Sexta-feira, 29 de Fevereiro de 2008

Jolie 1, Obama 0

Angelina Jolie, "embaixadora de boa vontade" do Alto Comissariado para os Refugiados das Nações Unidas, após uma visita ao Iraque declarou:
My visit left me even more deeply convinced that we not only have a moral obligation to help displaced Iraqi families, but also a serious, long-term, national security interest in ending this crisis.
Today's humanitarian crisis in Iraq – and the potential consequences for our national security – are great. Can the United States afford to gamble that 4 million or more poor and displaced people, in the heart of Middle East, won't explode in violent desperation, sending the whole region into further disorder?…
As for the question of whether the surge is working, I can only state what I witnessed: U.N. staff and those of non-governmental organizations seem to feel they have the right set of circumstances to attempt to scale up their programs. And when I asked the troops if they wanted to go home as soon as possible, they said that they miss home but feel invested in Iraq. They have lost many friends and want to be a part of the humanitarian progress they now feel is possible.
It seems to me that now is the moment to address the humanitarian side of this situation. Without the right support, we could miss an opportunity to do some of the good we always stated we intended to do.

Não sei o que pensa António Guterres disto tudo, mas, como sublinha James Taranto, uma actriz de Hollywood é moralmente mais séria do que Barack Obama.

Mas que trapalhada... (II)

A ler, «Um país, duas justiças, ou dois países e uma justiça?», por José Manuel Fernandes (Público, 29.2.2008: 50).
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É, de facto, uma opção infeliz do Público não disponibilizar gratuitamente no seu site o editorial e as colunas de opinião. Só muito marginalmente as vendas seriam afectadas se estes conteúdos fossem disponibilizados. Perde-se, todavia, influência sem retorno aparente.
(O New York Times que seguia o mesmo critério já o abandonou há largos meses. O Público o que espera?)

«Conter a China»...

...por António Neto da Silva (DE, 29.2.2008: 52). Vale a pena ler, também, «João VI e a economia», por Francisco Seixas da Costa (DE, 29.2.2008: 3).

Parabéns a você

O Insurgente, finalmente desokupado, faz três anos por estes dias. Que conte muitos. Apesar de estarmos por vezes em desacordo (ou justamente por isso).

Mike Plowden (1959-2008)

Morreu há dias Mike Plowden. Morreu a ensinar basket, depois de uma vida a jogar basket. Primeiro na América natal, depois no Barreirense e no Benfica, por fim como treinador no pequeno clube onde o filho estava a seguir-lhe os passos. Veio para cá jovem, gostou, foi ficando, casou com uma portuguesa, naturalizou-se e chegou a representar a selecção, muito antes de se falar nos brasileiros do futebol.
Ironia do destino (mais uma), passei a tarde de Domingo a lembrar-lhe as proezas com o pai de um amigo do Barreiro, terra que ele fizera sua. Nunca me interessei por basket. Na escola, quando jogava, era invariavelmente expulso por acumulação de faltas pessoais, uma fatalidade que atribuo à sólida herança humanista do rugby. Só abria uma excepção para o Benfica dos anos 80, mítica equipa liderada por Carlos Lisboa e que tinha em Mike Plowden uma estrela à altura. O seu nome, como o dos irmãos Vasconcelos no andebol (esse sim, um desporto humanista), era sinónimo de vitórias vermelhas.
Voltei a ouvi-lo mais tarde, já finalista da FCSH, em conversa com outro barreirense a quem me aliei para impedir que o delegado dos alunos no Conselho Directivo fosse de novo do Bloco de Esquerda. Perdemos, claro, e por muitos, mas ganhei um amigo para o resto da vida - entre outras coisas porque, graças à companhia, foi obviamente acusado de "fascista" . Ele, que votava no PC e era sobrinho do Presidente da Câmara do Barreiro.
Um belo dia, falou-me por acaso num Mike, o outro tio.
"Mike? Qual Mike? "
"Ah, o Mike Plowden, não sei se conheces..."
"O Mike Plowden?! O Mike Plowden é teu tio?!"
"Sim, casou com uma tia minha."
Dizia isto como se fosse a coisa mais natural do mundo. E era. E assim reencontrei o "Mike". Ironia do destino (mais uma), Mike Plowden, o príncipe negro que atravessou o Atlântico para morar no reino da Lusitânia, deixa-nos no momento em que nos querem obrigar a viver entre o super-estado de Bruxelas e os tribalismos de Cantuária e do Kosovo. Mais do que nunca, é preciso recordar exemplo de homens assim. Homens para quem a pátria não é o império, o sangue, o credo ou a cor da pele, mas uma escolha livre.

Obama, Clinton e a NAFTA

Obama e Clinton, como recorda este editorial do Financial Times, propõem que os EUA abandonem ou revejam radicalmente os acordos NAFTA, afirmando que o crescimento do comércio livre entre México, EUA e Canadá destruiu e destruirá empregos no seu país. No mesmo editorial o seu autor escreveu, e bem, que em si mesmo o comércio livre não cria nem destrói empregos. Mas mais importante e verdadeiro é o facto de afirmar que as posições dos dois candidatos democratas nesta matéria revelam "uma espécie de cobardia intelectual e política."

Mas que trapalhada...

...monumental. Ainda por cima com contornos que não me parecem muito claros.

António Capucho...

...na primeira pessoa (DE, 29.2.2008): «Menezes é desastroso».

Quinta-feira, 28 de Fevereiro de 2008

O português: tristeza e mistério


Nunca é tempo perdido reler o famoso livrinho castanho que a Cinemateca Portuguesa publicou em 1999 sobre o realizador russo Alexander Sokurov. Cada frase do peculiar e genial cineasta – que não gosta muito de cinema mas delira com literatura (Dostoievsky, Faulkner, Thomas Mann, Tchekov) – é uma pedrada no charco de um certo e viçoso pseudo-intelectualismo lourenciano.
Para Sokurov, que não tem pejo em afirmar que os ocidentais são pessoas muito sós e espiritualmente mais doentes que os russos, o tema principal da arte – certamente da sua – é o destino da vida humana. Mas o mais extraordinário e provocador para nós, portugueses, é “ouvi-lo” falar da experiência tida no encontro com Portugal:
"É um país espantoso, talvez o mais misterioso da Europa. Em Portugal há uma qualidade que me impressiona muito, a tristeza. Muitos portugueses foram pessoas geniais. Portugal será dos países onde há mais génios que não são conhecidos. São pessoas tristes que vivem para si, uma qualidade de experiência pessoal que os diferencia dos demais. E um carácter nacional inacreditável. Digo isto por intuição e não porque me baseie em algum conhecimento particular. Vocês têm uma grande quantidade de energia escondida. (...) É muito fácil encontrar portugueses numa multidão de europeus, do mesmo modo que numa multidão de asiáticos é muito fácil descobrir onde estão os japoneses. (...) Quanto mais Portugal se juntar ao espaço europeu maior será a tragédia da cultura portuguesa, ela estará cada vez mais próxima de um estado de choque, porque precisa de dar azo aos seus sentimentos para se desenvolver. É muito complexo. As misturas são muito complexas. (...) As formas artísticas populares são muito complexas. Mas elas existem, estão lá. Por exemplo, se os espanhóis (falo de espanhóis porque estão aqui perto) vos impusessem a sua forma de vida, as suas imagens, a sua cultura, seria um caos. Em termos financeiros e económicos, a união europeia terá muitas vantagens, mas em termos culturais a ideia inspira-me muita desconfiança e alarme, acho que é uma tragédia".
Alguém já descreveu com tanta argúcia a nossa incapacidade de nos darmos a conhecer e a força-fraqueza do nosso ânimo melancólico, hoje em banho-maria, mas com explosivas provas já dadas, como atesta a História? Para não falar do juízo sobre o iberismo...

