem que o PSD comece a apoiar a Coreia do Norte. Sim, isso mesmo. É verdade que fica um bocadinho confuso com o sentido das fábulas, mas, coitado, cada um dá o que tem e a mais não é obrigado. Seja como for, espera-se ansiosamente que o futuro inquilino da Casa Branca declare Manuela Ferreira Leite como o novo braço do Eixo do Mal. A esta hora, já haverá operacionais da CIA em volta da São Caetano.
A sério. Venham ver aqui.

Libertários 2

O André não podia estar mais certo. Só a palavra "fusão" é que pode induzir em erro, já que também pode traduzir um processo através do qual se gera uma coisa diferente dos dois elementos (Estado, mercado) fundidos. Na realidade, como já aqui se disse, no pensamento libertário trata-se de se subsumir o Estado no mercado. O exemplo mais nítido ocorre quando se procede à justificação libertária do Estado, a chamada tese do Estado mínimo. A justificação da existência do Estado cinge-se à lógica estrita do mercado, na medida em que o Estado aparece como um prestador de serviços - segurança interna e externa -, com clientes e livro de reclamações, e cujo funcionamento tem como regra única a análise de custos-benefícios. Isto pode ser muita coisa; mas "separação" não é. Para falar de "separação" temos de recorrer a um horizonte político em que se pretende proteger o Estado da penetração do domínio económico, ou como diriam alguns, em que se torna necessário proteger o "político"; e encontramo-la também nas perspectivas que colocam o Estado numa instância superior de forma a operar a conciliação da fragmentação produzida pelo "sistema de necessidades". Horizontes esses que não se confundem com o horizonte libertário.

A Reforma Educativa em Inglaterra

O Fórum para a Liberdade de Educação organiza na próxima Segunda-feira, dia 29, pelas 10h, mais uma conferência no âmbito do Ciclo de Encontros Reformas Educativas de Sucesso. Jim Knight MP, Minister of State for Schools and Learners, é o conferencista convidado para falar sobre a reforma do sistema de ensino em Inglaterra. Numa altura em que paira sobre a equipa da Ministra Maria de Lurdes Rodrigues a acusação de facilitismo e abaixamento da exigência no ensino, será interessante ouvir com atenção um dos principais protagonistas de uma reforma que teve por lema "Higher standards, Better Schools for all. More choice for parents and pupils". A conferência conta ainda com a participação de Júlio Pedrosa, Guilherme d'Oliveira Martins e Joaquim de Azevedo. A não perder na Universidade Católica de Lisboa.

Inverno demográfico



Amanhã, Sábado, 27 de Setembro, há um Seminário sobre a queda da taxa de natalidade em todo o mundo e as suas consequências. É no auditório do edifício novo da Assembleia da República, a partir da 10 horas. Mais informações aqui.

Greenspan

Não posso de todo concordar com as críticas exageradas que estão a ser feitas à política monetária do FED quando liderado por Greenspan e que têm como objectivo colocar-lhe uma grande parte da culpa na crise que estamos a presenciar. Talvez devessem tentar a sorte colocando a questão na área da supervisão do FED, mas duvido que o resultado fosse muito melhor. Recentemente existiram dezenas de bolhas no imobiliário no mundo inteiro. Culpa do FED? Foi Greenspan o culpado pela crise imobiliária da Austrália ou de Espanha? É melhor não divagar em excesso, mas as taxas estavam excessivamente baixas em comparação com que alternativa? É que eu ainda sou do tempo em que a discussão nos EUA girava no virar de século à volta dos perigos reais de deflação. Taxas demasiado baixas e perigos de deflação? Afinal em que ficamos? E qual é exactamente o impacto que se pensa que alterações em taxas de curto prazo têm em escolhas a 30 anos, sobretudo num mercado com uma certa tradição de utilização de taxas fixas? Ah, porque isso abre as portas a algumas práticas de "predatory lending", o que é um crime que, como Greenspan relembrou recentemente, cai na alçada dos "attorneys general". Como a seu tempo referiu que parte do aumento de preços de alguns activos advinha da aceitação por parte de investidores de uma menor remuneração por risco, e que a história não era propriamente amiga nas fases pós-risco baixo. Não sendo perfeito, Alan Greenspan foi um dos mais fantásticos presidentes de um banco central de todos os tempos. Talvez não seja este o momento oportuno para o dizer, mas felizmente não tenho qualquer limitação nem interesse nesta coisa da "oportunidade".

Plataforma Centenário da República

Na próxima 2ª, 29 de Setembro, às 15h, na York House de Lisboa, será lançada a Plataforma do Centenário da República, iniciativa de um grupo de monárquicos para lembrar que o 5 de Outubro não foi bem a aurora do progresso.
Não sendo eu monárquico, estarei presente porque vale a pena contrariar a verdade dos vencedores que nos darão da Primeira República as comemorações oficiais.
Ah, e porque fui convidado por um amigo.

Invasões bárbaras

Tem razão o Filipe Nunes Vicente: identificar genericamente imigração e criminalidade é um erro.
Antes de mais, traduz um preconceito (injusto, como todos os preconceitos) que começa a tornar-se vox populi. Em que dados se baseia Garcia Leandro para afirmar que, em cada cem imigrantes, há um "mau"? Faz-me lembrar os cálculos de uma dona-de-casa que compra fruta na mercearia. E se eram "bons" para trabalhar nas obras, já não são quando a sociedade portuguesa ignora os seus direitos elementares porque precisa de mão-de-obra barata, ou nunca pensou como integrá-los, ou não controla os ilegais? E a criminalidade violenta é monopólio de estrangeiros? Na Quinta da Fonte, em Alhos Vedros, no Bairro do Aleixo, na Ribeira do Porto, temos visto outra coisa. Ciganos, africanos de segunda geração, gangs do futebol, que talvez não tenham chegado este Verão, também entram nas contas? Garcia Leandro mistura tudo, o que é o melhor caminho para não compreendermos nada.
Pior ainda, a reconfortante generalização - o número de portugueses "maus" está muito abaixo do 1%, já se sabe - em nada contribui para uma política de imigração responsável. Política essa que não se fica pela questão da segurança. Enquanto discutimos o número de "maus" e de "bons", esquecemos o resto. Se há máfias russas e brasileiras, também há muitos imigrantes a quem o reagrupamento familiar é dificultado. Ora, quer-me parecer, como bom português e temente a Deus, que a mulher e os filhos por perto dissuadem mais um pistoleiro azougado do que um regimento inteiro do Corpo de Intervenção. Mas isto digo eu, que "sei pouco sobre esta divisão do mal pelas bandeiras".
Adenda: Nem de propósito, o Público traz hoje uma reportagem sobre a "exploração" (sic) de romenos nas vindimas. Só em Santa Marta de Penaguião, uma pequenaa aldeia do Douro, são 400. Prendam já os quatro maus - antes que eles se atrevam a morrer de fome, os bandidos.

Libertários

Mas se precisamente o objectivo do libertarianismo nunca foi separar o mercado e estado, mas sim fundir os dois, organizar o estado segundo o mercado e na base do mercado.

