Segunda-feira, 30 de Junho de 2008

Branding

Já depois da famosa readmissão do FC Porto à Liga dos Campeões, tenho visto em vários canais de televisão internacionais diversas entrevistas e conferências de imprensa com o Presidente da UEFA que se podem resumir assim:

Jornalista A: ... FC Porto?
Michel Platini: Os corruptos, a corrupção, os batoteiros...


Jornalista B: ... FC Porto?
Michel Platini: Os corruptos, a corrupção, os batoteiros...


Jornalista C: ... FC Porto?
Michel Platini: Os corruptos, a corrupção, os batoteiros...


Pelo que tenho entretanto lido em diversa imprensa internacional, e independentemente das decisões passadas e futuras da UEFA sobre o caso, a mensagem de Platini sobre o FCP passou. E de que forma.

A minha teoria da conspiração é maior que a tua

Em Portimão, alguém disparou meia dúzia de tiros contra um edifício onde o Primeiro-Ministro estivera minutos antes.
Aguardo que os sherlocks para quem o 11 de Setembro foi uma maquinação de Bush e dos judeus (Diana Andringa e Mário Soares, remember?) venham explicar-nos que o "atentado" a Sócrates não passa de um balão de oxigénio que dá jeito ao Governo.

Domingo, 29 de Junho de 2008

Uns e outros

Tenho lido aqui e ali que a adesão dos jovens portugueses aos movimentos de massas marxistas das décadas de 1960 e 1970 foi determinada pelo regime de Salazar e Caetano, como se não houvesse outra forma de resistência possível! Contudo, havia. As vidas e obras de autores como Eric Voegelin, Raymond Aron e Eugène Ionesco -- ora perseguidos, ora ostracizados, tanto à direita como à esquerda -- testemunham com invulgar transparência que havia no século XX um caminho de liberdade e sabedoria a percorrer por quem quisesse mesmo resistir aos movimentos ideológicos de massas.

Beirut - A Sunday Smile

Sucesso


Vale a pena relermos a já famosa citação:

Na verdade, a Directora Regional de Educação do Norte acabou por revelar o princípio que regula, a ideia que enforma a política de educação do seu Ministério em particular e do Governo. (Chega a ser divertido ver como estas pessoas, na volúpia do seu poderzinho, não resistem a “fazer” doutrina e exteriorizam, assim, para a ilustração dos indígenas, o seu “pensamento”, sem dúvida conscientes da sua elevada missão. Daí o tom de injunção moral, sentencioso, insuportavelmente “catequético”: a criatura atreve-se a perorar sobre “o que louva o trabalho do professor” etc )

O que importa é o “sucesso” (palavra mágica de virtudes ocultas), o sacro “sucesso”. “Os alunos têm direito a ter sucesso.” Não. Os alunos não têm direito ao “sucesso”. Os alunos têm, sim, direito a que lhes sejam garantidas as condições para poderem obter “sucesso”. Ou melhor, alcançar o “sucesso”. Os alunos devem ser postos perante a possibilidade do seu “sucesso”. A possibilidade tem de lhes estar garantida. Os esforços para isso nunca serão de mais. Mas não é o “sucesso” que é garantido. O “sucesso” é mais um mérito do que um direito.

O “pensamento” do Governo (revelado pelas tocantes injunções da DREN) é um insulto aos alunos e aos professores. Insulta os alunos, porque parte claramente do princípio que um aluno é uma entidade meramente passiva a quem é oferecido o “sucesso”. Não vale a pena exigir esforço, porque nunca o conseguiriam: não tem mal, aqui tens o teu "sucesso", toma-o, tens direito a ele. Insulta os professores, porque os ridiculariza, dando-lhes o sinal (e em forma de argumento ad baculum!) de que têm de baixar o grau de exigência e devem limitar-se a ser fornecedores de “sucesso”. Devem dar em bandeja ao aluno o terminus ad quem de todo um percurso sem verificarem se ele adquiriu as competências para caminhar até lá. Quer dizer, o “sucesso” não se discute. É um direito. Não sejamos ingénuos: aquelas frasezinhas da DREN condicionam não só o escrutínio dos correctores como o próprio sentido da tarefa do professor em geral. E têm um efeito verdadeiramente criminoso nos alunos. Criminoso.

Pede-se que o “sucesso” tenha correspondência numa efectiva apropriação de conhecimentos? Não. Exige-se que o “sucesso” seja carimbado nos alunos. Ao invés de todo o sentido, preconiza-se que não tem de haver (não deve haver!) uma qualidade efectiva que corresponda ao carimbo do “sucesso”. O que está por detrás deste “sucesso”? O vazio.
Não se trata de alcançar ou obter melhores resultados. Trata-se de mostrar melhores resultados. Se necessário, fabricam-se. Falsificam-se. Para uma coisa tão séria como o Ensino, esta gente procura uma solução meramente “retórica”.

E valem todos os truques: os critérios da “avaliação” dos professores (esse princípio absurdo – de cada vez que a “direita” o aplaude, está a fomentar o mesmo “facilitismo” contra o qual se esganiça tão alvoroçada, coitada); atira-se mais meia hora para cima de cada exame; baixa-se o seu grau de dificuldade até níveis que chegam a ser ridículos (como denunciaram várias vozes com autoridade – “pessimistas de serviço” e “ignorantes”, segundo a ministra e sua gente); amolecem-se os critérios de correcção até ficarem pueris. E como estas trapaças não são ainda suficientes, avisa-se os correctores de que não estão ali verdadeiramente para corrigir, verificar, aferir, mas sim para fazer momices estatísticas – participar na farsa.

Não se trata já de conformar, violentando-a, a realidade à “ideologia”. Trata-se antes de algo mais perverso, mais doentio. Esta gente trata de substituir a realidade pela “ideologia”.

“Os alunos têm direito a ter sucesso”. E, no entanto, àqueles que são realmente direitos dos alunos, direitos silenciosos, direitos cuja satisfação não se presta a anúncios de fanfarra e trombeta, a esses, o Governo mostra indiferença (quando não os atropela) e mente sem vergonha. É o caso desta história edificante do “Ensino Especial”.

O que aquela gente pensa, mas não se atreve a dizer, de cada vez que os mais conscienciosos se indignam com as trapaças dos exames, é isto:
“O quê? Estão doidos? Queriam fazer exames a sério aos nossos alunos, não?”

Para eles, os alunos portugueses não são merecedores de um Ensino a sério. Não valem a pena. Por isso, faz-se uma coisa a fingir. Brinca-se à Escola. O brinquedo somos nós todos.

O "Futebol" que Temos



Michel Platini, que não é nem ingénuo nem um D. Quixote, não quer o Futebol Clube do Porto na Liga dos Campeões de 2008-2009 por se ter provado, sem qualquer dúvida, que o actual campeão da Liga Portuguesa viciou, e tentou viciar, resultados desportivos. Mas na frente interna isto pouco importa. Tanto na Federação Portuguesa de Futebol, como na Liga de Futebol Profissional, não há, nem nunca houve, purismos e puritanismos.

Sábado, 28 de Junho de 2008

"... kiss my ass."

Ao que parece Bill Clinton só sairá em apoio de Obama depois deste "lhe beijar o rabo". No entanto, e a avaliar por umas palavrinhas proferidas pelo mesmo Obama no "comício" com Hillary Clinton em Unity ("I know how much we need both Bill and Hillary Clinton as a party. They have done so much great work. We need them badly."), é óbvio que o homem da "esperança" não só já está a beijar há muito os rabos do casal Clinton, como irá a beijar o que for preciso para contar com o apoio do ex. presidente e da ex. primeira dama e sua rival nas primárias. Ainda assim não será por isso que Obama deixará de ser o homem dos "princípios" e da certeza na luta contra o "sistema" lá da terrinha.
Foto daqui.

Sexta-feira, 27 de Junho de 2008

A purga

Hoje, em debate parlamentar, a respeito da saga dos Exames Nacionais, Paulo Portas citou um documento da Directora Regional da Educação do Norte (aquela de sinistra memória):

"Os alunos têm direito a ter sucesso. Talvez fosse útil excluir dos correctores aqueles professores que têm repetidamente classificações distantes da média. O que louva o trabalho do professor é o sucesso dos alunos."

Sim, leram bem.

Alvo: Trichet e BCE

O fenómeno não é imprevisível, em particular em contextos como o nosso actual, mas não deixa de chatear. Nos dias que correm, cresce a contestação irada a Trichet e ao Banco Central Europeu. Ontem foi a vez de Ângelo Correia mostrar a sua indignação. Segundo ele, Trichet e o Banco Central Europeu a que preside "não percebem nada", tal é a sua obcessão com critérios "monetaristas". Sem qualquer conhecimento dos dados da economia europeia, Ângelo Correia e os demais não se coíbem de criticar subidas da taxa de juro determinada pelo BCE (as descidas da taxa de juro presumivelmente nunca são criticadas). Eu nem duvido que Ângelo Correia saiba o que é o "monetarismo". Mas duvido que ele e a maior parte do restante coro de críticas à actuação do BCE percebam como é que a economia funciona, e qual a natureza da relação entre as taxas de juro (nominais e reais) e o comportamento da chamada "economia produtiva". Como em tantos outros casos, este tipo de crítica vulgar denuncia tanto de frustração como de ignorância. Principalmente, quando vem de cidadãos, produtores e consumidores portugueses.