Híbridos, quimeras e outras aberrações

A Autoridade britânica de Fertilização Humana e Embriologia (HFEA) autorizou, há poucas semanas, a manipulação laboratorial de embriões com genes humanos e de outros animais. A técnica autorizada permite criar embriões híbridos, usando óvulos de vaca, aos quais se retira o núcleo original, que é substituído pelo núcleo de uma célula adulta humana. Se as experiências forem bem sucedidas, o embrião resultante será 99% homem e 1% vaca. Descansem. Não são mãos, mas apenas umas simples mitocôndrias. Após a transferência nuclear, a célula começará a dividir-se, como ocorre na fecundação natural. O objectivo, segundo os "cientistas" das universidades de Londres (Kings College) e de Newcastle, é produzir células que permitam investigar e obter diversos tecidos humanos.

Pois. Eu sei que até podia ser pior (imaginem se fossem células de porco ou de urso…). E que esta piada até tinha graça se o tema não fosse muito sério. A criação de quimeras – criaturas metade homem e metade animal – é um sonho antigo que podemos encontrar na literatura de ficção-científica ou em filmes de terror. O problema torna-se grave quando são universidades ou auto-intitulados “cientistas” a propor a manipulação genética em laboratório de destes monstros. E mais ainda quando são as próprias autoridades públicas a autorizar experiências contrárias à dignidade humana.

Sim, bem sei que, como sempre, os objectivos invocados são óptimos. Neste caso a investigação do Alzeimer e outras doenças neurológicas degenerativas. Mas não era algo parecido que diziam os “cientistas” nazis que investigavam em seres humanos nos campos de concentração? Acresce que há alternativas, ou seja, outras linhas de investigação promissoras, como pode aqui ser comprovado, que não são contrárias à dignidade humana. A fronteira para a barbárie é ténue. Neste caso foi ultrapassada.

Ir às compras para os Restauradores

Luís Filipe Menezes e Pedro Santana Lopes estão em rota de colisão?
Nem pensar nisso! A prova definitiva?
Muito simples: «acreditem se quiserem», refere Pedro Santana Lopes. «Há um propósito de criar um clima de má relação. Nessa mesma tarde fomos os dois às compras para os Restauradores» (Vítor Matos, Sábado, 28.2.2008: 66-8).

Wayne is gone and Reagan hasn't arrived yet

Afonso Azevedo Neves esclarece: a frase «everyone is against me except the people» é da autoria de John Diefenbaker, antigo primeiro-ministro canadiano.
Oops. Como diria John Wayne, «talk low, talk slow and don't say too much».

Quarta-feira, 27 de Fevereiro de 2008

William F. Buckley Jr.


Para muitos americanos, este homem foi o conservadorismo. Morreu hoje, com 82 anos.

Parafraseando


Esqueçam o resto. O momento alto da entrevista de ontem de Luís Filipe Menezes foi o seguinte: «parafraseando John Wayne sinto nesta altura que está quase toda a gente contra mim excepto o povo».

A Besta, a Grande Besta


Ver aqui como a Besta não tem vergonha.

Terça-feira, 26 de Fevereiro de 2008

Mais ou menos racional?

«A Union Fenosa elaborou um índice de eficiência energética para o sector doméstico em Portugal que constata que uma utilização mais racional da energia permitiria poupar 178 milhões de euros por ano» (Lusa via DD, 26.2.2008).
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Este tipo de notícia, sobre a «utilização mais racional», seja da energia, da água, ou do que quer que seja, em bom rigor não tem muito sentido. Na verdade todos nós fazemos uma utilização profundamente racional da energia, tendo em conta os custos, os benefícios e a nossa capacidade financeira. O índice de eficiência de que se fala na notícia é uma abstracção que muito possivelmente ninguém segue à letra de forma escrupulosa. É uma espécie de ideal type.
A verdade é que, bem vistas as coisas, nós somos muitos racionais -- o mais racionais possível -- na utilização da energia. Pura e simplesmente, o investimento/esforço não compensa o fundamentalismo tendo em conta os actuais preços/custos da energia. Todos nós optamos por uma abordagem o mais cómoda possível, na medida das nossas capacidades financeiras. Existe, no plano do concreto e não enquanto abstracção, «utilização mais racional»?

Bush em África


Hoje, na Europa, é quase consensual qualificar os mandatos de Bush como puros fracassos. Todos concordam que o homem se arrasta por estes últimos meses, qual fantasma que cedeu a intervenção no mundo dos vivos aos políticos que estão no Capitólio ou aos que disputam o seu lugar na campanha eleitoral. Por outro lado, para a maioria dos europeus, Bush não é só um falhado, mas um protótipo do político maligno e sinistro: sedento de sangue, ao serviço das grandes empresas, em particular petrolíferas, testa-de-ferro dos ricos na exploração dos pobres, hipócrita, burro, enfim, aquilo que se sabe e vê.
Mas, quando se olha para a sua viagem por África, é impossível não quebrar este retrato formado por vários anos de debate político amargo, em particular em torno do Iraque. Bush foi a África, não à África onde jorra petróleo, não à África dos preciosos recursos naturais que o resto do mundo cobiça. Bush esteve na África que os nossos bem-pensantes dizem ser irrelevante para os poderosos do mundo, a África que aparentemente não tem nada para oferecer ao mundo, a não ser tragédias, carências, mas também esperança. Foi recebido como um herói, como um salvador, como um amigo. Histeria das massas? Não. Foi uma reacção de gratidão. Numa operação quase sem precedentes, Bush investiu somas colossais de dinheiro na luta contra a SIDA em África (desde a prevenção até aos tratamentos), na luta contra a malária, em fundos de estabilização com contrapartidas de boas práticas.
Nos últimos anos, a decisão de Bush salvou centenas de milhares de pessoas e deu a alguns países como a Libéria e o Ruanda a possibilidade de começarem de novo. No continente que se dizia não interessar aos protagonistas mundiais dos jogos de poder. Não acreditam em mim? Espreitem o artigo de Bob Geldof, o cantor falhado que se converteu num porta-voz das desgraças africanas, no último número da TIME. É uma definição antiquíssima de justiça que é justo dar a cada um o que lhe é devido.

Momento de Contra-Publicidade

Abaixo a British Airways! Lixo com o aeroporto de Heathrow!

O coro uníssono...

...de críticas ao recente acórdão do Tribunal de Contas é algo invulgar. Instintivamente, este súbito alinhar pelo mesmo diapasão desperta-me a atenção. Há aqui unanimidade a mais. Quando a esmola é grande o pobre -- cidadão -- desconfia.

Na Procuradoria-Geral da República...

...lê-se jornais. Venha, pois, mais um inquérito. Outra mão cheia de nada?

Os porta-vozes

Luís Todo-Bom, antigo secretário da Indústria e Energia de Cavaco Silva, é o nome escolhido por Luís Filipe Menezes para porta-voz da área económica do PSD (CM, 26.2.2008).
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Finalmente. Veremos quem serão os restantes escolhidos. Depois falamos.