Só uma escola exigente é democrática

Por estes dias, milhão e meio de alunos portugueses voltam às aulas. Vão encontrar um sistema de ensino burocratizado, centralista e ineficiente. Irão para a escola que o Estado impõe aos seus pais de acordo com a área de residência ou de trabalho. Talvez não tenham ainda todos os professores nos primeiros dias, porque a colocação de contratados é um processo nacional de tentativa-erro. Alguns acabarão o ano sem dar todo o programa de Português ou de Matemática por causa da indisciplina dos colegas ou da desmotivação dos professores. Vão encontrar, sobretudo, um sistema que, ao fim de um século de ensino obrigatório, ainda não ultrapassou o maior desafio da escola pública: conciliar a igualdade de oportunidades e a procura da excelência. É o mesmo dilema entre a paixão da igualdade e a paixão da liberdade que Tocqueville via no coração da democracia moderna. Na França jacobina, a igualdade do Terror venceu a liberdade da Revolução. Com as devidas distâncias de uma analogia histórica, algo de semelhante se passa hoje no ensino português.
Vejamos um exemplo: os exames nacionais. O Governo socialista anunciou há dias, com retumbante publicidade, que a taxa de retenções (ou “chumbos”) no ensino básico e secundário do ano passado foi a mais baixa da década. No entanto, segundo a Sociedade Portuguesa de Matemática e a Associação de Professores de Português, isso aconteceu porque os exames foram deliberadamente facilitados. Nivelaram-se as notas para embelezar as estatísticas. O Ministério da Educação esquece que este admirável mundo novo da igualdade acaba também com o incentivo à excelência. Para quê estudar, se Maria de Lurdes Rodrigues dará a todos os alunos, no fim do ano, outro milagre das rosas?
Será isto verdadeiramente democrático? Condenar todos os alunos à mediocridade, mesmo aqueles que pelo seu esforço chegariam mais longe, é o melhor que a democracia portuguesa tem para lhes oferecer?
Acredito que não. Só uma escola exigente é democrática. O ensino formal que os mais pobres não receberem na escola dificilmente virão a receber em contextos informais como a família ou a comunidade. E, sem um ensino de qualidade, entrarão na vida activa em desvantagem – se conseguirem entrar na vida activa.
Só um sistema que permite a real liberdade de escolha dos pais é socialmente justo. Se as famílias estão descontentes com uma escola, devem ter o direito de optar por outra dentro do sistema público. Não há liberdade de escolha se o Estado limita a opção à ditadura do número da porta. Ou à largueza da bolsa doméstica.
Essa exigência e essa liberdade só serão possíveis com a avaliação das escolas. Não basta avaliar os professores para melhorar o ensino. Um professor não trabalha isolado – e, se o faz, algo vai mal. Há que avaliar os resultados de cada escola, responsabilizando as direcções e dando-lhes a maior autonomia pedagógica e administrativa para criarem um projecto educativo próprio.
É urgente reforçar o peso científico dos programas. Os alunos não têm que passar mais tempo nas aulas: basta diminuir a carga, de resto muito ideológica, das áreas curriculares não disciplinares. A disciplina de Português não tem que ensinar tolerância e multiculturalismo, mas gramática e ortografia. A disciplina de Matemática não tem que ensinar a respeitar a opinião dos outros, mas que 1+1=2 (independentemente das opiniões). Só uma escola onde se ensina que 1+1=2 pode ensinar o respeito pelos outros. Porque respeita o conhecimento, respeita os alunos, respeita as famílias e respeita os contribuintes que a pagam.
O país pode fazer mais e melhor para vencer o desafio da educação.

(Artigo no Público de ontem)

Ad Pessoam

Ataques que me são dirigidos enquanto pessoa.

Obama e o computador Magalhães

Excelente o comentário do leitor Rui Moreira abaixo.

A prova necessária

Sobre este texto de humor, duas coisas: primeiro, sendo de humor, é também de opinião e devia ser reservado para a página de editoriais. Segundo, se como diz este jornal de campanha, "não há provas de que McCain esteja a desempenhar um papel importante na crise", porque publica o New York Times um longo artigo de primeira página sobre o papel de McCain na crise?

Palin



Sobre este vídeo, e outros que estão disponíveis ou se seguirão. Claro que Palin tem enormes dificuldades em falar como um político profissional: hesita, tatareja, interrompe uma ideia para seguir uma ideia diferente, recua para um slogan ou outro, constrói frases incoerentes porque está a pensar na frase seguinte. Mas isso é porque, em muitos aspectos, Palin não é uma política profissional e nunca foi treinada na arte. Agora sejamos directos: aqueles de nós que conhecem políticos profissionais sabem que a arte é, na realidade, uma arte do vazio, em que velhos truques aprendidos ao longo do tempo permitem falar polidamente daquilo que nada se sabe. Seria bom que Palin soubesse fazer o mesmo? Não sei porquê. Estou muito mais interessado nos princípios que defende e na capacidade de raciocínio. Este vídeo é bastante reconfortante nos dois pontos. Palin tem a sua filosofia política no sítio certo. E sabe pensar. Imaginem, pensa tanto que, ao pensar na frase seguinte, até se atrapalha com a frase que ainda não terminou. Que ingenuidade, nenhum político a sério se deixaria apanhar em tal apronto. A pensar, vejam só.

Sarah, vem fazer campanha no Soho!

Vivemos tempos assombrosos

Reguladores federais assumem controlo do Washington Mutual. Não dá para acreditar. O meu amigo Miguel Morgado tem de explicar porque discordou de mim quando, já lá vão uns meses, previ o pânico.

Associated Press

Não é exactamente motivo de regozijo ver a nobre Associated Press reduzida ao papel da mais desavergonhada propaganda. No mesmo dia publicam uma peça deplorável em que McCain é acusado de chegar a Washington quando tudo está já resolvido e outra onde se diz que o acordo está em perigo de soçobrar. O jornalista não é o mesmo, mas na verdade nem um nem outro são jornalistas.

Política do ódio 3

Barack Obama ameaça estações de televisão que desobedeçam a instruções da sua campanha com represálias de uma futura administração democrata.

George W. Bush, os neo-liberais e os outros



Quem ande por aí a ler e a ouvir muito do que escreve e diz sobre a actual crise financeira norte-americana, com ramificações um pouco por tudo o que são economias "desenvolvidas" e "emergentes" só pode pensar que aquilo a que assistimos é culpa de George W. Bush e, às vezes, de Ronald Reagan. E no entanto, pelo meio, durante oito anos, Bill Clinton foi cúmplice da economia de mercado, "neo-liberal" e/ou de "casino" que agora nos aparece em profunda crise. Como se não bastasse, vale a pena recordar que Alan Greenspan foi presidente da Reserva Federal durante décadas (1987-2006). No espaço de quase uma geração optou por uma política de redução sistemática das taxas de juro cada vez que no horizonte surgia o mínimo sinal de recessão económica nos EUA.
Esta livre escolha teve, a médio-longo prazo, consequências negativas tão óbvias no sistema monetário e financeiro norte-americano que me abstenho de enunciá-las e explicá-las. Visto isto, penso que não é preciso dizer mais nada sobre a honestidade intelectual de muitos "comentadores" e "analistas" de coisas da economia e sobre a relevância de parte importante dos pseudo factos e argumentos que por aí se ouvem.

Quinta-feira, 25 de Setembro de 2008

A moral do país das fadas

O meu filho de cinco anos recusa-se a comer a sopa. Diz que agora só come comida de leão. Suspeito que esta revolta pré-adolescente se deva ao documentário sobre predadores que vimos ontem à noite, mas asseguro-lhe que os leões comem a sopa.

Se educar é introduzir à natureza das coisas, posso mentir sobre a natureza dos leões?
Posso. Chesterton chamava a isto "a moral do país das fadas". No reino da fantasia, as árvores são azuis e o bem vence o mal porque, na realidade, queremos acreditar que o bem pode vencer o mal, mesmo que as árvores não sejam azuis. Sabemos que às vezes o bem perde, mas acreditar que perde sempre seria desesperante. E falso. Ou seja, o contrário da verdadeira educação.

