Quinta-feira, 31 de Janeiro de 2008

Escrever à esquerda (4)

Tal como referi aqui há dias, há uma esquerda desempoeirada, talvez moderna, mas seguramente irreverente e rebelde, que escreve coisas imensamente interessantes. Tal como haverá uma esquerda desempoeirada, modernaça e irreverentemente rebelde que gosta de as lêr. É uma questão de estilo e uma questão de gosto. E, havendo quem aprecie e assim se aprecie, tudo estará bem...!

Sobras de emails: Romney


Já cansam as referências de Romney ao seu currículo no sector privado, onde foi gestor e CEO de várias empresas. Por ter sido um gestor competente, revindica que tem mais provas dadas do que os seus adversários, quando se trata de prever quem seria um presidente mais capaz. Se foi um bom gestor de empresas, logo será um bom Presidente dos EUA. Em qualquer curso de Economia por esse mundo fora, logo nas primeiríssimas aulas de Introdução à Economia, a criançada aprende que este discurso de Romney padece da chamada "falácia da composição".

Uma correcção

Impõe-se o esclarecimento: Francisco Almeida Leite não está impedido de comentar a vida interna do PSD, como referi erradamente. FAL comenta tudo aquilo que mexe, menos o PSD desde Setembro, mas não está impedido de comentar a vida interna social-democrata. Muito simplesmente não lhe apetece. Apetecia-lhe no passado, mas não lhe apetece agora. Sem saber ler nem escrever, Luís Filipe Menezes, Pedro Santana Lopes e António Cunha Vaz têm muita sorte. É a vida.

McCain

Tal como o Paulo, também assisti ao debate dos Republicanos na CNN. O confronto entre Romney e McCain confirmou as minhas impressões anteriores sobre McCain, Romney e Huckabee. É muito provável que McCain seja o candidato Republicano à presidência, e muito possivelmente o próximo Presidente dos EUA. Mas não deixa de ser curioso que não consiga vencer um único debate perante Romney. E, como já disse há umas semanas, talvez nem precise de o fazer. Há homens assim.

Straight Talk Express Next Stop: White House?

John McCain e Mitt Romney na Ronald Reagan Presidential Library (Foto: Monica Almeida/The New York Times).
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Acabo de assistir a um excelente debate, onde McCain terá sido quem tirou maior partido do confronto. Estava longe de imaginar há um ano atrás que McCain estaria na posição confortável em que se encontra a poucos dias da Super Tuesday. A eleição norte-americana é acompanhada com interesse a nível mundial, por motivos óbvios. Naturalmente, o que mais me interessa são as posições dos candidatos no âmbito da política externa dos Estados Unidos. McCain é um internacionalista, a quem não se conhece especial simpatia por opções de cariz unilateralista, ou pretensões de natureza hegemónica. Usando a grelha de leitura de Walter Russell Mead, pessoalmente situaria McCain na intersecção das escolas Hamiltoniana e Jeffersoniana. Será quase inútil referir que me parece que John McCain é o candidato que mais convém à Europa que seja eleito.

E agora os secretários de Estado...

Segundo a TV Net, Fernando Rocha Andrade e António Castro Guerra vão sair do Governo. Aparentemente, não serão os únicos.

Quarta-feira, 30 de Janeiro de 2008

Quero dizer aos portugueses

«Quero dizer aos portugueses que entendo a mensagem que quiseram dar-nos (...). Quero dizer aos portugueses que recebi e entendi perfeitamente o sinal que nos transmitiram», disse José Manuel Durão Barroso a 13 Junho de 2004. Quinze dias depois anunciou a sua demissão para assumir o cargo de presidente da Comissão Europeia.
Três anos e meio depois, um novo primeiro-ministro, José Sócrates, também compreendeu a mensagem dos portugueses. Acontece que não há nenhum cargo internacional disponível neste momento.
P.S. -- Francisco Mendes da Silva, tal como todos nós, também não percebe muito bem o que é que o primeiro-ministro compreendeu. João Gonçalves prevê mais problemas de compreensão...

Críticas de Alegre e receio de Sócrates: uma leitura complementar

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O post de Pedro Correia a que me refiro é este. Sobre Manuel Alegre, escrevi alguns posts que talvez se justifique a sua repescagem: aqui (1.2006), aqui (2.2006), aqui e aqui (10.2006), aqui e aqui (7.2007).

O desencanto que cresce

De acordo com Vital Moreira, aqui. Não acrescento, nem retiro, uma vírgula. Quanto «ao papel que os interesses da indústria e do comércio farmacêutico» tiveram na queda de António Correia de Campos, Vital Moreira exagera seguramente o seu impacto. Uma outra nota: curiosa a imagem que Vital Moreira começa a passar de José Sócrates, i.e. um primeiro-ministro que deixou de ser capaz de resistir aos lobbies. Primeiro foi a decisão de construir o novo aeroporto de Lisboa em Alcochete e não na Ota. Agora eis que o primeiro-ministro não resiste à pressão e tira o tapete ao ministro da Saúde. Anda muito desencanto no ar. Sócrates há muito que perdeu os gregos. Agora arrisca-se a perder os troianos como Vital Moreira ou como Eduardo Pitta.
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Prosseguindo a ronda pela blogosfera, percebe-se com rapidez o tom geral com que esta remodelação pífia está a ser acolhida. Em bom rigor, não houve remodelação, refere Francisco José Viegas. Há qualquer coisa de errado nesta mini-remodelação, frisa José Medeiros Ferreira. Um grande sinal de fraqueza, nota José Pacheco Pereira. Remodelação de fachada, acentua Francisco Almeida Leite (infelizmente, desde o final de Setembro, impedido de comentar a vida interna do PSD...). Cedência em toda a linha, diz Pedro Sales.
A amostra não é exaustiva e poderia continuar com inúmeros exemplos. Na blogosfera que consulto, não encontro um único post expressando entusiasmo com a remodelação. Se Sócrates pensa que comprou a paz social com a alteração de rostos está muito enganado (como, aliás, Manuel Alegre fez questão de lembrar). Perante a fraqueza demonstrada, os protestos saíram reforçados. Algo me diz que as políticas em curso -- nomeadamente a reestruturação das urgências e o encerramento de SAP -- têm os seus dias contados.