Father Knows Best

Segundo Vital Moreira, o investimento dos socialistas em obras públicas é "aquilo que melhor pode aliviar a situação da classe média, dinamizando a economia, criando oportunidades de negócio para pequenas e médias empresas, gerando procura de serviços profissionais, etc."

Isso seria apenas parcialmente verdade se os cidadãos fossem incapazes de uma aplicação mais eficiente dos seus recursos, se fossem incapazes de detectar melhores "oportunidades de negócio", de gerar melhor oferta e "procura de serviços profissionais". Se os recursos não forem retirados aos privados, eles não vão parar ao fundo do mar sem utilização, terão uma aplicação alternativa que tudo indica ser mais eficiente do ponto de vista económico que a aplicação estatal em Portugal neste momento, dados os valores globais que estamos a falar (o que não quer dizer que não haja individualmente investimentos que se justifiquem).

O que Vital Moreira tem de explicar para justificar a generalidade que afirma, é porque é que retirando dinheiro aos privados, limitando-lhes ainda mais a tal capacidade de iniciativa, e dando-o ao estado, que por sua vez irá pagar a sua despesa burocrática de funcionamento antes de lançar o que restar em investimentos cuja última decisão é política, será melhor do que deixar estes mesmos recursos no bolso dos contribuintes.

Keynes seria o primeiro a não concordar com a visão de Vital Moreira, o diagnóstico dos problemas económicos do país tem sobretudo que ver com eficiência, produtividade e competitividade, aos quais se juntam alguns problemas financeiros e macroeconómicos (ex: défice externo, défice contas públicas, dívida pública, peso da fiscalidade, etc). E deste ponto de vista em que espécie de análise custo-benefício, com aplicação alternativa de recursos, se baseia Vital Moreira para defender a globalidade do "pacote de investimentos" para além dessa defesa ideológica e algo mitológica das alegadas bondades intrínsecas do investimento público?

Ouvi uma vez o ministro Pinho, um ou dois dias depois da demissão de Campos e Cunha, fazer exactamente o mesmo tipo de defesa ideológica cada vez que da plateia da Ordem dos Economistas surgiam questões específicas sobre determinados projectos, sobretudo dos grandes. Não convenceu, preocupou e criou uma escalada no tom das perguntas, ao ponto de lhe ser questionado se ele era ministro da economia (dos cidadãos e das empresas) ou uma espécie de ministro do plano descontextualizado no tempo e no espaço.

O que Vital Moreira diz é preocupante, pois é bem possível que seja quase só isso que Sócrates, Pinho e Lino nos tenham para dizer. Investimento, "dinamização" da economia? O Estado é que sabe. Já vimos este argumento na tela, o final não é feliz.

Da série «outras leituras»

Excelente artigo Biotech Enhancement and Natural Law, publicado no número 20 da New Atlantis, sobre os avanços científicos e o direito Natural.

Quinta-feira, 26 de Junho de 2008

Diogo Chang Faria

Anda, por aqui, uma jovem e promissora (boa) notícia para quem gosta de guitarra.

Aconselho o "clique". E mais não digo.

Do cinismo como política educativa

Sou professor há mais de uma década. Já ensinei a ler miúdos de bairros de lata e já dei aulas de Mestrado. Hoje, dou formação universitária a futuros professores do Básico, formação contínua a professores do Secundário e História ao 10º ano. Posso dizer que conheço o ofício e os que o exercem.
Ao contrário da lenda, são poucos os que escolhem esta profissão porque não têm outra "saída" - horrorosa palavra. Mas o desalento está no ar e sente-se cada vez mais. Nos melhores casos, os professores conformam-se com a mediocridade dos alunos, a indiferença dos pais, a solidão a que são votados pelas escolas, a burocrática estupidez do Ministério da Educação. Fazem o que têm a fazer e esforçam-se por ensinar, ainda que sem grande investimento pessoal. Aprenderam a defender-se. Mesmo assim, manter este low profile anos a fio pode ser uma espécie de heroísmo quotidiano. Nos piores casos, porém, os professores tornam-se cínicos. Deixam de acreditar que os alunos possam mudar ou que o seu trabalho sirva para alguma coisa, deixam de acreditar no sistema, deixam de acreditar em si próprios. Por vezes, passam a odiar tudo e todos - a profissão, os colegas, a Ministra ou o Ministro, os pais e, claro, os bárbaros que têm de enfrentar diariamente. Não é preciso ser um génio para ver aqui a origem de muitas depressões. E uma das principais causas de fracasso do ensino público.
O cancro do cinismo é o pior de tudo. Não é a indisciplina, nem o excesso de alunos, nem a ausência de reconhecimento, nem a falta de apoio, nem a incerteza profissional. Tudo isso é mau, é péssimo, mas pode remediar-se. A única coisa que não tem remédio é a perda de sentido. Um professor que não tem razões para ensinar está morto por dentro.
Não se espera, no entanto, que o cinismo ataque também as instituições. Ou a política educativa de um Governo democrático. Pelo contrário, é legítimo esperar que aqueles que nos governam, mal ou bem, e para isso foram eleitos, mal ou bem, acreditem que podem mudar as coisas. Acontece que as provas de aferição e os exames em curso revelam que o cancro do cinismo se tornou galopante no Ministério da Educação. A actual Ministra e a sua equipa, com o tenebroso GAVE à cabeça, já não acreditam que os resultados escolares possam melhorar pelo esforço dos professores e dos alunos. Mas como têm de mostrar serviço, e mostrar serviço é talvez a única motivação dos cínicos, reduziram a exigência dos testes para chegar a melhores resultados. Conseguiram - inevitavelmente. Na União Soviética, as estatísticas dos planos quinquenais também eram inevitavelmente gloriosas em nome dos amanhãs que cantam. Só que não estamos na União Soviética. Embora alguns idealistas não tenham dado por isso.
Ora, se um cínico é um idealista desiludido, nada o ilustra melhor do que este episódio. Depois de ter passado a legislatura a pedir à escola que nos desse a igualdade e o "homem novo", o tal que não fuma, fala inglês desde pequenino e acede ao futuro através do inesgotável Plano Tecnológico, o PS descobriu que a história anda mais devagar do que gostaria. Afinal, o bom selvagem não consegue somar 2+2 sem a mão invisível dos especialistas em "avaliação" da 5 de Outubro. Que não faltou. A bem dos manhãs que cantam, perdão, das estatísticas.
O embuste já foi denunciado, mas não deixa de ser criminoso. Porque se o cinismo pode acabar com um professor, o cinismo como política pode destruir uma geração inteira. Os que passaram pelas escolas portuguesas no último ano não sabem ainda, mas depressa hão-de dar conta que as suas notas falsas não têm crédito na universidade e no mercado de trabalho. Feliz ou infelizmente, quando perguntarem de quem é a culpa, Maria Lurdes Rodrigues e os outros cínicos não estarão cá para lhes responder.

Quarta-feira, 25 de Junho de 2008

Sossego e propostas

Tem uma certa piada, porque aquilo que se deveria pedir ao PSD pós-Congresso de um ponto de vista de gestão seria a operacionalização da equipa, sendo que parte dela consiste em recrutar e literalmente enfiar dentro dos "gabinetes" quadros do partido que construam as propostas do mesmo (não tanto a visão, análise, objectivos nem a estratégia, já alinhados pela Presidente).

O que algumas pessoas estão a pedir ao PSD é que se aventure de forma ligeira na produção instantânea de números e datas, uma espécie de leite instantâneo em pó. Parece um regresso à infância, em que existe uma necessidade incessante de entretenimento no berço. Nada disto tem como consequência um absoluto silêncio, mas quem não percebe que uma coisa é detectar um montante excessivo de investimento em obras públicas e uma outra coisa é análise uma a uma e hierarquizá-las para definir o ponto máximo de execução e respectiva calendarização, percebe efectivamente muito pouco. Ou isso ou a má fé. Ou as duas.

Terça-feira, 24 de Junho de 2008

Justiça é...



Segunda-feira, 23 de Junho de 2008

Palavras há muitas (2)