Pensando bem (ou pensando o bem?), a hipótese de que o mal vença sempre é tão improvável como a de os leões nunca comerem a sopa. Pensando ainda melhor, a natureza dos leões consiste em ajudar um carnívoro de cinco anos a comer a sopa. Para a próxima, vemos a Bela e o Monstro em vez da vida selvagem.

É Clinton o culpado da crise financeira?

O New York Times diz que sim.

A cilada

Como previ ontem, McCain esmaga Obama nos inquéritos realizados depois da suspensão da campanha:

"Before the announcement - which included about half of the total polling sample - Obama led by one point. But McCain led by 5 points in polling completed after his statement about the suspension of his campaign."
Entretanto, a Gallup daily mostra uma inversão diária notável: provavelmente 6 pontos de vantagem para McCain no dia de ontem, que apenas ganharão verdadeira dimensão a partir de amanhã.
Um dia em cheio para aqueles que recusam a política do ódio.

O Poder e os blogues

Ler isto e isto, do Paulo Pinto Mascarenhas no blogue Atlântico.

Abutre real (no feminino)


"A crise terá consequências benéficas? Se tudo descambar mesmo, dos EUA à Malveira, numa crise de proporções bíblicas, um só efeito agradável permanecerá. Durante para aí 100 anos não voltaremos a ouvir falar em 'liberalismo'.
Luís Rainha no 5dias

Okay, Luís, vamos rezar todos muito para tudo descambar mesmo.

Bill Clinton ao lado de McCain

Questionado sobre a proposta de McCain (adiamento do debate eleitoral e concentração na resolução da crise), Bill Clinton lembrou aquilo que os obamaníacos já esqueceram: "I remember he (McCain) asked for more debates to go all around the country." Só faltou mesmo acrescentar outra verdade: Quem recusou mais debates foi Obama.   


Coisas interessantes

Já não é a primeira vez que leio na blogosfera nacional repreensões a quem se dedica a acompanhar e a escrever sobre as eleições americanas. Dizem os críticos que essa atenção é, na melhor das hipóteses, injustificada, e, na pior, obstruidora do debate sobre as questões nacionais, essas sim verdadeiramente graves. O Cachimbo é um dos vários blogues que tem dado alguma prioridade à campanha presidencial nos EUA. Em parte, isso deve-se ao facto prosaico de o Cachimbo não se levar tanto a sério ao ponto de considerar que é aqui que os problemas do País serão resolvidos. Mas, na verdade, por estes lados gosta-se de escrever sobre assuntos "interessantes", independentemente de termos direito de voto para os decidir politicamente. E reconheçamos que a política americana tem sido mais "interessante" do que esta que temos tido em Portugal nos últimos tempos. Mal ou bem, nos EUA o discurso político diz alguma coisa. Eu queria ainda acrescentar que dar atenção aos EUA é só por si prática recomendável: a importância da América no mundo chega para justificar o "interesse". Mas isso implicaria uma desvalorização correspondente da nossa própria importância. O que não é nada recomendável.

Amanhãs que choram


O PCP, a caminho do seu XVIII Congresso, diz no Avante que "a traição de altos responsáveis do partido e do Estado" foi a causa das "derrotas do socialismo no Leste da Europa". Se alguém ainda levasse a sério o comunismo, seria muito interessante notar que esta frase põe em causa uma das ideias centrais de Lenine: a noção do partido como vanguarda do proletariado. Não é um pormenor para quem justificou o sacrifício de milhões de vidas, incluindo vidas comunistas, com o dogma de que o partido tem sempre razão e a verdade é revolucionária.

Do mal o menos, porém.

Há vinte anos, o PCP atribuiu a derrocada do Muro de Berlim às manigâncias do império americano e do grande capital. Agora, a culpa já é do Politburo. Talvez daqui a vinte anos reconheça que, afinal, o problema estava mesmo no tal socialismo.

Cachimbos de lá

Gustave Courbet, O Serão em Ornans (s.d.) [clicar para ver melhor]

O preço da modernidade

Sem ter a inclemente opinião do João Gonçalves sobre o Ministro da Cultura, que até já disse não gostar muito do figurino OPART, a entrevista do Público de ontem a Giovanni Andreoli, o ex-maestro do coro do São Carlos, mostra que há realmente algo de muito podre no reino da ópera nacional. Já nem falo da barraca exposta pelo João, a saber, que a programação da temporada se faz sem dar cavaco ao responsável pelo coro. A mim, chamou-me a atenção outra coisa.
Lembram-se de Das Märchen, a ópera encomendada a Emanuel Nunes e cuja estreia mundial foi o ponto alto da temporada do São Carlos no ano passado, com direito a transmissão via satélite para não sei quantos teatros do país? Pois bem: conta Andreoli, entre outras revelações curiosas, que não teve tempo suficiente para ensaiar tão histórico momento, exactamente devido à má distribuição do trabalho do coro ao longo da temporada. E eu a pensar que a música de Emanuel Nunes era mesmo assim...
Piadas à parte, e a ser verdade, estamos perante uma mistificação artística paga a peso de ouro com os nossos impostos - para estrangeiro ver. Um milhão de euros, segundo consta, por uma ópera difícil e mal ensaiada? É muito à frente. A modernidade tem custos, já sabíamos, mas não podia ser um bocadinho mais barata?

Nem todas as campanhas estão suspensas

A de Obama está em combustão acelerada.

Palin à conquista o mundo

Paquistão o primeiro a cair.

Quarta-feira, 24 de Setembro de 2008

O golpe

Quem tem acompanhado as últimas notícias sabe que o plano da administração para a crise financeira está agora muito perto de ser chumbado, com consequências difíceis de imaginar. Não tenho dúvidas que as críticas a McCain pelo cancelamento da campanha vão desaparecer quando virmos como a situação é séria. Obama ficará sozinho a debater o espelho, enquanto Pearl Harbor arde. A armadilha está montada.

E agora?



Campanha suspensa

Golpe excelente na mediania da campanha. Os dados estão colocados: temos de esperar pela opinião de um candidato que promete vir a ter algo a dizer. Obama: o silêncio habitual, a ignorância económica, a confusão. E a política do ódio.

Pacheco Pereira e a RTP

Pacheco Pereira desafiou a RTP e os jornalistas dos noticiários para um debate público acerca da propaganda ao PS a respeito do computador Magalhães. O director de informação da RTP, José Alberto Carvalho, não aceitou o desafio e explicou o motivo. Daniel Oliveira compreende a posição da RTP e pergunta por que razão escolheria o director de informação debater com Pacheco Pereira - a ideia é a de que Pacheco Pereira não tem nem "qualificações" nem "estatuto" que mereçam esse privilégio. Suspeito que o director da RTP recusou o desafio precisamente por causa do estatuto e especiais qualificações de Pacheco Pereira para um debate desta natureza

Confundidos


Que haja quem equipare a distribuição parola de computadores portáteis (já de si uma concepção esmolar da coisa) a algo realmente importante e fundamental (esta sim, de 'indiscutível alcance') como a alfabetização, diz muito sobre a confusão que grassa por aí.
No caso, é a habitual aflição em vir logo a correr defender (com aquela morna mediania "burguesa" disfarçada de "sensatez") as medidas mais "modernas" do Governo. Uma forma de nacional-saloiísmo como outra qualquer...