Em Hollywood não se faria melhor



«We are all conscious in this Parliament, or we should be, of the way in which the job of First Lord of the Treasury evolved in Britain, steadily developing a grip over Cabinet Departments previously independent of it, and developing into the post of Prime Minister.The creation of that job took many years—and the Prime Minister probably feels that it took almost as long to get round to his turn to hold it.

But to see how the post of a permanent President of the European Council could evolve is not difficult even for the humblest student of politics, and it is, of course, rumoured that one Tony Blair may now be interested in the job. If that makes us uncomfortable in these benches, just imagine how it will be viewed in Downing street! and I must warn Ministers that having tangled with Tony Blair across the Dispatch Box on literally hundreds of occasions, I know his mind almost as well as they do. I can tell them that when he goes off to a major political conference of a centre-right party and simultaneously refers to himself as a socialist, he is on manoeuvres, and is busily building coalitions as only he can.

And we can all picture the scene at a European Council sometime next year. Picture the face of our poor Prime Minister as the name "Blair" is placed in nomination by one President and Prime Minister after another: the look of utter gloom on his face, the nauseating, glutinous praise oozing from every Head of Government, the rapid revelation of a majority view, agreed behind closed doors when he, as as usually, was excluded. Never would he more regret no longer being in possession of a veto: the famous dropped jaw almost hitting the table, as he realises there is no option but to join in.

And then the awful moment when the motorcade of the President of Europe sweeps into Downing street. The gritted teeth and bitten nails: the Prime Minister emerging from his door with a smile of intolerable anguish; the choking sensation as the words, "Mr President", are forced from his mouth. And then, once in the Cabinet room, the melodrama of, "When will you hand over to me?" all over again.

There is, of course, a serious point to be made. Occupied by someone with the political skill of our former Prime Minister, that post would become, in not so many years, a far more substantial one than the Government pretend. The President would be seen as the president of Europe by the rest of the world, with the role of national Governments steadily reduced and the role of national democracy and accountability steadily weakened. The naivety of Ministers, who think that by signing the treaty they are agreeing to a static constitutional position, is alarming in people with such senior responsibilities» (link)

A felicidade tem destas coisas e os GPS às vezes não ajudam...

A 20 de Dezembro, durante o almoço de Natal com os seus ministros, o primeiro-ministro confidenciou que estava «muito feliz com a equipa» que tinha e que esperava contar «com todos» no início do próximo ano (ver aqui ou aqui).
Moral da história?
A felicidade, como todos sabemos, é um sentimento volátil.
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A prenda maldita
Na altura José Sócrates ofereceu a cada um dos ministros equipamentos de navegação GPS. Resta saber se era suposto utilizar os aparelhos antes ou depois da saída do Governo. Em qualquer dos casos, se eu fosse Ana Jorge ou José António Pinto Ribeiro, até tremia se visse o primeiro-ministro a aproximar-se com um GPS. Quanto aos restantes ministros, a precaução manda que aprendam rapidamente a trabalhar com eles. Quem não souber manter o rumo...

Escrever à esquerda (3)

Há uns tempitos atrás, um jornalista da nossa praça entrevistou Manuela Azevedo, vocalista dos Clã.
Manuela Azevedo não é tema, por si só.
Já a vocalista dos Clã é diferente. É a face mais visível de um grupo musical de qualidade, ou seja, que vende, que é ouvido.
A uma pergunta sobre si própria, a vocalista dos Clã respondeu:
- «Sou do povo e sou artista, logo, sou de esquerda».
Manuela Azevedo não é relevante em termos políticos. Relevante é o que se escreve acerca do que ela diz e o que ela diz para, sobre ela, se escrever.
Sobre o que ela diz, direi que estamos em democracia: há que respeitar.
Sobre o que fundamenta a sua cruz, em momentos eleitorais, há que esperar. Pode ser uma questão geracional, pode passar pela reforma do sistema de ensino ou por uma mera alteração dos lugares-comuns de cada tempo.
A evolução do povo português tem feito um caminho. E as coisas da vida são como são e respostas como as de Manuela Azevedo hão-de ter os dias contados.
Quer os artistas, quer o povo, exigirão mais.
Há de passar por aqui aquilo a que chamamos "Sociedade da Informação".
É uma questão de tempo e, em democracia, também há que saber esperar...

Ajuda quem?

Por uma vez, Menezes acerta: os novos ministros de Sócrates são figuras de segunda linha. Pinto Ribeiro, em especial, tem notória falta de currículo político e até técnico. Só o recomendará para o lugar o facto de ter sido administrador da Fundação Berardo.
Na verdade, Sócrates não podia ter escolhido um peso pesado do PS sem correr alguns riscos - a evitar em vésperas de ida a votos. 2008 e 2009 serão anos de muitas inaugurações à conta do Ministério da Cultura. Se Sócrates entregasse a pasta a alguém como Carrilho, Alegre ou João Soares, poderia estar a alimentar um temível adversário interno no caso de um mau resultado nas próximas legislativas. Optou por um ajudante de corta-fitas (sem ofensa para os nossos vizinhos ).
O nome de Pinto Ribeiro parece também uma tentativa de acalmar Berardo, que provou ser o maior troublemaker do país nos últimos meses. Ou muito me engano, ou ainda deve haver qualquer coisa por negociar na OPA sobre o CCB vulgarmente conhecida por Museu Berardo.
A nomeação de Pinto Ribeiro para a Ajuda será o preço a pagar pelo impossível silêncio do Comendador?

A remodelação que ainda vai no adro, segundo Alegre

Se a remodelação do ministro da Saúde, António Correia de Campos, pretendia apaziguar os críticos da ala esquerda do PS, José Sócrates desiluda-se de imediato. A reacção de Manuel Alegre não poderia ter sido mais clara: «preferia que [em vez da ministra da Cultura] tivesse sido [remodelada] a ministra da Educação». Ou seja, a remodelação, nos termos em que foi feita, não resolveu nada e arrisca-se a agravar ainda mais a situação do Governo.

Não é uma remodelação, mas sim uma recomposição...

«Eu não usaria o termo remodelação, acho que é uma recomposição, a pedido dos próprios, à semelhança de outras que já ocorreram no passado», refere António Vitorino.
Estas declarações parecem tiradas de uma cena cómica: remodelação? Não, recomposição! Vitorino brinca com as palavras e, mais grave, brinca connosco. Como comentador, independente, vale zero.