Segunda-feira, 25 de Fevereiro de 2008

Rajoy-Zapatero

O debate desta noite em Espanha, opondo os dois principais candidatos à presidência do Governo daquele país, foi não só interessante como importante. Importante porque retomou uma prática interrompida durante várias legislaturas e usou uma metodologia de debate equilibrada entre a máxima liberdade e o controle mínimo mas eficaz do papel a desempenhar pelo moderador e das tentações monopolizadoras do discurso por parte dos dois contendores. Foi também importante por ter sido um debate esclarecedor quanto à forma como Zapatero e Rajoy entendem o país que pretendem governar, embora muito menos quanto à apresentação e discussão de programas de Governo.
Sucede que política e ideologicamente Zapatero e Rajoy têm um entendimento muito diferente daquilo que foi, é e deverá ser a Espanha. Apesar de potencialmente polarizadoras da sociedade espanhola, as diferenças existentes entre PP e PSOE e entre Rajoy e Zapatero são estimulantes e fizeram-me ver pela primeira vez que a democracia espanhola e sociedade espanhola perderiam a prazo alguma coisa se ambos aqueles líderes se posicionassem mais ao centro. Ou seja, em Espanha há posições claras e divergentes sobre os mais variados temas e tal facto, ao qual Rajoy e Zapatero dão corpo e voz, só enriquece uma sociedade e um sistema político democrático.
Quanto aos detalhes, e apesar do simplismo propositado, pareceu-me que Rajoy olha para a Espanha enquanto estado e nação nascidos e consolidados pela vontade e pelo esforço desenvolvido a partir do reinado dos reis católicos. Pelo contrário, a Espanha “plural” de que Zapatero fala e vai tentando construir, pareceu-me hoje, como nunca, a Espanha medieval anterior aos reis católicos. Este facto é importante em si mesmo, para a Espanha, para os espanhóis e, pelo menos, para a Europa. Mas é também importante para Portugal, porque caso essa espécie de Espanha medieval possa ser restaurada pelo PSOE de Zapatero, a posição e o papel de Portugal em Espanha (aqui como sinónimo de Península Ibérica) alterar-se-á substancialmente. Zapatero mostrou ainda todo o seu optimismo e a sua crença (penso que não será cínica) na bondade de todos os homens e mulheres. Até nisto é um socialista e um homem de esquerda. Rajoy, pelo contrário, é um pessimista, ou, se quisermos, um realista. Tal ficou bem evidente na forma, por vezes exagerada, como analisou e comentou a realidade da imigração em Espanha.
Quem viu o debate percebeu também que Zapatero e o seu Governo puderam gozar uma conjuntura económica que o PP de Aznar preparara para o PP com Rajoy à frente do Governo. Também se viu Zapatero fazer tanta oposição aos oito anos dos governos de Aznar, como Rajoy fez aos quatro anos do governo de Zapatero. Rajoy não devia ter falado como falou das vítimas do terrorismo, mas esteve quase sempre bem na forma como atacou Zapatero, sendo particularmente incisivo no modo como criticou a política de educação do PSOE baseada que é em chavões político-ideológicos em que, infelizmente, a motivação, e não o esforço, se considera serem a chave do sucesso. Talvez porque teve sempre a primeira palavra e Zapatero a segunda (ou a última), pôde Rajoy ser tão assertivo nas perguntas, nas críticas e nas análises. Isto é tanto mais surpreendente quando Rajoy é menos mediático do que Zapatero e está habituado a perder (quase) todos os debates que fez com o chefe do Governo no parlamento de Madrid. Finalmente, gostaria de deixar uma nota para sublinhar que cada vez mais em Espanha o grosso de muitas políticas sociais são feitas ao nível regional e local. Disso deu conta Rajoy ao tentar e conseguir (?) demonstrar a Zapatero e aos eleitores espanhóis que, por exemplo, no domínio da habitação social ou do apoio aos cidadãos “imobilizados” o Governo da Comunidade de Madrid ou a Câmara Municipal de Madrid fazem tanto ou mais do que o Governo para toda a Espanha. E já me esquecia. A “Europa”, em si mesma, esteve ausente do debate. Uma prova de que os silêncios são mesmo muito importantes.

Dá-te asas

À imaginação, bem entendido. Luís Filipe Menezes acredita que a manifestação da Frente Comum «será um ponto de viragem irreversível na popularidade do Governo e na construção de uma mudança».

Curso livre sobre Lisboa medieval

O Centro Cultural Pedro Hispano desafiou-me a dar um curso livre sobre a história medieval de Lisboa, incumbência que aceitei com muito gosto e com o título "Frades, Cruzados e Moçárabes na Lisboa Medieval". A perspectiva do curso, como se adivinha, privilegia a análise das relações entre as diversas comunidades étnicas e religiosas que vivem na cidade desde a conquista afonsina de 1147 à expansão ultramarina do século XV. Um tema bastante actual.
Será às Segundas-feiras, entre 3 de Março e 7 de Abril, pelas 20 horas, no Palácio da Independência (ao Rossio), e terminará com uma visita de estudo ao castelo e à sé, no Sábado seguinte (12 de Abril).
Estão todos convidados.
Para inscrições e informações, é contactar o 91 7250725 ou o 21 3647473 (fax).
Podem dizer que vão daqui.

"Não haverá mudanças em Cuba, garante Fidel"*


*In Portugal Diário, 22/2/08.

Animais doentes as palavras

1. Espero que sim
«[O] corrente ano (ou muito pouco mais) é o prazo útil para encontrar uma alternativa interna [no PSD] -- ensinam-nos a experiência e a lógica das coisas que alguma séria tentativa será feita» (Nuno Brederode Santos, DN, 24.2.2008: 12).

A memória, para não variar

«Tem todas as condições para liderar com eficácia, em cooperação e forte harmonia», disse Mota Amaral referindo-se a Pedro Santana Lopes e à sua relação com Luís Filipe Menezes (15.10.2007). Não faltaram na altura vaticínios que agora tudo iria correr bem. Afinal, Santana Lopes e Menezes eram duas «pessoas maduras», para citar uma vez mais Mota Amaral.
A «cooperação institucional entre os dois esta[va] em marcha» assegurava Francisco Almeida Leite (DN, 13.10.2007).
Quatro meses foi o tempo que durou a tal cooperação institucional. A tal cooperação e harmonia entre pessoas maduras. Quatro pequeninos meses.
Acontece que, aparentemente, os últimos quatro meses não contam, nem devem servir como confirmação de um fiasco a partir do qual se devem tirar ilacções. Parece que agora é que vai ser a sério. Esqueçamos a cooperação e harmonia anunciada anteriormente, e a cooperação institucional que supostamente estava em marcha. Agora é que começou a «cooperação estratégica entre os dois», nas palavras de Hermínio Loureiro (DN, 25.2.2008).
O pior cego é aquele que não quer ver.

Domingo, 24 de Fevereiro de 2008

Animais doentes as palavras

1. No centro, goste ou não
«José Luís Arnaut esteve no centro do negócio do Casino Lisboa», refere Joaquim Caldeira, que dirigiu a Inspecção-Geral de Jogos até 2006, contrariando assim as declarações feitas na semana passada pelo ex-ministro de Durão Barroso, segundo as quais só teria acompanhado a negociação com a Estoril-Sol na fase em que se pretendia instalar o casino no Parque Mayer (Graça Rosendo, Sol, 23.2.2008: 10).
Arnaut esclarece, contrariando Caldeira, que «esteve sempre presente a solução da não reversibilidade para o Estado do edifício no final da concessão» (Lusa via Sol online, 23.2.2008). Desta vez, porém, não diminui a relevância da sua intervenção. Estamos a progredir.
2. O menino e o lobo
Já não há pachorra para as estratégias que, à falta de melhores argumentos, se sustentam em exclusivo na propagação do receio. Ana Paula Vitorino, por favor, poupe-nos aos argumentos catastrofistas dos atrasos e dos fundos comunitários que se poderão perder (Luís Rosa, Sol/Confidencial, 23.2.2008: 7). Faça-se a análise custo-benefício e depois que se tome a decisão política incorporando esses e outros factores. Um processo de decisão é assim que deve estar hierarquizado. Desde quando os atrasos e a perda de fundos deve funcionar como tail that wag the dog?

Um mal estar difuso (II)


Uma breve observação do que se tem escrito sobre a recente tomada de posição da Sedes permite constatar, sem surpresas, que não passou despercebida. Como é costume em Portugal, uma parte importante dos críticos optou por ignorar o conteúdo da mensagem e antes preferiu matar o mensageiro.

Sábado, 23 de Fevereiro de 2008

Aos leopardos da blogosfera

Lady, three white leopards sat under a juniper-tree
In the cool of the day, having fed to saciety

T.S. Eliot, Ash-Wednesday, II

Da série "Cachimbos de Lá"

Ellen Page em Juno, de Jason Reitman (2007)

A história conta muito

A independência do Kosovo é o primeiro grande teste à política externa da União Europeia desde a guerra do Iraque.
Na altura, foi o que se viu.
Agora, é o que se vê: metade dos países a favor, metade contra.
Entre os grandes, estão a favor a Inglaterra, a França e a Alemanha, que há dois séculos usam os Balcãs para ajustar contas com a Rússia por interposta pessoa da Sérvia. Nada de novo.
Mas a Espanha, apavorada com a hipótese de reconhecer um precedente que a Catalunha e o País Basco se apressariam a invocar portas adentro, nem quer ouvir falar do assunto. Nada de novo também.
O caso mais dramático é o de Chipre, apoiado pela Grécia, que se recusa a reconhecer o Kosovo, de maioria muçulmana, para não ter que aceitar a secessão da parte turcófona da ilha, por sua vez apoiada pela Turquia (uma potência candidata à União Europeia, recorde-se).
São factos comezinhos e irritantes. Talvez valha a pena lembrá-los quando nos voltarem a falar no Ministro dos Negócios Estrangeiros da Europa ou no exército comum.
A história conta muito.