Não há aqui nenhuma "democratização da informática". Essa é uma fábula para embalar criancinhas ou adultos embasbacados. O que há é uma distribuição a esmo de portáteis. Independentemente do uso e abuso in-su-por-tá-vel de crianças (naturalmente simples, porque "não-informadas") e da falta de vergonha em ocupar escolas para o estendal da propaganda do Governo e aviltá-las com o primeiro-ministro esbracejando patranhas, e para lá da chantagem retórica de sugerir a "insensibilidade social" dos que se atrevem a desconfiar do circo e o piscar de olho ao ressentimento dos "pobrezinhos" para com os críticos (que não passam de privilegiados e por isso se dão ao luxo de troçar das migalhas "socráticas", etc), para lá de toda essa miséria, qualquer testa com locatário percebe que esta "generosidade informática", por si, não é nada. Não há aqui nenhuma "democratização informática". O que há é uma "democratização" da tralha.
Os portáteis são muito bonitinhos e tudo isto faz muito barulho (o silêncio para esta gente é insuportável) - mas não é a atirá-los com fanfarra para cima das crianças que elas e a Escola se salvam da irrelevância cultural. Sem as "competências" realmente importantes que estão antes de qualquer teclado, e que deviam ser politicamente fomentadas para termos uma Escola digna desse nome, sem essas, o pobre Magalhães será uma ferramenta muda, cega. E estúpida. Sócrates e a sua ministra parecem achar que isso basta para os "pobres".
O contrário disto seriam medidas políticas mais discretas, mais sérias, menos fáceis e, estas sim, verdadeiramente corajosas (Sócrates não entende que zaragata não é coragem - é arruaça), menos prestadas ao espalhafato e à permanente culpabilização "classista". O que é impossível. Porque este Governo só respira na propaganda.

Paraíso frio


O Público dedica hoje manchete, primeiras páginas e editorial ao caso do jovem finlandês que assassinou dez colegas numa escola. A Finlândia, país-modelo, está em estado de choque. É a segunda vez que acontece algo assim em menos de um ano e o anterior massacre, diz o jornal, levou o Governo a questionar o próprio sistema de ensino.
Para quem anda preocupado com o socialismo, aqui está um exemplo: a utopia de criar uma escola tão perfeita que nos ensine a ser bons. Infelizmente, a escola não costuma ter grande sucesso no ensino da bondade. Os pais, os parentes, os amigos, os padres, os vizinhos e outras velharias perversas dão mais resultados. E de graça. De resto, basta ler o artigo por alto para se ver que não havia muitos pais, parentes, amigos, padres e vizinhos na vida do agora tristemente célebre Matti Juhani Saari.
Talvez valha a pena lembrar este episódio nórdico quando nos voltarem a prometer, por cá, rios de leite e mel com a disciplina de Educação Cívica.

O mercado como substância permanente. Deus?

Um comentador de um texto abaixo escreve que "só não há mercado quando houve intervenção estatal. Se essa intervenção não existisse os privados teriam que chegar a um preço, e esse preço seria o preço de mercado." Isto é claramente falso. Não existe um mercado no computador onde escrevo porque eu não o quero vender. A nova regulação da contabilidade destruiu biliões de dólares ao impor preços de mercado mesmo quando os agentes não queriam vender! Ou seja: estes preços são tudo menos preços de mercado, são preços regulados. Mais uma vez, a questão é decidida pelo regulador, mas como tudo se passa ao nível sistémico ou estrutural, e como não existe uma intervenção posterior, surge a ilusão de que não houve intervenção no mercado. Por exemplo: se uma outra instituição decide vender determinados activos, o preço dos mesmos activos em meu poder é, por intervenção reguladora, determinado no mesmo valor, mesmo que de facto eu não tenha vendido, pelas regras de contabilizar a preços de mercado. Uma ajuda pública que salve a minha instituição é, paradoxalmente, uma atenuação da regulação estrutural que originou os problemas. O meu conselho para os liberais ou, como se diz por aqui, libertários: cuidado que, ao defender o mercado, não estejais a defender o regulador disfarçado de mercado, como a pobre ave que...

A nova geração mais bem preparada

"Estamos hoje a formar uma nova geração de portugueses que domina o inglês e as tecnologias de informação e comunicação. Será uma geração mais bem preparada e em melhores condições para servir o objectivo do desenvolvimento do nosso país", Sokrates gesagt hat.

E por trás de um Estado forte?

Isto não diz absolutamente nada. Que Estado? Um Estado cujo objectivo é criar um mercado? Um Estado com esse objectivo entre outros? Um Estado com outros objectivos?

Terça-feira, 23 de Setembro de 2008

Política do ódio 2



Barack Obama defendendo o ódio a tudo o que é estrangeiro.

Para um debate sério sobre a regulação

Agora que neste blogue e na blogosfera portuguesa em geral se inicia um debate sério sobre a ideia de regulação, convém começar pelo reconhecimento, talvez chocante, de que muitas vezes eliminar um determinado regime de regulação apenas aumenta o impacto da regulação pública no seu conjunto. O que quero defender é a desregulação sistémica. Há muita gente que diz, bom, para desregular basta deixar de fazer isto ou aquilo. Na maior parte das vezes tal significa tornar a regulação primária ou sistémica muito mais poderosa e ilimitada.

Magalhães Parteitag

Ponto de ordem

Ontem, citei aqui um post do Luís M. Jorge para zurzir o "provincianismo" anti-GOP de Palmira Silva. Hoje, o Luís faz notar que não se referia ao provincianismo de ninguém, mas apenas "ao eurocentrismo em abstracto" dos que atacam a Sra. Palin para não atacar o Sr. Sócrates.
Aceito o reparo e reconheço que não foi lá muito elegante usar um blogue simpático como o Vida Breve para ajustar contas com terceiros. O facto de eu concordar com o Luís não significa que ele concorde comigo. Está um cavalheiro de esquerda a tecer discretas loas a Obama e a discorrer "em abstracto" sobre "eurocentrismos" e outras palavras difíceis, quando subitamente se vê citado aqui no Cachimbo, um notório antro da reacção. Não se faz.
Além do mais, o Luís confessa ter escasso interesse na "visão do mundo" de Palmira Silva.
Ora aí está uma discordância. Embora nada tenha contra ou a favor da senhora, a sua "visão do mundo" parece-me fascinante. Acho digno de case study o modo como mistura argumentos de autoridade moral (eles mentem, nós não) e científica (eles recusam o evolucionismo, nós não) com a total incompreensão da realidade que critica (mas como pode alguém acreditar em Deus no século XXI? nós não). A isto chamo provincianismo: a incapacidade de compreender "visões do mundo" diferentes. Para Palmira Silva, a América resume-se a meia dúzia de blogues e intelectuais que conhece. O facto de haver milhões e milhões de eleitores que acreditam no relato bíblico da Criação não passa de um pormenor irritante (muito irritante) a ser varrido pelo progresso.
Palmira não chega a defender que se tire o direito de voto aos rednecks e aos born again christians. Mas, pelo sim pelo não, vale a pena estarmos atentos à sua "visão do mundo". Todas as intolerâncias começam pelo desprezo dos adversários.

Mercado e preço

"The bailout of Fannie and Freddie, the purchase of AIG, and the latest multi-hundred billion dollar Treasury scheme all have one thing in common: They seek to prevent the liquidation of bad debt and worthless assets at market prices, and instead try to prop up those markets and keep those assets trading at prices far in excess of what any buyer would be willing to pay."
Errado. Como é possível exigir a liquidação de activos aos preços de mercado quando não existe um mercado? Este foi precisamente o erro das regras de contabilidade introduzidas nos últimos anos.