Terça-feira, 29 de Janeiro de 2008

Arquive-se

Uma notícia que não pode passar despercebida: o Tribunal de Instrução Criminal de Lisboa arquivou a queixa-crime da RTP contra o crítico Eduardo Cintra Torres que acusou a estação de falta de independência face ao poder político. O TIC de Lisboa arquivou também a queixa-crime da RTP contra o director do jornal Público, José Manuel Fernandes. Uma grande bofetada na RTP e na ERC. (Eduardo Cintra Torres comenta, aqui, a decisão do TIC de Lisboa.)

Rumo tremido

Confirma-se que, afinal, a festa da democracia incomoda. Algo me diz que nos próximos tempos voltaremos a ouvir falar em manter o rumo.

A Verdade

A mini-remodelação governamental desta tarde já deitou para o lixo a notícia e a espécie de debate iniciado esta manhã por causa do relatório produzido por uma ONG britânica, e no qual se sublinhava a cumplicidade portuguesa na transferência de prisioneiros (suspeitos de terrorismo), e sob a alçada da CIA, da Europa para a base de Gauntánamo. Não tenho qualquer dúvida de que há muitas verdades no dito relatório. Mas aquilo que se quer é a verdade sobre os factos relatados e muitos outros omitidos. Não é possível, nem desejável, manter esta desconfiança, por mais secretas que sejam as operações em causa. O resto é conversa.

A remodelaçãozinha

Uma tarefa incompleta, sem controlo do tempo político e sem recurso a figuras de primeiro plano do PS. Uma remodelaçãozinha nitidamente de fuga em frente e ao sabor das circunstâncias.
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[Adenda]
Manuel Alegre espera que «não haja apenas uma mudança de rosto, mas uma mudança de políticas para salvaguardar, reforçar e preservar o Serviço Nacional de Saúde».
Pois. Pessoalmente espero que haja apenas uma mudança de rosto e uma manutenção de políticas precisamente para salvaguardar, reforçar e preservar o SNS. Espero que só haja mudança na forma de implementação das políticas.
Não sei que garantias dá a nova ministra da Saúde neste capítulo. Ana Jorge foi apoiante de Manuel Alegre nas últimas presidenciais e não é filiada no PS. Veremos se o lado positivo do trabalho desenvolvido por António Correia de Campos será preservado, ou se a escolha de Ana Jorge representa uma cedência à ala esquerda do PS. Na sua primeira declaração pública a nova ministra afirmou que «acredit[a] na reforma em curso e no Serviço Nacional de Saúde». Nos próximos meses veremos, em concreto, o que isso quer dizer.

E por falar em música


Princípio de conversa


Afinal, a encomenda da ópera de Emmanuel Nunes pelo São Carlos teve um mérito: o de assistirmos ao esboço de um debate, tão necesário como sempre adiado, sobre a sacrossanta política de subsídios à criação artística.
O Público de hoje lança algumas pistas. Rui Nery e António Pinho Vargas, esse par de grunhos neoliberais, questionam que se faça de uma obra cujo valor só pode ser apreciado (e só foi apreciado...) por meia dúzia de especialistas o ponto alto da temporada lírica nacional. Pinho Vargas recorre a uma imagem demolidora: é como transmitir um jogo de xadrez em directo. Repare-se que não se fala em dinheiro nem em estética. O debate começa muito cá atrás: na política. Deverá fazer parte de uma política cultural, qualquer que ela seja, investir assim no subsídio às vanguardas?
A resposta de Mário Vieira de Carvalho, o Secretário de Estado da Cultura politicamente (e, ao que parece, pessoalmente) responsável pela encomenda, é todo um programa. Sim, diz, porque estas iniciativas proporcionam ao grande público "o confronto com o novo".
Vale a pena reler estas cinco palavrinhas. Está aqui resumida a essência das políticas culturais dirigistas que temos tido nos últimos anos, com os resultados que se sabem.
Vieira de Carvalho esquece que o domínio da apreciação estética é, por excelência, o domínio da liberdade individual. Por que carga de água, seja a água de esquerda ou de direita, deve o Governo usar os nossos impostos para "confrontar" os portugueses "com o novo"? Os portugueses, como seria de esperar, não acorreram propriamente em hordas ao apelo da modernidade dispensado pelo erário público. E isso é um direito que lhes assiste.
Se o senhor Secretário de Estado se lembrasse de Steiner ou Tocqueville, outros dois grunhos neoliberais, saberia que o desprezo pela alta cultura é o preço a pagar pela democracia. Um preço que estou disposto a pagar, desde que o Estado forneça os serviços mínimos de salvaguarda do património, incluindo o património musical. Que o Governo não está de modo algum a assegurar. Talvez porque o senhor Secretário de Estado prefira pagar antes o preço de uma ópera. Só para os amigos.

Pausa para Publicidade

O programa de ontem pode ser visto aqui.

A grelha imaculada

José Ramos Horta e Xanana Gusmão não prestam para nada. Como tal, não há nenhuma razão para poupar nos adjectivos. Invertebrado. Pateta. Maluco. Sem vergonha. Indigno. Sem carácter. É nestes termos que Pedro Sales (assessor de imprensa do Bloco de Esquerda, embora no blogue não escreva nessa qualidade, note-se) discute as declarações de cunho político -- sim, podem ser discutíveis, mas são declarações políticas -- dos dois líderes timorenses. Interrogo-me se alguém em Timor, ou em Portugal, passa com nota positiva na sua grelha imaculada de avaliação moral.

Precários são os outros

«Os dados respeitantes a 2006 revelam uma realidade preocupante, mas o quadro de 2007 parece ser ainda pior, adverte investigadora [Nádia Nogueira Simões]. A precarização [do trabalho] parece ter vindo para ficar» (Clara Viana, Público, 26.1.2008).
O trabalho precário continua a aumentar em Portugal, correspondendo já a 20,6% do total da população empregada. Porém, a precariedade de um quinto da população empregada, na verdade, continua a não preocupar a elite política portuguesa. Se a preocupasse, verdadeiramente, o empenho na discussão da flexigurança seria muito diferente.

O que tu queres sei eu...