Animais doentes as palavras

1. Tarde e a más horas
Acabo de ouvir, no «Expresso da Meia-Noite» na SICN, Luís Delgado afirmar -- sem se rir, note-se -- que não tem dúvidas que, sobre o caso Somague, José Manuel Durão Barroso assumirá as suas responsabilidades políticas.
Mas está à espera do quê? Está a ver se deixa de chover?
2. A Rússia e o Kosovo
A Rússia ameaçou usar a força no Kosovo. Não me surpreende que o tenha feito, ainda por cima de forma muito clara. Já aqui tinha alertado na segunda-feira para essa possibilidade. A gestão desta questão pelas grandes potências europeias revela um grau de aventureirismo político incompreensível.
Os russos andam à procura de um pretexto para deixar uma ou duas coisas muito claras. Os europeus, pelos vistos, estão empenhados em lhe facilitar a vida.
3. Bifanas e sardinhas
É impressão minha, ou também vos parece que afinal talvez nem seja preciso comer muitas bifanas e sardinhas?
4. Mais um...
Mais um editorial de José Manuel Fernandes que vai dar muita azia a António Costa (Público, 23.2.2008: 44).
5. Telmo dos 300
O jornal Público, e em particular o jornalista responsável pela notícia inicial, revisita hoje a madrugada em que Telmo Correia teria assinado 300 despachos. Numa notícia nas páginas interiores, António Arnaldo Mesquita faz referência ao desmentido de Telmo Correia, mas não reitera a versão dos 300 despachos. Depreendo que o Público errou, embora não o assuma explicitamente. O que se segue é uma espécie de manobra de controlo de danos.
6. Spin: Governo sensível
O Governo está a ponderar a possibilidade de adquirir novos aviões para o transporte de altas figuras do Estado, na sequência do incidente na semana passada que obrigou o Presidente da República a aterrar de emergência em Itália. Aparentemente, alguns comentários de desagrado proferidos por Aníbal Cavaco Silva terão tido eco junto do Governo (Expresso, 23.2.2008: 8).
Não percebo. José Sócrates -- «enquanto houver garantia de segurança não haverá compra de nenhum avião» (CM, 30.12.2007) -- deixaram de existir as tais garantias de segurança que demagogicamente foram apresentadas como argumento?
Adiante. É notável a vontade de agradar de José Sócrates em relação a Aníbal Cavaco Silva. Um comentário circunstancial do Presidente e, zás, o primeiro-ministro trata logo de lhe agradar. Estamos, por mero acaso, a falar do mesmo primeiro-ministro que em Dezembro apanhou um valente susto num dos Falcon e que irritado exigiu que lhe fosse enviado um relatório da Força Aérea sobre o incidente (Sol, 29.12.2007: 5)?
Não devemos estar. Notável a sensibilidade de Sócrates em relação aos comentários de Cavaco Silva e a insensibilidade em causa própria. Maldita demagogia.
7. Sim, seguramente
«Desinteligências sobre o Kosovo?», por José Medeiros Ferreira (Bicho Carpinteiro, 23.2.2008).

Sexta-feira, 22 de Fevereiro de 2008

Francisco Lucas Pires

No próximo 22 de Maio, passam dez anos sobre a morte de Francisco Lucas Pires, um homem que nos deixou demasiado cedo. Para assinalar a data, os filhos abriram um blogue onde irão publicando alguns dos seus textos.
Vale a pena visitar. E ver como a direita portuguesa podia ser diferente do que é.

Madalena Barbosa (1942-2008)

Às vezes, a vida surpreende-nos.
Morreu ontem Madalena Barbosa, uma das principais vozes do feminismo português. Não a conhecia pessoalmente, mas tive com ela uma semipolémica na campanha do aborto do ano passado. Ela escreveu no Público um artigo que me irritou muito, eu respondi com outro artigo que nem sei se chegou a ler.
Morreu de cancro aos 66 anos. A mesma doença e mais ou menos a mesma idade com que morreu a minha Mãe.
Às vezes, a vida surpreende-nos porque as pessoas estão sempre mais próximas do que pensam.

Desencantamento do Mundo?

Parece que agora a política "é sobretudo acreditar". Bem, não há dúvida de que uma certa política é, de facto, sobretudo acreditar. Cada um faz as escolhas que lhe parecem melhor ou segundo as suas preferências. E é responsável por elas.

À bomba


Talvez uma agência de comunicação deva explicar ao Dr. Menezes que não se pode dizer uma coisa e o seu contrário na mesma frase. Dizer uma coisa em Lisboa e o contrário em Alvaiázare, ainda passa. Agora na mesma frase - não dá.

Se o Dr. Menezes diz que o PSD é só um, mas o "seu PSD" não é o do Dr. Barroso, consegue apenas (além de irritar a malta do Dr. Barroso) que a malta do "PSD-PSD" tenha de optar entre o PSD dos corruptos e o PSD dos cobardes.

Porque há poucas coisas mais vergonhosas, em política, do que a fuga à culpa da máquina laranja no caso Somague: Menezes chuta para Arnaut, que chuta para Vieira de Castro, que não se pode defender...

O Dr. Menezes diz que só sai à bomba?

Camarada, basta uma frase do Cavaco e passas o resto da vida a ver projectos de etars em Gaia.

Animais doentes as palavras

1. Infelizmente, acreditamos todos
«Contado, alguém acredita?», por Francisco Teixeira (DE, 22.2.2008: 3).
2. It takes two to tango
O bailado, como se constata, afinal continua...
3. Estar errado na altura certa
José Medeiros Ferreira é que tem razão. Isto de estar errado na altura certa é uma ciência. Estar certo na altura certa quase sempre não compensa. Mas, enfim, mais vale tarde do que nunca...
4. Questões de gastronomia
A nível de argumentação no PSD é muito rico(!) do ponto de vista culinário. Luís Filipe Menezes terá recordado recentemente aos seus adversários internos que se quiserem a liderança do partido terão de «comer paletes de carne assada e toneladas de sardinha» (Francisco Teixeira e Márcia Galrão, DE, 21.2.2008: 46).
Nada que não se resolva.
5. Sampaiar
Um ponto prévio. Não defendo, nem quero, que a comunicação social ou que a Presidência da República desempenhem o papel que compete às oposições. Dito isto, as intervenções do Presidente da República parecem-se cada vez mais com as de Jorge Sampaio.
Estou cansado de avisos e de alertas presidenciais que do ponto de vista substantivo não levam a lado nenhum. A reacção de Cavaco Silva ao documento da Sedes é frustrante.

Um mal estar difuso


«Sente-se hoje na sociedade portuguesa um mal estar difuso, que alastra e mina a confiança essencial à coesão nacional.»

Quinta-feira, 21 de Fevereiro de 2008

Fininho, de preferência


«Isto está por um fio», comentava um deputado próximo de José Manuel Durão Barroso (Ângela Silva, Expresso online, 21.2.2008).

Na verdade, já faltou mais...

«Se querem que eu saia terão que me tirar à bomba», afirmou Luís Filipe Menezes durante a última Comissão Política do PSD (Francisco Teixeira e Márcia Galrão, Diário Económico, 21.2.2008).
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No espaço de um mês, o que aconteceu à disponibilidade para «convocar imediatamente» eleições directas para a liderança social-democrata? Evaporou-se?