Ah que giro o Magalhães! E é bom para o povo, coitadinho!...

Há uns que só sabem dizer mal, mas esses não fazem nada pela Pátria. Ele não, ele faz! Faz para nós! Ele sabe o que quer, ele tem um projecto. Ele vai em frente! Pela Força da Mudança! Ach!

Assustador

É assustador pensar que este homem pode um dia ser o presidente americano.

Magalhães! Yupiiii!...

Regulação? Não sei do que estão a falar

Gostava de confessar alguma perplexidade com o debate sobre a regulação dos mercados. O que entendemos por regulação? Se a ideia é a de que o mercado não pode funcionar sem algumas condições prévias, julgo que ninguém discorda. Condições prévias, claro, implica que não são fornecidas pelo próprio mercado; na altura em que estas condições são postas no lugar ainda não existe um mercado. Pensemos no governo da lei, para dar o exemplo óbvio. Mas é isto a regulação? Não, porque regular implica que já existe um mercado estabelecido, sobre o qual se pretende actuar com propósitos que ele, por si só, não consegue atingir. Será que esta crise demonstra a ausência de regulação? Espero que a discussão continue a mostrar o que me parece óbvio. Se o mercado não funciona, as causas só podem ser duas: ou foi insuficientemente estabelecido ou foi excessivamente regulado. Agora dizer que não funciona porque não foi regulado é algo que, de uma vez por todas, não faz qualquer sentido.

Outra espécie de "Projecto Magalhães"

Agora só com estudos internacionais

Ontem (e hoje) foi (e é) também o dia em que lemos a Ministra da Educação dizer que o país está preparado para ter 100% de aprovações no final do ensino básico, i.e., no final do 9º ano. Muito sinceramente, não percebo o que quer isto dizer: Será que vamos passar de uma taxa de abandono escolar, actualmente situada acima dos 30%, a uma situação em que é garantido que cada aluno que entra no sistema de ensino consegue terminar com sucesso o 9º ano? Ou será que mantemos uma taxa elevada de abandono escolar mas conseguimos garantir que cada aluno que entra no 9º ano acabará por o terminar com sucesso? Mas se assim for, se o conseguirmos fazer para o 9º ano, o que é que nos pode impedir de o fazer também para os anos anteriores? Por outro lado, será que as crianças portuguesas estão hoje muitíssimo mais inteligentes do que as crianças de há uns anos atrás? Ou será antes o caso de as crianças portuguesas que hoje têm 10 e 15 anos não saberem mais do que sabiam as crianças com 5 e 10 anos ontem? Quem sabe se os professores de agora não são muito mais capazes do que eram os professores de antigamente? Volto a dizer que não percebo o que neste momento se está a passar em Portugal no domínio da educação. Uma coisa, porém, começa a ser evidente para todos: os portugueses já não podem confiar neste Governo. Não estou a dizer que o Ministério da Educação anda deliberadamente a mentir; estou simplesmente a dizer que já de nada nos serve comparar os resultados dos alunos portugueses de hoje com os alunos portugueses de ontem. Por muito que as estatísticas nos digam que estamos hoje melhor do que estávamos no passado, não lhes podemos dar qualquer crédito. De agora em diante, as únicas estatísticas de que nos podemos socorrer serão as que resultam de estudos internacionais a comparar as realidades educativas de Portugal com os outro países da Europa e do Mundo.

O princípio e o fim de todas as coisas...

...é agora definido pelo Pedro Marques Lopes. Depois não se queixem da falta de qualidade dos políticos quando pessoas com nome, família, méritos académicos, cívicos e profissionais têm como recepção ao seu voluntarismo este tipo triste de insinuações, que com um pouco mais de coragem de quem as faz transformar-se-iam em acusações de facto.

Felizmente, como tem sido regra comum nos textos do autor sobre o PSD, a realidade está bem mais próxima dos antípodas.

Ele há coisas que não mudam


A senhora professora estava muito contente, porque inaugurou uma cantina, onde os meninos pobres podem almoçar de graça. (...) Perguntei à senhora professora quem tinha feito tanto bem à nossa escola e ela respondeu-me: - Foi o Estado Novo, que gosta muito das crianças e para elas tem mandado fazer escolas e cantinas, creches e parques. Mas as famílias que possam também devem ajudar. Não te esqueças de o dizer à tua mãe.”

In O Livro da Primeira Classe (1954), Ensino Primário Elementar, Ministério da Educação Nacional

Há dias assim

No dia 12 foi o "Dia do Diploma". Hoje é o "Dia do Computador Magalhães". O Primeiro Ministro e outros ministros andam pelas escolas do país a entregar diplomas e computadores aos alunos. E do governo do país - quem é que se ocupa?    

O que a filosofia clássica nos ensinou e os intelectuais modernos esqueceram

Victor Davis Hanson publicou um pequeno texto, Palin and Obama: What Really is Wisdom?, onde explica porque razão Sarah Palin é melhor estadista do que Obama.(*)

What is wisdom? Not necessarily degrees, glibness, poise, or factual recall, but the ability to understand human nature. And that requires two simple things: an inductive method of reasoning to look at the world empirically, and a body of knowledge and experience to draw on for guidance. (...) A Ronald Reagan (**) knew more about human nature, and thus what drives the Soviet Union than did all the Ivy League Soviet specialists that surrouded Jimmy Carter. (...) We in America, unlike the Europeans, know this intuitively.

(*) Confrontar com o texto de David Brooks, Why Experience Matters
(**) Sobre Ronald Reagan (com um agradecimento ao Pedro Picoito).

Política do ódio



Em quase vinte anos a acompanhar muito de perto campanhas políticas americanas - nacionais, estaduais e locais - não me lembro de alguma vez ter visto um anúncio tão vergonhoso como este. Não se trata apenas de aproveitar o ressentimento e o ódio. Esta perigosa propaganda produz ressentimento onde ele porventura possa não existir.

Segunda-feira, 22 de Setembro de 2008

God bless you, camaradas (once more)

Uma coisa tenho que reconhecer: se não fossem Sarah Palin e Palmira Silva, as eleições americanas seriam uma seca. Antes de ambas chegarem, o frisson limitava-se ao passado heróico de McCain e às viagens europeias de Obama. Depois, eis que temos de repente adolescentes grávidas, filhos secretos, perseguições a inimigos, favores a amigos, Deus e o Iraque, a Criação em sete dias, obstrução da justiça, superstição, obscurantismo, guerra com a Rússia, emails violados - e muito mais.
Tanto que a Dra. Palmira Silva, quase sempre recluída às frias alturas da ciência, se sentiu obrigada a descer a este mundo para iluminar os cafres sobre a infernal essência dos republicanos. Ainda que os cafres, ingratos, teimem em não fazer penitência por adorarem ídolos com pés de gelo. A Dra. Palmira, munida da sua fé na redenção dos cafres, não desiste. Acumula provas da existência, não de Deus, mas do mal encarnado no Fausto McCain e na Sarah Mefistófeles que fariam a inveja de um inquisidor alemão.
Agora descobriu que o candidato republicano não sabe quem é Zapatero. Valha-nos Deus...
Eu podia lembrar-lhe que Bush também não sabia quem era o Presidente do Paquistão alguns meses antes de chegar à Casa Branca. O que não o impediu de ganhar as eleições e de ser reeleito para um segundo mandato. Os americanos, apesar da estranha mania de chumbar políticos com mais de uma cama, são notoriamente pouco exigentes em matéria de geografia.
O Luís já deu o nome certo a esta indignação: provincianismo. A Dra. Palmira, sempre tão atenta aos pecados da "direita religiosa", talvez não saiba afinal de que religião está a falar. A da "evangélica" Palin não é a do metodista Bush. A da presbiteriana Condoleezza Rice não é a do mórmon Mitt Romney.
Tanto faz. Para a Dra. Palmira, vão todos para o inferno. Onde provavelmente nunca se cruzarão com o Sr. Zapatero.