«Quando ainda falta mais de um ano para o termo da actual legislatura, mais de metade da composição inicial de deputados na Assembleia da República já mudou. De um total de 230 parlamentares eleitos em Fevereiro de 2005, 117 já suspenderam o mandato e 37 abandonaram mesmo o Parlamento» (António Sérgio Azenha, CM, 28.1.2008).
Seria interessante saber quantos deputados portugueses abandonaram o Parlamento europeu desde o último acto eleitoral. O exercício comparativo seria, presumo, muito esclarecedor. Todos sabemos qual é a diferença -- a única, atrevo-me a dizer -- entre a Assembleia da República e o Parlamento Europeu. O descrédito da democracia portuguesa também é feito destes pequenos nadas.

Segunda-feira, 28 de Janeiro de 2008

Do regicídio ao centenário

Enquanto não nos chega pela mão generosa da Atlântico, vale a pena ler a entrevista de Rui Ramos ontem editada pelo Público. O historiador lembra o que a investigação, sobretudo a sua e a de Vasco Pulido Valente, vêm dizendo nos últimos anos: a Primeira República, à espera de festa em 2010, foi o assalto ao poder de um partido minoritário e o uso do Estado contra a maioria. Não foi nem quis ser um regime de "todos os portugueses".
Nada o ilustra melhor do que a diminuição do universo eleitoral. Na monarquia, o voto era censitário, ou seja, votava quem pagava impostos. Na República, o direito de voto foi retirado aos analfabetos, cerca de três quartos da população.
Assim, a chamada República Velha significa um corte histórico com a tradição liberal portuguesa, para o bem e para o mal representada pelas sete décadas de constitucionalismo monárquico. Ao contrário do que ensina a mitologia corrente, a Primeira República não antecipa a democracia, de que a "longa noite do fascismo" seria apenas um intervalo, mas a ditadura do próprio Estado Novo. O quadro histórico em que se movem Afonso Costa e Salazar é o mesmo. A extraordinária violência da política republicana, que contamina o quotidiano do país, abre caminho à violência ordinária e quotidiana do salazarismo, que despolitiza o país. O país, cansado de política, suspirou de alívio. Durante 48 anos.
E pergunta o historiador: em 2010, o que é que vamos comemorar? A ditadura da Primeira República? O fim do regime monárquico? Ou a memória do nosso modesto liberalismo?
A questão não é académica. Em 2010, tudo indica que o PS estará ainda no Governo, com ou sem maioria absoluta. E o PS tem uma forte matriz republicana e jacobina, à qual presta oficial homenagem de tempos a tempos. O jacobinismo não consiste apenas na vontade de enforcar o último rei com as tripas do último padre, como prometiam os carbonários. O jacobinismo consiste em privilegiar a via revolucionária, a redução da política ao conflito, a eliminação do inimigo do espaço público, em nome do progresso. Um progresso que os jacobinos têm o destino cósmico de nos trazer. Aron explica.
É pouco provável que cheguemos ao ponto a que se chegou em Espanha, onde a actual batalha entre o PSOE e a esquerda, de um lado, e a Igreja e a direita, do outro, começou com os 70 anos da Guerra Civil. Não tivemos nenhuma guerra civil, felizmente, e somos de brandos costumes, infelizmente. Mas a tentação de fazer do centenário um pretexto para avançar com "fracturas" e "modernidades" será grande.
Não será talvez a melhor maneira de unir "todos os portugueses".
Resta saber o que será então o PS no Governo.

Venham mais cinco

Enquanto íamos todos de fim-de-semana, o 5 Dias reforçou-se com o que havia de melhor à esquerda. Enfim, não há muito à esquerda do 5 Dias, mas vocês percebem-me.
Destaco as contratações do João Galamba, em boa hora regressado à blogolândia, do Pedro Vieira, aka Irmão Lúcia, e da Shyznogud, que afinal se chama Maria João Pires.
Três nomes que prometem debates inteligentes, bons bonecos (aqui fica o último...) e, acima de tudo, excelentes posts de rugby.
Eis boas razões para continuar a ir lá todos os dias.
Sem ser só para malhar nos do costume, quero eu dizer.

Escrever à esquerda (2)

há um ano atrás deitei fora para aí uns duzentos quilos de tralha lá de casa. voou tudo velhos almanaques disney até o amarrotado viagem ao mundo da droga e quinquilharia à brava desde a colecção de carrinhos da matchbox às velhas fotos de festas do avante.
tornei-me minimalista.
já só tenho na parede um esboço feito por um amigo da esbal e um poster do che. sinto a casa mais arejada e com o despojo próprio de um gajo de que não colecciona merdas inúteis.
sou de esquerda.
ou seja sou arejado sou diferente escrevo o nome todo da malta em minúsculas, digo palavrões sem preconceitos que a vida é como é e falo dela como deve ser. gosto da diferença. a malta sente-se protegida com roupa por cima da pele pois eu gramo praias onde a rapaziada anda com os tintins á mostra que os corpos são como são e a gente deve mostrá-los assim mesmo.
não me refiro a raízes nem ligo a isso raízes é coisa de queques brasonados e a minha raíz sou eu próprio. aliás com a tralha que voou foi uma foto da minha avó toda vestida de negro cabelo apanhado atrás rugas que são marcas do campo e fio de prata com uma medalhinha de uma nossa senhora qualquer. tudo aquilo que eu rejeito.
gosto da modernidade. detesto chefes hierarquias tradições e casamento. gosto de me sentir livre fumar umas ganzas ao som do sérgio e cascar na igreja nos padres e nos meninos da católica de camisinha azul e branca ás riscas e sapatinho de marca.
demoro horas de manhã para conseguir o despenteado ideal e a t-shirt por dentro das calças ou uma gravata agarrada à goela são das cenas com que não atino.
a noite é o bairro alto e às vezes a tasca por baixo de mim onde paro às sete da matina pró café e às sextas à tarde pra meter o euromilhões.
a 24 é cena ricos e eu não os gramo nem pintados.
teria mais pra dizer principalmente nesta cidade onde param tantos betos, filhos de preconceitos burgueses com cheirinho a leite e salões alcatifados mas é perder tempo. ser de esquerda é tar à frente e um gajo moderno não olha pra trás.
ser de esquerda é ser diferente pá. e não é pra todos. vê se fixas, iá?.