O João Galamba escreveu um post no 5 dias com uma resposta -- via José Manuel dos Santos no Expresso -- a este outro post que eu escrevi aqui no Cachimbo.
O desafio que lancei no meu post era o de questionar a natureza da retórica de Obama. Para João Galamba, o desafio foi exemplarmente superado por José Manuel dos Santos. E o que é que faz José Manuel dos Santos no seu artigo do Expresso? Enuncia os três meios retóricos elementares estudados por Aristóteles, nomeadamente o argumento (logos), a emoção (pathos) e o carácter (ethos), ao mesmo tempo que afirma que Obama convence porque argumenta, porque emociona, porque há um “eu” que diz “vós” e é reconhecido. Para José Manuel dos Santos, ouvir Obama é voltar a ler a Retórica de Aristótles.
Porém, se considerarmos que a boa retórica aristotélica se resume a estes três meios elementares, e se a nossa intenção fosse justificar (e não apenas afirmar) que Obama é um bom exemplo da retórica aristotélica, o que deveríamos nós fazer? Deveríamos mostrar que a retórica de Obama não se limita a provocar um sentimento emocional na sua audiência e a induzir a audiência a formar uma opinião favorável sobre ele. Deveríamos, acima de tudo, mostrar que Obama convence a audiência pela força dos seus argumentos. Acontece que José Manuel dos Santos não tenta fazer nada disto e não apresenta os méritos de um único argumento de Obama. Obama é um bom exemplo da retórica aristotélica porque sim. Ponto final.
Mas não chega. A verdade é que, durante as primárias, a principal crítica a que Obama foi sujeito é a de ter um discurso vazio. Sem conteúdo. Centrado na sua pessoa. Um discurso com palavras sonantes como "mudança" e "esperança" e "sonho" ou slogans circulares do género "Nós somos aqueles por quem temos esperado". Não é difícil concluir que todos nós queremos a "mudança" para melhor. Não é difícil concluir que todos nós queremos ter "esperança" em vez de estarmos desesperados. Não é difícil concluir que todos nós temos um "sonho" que queremos realizar. Mas importa perguntar qual o sentido da mudança?! Importa perguntar qual o sentido da esperança?! Importa perguntar em que medida o sonho pode ser realizado?! É aqui que deve começar o argumento e acabar a má retórica (a mera produção de emoções na audiência). E é aqui, precisamente, que Obama se cala.
É claro que quando Obama discursa e fala às pessoas, cada uma delas identifica a "mudança" e a "esperança" de acordo com os seus "sonhos" pessoais, mas não é evidente que todas elas queiram mudar no mesmo sentido ou esperem o mesmo ou que todo e qualquer "sonho" possa ser realizado. O argumento deve discernir os fins e os meios da política e persuadir as pessoas de um caminho concreto e responsável que se pretende percorrer. Nada disto se vislumbra no discurso de Obama. Pelo contrário, ouvimos Obama dizer "Nós somos aqueles por quem temos esperado"? Mas que raio quer isto significar? Algum argumento racional pode ser construído a partir de um slogan que ninguém percebe o que significa? Alguém acredita que os milhares de pessoas que exultam quando ouvem Obama dizer “Nós somos aqueles por quem temos esperado” fazem a mínima ideia do que ele está a falar? Alguém acredita que o próprio Obama sabe do que está a falar? "Nós somos aqueles por quem temos esperado" é um eloquente resumo da má retórica de Obama: um slogan redondo, sem porta de entrada ou de saída. Argumento: zero! Emoção: a rodos! (Não é por acaso que Obama recusou os tais 10 debates propostos por McCain, em que cada um dos candidatos teria de responder a perguntas não planeadas feitas por membros da audiência –- recusou porque sabe que não é no argumento que reside a sua força.)
De facto, não basta afirmar que Obama é um exemplo da boa retórica aristotélica, é necessário argumentar. José Manuel dos Santos não argumenta, limita-se a afirmar –- ele também não é um bom exemplo da retórica aristotélica de que curiosamente diz ser adepto.
Em relação a João Galamba, a aposta parece ser na distinção do posicionamento de Platão e Aristóteles face à retórica. Sou capaz de acompanhar João Galamba quando ele afirma no seu post que Aristóteles procurou "reabilitar" o significado da retórica. Mas importa acrescentar que Aristóteles tentou reabilitar acima de tudo o elemento argumentativo da retórica, contra aqueles que a reduziam à mera produção de emoções na audiência. Neste sentido, Aristóteles seria hoje um acérrimo crítico da retórica de Obama. É importante lembrar que Aristóteles define a retórica como sendo a “antístrofe” da dialéctica. Para Aristóteles, uma coisa é a antístrofe de outra quando aquela pode ser convertida nesta, isto é, quando a relação que se estabelece entre os dois termos é de reciprocidade e reversibilidade. Dizer que a retórica é a antístrofe da dialéctica significa dizer que discurso político e a filosofia estão numa relação de reciprocidade e reversibilidade. Eis a boa retórica.
Em suma, a noção de que a retórica de Obama ilustra o entendimento que Aristóteles tem da retórica é um elogio precipitado a Obama e uma simplificação da filosofia de Aristóteles. Saber se a retórica de Obama faz justiça ao entendimento que Aristóteles tem da retórica? ou se a retórica de Obama é uma mera técnica de produção de emoções nos eleitores com o fim de conquistar o poder político? é uma questão que não pode ser respondida com duas ou três pinceladas e muito menos deve ser respondida com o recurso à autoridade de filósofos que exigem estudo cuidadoso e não permitem leituras simplificadas.

Cachimbos de lá

Roy Lichtenstein, Natureza morta cubista, 1974

O Cachimbo ao poder

Como o João Gonçalves e o Vasco Campilho já notaram, o Cachimbo tem desde ontem um representante na Comissão Nacional do PSD: o Paulo Marcelo.
Não era sem tempo. Ao fim de vários meses de campanha contra o Menezes, o Santana e o Passos Coelho, fomos finalmente recompensados com um lugar no coração da máquina partidária.
Outros se seguirão. Estejam atentos ao camarada Pinheiro, que vai urdindo a sua teia a partir de Santa Isabel.
Nós bem avisámos - não queremos o poder, mas já estamos por tudo, lembram-se?
Ninguém acreditou. Aí têm o cachimbismo agora.
E o que é o cachimbismo?, perguntarão vocês.
Uma mistura de neo-marcelismo, social-democracia à Botelho, manuel-keynesianismo, defesa da filosofia "o homem é o lobo do homem" pelo Lobo e regresso do morgadio com o Morgado. Em suma, o nosso programa consiste em impedir que o PSD seja um partido liberal.
A história absolver-nos-á.

Domingo, 22 de Junho de 2008

Discurso

Manuela Ferreira Leite ou o gosto de ter ouvido hoje um discurso social-democrata.

There's something...

No Congresso, dois discursos tão desinteressantes como os que se ouviram agora de Santana Lopes e de Ângelo Correia suscitaram os aplausos mais entusiasmados.
Será que não se apercebem do paternalismo de Santana Lopes quando ele vem a com a cantilena dos "militantes de primeira e de segunda"? Não se dão conta do atestado de menoridade que passam a si próprios de cada vez que aplaudem aquelas coisas?
Na verdade, que interesse (político) tem a recorrente choradeira ressentida (como também já tinha acontecido hoje com Marco António) a respeito dos "críticos" e dos "comentadores" e de "alguns militantes"?
Que interessa isso aos que estão cá fora e olham para o PSD procurando ver nele uma alternativa a Sócrates?
Fariam melhor em esquecer as questões infantis de paróquia e lembrar-se que há umas eleições legislativas para ganhar.

Sexta-feira, 20 de Junho de 2008

Obama: um lobo com pele de cordeiro

O sistema de financiamento público das eleições presidenciais americanas foi criado 40 anos atrás, com o propósito de impedir os candidatos de usar fundos privados no financiamento das suas campanhas eleitorais. Passadas as primárias, e uma vez oficializadas as nomeações nas convenções partidárias, os candidatos deverão limitar as suas despesas de campanha ao dinheiro público que lhes foi atribuído.

Obama foi sempre um defensor do sistema de financiamento público e, por diversas ocasiões, ao longo dos anos de 2007 e 2008, desafiou o Partido Republicano a limitar as suas despesas eleitorais, com a promessa de que, também ele, o faria no caso de ser o candidato nomeado pelo Partido Democrata.

Até ontem:




É evidente para todos que o sistema de financiamento público das eleições presidenciais americanas tem sido sucessivamente violado por todos os candidatos, com o recurso a artimanhas, mais ou menos legais, que ao longo das décadas foram assumindo diferentes formas e diferentes nomes. Obama, naturalmente, não desconhece o facto. Porém, Obama nunca se sentiu inibido de ser um ferveroso apoiante do sistema. Pelo contrário, mostrou empenho em mantê-lo e melhorá-lo.

Pergunta-se, O que mudou, entretanto? O que é que fez Obama mudar de ideias? Obama descobriu durante as primárias que tem um enorme talento para angariar dinheiro. Obama prevê angariar em donativos cerca de 3 ou 4 vezes mais do que os meros (!) 84 milhões de dólares destinados a cada candidato pelo sistema de financiamento público das eleições. Em suma, Obama descobriu que vai angariar muito mais dinheiro do que McCain e sabe que isso lhe dará uma enorme vantagem eleitoral.

O problema é que, para quem constrói uma campanha fundada na ideia de que é preciso "mudar" o modo como se faz política em Washington, Obama parece estar a decair nos vícios da "velha política" em vez de se orientar pelas virtudes da "nova política". Mais ainda (mérito lhe seja atribuído), Obama não aparenta ser apenas mais um protagonista da "velha política". Obama surge como o mais notável e efectivo intérprete dessa mesma "velha política". Obama não se limitou a dizer que o sistema público de financiamento das eleições está “broken”, apesar de nada indicar que não estivesse “broken” no tempo em que ele o defendia com tanto fervor. Obama foi capaz de dizer que os donativos privados que recebe são o “really public financing”. Obama consegue aparecer aos eleitores como alguém que lhes devolve os cerca de 84 milhões de dólares a que tinha direito. Atenção: conseguir ser “virtuoso” no sentido moderno de que fala Maquiavel, ao mesmo tempo que se aparece junto dos eleitores como “virtuoso” no sentido clássico e cristão de que falam os antigos, não é para qualquer um! Até os republicanos começam a admirar a capacidade de Obama de fazer política pura e dura ao mesmo tempo que aparenta estar a renunciar à política.

números e argumentos, argumentos e números

Tenho ouvido alguns dizerem que, dos 27, só um país recusou o Tratado de Lisboa. Não. Na verdade, todos os países consultados recusaram o Tratado de Lisboa.