Como um excesso de regulação conduziu ao desastre

Impondo requisitos de capital que eram dispensados se um banco obtivesse garantias junto de uma seguradora, Basileia criou um novo negócio em "regulatory capital relief." As seguradoras passaram a vender desregulação em vez de controlo de risco. Um modelo de negócios errado? Talvez, mas o modelo que falhou foi criado pelo regulador, e qualquer modelo de negócios criado por um regulador tem necessariamente de falhar.

Uma boa piada incompleta

Esta, do Brad Delong:

«Is 2008 Our 1929?

No. It is not. The most important reason it is not is that Bernanke and Paulson are both focused like laser beams on not making the same mistakes as were made in 1929.

They are also focused, but not quite as much, on not making the mistakes made by Arthur Burns in the 1970s.

And they are also focused, but not quite as much, on not making the mistakes the Bank of Japan made in the 1990s.

They want to make their own, original, mistakes...»

Mas sem entrar em detalhes para os quais não há tempo nem especial interesse, houve, também nos anos 90, uma crise "interessante" no sistema financeiro, desta vez nos países nórdicos e, à escala deles, o problema foi gigantescamente sério. Só na Suécia o esforço de intervenção do governo foi de 4% do PIB, o que a prazo foi suavizado para aproximadamente metade após vendas de activos adquiridos e, há quem alegue, transformado em lucro se medidos os devidos ganhos de produtividade. Há um documento no site do FMI que resume bem o que aconteceu e explica a necessidade e sucesso da intervenção do estado na anulação do risco sistémico. Aliás, com bem cita o documento, a crise financeira nos nórdicos foi a primeira crise sistémica em países industrializados após 1930 (excluindo a 2ª guerra). Não foi, como certamente não vai ser esta (daí a relativa ironia do Brad DeLong), uma intervenção perfeita. Mas a pressão do tempo não está alinhada com a maximização da eficiência, existindo sobretudo um enfoque pragmático na eficácia. Até ver, tanto a intervenção nos nórdicos como a intervenção nos EUA difere dos erros crónicos que foram adoptados no texto acima citado e embora as crises nórdica e dos EUA tenham naturezas distintas nos problemas e nas soluções, elas parecem ter em comum  a existência de uma incapacidade de auto-regeneração (de todo ou com custos suportáveis) e a necessidade de intervenção de uma força estabilizadora capaz de trazer de novo os privados ao jogo, de modo a que o estado se possa colocar outra vez fora, apenas como observador e regulador.

Ao contrário de vários socialistas, a administração Bush e o FED não gostam do que está a acontecer nem dos instrumentos que estão a ter de activar. Não é esta a oportunidade que eles estavam à espera. A decisão, tal como nos nórdicos (ver documento do FMI), não está a ser tão política quanto se pensa, como se pode constatar nesta entrevista do Secretário de Estado do Tesouro ao Meet The Press ontem. Fazem-no por imperativo de necessidade concreta, a qual só pode ser negada por uma espécie de abstracção intelectual absolutamente inconsequente. Mas as boas notícias desta série de crises citadas é a raridade com que elas acontecem à escala global nos países "ricos" e a capacidade crescente de lidar com elas. Não é suposto, ou pelo menos não é possível pensar, que o sistema seja perfeito em si mesmo, mas não é por isso que ele deixa de ser uma das mais fantásticas "criações" económicas e um dos mais poderosos instrumentos de enriquecimento das sociedades modernas. E que, já agora, vai continuar, para miséria dos amanhãs que cantam e felicidade de todos nós.

A Reforma Educativa em Inglaterra

Recomenda-se. 29 de Setembro, 10h, Católica de Lisboa, ver detalhes aqui.

Cartão electrónico




Uma discussão interessante iniciada por Maria João Pires no 5dias.

Domingo, 21 de Setembro de 2008

Vida e obra do engenheiro

Segundo o Expresso, o nosso primeiro-ministro, por alturas daquela história curiosíssima, por aí falada, da sua passagem pela tal Independente, onde teria respigado uma licenciatura, terá dito, a José Manuel Fernandes, pelo telefone, esta coisinha:

'Fiquei com uma boa relação com o seu accionista [Paulo Azevedo] e vamos ver se isto não se altera...'

Ainda não foi desmentido. Aquilo tem um tom intimidatório. Aquilo é uma ameaça. A ser verdade, temos um primeiro-ministro que, pura e simplesmente, ameaça o responsável máximo de um orgão de comunicação social. A ameaça tipicamente enviezada que se socorre da influência sobre um outro "poderoso" que pende sobre a vítima. A ser verdade, tudo isto é edificante. E diz muito. Muitíssimo, sobre muita coisa.
Não se ouve nada.
Será que toda a gente acha isto normal?...

Deve ser mentira

Segundo o Expresso, o nosso Primeiro-Ministro e os assessores têm o curioso hábito de telefonar para rádios e jornais quando as notícias não lhes agradam.
Deve ser mentira.
Se fosse verdade, o Cinco Dias já teria condenado a importação de práticas republicanas do Alasca.

Azul

ÚLTIMAS SONDAGENS
Domingo, 21 de Setembro

GALLUP
Obama 49 McCain 45
Obama +4

RASMUSSEN
Obama 48 McCain 47
Obama +1

HOTLINE/FD
Obama 45 McCain 44
Obama +1

Sábado, 20 de Setembro de 2008

A via negativa



Patrick Geary, um dos mais brilhantes medievalistas americanos, esteve há dias em Lisboa para lançar a tradução do livro que vêem aí em cima (O Mito das Nações, da Gradiva) e participar num seminário do Instituto de Estudos Medievais da Universidade Nova sobre o mesmo tema ("The Middle Ages and Contemporary Nationalism"). Assisti ao seminário. Geary fala como escreve: com frases curtas, incisivas, lógicas, articuladas. É extremamente persuasivo. Vai directo ao assunto e, apesar do humor (quando falhou o powerpoint, ameaçou contar piadas étnicas...), não faz a mais pequena concessão à superficialidade ou à retórica. Um scholar consumado, vindo da UCLA para dar alguma esperança aos "portuguese colleagues" (thanks, pá, mas não era preciso exagerar).
O exemplo com que abriu a sua lecture não podia ser mais actual: a Ossétia. Esta república independentista justifica a secessão da Geórgia com a herança dos longínquos Alanos, um dos povos bárbaros que invadiram o Império Romano e se instalaram no actual território português - o que nos faz parentes dos Ossetas, lembrou Geary, entre os risos da assistência. O facto de os Alanos terem desaparecido sem deixar rasto é um pormenor. Não se trata de caso único. A recuperação de uma identidade medieval por leituras nacionalistas anacrónicas está também presente na Sérvia e no Kosovo, na República Checa e na Eslováquia, na Polónia e na Escócia, em França e no País Basco. Todos procuram na Idade Média não apenas o seu passado, o que seria legítimo, mas a sua essência, o que já oferece muitas dúvidas.
Geary, no entanto, vai mais longe do que Hobsbawm ou Benedict Anderson, que explicam os nacionalismos contemporâneos como "invenção da tradição" ou "comunidades imaginadas". Estas fórmulas clássicas não nos dizem o que fazer com os fragmentos realmente existentes das nações medievais que chegaram até aos nossos dias, fragmentos com os quais os líderes políticos nacionalistas, pelo contrário, sabem muito bem o que fazer. A verdade é que os povos da Idade Média tinham identidades, mas eram identidades complexas, sobrepostas, heterogéneas. Não tinham a unidade biológica, cultural, linguística, religiosa ou até política que lhes atribuíam os historiadores nacionalistas dos séculos XIX e XX. Não há, pois, continuidade étnica entre as nações medievais e as actuais, apenas a mudança que constitui a própria história. "European peoples continue to be works in progress": a sua essência é não serem hoje o que eram há mil anos. Por outras palavras, a essência de um povo não existe.
Eis uma lição para os historiadores, que deveriam ser cépticos profissionais, ser críticos dos lugares-comuns sobre o passado, da linguagem histórica dominante, dos usos da história pelos políticos. O "ídolo das origens", como lhe chamou Marc Bloch, que procura a essência da identidade nas origens, é a negação da história porque a história procura o que muda. A história é uma via negativa para o presente, diz Geary com uma expressão da teologia escolástica. Cabe-lhe lembrar que não se pode usar o passado para justificar o presente.
O que inclui tanto os nacionalismos como o europeísmo. "Um historiador céptico quanto ao uso da história para criar divisões [nacionais] não deve também ser céptico quanto ao uso da história para criar a união [europeia]?"
Gostei de ouvir. E vou ler o livro.