Canadá


Diz-se que o Canadá está demasiado próximo dos EUA para ser confundido com a Europa, e demasiado próximo da Europa para ser confundido com os EUA. Ao visitar uma exposição no Museu de Arqueologia e História de Montreal sobre as Revoltas dos anos 30 do século XIX percebi ainda melhor que há muito tempo que o Canadá (o Québec, bem como os restantes Estados) é o resultado nem sempre coerente de uma mistura única no mundo. As Revoltas foram o conjunto de combates e motins levados a cabo pela população francófona contra os Lealistas anglófonos com o propósito inicial de repor uma certa equidade na vida política do Baixo Canadá, mas que, com a amargura da luta, acabou por deslizar para uma autêntica guerra (perdida) de independência.

No Museu estava exposta a Declaração (Republicana) da Independência do Baixo Canadá (hoje, Québec), redigida por Robert Nelson. Trata-se de uma combinação curiosa da Declaração americana de Independência e da retórica da Revolução francesa, como não podia deixar de ser. O Canadá actual resulta dessa mistura. Resta saber como as imensas vagas de imigração dos últimos 30 anos interpretarão esta combinação tão particular.

Pausa para Publicidade

Hoje, às 21.15, juntamente com João Gonçalves, vou estar em directo por aqui.

Quem regula o regulador?

A crise no BCP veio colocar em cheque os reguladores financeiros nacionais: Banco de Portugal e CMVM. Ao contrário dos políticos, legitimados pelo voto, os reguladores baseiam a sua autoridade na competência técnica e “independência” dos seus quadros dirigentes. Quando estas qualidades são questionadas, e não sendo possível o veredicto das eleições, a substituição dos seus responsáveis pode tornar-se conveniente, mas esbarra na inamovibilidade legal dos dirigentes das autoridades reguladoras ditas "independentes". Um outro problema pode estar no facto de que quem fiscaliza -Assembleia da República, o regulador dos reguladores- nem sempre estar em sintonia com o Governo que nomeia.

Escrito nas estrelas

Faits-divers e mais faits-divers. Soundbytes e mais soundbytes. É fácil resumir o rumo do PSD nos últimos quatro meses. Um PSD sem rumo, sem capacidade para marcar a agenda e sem crédito político. Só os crentes acreditarão que este PSD poderá vir a ser uma alternativa ao PS em 2009. O problema nem está na falta de propostas. Luís Filipe Menezes poderia ter -- mas não tem... -- as melhores propostas do mundo para apresentar aos portugueses que julgo que não faria grande diferença. Pura e simplesmente, falta-lhe o principal ingrediente na fórmula de sucesso de um político: a confiança do eleitorado. António Cunha Vaz poderia colocar «dois ou três activos» em cada lar português que isso não faria qualquer diferença.

Domingo, 27 de Janeiro de 2008

ASAE, a nova PIDE...

Ontem, no Sul, numa coisa ruidosa do que ainda é o PSD, o dr. Bota, insigne anti-fascista, equiparou a ASAE à PIDE. Espantosamente, o homem não foi expulso lá do sítio por manifesta indecência. Aplaudiram até em transporte furioso.
...
Depois de recuperada a respiração, que dizer desta coisa?... Comparar facínoras encartados, que se dedicavam a roubar livros, espancar e torturar, a criaturas que verificam alvarás de tabernas e fiscalizam bolas-de-Berlim e arroz de cabidela é, para já, um insulto às vítimas da ditadura. E uma falta de respeito para com as suas famílias.
Para lá disso, esta é uma daquelas burrices (sem ofensa para com os simpáticos bichos) que só servem o adversário. O engenheiro Sócrates abocanhou logo a oportunidade. Lá veio ele, carpindo o escândalo, esbracejar indignadíssimo (como sempre, de resto) contra o ataque à sua ASAE - esse organismo civilizador do Estado. Generosamente, aproveitou logo, do alto do púlpito socialista, para nos educar um bocadinho: é a lei que nos dá a liberdade, filosofou. E, como é um homem equilibrado, também se atirou, com a sua habitual doçura fraterna, à "esquerda" do PS, ao seu camarada Alegre.
Enfim, Sócrates só pode pedir a todos os deuses que lhe mantenham este PSD.

O seu desejo é uma ordem

Caro João Villalobos, naturalmente agradeço o seu interesse na minha opinião. Estava com receio de tocar no assunto, pois não queria que ficasse erradamente no ar a ideia de que a agenda dos media é ditada por bloggers de serviço. Ou por agências de comunicação, permito-me acrescentar. (Algo despropositadamente lembrei-me de umas afirmações, não muito distantes, de Fernando Lima.) Adiante. Tendo clara consciência de que a agenda dos media é ditada apenas pelo factor notícia, actualidade, notoriedade e interesse público, permito-me lembrar que agora só falta saber notícias sobre a alegada ameaça de morte aos filhos de Helena Lopes da Costa. É o que me ocorre dizer, de forma escorreita, por agora.

One size fits all

«A participação de Portugal em missões de paz é determinada pela avaliação dos interesses e das prioridades nacionais, no quadro de uma nova doutrina de intervenção que deixou de ser motivada, exclusivamente, por factores históricos ou de proximidade geográfica e passou a pautar-se por critérios de segurança regional e internacional. É neste contexto que, enquanto Estado membro da União Europeia e da Aliança Atlântica, Portugal assume as suas responsabilidades como um produtor de segurança internacional.»
«Portugal no Chade: um dever humanitário», Nuno Severiano Teixeira (Público, 25.1.2008: 45).
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Digamos que sim, sem mais demoras, para simplificar a questão. Agora expliquem-me uma coisa, se conseguirem. À luz deste template, genérico, por que motivo vamos para o Chade ao mesmo tempo que reduzimos consideravelmente a nossa participação no Afeganistão? Qual foi a avaliação que foi feita dos interesses e prioridades nacionais que ditou o downgrade da nossa presença no Afeganistão? A dimensão do contingente é irrelevante, desde que permita afirmar que assumimos as nossas responsabilidades? Estaremos mesmo a assumir as nossas responsabilidades enviando para o Chade um C-130 e pouco mais?
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Não será seguramente através do PSD que teremos respostas para estas e para outras perguntas. Afinal, como frisou António Martins da Cruz, os sociais-democratas «não tem divergências» com o Governo em matéria de política externa. Há ministros da Defesa e dos Negócios Estrangeiros com muita sorte.