Quinta-feira, 19 de Junho de 2008

Stalin II

Estou irritado. Só me ocorrem barbaridades infantis.
Talvez esta noite sonhe que avanço por Berlim, montado no dorso de um Stalin II (46 toneladas), a cara preta de fumo e poeira, com a minha PPSh ao ombro.
Querem subir? Vamos passar pelas Portas de Brandenburgo!

Sobre a batalha de La Lys (ok, é uma analogia de mau gosto, mas perdemos, o que é que querem?)

1. Portugal demorou meia hora a entrar em jogo. Resultado: dois secos. Não é só o Scolari que já tem a cabeça far far away.

2. A táctica "temos o melhor do mundo e agora tremei, ó boches, enquanto esperamos que a bola ressalte no Metzfelder e entre miraculosamente" não pegou. Os boches, como se sabe, tremem pouco. E o Metzfelder, embora pareça o Homem de Nanderthal, deu uma lição de bola.

3. O Ricardo já é mau que chegue a sair (?) dos postes. Não precisa que os centrais se esqueçam de marcar o melhor avançado deles.

4. Mais vale perder agora com a Alemanha do que nas meias-finais com a Turquia. Imaginem o que o Cavaco não diria sobre a raça.

Typisch

Interrogado numa esplanada de Basileia, um Teutão, tricolormente embarretado, responde num Inglês de sotaque alvar:
I don't know Ricarrdo. Who is Ricarrdo? I know Lehman, I know Ballack, Podolski, Rolfes... E, descaindo a mandíbula gigante num sorriso para o seu Kamerad ao lado:
I don´t know Crristiano Rônalldo... De queixada à banda: Crristiano Rônalldo, who is it? Who is it?
Tipicamente alemão.

Suspeita

É quando estamos a perder que me sinto mais patriota.
Devo ter algum problema.

De certeza absoluta

Nada revela melhor a mistura de alienação e arrogância dominante no Ministério da Educação do que a resposta do director do Gave (Gabinete de Avaliação Educacional) às críticas de facilitismo feitas pela Sociedade Portuguesa de Matemática aos exames e às provas de aferição em curso. Para Carlos Pinto Ferreira, os críticos da SPEM estão enganados porque "de certeza não sabem nada de avaliação educacional".
Ou seja, para criticar um teste de Matemática requer-se saber "avaliação" e não Matemática. Desenganem-se os trogloditas que pensam que a avaliação serve, como o nome indica, para avaliar o que supostamente se aprendeu. Matemática, por exemplo.
Mais palavras para quê?

Uma história mal contada

Segundo o Público, o Hermitage cancelou a exposição que estava a organizar com o Museu Soares dos Reis, no Porto. A criação do pólo permanente do museu russo na Ajuda também parece estar em risco. Nada mais se diz, excepto que a nova foi dada pelo Ministro da Cultura na respectiva comisão parlamentar e que Pinto Ribeiro admitiu desconhecer o futuro.
Confesso que não fico muito preocupado. A passagem de algumas peças de segunda linha do museu de São Petersburgo pela aldeia era, antes de mais nada, um golpe de propaganda de Isabel Pires de Lima, a anterior ministra. Num país sem dinheiro para os seus museus, passear os despojos do czarismo a milhão e meio a visita é mais ou menos como usar as jóias da coroa em pelota. Um pouco indecoroso, no mínimo.
Mas há qualquer coisa na notícia que não bate certo. A pouca vontade de Pinto Ribeiro em manter o protocolo com o Hermitage tornou-se evidente na sua primeira deslocação à Assembleia da República, já lá vão uns meses. Eu sei porque estava presente, ao serviço da Atlântico. Era um dado adquirido para a oposição, que nem sequer levantou a lebre. A que propósito surge isto agora? E dando a entender que são os russos que denunciam o protocolo?
Se Pinto Ribeiro acabou com a "colaboração", só posso felicitá-lo. Gostaria apenas que fosse tudo mais transparente. Até porque, mais tarde ou mais cedo, vem aí outro artigo de Isabel Pires de Lima, a deputada do Porto...

Os loucos anos 80 (51)


A 4AD foi fundada em 1980 (!) e desde então a música passou a ser muito melhor. Os Cocteau Twins são um excelente exemplo. Fica aqui Lorelei do LP de 1984 Treasure (o som do vídeo não é o melhor mas a música é boa). Fica aqui um abraço ao Miguel Morgado - desculpa lá estar a meter-me nos teus domínios, mas os anos 80 foram loucos para todos...


Silly Season

Sabemos que entramos na silly season quando a não notícia acerca de uma coisa chamada "bloco central" consegue chegar aos jornais e, pelo vistos à falta de melhor, é até comentada e levada a sério por muita blogosfera fora. No Diário de Notícias chega a escrever-se que a moção de Ferreira Leite é omissa quanto à impossibilidade da concretização deste mesmo bloco, como também não dirá nada quanto ao lince ibérico ou à fusão do país com as Caraíbas. Já viram o sol que está lá fora?

Em dia de Conselho Europeu e Portugal-Alemanha

«Pude aproveitar, nos princípios de Junho de 1945, a primeira oportunidade que me foi dada para me deslocar a Berlim. (...) Eu tinha chegado sobre um outro planeta. Um extraordinário silêncio reinava sobre a cidade. Subitamente, um canto sublime de violino, puro e lancinante, imenso, ligeiramente rendilhado pelo frágil acompanhamento de um piano, jorrou de parte nenhuma e no entanto de bem perto. Invadiu-me um extraordinário sentimento de felicidade e de tristeza. Tinha reconhecido a sonata “Na Primavera”, de Beethoven. O milagre vinha de um altifalante, instalado, não sei por que razão, pelos Russos, no cimo da Porta de Brandenburgo. Para além das guerras e dos massacres, este violino que cantava para a pedra, para as ruínas, para a morte, parecia-me anunciar o advento longínquo de uma idade de ternura.»
Edgar Morin, 1998

Fala quem sabe

Esqueçam a esperteza saloia e a arrogância malcriada. Quem sabe fala aqui.

Quarta-feira, 18 de Junho de 2008

Da série "A concorrência faz melhor"

"Manuela Ferreira Leite incomoda mais calada em Londres do que Menezes incomodava a falar em Lisboa." (Filipe Nunes Vicente)

A culpa é do sistema

Estive há dias com um magistrado envolvido, desde há muitos anos, na investigação da criminalidade na área metropolitana de Lisboa. Falámos da crise na PJ, das alterações ao Código de Processo Penal, da eficácia na investigação. Ocasionalmente, tal como aqui no Cachimbo, tratámos de coisas sérias, como o Scolari, o Marinho Pinto e a selecção nacional.
Uma situação real chamou a minha atenção. Não existir um sistema informático uniformizado (base de dados) de investigação e combate à criminalidade entre o Ministério Público, a Magistratura Judicial e os órgãos de polícia criminal (PJ, PSP, GNR, etc.). Nem sequer os sistemas de informáticos internos do MP estão integrados (segundo um estudo recente do ITIJ, 50% criminalidade está registada no sistema Habilus e outros 50% no SGI).

Os sistemas existentes são quase “amadores” e fonte de improdutividade crónica. Não agregam toda a criminalidade nem todos os intervenientes na investigação criminal, o que acarreta prejuízos sérios à eficácia na investigação e ao cumprimento das novas exigências do Processo Penal (v.g. prazos de duração do inquérito e validação da constituição de arguido), pondo mesmo em risco as garantias processuais. Esta situação conduz, por exemplo, ao absurdo de que todos os “inquéritos” existentes nos sistemas de informação das “polícias”, tenham de voltar a ser inseridos manualmente pelos vários DIAP. Acresce que o sistemas de informação existentes não produzem automaticamente documentos de notificação, o que leva ao incumprimento “crónico” dos prazos processuais. Só no DIAP de Lisboa, na secção dos crimes “contra desconhecidos”, as notificações aos queixosos estão suspensas, havendo actualmente 50.000 inquéritos por cumprir.
Eu, homem de leis, assumo. Que me desculpem os ministros da Justiça que gostam de ter o nome ligado aos novos "códigos". Mais do que mais ou melhores leis, o sistema judicial precisa de mais meios e melhor organização.

Terça-feira, 17 de Junho de 2008

Palavras há muitas


João Miguel Tavares faz no DN de hoje um elogio a Obama. Distante de Pacheco Pereira e António Barreto (Obama é só paleio), João Miguel Tavares está ao lado de Mario Soares (Obama tem qualidades, designadamente a retórica). Pelo caminho, João Miguel Tavares refere Platão e Aristóteles (encheram pilhas de livros sobre a importância da retórica no espaço público). O que João Miguel Tavares já não diz é que Platão e Aristótles emergiram na Atenas do século V e IV como reacção aos sofistas e o uso da retórica como mera técnica de conquista do poder político. É neste contexto que podemos perguntar, "Quem é Obama?" É evidente que Obama não é um filósofo (e, claro está, não tem de o ser). Mas não é evidente que Obama não seja um sofista dos tempos modernos. Já aqui perguntei em que medida é que Obama não está disposto a tudo para garantir os 51% que o conduzirão à Casa Branca. Por outro lado, importa não esquecer que não basta a um político ter os tais “discursos inspiradores” e a tal capacidade de “arrastar milhões às urnas” de que fala João Miguel Tavares. Pelo contrário, a história mais ou menos recente revela que é destes políticos que nós devemos ter mais cuidado. Por tudo isto, é importante esclarecer o seguinte: a retórica de Obama é um fenómeno novo que supera a empobrecedora gestão técnica da coisa pública? ou é a retórica de Obama uma mera redução da política a uma técnica de conquista do poder?

