
O Papa terminou ontem a sua visita aos Estados Unidos. Quando Bento XVI foi eleito, toda a gente disse que este homem de gabinete viajaria menos do que João Paulo II, o pastor globetrotter. E assim aconteceu. Em menos de um ano, Wojtyla já tinha feito tantas viagens como Ratzinger em três anos de pontificado, celebrados precisamente ontem.
O que chama a atenção, no entanto, para lá da diferença de estilos, é que em ambos os casos as viagens revelam prioridades estratégicas.
Eleito em Outubro de 1978, o Papa polaco visitou o México em Janeiro de 1979, a sua Polónia natal em Junho e os Estados Unidos em Outubro. Os objectivos eram claros: a teologia da libertação e a América Latina, onde se concentrava metade dos católicos do planeta; o comunismo e o Bloco de Leste, a maior ameaça à liberdade da Igreja; e a América do Norte, a potência política e cultural do século XX. Quais os resultados do combate de João Paulo II? A teologia da libertação quase desapareceu do mapa, o comunismo passou à história - excepto em Portugal, em Cuba e na Coreia do Norte - e quanto à América... Bem, na América não se pode dizer que a Igreja, ao fim destes trinta anos, possa cantar vitória. Muito pelo contrário.
É por isso que Bento XVI a escolheu como destino da sua terceira visita, depois de ter ido à Alemanha e à Turquia. Em Colónia falou para a velha Europa, a grande preocupação do seu pontificado (por alguma razão escolheu o nome papal de Bento, o santo padroeiro da Europa). Em Istambul falou para o Islão moderno, a outra frente de batalha onde Ratzinger prevê que a história faça a próxima paragem (leiam o que escreveu sobre o Islão antes de ser Papa). E na América, falou para quem?
Para muito poucos, dir-se-á. O catolicismo americano atravessa hoje uma crise números e de identidade semelhante à do velho continente. Mas com três características que merecem um olhar mais próximo.
Em primeiro lugar, o declínio da Igreja americana, onde só um em cada quatro fiéis vai hoje à Missa (antes dos anos 60, eram três em cada quatro), tem sido travado pela imigração hispânica, quase sempre católica, praticante e mais fértil do que a média - por enquanto. Na Europa, pelo contrário, a imigração é islâmica, o que tem naturalmente a consequência inversa sobre o peso cristão na sociedade. Este dinamismo hispânico alterou o perfil da América católica. Os irlandeses, que deram ao país o primeiro presidente não wasp, ou os italianos, que deram a Hollywood a cena de assassínio mais famosa do cinema (o massacre durante a Primeira Comunhão, no Padrinho), já não estão em maioria. A medalha tem, porém, um reverso: imigrantes ou filhos de imigrantes, os latino-americanos são em geral menos escolarizados, mais pobres e mais vulneráveis ao apelo dos cultos carismáticos do que os outros católicos.
A segunda originalidade do catolicismo americano é que vota tradicionalmente à esquerda. Este dado estatístico começou a mudar com Bush, que ganhou o voto dos crentes praticantes, tanto católicos como evangélicos, graças a uma sólida atitude pro-life que o diferenciava de Kerry (um católico, por sinal). No entanto, irlandeses, italianos e hispânicos tendem a confiar mais no Partido Democrata em matérias como - adivinhem - redistribuição da riqueza, protecção laboral, segurança social e imigração. O Papa falou de tudo isto na ONU, e não foi para concordar com Bush. Mas como os candidatos democratas, mesmo quando se intitulam católicos, também costumam identificar-se menos com a doutrina da Igreja no que toca ao aborto ou ao casamento gay do que os republicanos, Bento XVI aproveitou a viagem para recordar alguns princípios que estão sempre em discussão nas guerras culturais americanas. E com uma disputadíssima campanha presidencial em curso, não o esqueçamos.
Ora, a terceira questão está relacionada com a anterior. Trata-se da pedofilia. É um aspecto a que deram grande projecção os media e o próprio Ratzinger, em várias referências públicas e ao receber algumas das vítimas dos abusos. Compreende-se porquê. Se a pedofilia é sempre abominável, a escala dos abusos na Igreja americana tornou-se um escândalo que envergonha todos os católicos, como o Papa reconheceu na própria viagem de avião para Washington. Os actos pedófilos praticados pelo clero entre as décadas de 60 e 90 deixaram profundas marcas, sobretudo dentro da Igreja. Bento XVI criticou publicamente os bispos, que "geriram mal" o problema (e quem conhece a prudência do Vaticano sabe que uma crítica tão aberta é rara e, portanto, duríssima) e indicou o remédio: um crivo mais apertado na formação e selecção dos padres. Isto significa, traduzindo de papês para português, negar por completo o acesso ao sacerdócio a candidatos que tenham inclinações homossexuais.
Quando, há alguns anos, a Santa Sé publicou um documento em que reforçava esta doutrina, precisamente na sequência dos escândalos de pedofilia, os arautos da political correctness e os movimentos gay vieram de imediato queixar-se de homofobia. Mas a Igreja fez o seu trabalho de casa. Num inquérito exaustivo a todos os casos denunciados, aliás necessário por causa das enormes indemnizações que as dioceses americanas tiveram de pagar em acordos extrajudiciais, chegou-se à conclusão de que muitos dos padres abusadores tinham sido ordenados nas décadas de 60 e 70, no auge do chamado período pós-concíliar. Foram tempos conturbados, em particular nos países onde a rápida secularização já antes do Vaticano II chocava de frente com a moral sexual católica. Por um aggiornamento mal entendido, houve quem na Igreja cedesse à opinião dominante fora da Igreja. Nos seminários e nas faculdades de Teologia, muita gente entendeu que era uma prova de amor ao próximo conceder a ordenação a seminaristas que não estavam dispostos a viver a castidade, fossem eles gays ou straights. Em nome do que o mundo chama tolerância. O resultado foi a falência financeira e, pior ainda, moral de várias dioceses, paróquias, ordens e seminários.
Bento XVI foi à América dizer isto. God bless him.