:-)


Animais doentes as palavras

1. Pausa para publicidade
«O marketing político e as agências de comunicação» é o tema da conferência que terá lugar na Universidade Lusíada dia 4 de Março às 21 horas.
2. Uma questão de rigor
Não sei se o Tribunal de Contas ultrapassou ou não as suas competências. Naturalmente, importa esclarecer a dúvida. Isto dito, aquilo que verdadeiramente preocupa António Costa é outra coisa, i.e. o impacto negativo deste processo na sua imagem política. Subitamente, Costa surge aos olhos dos eleitores de Lisboa -- e do país inteiro, ainda por cima... -- como alguém que anda há meses às voltas com o pedido de empréstimo e que na hora da verdade vê o mesmo chumbado pelo Tribunal de Contas por falta de rigor. Rigor foi, recorde-se, um tema central da campanha de Costa. «A Câmara vai funcionar», prometia o candidato socialista nas eleições intercalares de Julho de 2007. Sete meses depois, já começou?
3. O meu, o teu e o outro...
«Independentemente de o PSD ser só um, este meu PSD não tem nada a ver com isso [i.e. com o caso Somague]», declarou Luís Filipe Menezes.
Fantástico. Ao contrário de outras, pelos vistos, a vida íntima desta relação não está sob reserva... Pobre PSD.

Quarta-feira, 20 de Fevereiro de 2008

Má sorte ser socialista

É uma frase que bem pode ser lançada à cara do Primeiro Ministro Sócrates quando este tiver o desplante de trazer os números do emprego na mão. Por duas razões, a primeira porque como socialista, comandante em chefe, motor e carburante da economia e do emprego, um problema neste é um problema seu. A segunda porque em campanha optou (e não foi só no emprego) pela desinformação. Perante aquilo que se previam ser anos difíceis no emprego, Sócrates terá perguntado qual seria o único ponto em que poderia criar desinformação e tentar escapar entre a tempestade. Alguém terá dito: os números em bruto da criação de emprego, porque se tentar sequer tocar na taxa de desemprego, verdadeiro indicador final da empregabilidade na sociedade, aí é um desastre; em outros pontos, como os défices ou as dívidas, fale em percentagem do PIB.




No ano anterior a Sócrates tomar posse, em 2004, existiam em média 5.122.800 pessoas empregadas em Portugal (5.133.900 no 4T). Face ao crescimento do desemprego e com uma curta recessão económica na memória decidiu acenar com 150.000 empregos. Parece muito. É para uma legislatura. Vejam as taxas de crescimento antes da recessão. É pouco. Acrescentem agora os 8% de desemprego. Nem sequer cobre o crescimento da população activa. Não precisa ir ao forno.

SMS Miguel Morgado

O conselho de educação do estado que elegeu senadora Hillary Clinton há muito retirou dos seus materiais referências a palavras potencialmente ofensivas em campos como a "raça" ou o sexo. O artigo que citas é, nestes termos, claramente ofensivo, e o staff Clinton desde já te informa não ter em consideração o mesmo a não ser que se proceda à seguinte substituição: "it's never over till the fat heavy lady sings"

"Hillary Clinton is finished"


If it's never over till the fat lady sings, then that stately figure is already tuning her vocal cords. And making her ponderous way to the headquarters of Hillary Rodham Clinton. Ms. Clinton is finished. Indeed, she has as much as conceded that fact. She's done so with her usual feistiness, vowing to press forward on three remaining fronts. All these, however, are bound to prove dead ends.

Sócrates na TV


Dizem-me que o Primeiro-Ministro foi entrevistado na SIC.
Não vi. Para quê?
A um ano e meio de eleições, Sócrates só pode ser vítima da sua própria cicuta. E não se ia suicidar em directo.
Entretanto, a oposição inexiste.
No PSD, Menezes e Santana travam um duelo de titãs para impressionar as miúdas. A Somague, perdão, a Bruni está indecisa.
O PP, que começava a ganhar algumas escaramuças no Parlamento, foi atacado pelo "síndrome do Independente", uma paralisia causada pela ansiedade traumática de escândalos semanais.
O Bloco ainda vive em estado de ressaca pela embriagante vitória do aborto. (OK, nem tudo são más notícias.)
O PCP é o único partido que chateia o Governo, mas na rua. A maioria absoluta do PS esvaziou o combate parlamentar à esquerda.
O BCP foi entregue aos socialistas pela mão de Berardo e o CCB foi entregue a Berardo pela mão dos socialistas. A gratidão é uma coisa bonita. A inveja é uma coisa muito feia.
Sócrates na TV? Prefiro o Dr. House.

Da série "A concorrência faz melhor"

Eu bem vos disse para estarmos atentos.

Animais doentes as palavras

1. Auditoria política
É normal ou pelo menos aceitável que uma câmara municipal ou um governo, quando muda de cor partidária, realize uma auditoria. Percebe-se facilmente a razão.
O que já é menos compreensível e menos aceitável é que a direcção do PSD decida fazer o mesmo em relação a direcções anteriores do próprio partido. Um sinal dos tempos que se vivem. Um péssimo sinal.
2. O Tribunal Contas é uma filial da Sonae?
Nesta altura, António-Costa-presidente-da-Câmara-Municipal-de-Lisboa já deve rogar pragas a António-Costa-ministro-da-Administração-Interna. Nesta altura, António-Costa-presidente-da-Câmara-Municipal-de-Lisboa já deve estar muito arrependido de ter deixado de ser António-Costa-ministro-da-Administração-Interna. As eleições autárquicas, entretanto, aproximam-se a uma velocidade vertiginosa. É a vida.
3. Reforçando as credenciais reformistas...

Luís Filipe Menezes continua a desmantelar o peso do Estado... Agora foi a vez do mapa judiciário: «não vamos poder apoiar e acompanhar a proposta do Governo», declarou o líder social-democrata. «Seria a última machadada na esperança de inverter um processo de abandono do interior do país», justificou.
Menezes sabe muito bem onde está o core do eleitorado do PSD. Decidiu jogar pelo seguro. Mais do que tentar ganhar, o que importa verdadeiramente é não perder por muitos em 2009.
4. Psst...
É segredo e, portanto, não digam a ninguém: no «momento próprio», Portugal vai reconhecer a soberania do Kosovo. What else?
5. Cuidado com a asfixia
De acordo, como já se percebeu, com Francisco Teixeira (DE, 20.2.2008: 3).

Terça-feira, 19 de Fevereiro de 2008

Descalçar a Bota

Como era de prever, o Tribunal de Contas chumbou a "proposta de empréstimo" para pagamento de dívidas de curto prazo que o presidente Câmara Municipal de Lisboa, há já uns meses, diz considerar vital para o bom funcionamento da edilidade. A “proposta” em si mesma, segundo o Tribunal, não reunia os requisitos mínimos para ser considerada, quanto mais para ser aprovada. O Sr. Presidente, que chegou a dizer que a sua querida Câmara era “ingovernável” caso não beneficiasse do vital crédito, diz-se agora, e como seria de esperar, “solidário com os credores”. Resta-nos ver como é que esse grande político, para não dizer estadista, que é António Costa, descalça esta bota ou alguém lhe descalça a dita por ele.

«Houve desleixo»

O actual secretário-geral social-democrata, José Ribau Esteves, resume o episódio do donativo indirecto da Somague ao PSD a uma situação de «desleixo». O adjectivo parece-me desajustado. Desleixo, a ter existido, ocorreu na Novodesign/Brandia. No PSD e na Somague não houve nenhum desleixo. Não foi através da consulta das suas contas que se detectou o donativo indirecto.

Assim de repente

Não há nada de que o País precise mais do que a regionalização. É mesmo isso que está a fazer falta.

Que mil Buíças floresçam

Fidel Castro renunciou ao cargo de Presidente do Conselho de Estado de Cuba e, ao que parece, vai entregar o poder ao irmão.
Nunca percebi esta tendência terceiro-mundista para a sucessão hereditária: Coreia, Paquistão, Síria, Iraque, Líbia, Congo...
O que esta canalha monárquica precisava era de um Buíça em cada esquina.

O drama, o horror, a tragédia...