A Democracia na América

Como o Henrique aqui assinala, o "espírito constitucional" americano não está morto, e muito menos está morta a Constituição federal. Na tarefa de domar o executivo, um poder por natureza impaciente com regras gerais e formalismos apertados, o Supremo Tribunal tenta conciliar as exigências da segurança do Estado com os direitos individuais e com a separação dos poderes. A Constituição americana pressupõe este diálogo constante entre os vários poderes e entre o Estado e os indivíduos. O Supremo Tribunal é a sede solene onde esse diálogo tem lugar e sobretudo a instância decisória que põe fim ao conflito. A sua autoridade é a autoridade da Constituição.
Mas há pelo menos dois problemas que estarão sempre mais ou menos presentes e que não desaparecerão facilmente. O primeiro é a tentação do activismo judicial. Em tese, não é o poder judicial que deve restringir o executivo, mas a Constituição. Na prática tem de haver uma interpretação da Constituição portadora de autoridade que só pode vir do Supremo Tribunal. Mas convém não ignorar a distinção.
O segundo problema é mais complexo e está relacionado com a natureza do terrorismo. Como dá para perceber ao ler o acórdão citado, a propensão da ameaça terrorista para abrir espaço para a emergência de um estado de excepção multiplicará este tipo de casos, em que a Constituição não foi abolida, mas também não está em vigor; está, por emergência, suspensa. É aí que se joga o futuro da Constituição. Como, de resto, aconteceu na decisão inconstitucional de Lincoln de suspender o habeas corpus. Para salvar a constituição.

O crepúsculo da affirmative action


A nomeação de Obama como candidato democrata às eleições presidenciais dos EUA tem sido interpretada como mais uma manifestação da vitalidade da democracia na América. Mas o sucesso de Obama pode também ter efeitos perversos para a comunidade afro-americana. Será a ascensão de Obama um sinal de que a política de "affirmative action" na América já cumpriu os desígnios que tinha a cumprir? As opiniões divergem. Para uns, “the fact that a black man can run for the position of the President of the United States of America only corroborates that there is enough opportunity and equality for great things like that to happen.” Para outros, “when we talk about Obama, we are not talking about the average black American. There is injustice in this country, and until we correct it, we need affirmative action.” (Fair Enough, Jonathan Kaufman, WSJ.) Fica a pergunta: será que a era pósracial prometida por Obama equivale ao crespúsculo da "affirmative action" na América?

Segunda-feira, 16 de Junho de 2008

Cachimbos de lá


Gustave Courbet, Retrato de Baudelaire (c. 1850)

O Vilão

Reparei com curiosidade em como Pedro Magalhães, na sua coluna do Público de hoje, denuncia Sarkozy como o grande responsável pela trapalhada europeia que começou na Irlanda. Mais, Sarkozy é um horripilante vilão que não acerta uma e vai arrastar a Europa para a destruição. É que, segundo Pedro Magalhães, Sarkozy, por um lado, admite que há o tal problema da dificuldade de comunicar aos cidadãos europeus a dinâmica da "construção europeia"; mas, por outro, de forma incoerente e "hipócrita" (lá teria de vir a hipocrisia), quer prosseguir com o processo de ratificação do Tratado de Lisboa. É por este motivo, e por outros, que Pedro Magalhães recomenda que "por razões meramente prudenciais, devemos provavelmente achar tudo o contrário daquilo que ele [Sarkozy] achar". Mas eu ainda quero deixar uma pergunta no ar, como se costuma dizer: alguma destas coisas que Sarkozy "acha" são contrárias ao que o nosso Primeiro-Ministro Sócrates "acha"? Ou também devemos, "por razões meramente prudenciais, provavelmente achar tudo o contrário daquilo que ele [Sócrates] achar"?

Domingo, 15 de Junho de 2008

Os Loucos Anos 80 (50)

Sábado, 14 de Junho de 2008

Mais do que Sócrates comprometer a «carreira política» quem se tramou foi o Gordon Brown


Gordon Brown -que só a muito custo veio a Lisboa assinar o Tratado- está agora em maus lençóis. Depois do não irlandês a Lisboa, a perigosa estratégia do governo inglês de ratificação parlamentar está agora sob forte pressão dos tories e da opinião pública britânica. Parece que nada corre bem a Gordon.

Sexta-feira, 13 de Junho de 2008

Poema em linha recta

Hoje, logo pela manhã, recebi uma mensagem do João Paulo Anunciação -poeta lisboeta radicado em Évora- com este Poema em Linha Recta de Fernando Pessoa, que nasceu em Lisboa faz hoje precisamente 120 anos. Aqui fica pois com uma saudação especial ao João Paulo.


Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.
E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.
Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...
Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,
Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?
Então sou só eu que é vil e erróneo nesta terra?
Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que tenho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.


Álvaro de Campos

Os desmancha-prazeres

Os Irlandeses, historicamente maçadores, decidiram, vá-se lá saber porquê, prejudicar a carreira política de José Sócrates.

A Construção

A actual União Europeia nasceu de um sonho de Paz entre os seus povos e de Prosperidade para as suas Nações.
Fala-se, e bem, da construção de uma "Europa dos Cidadãos", ou seja, de um projecto que compreende duas realidades essenciais: a Europa e os seus Cidadãos.
No dia em que os líderes europeus conseguirem conciliar estas duas realidades, integrando os cidadãos no processo de construção, então teremos uma Europa em real União.
Até lá, caminharemos em terreno minado, construido sobre "porreiríssimos brindes, pá" e eufóricas celebrações de nada.
Há aqui um fosso que parece não querer ser visto ou pelo menos assumido por quem tem vindo a assentar os tijolos dos edifícios jurídico, económico e institucional europeus.
Parece-me claro que é esta uma das principais reflexões a fazer, como condição prévia a qualquer coisa que se pretenda desenhar no futuro.
O meu receio é que, a confirmar-se a vitória do Não na Irlanda, as portas de Bruxelas se fechem em modernos gabinetes no smoking e os iluminados do costume saquem da lapiseira e começem a esboçar o seu Plano C.

Descubra as Diferenças

Hoje, às 19h, estarei à conversa com a Antonieta Lopes da Costa, o Henrique Raposo e o Paulo Pinto Mascarenhas no Descubra as Diferenças da Rádio Europa-Lisboa (90.4 FM).
Cavaco e a raça, o bloqueio dos camionistas e a última viagem de Bush são os temas em debate. Acabamos a ouvir os U2.

Quinta-feira, 12 de Junho de 2008

Mota Amaral

Foi bom ter assistido ao regresso de Mota Amaral ao parlamento. Muito bom.
Repararam como a inteligência e elegância (sem deixar de ser incisivo) do deputado esvaziou completamente o estilo zaragateiro do primeiro-ministro?

Sócrates não se sente bem com um adversário assim. Não é com interlocutores destes que ele "brilha". Via-se que não estava à vontade. Como podia ele agora fazer o seu habitual número de feira, arregaçar as mangas e brandir o varapau de queixo desafiante com alguém que o interpelava assim?
Aliás, para sermos justos, teremos que reconhecer que não era o primeiro-ministro o único incomodado...
Mas levantou-se Portas afivelando a sua máscara de indignação e aí sim, já se viu Sócrates sorridente, gingando-se para os seus ministros de mãozinha na anca. As frases curtas, sonoras, zangadas e que nada dizem - aí está o meio em que ele se sente mais à vontade.
E lá começou o esbracejamento e a gritaria indignada.

Quem é, afinal, o fanático religioso?

Obama, Obama! é o título de uma crónica que o Dr. Soares assinou anteontem no DN para lembrar aos portugueses a herança que George W. Bush deixa à humanidade e introduzir os portugueses na Obamania (“Eu sou completamente fã de Obama”, esclarece o Dr.Soares). A crónica termina com um repto regional: “Tenhamos nós, europeus, confiança e saibamos lutar pelas grandes causas que orientam Obama.” Houve, porém, um elemento que me chamou à atenção especiamente. Pelo caminho, sem querer a coisa, o Dr. Soares faz uma referência ao “estranho fanatismo religioso de Bush”. Não sei em que é que o Dr. Soares estará a pensar. Estranho, porém, o silêncio do Dr. Soares em relação ao tema que mais aqueceu as primárias americanas, designadamente a ligação de Obama à Trinity United Church of Christ do Reverendo Jeremiah Wright. Digo “teve” porque Obama denunciou recentemente o pensamento de Wright (de quem foi fiel seguidor) e abandonou a igreja (onde permaneceu durante os últimos 20 anos). Entre outras pérolas do género, o Reverendo Wright atribui a responsabilidade moral dos ataques terroristas do 11 de Setembro aos americanos e acusa o governo de ter desenvolvido o virus da SIDA com o propósito de destruir os negros. É claro que muitos americanos fazem hoje a pergunta inevitável: Afinal, quem é Obama? Será Obama o homem que permaneceu durante 20 anos a ouvir os sermões radicais do Reverendo Wright? Será Obama um homem novo, um homem que teve uma revelação depois de ouvir o Reverendo Wright discursar no National Press Club? Será Obama um homem disposto a tudo para garantir os 51% que o levarão à Casa Branca? (Já agora, Dr. Soares, a palavra “fã” tem algo a ver com “fan” de “fanatic”.)