Portugal e o Terrorismo: Reanálise, precisa-se

Sete dos 14 alegados membros de uma célula terrorista baseada em Barcelona, que foi desmantelada há uma semana pelas autoridades espanholas, estiveram em Portugal em 2006 e 2007 no âmbito de encontros religiosos (Carlos Varela/JN, 27.1.2008).
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Hoje é um dia tão bom como qualquer outro para repensar algumas ideias estabelecidas sobre a relação de Portugal com o terrorismo transnacional. Destaco duas. A primeira é a de que somos apenas «um local perigoso de trânsito, de apoio» para falsificação de documentos, descanso e movimentos financeiros, como refere José Manuel Anes, vice-presidente do OSCOT.
A segunda é a de que pelo facto de a comunidade muçulmana ser pouco numerosa e «est[ar] bem integrada» em Portugal estamos relativamente protegidos de um eventual atentado terrorista, como nota Helena Rego do SIS.
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A célula terrorista de Barcelona, como facilmente se percebe, colocou estes dois pressupostos em causa.

Sinal dos Tempos

A ler, «a novela venezuelana», por José Pacheco Pereira e, «a arte de mentir», por António Barreto. Uma pequena nota na sequência do texto de Barreto. Fala-se cada vez mais no facto de o jornalismo se estar a transformar numa commodity. Vejo este passo com preocupação, na medida em que se trata de um nivelamento por baixo. Voltamos sempre ao mesmo, i.e. à Trilogia dos 3Q.

Sábado, 26 de Janeiro de 2008

Passar das märchen

Das Märchen, a polémica ópera de Emmanuel Nunes encomendada pelo São Carlos, estreou ontem à noite com pompa, circunstância e transmissão directa para a Casa da Música e dezena e meia de teatros por esse país fora. A bem, já se sabe, da "descentralização da cultura".
Dizem as más línguas que o atraso de um ano na entrega da encomenda levou à demissão de Paolo Pinamonti, incomodado com o silêncio do Secretário de Estado da Cultura Mário Vieira de Carvalho. Não sei se sim ou se não, e não me interessa muito. Nunes está longe de ser uma das minhas preocupações melómanas. Como, aliás, parece estar longe de ser para a esmagadora maioria dos portugueses. Segundo o Diário de Notícias de hoje, no Porto assistiram à transmissão 165 pessoas, em Coimbra cerca de 150, em Beja 83 e em Leiria 25. No Funchal, a lotação do Teatro Baltazar Dias esgotou, mas o DN omite qual a lotação do Teatro Baltazar Dias. Ah, e que os bilhetes eram de graça. A bem da "descentralização da cultura", suponho.
Não tenho mais dados, mas o que eu gostava de saber é o custo total da operação, incluindo a encomenda. Não porque, como diz o João Gonçalves, ainda haja em Portugal gente que morre à espera de uma ambulância.
Nem vou por aí. Basta-me ficar pela política cultural socrática. A temporada do São Carlos começou em Dezembro (não é gralha, é mesmo Dezembro) e logo, por azar, com um Rigoletto arrasado pela crítica.
E para quê? Para a "estreia mundial" de uma ópera vista em ecrã panorâmico por meio milhar de compatriotas nas berças.
O nosso provincianismo é infinito.

Allí hay mucha gente preparada

«"¿Por qué vamos a atacar en el metro de Barcelona y no en otro lado?", preguntó el suicida a su compañero de martirio, uno de los paquistaníes. "Porque si atacamos el metro los servicios de urgencia no pueden llegar. Nuestra preferencia son los transportes públicos, especialmente el metro", contestó al instante este último.»Regresso a este assunto: «el testigo protegido (...) ha revelado que el grupo lo integraban seis suicidas, entre los que se encontraba él mismo, y preparaba una oleada de tres ataques en España, uno en Alemania y otros en Francia, Portugal y Reino Unido. (...) Allí [Alemania, Francia, Portugal y Reino Unido] hay mucha gente preparada", aseguró uno de los jefes de la célula al testigo protegido» (El País online, 26.1.2007).
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Em Portugal andamos a brincar com fogo, de forma descuidada e despudorada. No contexto pós-11 de Setembro, em que as premissas de segurança mudaram, quase diria por completo, ter serviços de informações que não podem legalmente fazer escutas é, no mínimo, ridículo e um sinal de profunda inconsciência. Como é possível?

Esta vida são dois dias e o Carnaval são três

Num lago ou num charco nunca há apenas uma ...

E pur si muove!

É a vida. Há novas realidades no panorama comunicacional que são tão óbvias que a sua negação constitui um esforço inglório. Por diversas razões, há quem insista nas aparências. E no entanto...

Não é nada divertido...

...o que se está a passar no PSD, assevera Filipe Nunes Vicente. Cum jocus est verus, jocus est malus atque severus.

Sexta-feira, 25 de Janeiro de 2008

Policy Review

Derek Chollet e Tod Lindberg, «A Moral Core for U.S. Foreign Policy: Is idealism dead?» e Mark Gould, «Religion Within Reason: Pope Benedict’s Critique of Islam».

Faça Você Mesmo

Um eventual Governo de Luís Filipe Menezes teria um organograma que seria fantástico. Depois da brilhante proposta de um possível ministro do Turismo e da Presidência, como nota Francisco José Viegas, agora seguiu-se a sugestão de um ministro da Administração Interna e da Justiça.
Permitindo-me meter a minha colherada nesta prova de tiro aos pratos -- Francisco José Viegas só por modéstia seguramente é que não deu também uns tirinhos --, não queria deixar de sugerir um ministro da Agricultura e das Finanças, ou um ministro da Saúde e da Cultura. As hipóteses, como está bom de ver, são inúmeras e os leitores poderão também testar a sua imaginação.
Conhecemos este filme. Sabemos como ele termina.

Também tu, Brutus?

Luís Paixão Martins entende que Pedro Santana Lopes teria muito a ganhar em ter consultores de comunicação. Admito que sim, mas confesso que me lembrei logo da fábula da rã e do escorpião. Isto dito, continuando no mesmo tema, por vezes surgem exemplos da mais elementar inocência -- ou de optimismo? -- onde menos se espera. Estão sentados?
Então anotem: Vasco Pulido Valente (VPV) -- existe alguém menos provável? -- admite a possibilidade de o 'menino guerreiro' estar a crescer. Sim, leram bem. Quando VPV revela semelhante candura, definitivamente o mundo está perigoso.