Foto: Sérgio Azenha/Lusa

Animais doentes as palavras

1. O meu país é o outro
Faço minhas as palavras de Pedro Rolo Duarte. O meu Portugal é o outro.
2. Timor
O Conselho de Segurança da ONU discutirá esta semana o prolongamento da UNMIT. Não são esperados obstáculos ao seu prolongamento por mais um ano. A ONU continua a apostar na manutenção de uma força policial internacional e a ignorar a componente militar.
3. Esclarecimento desnecessário
José Sócrates não esclarece se se recandidata. Nem precisa, certo?
Em todo o caso, se alguém tiver dúvidas, pergunte a António Correia de Campos.
4. Portugal e o Kosovo
Luís Amado esclareceu que «segunda-feira, em concertação estreita com a AR, com os partidos da oposição e com o senhor PR» será definida a posição do Governo.
Portugal irá reconhecer o Kosovo «na altura própria» e depois de «ponderadas as circunstâncias», afirmou em Bruxelas o secretário de estado dos Assuntos Europeus, Manuel Lobo Antunes.
Vivemos numa época em que supostamente somos bombardeados com informação e no entanto sabemos muito pouco ou mesmo nada. Repare-se nestas duas declarações. Dão-se alvíssaras a quem souber a partir delas qual é a posição do Governo, ou quais são as circunstâncias que estão a ser ponderadas.
5. Sem conhecimento
José Manuel Durão Barroso não foi primeiro-ministro de Portugal. E se foi não soube de nada.
...desmente Nunes Correia.
7. O cerco em três etapas
O mestre da táctica explica como se manobra em três tempos: I, II e III. Watch and learn.

A vida custa a todos

Caso alguém não tenha reparado, Alemanha, França, Itália e Reino Unido não estiveram com meia medidas e anunciaram unilateralmente que vão reconhecer a soberania do Kosovo. À restante União Europeia, claro, resta-lhe seguir na segunda fila o diktat das grandes potências. Há verdades que são eternas: the strong do what they can and the weak suffer what they must.
Pior. É nestas pequenas coisas que se percebe, de forma cristalina, por que motivo esta construção europeia não pode ser referendada.

Segunda-feira, 18 de Fevereiro de 2008

As maravilhas do poder local reflectidas nas águas das cheias

A sra. Presidente da Câmara de Setúbal teve o atrevimento de dizer a um canal de televisão que provavelmente o caos que hoje reinou em Setúbal teria sido evitado com obras no valor de 10 milhões de euros. Disse ainda que o governo central, friamente surdo a súplicas da Câmara que duravam há vários anos, fugiu às suas responsabilidades, nomeadamente pelo financiamento e execução das mesmas obras. E disse tudo isto com uma ligeira expressão de indignação, evidentemente só possível a quem dedica as horas da sua vida ao combate pelo bom povo trabalhador.
Agora digo eu: 10 milhões de euros seriam, então, suficientes para evitar que Setúbal com triste regularidade se assemelhe ao Bangladesh? Então porque esperam, ou porque esperaram? É preciso rebentar completamente com uma Câmara Municipal com as dimensões da de Setúbal para poder lamentar a ausência de recursos desse tipo para obras tão prioritárias. Bem sei que a CMS está há vários anos mergulhada numa profunda crise financeira. Mas curiosamente nunca faltou dinheiro (e foi muito dinheiro, muito mais do que 10 milhões de euros) para recrutar mais pessoal, construir aberrações com o insinuante propósito de enfeitar a cidade e desenvolver "infraestruturas" para melhorar as condições de vida do generoso povo trabalhador setubalense.
Não se esqueçam deste caso (e de muitos outros casos) quando o PS voltar à carga com a regionalização. Está para breve. É logo a seguir à nova maioria absoluta.

À atenção do sr. Primeiro-Ministro

O sr. Primeiro-Ministro confunde "justiça fiscal" com o despotismo a que serenamente preside. E não se envergonha de assumir a sua pose mais heróica ao justificar a espoliação em curso com a nobre luta pela equidade e pela sociedade fraterna. Uma sugestão, sr. Primeiro-Ministro: verifique em que posição o seu governo, quase desde o seu primeiro dia de funções, deixou a malta que vive dos "recibos verdes". E se me responder que as pessoas dos "recibos verdes" são precisamente as que "fogem" e "surripiam" o dinheiro dos angélicos contribuintes que trabalham por conta de outrem, não respondo por mim. A agressão verbal, pelo menos, será garantida.

Sócrate sacode a água do capote...

... para cima do António Costa. E este fica-se? Por quanto tempo?

Alvaiázare

Alvaiázare é longe, muito longe. De Gaia, de Lisboa, dos tubarões, do deserto. Vá-se lá saber porquê, foi o palco escolhido para Menezes anunciar que não fecha nem mais um serviço público no interior - se lhe dermos o Governo.
O homem devia ir mais a Alvaiázare.
Quando não vai a Alvaiázare, o Estado fica sempre em risco de ser desmantelado em meia dúzia de meses.

A pergunta por fazer

Concordo tanto que só me ocorre outra pergunta: vai o Ministério Público levar a tribunal "alguma daquelas jovens"?
É que, se não leva, então a actual lei é uma hipocrisia etc.

Achtung baby

Absolutamente a ler, a entrevista de Charles Glenn ao Público de hoje.
A melhor coisa que li sobre educação nos últimos tempos.

A ver

Da série "A concorrência faz melhor"

Pedro Mexia sobre John McCain.

Filipe Nunes Vicente sobre o Benfica (ou um dos melhores bloggers portugueses sobre qualquer tema).

Luís M. Jorge sobre a vida que não é breve: "A esquerda tradicional preocupa-se com com um homem se ele for desgraçado. A esquerda moderna preocupa-se com um desgraçado se ele for transsexual."

Portugal profundo

Uma manhã de chuva com forte intensidade e o caos instalou-se de imediato no país. Setúbal, por exemplo, hoje era uma cidade totalmente paralisada, com inundações um pouco por todo o lado e com o trânsito totalmente bloqueado.
Este é o Portugal que empurramos para debaixo do tapete, mas que insiste em não desaparecer: sarjetas que não são limpas a tempo e a horas, ou sistemas de escoamento de águas ineficientes ou inexistentes -- obras que são caras, mas que não dão votos.
Por debaixo da camada de verniz, Portugal também é isto, ou é sobretudo isto. Dezassete governos depois do 25 de Abril, Setúbal, por exemplo, se se conjugar uma forte chuvada com a maré cheia, a baixa da cidade inunda.
O problema, infelizmente, não se resume a Setúbal. Isto é a regra e não a excepção. Basta ver os noticiários.

Animais doentes as palavras

1. Casino
Por quanto mais tempo conseguirá José Manuel Durão Barroso permanecer em silêncio sobre o dossier do Casino de Lisboa?
2. Blog Spot na TV NET
Hoje, às 21:15, João Gonçalves e eu falaremos sobre o Kosovo e o Casino de Lisboa.
3. O luxo do tempo
Quase 10 anos depois do referendo, a Indonésia tem uma influência residual em Timor-Leste. Infelizmente. Timor-Leste continua a ter uma relação desequilibrada no triângulo Díli, Jacarta, Camberra, com as consequências que se sabe. Só o tempo permitirá ultrapassar as feridas do passado. Tempo, infelizmente, é um luxo para Timor-Leste.
4. O voto dos professores
Compreende-se a preocupação de José Sócrates com os professores. Trata-se de uma classe profissional que faz parte do core do eleitorado socialista. Perder o seu voto não é uma opção aceitável.
5. A Rússia e o Kosovo
Está aberta a Caixa de Pandora. Não acredito que a Rússia -- que recentemente divulgou que dera asilo à viúva e ao filho de Slobodan Milosevic -- fique de mãos cruzadas. Não se trata de uma questão menor para Moscovo. Vladimir Putin não pode, pura e simplesmente, tolerar a afronta.
6. Curva e contracurva
Luís Filipe Menezes esclarecia recentemente que queria desmantelar -- não o Estado -- mas sim o peso do Estado em seis meses. No domínio da Saúde desistiu ainda antes de começar...