Bem e mal, e vice-versa

No JN, pode-se ler o que disse o Ministro Mário Lino na conferência de imprensa do Conselho de Ministros sobre o desfecho da "crise" dos transportes. No governo, há "grande satisfação por este período de três dias que marcou o país ter terminado bem". É que, avisa o nosso querido Ministro, "podia ter terminado mal". Nem sei o que dizer a isto. Não sei se hei-de lamentar a falência antecipada deste governo, ou amaldiçoar a retórica socialista ou desesperar do estado a que isto chegou.

Curso de literatura pátria em cinco dias

Da outra margem, Paulo Pinto demanda a raça cavaquista por entre as brumas dos Lusíadas. Parece que a não topou - só cavalos mouros. Nos comentários, a Maria João Pires e a Fernanda Câncio exortam-no a ir ao Gil Vicente, quiçá mais longe.
Talvez "se mais mundos houvera, lá chegara", mas a malta de esquerda é muito conservadora. Ó camaradas, autos não sei de quê? "Ai Deus e u é"? Mas porque não ides aos founding fathers da nossa modernidade republicana e socialista? (Esta foi boa, em estrangeiro. Câncio vai gostar.)
Olhem, o Antero de Quental, por exemplo. Aqui vai: "Logo na época romana aparecem os caracteres essenciais da raça peninsular: espírito de independência local e originalidade do génio inventivo. (...) A tolerância pelos mouros e pelos judeus, raças infelizes e tão meritórias, será sempre uma das glórias do sentimento cristão da Península da Idade Média. A caridade triunfava das repugnâncias e preconceitos de raça e de crença. (...) Esta é a tendência do século: esta deve também ser a nossa. Somos uma raça decaída por ter rejeitado o espírito moderno: regenerar-nos-emos abraçando francamente esse espírito" (Causas da Decadência dos Povos Peninsulares, 1871) .
Ou o Eça, mesmo na fase descendente: "- Tem muita raça, exclamou o Titó. - E é o que o salva dos defeitos. (...) Tem a raça que o salva. (...) - Sabem vocês quem ele me lembra? (...) Até aquela antiguidade de raça, aqui pegada à sua velha Torre, há mil anos... Até agora aquele arranque para África... Assim todo completo, com o bem, com o mal, sabem vocês quem ele me lembra? - Quem?... - Portugal" (A Ilustre Casa de Ramires, 1900).
O Teófilo Braga era um chato, mas era o Pai da Pátria na Primeira República. Também serve: "País estabelecido por uma raça sofredora e resistente sobre a orla ocidental de Espanha, e em contacto activo com o Atlântico, o mar é a paisagem suprema. Se toda a nossa história, independência nacional e descobrimentos derivam do mar, que nunca foi para Portugal barreira defensiva, mas prolongamento do território e caminho de acção, a nossa vida sentimental e poética encontra no mar a mais profunda inspiração poética, como se patenteia nos Lusíadas" (in Serões, 31, 1907).
Eis pois, camaradas, um florilégio de ditos dos nossos maiores que fareis bem em meditar. Tende presente o nacionalismo néscio e o ímpio imperialismo de tais sentenças quando festejardes o centenário da República, de ora a dois anos. E Pinto, o fero Pinto que não quer ser cambiado por cavalo, não dê jamais razão a Cavaco. A mocidade portuguesa pode não ler o Teófilo ou o Antero, mas, ah!, por Deus (ou por deus, se vos apraz) , sabe bem quantos cantos tem a gesta.

Quarta-feira, 11 de Junho de 2008

10 de Junho: dia dos portugueses com raça


"Hoje eu tenho que sublinhar, acima de tudo, a raça, o dia da raça, o dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas." PCP e BE exigem do Presidente da República explicações. "Uma expressão pouco compatível com os valores de Abril e o regime democrático", dizem uns. "Terminologia racista e segregadora do Estado Novo", dizem os outros. Pouco importa ao PCP e ao BE que a enormíssima maioria dos que foram educados nas escolas portuguesas do pós 25 de Abril não saibam quem é o Padre António Vieira ou o que significa o universalismo português de que falou Cavaco Silva no discurso oficial do 10 de Junho. Pouco importa ao PCP e BE que a enormíssima maioria dos que foram educados nas escolas portuguesas do pós 25 de Abril nunca tenham lido os Lusíadas e dificilmente consigam situar Camões no contexto da história de Portugal. O importante para o PCP e BE é não deixar passar impune a expressão do Presidente -- em nome da resistência antifascista e em nome da democracia. Democracia que significa aqui, para o PCP e o BE, a promoção do multiculturalismo, a ideia de que todas as culturas são igualmente dignas de admiração, a promoção do relativismo preguiçoso e irresponsável que acaba em nada, já que todas as pessoas são igualmente boas, logo igualmente más. Ainda não passou muito tempo desde as comemorações do 25 de Abril na Assembleia da República, em que Cavaco Silva manifestou a sua preocupação face aos resultados decepcionantes de um estudo, realizado pela Universidade Católica, que evidenciava a ignorância dos Portugueses em assuntos políticos. Ainda não passou muito tempo desde que milhares de professores foram para a rua dizer não a um sistema de avaliação que lhes exigiria maior responsabilidade. Ainda não passou muito tempo desde que o país pôde ver no YouTube o que realmente se passa dentro das salas de aula das escolas portuguesas. Contra os que pedem mais avaliações para os alunos e professores, mais seriedade e exigência nos currículos, mais disciplina nas salas de aula, mais liberdade de escolha da escola por parte das famílias, o PCP e o BE permanecem empenhados em deixar tudo na mesma, empenhados em continuar a nivelar as crianças portuguesas a um denominador comum, a fazer da educação dos portugueses uma aventura sem destino -- em nome da democracia, pois claro.
Esquecem que a democracia, precisamente porque é o governo "de todos", exige "a todos" conhecimento e virtude. Acontece que conhecimento e virtude são coisas especiais que só podem ser adquiridas quando as pessoas se elevam para além daquilo que lhes é imediatamente acessível. Vale a pena perguntar no dia 10 de Junho o que é que a escola do pós 25 de Abril oferece às crianças portuguesas? No que a mim diz respeito, confesso, de história de Portugal sei muito pouco ou nada. E o pouco que sei, aprendi fora da escola. Sei que fomos grandes quando embarcámos e descobrimos o mundo nos séculos XV e XVI. Gosto de comparar a Escola de Sagres do português Infante D. Henrique com a NASA que os americanos têm hoje. Notei quando Montesquieu observou no Espírito das Leis que a poesia patente nos Lusíadas de Camões se assemelha ao charme da Odisseia de Homero e à magnificência da Eneida de Virgílio. Pouco mais.
Ainda bem que Cavaco Silva falou no dia de Portugal como sendo o dia da raça, não necessariamente o dia da raça especificamente portuguesa, já que tal coisa nunca existiu nem existirá, mas a celebração dos portugueses com raça, dos portugueses capazes da grandeza própria dos grandes povos. Portugal teve a felicidade de ter um grande poeta, capaz de cantar as glórias de um grande povo, e assim perpetuar essa memória colectiva para as gerações portuguesas vindouras. É para cima -- com o olhar elevado até aos grandes homens e grandes mulheres da história humana -- que as crianças portuguesas devem dirigir o olhar e a inteligência. É a ler Platão que as crianças portuguesas poderão sonhar com o mundo das ideias, certamente inatingível, ainda assim o mundo que lhes pode dar a medida das coisas justas. É a olhar o Infante D. Henrique que as crianças portuguesas podem perceber a relevância do universalismo português no contexto actual do mundo globalizado. É a olhar Einstein que as crianças portuguesas podem perceber como a matemática lhes pode ajudar a compreender o universo. É a olhar a Madre Teresa de Calcutá que as crianças portuguesas podem reconhecer que há um Deus que as ama e que é no amor aos pequeninos que elas se assemelham a Ele. Mas como é que as crianças podem olhar para cima e sentir-se desafiadas a ser grandes portugueses quando a leitura dos grandes filósofos desapareceu dos nossos liceus!? quando somos praticamente obrigados a sentir vergonha por termos dado novos mundos ao nosso mundo!? quando o ensino da matemática é permanentemente violentado por metodologias e pedagogias de ensino que querem aproximar a matemática das crianças em vez de aproximar as crianças da matemática!? quando a religião está fora das escolas porque se assume que um Estado laico deve permanecer ateu e ignorante de tudo aquilo que não nos é fácil e grosseiramente acessível!? O 10 de Junho pode não ser o dia da raça especificamente portuguesa, mas poderia e deveria ser o dia da raça dos grandes homens e grandes mulheres da história humana, para a qual as crianças portuguesas poderiam e deveriam olhar. Para que não continue a ser vedada às crianças portuguesas a possibilidade de, também elas, virem um dia a ser grandes e, desse modo, ajudarem Portugal a fazer parte da história da grandeza humana -- mais uma vez.