Blogletter

As Blasfémias são eternas. O que muda é a origem. Agora aqui.
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[Adenda]
José Pimentel Teixeira também mudou de residência. A vivenda continua a chamar-se Ma-Schamba, mas a rua mudou. Agora aqui.

Quando o mundo fala de nós

Laurinda Alves vai mais uma vez direitinha às coisas que contam no nosso dia-a-dia.
Refiro-me ao que escreve hoje, no Público (P2), acerca da saga das barreiras arquitectónicas. Ela, como eu, sabe o que é acompanhar momentos do quotidiano de alguém com especiais dificuldades de mobilidade.
Esta é uma das questões que, sendo parte integrante do nosso mundo, é daquelas que mais mal nos deixam. A todos. Principalmente pela facilidade com que tantas das inultrapassáveis barreiras tão facilmente se anulariam.
Já não faz sentido que a ausência de uma rampa, por exemplo, impeça a presença autónoma de alguém num velório, num teatro, numa universidade, num serviço da Administração Pública...
Há por aqui uma notória falta de intervenção por parte de quem pode intervir e de falta de exigência por parte de quem pode influenciar.
Lembro Bergson, quando dizia que "homem completo é aquele que age como homem de pensamento e pensa como homem de acção".
Todos nós sentimos que ainda há muito por fazer. E isso pode significar, tão somente, atentarmos hoje mesmo nos "pequenos degraus" que, por vezes, se tornam montanhas. E agir.

O New York Times Apoia Clinton e McCain

E Giuliani não é poupado...

Estamos de acordo?

No longo percurso rumo à última fronteira, a que se deveria chegar em 2009, a caravana foi alvo de uma primeira escaramuça ao fim de pouco mais de 100 dias. Coisa sem importância, está bom de ver, mas os visados optaram por reagir de forma desproporcionada e intempestiva. Sem que o impacto da emboscada o justificasse, os seus alvos pararam a marcha e colocaram as carroças em círculo. Perante tão ostensiva manobra defensiva, os adversários sentiram-se feridos no seu brio e na obrigação de salvar as aparências. Foram disparados alguns tiros, quase que nem se dava por eles, tal foi a falta de convicção e de vontade de acertar. Afinal, nem as forças atacantes estavam ainda na sua máxima força, muito longe disso, nem o desgaste se fez ainda sentir entre os membros da caravana. Acresce que o terreno actual não é propício a emboscadas bem sucedidas, tal como não é despiciendo o facto de a última fronteira estar ainda muito distante. Isto dito, com a aceleração do tempo, a verdade é que se gerou o impasse. Os atacantes não podem recuar e a caravana não pode retomar a marcha. Esperemos que a intervenção dos elementos permita desbloquear o impasse. A situação ainda precisa de amadurecer mais.

Quantos são? Quantos são?

«Os interesses instalados no centralismo do poder, dentro e fora do PSD, não intimidam», frisou Luís Filipe Menezes.

E a ACIME/ACIDI não faz nada?

«Não deixamos de dizer o que pensamos. Não dizemos as coisas por meias palavras, utilizamos terminologias fortes nos momentos indicados. Podem procurar deturpar o que dizemos, mas os portugueses sabem que o PSD é permanentemente perseguido, marginalizado», referiu Luís Filipe Menezes.

Agora compreende?

A política, não é novidade para ninguém, dá muitas voltas. A memória, porém, permite-nos ir detectando as flutuações e as incongruências de acordo com as circunstâncias. Não deixa de ter a sua graça ver o deputado do CDS/PP, Nuno Magalhães, dizer: «com mais este pacto [sobre o SISI], os portugueses ficam a saber que o PS e o PSD ofendem-se em público e entendem-se em privado. É o pacto da Justiça com os resultados que se vêem, é o pacto para não haver referendo ao tratado europeu e agora este pacto que servirá para sufragar uma política errada do Governo em matéria de segurança interna».
De facto, mudam-se os tempos, mudam-se as vontades. Quando José Ribeiro e Castro era líder do partido a argumentação era outra. Recordo as palavras de Telmo Correia na altura a propósito do pacto da Justiça: «não compreendo por que é que o CDS foi completamente ignorado e excluído do processo».
Aposto que agora, como que por milagre, Telmo Correia compreende muito facilmente por que é que o CDS/PP foi completamente ignorado e excluído do processo de negociação relativo à legislação sobre o SISI...

Quinta-feira, 24 de Janeiro de 2008

Berlusconi - Prodi - ?

Aconteça o que acontecer, uma coisa é certa: o recorde de permanência de Berlusconi ainda não é desta vez que vai ser batido. Na Itália, há coisas que custam a mudar.

System Change or More of the Same

Conversations with History: «System Change or More of the Same», Stephen D. Krasner entrevistado por Harry Kreisler, Institute of International Studies/University of California at Berkeley (58:16, 22.1.2008).

Ferguson

Já que mencionei Niall Ferguson, e como o homem dá 3 entrevistas por dia, pensei que não fazia mal se indicasse mais uma aos leitores do Cachimbo de Magritte. Aqui vai, sobre a globalização no pré-1914 e no pós 11/9, 2001.

História "Virtual" em português

Aparentemente, Rui Ramos é o Niall Ferguson lusitano, com esta inclinação para a chamada "história virtual" ou "contrafactual".

E olhando bem, com um bocadinho de boa-vontade, até se pode dizer que são parecidos...

Funções do Estado (I de II)

Segundo Mário Patinha Antão, Portugal deveria «olhar para as funções do Estado e identificar as que podem ser operadas pelo sector privado», por «parcerias ou concursos». O PSD vai defender a «redução das funções do Estado» propondo, por exemplo, que as empresas que «produzam determinado serviço público absorvam o respectivo quadro público» (DE, 1.10.2007).
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Luís Filipe Menezes insistiu na necessidade de se «definir as fronteiras» das funções do Estado (TSF, 18.10.2007).
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«O Estado deve sair do ambiente, das comunicações, dos transportes, dos portos, e na prestação do Estado Social deve contractualizar com os privados e acabar com o monopólio na saúde, educação e segurança social», respondeu Luís Filipe Menezes (Expresso, 22.12.2007).
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«As funções do Estado são um ponto essencial» da alternativa política a apresentar pelo PSD, salientou Pedro Santana Lopes (Público online, 15.1.2008).
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E, já agora, a terminar, um texto provocatório: «Outsourcing champion Stephen Goldsmith examines the question of whether governments really have ‘inherent’ or ‘core’ functions».