Há Muito Tempo Que Não Punha Aqui Nada Sobre Sarah Palin...

Relevante mesmo que ninguém queira falar disso

«Existem milhares de lojas fechadas nas principais artérias da cidade», levando para o «desemprego milhares de trabalhadores», afirmou o presidente da União das Associações do Comércio e Serviços, Vasco de Mello, acrescentando que muitas destas lojas e empresas na cidade de Lisboa não voltarão a abrir as portas devido à crise. Trata-se de um «fenómeno novo» que se sente nos últimos dois anos no comércio tradicional da capital: «Os estabelecimentos encerram e não voltam a abrir», ficando as lojas vazias e fechadas, revelou Vasco de Mello, citado pela Agência Lusa. As zonas mais afectadas são a avenida Almirante Reis, entre a Baixa e o Areeiro e as ruas Saraiva de Carvalho e Ferreira Borges, em Campo de Ourique. Nada disto é exagerado. Aqui fica um desafio. Façam um passeio, como eu fiz, pela lisboeta Almirante Reis, para ver com os próprios olhos como a crise é bem real.

Sexta-feira, 19 de Setembro de 2008

Um Socialista

O Meu Combate

É admirável o número de vezes que o combatente Pedro Nuno Santos (deputado do PS e "ex-líder" da JS) consegue dizer "combate" em tão pouco tempo. Parece que há pessoas que só pensam em combater.
Vejam aqui:

FAQ do Lehman e da AIG

No blogue Freakonomics, Steven Levitt foi tirar algumas dúvidas com dois colegas do lado, professores de Finanças em Chicago, Douglas Diamond e Anil Kashyap. Puseram a conversa em "papel" e ela está aqui. Vale bem a pena fazer uma pausa para café e ler na totalidade, mas ficam já aqui alguns excertos:

«For most of the last 20 years we have been studying banks, monetary policy, and financial crises. So for us the events of the last year have been especially fascinating. The last 10 days have been the most remarkable period of government intervention into the financial system since the Great Depression(...)

Fannie and Freddie were weakly supervised and strayed from the core mission. They began using their subsidized financing to buy mortgage-backed securities which were backed by pools of mortgages that did not meet their usual standards. Over the last year, it became clear that their thin capital was not enough to cover the losses on these subprime mortgages. The massive amount of diffusely held debt would have caused collapses everywhere if it was defaulted upon; so the Treasury announced that it would explicitly guarantee the debt(...)

Lehman’s costs of borrowing rose and its share price fell. With an impending downgrade to its credit rating looming, legal restrictions were going to prevent certain firms from continuing to lend to Lehman. Other counterparties that might have been able to lend, even if Lehman’s credit rating was impaired, simply decided that the chance of default in the near future was too high, partly because they feared that future credit conditions would get even tighter and force Lehman and others to default at that time(...)

Given the huge size of the contracts and the number of parties intertwined, the Federal Reserve decided that a default by A.I.G. would wreak havoc on the financial system and cause contagious failures. There was an immediate need to get A.I.G. the collateral to honor its contracts, so the Fed loaned A.I.G. $85 billion(...)

3) Why did the Treasury and Fed let Lehman fail but rescue Bear Stearns, Fannie Mae, Freddie Mac, and A.I.G.?

We have already explained why Fannie, Freddie, and A.I.G. were supported. In March, Bear Stearns lost its access to credit in almost the same fashion as Lehman; yet Bear was rescued and Lehman was not.

Bear Stearns was bailed out for two reasons. One was that the Fed had very imperfect information about what was going on at Bear. The Fed was not Bear’s regulator, the amount of publicly available information was limited, and its staff was not versed in all of the ways in which Bear might have been connected to other parts of the financial system.

The second problem was that Bear’s counterparties in many transactions were not prepared for the sudden demise of Bear. A Bear bankruptcy might have triggered a wave of forced selling of collateral that Bear would have given its counterparties. Given the potential chaos that would have resulted from Bear Stearns filing for bankruptcy, the Fed had little choice but to engineer a rescue. In doing so, the Fed argued that the rescue was a rare, perhaps once-in-a-generation, event(...)

When Bear was rescued, the Fed created a new lending facility to help provide bridge financing to other investment banks. The new lending arrangement was proposed precisely because there were concerns that Lehman and other banks were at risk for a Bear-like run. Since March, the Fed had also studied what to do if this were to happen again; it concluded that if it modified its lending facility slightly, it could withstand a bankruptcy; it made these changes to the lending facility on Sunday night.

Once the Fed had made these changes and determined that it and the others in the market had an understanding of the indirect or “collateral damage” effects of a bankruptcy, it could rely on the protections of the bankruptcy code to stop the run on Lehman, and to sell its operating assets separately from its toxic mortgage-backed assets.

Against this backdrop, if the government had rescued Lehman, it would have repudiated the claim that the Bear rescue was extraordinary; it would have also conceded that in the six months since Bear failed, neither the new facility that it set up nor the other steps to make markets more robust were reliable. Essentially, the Fed and the Treasury would have been admitting that they had lied or were incompetent in stabilizing the financial system — or both.

It was not surprising that they drew the line at helping Lehman. Based on all the publicly available information, this was clearly the right thing to do(...)

5) What does it mean for the Fed and Treasury going ahead?

A reasonable reading of the recent bailouts suggests a simple rule: if a firm is on the verge of collapse and its ties to the financial system will lead to a cascade of chaos, the firm will be saved. A bankruptcy will be permitted only if the failure can be contained(...)

6) What does this mean for the markets going ahead?

Letting Lehman go means that the remaining large financial services firms now must understand that they need to manage their own risks more carefully. This includes both securing adequate funding and being prudent about which counterparties to rely upon. Both of these developments are welcome(...)

7) When will the turmoil end?

The inability to secure short-term funding fundamentally comes from having insufficient capital. There are many indicators that the largest financial institutions are collectively short of capital.
One signal is that there were apparently only two bidders for Lehman, when the ongoing value from operating most of the bank was surely far above the $3.60 share price from Friday.