Terça-feira, 10 de Junho de 2008

Ide-vos cobrir de preto, camaradas

A referência do Presidente da República ao "dia da raça" foi obviamente um lapsus linguae infeliz. Nada mais do que isso. Em circunstâncias normais, teria o mesmo relevo que a célebre gaffe de Sócrates sobre os imigrantes que fazem de Portugal "um país mais pobre".
Acontece que Cavaco Silva não foi eleito em circunstâncias normais. Foi eleito por muito pouco, pela direita e com toda a esquerda a chamar-lhe fascista. Eis o que a indignação oficial do outro lado não perdoa: ver que, pela primeira vez em democracia, o chefe de Estado não é um dos seus. Para a esquerda que acusou Sá Carneiro de ser caloteiro em todos os muros do país (eu lembro-me) e Galvão de Melo de ser informador da PIDE em pleno Parlamento (eu lembro-me), insinuar o fascismo do "salazarento" (eu lembro-me) não passa de reflexo condicionado.
O que não deixa de revelar também a sua hipocrisia ancestral. O Bloco de Esquerda exige explicações a Cavaco, mas tem na sua história a mancha do apoio ao Herri Batasuna, o único partido racista da Europa - além dos neonazis, claro. O PCP lembra que "dia da raça" era o nome do 10 de Junho durante o regime "colonial-fascista", mas ajudou a colocar no poder em Angola e Moçambique regimes que apenas trocaram uma ditadura por outra e um colonialismo por outro.
E agora querem dar lições de moral?
Ide-vos cobrir de preto, camaradas.

Dia da Raça

Já houve e agora já não há uma raça portuguesa. Nada nos garante que um dia não volte a haver algo que não foi o Estado Novo sequer que inventou e começou a usar. A ciência, com aspas ou sem aspas, tem destas coisas. Umas vezes jura que há, outras que não há. A política e os políticos também. Mas como há séculos que não saímos da cepa torta, tenho para mim que se não há raça portuguesa, deve haver, ao menos, qualquer coisa que se lhe assemelhe. O resto é falso moralismo da nossa esquerda mais ou menos festiva...

Segunda-feira, 9 de Junho de 2008

Não me mandem este homem para casa tão cedo


Presos pela crise

Sábado, 7 de Junho de 2008

Menos bandeirinhas, a mesma paixão



Começa hoje, com um novo Lepanto, abaixo o turco, força Portugal.

Sexta-feira, 6 de Junho de 2008

Esta mulher não é do Norte

Uma razão para a inexistência de verdadeiras políticas de cultura em Portugal é que, num meio pequeno, todas as decisões ganham uma pesada carga de fulanismo. Não há grandes critérios políticos ou ideológicos na acção do chamado Ministério da Cultura. Há apenas, quase sempre, a tentação de calar as capelinhas mendicantes, sobretudo se têm acesso à comunicação social.
Hoje, no Público, Isabel Pires de Lima critica asperamente João Bénard da Costa, director da Cinemateca, por não ter cedido à petição de 4000 assinaturas que defende um pólo da instituição no Porto. Há muito motivos para criticar esta recusa, que invoca os riscos de conservação das películas, mas a "deputada do PS pelo Porto" perde metade do artigo em ataques pessoais. "Independentemente dos bons serviços que na direcção da Cinemateca prestou no passado - desde 80 como subdirector e de 91 como director - e da sua reconhecida dimensão intelectual, de há muito que J.B.C., no seu cargo aparentemente vitalício, contribui para a estagnação da Cinemateca, reconhecida por amplos sectores do meio cultural sem que haja coragem para dizer com todas as letras que o rei vai nu. O autismo que caracteriza aquela instituição, quer na vertente de preservação e de salvaguarda, quer na da divulgação. decorre do autismo de J.B.C." E assim por diante.
Há aqui qualquer coisa que incomoda muito, e não é o mau gosto das metáforas. Quem ler estas linhas, poderá pensar que Isabel Pires de Lima nunca teve responsabilidades sobre a Cinemateca. Ora, se bem me lembro, a senhora foi Ministra da Cultura até há poucos meses. E foi ela que reconduziu Bénard da Costa no "cargo aparentemente vitalício", de resto através de uma discutível excepção à lei, quando este atingiu o limite de idade.
Porquê? Porque na altura circulou um outro abaixo-assinado, com os nomes ilustres de Luís Miguel Cintra, Jorge Silva Melo, João Fiadeiro ou Maria João Seixas, a pedir que assim fosse. Ao qual Isabel Pires de Lima deu o conveniente despacho, declarando ter "o maior apreço" pelo trabalho do autista e ver "com bons olhos" a sua estagnação na Cinemateca.
O erro de casting da passagem pireslimiana pela Ajuda não se deve só à falta de competência. Deve-se também à falta de coluna.
Já se sabia, mas hoje vem no Público.

O problema é nosso

Há por aí uma crise internacional. Como duvidar dela? O abrandamento económico é notório um pouco por toda a parte. Portugal, enquanto pequena economia aberta, sofre com a crise internacional. Como duvidar da sabedoria convencional? Os aumentos dos preços do petróleo e de todas as matérias-primas em geral afectam de forma dramática os nossos termos de troca, e isso significa desde logo diminuição da riqueza nacional. Então, a crise económica portuguesa é da responsabilidade dos outros, do "contexto internacional". Aqui é que há razões para duvidar. Porque desde há uns anos para cá, crescemos sempre menos do que os restantes países europeus, tanto em fases de abrandamento como em fases de expansão. O crescimento económico europeu, tendo em conta os recentes acontecimentos e a experiência do passado, tem sido mais robusto do que muitos (incluindo eu) esperariam. E agora a OCDE prevê que a nossa trajectória de "divergência real" com o espaço económico europeu vai durar até 2014. Por isso, deixem a crise internacional em paz. O problema é nosso. Não é dos outros.

Correio Expresso: Sócrates não vai ter problemas com Belém


Vale a pena reler a auto-biografia do agora-presidente, antes primeiro-ministro, para perceber quanto Cavaco detestou ser o alvo das forças de bloqueio. Cavaco não quererá, nunca, que o possam comparar a Soares, e por isso não vai entrar em intrigas palacianas – literalmente – que ajudem os seus a tomar conta do poder. Mesmo que esteja convencido que isso seria o melhor para o país que preside (de resto, este comportamento tem sido habitual no Presidente, e por isso é que tantos dos que nele votaram dizem que se sentem traídos, já que pensavam que Cavaco iria ser um muito maior contra-poder de Sócrates, porque ele defenderia os seus valores de uma forma muito mais convencida).

O alegre Manuel

Parece que houve anteontem um comício-festa (aplausos) em que Manuel Alegre (muitos aplausos) falou ao povo de esquerda (fortíssimos e prolongados aplausos) de renovação da esquerda (aplausos de pé, vivas e gritos de "Manel, és mais belo que o Humberto Delgado!"), energia positiva à esquerda (invasão do palco e tentativa de levantar Alegre em ombros, impedida pelo próprio em nome da ética republicana e da ciática) e até da imprudência que é ser de esquerda (indescritível explosão de júbilo da multidão, desmaios das meninas casadoiras, xeliques das senhoras do tempo da Maria Teresa Horta e súbita vontade geral de meter Sócrates no Campo Pequeno).
Aqueles que não percebem como é o PSD (apupos) deu 29% nas directas a Santana Lopes (muitos apupos, insultos violentos, arremesso de ovos podres) talvez possam explicar-me como é que Alegre (aplausos frenéticos) vale um milhão de votos (delírio total, gritos de "Manel, és mais belo que o Enver Hoxha!", entrada da Banda Filarmónica da Marinha Grande a tocar o Hino da Carta).
É que Alegre (êxtase das massas, tentativa de lhe colocar uma coroa de louros impedida pelo próprio em nome da ética republicana e para não sujar o fato) não é muito diferente de Santana Lopes (pateada, vigorosos protestos, expressões de horror).
Ambos escondem o absoluto vazio de ideias (uivos à Louçã) com muita retórica, nostalgia da suposta pureza ideológica do passado e a promessa sempre suspensa de abandonar os respectivos partidos (ameaças de morte ao autor do post, tentativas de invasão do blogger).
Mas estão à espera de quê?
(Malta, tenham calma... eu até sou de esquerda, dizem... tenho mulher e filhos... não, não é isso... casei com um gay e adoptámos um puto da ETA... não, por favor, não!... aaaaaaaaahhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh!....)

Em tempo de balanços finais

«Uma das coisas de que se devem acusar e fazer escrúpulo os ministros é dos pecados no tempo. Porque fizeram no mês que vem o que se devia de fazer no passado; porque fizeram amanhã o que se havia de fazer hoje; porque fizeram depois o que se devia fazer agora; porque fizeram logo o que se devia fazer já. Tão delicadas como isso hão de ser as consciências dos que governam, em matérias de momento. O ministro que não faz grande escrúpulo de momentos não anda em bom estado; a fazenda pode-se restituir; a fama, ainda que mal, também se restitui; o tempo não tem restituição alguma.»

P. António Vieira – Sermão do 1º Domingo do Advento

Os Loucos Anos 80 (49)

Pondo de lado a minha relação pessoal de amor-ódio com a banda, esta série nunca ficaria completa sem os The Cure. O espectáculo menos agradável que os seguidores fiéis da banda impunham a todos os que tinham de frequentar os mesmos lugares não ajudou a estabilizar a minha impressão do grupo do inconfundível Robert Smith. A produção musical da banda nos anos 90 também não ajudou. Mas depois havia "A Forest" e "Just Like Heaven". E o resto do mundo parava.


Suddenly I stop
But i know it's too late
I'm lost in a forest all alone
The girl was never there
It's always the same
I'm running towards nothing
Again and again and again


Daylight licked me into shape
I must have been asleep for days
And moving lips to breathe her name
I opened up my eyes
And found myself alone alone
Alone above a raging sea
That stole the only girl I loved
And drowned her deep inside of me
You, Soft and only
You, Lost and lonely
You, Just like heaven

...e por falar em Festa

...aqui fica a homenagem àquela que fizeram ontem os filhos de Monforte.