Portugal é a Ajuda e o resto é paisagem?

O Ministério da Cultura continua alegremente a sua política de fachada. Enquanto se prepara para construir de raiz um novo Museu dos Coches em Lisboa, obra de urgência mais que discutível, as ruínas da villa romana de São Cucufate, em Vila de Frades, e a igreja barroca de Nossa Senhora dos Prazeres, em Beja (por sinal restaurada há alguns meses), continuam fechadas ao público.
Motivo? O antigo IPPAR não renovou os contratos à meia dúzia de técnicos e vigilantes que aí trabalhavam. Por falta de verba, claro está.

São dois casos no Alentejo, mas estou certo que se repetem um pouco por todo o país. O não prolongamento dos contratos, em nome da bendita racionalização administrativa, atingiu dezenas de arqueólogos, especialistas e contínuos de serviço aos monumentos nacionais.

Sim, o Museu dos Coches é o mais visitado da capital e talvez mereça um outro espaço. Mas não haverá prioridades, digamos assim, mais prioritárias?
Ou deixar monumentos ao abandono na província faz parte da política cultural do Governo - porque estão longe, niguém vê e não dão votos?

Ainda o partido "católico"

Nos comentários ao meu post sobre o eventual novo partido, o Pedro Sá sugere que a religião não teria importância nenhuma no caso. Não foi isso o que eu quis dizer. A religião tem naturalmente importância na opção política dos crentes. Só não tem para quem não dá importância à religião. Ou à política. O que eu quis dizer é que não será o único elemento importante. Nem a fé católica chega para sustentar um projecto político, nem um projecto político sobrevive só com os votos dos católicos. Como diriam os irmãos Marx, um partido que nasce apenas dos interesses de um grupo, mesmo que seja o meu, não merece o meu apoio. Um partido nasce porque tem um programa de governo para todos. Ora, há muitas escolhas políticas que transcendem a fé, se assim posso dizer. Qual seria a posição de um partido "católico" sobre o novo aeroporto? Ou sobre a descida de impostos? Ou sobre o fecho das maternidades no interior? Ou sobre o modelo de gestão dos museus nacionais? And so on.
Eis o principal argumento contra um partido de inspiração católica. Só admito essa hipótese se estiver em risco a liberdade dos católicos, sobretudo em cinco aspectos decisivos: a liberdade de culto, a liberdade de associação, a liberdade de expressão, a liberdade de ensino e a liberdade de eleger e ser eleito.
A primeira está hoje assegurada em Portugal, graças a Deus e ao fim da República do dr. Afonso Costa.
A segunda, a terceira e a quarta estarão em risco se as não exercermos, abandonando ao Estado e aos adversários da Igreja o que são direitos de todos os cidadãos e de todas as comunidades religiosas. Apenas temos que pedir aos partidos da lista que as defendam. A resposta dos partidos a esta exigência, sem a qual não existe verdadeira democracia, deveria ser um dos critérios do sentido de voto.
Quanto à última, a coisa fia muitíssimo mais fino. É certo que ainda não temos um Rocco Buttiglione, impedido de ser Comissário Europeu da Justiça por ser coerente com a sua fé na condenação moral (sublinho moral) da homossexualidade. Mas um católico terá hoje grandes dificuldades em fazer carreira partidária se se pronunciar contra a actual lei do aborto ou outras medidas fracturantes. Contudo, parece-me um erro estratégico meter os católicos no mesmo partido quando, por outro lado, exigimos a liberdade de ir a votos por qualquer partido ou de votar em qualquer partido.
Tudo somado, as tais questões fracturantes não são mais do que uma das variáveis do voto católico. E talvez nem sejam a maior. Está por provar que um partido "católico" defendesse melhor o "não" ao aborto do que o fizeram - admiravelmente - os movimentos apartidários. Aliás, seria interessante ver quantos dos que agora suspiram por um partido "católico" foram à luta no ano passado. Para não ir mais longe.

Notícias Sobre o Futuro

Hoje é dia de notícias sobre acontecimentos futuros. O Governo compromete-se a reduzir substancialmente os prazos de pagamento aos seus fornecedores e a OIT garante que com "as turbulências da economia mundial" o desemprego atingirá 5 milhões de almas. Mas tudo começou ontem quando se noticiou que a Câmara Municipal de Lisboa vai anular a permuta de terrenos feita com a "Bragaparques" o que inclui os espaços antes ocupados pela Feira Popular e pelo Parque Mayer. A astrologia é uma coisa fascinante!

Estalinegrado - "Too cold to cry"

Há 65 anos, aproximava-se o desfecho dessa imensa tragédia humana que foi a batalha de Estalinegrado. Foi junto ao Volga, e poucas semanas mais tarde em Kursk, que Hitler finalmente caíu. Se hoje celebramos a data com alívio e alegria, é talvez difícil imaginar o que as notícias de Estalinegrado significaram para os milhões de pessoas que, nesses anos, sentiam o peso esmagador do jugo alemão. De Estalinegrado vinha a esperança, a promessa de que o reino das trevas não viera para ficar.

Mas foram tempos terríveis para os soldados alemães cercados pelo Exército Vermelho. O sofrimento dos alemães foi precisamente o tema de um filme de Joseph Vilsmaier, Stalingrad (de 1993). O filme termina com uma cena de absoluta miséria e desespero. São estas as últimas deixas de um soldado alemão que vê morrer nos seus braços o camarada, ambos perdidos na estepe gelada da Rússia.

- The best thing about the cold is... you feel nothing. Everything freezes. It's too cold to cry.

- Get out of here, Fritz. I mean it. Go!

- The best thing about the cold is... You don't have to worry about sunburn. Ever been to the desert? You'd hate it. It's so hot... you're always... sweating. You think you're melting, like butter. The desert is shit. Except for the stars. They're so close... You know?