Domingo, 17 de Fevereiro de 2008

Blowin' in the Wind

Oiço o vento lá fora enquanto assisto à declaração de independência do Kosovo.



(...) Yes, 'n' how many times can a man turn his head,
Pretending he just doesn't see?
The answer, my friend, is blowin' in the wind,
The answer is blowin' in the wind.
Bob Dylan, 1962

Kosovo

Foto: Panorama de Pristina, capital do Kosovo.
Não percebo como é possível que, em Portugal, aqueles que apoiaram incondicionalmente a independência de abortos políticos como a Guiné-Bissau, S. Tomé e Príncipe ou Timor-Leste, tenham hoje tantas dúvidas sobre a bondade da independência do Kosovo. Do Kosovo e, sejamos claros, dos restantes novos Estados saídos da ex. Jugoslávia.

Animais doentes as palavras

1. Novo discurso e novos protagonistas
Uma entrevista lúcida de Paulo Rangel (Público, 17.2.2008: 10-1). Na travessia do deserto em que se encontra o PSD, Rangel é uma das poucas vozes que vale a pena escutar.
2. Festa da democracia
José Sócrates reagiu incomodado aos protestos junto à sede do PS. Valorizou aquilo que não deveria valorizar, independentemente de ter ou não razão.
3. Efeito de contágio
Aníbal Cavaco Silva expressou a sua preocupação perante a hipótese de o Kosovo declarar unilateralmente a independência. Ficou por esclarecer, caso aconteça, o que deve fazer a UE e Portugal em particular: reconhece o novo Estado soberano, ou recusa o fait accompli?
4. Santana, Telmo e o Casino
O jornal Público revela na sua edição de hoje novos dados sobre o processo à volta do Casino. Ninguém me tira da cabeça que isto é o Belmiro a dar ordens ao Zé Manel com o intuito de fazer as pazes com o Sócrates depois de ter perdido a OPA sobre a PT...
5. Carne assada vs. peixe grelhado com ervas aromáticas
A reacção de Marco António Costa à notícia de que Paula Teixeira da Cruz estava a organizar um círculo de reflexão ilustra bem a violência verbal e a intolerância com que os Menezistas reagem a qualquer sinal de dissensão interna. Confesso que não percebo esta intranquilidade da carne assada face aos políticos de gabinete.
6. Os despachos da discórdia
Telmo Correia teria assinado «cerca de três centenas de despachos como ministro do Turismo na madrugada do dia em que o novo executivo, liderado por José Sócrates, foi empossado» (António Arnaldo Mesquita, Público, 3.2.2008: 5).
Telmo Correia afirma que encontrou apenas 18 despachos assinados na véspera da tomada de posse de Sócrates e que enquanto esteve no Governo assinou apenas 55 despachos (TSF, 16.2.2008).
Em suma, há aqui uma divergência profunda entre aquilo que foi noticiado pelo Público e o que Telmo Correia diz que é a verdade. Estou seguro que o Público certamente revisitará esta matéria. De duas uma: ou Telmo Correia está a faltar à verdade, ou alguém enganou deliberadamente o Público. De uma maneira ou de outra, impõe-se um esclarecimento.

Sábado, 16 de Fevereiro de 2008

Animais doentes as palavras

1. No momento
«No momento, e pelas informações que temos, [o reforço da GNR] não se justifica. Não quer dizer que depois nós não revejamos a nossa posição», disse Luís Amado.
Aqui está uma fórmula elegante para dizer que, no quadro bilateral, Portugal não pretende reforçar o contingente da GNR, independentemente da vontade timorense.
2. No espaço de poucos meses...
...os Falcon da Força Aérea mostraram por diversas vezes que a idade e o uso não perdoam. Não fosse a demagogia e os aviões há muito que teriam sido substituídos por aparelhos novos.
3. PIB em 2007
Oito anos consecutivos a divergir dos países da moeda única. Oito! Portugal cresceu 1,9% em 2007. Espanha 3,8%, i.e. o dobro. A zona euro cresceu 2,7%. Motivo para frustração?
Nem pensar nisso. José Sócrates, no País das Maravilhas, considera 1,9% uma «boa notícia» e entende que «a economia portuguesa está no bom caminho».
4. Mas em part-time
Portugal é um «produtor de segurança e estabilidade» na cena internacional, costumam lembrar os titulares da pasta da Defesa. Um dia destes ainda escrevo sobre esta tese, em particular sobre o impacto dos ciclos eleitorais na produção de segurança e estabilidade... O Afeganistão, por exemplo, pode funcionar como caso de estudo.

Sexta-feira, 15 de Fevereiro de 2008

E por falar nisso

E por falar nisso, o Fernando Gabriel e eu passamos hoje às 7 da tarde na rádio, no programa Descubra as Diferenças da Rádio Europa-Lisboa (90.4 FM), a convite de Antonieta Lopes da Costa e do Paulo Pinto Mascarenhas.
Timor, Obama, a Nato e o Afeganistão, o Arcebispo e a sharia - ninguém escapa.
O Fernando parte a loiça toda e eu apanho os cacos.
Repete no Domingo às 11h e às 7.

Liberais e arcebispos

Mão amiga (nem imaginam quem, e eu não digo para não arruinar duas reputações... o quê? querem?... ok, foi a Maria João Pires, do Cinco Dias, mas não contem nada ou ainda lhe partem as rótulas) fez-me chegar o discurso do Arcebispo de Cantuária que está na origem da polémica sobre a sharia. Entretanto, vejo que o João Miranda invoca o precedente dos tribunais judeus em Inglaterra e o Filipe Nunes Vicente lembra que o Islão, como qualquer religião, é "anterior à experiência" para o crente, o que explicaria a supremacia da sharia na vida social.
Vamos por partes.
Os "tribunais judeus" não são um sistema paralelo ao sistema judicial britânico. São tribunais arbitrais, sem competência penal nem civil, que incidem sobre matéria religiosa ou de consciência e aos quais as partes só recorrem de comum acordo. O seu âmbito e autoridade são semelhantes aos do direito canónico das igrejas ou à competênciam disciplinar das ordens profissionais. Retiram dos tribunais conflitos que o direito consuetudinário de um grupo pode resolver de modo mais satisfatório, mas nunca se sobrepõem à lei geral e de modo algum têm uma autoridade que não seja reconhecida pelo Estado. Por exemplo, um divórcio decidido por um "tribunal judeu" só tem efeitos legais se for declarado por um tribunal britânico.
Pretender que a sharia se pode adaptar facilmente a este modelo é uma tremenda ingenuidade. Ou uma tremenda ignorância. Que me desculpem liberais e arcebispos, mas não encontro maneira mais suave de dizer a coisa.
Em primeiro lugar, o Islão, ao contrário do Ocidente, não tem uma distinção clara entre o civil e o religioso. No Ocidente, essa distinção nasce da diferença entre a Igreja cristã e o Império romano. Antes de Igreja e Império se confundirem com a oficialização do Cristianismo no século IV, já o Papa y sus muchachos tinham criado uma hierarquia e um direito exteriores aos do Estado romano. A história do Ocidente é em grande parte a história das relações, muitas vezes tensas, entre essas duas fontes da autoridade. O que não acontece com o Islão, embalado desde o início no berço da política ao difundir não apenas uma religião, mas um império e uma sociedade. A civilização islâmica nasce em bloco da palavra de Alá e da espada do profeta. A origem da autoridade é sempre religiosa ou reveste-se de uma forma religiosa. Nada o mostra melhor que a exibição da fé pelos ditadores muçulmanos, da família real saudita a Saddam e Kadhaffi. Como nota Bernard Lewis, das três grandes línguas do Islão, o árabe, o persa e o turco, só a última tem um sinónimo para a palavra leigo: laïk. Traduzido do francês, obviamente.
Em segundo lugar, convém lembrar que a sharia não é um texto único nem um código secular. É uma interpretação do Corão, fonte de toda a lei humana. O que significa, portanto, que a sharia não depende da jurisprudência pública, como a common law, mas da interpretação que o juiz fizer de um livro sagrado de acordo com o costume em vigor e a sua própria teologia. Além disso, o juiz é também muitas vezes o chefe religioso e político da comunidade. E assim, na prática, estamos a negar aos muçulmanos britânicos os direitos dos cidadãos de uma democracia, porque os entregamos a uma sistema judicial em que não há verdadeiramente separação de poderes, nem supremacia da lei escrita, nem defesa contra a arbitrariedade do juiz. Querendo isentá-los da escolha dramática entre a lealdade à cultura e a lealdade ao Estado, estamos a dar-lhes como única alternativa a lealdade à cultura. Querendo reforçar a integração dos indivíduos, estamos a propor um contrato social à medida de cada grupo. Querendo retirar do gueto, estamos a empurrar para o gueto.
Rowan Williams diz que os muçulmanos britânicos devem ter o direito de optar pela sharia apenas se o desejarem, mantendo a possibilidade de optar pela lei geral. O João Miranda acescenta que a palavra-chave é "escolher".
Mas em que mundo é que eles vivem?
Qual a liberdade de escolha de uma mulher de 20 anos que vive num bairro paquistanês, filha de pais paquistaneses e de casamento marcado com um primo ou um vizinho, sem emprego porque a sua vida será casar e ter filhos, sem outro lugar para onde ir porque não conhece ninguém de fora da comunidade de origem e às vezes sem um domínio mínimo do inglês porque a tiraram da escola assim que possível? Como é que ela vai recorrer à lei geral num caso de divórcio ou de partilhas, se todos os que lhe são próximos se regem agora pela sharia graças às boas intenções dos apóstolos do multiculturalismo e do pluralismo legal? Saberão tais apóstolos que a escolha, que supõem abstractamente feita em perfeita liberdade, representa um corte de vida, o ostracismo da família, o isolamento da comunidade, a morte social e talvez algo mais?
É isso que está em causa: a universalidade dos direitos da pessoa que o Ocidente conquistou ao longo da história. Não é o shador, nem a política do reconhecimento, nem a liberdade de consciência. Com isso podemos nós bem porque isso somos nós.
Não, não encontro maneira mais suave de o dizer. E lamento a dureza de algumas palavras (universalidade, pessoa, Ocidente, conquista, história) que talvez ofendam os arcebispos do multiculturalismo e os papas do fim do Estado. Mas hoje, como sempre, a dureza das palavras é a primeira muralha contra a barbárie.