Another is the elevated cost of borrowing that banks are charging each other. A third indicator is the reluctance to take on certain types of risk, such as jumbo mortgages, so that the cost of this type of borrowing is unusually high.

The fear of being the next Lehman ought to convince many of the large institutions that, despite however much they already raised, more is needed. It may be expensive to attract more equity financing, but the choice may be bankruptcy or sale. The decision by the Federal Reserve to not cut interest rates suggests the Fed also recognizes that the short-term interest rate is a very inefficient way to address this problem.»

Às vezes vale a pena lembrar o que já sabemos

This is an era when the noise produced by highly partisan TV hosts and blogs creates a crying need for at least one newspaper that we can count on to play it straight. (...) Most people can't spend hours every day cross-checking diverse sources of information to verify the accuracy of slanted stories and broadcasts.

Suart Taylor Campaign Lies, Media Double Standards NationalJournal.com

Carta aberta a Palmira Silva

Caríssima Palmira

Noto que ficou chocada porque McCain não sabe quem é Zapatero. Talvez pense que os americanos andam obcecados com a Europa como nós andamos com a América. Ou talvez pense que a Espanha tem de ser a preocupação maior de qualquer Presidente americano. Eventualmente, apenas uma suspeita minha, gosta tanto, tanto, tanto, tanto de Zapatero (e das políticas sociais do seu Governo nos últimos anos) que considera o espanhol o político mais importante da actualidade. Mas não fique assim. Até parece que não sabe que os americanos são incultos e pouco sofisticados. Olhe! Até o Obama - um homem tão brilhante, tão inteligente, tão cheio de vontade de mudar a América e o mundo, tão bem educado nas universidades da Ivy League - disse publicamente que teve um tio que participou na libertação de Auschwitz. Bem, parece que não era bem o tio, era tio-avô (mas okay, tanto brilhantismo pode justificar algum exibicionismo). Seja como for, tio-avô também é família e a libertação de um campo de concentração não é coisa pequena. O problema é que Auschwitz... foi libertado pelos russos. O Obama não podia dizer aos americanos que o tio(-avô) era amigo do Estaline, pois não? Ficava mal. Mas tudo bem. O esclarecimento acabou por aparecer. Alguém da campanha comunicou que o campo em causa era em Buchenwald. Como pode ver, os americanos são mesmo uns incultos. Com ou sem Ivy League eles não se safam. O McCain, pelos vistos, desconhece a política ibérica (calculo que também não saiba que por cá mora um tipo brilhante que ainda por cima tem nome de filósofo ilustre). O Obama, por outro lado, parece que não percebe nada da história do seu próprio país (e nem sequer da sua família).  Acho que a solução é os americanos não votarem em nenhum dos dois. O melhor mesmo era os americanos elegerem um europeu para Presidente dos Estados Unidos. Isso é que era! Um europeu culto e sofisticado. (Hhuumm... quem poderia ser....? Hhuumm... assim de repente não estou a ver..., mas de certeza que se arranja!) E, já agora, como quem não quer a coisa, que tal convencermos os americanos a deixarem-nos votar nas eleições deles? Nós, os europeus, finalmente com uma palavra a dizer acerca do destino político da maior potência mundial! Até já estou com água na boca... Eles são incultos e poucos sofisticados, de certeza que vão na nossa conversa. Temos que voltar a falar no assunto. 

Com os melhores cumprimentos
Nuno

Ainda Sobre as Falências

O filósofo inglês Herbert Spencer avisou em tempos que «the ultimate result of shielding men from the effects of folly, is to fill the world with fools». No mercado, os erros, em quantidade ou dimensão, têm consequências negativas que funcionam como incentivos bastante convincentes a intenções de prudência e boa gestão. Não são os únicos incentivos nem são um garante absoluto, mas a crença que as acções têm consequências (boas ou más) é um indutor estruturante na forma de procura de crescimento e eficiência. Esta é uma parte da história. A outra é que o mercado e as sociedades inovam, aceitam riscos e, não poucas vezes, quanto maior o risco maior o payback. Alguma crença de relativa segurança quando se assumem alguns "riscos" pode deslocar um pouco a fronteira da nossa acção para terrenos com maior payback final sem entrar em territórios de risco suicida, fazendo com que no final do dia o conjunto da economia fique mais rico.

Existe um estudo do Dani Rodrik onde se encontra uma relação entre o peso do estado e a abertura da sociedade ao comércio externo. Uma almofada social em caso de necessidade parece ser a contrapartida que as sociedades tendem a exigir face a uma maior exposição ao risco externo. A crença da existência de alguma intervenção estatal em momentos de crise séria surge como um estabilizador e potenciador de confiança, reduz o risco, aumenta o investimento e contribui para um maior enriquecimento da sociedade. Esta intervenção, que se pretende pontual e bem justificada, pode traduzir-se em pequenos instrumentos de rotina como faseamento excepcional de encargos fiscais ou flexibilização de garantias sem necessidade de acordar com Estaline ao lado.

Mas num momento de crise séria, em que no mercado gigantes financeiros fecham portas e outros lutam com pressa e desespero por não fechar, e em que nem o mercado nem os mecanimos de intervenção e regulação estatal rotineiros têm conseguido estancar o forte derrame, faz sentido defender intervenções extraordinárias, como foi o caso na Fannie Mae ou na AIG? Num momento em que num mercado com ramificações completamente transversais se vive num misto incerteza e medo, em que negócios em todo o mundo estão a parar porque o parceiro financeiro deixou de atender o telefone e de responder aos e.mails, justifica-se intervir? Num momento em que em caso de dúvida a ordem é para vender e assim sendo é melhor não comprar, poder-se-à intervir? Há quem pense que não, e julge, ao som de um "live and let die", que é tudo uma questão de responsabilidade individual e consequências, e que estas, como apontou Herbert Spencer, sinalizam as acções, sendo que destas ruínas surgirá um novo e melhor homem. Até lá comprem uma cadeira e disfrutem do som da distorção enquanto edifícios financeiros se desmoronam aos bocados.

Percebo a questão da responsabilidade individual e da sinalização das acções, mas percebê-lo não significa estender o argumento e pretender aplicá-lo até ao absurdo. Basta pensar um pouco no caso da AIG para ter a noção que defender a não intervenção não tem nada a ver com a responsabilidade individual de quem geria a AIG. Punir os "culpados" é importante, e a falência certamente os iria punir, mas a prioridade não é essa, a prioridade é proteger os inocentes ou, como o William Polley admitiu equacionar, os "perhaps less guilty". Pensar que uma intervenção torna potencial e futuramente irresponsável a administração de qualquer gigante com ramificações alegando "reféns" é não fazer a meretriz ideia de como funciona o mundo e não perceber a dimensão do dominó em que neste momento estamos.

O Kenneth Rogoff escreveu um importante artigo no Washington Post onde escreve que o facto de se ter optado por não intervir na Lehman foi um sinal positivo. Concordo, é importante que a factura desta situação seja efectivamente paga por quem a causou e que isso sinalize maior rigor em Wall Street. O problema é que é impossível enviar uma única factura para um único endereço, e o sinal emitido que, para além de se deixar alguns grupos falir, se está disposto a intervir para repor alguma confiança e proteger de catástrofes é essencial. Quem fica de que lado é uma decisão difícil, potencialmente subjectiva e, navegando algo à vista, poderemos retroactivamente encontrar algumas contradições sobre quem foi alvo ou não de intervenção, o que fará certamente imensa confusão aos puristas das extremidades para quem sempre tudo é claro. Mas como John Keynes uma vez disse, "it is better to be roughly right than to be precisely wrong".