Quinta-feira, 5 de Junho de 2008

"É uma imprudência, mas é bom. É uma festa."

A Esquerda é uma festa

Manuel Alegre à saída da "Festa-Comício" ou "Comício-Festa" das Esquerdas, depois de lhe terem perguntado com que energia saíra do encontro:
"Com uma energia nova. Com a energia da festa. Foi o renascer da esperança, da alegria, das canções cantadas em comum. Portugal precisa de mais esquerda."
"Estou-me nas tintas para as críticas [do PS]. Ser de esquerda é uma imprudência. Verdadeiramente, sou imprudente desde a minha juventude. É uma imprudência, mas é bom. É uma festa."
-- Público, (05.06.2008) - os destques são meus, evidentemente.

Cachimbos de lá



Maurice Vlaminck, André Derain (1906)

Abertura e Fechamento

Diz assim o Rui Tavares: "Mas não se iludam: não dá para atrair o engenheiro indiano e expulsar o pedreiro indiano ou o comerciante indiano - os imigrantes, principalmente os “qualificados”, vão para onde sentem abertura. E se o medo da democracia e o medo da imigração nos provam alguma coisa, é esta: a Europa vive numa crise de abertura".
.
Pois, isso está tudo muito certo, mas como sempre a malta da esquerda esquece-se do essencial. A "abertura" é importante, sem dúvida. Mas o "mercado" também. Os imigrantes, principalmente os "qualificados" vão para onde há oportunidades económicas, daquelas que se multiplicam em economias de mercado onde se premeia a iniciativa e a responsabilidade num contexto amplo de mobilidade social. Exactamente o tipo de coisa que o Rui Tavares não aprecia muito. Por outro lado, os imigrantes "qualificados" muitas vezes começam até por "emigrar" para Universidades "estrangeiras", mas não certamente para as nossas, estatais e estatizadas, falidas e ossificadas, cujo sistema protector a nossa esquerda tanto ama.
Dá que pensar, não dá? A esquerda gosta da imigração e da pluralidade étnica e cultural, mas não gosta particularmente das suas "condições de possibilidade".

Quarta-feira, 4 de Junho de 2008

Eu tento

Hoje, em Bruxelas, pescadores de França, Itália, Espanha e Portugal provocaram desacatos durante uma manifestação contra o preço do gasóleo. Queimaram-se bandeiras da União Europeia.
Um francês de sotaque carregadíssimo (corso? sardo?) resumia assim o tumulto: "A culpa é de Bruxelas, queixamo-nos a Bruxelas".
Eu tento indignar-me, mas não consigo.

Um modesto pedido

Os intelectuais da bola aqui da casa podiam ter a fineza de explicar a este Untermann que raio são os "seis pontos" que impedem o Porto de ir à Europa (acho que é isso)?
Agradecido.

A menina Amy e o pai Adão



Para defender Amy Winehouse das críticas ao espectáculo em Chelas, o Daniel Oliveira recorre ao velhíssimo cliché, mais velho do que ele talvez suponha, de que não há génio sem excesso. Os gregos atribuíam o talento em palco à inspiração divina, como a palavra música lembra, e há uma relação histórica entre a origem do teatro e os festivais dionisíacos, que também inspiravam muita fuga à regra não propriamente metafórica. Na Idade Média, a arte era veículo de uma liberdade que se viria a perder no século XVI da Reforma e da Inquisição. Basta pensar nas cantigas de escárnio e maldizer, nas danças e folias do Carnaval, nas paródias da liturgia que constituíam um verdadeiro género literário ou até em inúmeros exemplos da escultura que enchia as igrejas, das gárgulas aos cadeirais (e que o Cocanha mostra com a abundância digna do seu nome).
No entanto, o artista antigo e medieval era um artesão, um profissional competente sem biografia nem assinatura. O Renascimento traz o autor, alguém que não se limita a exercer um ofício, mas o faz com estilo e personalidade. O século XVI é o tempo das vidas de artistas, na expressão fundadora de Vasari. Mesmo que não saibamos muito sobre eles, os pormenores biográficos alimentam lendas que chegaram até hoje. Da Vinci e Miguel Ângelo são casos óbvios, mas Caravaggio, produzindo obras-primas enquanto fugia de cidade em cidade por dívidas e homicídio, vive uma errância que antecipa Van Gogh, Rimbaud, Kerouac e tantos outros on the road.
Os séculos XVIII e XIX consagram o "mito do artista maldito", como lhe chamou Eliade, tão caro ao Romantismo. O artista já não é a voz dos deuses, mas um Prometeu moderno, o intérprete do progresso da Humanidade. A sua autodestruição é o preço por nos dar mundos novos e interditos. O fogo do génio queima aqueles que se revoltam contra a condição de mortais. A única verdadeira inovação do século XX é o crescimento do mercado da imortalidade, com os media e a cultura de massas. O Big Brother, que faz da mais literal vulgaridade um objecto de contemplação, representa bem o nosso tempo.
Em suma, os excessos da menina Winehouse são mais convencionais do que todos gostaríamos. Fazem parte do contrato. Não vale a pena invocar genialidades e outras teologias. Quando Amy cai em palco, vêem-na milhões de pessoas, mas ninguém tem o mais leve tremor de espanto. Quando Adão caiu no paraíso, ninguém viu - mas o próprio Deus teve que vir cá abaixo restaurar a Criação.

Da série "A concorrência faz melhor"

O Fernando Cruz Gabriel estreou-se com um grande post no blogue da Atlântico.
Está de parabéns a vizinhança, que fez a melhor contratação do defeso, e o Fernando, que assim volta à bloga.
E nós, já agora - que continuamos a lê-lo.

Portas e o Parlamento

Ontem, na TVI, Paulo Portas quis apresentar trabalho. Quis mostrar que o grupo parlamentar do CDS, liderado por ele, tem sido, nesta legislatura, o mais activo e o mais crítico da actividade do governo. A entrevistadora, reproduzindo a opinião generalizada sobre este assunto, desvalorizou tanto quanto pôde a folha de serviço que Portas lá foi desembrulhando, em grande medida, subentende-se, porque o Parlamento é uma instituição afónica. Pela parte que me toca, sou sempre sensível a estas tentativas de preservação da importância do Parlamento. Mas não há dúvida de que o nosso sistema de governo e de partidos encontrou o seu único ponto de estabilidade no quase total apagamento do Parlamento. As maiorias absolutas esvaziam o Parlamento; e as maiorias relativas, mesmo que lhe devolvessem o protagonismo, são o mal a evitar. De resto, a primazia do Executivo, que é um fenómeno generalizado nas democracias ocidentais, reforçada pelas competências legislativas do Governo e pela disciplina férrea com que o Primeiro-Ministro domina o seu grupo parlamentar, torna o Parlamento num espectáculo que facilmente enoja o cidadão comum. Na maioria das vezes, é preciso dizê-lo, sem qualquer justificação. E convém não esquecer que o desaparecimento do Parlamento enquanto arena de comunicação política eficaz força os actores políticos a deslocarem-se para outros lugares que não são particularmente adequados para o efeito: a rua e a televisão. Ontem, aliás, foi assim, à esquerda e à direita.

Allô, Allô, Singapura


Vanzas, man, saudinha da boa é também o que eu desejo.

Muito mais à direita

Onde se situam os eleitores do PSD, quando sondados acerca da sua posição no leque político que vai da direita à esquerda? Segundo um estudo recente, muito mais à direita do que os do CDS. Porque é que então a classe dirigente do PSD insiste nas velhas máscaras e subterfúgios a que a direita portuguesa recorreu para sobreviver em 1975? (...) Porque a classe dirigente do PSD tem uma estratégia muito singela: trata-se de herdar o governo à boleia da corrente "crise" (...). A fim de chegarem ao poder, as outras direitas europeias têm andado a propor aos seus eleitorados visões do mundo e da sociedade alternativas à das esquerdas.

Rui Ramos, PÚBLICO 4 Junho 2008

Terça-feira, 3 de Junho de 2008

O (novo) Cabo dos Trabalhos

Concentrar recursos e criar competências: Sabe o estado produzir justiça, segurança ou regulação económica de forma eficaz e eficiente? Qualquer resposta sobre o grau de satisfação dos cidadãos face a estes serviços é assustadora, mas sobretudo reveladora de uma má gestão do estado como organização. O estado tem o quase monopólio destas áreas, mas não detém competências suficientes nem produz alocação suficiente (quantidade) e/ou eficiente (forma) de recursos para produzir resultados. O estado não pode pensar em intervir em diversas matérias suplementares quando não consegue gerir a sua mais simples substância. Não sabendo o estado português fornecer justiça de qualidade, qual a lógica de alocar recursos a outras áreas e aventurar-se na tentativa infeliz de criação de novas competências? Deve então o estado definir claramente os seus limites de acção (princípio) e, dentro destes, prioritizar (eficiência) áreas que devem ser alvo de reforma e de avaliação de resultados.

Manuela Ferreira Leite disse algumas coisas semelhantes durante a campanha, sem no entanto ter muitas vezes descido ao concreto, o que pode ser explicável pela falta de tempo e recursos para estudar os temas como ela gosta. Mas a corrida e as notas sobre o joelho no pouco tempo das directas acabou. Em breve terá uma equipa a trabalhar com os nomes e nos moldes que ela determinar. Ao trabalho, portanto. Rápido e sem "desculpês".