Animais doentes as palavras

1. Logo existo...
«Até vem na Wikipédia»...
2. Gastão Salsinha...
...nega que tenha existido uma tentativa de assassinar José Ramos-Horta. Não esclarece, porém, o que se passou nessa alvorada.
3. Mourato Nunes...
...explica aos mais desatentos a quem competia a responsabilidade de zelar pela segurança do Presidente da República e Primeiro-Ministro timorenses. Não é por nada, mas convém lembrar o óbvio.
4. Visão desestratégica
Pelo andar da carruagem, até às eleições de 2009, não faltarão notícias comprometedoras sobre os governos de José Manuel Durão Barroso, Pedro Santana Lopes e Paulo Portas. Les jeux sont faits...
5. Luís Amado, Freitas do Amaral e Timor-Leste
A forma como Luís Amado aborda a crise timorense pura e simplesmente não tem qualquer comparação com o modus operandi de Diogo Freitas do Amaral. Ainda bem.

Quinta-feira, 14 de Fevereiro de 2008

Ainda o aborto, por cá. Hoje.

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Animais doentes as palavras

1. Timor, caso de sucesso
Agora estamos aparentemente todos de acordo que a retirada da ONU de Timor-Leste foi precipitada. Veja-se, por exemplo, as declarações de Francesc Vendrell, entre outros. Agora. Em 2003 -- ver aqui, também -- ou em 2004, quando realmente era importante ganhar essa batalha, não me lembro de ter tido no espaço público tanta companhia.
Só espero que mais tarde não estejamos também a discutir o papel da GNR em Timor-Leste, pelas piores razões.
2. Momento de prova
Centenas de pessoas no funeral de Reinado. Muito esclarecedor.

Quarta-feira, 13 de Fevereiro de 2008

B. Obama?

Lamento desiludir os convictos, mas "hope" não é um programa político.

O Tratado de Lisboa e a Concorrência (II)


Como aqui escrevi o Tratado Reformador introduz alterações na moldura jurídica do direito da concorrência europeu, fazendo soar os alarmes anti-proteccionistas. Depois da recente vitória judicial da Comissão Europeia sobre a Microsoft, muitos questionaram se teria sido possível o surgimento, na Europa, de uma empresa como a de Bill Gates, perante as exigências do direito europeu. Avolumam-se as críticas ao intervencionismo e à “burocracia” de Bruxelas que, segundo alguns, estariam a prejudicar o crescimento das empresas, sobretudo em mercados onde as mudanças tecnológicas são mais rápidas do que a mão “pesada” das autoridades comunitárias.

Quero recordar o papel essencial do direito comunitário da concorrência na progressiva abertura e liberalização dos mercados. Foi mesmo um dos factores que tornou possível o milagre económico europeu dos últimos 50 anos, após o Tratado de Roma de 1957. Os tribunais europeus e a própria Comissão foram essenciais em todo este processo.

A Comissária Kroes afirmou que tudo ficou na mesma depois de Lisboa. Formalmente até tem razão, mas é inegável que a força de Bruxelas para aplicar as regras concorrenciais diminuiu com a eliminação da “concorrência efectiva” dos objectivos comunitários. Aguarda-se a reacção dos tribunais comunitários, mas são inegáveis os riscos de uma atitude mais tolerante da Comissão perante os “auxílios de Estado” e menos intervencionista na análise das concentrações comunitárias, abrindo espaço ao “nacionalismo” económico mesmo que disfarçado pelo “estilo Sarkozy”.
[texto completo no Diário Económico]

Animais doentes as palavras

1. Espelho desobediente
Não perdoam. Quem bloga já sabe que os blogues não escondem as suas limitações. Muito pelo contrário, até parece que fazem questão de as evidenciar. Muito claramente, há uma dose importante de masoquismo em blogar.
2. Dúvida existencial
Um blogue deve ser escrito a pensar no autor, no leitor, ou em ambos?
3. Segurança energética
Algumas lições retiradas da recente ameaça de bomba numa plataforma petrolífera.
4. Na lista de futuras aquisições

David L. Perlmutter, Blogwars: The New Political Battleground (Oxford University Press, 2008).
5. Funções do Estado...
...segundo Pedro Passos Coelho: [1] áreas em que o Estado «deve garantir e realizar»: justiça e segurança [2] áreas em que o Estado «tem que assegurar mas não produzir»: saúde, educação e segurança social. (Sobre o mesmo tema, no PSD, ver aqui.)
Às áreas que o Estado deve garantir e realizar, acrescento defesa, diplomacia e muito possivelmente finanças.
6. Barómetro
O funeral de Alfredo Reinado.
7. Tudo no sítio
Ao editorial de Paulo Ferreira, hoje, no jornal Público, não tiro nem acrescento uma vírgula.
8. A tiracolo?
Plenamente de acordo com Paulo Pinto Mascarenhas (Meia Hora, 13.2.2008: 4). Já o disse também e repito: José Sócrates tem muito a ganhar com a 'dissidência controlada' -- à falta de melhor expressão -- de Manuel Alegre.
Uma nota lateral. Quase tudo, para não dizer tudo, me separa de PPM, mas o Paulo sempre deu a cara pelas suas opiniões e o seu percurso político sempre foi assumido. Isso, para mim, conta muito e merece o meu respeito, apesar das inúmeras divergências.
9. Conteúdo, estilo e spin...
«Com a entrada da nova ministra da Saúde não muda o conteúdo da política do Executivo: o que é alterado é o estilo», refere o jornalista Mário Baptista no jornal Diário Económico (13.2.2008: 8).
Pode ser que eu esteja a ver mal a coisa, mas mudar o calendário de implementação do 'conteúdo' não pode ser descrito como uma mera alteração de 'estilo'. Se se altera o calendário por consequência está a alterar-se o conteúdo da política. Isto parece-me muito claro.